Discurso no Parlamento Espanhol

Clara Campoamor

1 de Outubro de 1931


Fonte: Mujeres en Red. Publicado 1º de outubro de 2006. Descarregado em 13 de março de 2008.

Tradução: Pedro Feilke.

HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: Licencia Reconocimiento-NoComercial-CompartirIgual 2.5 de Creative Commons, por Mujeres en Red, 2006.


Senhores deputados: Longe de mim querer censurar ou criticar as manifestações de minha colega, senhorita Kent, compreendo, pelo contrário, a tortura de seu espírito ao se ver em transe de negar a capacidade inicial da mulher. Creio que deve ter passado por sua cabeça, de alguma forma, a amarga frase de Anatole France quando nos fala daqueles socialistas que, forçados pela necessidade, iam ao Parlamento para legislar contra os seus.

Em relação à série de afirmações que foram feitas essa tarde contra o voto da mulher, eu digo, com toda a consideração necessária, que não estão apoiadas na realidade. Tomemos algumas dela como exemplo. E quando as mulheres se levantaram para protestar contra a guerra no Marrocos? Primeiro: e por que não os homens? Segundo: quem protestou e se levantou em Zaragoza quando da guerra de Cuba mais que as mulheres? Quem nutriu a manifestação pró responsabilidade do Ateneo, por causa do desastre de Annual, mais que as mulheres, que iam em maior número que os homens?

As mulheres! Como pode se dizer que quando as mulheres dão sinais de vida pela República será concedido a elas como prêmio o direito de votar? Não foram as mulheres que lutaram pela República? Quando falamos elogiosamente das mulheres obreiras e das mulheres universitárias não estamos cantando sua capacidade? Além disso, ao falar das mulheres obreiras e universitárias, irão ser ignoradas todas as que não pertencem a uma classe nem a outra? Não sofrem estas as conseqüências da legislação? Não pagam os impostos para sustentar o Estado da mesma forma que as outras e os homens? Não recai sobre elas toda a conseqüência da legislação que se elabora aqui para os dois sexos, porém, somente dirigida e clarificada por um? Como pode se dizer que a mulher não lutou e que necessita de um período, largos anos de República, para demonstrar sua capacidade? E por que não os homens? Por que o homem, com o advento da República, tem seus direitos e põe em um leproso os da mulher?

Porém, ademais, senhores deputados, vós que votastes pela República, e em quem votaram os republicanos, pensais um momento e dizeis se votaram sozinhos, se votaram somente em homens. Não está ausente do voto a mulher? Pois então, se afirmais que a mulher não influi em nada na vida política do homem, estais –veja bem- afirmando sua personalidade, afirmando a resistência em acatá-los. E é em nome dessa personalidade, que com vossa repulsa reconheces e declaras, por que fecha as portas à mulher em matéria eleitoral? Eles têm o direito de fazer isso? Não; têm o direito que vos foi dado pela lei, que se baseia no respeito a todo ser humano, e o que vós deveis fazer é ter o poder, deixar que a mulher se manifeste e vereis como não poderão seguir tendo esse poder.

Não se trata aqui esta questão desde o ponto de vista do princípio, que está muito claro, e em vossas consciências repercute, que é um problema de ética, de pura ética reconhecer à mulher, ser humano, todos seus direitos, porque já desde Fitche, em 1796, se aceita, em princípio também, o postulado de que somente aquele que não considera a mulher um ser humano é capaz de afirmar que todos os direitos do homem e do cidadão não devem ser os mesmos para a mulher e para o homem. E no Parlamento francês, em 1848, Victor Considerant se levantou para dizer que uma Constituição que concede o voto ao mendigo, ao doméstico e ao analfabeto – que na Espanha existe — não pode negá-lo à mulher. Não é desde o ponto de vista do princípio, é desde o temor que aqui foi exposto, fora do âmbito do princípio — coisa dolorosa para um advogado —, que se pode vir a discutir que o direito de voto da mulher seja reconhecido na Constituição. E desde o ponto de vista prático, utilitário, de que acusais a mulher? De ignorância? Pois eu não posso, por mais ofensivas que sejam as estatísticas, deixar de me referir a um estudo do senhor Luzuriaga a respeito do analfabetismo na Espanha.

