Os Condenados da Terra

Frantz Fanon


Prefácio de Jean-Paul Sartre


capa

Não há muito tempo, a terra estava povoada por dois biliões de habitantes, isto é, quinhentos milhões de homens e mil e quinhentos milhões de indígenas. Os primeiros dispunham do Verbo, os outros tomavam-no por empréstimo. Entre aqueles e estes, reizinhos vendidos, senhores feudais, uma falsa burguesia forjada de uma só peça, serviam de intermediários. Nas colónias, a verdade aparecia nua; as «metrópoles» preferiam-na vestida; era necessário que os indígenas a amassem. Como às mães, em certo sentido. A elite europeia dedicou-se a fabricar uma elite indígena; seleccionaram-se adolescentes, marcaram-lhes na fronte, com ferro em brasa, os princípios da cultura ocidental, introduziram-lhes na boca mordaças sonoras, grandes palavras pastosas que se colavam nos dentes; depois de uma breve passagem pela metrópole, regressavam ao seu país falsificados. Essas mentiras viventes já nada tinham que dizer a seus irmãos; eram um eco. Desde Paris, Londres, Amsterdão, nós lançávamos palavras: «Pártenon! Fraternidade!» e em qualquer parte da África ou da Ásia outros lábios se abriam: «...tenon! ...nidade!» Era a Idade do Ouro.

Tudo se acabou: as bocas abriram-se sós; as vozes, amarelas e negras, continuavam a falar do nosso humanismo, mas apenas para censurar a nossa desumanidade.

Nós escutávamos sem desgosto essas corteses expressões de amargura. Em princípio, com orgulhosa admiração: Como? Eles falam sozinhos? Vede, pois, o que temos feito deles! Não duvidámos de que aceitassem o nosso ideal, pois que nos acusavam de não sermos fiéis; a Europa acreditou na nossa missão: havia helenizado os asiáticos, criado essa espécie nova, os negros greco-latinos. E dissemos, entre nós, com sentido prático: deixá-los gritar, porque isso os acalma; cão que ladra não morde.

Mas veio outra geração que removeu o problema. Seus escritores, seus poetas, com uma incrível paciência, trataram de nos explicar que os nossos valores não se ajustavam à verdade da sua vida, que não podiam rejeitá-los inteiramente nem assimilá-los. O que queria dizer mais ou menos isto: vocês converteram-nos em monstros, o vosso humanismo pretende mostrar-nos que somos universais e as vossas práticas racistas particularizam-nos. Nós escutámo-los, muito tranquilos: aos administradores coloniais não se paga para que leiam Hegel, por isso o lêem pouco, mas não precisam deste filósofo para saber que as consciências infelizes se enredam em contradições. A eficácia é nula. Perpetuemos, pois, a sua infelicidade, ela não surgirá senão do vento. Se existisse, diziam os práticos, a sombra de qualquer reivindicação nos seus lamentos, seria a da integração. Não se tratava de a outorgar, bem entendido: arruinava-se desse modo o sistema que se baseia, como se sabe, na sobrexploração. Mas bastaria fazê-los acreditar no embuste: iriam atrás de nós. E quanto a revoltarem-se, estamos também muito tranquilos: Qual o indígena consciente que mataria os bons filhos da Europa com o único fim de se converter em europeu como eles? Enfim, alimentávamos essa melancolia e não nos parecia errado, pelo menos uma vez, outorgar o prémio Goncourt a um negro: isto acontecia antes de 1939.

1961. Escutem:

«Não se perca o tempo em ladainhas, nem em mimetismos nauseabundos. Abandonemos essa Europa que não deixa de falar do homem ao mesmo tempo que o assassina onde quer que o encontre, em todas as esquinas das suas próprias ruas, em todos os pontos do mundo. Há séculos... que em nome de uma falsa «aventura espiritual» se sufoca quase toda a humanidade».

O tom é novo. Quem se atreve a usá-lo? Um africano, homem do Terceiro Mundo, ex-colonizado. Acrescenta:

«A Europa adquiriu uma velocidade louca, desordenada... que vai abrindo um abismo onde se afunda cada vez mais».

Por outras palavras: está perdida. Uma verdade que ninguém gosta de dizer — não é isso, meus caros europeus? —, mas de que todos estamos convencidos.

Há que fazer, porém, uma reserva. Quando um francês, por exemplo, diz a outros franceses: «Estamos perdidos» — o que, pelo que sei, ocorre quase todos os dias desde 1930 —, trata-se de uma frase emotiva, inflamada de coragem e de amor, na qual o orador se inclui a si mesmo com os seus compatriotas. E, depois, geralmente acrescenta: «A menos que...» Todos sabem do que se trata: não se pode cometer mais nenhum erro; se essas recomendações não são seguidas à letra, então, e somente nessa altura, o país se desintegrará. Em resumo: é uma ameaça seguida de um conselho e essas ideias chocam muito mais, porque são o reflexo da inter-subjectividade nacional. Quando Fanon, ao contrário, disse que a Europa se precipita na sua perdição, longe de lançar um grito de alarme, fez um diagnóstico. Este médico não pretende condená-la sem recurso — outros milagres são conhecidos —, nem dar-lhe os meios para se curar; verifica que ela agoniza. Olhando de fora, baseia-se nos sintomas que pôde captar.

