Algumas Questões do Trabalho de Massas do Partido
Discurso pronunciado na Conferência dos Dirigentes das Organizações do Partido nas Empresas da Cidade de Moscou

M. I. Kalinin

21 de Abril de 1942


capa

Primeira Edição: Revista “Partínoie Stroítelstvo”, (“A Construção do Partido”), 8, de 1942.
Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, 1954. Traduzido da edição em espanhol de "Ediciones em Lenguas Extranjeras” de Moscou 1949. Pág: 146-161.
Nota da Edição Original: Neste livro foram compilados discursos e artigos escolhidos de Mikhail Ivánovitch Kalínin dedicados à educação comunista, que abarcam um período de quase vinte anos. Alguns dos discursos são reproduzidos com pequenas reduções.
Transcrição e HTML:
Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


Camaradas: Não pretendo fazer um informe de orientação; apenas me limitarei a algumas questões relacionadas com o trabalho de massas do Partido.

Muito ouvimos falar do trabalho de massas do Partido. Todo o mundo fala disso; mas se nos aprofundarmos um pouco veremos que são muitos os que carecem de uma ideia clara, definida e concreta desta questão. Nas complicadíssimas condições da guerra atual, sobretudo se levarmos em conta que milhares de pessoas novas foram conduzidas aos postos de direção das organizações do Partido, das empresas e instituições, que essas pessoas se converteram em propagandistas e agitadores, ergue-se ante nós a tarefa de aproveitar com habilidade a riquíssima experiência de nosso Partido quanto à maneira de organizar e realizar o trabalho político entre as massas.

Que quer dizer trabalho de massas do Partido? Que quer dizer ter contato com as massas? É a isto precisamente que atribuímos especial importância em nosso trabalho político.

Devo dizer que o contato com as massas pode ser dos mais diversos tipos.

Assim, por exemplo, pode consistir em ter um grande circulo de relações, em visitas recíprocas; e, naturalmente, aproveitando a visita, pode-se conhecer algo do que ocorre na fábrica, entre os operários ou na administração. Também essa é uma forma de ligar-se às pessoas.

Existe o compadrismo no trato com os operários. Suponhamos um organizador do Partido ou do sindicato que anda pelas fábricas dando palmadinhas nas costas dos operários e até chamando-os pelo nome, porém que em compensação não se ocupa do trabalho nem chama a atenção dos operários para os defeitos do mesmo. Às vezes ouvimos as pessoas dizerem, referindo-se a um desses secretários de comitê do Partido ou a um desses organizadores do Partido: “Esse é dos nossos, esses sim sabe estar junto às massas. É de ver-se como dá palmadinhas nas costas dos operários e até os chama pelo nome!”.

Arrastar-se a reboque das massas é também uma forma de “contato” com as massas. Se alguém vem queixar-se disto ou daquilo, segue-se a corrente, acompanha-se a jeremiada e quando esses alguém choraminga, faz-se coro: “Sim, não há luz, faz frio, em realidade os produtos não são abundantes”. No caso de ocorrer algum contratempo na fábrica ou na administração, faz-se coro com os descontentes: “Maldito seja. Que burocratas, em que bela encrenca nos meteram!” E o pessoal dá ouvido a isso, que, de modo geral, pode até agradar-lhes.

Mas, acaso nós, os bolcheviques, nos referimos a esse tipo de ligação com as massas? É claro que não. Seguir as massas para onde elas vão, arrastadas muitas vezes por elementos retrógrados, é uma linha menchevique. Nossa linha bolchevique consiste em conduzir as massas, não de modo tutelar, mas fazendo com que marchem atrás da vanguarda consciente.

E que se deve fazer para conduzir as massas?

Antes de responder a esta pergunta, farei outra: Quem pode conduzir as massas? Os comunistas são chamados a fazê-lo. O Partido Comunista é quem conduz as massas e não o faz mal. Para demonstrá-lo poderíamos citar uma infinidade de exemplos. A guerra é o primeiro deles, Apesar dos reveses sofridos nos primeiros meses da guerra, reveses provocados principalmente pela surpresa e o inesperado do ataque, podemos dizer com segurança que a confiança do povo em seu Governo, e por conseguinte, no Partido, não vacilou um só instante. Isto é um fato.

