Entrevista com os Dirigentes das Reservas de Mão de Obra do Estado e das Organizações do Komsomol das Escolas Profissionais, Ferroviárias e de Aprendizagem Industrial

M. I. Kalinin

22 de Outubro de 1942


capa

Primeira Edição: "Komsomólskaia Pravda”, ("A Pravda da Komsomol”), 18 de novembro de 1942.
Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, 1954. Traduzido da edição em espanhol de "Ediciones em Lenguas Extranjeras” de Moscou 1949. Pág: 185-198.
Nota da Edição Original: Neste livro foram compilados discursos e artigos escolhidos de Mikhail Ivánovitch Kalínin dedicados à educação comunista, que abarcam um período de quase vinte anos. Alguns dos discursos são reproduzidos com pequenas reduções.
Transcrição e HTML:
Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


No dia 23 de outubro de 1942, o Presidente do Presídium do Soviet Supremo da URSS, Mikhail Ivánovitch Kalínin, recebeu no Kremlin um grupo de dirigentes das Reservas de Mão-de-Obra do Estado e das organizações do Komsomol, participantes da Conferência sobre questões relacionadas com o trabalho político de massas nas Escolas Profissionais, Ferroviárias e de Aprendizagem Industrial.

Na entrevista, que durou três horas, os chefes suplentes das direções regionais, territoriais e republicanas das Reservas de Mão-de-Obra, encarregados do trabalho político de massas e os dirigentes dos Comitês regionais e territoriais da União das Juventudes Comunistas Leninistas da URSS informaram o camarada Kalínin de como realizavam seu trabalho educativo entre a juventude chamada pelo Estado para receber uma instrução profissional nas citadas escolas e de como lutam pela boa qualidade de tal instrução.

Em sua intervenção, Mikhail Ivánovitch Kalínin assinalou a excepcional importância que tem a preparação da juventude nas Escolas Profissionais, Ferroviárias e de Aprendizagem Industrial, detendo-se numa série de problemas da preparação e educação da juventude.

A seguir publicamos um extrato da entrevista.

A camarada Góguina (chefe suplente da Direção das Reservas de Mão-de-Obra da região de Tula, encarregada do trabalho político): — Todas as escolas profissionais da região de Tula foram destruídas pelos invasores alemães, com exceção das que se achavam na própria cidade de Tula.

Nossos alunos trabalharam muito na restauração de todas as escolas e na reparação de suas instalações. É preciso destacar o trabalho da Escola Profissional número 12, que obteve o segundo prêmio da emulação socialista em toda a URSS

O camarada Kalínin: — Houve casos em que os jovens abandonaram vossas escolas sem permissão?

A camarada Góguina: Houve alguns casos. É bem verdade que quando os instrutores dão provas duma solicitude paternal, quando estudam as peculiaridades dos alunos e os tratam de forma individual, os jovens não abandonam a escola; ao contrário, ali onde os instrutores e educadores tratam os alunos com desapego e onde a própria educação se faz aos gritos, verificam-se casos de abandono da escola.

O camarada Kalínin: — Isto indica que a educação ainda não foi devidamente organizada.

A camarada Góguina: É um sério defeito de algumas de nossas escolas. Em muitas delas, onde os instrutores trabalham bem e revelam mestria pedagógica, obtêm-se êxitos no ensino profissional. Grandes êxitos obteve nossa Escola Ferroviária n? 2, que foi destacada ao fazer-se o balanço da emulação. Nessa escola há um bom educador, o instrutor Rassókhin, que dedica grande carinho aos jovens.

Camarada Kalínin, em uma conferência você disse que para ser pedagogo é preciso sê-lo de nascença. Pois bem, esse instrutor é um pedagogo nato. Sabe combinar a educação política da juventude com o ensino prático. Em Tula, seus alunos estenderam um ramal ferroviário de quatro quilômetros, pelo que receberam um prêmio e o agradecimento do Soviet e do Comitê do Partido da cidade.

O camarada Kalínin: — Como é que você trata seus alunos, como a meninos já crescidos ou como a pessoas adultas?

— Você falou de educação e de pedagogia, que quer dizer isso?

A camarada Góguina: Estabeleço uma diferença entre o sistema de educação nas escolas comuns e nas de reserva de mão-de-obra. A diferença é grande, já que nossos alunos são preparados diretamente para serem operários.