E quanto a curá-la, não: ele tem outras preocupações; que a Europa morra ou sobreviva, ele não se importa. Por isso, o seu livro é escandaloso. E se vocês murmuram, um pouco ofendidos e espantados: «Que coisas nos diz!», o verdadeiro sentido desse escândalo escapa-vos: porque Fanon não lhes «diz» absolutamente nada; a sua obra — tão ardente para outros — permanece sem sentido para vós; e, embora com frequência ela fale em vós, nunca vos fala realmente. Acabaram-se os Goncourt negros e os Nobel amarelos: não voltará a época dos colonizados laureados. Um ex-indígena de «língua francesa» adapta essa língua a novas exigências, utiliza-a para se dirigir unicamente aos colonizados: «Indígenas de todos os países subdesenvolvidos, uni-vos!» Que decadência a nossa: para os nossos pais, éramos os únicos interlocutores; os filhos não nos consideram sequer interlocutores válidos: nós somos os objectos do discurso. Claro que Fanon menciona de passagem os nossos crimes famosos, Sétif, Hanói, Madagáscar, mas não se preocupa em condená-los: utiliza-os. Se descobre as tácticas do colonialismo, o jogo complexo das relações que unem e opõem os colonos aos «metropolitanos», faz isso para os seus irmãos, a sua finalidade é a de ensiná-los a derrotar-nos.

Numa palavra, o Terceiro Mundo descobre-se e expressa-se através dessa voz. Já se sabe que ele é homogéneo e que ainda se encontram dentro desse mundo povos submetidos, outros que adquiriram uma falsa independência, alguns que lutam para conquistar a sua soberania e outros que, não tendo atingido ainda a plena liberdade, vivem debaixo da ameaça de uma agressão imperialista. Essas diferenças nasceram na história colonial, quer dizer, na opressão. Aqui, a Metrópole contentou-se em pagar a alguns feudais; acolá, com o lema de «dividir para vencer», fabricou de uma só peça uma burguesia de colonizados; noutro lado, ela deu um forte golpe: a colónia é o tempo da exploração e do povoamento. Assim, a Europa fomentou as divisões, as oposições, forjou classes e racismos, tentou por todos os meios provocar e aumentar a estratificação das sociedades colonizadas. Fanon não oculta nada: para lutar contra nós, a antiga colónia deve lutar contra si mesma. Ou melhor, ambas as lutas são apenas uma. No fogo do combate, todas as barreiras interiores devem desaparecer, a impotência burguesa dos negociantes e de compradores, o proletariado urbano, sempre privilegiado, o lumpen-proletariat dos bairros pobres, todos devem alinhar na mesma posição das massas rurais, verdadeira fonte do exército nacional e revolucionário; nessas regiões, cujo desenvolvimento foi sufocado deliberadamente pelo colonialismo, o campesinato, quando se revolta, aparece imediatamente como a classe radical: conhece a verdadeira opressão, sofreu muito mais que os trabalhadores das cidades e, para não morrer de fome, necessita de derrubar todas as estruturas. Se triunfa, a revolução nacional será socialista; se consegue sufocar-se o seu ímpeto, se a burguesia colonizada toma o poder, o novo estado, apesar de uma soberania aparente, tomba nas mãos dos imperialistas. O exemplo de Catanga ilustra isso muito bem. Assim, pois, a unidade do Terceiro Mundo não está feita: é uma empresa em vias de realizar-se, que se há-de dar, em cada país, antes ou depois da independência, pela união de todos os colonizados debaixo do mando da classe campesina. Isto é o que Fanon explica aos seus irmãos da África, da Ásia, da América Latina: realizaremos todos juntos e em qualquer parte o socialismo revolucionário ou seremos derrotados um a um pelos nossos antigos tiranos. Não oculta nada, nem as fraquezas, nem as discórdias, nem as mistificações. Aqui, o movimento tem um mau começo; acolá, depois de brilhantes êxitos, perde velocidade, noutro lado detém-se; so se quer agarrar será necessário que os camponeses lancem ao mar a sua burguesia. O leitor é seriamente avisado contra as alienações mais perigosas: o dirigente, o culto da personalidade, a cultura ocidental e, igualmente, o regresso ao passado da cultura africana: a verdadeira cultura é a Revolução, o que quer dizer que ela se forja vivamente. Fanon fala em voz alta; nós, os europeus, podemos escutá-lo: a prova é que têm este livro em vossas mãos; não teme que as potências coloniais tirem proveito da sua sinceridade?

Não. Não teme nada. Os nossos procedimentos estão antiquados: pode demorar ocasionalmente a emancipação, mas não a deterão nunca. E não devemos pensar na modificação dos nossos métodos: o neo-colonialismo, esse sonho indolente das metrópoles, não é mais do que ar; as «Terceiras Forças» não existem ou são formadas pelas bourgeoisies-bidons que o colonialismo colocou no poder. O nosso maquiavelismo tem pouca influência sobre esse mundo, já muito esclarecido, que foi descobrindo as nossas mentiras. O colono não tem mais do que um recurso: a força, quando ele se mantém; ao indígena não lhe resta outra alternativa: a servidão ou a soberania. Que pode importar a Fanon que se leia ou não a sua obra? É aos seus irmãos que ele denuncia as nossas velhas malícias, certo de que não temos outra solução. A eles, diz-lhes: a Europa instalou-se nos nossos continentes, é necessário, pois, que a façamos retirar; o momento é-nos favorável: não acontece nada em Bizerta, em Elisabethville, no campo argelino, sem que o mundo inteiro seja informado; os blocos assumem posições contrárias, respeitam-se mutuamente, aproveitemos essa paralisia, entremos na história e que a nossa irrupção seja universal pela primeira vez; lutemos: na falta de outras armas, bastará termos o necessário sangue-frio.