Vós que estais aqui reunidos sois dirigentes do Partido. Queirais ou não, em vossos locais de trabalho, sois os guias das massas. Não pode ser de outra maneira, pois que secretário de comitê de Partido é esses em que o povo não vê um dirigente político? O secretário de comitê do Partido é uma das pessoas de mais responsabilidade na empresa, na instituição ou no distrito.

Porém que condições deve reunir um secretário de organização do Partido para ter verdadeira influência sobre as massas, para que as massas o ouçam e tenham confiança nele? É lógico que o dirigente do Partido, o propagandista ou o agitador, deve ser pessoa de ideias, profundamente fiel ao Partido Comunista, deve conhecer, embora somente a largos traços, a história de nosso Partido e compreender as tarefas que o Partido levanta ante a classe operária, ante o povo. O nível político do dirigente do Partido, do propagandista, não deve ser inferior, em qualquer caso, ao dos demais. Tampouco lhe faria mal certa cultura geral.

Qual deve ser pois a atitude do dirigente do Partido perante as massas?

Primeiro. Baseando-me nos muitos anos de prática que tenho, entendo ser necessário que o dirigente do Partido não seja uma pessoa arrogante nem vaidosa. Se em vossas conversações com os operários ou com os militantes de base dais a entender, mesmo que seja só por um gesto, pela entonação, através de uma frase sem importância e aparentemente casual, que vos considerais mais inteligentes que eles, que sabeis mais que eles, neste caso estais perdidos. Os operários, e em geral qualquer pessoa simples, não estimam os vaidosos, não fazem caso deles e, no momento oportuno, fá-lo-ão sentir com bastante dureza. Por isso, sobretudo os comunistas não devem ser arrogantes nem vaidosos, nem devem esquecer as palavras pronunciadas pelo camarada Stálin na Conferência dos stakhanovistas celebrada em novembro de 1935:

“Por conseguinte, nós, dirigentes do Partido e do Governo, devemos não só instruir os operários, mas também aprender com eles. Que vós, membros desta Conferência, aprendestes aqui algo dos dirigentes de nosso Governo, não o negarei. Mas tampouco se pode negar que também nós, dirigentes do Governo, aprendemos muito de vós, dos stakhanovistas, dos membros da presente Conferência. Pois bem, camaradas, obrigado, pela lição! Muito obrigado!”.

Assim, chegamos à conclusão de que o agitador deve ser modesto.

Sobretudo o dirigente do Partido deve possuir esta qualidade, o secretário de organização do Partido que goza, por assim dizer, de um poder administrativo no Partido. Se quiser gozar do carinho dos operários, procurará ser modesto, evitará a vaidade. É justo o que digo? (Vozes: “É justo!”) Quem quiser ser dirigente deve prestar atenção à sua própria conduta.

Segundo. É errado o propagandista ou o dirigente adotarem tom doutoral no trato com as massas. Certamente já percebestes que se toma desagradável ouvir um orador, quando ele não faz mais do que dizer: é preciso fazer isto e aquilo, devemos, temos a obrigação, etc. Quando escrevo um artigo e o fio de minhas ideias exige um “é preciso fazer”, isto é desagradável até para mim e trato de substituir essa expressão por outra. Muito diferente é o caso em que a ideia, o apelo ou o convite se exprimem mediante um raciocínio, uma análise, demonstrando a necessidade de tal ou qual medida. A pessoa pode dirigir-se a seu auditório como se pedisse um conselho: “Que vos parece, se fizéssemos a coisa desta forma?”, “Parece-me que seria melhor resolver a questão desta maneira”, “Neste caso eu procederia assim”. Então o povo reagirá de maneira diferente.

