A Dialética do Abstrato e do Concreto em O Capital de Karl Marx
Capítulo 1. A Concepção Dialética e Metafísica do Concreto

Evald Vasilievich Ilienkov


3. A Definição do Concreto em Marx


Marx define o concreto como “a unidade da diversidade”(1). Essa definição pode parecer paradoxal a partir da perspectiva da lógica formal tradicional: a redução da diversidade sensorialmente determinada na unidade aparece, à primeira vista, sendo a tarefa do conhecimento abstrato das coisas, ao invés do conhecimento concreto. Do ponto de vista dessa lógica, para perceber a unidade na diversidade sensorialmente percebida dos fenômenos significa revelar os elementos abstratamente idênticos, gerais, que todos esses fenômenos possuem. Essa unidade abstrata, gravada na consciência por meio de um termo geral, parece ser, à primeira vista, aquela mesma “unidade” que é a única coisa a ser tratada na lógica.

De fato, se se interpretar a transição da contemplação e noção viva do conceito, a partir do estágio sensorial do conhecimento para o racional, somente como redução da diversidade sensorialmente determinada para a unidade abstrata, a definição de Marx certamente irá parecer dificilmente justificável em termos “lógicos”.

A grande questão é, entretanto, que as opiniões de Marx são baseadas na concepção do pensamento, seus objetivos e tarefas, muito diferentes daquelas sobre as quais a velha lógica, não-dialética construiu sua teoria. Isso é refletido não somente na substância da solução de problemas lógicos, mas na terminologia também. E isso é inevitável:

“Cada novo aspecto de uma ciência implica uma revolução de seus termos técnicos.”(2)

Quando Marx define o concreto como unidade da diversidade, ele assume uma interpretação dialética de unidade, diversidade e de sua relação. Na dialética, unidade é interpretada em primeiro lugar como conexão, como interconexão e interação de diferentes fenômenos dentro de certo sistema ou aglomeração, e não como semelhança abstrata desses fenômenos. A definição de Marx assume exatamente esse significado dialético do termo “unidade”.

Se se desvela um pouco a fórmula aforisticamente lacônica de Marx, sua definição do concreto significa literalmente o seguinte: o concreto, concreticidade, é, primeiros de tudo, sinônimo dos elos reais entre fenômenos, de concatenação e interação de todos os aspectos e momentos do objeto dado ao homem em contemplação e em noção. O concreto é, desse modo, interpretado como uma totalidade internamente dividida das várias formas de existência do objeto, uma combinação única do que é característico apenas do objeto dado. Unidade assim concebida é percebida não através da similaridade dos fenômenos um com o outro, mas, ao contrário, através de suas diferenças e oposições.

Essa concepção de unidade da diversidade (ou concreticidade) não é meramente diferente da que a velha lógica procedia, e sim seu oposto direto. A concepção aproxima-se do conceito de integridade ou “totalidade”. Marx usa esse termo naqueles casos em que ele precisa caracterizar o objeto como um todo integral unificado em todas suas diversas manifestações, como um “sistema orgânico” de fenômenos mutuamente condicionados em contradição a uma concepção metafísica dele como um aglomerado mecânico de partes constituintes imutáveis que são vinculados um ao outro somente externamente, mais ou menos de forma acidental.

O aspecto mais importante da definição de concreto de Marx é que o concreto é tratado, primeiro de tudo, como uma característica objetiva da coisa considerada bastante independentemente de qualquer evolução que possa ter ocorrido no assunto do conhecimento. O objeto é concreto por e “nele mesmo”, independente de ser concebido pelo pensamento ou percebido pelos órgãos sensoriais. Concreticidade não é criada no processo de reflexo do objeto pelo sujeito, tanto no estágio sensorial do reflexo ou no estágio lógico-racional.

Em outras palavras, “o concreto” é, primeiro de tudo, o mesmo tipo de categoria objetiva como qualquer outra categoria da dialética materialista, como “o necessário” e “o acidental”, “essência” e “aparência”. Ele expressa a forma universal de desenvolvimento da natureza, sociedade e pensamento. No sistema das opiniões de Marx, “o concreto” não é, de forma alguma, um sinônimo para o contemplado imediatamente, sensorialmente determinado.