Europeus, abram este livro, penetrem nele. Depois de alguns passos na noite, encontrarão alguns seres estranhos em redor do fogo, aproximem-se e escutem: discutem a sorte que reservam às vossas feitorias, aos mercenários que as defendem. Eles darão conta da vossa presença, mas continuarão a falar entre si, sem sequer baixar o tom de voz. Essa indiferença fere muito fundo: os vossos pais, sombras escuras, vossas sombras, eram almas mortas, ofereciam-lhe a vida, não falavam senão a vocês e ninguém se ocupava em responder a esses zombis. Os filhos ignoram-vos: ilumina-os e acalenta-os um fogo que não é o vosso e vos faz sentir furtivos, taciturnos, perplexos: a cada um compete o seu dever; das trevas de onde vai surgir outra aurora, os zombis sois vós.

Nesse caso, dirão, atiremos este livro pela janela. Para que o havemos de ler, se não está escrito para nós? Por dois motivos: o primeiro, porque Fanon explica aos seus irmãos como somos e mostra-lhes o mecanismo das nossas alienações. Aproveitem, pois, para revelar a si mesmos a vossa verdade de objectos. Nossas vítimas conhecem-nos pelas suas feridas e pelas algemas: isso torna o seu testemunho irrefutável. Basta que nos mostrem o que temos feito delas para que nos conheçamos a nós próprios. Será útil? Sim, porque a Europa está em perigo de morte. Mas, dirão, nós vivemos na metrópole e reprovamos todos os excessos. Não são colonos, é verdade, mas não valem mais do que eles. São os vossos pioneiros, enviados para as regiões do ultramar, que vos fizeram enriquecer; claro, foram prevenidos: se fizessem correr muito sangue, seriam desautorizados contra vontade. Do mesmo modo, um estado — qualquer que seja — mantém no estrangeiro uma turba de agitadores, de provocadores e de espiões e desautoriza-os quando os surpreende em falta. Vocês, tão liberais, tão humanos, que levam ao preciosismo o amor pela cultura, parecem esquecer que têm colónias e que nelas se mata em vosso nome. Fanon revela aos seus camaradas — a alguns deles, sobretudo, que estão um pouco ocidentalizados— a solidariedade dos «metropolitanos» com os seus agentes coloniais. Tenham, portanto, a coragem de o ler, porque essa leitura vos envergonhará e a vergonha, como disse Marx, é um sentimento revolucionário. Como vêem, eu também não posso desligar-me dessa ilusão subjectiva. E, por isso, também lhes digo: «Tudo está perdido, a menos que...». Como europeu, apodero-me do livro de um inimigo e converto-o num meio para curar a Europa. Aproveitemo-lo.

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Eis aqui a segunda razão: se desprezam as tagarelices fascistas de Sorel, compreenderão que Fanon é o primeiro depois de Engels que volta a fazer luz sobre a História. E não creiam que um temperamento muito activo ou uma infância desgraçada o levaram ao gosto singular pela violência: simplesmente, converte-se no intérprete da situação, nada mais. Mas isto basta para que constitua, etapa por etapa, a dialéctica que a hipocrisia liberal nos escondeu e produziu em nós o mesmo que nele.

No século passado, a burguesia tomava os operários como invejosos e desregrados por grosseiros apetites, mas preocupava-se por integrar esses seres brutais na nossa espécie: não os considerando como homens e livres, como poderiam eles vender livremente a força do seu trabalho? Em França e na Inglaterra, o humanismo afirma-se universal.

Com o trabalho forçado, sucede o contrário. Não há contrato. Apesar disso, é necessário intimidar; a opressão resulta de forma evidente. Os nossos soldados, no ultramar, negam o universalismo metropolitano, aplicam ao género humano o numerus clausus: como ninguém pode despojar o seu semelhante sem cometer qualquer crime, sem o submeter ou matar, colocam como princípio que o colonizado não é o semelhante do homem. A nossa força de choque recebeu a missão de converter em realidade esta abstracta certeza: ordena-se e reduz-se os habitantes do território anexado ao nível de macacos superiores, para justificar que o colono os trate como bestas. A violência colonial não se propõe apenas manter, em atitude respeitosa, os homens submetidos, trata também de os desumanizar. Nada será poupado para liquidar as suas tradições, para substituir as suas línguas pelas nossas; o cansaço, claro, embrutecê-los-á. E se resistem ainda, fatigados e doentes, a tarefa será cumprida até ao fim: apontam estouvadamente sobre os camponeses as espingardas; vêm civis que se instalam em sua terra e os obrigam, ao peso do chicote, a cultivá-la para eles. Se resiste, os soldados disparam, um homem é morto; se cede e se degrada, deixa de ser um homem; a vergonha e o medo quebram o seu carácter e desintegram a sua pessoa. Tudo se faz a toque de caixa, por peritos: os «serviços psicológicos» não datam de hoje. Nem a lavagem do cérebro. E, apesar de todos os esforços, não se alcança o fim em nenhum lado. E eu não duvido que seja impossível converter um homem em besta: apenas afirmo que nada se consegue se o mesmo não for debilitado consideràvelmente; não bastam as ameaças, é necessário violentar a sua compleição física. É o mal da servidão: quando se domestica um membro da nossa espécie, diminui-se o seu rendimento e, por pouco que se lhe dê, um homem de curral acaba por custar mais do que aquilo que produz. Por essa razão, os colonos vêem-se obrigados a deixar em meio a sua tarefa de domesticação: o resultado, nem homem, nem besta, é o indígena. Espancada, subalimentado, enfermo, temeroso, mas somente até certo ponto, tem sempre, quer seja amarelo, negro ou branco, os mesmos rasgos de carácter: é preguiçoso, fingido e ladrão, vive de qualquer coisa e apenas conhece a força.