Referimo-nos no caso presente às intervenções em assembleias pouco numerosas, em reuniões de produção ou durante alguma palestra. Naturalmente, nos comícios assistidos por milhares de pessoas, a forma de intervir deve ser diferente: neste caso a frase deve ser breve, de perfil bem definido. Aqui é difícil recorrer à forma dialogada. Ao contrário, em vosso trabalho diário, o de que necessitais com mais frequência é provocar a discussão, fazer falar os operários, e nesse caso a forma “que vos parece? qual é a vossa opinião?” será a mais aceitável. É muito importante animar as pessoas a intervirem, fazer com que exponham suas opiniões, estabelecendo o intercâmbio com os demais. Nesse caso a reunião transcorrerá animadamente, os operários intervirão com prazer e a utilidade da reunião será indiscutível. Pois às vezes costuma acontecer como antigamente nas ladainhas: o pregador diz a sua parte, o auditório também diz o que lhe cabe e, terminado o tempo previsto, cada qual segue seu caminho.

Não temais afastar-vos do plano de vossa intervenção ou palestra. Podeis estar falando da produção ou da guerra, mas se surge outra questão que provoca uma reação do auditório, não importa, não a deixeis de lado. Se conseguirdes despertar o interesse das pessoas e elas reagem ao que dizeis, todos prestarão atenção e então podereis expor as questões do esquema.

E o mais importante é que não fujais nunca à discussão de questões espinhosas, como fazem com frequência alguns oradores. Em nenhum caso deveis recorrer a isso, não tenteis esquivar-se à resposta, não esfumeis as perguntas que vos façam. Se não podeis responder imediatamente a uma pergunta, dizei abertamente: “A pergunta, é interessante e tem importância. Eu responderia com muito prazer, mas não estou preparado, não meditei sobre ela, não me considero em condições de poder respondê-la. Vou informar-me sobre a questão, consultarei alguns camaradas e então responderei. Será que alguns dos presentes poderia esclarecer-nos esta questão?” Isto já seria outra coisa, pois há entre nós quem goste de tangenciar as questões candentes ou explicá-las de tal forma que o auditório não compreende nada nem obtém uma resposta direta e verídica à sua pergunta.

O dirigente do Partido deve ser de uma honradez absoluta *em seu trato com os demais. O secretário da organização do Partido é o olho do Partido. Não sei se percebeis completamente a questão. Por isso, qualquer simpatia ou antipatia de tipo pessoal deve ser posta à margem. Se, por qualquer motivo, não simpatizais com uma pessoa, deveis ocultá-lo tão profundamente que ninguém possa adivinhá-lo. As coisas irão mal se as pessoas perceberem que não sois imparciais no trato.

Acontece às vezes que uma pessoa comum e vulgar faia pouco e se mantém afastada, mas trabalha bem; ao contrário, outra trabalha mal, mas comparece com frequência ao comitê do Partido, ao sindicato ou à organização do Komsomol, é sempre visível e se projeta. Isso é mau. Se o secretário do comitê do Partido quer gozar de prestígio, deve aparecer sem mácula aos olhos das massas. Isto não quer dizer que não possa ter mais amizade com determinadas pessoas. Claro que pode. Mas em suas relações sociais deve tratar a todos com igual imparcialidade. Sua posição deve ser a seguinte: “És meu amigo, está certo; mas se te descuidas do trabalho, se te fazes de desentendido, se te safas das tarefas da produção, exigirei de ti mais do que dos outros e te calcarei a mão com mais fôrça que aos demais”. É assim que deve portar-se com as pessoas o secretário da organização do Partido.

Em todas as questões deveis adotar uma conduta que permita ao povo verificar vossa sinceridade e honradez. Nunca conseguireis ocultar às massas a hipocrisia e por isso deveis fazer todo o possível para evitá-la. Não conseguireis enganar as massas e se o povo percebe que alguém age hipocritamente, nunca mais lhe dará crédito.

Se conseguirmos desenvolver em nós estas qualidades, será mais fácil trabalhar.

E agora apresentemos a questão de como deve ser abordado o trabalho de massas do Partido, como deve ser realizado e como devem ser apresentadas às massas tais ou quais questões.

É necessário apresentar as questões com espírito de Partido, tudo deve ser abordado com espírito de Partido.