O camarada Kalínin: — Temo que você os esteja convertendo em pessoas adultas antes do tempo, que lhes tire tudo o que é próprio da juventude. Você, como pedagogo, deve percebê-lo. E diga-me: — os jovens conservam ou não sua fogosidade juvenil?

A camarada Góguina:Creio que a conservam. Por exemplo, em nossa Escola Profissional nº. 3 funcionam bastante bem um coro de 60 jovens, círculos de instrução militar, conjuntos artísticos e outros.

O camarada Kalínin: — Agora estamos em guerra e é preciso que as pessoas sejam valentes, que gostem do perigo e isso não se consegue com círculos corais. Os círculos, por si sós, são uma boa coisa, mas é necessário que vossos rapazes não se sintam como se estivessem num convento. Os jovens devem ser vivazes e valentes.

A educação da juventude é uma obra complexa e aqui o principal é o seguinte: de um lado, deve-se proporcionar aos jovens uma orientação determinada, e por outro, não se deve paralisar a faceta volitiva de seu caráter. Eles estão numa idade em que é fácil destruir esses traço de seu caráter. Isto encerra um grave perigo. É preciso evitar que se transformem em seres enfastiados, que tentam passar por adultos antes do tempo.

A camarada Ivanova (instrutora da Seção de Escolas Profissionais e de Aprendizagem Industrial do Comitê regional do Komsomol de Górki): — Em nossa região, uma das grandes escolas profissionais foi destruída pela aviação alemã.

O camarada Kalínin: — E os jovens foram afetados pelo bombardeio?

A camarada Ivanova:Não. Os jovens não sofreram dano algum, mas parte deles abandonou a escola depois do bombardeio.

O camarada Kalínin: -— Conte-nos este incidente: os jovens abandonaram a escola; e vocês, que fizeram em face disso?

O camarada Buchúiv (chefe suplente da Direção Regional das Reservas de Mão-de-Obra de Górki, encarregado do trabalho político): — Graças ao diretor, ao subdiretor encarregado do trabalho político e aos instrutores, a maioria dos alunos regressou à escola. Os próprios jovens repararam o edifício e as instalações. Hoje essa escola é uma das melhores da região.

O camarada Kalínin: — Como é que vocês interpretaram, do ponto de vista político, o fato de que os jovens tenham corrido e como o explicaram a eles, como abordaram vocês este assunto?

O camarada Buchúiev: — Antes de tudo lhes dissemos que Hitler necessitava daquele bombardeio, como precisava da guerra. Explicamos detalhadamente que devíamos reparar a escola com nossas próprias fôrças e que nosso dever era preparar quadros para a indústria.

O camarada Kalínin: — Isso é pouco. Vocês deviam ter reunido os jovens e dizer-lhes: — “Sois uns covardes! Fugistes. Que defensores da Pátria sereis, portanto? Vossos pais lutam contra os fascistas e vós fugis para as aldeias. Nós pensávamos que íeis salvar a escola, mas acontece que vos pusestes a correr. Onde está, pois, vossa valentia?” Era preciso dizer-lhes: — “Sois uns covardes e vos cobristes de vergonha ante toda a Rússia! Aparece apenas um avião e correis”.

É que os jovens devem ser tratados como jovens. Se eu fosse o diretor da escola lhes teria dito: — “Muito bonito! Eu fiquei só e vós correstes. Nós acreditávamos que éreis uns jovens valentes e tínhamos a intenção de dar-vos fuzis e metralhadoras. E vós, pernas para que vós quero... Será que vou dar aulas a uns covardes que fogem diante do menor perigo?” É assim que se deveria tê-los envergonhado e dizer-lhes logo depois disso: — “Para que seja menos perigoso, vamos cavar umas trincheiras e preparar tudo para o caso de outro bombardeio”.

É claro, os meninos se assustaram e fugiram, mas cada um deles quisera ser um valente. Asseguro-lhes que de cada cem noventa e nove querem ser valentes.

Vocês devem preparar os alunos, pois envergonhá-los é coisa fácil. Poderiam fazê-lo se lhes dissessem mais ou menos como eu: — “Vós escapastes e somente fiquei eu, um velho, Não me ajudastes”. Então, se envergonhariam e meditariam. É assim que se deve fazer o trabalho de agitação.