Pobre colono: a sua contradição vê-se nua. Deveria, como faz o génio, segundo se diz, matar aquele que captura. Mas isso não é possível. Não faz falta porventura que os explore? Por não poder levar a matança até ao genocídio e a servidão até ao embrutecimento animal, perde o «controle», a operação inverte-se, uma implacável lógica o levará à descolonização.

Mas não imediatamente. Primeiro, reina o europeu: já está derrotado, embora não dê conta disso; não sabe que os indígenas são falsos indígenas; faz-lhes ver que o mal existe neles próprios; no fim de três gerações, os seus maus instintos não ressurgirão. Quais instintos? Os que levam o escravo a matar o amo? Como não reconhece a sua própria crueldade dirigida agora contra si mesmo? Como não reconhece na selvageria desses camponeses oprimidos a selvageria do colono que a absorveu por todas as formas e dela se não curou? A razão é simples: esse personagem imperial, enlouquecido pela sua omnipotência e pelo receio de a perder, já não se recorda de que foi um homem: agarra-se ao chicote ou à espingarda; acreditou que a domesticação das «raças inferiores» se consegue através do condicionamento dos seus reflexos. Não toma em linha de conta a memória humana, as recordações inesquecíveis; e, sobretudo, há algo mais que ele nunca quis saber: apenas nos convertemos no que somos mediante a negação íntima e radical do que fizeram de nós. Três gerações? Desde a segunda, apenas abriram os olhos os filhos viram como espancavam seus pais. Em termos de psiquiatria, estão «traumatizados». Para toda a vida. Mas essas agressões cometidas sem parar, longe de o levar a submeter-se situam o europeu numa contradição insuportável que, cedo ou tarde, pagará. Depois disso, mesmo que se lhe ensine a vergonha, a dor e a fome, não se provocará em seus corpos senão uma raiva vulcânica, cuja força é igual à da pressão que se exerce sobre eles. Diziam vocês que somente conheciam a força? É certo. Primeiro, será a do colono e depois, claro, a sua própria: quer dizer, a mesma que incide sobre nós próprios como reflexo que, do fundo de um espelho, se encaminha para nós. Não se iludam; por essa louca manha, por essa bílis e esse fel, pelo constante desejo de nos quererem matar, pela contracção permanente dos seus fortes músculos, eles são homens: pelo colono que os quer escravos e contra ele. Então, cego, abstracto, o ódio é o seu único tesouro: o amo provoca-o, porque quer embrutecê-lo, mas não chega a esgotá-lo porque os seus interesses o detêm; assim, os falsos indígenas são então humanos, pelo poder e a impotência, que se transformam, neles próprios, numa recusa obstinada da condição de animal. O resto, já sabemos; em certo sentido, são perigosos: é a sabotagem. Fingidos, ladrões. Claro! Seus pequenos furtos marcam o começo de uma resistência um pouco desorganizada. Isso não chega: mas há os que se lançam de mãos vazias contra as armas; são os seus heróis; outros, tornam-se homens depois de assassinarem europeus. Se alguém os mata: bandidos e mártires, o seu sacrifício exalta as massas aterrorizadas.

Aterrorizadas, sim: nesse momento, a agressão colonial entranha-se como terror nos colonizados. Não me refiro somente ao medo que experimentam perante os nossos inesgotáveis meios de opressão mas também ao que lhes inspira o seu próprio furor. Encontram-se encurralados entre as armas que lhes apontamos e esses tremendos impulsos, esses desejos de matar que surgem do fundo do seu coração e que nem sempre reconhecem: porque não é em princípio a sua violência, é a nossa, invertida, que cresce e os despedaça; e o primeiro movimento desses oprimidos é esconder profundamente essa inconfessável cólera, reprovada pela sua moral e pela nossa e que não é, portanto, senão o último reduto da sua humanidade. Leiam Fanon: compreenderão que, no momento de impotência, a loucura homicida é o inconsciente colectivo dos colonizados.