Suponhamos que se está realizando a subscrição do empréstimo. É evidente que agora todos o subscreverão com um mês de salário. Se eu fosse agitador, diria abertamente aos operários: “Agora, até as pessoas que não ganham um salário elevado subscreverão o empréstimo com o salário de um mês. Sabeis qual a situação que atravessa nosso Estado. Temos um grande exército, despesas enormes, o Estado precisa de dinheiro e tem que tirá-lo de alguma parte. Ou vamos à inflação, ou temos que ajudar o Estado e proporcionar-lhe o dinheiro sob a forma de empréstimos. É somente assim que se pode levar a guerra para diante”. A isto podem objetar: “Mas a vida é difícil”. E eu lhes responderia: “É a guerra, por isso a vida está difícil e por isso o pão está racionado. Se houvesse muito pão, muitos tecidos, muita roupa, calçados e demais mercadorias, não recorreríamos aos empréstimos, mas simplesmente abriríamos as lojas, as encheríamos de mercadorias e o dinheiro afluiria às caixas. Mas é precisamente por isso que fazemos o empréstimo, porque falta, dinheiro, porque faltam artigos de consumo, porque se fabricam armas e munições, porque as mercadorias se destinam às necessidades do exército e da guerra”.

Não é só em nosso país que escasseiam as mercadorias; também há falta em outros países, sobretudo nos países fascistas ou nos que foram saqueados pelos fascistas alemães. Neste ponto é que se deve desenvolver a tese de que nós somos os menos culpados pelo que está acontecendo, pois fomos atacados. Deve-se fazer ver a natureza imperialista da guerra que, a Alemanha hitlerista leva a cabo. Pode-se perguntar diretamente aos operários: “Que desejais: que nos derrotem?” Sei que tendes medo até de pronunciar esta palavra Pois esta pergunta eu a faria mais de uma vez aos que subscrevem mal o empréstimo. “Que é que desejais: que nos derrotem?” Uma das duas: ou nos derrotam ou apertamos o cinto. Tomai o exemplo dos leningradenses: que dificuldades estão atravessando e com que heroísmo se mantêm. Assim é que se deve levantar as questões diante dos operários; isto significa apresentá-las com espirito de Partido.

Numa grande fábrica, ao falar perante os operários, eu apresentei o problema dessa forma, sem rodeios, e lhes disse que o Estado exige que consumamos menos e produzamos mais. Apresentei o problema diretamente e lhes expliquei que não se trata de querermos que os operários e empregados fiquem a meia ração, porém de que agora temos menos mercadorias, as- exigências da frente são grandes e o inimigo pressiona. Não temais apresentar as questões de modo cortante, desde que o façais com acerto e com espírito de Partido.

Se o pessoal da fábrica sabe que não costumais ser hipócritas, fugir dos problemas, nem envaidecer-vos, então vossas palavras chegarão à consciência de todos. Em caso contrário não merecereis crédito e as pessoas dirão: “Já te conhecemos, para nós vens com conselhos, mas tu pensas outra coisa e tua conduta não corresponde às tuas palavras.”, Talvez não o digam abertamente, mas com toda a certeza o dirão em surdina.

Qual é atualmente o objetivo da propaganda e da agitação do Partido? Fazer com que as massas sintam a cada passo que o Partido Comunista não tem interesses próprios especiais, que o que defende são os interesses do proletariado, de todo o povo em seu conjunto. E estes são precisamente os momentos em que a preponderância dos interesses do todo sobre os interesses da parte se manifesta com uma clareza e um relevo extraordinários e é compreendida por todos, inclusive pelas pessoas pouco cultas, até pelas crianças. Qualquer um compreende agora que os interesses do povo prevalecem sobre os interesses pessoais ou de grupo.

Trava-se uma guerra cruel, os fascistas cometem ferocidades inauditas. Devemos dizê-lo e perguntar a cada um o que é que pensa, como quer participar na obra comum. “Isto é o que exige de ti o todo, isto é o que exige o Partido. Se derrotarmos o inimigo, terás de tudo; mas senão o derrotarmos, também tu sucumbirás. Mas só podemos derrotar o inimigo com a condição de que lancemos todos os nossos recursos na guerra, tanto os materiais como os humanos. Posso assegurar-vos que, falando assim em qualquer assembleia e expondo honradamente tudo isso, em qualquer caso, 99 senão cem por cento dos assistentes se mostrarão de acordo com a necessidade de realizar todos os sacrifícios com o fim de derrotar o inimigo. Talvez algum tipinho se manifeste contra — ainda restam inimigos — mas serão indivíduos isolados, apóstatas, resíduos dos tempos passados. Devemos ensinar as pessoas a trabalhar com abnegação para o bem de todo o povo. Esta é nos momentos atuais a tarefa dos comunistas.