Na medida em que “o concreto” é oposto a “o abstrato”, o último é tratado por Marx, em primeiro lugar, objetivamente. Para Marx, ele não é, de forma alguma, um sinônimo do “puramente ideal”, do produto da atividade mental, um sinônimo do fenômeno subjetivamente psicológico ocorrendo somente no cérebro do homem. Mais de uma vez Marx usa este termo para caracterizar fenômenos e relações reais existindo fora da consciência, independentemente se são refletidos na consciência ou não.

Por exemplo, Marx fala em O Capital do trabalho abstrato. A abstraticidade aparece aqui como uma característica objetiva da forma cujo trabalho humano assume na produção de mercadorias desenvolvida, na produção capitalista. Em outro lugar ele enfatiza que a redução de diferentes tipos de trabalho a um trabalho uniforme simples desprovido de quaisquer distinções

“é uma abstração que se faz diariamente no processo da produção social; não é uma abstração maior nem menos real que a redução a ar de todos os corpos orgânicos”(3).

A definição de ouro como o ser material da riqueza abstrata também expressa sua função específica no organismo da formação capitalista e não na consciência do teórico ou trabalhador prático, de forma alguma.

Esse uso do termo “abstrato” não é um capricho terminológico de Marx: está vinculado com a própria essência de suas opiniões lógicas, com a interpretação dialética da relação das formas de pensamento e aquelas da realidade objetiva, com o ponto de vista da prática (atividade sensorial envolvendo objetos) como um critério da verdade das abstrações do pensamento.

Esse uso pode ser explicado ainda menos como “um retrocesso ao hegelianismo”: é contra Hegel que a proposição de Marx é direcionada para o efeito que

“a categoria econômica mais simples, o valor de troca [...] só pode pois existir sob a forma de relação unilateral e abstrata de um todo concreto, vivo, já dado”(4).

“O abstrato” nesse tipo de contexto, muito frequente em Marx, assume o significado do “simples”, pouco desenvolvido, unilateral, fragmentado, “puro” (isto é, sem a complicação de qualquer deficiência deformadora). Não é preciso dizer que “o abstrato” neste sentido pode ser uma característica objetiva dos fenômenos reais, e não somente dos fenômenos da consciência.

“O estado de pureza (determinação abstrata) em que apareceram no mundo antigo os povos comerciantes – fenícios, cartagineses – é determinado pela própria predominância dos povos agricultores”(5); não era, naturalmente, o resultado da predominância do “poder abstrato do pensamento” dos fenícios ou dos estudiosos escrevendo a história da Fenícia. “O abstrato” neste sentido não é, de forma alguma, o produto e resultado do pensamento. Esse fato é só um pouco dependente do pensamento como a circunstância que “a lei abstrata de multiplicação existe somente para plantas e animais”.

De acordo com Marx, “o abstrato” (assim como seu equivalente, “o concreto”) é uma categoria da dialética como a ciência das formas universais de desenvolvimento da natureza, sociedade e pensamento, e nesta base também uma categoria da lógica, pois dialética é também a Lógica do Marxismo.

Esta interpretação objetiva da categoria do abstrato é direcionada contra todos os tipos da lógica e epistemologia neokantiana que opõem, de forma grosseiramente metafísica, “formas puras de pensamento” a formas da realidade objetiva. Para essas escolas da lógica, “o abstrato” é somente uma forma do pensamento, enquanto “o concreto”, uma forma de uma imagem sensorialmente determinada. Esta interpretação, nas tradições mill-humeana e kantiana da lógica (por exemplo, Tchelpanov e Vvedensky na Rússia), é estranha e hostil a própria essência da dialética como lógica e teoria do conhecimento.