Essa fúria reprimida, ao estalar, gira em redor e enraivece os próprios oprimidos. Para libertar-se dela, acabam por se matar entre si: as tribos lutam umas contra as outras na falta, claro, de poderem enfrentar o verdadeiro inimigo — e, naturalmente, a política colonial fomenta as suas rivalidades; o irmão, ao levantar o cutelo contra seu irmão, pensa destruir de uma vez por todas a imagem odiada do comum envilecimento. Mas essas vítimas expiatórias não apaziguam a sua sede de sangue; não evitarão lançar-se contra as metralhadoras senão fazendo-se nossos cúmplices: eles mesmos vão acelerar a evolução dessa desumanização que repelam. Debaixo do olhar enganoso do colono, protegeram-se contra si próprios com barreiras sobrenaturais, reanimando antigos mitos terríveis ou amarrando-se a ritos meticulosos: assim, a inquietação evade a sua exigência profunda, infligindo-se manias que o ocupam a todo o instante. Dançam: isso é a sua ocupação; desembaraçam os seus músculos dolorosamente contraídos e, além disso, a dança dissimula, secretamente, o «não» que não podem dizer, os assassinatos que não se atrevem a praticar. Em certas regiões utilizam este último recurso: o estado de possesso. O que antes era acto religioso na sua simplicidade, certa comunicação do fiel com o sagrado, convertem-no numa arma contra a desesperança e a humilhação: os zars, as loas, os santos descem sobre eles, governam a sua violência e levam-na até ao esgotamento. Ao mesmo tempo, esses altos personagens dão-lhes protecção: isto quer dizer que os colonizados defendem-se da alienação colonial acrescentando-lhe a alienação religiosa. O único resultado, no fim de contas, é que acumulam ambas as alienações e cada uma se reforça a si mesma ainda mais. Assim, como em certas psicoses, cansados de serem todos os dias insultados, acreditam que algum dia escutarão a voz de um anjo que os saúda; as máculas não se apagam, é verdade: daqui em diante, alternarão com a alegria. É uma defesa e o final da sua aventura: a pessoa está dissociada, o doente encaminha-se para a demência. Há que acrescentar, no caso de alguns infelizes rigorosamente escolhidos, esse outro estado de possesso de que atrás se falou: a cultura ocidental. Em seu lugar, dirão, eu preferiria os meus zars à Acrópole. Bom, isso quer dizer que compreenderam. Mas não inteiramente, claro, porque vocês não se encontram no lugar deles. Também não. De outra maneira, saberiam que eles não podem escolher: acumulam. Dois mundos, ou melhor, dois estados de possesso: ou bailam toda a noite ou penetram nas igrejas ao alvorecer para ouvir missa; dia a dia, a grilheta dói mais. O nosso inimigo atraiçoa os seus irmãos e faz-se nosso cúmplice; seus irmãos fazem o mesmo. A condição do indígena é uma neurose introduzida e mantida pelo colono entre os colonizados, com o seu consentimento.

Reclamar e negar, ao mesmo tempo, a condição humana: a contradição é explosiva. E todos sabemos bem como explode. Vivemos na época da deflagração: basta que ao aumento dos nascimentos se acrescente a miséria, que os recém-nascidos tenham que temer a vida um pouco mais que a morte, e a torrente da violência rompe todas as barreiras. Na Argélia, mata-se à vista os europeus. É o momento do boomeramg, o terceiro tempo da violência: volta-se contra nós, atinge-nos e, como de costume, não compreendemos que é a nossa. Os «liberais» ficam confusos: reconhecem que não eram bastante corteses com os indígenas, que teria sido mais justo e mais prudente outorgar-lhes certos direitos na medida do possível; não pediam outra coisa senão que fossem admitidos por direito e sem padrinhos nesse clube tão fechado, a nossa espécie: e é aqui que esse ímpeto bárbaro e louco não os respeita de modo diferente como aos maus colonos. A esquerda metropolitana sente-se ofendida: conhece a verdadeira sorte dos indígenas, a opressão sem piedade de que são vítimás e não condena a sua rebeldia, sabendo que se tem feito tudo para a provocar. De qualquer modo, pensa, há limites: esses guerrilleros deveriam esforçar-se por se mostrarem cavalheirescos; seria o melhor meio de provar que são homens. Às vezes, repreendem-nos: «Vocês vão demasiado longe, não vos apoiaremos mais.» Não lhes importa; porque serve o apoio que lhes convém, já podem fazer com ele o que mais lhes agrada. Desde que começou a guerra, compreenderam essa rigorosa verdade: todos valemos o que somos, todos nos temos aproveitado deles, não têm que provar nada, não farão distinções com ninguém. Um só dever, um único objectivo: expulsar o colonialismo por todos os meios. E os mais conscientes entre nós estariam dispostos, em rigor, a admiti-lo, mas não podem deixar de ver nessa prova de força o meio inumano que os sub-homens assumiram para conseguir que se lhes outorgue uma carta de humanidade: se lhes conceda, o mais depressa possível e que tratem logo, por meios pacíficos, de a merecer. As nossas belas almas são racistas.