Agora se manifesta um fenômeno muito importante: está ingressando mais gente no Partido do que nos tempos de paz, na frente mais do que na retaguarda, nas regiões próximas à frente mais do que nas distantes dela. (Vozes: “É isso mesmo!”) E por que acontece isto? Porque todos sentem a necessidade de fortalecer o Partido. Todos veem que o Partido é o guia, que só um Partido poderoso e forte pode garantir a vitória do povo. E quando o soldado vê que se avizinha um combate duro, solicita seu ingresso no Partido, pois quer ir ao combate como comunista. Essa é a grande fôrça de nosso Partido e do Estado soviético. As massas sabem perfeitamente que seu caminho é o caminho do Partido.

Na Alemanha fascista existem organizações de massas. Hitler acorrentou as massas, esmagou-as, humilhou-as; ao contrário, nós educamos as massas, elevamos sua consciência.

Aqui foi dito que os propagandistas e os agitadores atendem aos pedidos pessoais dos trabalhadores e os ajudam. Tal coisa não é má. Devo dizer-vos que quando se pode ajudar as pessoas em alguma coisa e se presta essa ajuda, isso é bom, é uma boa qualidade. E o êxito é maior entre as mulheres que entre os homens. Mas também aqui é necessário explicar a relação existente entre os pedidos pessoais e nossas tarefas comuns Se alguém aparece pedindo algo, convém ajudar e ao mesmo tempo dizer-lhe: “Já vês que a organização do Partido ou o sindicato te ajudam, fazem algo por ti; mas queremos que também tu, quando chegue tua vez, não fiques à margem, que juntamente com todos ajudes a levar adiante a obra comum”. Esta é a linha de conduta a que nos devemos ater e que temos de pôr em prática em todo o nosso trabalho de massas.

Falou-se aqui da leitura dos jornais e foi dito que ela transcorre com certo aborrecimento. Devemos reconhecer que, frequentemente, mais do que uma leitura, isto parece uma tutela exercida sobre os operários. Tenho a impressão de que nem sempre é conveniente ou útil nomear leitores permanentes. Se eu fosse secretário da organização do Partido duma fábrica, faria o seguinte: na hora da refeição, aproximar-me-ia para perguntar aos operários se estavam dispostos a ouvir a leitura dos jornais. Naturalmente haverá quem manifeste tal desejo. Então eu perguntaria: “Quem quer ler?” Em nossas fábricas são muitos os que sabem ler um jornal e sem dúvida apareceria um voluntário. Apesar disso, eu mandaria a esses grupo um operário com experiência, culto, para provocar a conversação e ajudar a esclarecer o que foi lido. Assim, a leitura se tornará mais natural e será mais fácil perceber quais as questões que mais interessam aos operários. É claro que a pessoa enviada deve ser culta e possuir tato. Asseguro-vos que com esses método as leituras se tornarão mais animadas e terão aceitação.

Há cerca de 40 anos, também eu fui leitor de jornal. Umas quinze pessoas frequentavam meu círculo ilegal. Se eu tivesse me limitado a ler, aquilo não teria marcado. Somente a leitura nos tomava uns 15 ou 20 minutos, depois vinha a discussão. Eu lhes perguntava: “Como é, entenderam este ou aquele artigo?”

— “Não, não entendemos”. — “Bom, então vamos esclarecê-lo”. Começava a palestra, que durava uma hora, hora e meia e às vezes mais. Enquanto eu estava lendo os ouvintes não dormiam, pois sabiam que depois da leitura começaria a discussão. Como vedes, camaradas, ser agitador não é coisa tão simples. A leitura do jornal é já quase um trabalho de propaganda, sendo preciso organizá-la com habilidade, pensando bem. Se o encarregado da leitura e de conduzir a discussão não sabe despertar o interesse dos ouvintes, se estes percebem que vem preparado de antemão, não é possível que a discussão saia bem. Os que assistirem a uma leitura desse tipo a aceitarão como exercício escolar, como algo parecido com o antigo catecismo.