E se, por hipótese, tivessem ficado três meninas, seria o caso de apontá-las como exemplo, dizendo: — “Aqui tendes três valentes que ficaram enquanto os outros fugiam”, Você, ao contrário, soltou-lhes um discurso comicieiro, com frases de tipo geral, passando por alto o fato fundamental. Mas nisto residia todo o aspecto político da questão. E assim acontece a cada passo!

Quero lembrar que vocês não devem somente preparar gente que conheça sua profissão, mas também combatentes, cidadãos soviéticos.

A camarada Ivanova: — Em nossa região vai mal o incremento das organizações do Komsomol. Ali temos uma escola que figura entre as retardatárias, a de número 3, ligada à fábrica da Sórmovo.

O camarada Kalínin: — Por que?

A camarada Ivanova: Depende muito da direção, mas ali já trocaram três vezes de diretor. A organização do Komsomol não está em condições de fazer grande coisa. Além disso, durante muito tempo, não havia lá um diretor suplente incumbido do trabalho político. O contingente de alunos procedia naquela época das regiões de Orei e Tula. Dentre mil e quinhentos jovens somente oitenta e sete pertenciam ao Konsomol. Compreende-se que eles não podiam fazer grande coisa.

O camarada Kalínin: — Diga-me: organizam vocês algumas vezes saraus ou bailes?

A camarada Ivanova: Ao fazermos o balanço do mês, depois da reunião, organizamos um baile.

O camarada Kalínin: — Os alunos têm instrumentos de música?

A camarada Ivanova: — Sim.

O camarada Kalínin: — É preciso organizar noitadas para que os jovens dancem e se distraiam.

A camarada Ivanova: Realizamos uma conferência que foi assistido por quatrocentas pessoas. Convidamos velhos operários e também jovens que fizeram a aprendizagem nas escolas profissionais. Os velhos operários contaram em que condições trabalhavam antes do advento do Poder Soviético e como trabalham agora. Também falaram das facilidades oferecidas hoje em dia para os que estão aprendendo um ofício.

Os alunos mais desenvolvidos contaram como conseguiram seus êxitos. O estudante Belov, de quinze anos de idade, cumpriu em cinco dias 215% de sua tarefa. Depois da conferência houve concerto e baile.

O camarada Kalínin: — Perguntei pelo baile porque, tomo a repeti-lo, não quero que vocês convertam artificialmente os jovens nuns velhos. Não se deve deixar a dança de lado, porque esta ensina às pessoas a plasticidade do movimento. Quem sabe dançar, sabe entrar numa casa como é devido e seus movimentos serão mais ágeis. Nossa juventude gosta da dança. Verifico isto através dos jovens com quem trato. E já que o povo gosta, não há porque frear essa preferência. É preciso unicamente evitar que se transforme num passatempo constante, e sim — que sirva de descanso.

A camarada Galilina (chefe suplente da Direção das Reservas de Mão-de-Obra da República Socialista Soviética Autônoma da Tartária): — Temos 11 escolas profissionais, 2 ferroviárias e 23 de aprendizagem industrial, nas quais estudam 16.000 jovens. Atribuímos grande importância ao desenvolvimento da atividade artística de nossa juventude. Nossos educadores trabalharam muito para organizar grupos de canto, dança e música; prepararam e realizaram com bastante êxito um concurso entre os melhores conjuntos de madores das escolas de vanguarda. Os jovens gostam muito de canto, da declamação e outros gêneros de atividade artística.

O camarada Maximov (chefe suplente da Direção das Reservas de Mão-de-Obra de Leningrado, encarregado do trabalho político) fala do partido e do trabalho dos alunos e do pessoal das escolas profissionais, ferroviárias e de aprendizagem industrial da cidade de Leningrado, e da ajuda que prestam ao comando milhar na defesa da cidade contra os invasores fascistas alemães. Os alunos ajudaram a restabelecer a circulação dos bondes em Leningrado e a reparar o Palácio dos Pioneiros e outros edifícios da cidade.

Mikhail Ivánovitch Kalínin ouviu também as intervenções de outros funcionários das Reservas de Mão-de-Obra e de dirigentes das organizações do Komsomol da RSS da Bachkíria, da região de Molotov, da RSS do Azerbaidjão, das regiões de Tcheliabinsk e Yaroslavl, da RSS Autônoma dos Komi, das regiões de Arcángels e Kalínin, da cidade de Moscou e da região de Moscou.