A interpretação epistemológica limitada (isto é, essencialmente psicológica, em última análise) da categoria do abstrato e do concreto se torna firmemente enraizada na filosofia burguesa moderna. Aqui está um exemplo recente – definições do Dicionário Filosófico, por Max Apel e Peter Ludz:

abstrato: divorciado de uma conexão determinada e considerado somente por si mesmo. Assim, abstrato adquire o significado conceitual, concebido, em oposição ao dado em contemplação.

abstração: o processo lógico de ascender, através da omissão das características, do dado em contemplação à noção geral e do conceito dado a um conceito mais geral. Abstração diminui o conteúdo e estende o volume. Oposto à determinação.

concreto: o imediatamente dado em contemplação; conceitos concretos denotam o que é contemplado, objetos individuais de contemplação. Oposto à abstração.(6)

Esta definição unilateral (abstração é, naturalmente, separação mental, entre outras coisas, mas de maneira alguma pode ser reduzida a isto) varia insignificantemente de dicionário a dicionário. Tem sido polida em dúzias de edições e tem se tornado geralmente aceita entre filósofos nos países capitalistas. Isto certamente não é prova de sua exatidão.

Um “conceito concreto” é reduzido por estas definições para “designar” as coisas individuais sensorialmente contempladas, a um mero signo, ou símbolo. Em outras palavras, “o concreto” só está nominalmente presente no pensamento, somente na capacidade do “nome que designa”. Por outro lado, “o concreto” é transformado em um sinônimo de “naturalidade sensorial” indefinida e sem interpretação. Nem o concreto, nem o abstrato podem, de acordo com essas definições, ser usados como características do conhecimento teórico em se considerando seu conteúdo objetivo real. Eles caracterizam somente a “forma do conhecimento”: “o concreto”, a forma do conhecimento sensorial, e “o abstrato”, a forma do pensamento, a forma do conhecimento racional. Em outras palavras, eles pertencem a diferentes esferas da psique, a diferentes objetos. Não existe qualquer coisa abstrata onde existe algo concreto, e vice-versa. Isso é tudo que existe para essas definições.

O problema da relação do abstrato com o concreto aparece em uma luz bem diferente do ponto de vista de Marx, o ponto de vista da dialética como lógica e teoria do conhecimento.

É apenas à primeira vista que essa questão pode parecer meramente “epistemológica”, uma questão da relação da abstração mental para a imagem sensorialmente percebida. Na verdade, seu conteúdo real é muito mais amplo e profundo do que isso, e é inevitavelmente suplantado por um problema bem diferente ao longo da análise – o problema da relação do objeto consigo mesmo, isto é, a relação entre elementos diferentes da realidade objetiva dentro de certo todo concreto. É por isso que o problema é resolvido, primeiro de tudo, dentro da estrutura da dialética objetiva – o ensino das formas universais e leis do desenvolvimento da natureza, sociedade e próprio pensamento e não no plano epistemológico limitado, como neokantianos e positivistas fazem.

Na medida em que Marx trata o aspecto epistemológico do problema, ele interpreta o abstrato como qualquer reflexo assimétrico, incompleto e unilateral do objeto na consciência, como oposto ao conhecimento concreto que está bem desenvolvido, completo, conhecimento global. Não importa, de maneira alguma, em qual forma psicológica subjetiva este conhecimento é “experimentado” pelo sujeito – em imagens sensorialmente percebidas ou em forma verbal abstrata. A lógica (dialética) de Marx e Lenin estabelece suas distinções em consideração ao sentido e significado objetivo do conhecimento, e não em consideração da forma subjetiva da experiência. Conhecimento pobre, escasso, assimétrico pode ser assimilado na forma de uma imagem sensorial. Neste caso, a lógica terá que definir isso como conhecimento “abstrato”, apesar de ter sido incorporado em uma imagem sensorialmente determinada. Ao contrário, a forma verbal abstrata, a linguagem das fórmulas, pode expressar um conhecimento profundo e global, bem desenvolvido, rico, isto é, conhecimento concreto.

“Concreticidade” não é nem um sinônimo para e nem um privilégio da forma imagem-sensorial do reflexo da realidade na consciência, somente como “abstraticidade” não é característica específica do conhecimento teórico racional. Certamente falamos, na maioria das vezes, da concreticidade da imagem sensorial e do pensamento abstrato.