Em cada artigo de jornal é possível encontrar algo que possa servir de pretexto para entabular uma conversação sobre questões políticas gerais. Acho melhor ser a leitura feita por algum dos operários, e melhor ainda que leiam por turno, ao passo que as pessoas enviadas para assistir a leitura nos grupos devem ajudá-los na discussão e no esclarecimento do que não for compreendido.

Ouvindo-se os camaradas que aqui intervieram, não se notou que mostrassem iniciativa e levantassem as questões da produção. Talvez se tenham contido. É possível.

Quais são, pois, as tarefas da produção que se nos apresentam além das tarefas gerais que já conheceis? Eu levantaria, por exemplo, como uma das tarefas importantes a de recolher a sucata. Não nas fábricas nem casas, pois somente em estilhaços de metralha, digamos por exemplo, quanto metal não andará atirado pelos campos da região de Moscou? Por que não propormos ao Komsomol de Moscou a tarefa de recolher esta sucata? Nos campos e bosques da região acham-se aviões destruídos e muito metal atirado. Creio que se pode recolher facilmente, na pior das hipóteses, uma dez mil toneladas. E isso seria de grande utilidade. Naturalmente, para tanto é preciso realizar a correspondente agitação, explicar aos jovens a falta que o metal faz ao país e instruí-los sobre a maneira de recolher e entregar a sucata. Na realidade, não acredito que faça falta uma grande agitação, pois a coisa está bem clara; é preciso apenas saber organizar a colheita na prática.

Também quisera deter-me na questão das hortas. Entre os camaradas que aqui intervieram nenhum tocou nesta questão. E não obstante, é uma questão de muita importância. O agitador não só deve realizar uma campanha em favar das hortas, mas também ajudar a organizá-las, velar para que não se envie inutilmente as pessoas às hortas coletivas, para que cada jornada de trabalho seja aproveitada integralmente e seja produtiva. A organização do Partido e dos sindicatos e a direção das empresas devem realizar um grande trabalho de organização neste sentido.

Em nossa reunião estranhei muito a seguinte circunstância: os jornais falam todos os dias do movimento stakhanovista; e aqui, onde se reuniram os secretários das organizações do Partido, onde alguns quase fizeram um balanço de sua atividade, aqui ninguém se lembrou do movimento stakhanovista, ele foi esquecido. Pois a mim me parece que o esquecimento não foi casual. Os jornais nem sempre focalizam o movimento stakhanovista como é devido. Somente destacam os que alcançam mil ou dois mil por cento da norma; mas, acaso temos muitos desses?’ Eis aí a razão pela qual não se falou no movimento stakhanovista. Certamente nos vossos jornais murais também existe a preferência de não falar mais do que nos tíssiatchnik”.(1)

Esta questão pode ser focalizada sob dois aspectos diferentes. Também podemos dizer: será que em vossa fábrica o diretor, o engenheiro-chefe e a administração não entendem de nada, já que durante muito tempo os operários vêm trabalhando de acordo com uma norma tal que uma pessoa razoável e honesta pôde superá-la em mil por cento? Pelo que se vê, até agora se trabalhava muito mal ou não. se fazia nada. Pois se um operário da fabrica, sem nenhuma adaptação ou inovação, supera a norma em mil por cento, o diretor e o engenheiro-chefe dessa empresa devem ser enviados aos tribunais, porque em sua fábrica se dilapidam os recursos do Estado. Eu mesmo trabalhei uns 25 ou 27 anos como torneiro numa fábrica, também vós vindes da fábrica e compreendeis o que é um “tíssiatchnik”.

Somente pode, ser um verdadeiro “tíssiatchnik” quem introduz algum aperfeiçoamento, alguma melhora técnica no processo de trabalho. Suponhamos, por exemplo, que antes os botões eram pregados a mão e agora o fazeis à máquina. Naturalmente, a produtividade deve aumentar de muitas vezes. Ou então, que se introduz no processo de trabalho alguma racionalização que eleva rapidamente a produtividade.