Discurso de Mikhail Ivánovitch Kalínin

Camaradas: A educação dos que estudam no sistema de Reservas de Mão-de-Obra é uma empresa muito árdua e delicada e o método de abordá-la, um dos mais difíceis. Além disso, a própria tarefa de preparar reservas de mão-de-obra para o Estado é uma tarefa complexa.

Em primeiro lugar, é necessário preparar operários mais ou menos qualificados; em segundo lugar, queremos que a juventude que vem engrossar as fileiras da classe operária seja educada no espírito soviético e, em terceiro lugar, o assunto se complica devido à atual situação, em consequência da guerra.

O Estado encomenda aos que estudam no sistema das Reservas de Mão-de-Obra toda uma série de trabalhos destinados a cobrir as necessidades da frente que não teriam que fazer em tempo normal. Complicam-se os problemas relacionados com a alimentação, o vestuário e o calçado, sem falar em que a própria guerra já coloca a organização das Reservas de Mão-de-Obra em situação bastante difícil. Está claro que numa situação como esta resulta muito mais difícil formar operários como se deve.

A guerra está agora em pleno desenvolvimento e, apesar dos alunos do sistema das Reservas de Mão-de-Obra não serem chamados às fileiras, é bem possível que alguns deles tenham que combater. Por isso é absolutamente natural distraí-los de seu trabalho direto para que recebam treinamento militar. Numa época normal, de paz, dedicaríamos toda a nossa atenção à aquisição de conhecimentos e duma boa qualificação. Na situação atual, pelo contrário, somos obrigados a praticar a instrução militar em todas as escolas. Estamos preparando operários qualificados, mas, se as circunstâncias exigirem que partam para o combate, é necessário que estejam preparados para isso. Cometeríamos um erro imperdoável se não lhes proporcionássemos conhecimentos militares. Por isso considero que, na situação atual, os de Leningrado procedem acertadamente quando dão uma orientação militar à organização de seus alunos, apesar das dificuldades que isto representa para os jovens.

Temos a obrigação de formar operários jovens que conheçam bem o seu ofício, mas ao mesmo tempo devemos formar cidadãos soviéticos, combatentes, de modo que a juventude compreenda qual é seu dever para com a Pátria, ponha mais empenho era aprender o ofício, o domine com maior rapidez, produza, no processo da aprendizagem, mais armas e munições para o Exército Vermelho, estude o manejo das armas e se desenvolva fisicamente.

A Pátria não esquecerá o heroísmo de seus filhos que hoje lutam contra os invasores fascistas alemães nas frentes da Guerra Patriótica.

Também se lembrará, agradecida, do trabalho abnegado de nossos moços e de nossas moças, que estudam nas escolas profissionais, ferroviárias e de aprendizagem industrial, que ajudam a frente e se esforçam por estudar e trabalhar o melhor possível na retaguarda.

Ao falar da educação, devemos dizer que é muito difícil abordar praticamente este problema. Para isto sé requer que o pessoal dela encarregado seja muito qualificado.

Jovens de diversas regiões e de diferentes camadas da população acorrem ao sistema das Reservas de Mão-de-Obra. São moços e moças da cidade e do campo. Trata-se, é claro, de pessoas diferentes umas das outras. Tentai educá-las de forma que se desenvolvam por igual! Não é fácil a tarefa. Além disso, não devemos perder de vista um só instante que se trata quase de uns meninos, com todas as suas inclinações infantis. É verdade que a guerra e o ambiente que os cerca os faz maiores do que seriam em tempo de paz. Não obstante, nosso desejo é que conservem o mais possível suas inclinações juvenis. É indubitável que todo este conjunto de problemas é muito difícil de ser solucionado na prática.