Servir-nos-á bem a leitura de Fanon; essa violência irreprimível, demonstra-o plenamente, não é uma absurda tempestade nem a ressurreição de instintos selvagens, nem sequer um efeito do ressentimento: é o próprio homem que se reintegra. Essa verdade, parece-me, temo-la conhecido e esquecido: nenhum doçura apagará os sinais da violência; só a violência os pode destruir. E o colonizado cura-se da neurose colonial expulsando o colono com as armas. Quando a sua ira estala, recupera a transparência perdida, conhece-se na própria medida em que se faz; de longe, consideramos a sua guerra como o triunfo da barbárie; mas procede por si mesma à emancipação progressiva do combatente, liquida nela e fora dela, progressivamente, as trevas coloniais. Desde que começa, é uma guerra sem piedade. Continua aterrorizado ou toma-se um ser terrível; quer dizer: abandona-se às dissociações de uma vida falseada ou conquista a unidade nacional. Quando os camponeses recebem armas, os velhos mitos morrem, as proibições desaparecem uma por uma; a arma de um combatente é a sua humanidade. Porque, nos primeiros momentos da rebelião, há que matar: matar um europeu é matar dois pássaros de um só tiro, suprimir para sempre um opressor e um oprimido: tombam um homem morto e um homem livre; o sobrevivente, pela primeira vez, sente um solo nacional debaixo dos seus pés. Nesse instante, a nação não se afasta dele: encontra-se em qualquer sítio para onde vá ou onde esteja — nunca mais longe, ela confunde-se com a sua liberdade. Mas, após a primeira surpresa, o exército nacional reage: é necessário unir-se ou fazer matar. As discórdias tribais atenuam-se, tendem a desaparecer; primeiro, porque põem em perigo a Revolução e, mais profundamente, porque elas não teriam outra finalidade senão fazer derivar a violência contra os falsos inimigos. Quando elas persistem — como no Congo — é porque são alimentadas pelos agentes do colonialismo. A nação põe-se em marcha: para cada irmão estão em qualquer lado onde combatam outros irmãos. O seu amor fraternal é o contrário do ódio que vos têm: são irmãos porque cada um deles matou ou pode matar em qualquer momento. Fanon mostra aos seus leitores os limites da «espontaneidade», a necessidade e os perigos da «organização». Mas, qualquer que seja a importância da tarefa, em cada passo se desenvolve a consciência social. Os últimos complexos desaparecem: que nos falem do «complexo de dependência» no soldado da A. L. N.(1). Libertado dos seus antolhos, o camponês toma consciência das suas necessidades: eles matavam, mas ele fazia por os ignorar; agora, descobre-os como exigências infinitas. Nesta violência popular, para se manter por cinco anos, oito anos, como fizeram os argelinos, as necessidades militares, sociais e políticas não podem distinguir-se. A guerra — ainda que se coloque apenas a questão do comando e das responsabilidades — institui novas estruturas que serão as primeiras instituições da paz. Eis aqui, pois, o homem instaurado nas novas tradições, filhas futuras de um horrível presente, eis aqui legitimado por um direito que vai nascer, que nasce cada dia no próprio fogo: com o último colono morto, reembarcado ou assimilado, a espécie minoritária desaparece e cede o seu lugar à fraternidade socialista. E isto não chega: esse combatente destrói as etapas; pensam que ele não arrisca a sua pele para se encontrar ao nível do velho «metropolitano». Tem muita paciência: talvez sonhe por vezes com um novo Dien-Bien-Phu; mas, na realidade, não conta com isso: é um mendigo que luta, na sua miséria, contra os ricos fortemente armados. Esperando as vitórias decisivas e muitas vezes sem esperar nada, atormenta os seus adversários até os exacerbar. Isto não se faz sem perdas espantosas; o exército colonial volta-se feroz: quadrilhas, ratissages, concentrações, expedições punitivas; assassinam-se mulheres e crianças. Ele sabe: esse homem novo começa a sua vida de homem pelo fim; sabe-se morto em potência. Matá-lo-ão: não só aceita o risco, como tem disso plena certeza; esse morto em potência perdeu a sua mulher e os seus filhos, viu tantas agonias, que prefere vencer do que sobreviver; outros gozarão com a vitória, ele não: está muito cansado. Mas essa fadiga do coração é o sinal de uma inesgotável coragem. Encontramos a nossa humanidade mais aquém da morte e do desespero, ele encontrá-la-á, pelo contrário, além dos suplícios e da morte. Nós temos semeado o vento, ele é a tempestade. Filho da violência, nela encontra a cada momento a sua humanidade: éramos homens à sua custa, ele faz-se homem à nossa custa. Um outro homem: de melhor qualidade.

Aqui se detém Fanon. Ele mostrou o caminho: porta-voz dos combatentes, reclamou a união, a unidade do continente africano contra todas as discórdias e todos os particularismos. O seu fim está atingido. Se quisesse descrever integralmente o facto histórico da colonização, teria que falar de nós: isso não foi, sem dúvida, o seu propósito. Mas, quando fechamos o livro, ele continua presente em nós, apesar do seu autor não querer, porque experimentamos a força dos povos em revolução e respondemos com a força. Há, pois, um novo momento de violência e é necessário voltarmo-nos para nós, porque essa violência nos está mudando na medida em que o falso indígena muda através dela. Cada qual deve conduzir as suas reflexões como entender. Mas é preciso que de facto as reflicta: na Europa de hoje, aturdida pelos golpes que recebe na França, na Bélgica, na Inglaterra, a menor distracção do pensamento é uma cumplicidade criminal com o colonialismo. Este livro não necessitava de prefácio. Sobretudo, porque não se dirige a nós. Escrevi-o, no entanto, para levar a dialéctica às suas últimas consequências: também a nós, europeus, nos estão descolonizando; quer dizer, estão extirpando numa sangrenta operação o colono que habita em cada um de nós. Olhemo-nos bem, se tivermos coragem, e verificaremos que isso existe de facto em nós.

Primeiro, temos que encarar um espectáculo inesperado: o striptease do nosso humanismo. Ei-lo aqui nu e nada formoso: não era senão uma ideologia mentirosa, a esquisita justificação da pilhagem; as suas ternuras e o seu preciosismo justificavam as nossas agressões. Eles têm boa cara, os não-violentos: nem vítimas, nem verdugos! Vamos! Se vocês não são vítimas, quando o governo que aceitaram em plebiscito, quando o exército em que serviram os vossos irmãos, sem vacilação nem remorso, empreenderam um «genocídio», vocês são indubitàvelmente os seus verdugos. E se preferem ser vítimas, arriscar-se a um ou dois dias de prisão, optam simplesmente por retirar uma carta do jogo. Não podem retirá-la: têm que permanecer ali até ao fim. Compreendam isto uma vez: se a violência começa, se a exploração e a opressão não tivessem existido nunca sobre a terra, talvez a apregoada «não-violência» pudesse pôr termo à querela. Mas se o regime inteiro e até as suas ideias sobre a não-violência estão condicionados por uma opressão milenária, a sua passividade não serve senão para os alienar do lado dos opressores.