Nem se pode conceber o movimento stakhanovista sem uma racionalização do processo de trabalho. E é precisamente disto que não se fala, é isto o que não se mostra.

Ao falar dos “tíssiatchnik”, deve-se dizer que tal trabalhador, em tal fábrica, propôs uma racionalização eficaz que deu tais e tais resultados na produção. É muito mais importante dizer como se conseguiu tal resultado do que repetir sem parar a palavra “tíssiatchnik”. E é preciso que na fábrica todos estejam atentos a cada inovação e que esta inovação vá penetrando em todas as demais empresas. E se o autor da proposta de racionalização é um ajustador, um torneiro ou qualquer outro operário, devemos fazer a pergunta: que ajuda lhe prestaram os engenheiros da fábrica e os construtores? Tudo isto demonstra como estamos atrasados na maneira de apresentar questões de tanta importância como a propaganda da racionalização, a introdução de inovações e o desenvolvimento da emulação. Se os artigos sobre os “tíssiatchnik” fossem escritos deste ponto de vista, prestaríamos uma grande ajuda à racionalização.

Qual é a raiz deste mal? O mal reside em que nos esquecemos do operário médio, do operário comum, de tipo corrente. Dizei-me, por exemplo: se todos os operários que agora não cumprem a norma começassem a cumpri-la, em quanto aumentaria a produção? (Vozes: em 10, 15, 200%). Aí está. Pois bem, se conseguíssemos elevar a produtividade do trabalho de todos os operários — precisamente de todos — só em 10%, quantos benefícios obteríamos, como isso faria subir a produção industrial! Mas é mais difícil consegui-lo do que estabelecer alguns recordes isolados. Fazer algum pequeno invento ou introduzir alguma racionalização no processo de trabalho são coisas importantes, mas não é tudo, nem sequer é o mais difícil. Assim, por exemplo, num torno, trabalhando à mão, pode-se fazer a rosca de 20 parafusos, enquanto num torno automático se podem fazer 5.000. Mas isso ainda não resolve a questão.

O movimento stakhanovista pressupõe um melhoramento dos métodos de trabalho, significa facilitar o trabalho introduzindo diversos aperfeiçoamentos. Esse espírito inovador não pode estender-se muito entre o pessoal, pois isso depende bastante de cada um, de suas capacidades individuais, de sua capacidade de inventor. Mas esses espirito deve ser estimulado, desenvolvido, o que deve ser feito sobretudo pelos engenheiros de fábrica e os construtores, pois essa é a sua obrigação.

Mas nem por isso o movimento stakhanovista deve eclipsar nem rebaixar o papel da emulação socialista entre os operários comuns e de tipo corrente, que pode ser de grande utilidade. Os operários médios, os operários comuns e correntes são os que decidem do êxito da produção. E vós, camaradas, — di-lo-ei com toda a franqueza — tendes uma atitude negligente para com os operários comuns e correntes. Deveis recordar com mais frequência que a elevação de 10% na produtividade do trabalho do operário médio é uma grande coisa e em torno disso é preciso realizar uma propaganda diária. É preciso fazer com que os engenheiros, sobretudo os engenheiros membros do Partido — e não temos poucos deles em cidades tão grandes como Moscou — prestem atenção a este problema. O movimento stakhanovista deve ser apresentado na imprensa tal como deve ser. Os avanços em matéria de racionalização devem ser divulgados, devem ser dados a conhecer e sobretudo devem ser introduzidos na produção; mas isso não deve ocultar aos nossos olhos a importância de conseguir avanços entre os operários médios. O operário médio aumenta a produtividade do seu trabalho sem introduzir modificações no processo técnico, mas aumentando a intensidade e a rapidez de seu trabalho, adquirindo maior habilidade. Conviria reunir esses operários, particularmente os de idade madura, os que estão há muitos anos na produção e com eles examinar a fundo o problema do aumento da produção de artigos. Isso repercutiria consideravelmente no balanço geral do trabalho da fábrica e os resultados seriam grandes.