Faz ele um estudo cíclico desde 1868 até o ano de 1910, nada mais, porque as estatísticas vão muito lentamente e não outras na Espanha. E sabeis o que diz esta estatística? Pois diz que, tomando os números globais no ciclo de 1860 a 1910, observa-se que embora o número total de analfabetos homens, longe de diminuir, aumentou em 73.082, o da mulher analfabeta diminuiu em 48.098; e referindo-se à proporcionalidade do analfabetismo na população global, a diminuição dos valores é somente de 12,7 por cento, enquanto que nas mulheres é de 20,2 por cento. Isto quer dizer simplesmente que a diminuição do analfabetismo é mais rápida nas mulheres que nos homens, e que continuando este processo de diminuição nos dois sexos, não só chegarão a alcançar as mulheres o nível de cultura elementar dos homens, como irão ultrapassá-los. Isso em 1910. E desde 1910 tem seguido a curva ascendente, e a mulher, hoje em dia, é menos analfabeta que o homem. Não é, portanto, desde o ponto de vista da ignorância que se pode negar à mulher a obtenção deste direito.

Outra coisa, ademais, ao homem que vota. Não esqueceis que não sois filhos de homem somente, mas que se reúne em vós o produto dos dois sexos. Na minha ausência e lendo o diário de sessões, pude ver no dia que um doutor falava aqui que não havia equação possível e, com espírito herdado de Moebius e Aristóteles, declarava a incapacidade da mulher.

Quanto a isso, um só argumento, ainda que não queiras e se por acaso admitirdes a incapacidade feminina, votais com a metade de vosso ser incapaz. Eu e todas as mulheres a quem represento queremos votar com nossa metade masculina, porque não há degeneração de sexos, porque todos somos filhos de homem e mulher e recebemos por igual as duas partes do nosso ser, argumento que desenvolveram os biólogos. Somos produtos de dois seres; não há incapacidade possível de vós a mim, nem de mim a vós.

Desconhecer isto é negar a realidade evidente. Negais se quereis; sois livres para isso, porém somente em virtude de um direito que haveis (perdoai-me a palavra, que digo somente por sua claridade e não com espírito agressivo) possuído, porque vós mesmos criastes as leis; porém não é porque tens o direito natural para por uma margem sobre a mulher.

Eu, senhores deputados, me sinto cidadã antes que mulher, e considero que seria um profundo erro político deixar a mulher à margem deste direito, a mulher que espera e confia em vós, a mulher que, como ocorreu com outras novas forças na revolução francesa, será indiscutivelmente uma nova força que se incorpora ao direito e não deveis fazer nada senão empurrá-la para que siga seu caminho.

Não deixeis que a mulher, se é regressiva, pense que sua esperança esteve na ditadura; não deixeis que a mulher pensem, se é avançada, que sua esperança de igualdade está no comunismo. Não cometeis, senhores deputados, esse erro político de gravíssimas conseqüências. Salvais a República, ajudais a República atraindo e somando essa força que espera ansiosa o momento de vossa redenção.

Cada um fala em virtude de uma experiência e eu vos falo em nome de minha própria. Eu sou deputada pela província de Madri; recorro a ela, não só no cumprimento de meu dever, mas também por carinho, e muitas vezes, sempre, eu vi que nos atos públicos aparecia uma participação feminina muito superior à masculina, e eu vi nos olhos destas mulheres a esperança de redenção, vi o desejo de ajudar à República, vi a paixão e a emoção que põem em seus ideais. A mulher espanhola espera hoje da República a sua redenção e a redenção de seu filho. No cometeis um erro histórico que não terás nunca tempo suficiente para chorar; que não terás nunca tempo suficiente para chorar ou deixar à margem da República a mulher, que representa uma nova força, uma força jovem; que foram simpáticas e apoiaram os homens que estavam presos; que sofreram em muitos casos como vós mesmos, e que está ansiosa, aplicando-se a si mesma a frase de Humboldt de que a única maneira de amadurecer para o exercício da liberdade e de fazê-la acessível a todos é caminhar dentro dela.

Senhores deputados, pronunciei minhas últimas palavras neste debate. Perdoai-me se os incomodei, considero que é minha convicção que fala; que ante um ideal o defenderia até a morte; que poria, como disse antes, a cabeça e o coração no prato da balança, do mesmo modo que Breno colocou sua espada, para que se incline em favor do voto da mulher, e que além disso sigo pensando, e não por vaidade, e sim por íntima convicção, que nada como eu serve nestes momentos à República espanhola.

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Inclusão 12/05/2009
Última alteração 03/09/2011