Uma imagem sensorial, uma imagem de contemplação, pode ser também, com a mesma frequência, bastante abstrata. Suficiente relembrar a figura geométrica ou o trabalho da pintura abstrata. E vice-versa, pensando em conceitos pode e até mesmo deve ser concreto no sentido pleno e rigoroso da palavra. Sabemos que “não existe verdade abstrata”, que “a verdade é sempre concreta”. E isso não significa, de forma alguma, que somente a imagem sensorialmente percebida, a contemplação de uma coisa individual pode ser verdadeira.

O concreto no pensamento também aparece, de acordo com a definição de Marx, na forma de combinação (síntese) de numerosas definições. Um sistema logicamente coerente de definições é precisamente aquela forma “natural” na qual a verdade concreta é realizada no pensamento. Cada uma das definições formando parte do sistema reflete naturalmente somente uma parte, um fragmento, um elemento, um aspecto da realidade concreta – e é por isso que é abstrato se tomado por ele mesmo, separadamente de outras definições. Em outras palavras, o concreto é realizado no pensamento através do abstrato, através de seu próprio oposto, e é impossível sem ele. Mas isso é, em geral, a regra ao invés da exceção na dialética. Necessidade está somente no mesmo tipo de relação com chance, essência com aparência, e assim por diante.

Por outro lado, cada uma das numerosas definições formando parte do sistema conceitual de uma ciência concreta, perde sua abstratividade nele, sendo preenchido com o sentido e significado de todas as outras definições conectadas com ele. Definições abstratas separadas se complementam mutuamente, assim a abstraticidade de cada um deles, tomados separadamente, é superada. Em resumo, aqui reside a dialética da relação do abstrato e do concreto no pensamento que reflete o concreto na realidade. A dialética do abstrato e do concreto ao longo do processamento teórico do material da contemplação viva, processando os resultados da contemplação e noções em termos de conceitos é o assunto de estudo do presente trabalho.

Naturalmente, não pretendemos oferecer uma solução exaustiva para o problema do abstrato e do concreto em todos os estágios do processo de conhecimento em geral, em todas as formas de reflexo. A formação da imagem sensorialmente percebida da coisa envolve sua própria dialética do abstrato e do concreto, e uma bastante complicada, e isso é ainda mais verdade para a formação da noção conectada com a linguagem, com palavras. Memória, que também desempenha um papel enorme no conhecimento, contém em sua estrutura uma relação não menos complexa do abstrato ao concreto. Estas categorias também têm uma influência na criatividade artística. Somos compelidos a deixar de lado todos esses aspectos, como tema de um especial estudo.

O caminho do conhecimento que leva da contemplação viva ao pensamento abstrato e dele para a prática, é um caminho bastante complicado. Uma transformação complexa e dialeticamente contraditória do concreto no abstrato e vice-versa ocorre em cada elo desse caminho. Até mesmo a sensação nos dá um retrato mais áspero da realidade do que realmente é, até mesmo na percepção direta existe um elemento de transição do concreto na realidade ao abstrato na consciência. A transição da contemplação viva ao pensamento abstrato não é, de forma alguma, a mesma coisa que o movimento “do concreto ao abstrato”. Ela não é, de forma alguma, reduzível a este momento, embora o último esteja sempre presente nela. É a mesma coisa somente para aqueles que interpretam o concreto como sinônimo de uma imagem sensorial imediata, e o abstrato, como um sinônimo do mental, do ideal, do conceitual.

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Notas de rodapé:

(1) Marx, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 248. (retornar ao texto)

(2) Marx, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I: O Processo de Produção do Capital. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 102. (retornar ao texto)

(3) Marx, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 15. (retornar ao texto)

(4) Marx, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 248. (retornar ao texto)

(5) Marx, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 257. (retornar ao texto)

(6) APEL, Max; LUDZ, Peter. Philosophisches Wörterbuch [Dicionário Filosófico]. Berlin: Gruyter, 1958, S. 4-5, 162. (retornar ao texto)

Inclusão 04/04/2014