Aconselho-vos insistentemente a que presteis mais atenção aos operários médios, que os destaqueis, que apresenteis seus trabãlhos nos jornais murais. Suponhamos que durante dois anos um operário vinha cumprindo a norma somente em 80 ou 90%, mas na guerra começou a cumpri-la em 100-105%. É preciso destacá-lo, expor seu trabalho. Por que devemos fazê-lo? Pois é porque esses operários são milhares e o que fizerdes terá o efeito de exaltar o operário médio que cresce, o operário comum e corrente que ultrapassa regularmente a norma em 3 ou 5%. Deveis escrever um pequeno artigo sobre ele no jornal, publicar 'seu retrato. E então o operário que trabalha na máquina ao lado pensará: “E eu por acaso sou inferior? Tanto quanto ele, também posso ultrapassar a norma em 3 ou 5% e meu retrato sairá igualmente no jornal”.

É assim que cresce a emulação no seio da massa de operários, porque sua base é accessível a todos eles. Essa será realmente uma grande ajuda à produção. A isto se dá comumente o nome de movimento stakhanovista, mas no fundo trata -se duma verdadeira emulação socialista, dum trabalho de choque ao qual não podemos renunciar de maneira nenhuma. Unicamente é preciso saber aproveitá-lo e meu mais fervente desejo é que o aproveiteis e desenvolvais. É preciso considerar o assunto de maneira realista. Não necessitamos do alvoroço para nada, o que necessitamos é de uma utilidade real e isto quer dizer elevar a norma média de produção.

Aqui foi levantada a questão do trabalho entre os novos operários. Trata-se dum trabalho muito importante e muito difícil. Em que consiste sua dificuldade?

Em primeiro lugar, quando um operário novo — e agora trabalham na produção sobretudo mulheres — chega pela primeira vez à fábrica, a princípio sente-se aturdido, até algo atemorizado com o incomum do ambiente fabril; e somente depois de trabalhar uns seis meses na fábrica começa a tomar-lhe carinho. Eu o sei por experiência própria. Na fábrica reina a disciplina, mas nosso pessoal, e sobretudo os jovens, está acostumado a fazer o que bem entende. É preciso prestar aos operários recém-chegados uma ajuda que lhes permita incorporar-se à produção, acostumar-se à disciplina da fábrica, à ordem; e por outro lado lhes deve ser explicado, de modo a compreenderem, que mesmo que no princípio lhes pareça duro, depois se afeiçoarão à fábrica e não haverá quem os separe dela. Deve ser feito tudo o necessário para que os novos operários se afeiçoem ao seu trabalho, dominem rapidamente a especialidade e elevem a própria qualificação. Por isso, me parece que devem ser tomadas como tarefas de enorme significação a prestação de ajuda técnica aos novos operários e concentrar a atenção das organizações sindicais e do Partido no problema de atrair e incorporar os novos operários à vida cotidiana da coletividade. Tem muita importância o conhecer as pessoas, saber qual é o contingente de operários que chegou à fábrica e organizar o trabalho em consonância com isso.

Agora dispomos dum argumento de excepcional fôrça persuasiva: a guerra. Devemos explicar à juventude que chega à fábrica que não vai para lá a fim de brincar ou divertir-se, porém que chegou a uma frente das mais combativas, equivalente quase a uma frente de guerra. Este é um de nossos argumentos de maior valor. Não só o Komsomol, mas também as organizações do Partido devem trabalhar com os novos contingentes de jovens operários que chegam às empresas.

Nas difíceis condições atuais, muitas coisas hão de depender dos novos quadros operários, das mulheres e dos jovens. E preciso inculcar a disciplina aos novos operários, fazer com que tomem consciência dos interesses comuns do proletariado. O Partido deve realizar entre eles um trabalho diário e Kábil. Mas não se deve atuar unicamente por meio de sermões, mas interessando os próprios operários e atraindo-os ao trabalho social.

Isto é tudo o que queria dizer-vos. Permiti-me fazer votos para que nossa palestra seja pelo menos de alguma utilidade em vosso trabalho. (Aplausos prolongados.)

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Notas de rodapé:

(1) “Tíssiatchniki” — operário que supera a norma em mil por cento ou mais. (retornar ao texto)

Inclusão 14/11/2012