Sabem bem que somos exploradores. Sabem que nos apoderamos do ouro, dos metais e do petróleo dos «continentes novos» para os conduzir às velhas metrópoles. Não sem excelentes resultados: palácios, catedrais, capitais industriais; e quando a crise ameaçava, aí estavam os mercados coloniais para a abrandar ou desviar. A Europa, carregada de riquezas, outorgou de jure a humanidade a todos os seus habitantes: um homem quer dizer um cúmplice, dado que todos temos beneficiado com a exploração colonial. Esse continente gordo e macilento acaba por cair naquilo a que Fanon chama justamente «narcisismo». Cocteau irritava-se com Paris, «essa cidade que fala todo o tempo de si própria». E que outra coisa faz a Europa? E esse monstro super-europeu, a América do Norte? Que tagarelice: liberdade, igualdade, fraternidade, amor, honra, pátria, que sei eu? Isto não nos impedia de pronunciar ao mesmo tempo frases racistas, negro sujo, sórdido judeu, maldito raton(2). Os bons espíritos, liberais e delicados — os neo-colonialistas, numa palavra — pretendiam sentir-se ofendidos por essa inconsequência; erro ou má fé: nada mais consequente, entre nós, que um humanismo racista, dado que o europeu não pôde fazer-se homem senão fabricando escravos e monstros. Enquanto existiu a condição de indígena, a impostura não se descobriu; encontrava-se no género humano uma abstracta formulação de universalidade que servia para encobrir práticas mais realistas: havia, do outro lado do mar, uma raça de sub-homens que, graças a nós, em mil anos possivelmente, alcançariam a nossa actual condição. Em resumo, confundia-se o género com a elite. Actualmente, o indígena revela a sua verdade; de um golpe, o nosso clube tão fechado mostra a sua fraqueza: não era mais nem menos do que uma minoria. O que é pior: posto que os outros se fazem homens contra nós, demonstra-se que somos os inimigos do género humano; a elite descobre a sua verdadeira natureza: a de um gang. Os nossos mais queridos valores perdem as suas asas; se os contemplarmos em redor, não encontraremos um só que não esteja manchado de sangue. Necessitam de um exemplo, recordem as grandes frases: Como é generosa a França! Generosos, nós? E Sétif? E essa guerra feroz que durou oito anos e custou a vida a mais de um milhão de argelinos? E a tortura? Mas compreendam que não se censura termos falsificado uma missão: simplesmente porque não tínhamos nenhuma. É a generosidade que mesmo se põe em dúvida; essa formosa palavra não tem mais do que um sentido: estatuto concedido. Para os homens de boa fé, novos e livres, ninguém tem o poder nem o privilégio de dar nada a ninguém. Cada um tem todos os direitos. Sobre todos. E a nossa espécie quando um dia chegue a ser, não se definirá como a soma dos habitantes do globo, mas como a unidade infinita das suas reciprocidades. Aqui me detenho; podem continuar o trabalho sem dificuldade. Basta olhar em frente, pela primeira e última vez, as nossas aristocráticas virtudes: elas morrem; como poderiam sobreviver à aristocracia de sub-homens que as engendraram? Há anos, um comentador burguês — e colonialista — para defender o Ocidente não pôde dizer nada mais do que isto:

«Não somos anjos. Mas, pelo menos, temos remorsos.»

Que declaração! Noutra época, o nosso continente tinha outros salva-vidas: o Pártenon, Chartres, os Direitos do Homem, a Suástica. Agora sabemos o que valem: e já não pretendem salvar-nos do naufrágio senão através do sentimento muito cristão da nossa culpabilidade. É o fim, como poderão ver: a Europa mete água por todos os lados. Que sucedeu? Simplesmente isto: éramos os sujeitos da História e agora somos os seus objectos. A relação de forças inverteu-se, a descolonização está a caminho; tudo o que os nossos mercenários podem fazer é retardar a sua plena realização.