Lê-de a literatura pedagógica universal. Ela nos oferece uma experiência rica e variada no terreno da educação do homem. Uns afirmavam que o melhor é educar os jovens na cidade; outros repeliam esta ideia e sustentavam a tese de que a educação deve fazer-se num ambiente rural. Existiam muitas outras teses e proposições sobre este tema. Apesar disso, não se pode dizer que tenha sido elaborado definitivamente e que se tenha cristalizado um determinado sistema de educação. Hoje, o sistema deve ser diferente do de três anos atrás, por exemplo. Antes, por assim dizer, formávamos intelectuais e não homens destinados ao trabalho físico. Pessoalmente considero desacerta- do tal sistema educativo, pois, apesar de tudo, em nosso Estado a massa fundamental da população se dedica ao trabalho físico. E diante de nós se apresentou a questão: que fazer para que nossos jovens sejam eficientes no trabalho físico e ao mesmo tempo intelectualmente desenvolvidos?

Hoje talvez se tenha acentuado em certa medida a tendência de aumentar as forças físicas, inculcar hábitos de trabalho, a tendência de habituar as pessoas a suportar toda sorte de adversidades, o que permitirá submeter nossa juventude a uma série de provas para curti-la. Assim como com os exercícios físicos e as competições esportivas de todo gênero visamos a temperar a fôrça física, da mesma maneira, com a submissão a uma rigorosa disciplina e inculcando hábitos de trabalho devemos curtir nossa juventude para que resista mais facilmente a todas as dificuldades com que cada homem pode tropeçar no caminho da vida.

Para isso, torna-se agora necessário que nossa juventude esteja preparada para superar dificuldades e tome apego ao trabalho com o fim de que, depois de passar por esta escola, sinta necessidade de trabalhar.

Nas fábricas existe uma camada considerável de operários especializados para os quais o ver-se privado da possibilidade de trabalhar equivale a perder o sentido da vida. Esses homens, ao serem obrigados a deixar o trabalho, seja por velhice ou enfermidade, parecem perder a metade de seu próprio ser, porque estão habituados ao trabalho, por que têm carinho pela sua profissão e, ao se verem privados da possibilidade de exercê-la, parecem perder todo o apoio na vida. Nós queremos que estas qualidades de amor ao trabalho sejam inculcadas, em maior ou menor grau, em nossos jovens operários.

É evidente que não estavam com a razão os camaradas que, ao intervir aqui, queriam fazer recair a tarefa da educação unicamente sobre os instrutores. Se eu fosse diretor duma escola profissional e me perguntassem que instrutor é preferível: o que tem dotes pedagógicos, mas conhece mal seu ofício, ou o que está pouco preparado em pedagogia, mas é um mestre no seu ofício — eu daria minha preferência ao que tem pouca preparação pedagógica mas é bem qualificado no seu ofício.

Por que procederia assim? Porque a influência do instrutor só será eficaz no caso em que os alunos sintam que ele lhes proporciona um conhecimento real do ofício. Este tipo de instrutores será sempre benéfico para os alunos. Citarei um exemplo. Antes, havia na Universidade professores de tendências reacionárias, porém que conheciam a fundo sua matéria e sabiam explicá-la com muita arte. Sempre acorriam numerosos ouvintes às conferências desses catedráticos, apesar de os estudantes saberem que eram uns reacionários. E existiam outros professores muito loquazes, que gostavam de empregar frasezinhas liberais e eram muito eloquentes. Nas suas primeiras conferências, os assistentes enchiam a aula. Mas depois os estudantes sérios deixavam de comparecer, porque não lhes ensinavam nada.

O mesmo acontece com nossos instrutores. Se conhecem bem o que trazem entre as mãos e sabem transmitir aos alunos seu ofício e seus conhecimentos, cumprirão a missão.

No que respeita ao fato de que tanto os instrutores como as mulheres encarregadas da limpeza devem educar os meninos, isto não deve entender-se no sentido literal, mas sim que tanto uns como outras, com sua conduta, com o fiel cumprimento de seus deveres e com o exemplo, deve incutir aos alunos a afeição ao trabalho, ao esmero e à ordem. Se a mulher encarregada da limpeza faz bem o seu trabalho e cuida para que os rapazes não façam lixo e os repreenda por isso, assim ela lhes in- culca determinados hábitos e sua influência sobre os alunos é positiva. Mas ela o faz porque o diretor lhe exige o cumprimento de suas obrigações.

É muito difícil que uma mesma pessoa reúna as qualidades de bom ajustador ou torneiro e de bom pedagogo. Aqui se disse com toda a razão que há instrutores que tratam paternalmente os meninos, mas, em meu entender isto se deve ao seguinte: é difícil imaginar que um bom operário não ame sua profissão, que esta lhe seja indiferente, que não ponha a alma nela. Um caso desses seria mais uma exceção do que um fenômeno comum. Um bom instrutor, cuja psicologia está intimamente ligada à sua profissão, empenha-se em transmitir seus conhecimentos aos alunos e, sem intenção especial, lhes dedica atenção em tudo. Esta é a essência da educação profissional da juventude.

Somente um instrutor que domina sua especialidade, que seja um mestre no seu ofício poderá ajudar seus alunos a aprender esses ofício. Devemos inculcar nos alunos o sentimento da honra profissional e isto só pode ser feito por um bom mestre, que conheça a profissão e sinta carinho por ela. Ao resto do pessoal só cabe cumprir suas obrigações com consciência. Se o fazem bem, obter-se-á indiretamente um efeito educativo, já que com seu exemplo habituam os alunos à ordem e lhes in- culcam determinados hábitos. É o ambiente que exerce sua influência através das relações cotidianas.

Como já disse, desejamos fazer de nossos jovens bons operários especializados e, de outra parte, bons cidadãos soviéticos. Nisto reside precisamente a responsabilidade dos dirigentes políticos do sistema das Reservas de Máo-de-Obra, que devem cultivar sistematicamente em nossos jovens operários a noção de que são membros da classe operária do País Soviético, que essa classe é a classe dirigente na sociedade soviética e é a que dirige toda a nossa vida. Estas são as ideias fundamentais que os dirigentes políticos, mais do que ninguém, devem inculcar na nossa juventude.

O Estado soviético é um Estado de operários e camponeses. No mundo não existe outro Estado como o nosso e nós somos seus defensores, seus representantes. Esta é a propaganda que deverão realizar dia a dia nossos dirigentes políticos. Os êxitos desta propaganda dependerão de sua habilidade.

Aqui me perguntaram: — “Qual deve ser a participação do Komsomol no sistema das Reservas de Mão-de-Obra?”

O sistema das Reservas de Mão-de-Obra é um sistema estatal.

É natural que o Komsomol desempenhe e deva desempenhar um importante papel em tal sistema, já que a massa dos alunos das Reservas de Mão-de-Obra está em idade de pertencer ao Komsomol. Se entre eles há poucos membros do Komsomol, isto se deve simplesmente à nossa própria negligência. Quanto ao mais, dentro de dois anos, 90% daquela massa deverão pertencer ao Komsomol. Mas, acaso isto significa que o Komsomol deve ser o dirigente administrativo ou político das escolas profissionais?

Claro que não.

O Komsomol é uma organização política que forma a ideologia política da juventude, faz com que essa ideologia adquira o espírito do Partido, prepara os jovens para seu ingresso no Partido.

Mas, talvez seja a parte educativa a que deve correr por conta do Komsomol? Creio que não. E mesmo que seja possível que meu pensamento radical a respeito não seja do agrado do Komsomol, julgai vós mesmos: nossas escolas e universidades se compõem integralmente de jovens em idade de pertencer ao Komsomol; mas, será que este os dirige? O Komsomol os ajuda a se formarem politicamente, torna-os mais conscientes, leva-os às organizações do Komsomol, organizações independentes que, em certo grau, não dependem dos organismos do Estado, que são os que administram as escolas e universidades.

Quem responde pela educação das Reservas de Mão-de- Obra? Você, camarada Moskátov(1), responde pela educação destas reservas e o Komsomol o ajuda. Você e não o Komsomol será quem vai responder perante o Governo pelos defeitos que possa haver nisto. É possível que de passagem se digar ao Komsomol: “Também vós, queridos camaradas, trabalhais mal", mas não é aos dirigentes do Komsomol que se destituirá do cargo, e sim ao chefe das Reservas de Mão-de-Obra.

Por conseguinte, aqui o trabalho de direção compete aos organismos das Reservas de Mão-de-Obra do Estado.