Não faz mal que as velhas «metrópoles» intervenham, comprometam todas as suas forças numa batalha de antemão perdida. Essa velha brutalidade colonial que fez a duvidosa glória dos Bugeaud voltamos a encontrá-la, no fim da aventura, decuplicada mas insuficiente. Envia o exército para a Argélia e ali se mantém durante sete anos sem resultado. A violência mudou de sentido; vitoriosos, exercíamo-la sem que nada nos alterasse: decompunha aos outros e a nós, os homens, o nosso humanismo permanecia intacto; unidos pela ganância, os metropolitanos baptizam de fraternidade e amor a comunidade dos seus crimes; actualmente, bloqueada por todos os lados, volta sobre nós através do nossos soldados, interioriza-se e domina-nos. A involução começa: o colonizado reintegra-se e nós, ultras e liberais, colonos e «metropolitanos» desintegramo-nos. Já a raiva e o medo estão nus: mostram-se a descoberto nas ratonnades de Argel. Onde estão agora os selvagens? Onde está a barbárie? Não falta nada, nem mesmo o tam-tam: os claxons cadenciam «Argélia Francesa», enquanto os europeus queimam vivos os muçulmanos. Não há muito, recorda Fanon, os psiquiatras afligiam-se num congresso pela criminalidade dos indígenas: essa gente mata-se entre si, diziam, e isso não é natural; o córtex cerebral do argelino deve estai subdesenvolvido. Na África Central, outros estabeleceram que «o africano utiliza muito pouco os seus lóbulos frontais». Esses sábios deveriam prosseguir o seu inquérito na Europa e particularmente entre os franceses. Porque também nós, desde há alguns anos, devemos estar afectados de preguiça frontal: os patriotas começam a matar os seus compatriotas; em caso de ausência, fazem ir pelos ares o porteiro e a nossa casa. Não é mais do que o princípio: a guerra civil está marcada para o Outono ou para a próxima Primavera. Os nossos lóbulos parecem, sem dúvida, em perfeito estado: não será antes que, não podendo esmagar o indígena, a violência volta-se contra si mesma, acumula-se no fundo de nós próprios e procura uma saída? A união do povo argelino produz a desunião do povo francês; em todo o território da antiga metrópole, as tribos dançam e preparam-se para o combate. O terror saiu de África para se instalar aqui: porque estão furiosos, querem fazer-nos pagar com o nosso sangue a vergonha de terem sido derrotados pelo indígena e estão os outros, também culpados — depois de Bizerta, depois dos linchamentos de Setembro, quem saiu à rua para dizer: basta? — mas mais sossegados: os liberais, os mais duros dos duros da esquerda moderada. Também a eles sobe a febre e o mau humor. Mas que espanto! Dissimulam a sua raiva com mitos, com ritos complicados; para atrasar o julgamento final e a hora do ajuste de contas, puseram na nossa cabeça um Grande Feiticeiro, cujo ofício é manter-nos por qualquer preço na obscuridade. Nada se consegue; proclamada por uns, rechaçada por outros, a violência gira à volta, em círculo: um dia, explode em Metz, no dia seguinte em Bordéus; passou por aqui, passará por ali, é como a destreza do furão. À nossa volta, passo a passo, nós percorremos o caminho que conduz à condição de indígena. Mas para nos convertermos inteiramente em indígenas, seria necessário que o nosso solo fosse ocupado pelos antigos colonizados e que morrêssemos de fome. Isto não sucederá: não, é o colonialismo decadente o que nos domina e nos fará cavalgar prontamente; corrompido e soberbo; esse é o nosso zar, a nossa loa. E ao ler o último capítulo de Fanon, convencemo-nos de que vale mais ser um indígena no pior momento da sua desdita, do que um ex-colono. Não é bom que um funcionário da polícia se veja obrigado a torturar durante dez horas diárias: nesse passo, os seus nervos chegarão a esfrangalhar-se, a não ser que se proíba aos verdugos, para seu bem, de fazerem horas suplementares. Quando se quer proteger pelo rigor das leis a moral da nação e do exército, não é bom que este desmoralize sistematicamente aquela. Nem que um país de tradição republicana confie, através de centenas de milhares, os seus jovens aos oficiais putschistes. Não é bom, compatriotas, vós que conheceis todos os crimes cometidos em nosso nome, não é realmente bom que não digam a ninguém uma só palavra, nem sequer à sua própria alma, por medo de terem que julgar-se a si mesmos. Ao princípio, ignoravam, acredito; agora sabem, mas continuam calados. Oito anos de silêncio degradam. E inutilmente: hoje, o deslumbramento solar da tortura está no zénite, ilumina todo o país; debaixo dessa luz, nenhum riso soa bem, não existe uma cara que se não mascare para encobrir a cólera ou o medo, não há um acto que não atraiçoe a nossa repugnância e cumplicidade. Basta que hoje dois franceses se encontrem para que haja entre eles um cadáver. E digo um... A França era antes o nome de um país; temos dúvidas de que não seja, em 1961, o nome de uma neurose.

Curar-nos-emos? Sim. A violência, como a lança de Aquiles, pode cicatrizar as feridas que abriu. Hoje, estamos presos, humilhados, doentes de medo: estamos muito em baixo. Felizmente isto não chega à aristocracia colonialista: ela não pode concluir a sua missão retardatária na Argélia, sem colonizar antes os franceses. Cada dia retrocedemos frente à contenda, mas podem estar certos de que a não evitaremos: eles, os assassinos, precisam dela; seguem revoluteando em redor de nós e espancam a multidão. Assim, acabará o tempo dos bruxos e dos feitiços: terão que ser espancados ou apodrecer nos campos. É o momento final da dialéctica: condenam essa guerra, mas não se atrevem, todavia, a declarar-se solidários com os combatentes argelinos; não tenham medo, os colonos e os mercenários obrigá-los-ão a dar este passo. Talvez, então, encurralados contra a parede, desenfreareis por fim essa violência nova suscitada pelos velhos crimes acumulados. Mas isso, como costuma dizer-se, é outra história. A história do homem. Estou certo de que já se aproxima o momento em que nos uniremos a quem a está fazendo.

Setembro de 1961.
JEAN-PAUL SARTRE

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Notas de rodapé:

(1) Exército de Libertação Nacional. — (N. do T.) (retornar ao texto)

(2) O raton era o próprio natural da Argélia; o mesmo que argelino. (N. do T.) (retornar ao texto)

Inclusão 20/04/2014