Passemos agora ao assunto de quem deve ser, portanto, o educador direto da juventude das Reservas de Mão-de-Obra. Acabo de dizer o quanto é difícil o trabalho do dirigente político e do educador. Essa tarefa deve ser atribuída a pessoas hábeis e dotadas de preparação teórica. Em geral, são preferíveis para essa tarefa pessoas adultas e experientes. Deve-se entregar este trabalho a membros do Komsomol — permiti-me a expressão — que já tenham ultrapassado a ideologia do Komsomol. Parece-me que as pessoas de idade mais madura servirão melhor para esta obra. Se se apresentasse diante dos rapazes um de sua idade, eles não lhe dariam muita confiança e lhe diriam: “Não hás de saber mais do que nós!” Os jovens querem pessoas de prestígio e nós devemos inculcar-lhes o respeito às pessoas de prestígio.

Parece-me que nesta tarefa as organizações do Komsomol devem desempenhar o papel de ajudantes, devem emprestar um pouco de fogo aos dirigentes dotados de experiência e de conhecimentos, porém que já tenham perdido algo de seu ardor. Creio, inclusive, que um educador mais experiente saberá melhor fazer intimidade com a juventude. Claro que não se porá a jogar futebol com os jovens, nem a competir em provas de natação com eles. Trata-se da influência política, do prestígio, do desejo dos jovens de adquirir os conhecimentos que ele possui, todas elas coisas valiosas que alguém com a mesma idade nem sempre possui. Os jovens sempre poderão dizer a um instrutor da mesma idade que a deles: — “Puxa, que espécie de mestre arranjamos; não somos menos desempenados que tu e sabemos tanto quanto tu!” Deve-se levar em conta a idade. Não quero dizer que os membros do Komsomol devem ser desprezados neste trabalho. Simplesmente me parece que as pessoas de idade madura são preferíveis.

Considero que, do ponto de vista formal, o Komsomol deve desempenhar no sistema das Reservas de Mão-de-Obra o mesmo papel que desempenha nas empresas e instituições. E, de fato, o Komsomol desempenha aqui um papel de suma importância, pois é o auxiliar do Partido na educação dos jovens quadros operários.

O Komsomol deve criticar os defeitos e exigir que a educação seja organizada devidamente. Se o Komsomol participasse de um ou de outro modo na direção, arcaria também com a responsabilidade e não teria a necessária liberdade de ação. Em nenhum país o Komsomol ocupa um lugar tão destacado como no nosso. Eu mesmo o aprecio extraordinariamente. Mas não se lhe devem atribuir funções que não lhe competem.

Os casos de abandono das escolas profissionais devem-se á má organização. É claro que no princípio os moços e moças que saíram das aldeias não se sentem à vontade. Na cidade tudo lhes causa medo. Eu o digo por experiência própria. É como se caísse num mundo completamente estranho. Além disso, estão acostumados à liberdade e na escola impera a disciplina. Para acostumar-se à fábrica é também preciso tempo e um período bastante grande. Em dois meses a gente não se habitua e no princípio tudo mete medo, E se acrescentarmos isso à má organização, certos defeitos e alguma desordem, compreender-se-á que seja difícil aos jovens se adaptarem.

Considero que nas escolas urbanas das Reservas de Mão-de-Obra deverá haver mais alunos procedentes das cidades, o que facilitará vosso trabalho. É certo que parte da juventude urbana sonha com outros trabalhos, aspira a trabalhar num escritório ou como contador, mas também desta juventude se pode tirar operários bons e qualificados. Isto é muito importante.

Compreendo toda a dificuldade do trabalho no sistema das Reservas de Mão-de-Obra, mas o empreendimento a que vos entregastes e de suma importância para o Estado. Tende presente que estamos preparando novos quadros de jovens operários dos quais dependerá o fortalecimento do regime soviético. O camarada Stálin salientou mais de uma vez que não podemos permanecer indiferentes diante da forma como vão se completando em nosso pais as fileiras da classe operária. Queremos que vá à classe operária a parte melhor de nossa população, que na sociedade soviética a classe operária alcance um elevado nível político e intelectual.

A tarefa que vos foi entregue é grande e trabalhosa. Se conseguirmos dar-lhe cumprimento, teremos prestado um grande serviço ao nosso país.

Desejo-vos muito êxito em vosso trabalho!

Compartilhe este texto:
Início da página
 
Visite o MIA no Facebook
 

Notas de rodapé:

(1) P. MoskátovChefe da Direção Central das Reservas de Mão-de-Obra, anexa ao Conselho de Comissários do Povo da URSS. Depois, vice-ministro das Reservas de Mão-de-Obra. (N. da R.). (retornar ao texto)

Inclusão 29/11/2012