A Palavra do Agitador na Frente
Intervenção na entrevista celebrada com os Agitadores chegados da Linha de Frente

M. I. Kalinin

28 de Abril de 1943


capa

Primeira Edição: “A palavra do agitador na frente”, págs. 15-24. Edições Militares do Comissariado do Povo da Defesa, 1943.
Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, 1954. Traduzido da edição em espanhol de "Ediciones em Lenguas Extranjeras” de Moscou 1949. Pág: 210-217.
Nota da Edição Original: Neste livro foram compilados discursos e artigos escolhidos de Mikhail Ivánovitch Kalínin dedicados à educação comunista, que abarcam um período de quase vinte anos. Alguns dos discursos são reproduzidos com pequenas reduções.
Transcrição e HTML:
Fernando A. S. Araújo.
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Todo agitador aspira a que sua palestra esteja cheia de familiaridade. Que quer dizer familiaridade? Sei que, com frequência, os agitadores vão visitar os soldados com o deliberado propósito de falar com eles com o coração na mão. E basta o próprio fato de que o agitador coloque de antemão este objetivo diante de si mesmo para que tire toda a naturalidade à palestra. Mas se o agitador vai tomar um chá com os soldados e entabula com eles uma conversação sobre qualquer tema, para depois abordar uma questão que lhes interesse, então sim a palestra não terá nenhum caráter forçado.

Outro exemplo. Se alguém cometeu uma falta e a gente o admoesta paternalmente, lê o regulamento para ele, mas depois diz: “Bem, não contarei a ninguém, mas lembra-te de que se reincidires não poderei ocultá-lo”, também esta será uma conversação cheia de familiaridade. Ao contrário, quando alguém chega com o propósito especial de falar com toda a naturalidade, quase nunca consegue.

Ao falar da naturalidade, refiro-me às palestras em que os homens não se sentem coibidos por nada, perguntam tudo o que desejam ou o que mais lhes interessa e não têm a impressão de que o agitador foi visitá-los com um fim determinado. É sabido que os agitadores devem realizar muitas palestras sobre determinados temas e que estas palestras devem ser feitas. Mas nessas conversas de caráter familiar a que me referi o tema surge como que de modo espontâneo.

Tratai de provocar um intercâmbio de opiniões entre os assistentes, de arrastá-los à discussão na qual vós sereis uma espécie de árbitro incumbido de decidir qual deles tem razão.

A naturalidade na conversa não significa que esta não deva ser orientada. Sim, devemos orientá-la. Mas isto deve ser feito de modo que as pessoas não tenham a impressão de que fostes visitá-las com um objetivo predeterminado.

Mas é perfeitamente justo visitar os soldados e dizer-lhes: “Hoje vim fazer uma palestra sobre tal tema”, pois o trabalho de agitação não pode se basear única e exclusivamente em conversas espontâneas. Mas, qualquer que seja o tema que vos toque abordar, deveis chegar sempre à mesma conclusão: temos que derrotar os alemães e para isso é preciso fazer todo o possível e o impossível.

A própria forma da palestra depende das circunstâncias. Se o auditório é numeroso, ela pode assumir a forma de conferência ou de comício. Se a celebrais num refúgio, podeis organizá-la sob a forma de perguntas e respostas. Pois bem: se que- reis que os soldados tenham uma ideia mais completa sobre determinada questão, podeis limitar-vos a ela, prevenindo os ouvintes de que falareis com eles unicamente sobre tal tema, deixando para mais tarde as demais questões.

Quero chamar vossa atenção para o fato de que o agitador deve evitar apresentar-se como uma pessoa dotada de mais conhecimentos ou de mais inteligência que a massa que o cerca. Tenho uma longa experiência de propagandista e agitador e sei que se as pessoas notam o menor sintoma de envaidecimento por parte do agitador ou de que este se considera mais inteligente do que elas, esses agitador está perdido, pois ninguém terá confiança nele. Deveis falar aos soldados como a pessoas que entendem tudo. E se qualquer deles diz que não entende alguma coisa, podeis objetar-lhe — “Por que finges, acaso tens um melão no lugar da cabeça? Percebo que entendes tudo tão bem como eu, mas te fazes de tolo”. Não se deve tratar o povo com desdém. Não importa que digam dum soldado: “É um ignorante, não sabe nada”. Deveis refutar essas coisas: “Já conhecemos esses ignorantes. Vereis que bom soldado dará! Já estivestes na frente e lá aprendestes alguma coisa. Ele também será como vós”. Pois bem, se tratardes as pessoas desta forma, elas vos respeitarão.

Podem perdoar-vos muitas coisas, mas jamais vos perdoarão o envaidecimento e o que é mais importante, jamais vos considerarão inteligentes. Suponhamos, por exemplo, que vos inteirais de que um soldado já está há muito tempo na linha de frente e ainda não matou nem um só alemão. Este fato pode ser abordado de diversas maneiras. Um agitador começará por censurá-lo, outro lhe dirá que seus companheiros já mataram vários alemães. Eu lhe diria mais ou menos o seguinte: “Que vamos fazer? Nem todos os soldados podem matar alemães. Se todos o fizessem já há muito tempo que teríamos acabado com todos eles. Entretanto, seria melhor que cada soldado matasse algum alemão. Guerra é Guerra. Os alemães querem acabar conosco e nós queremos fazer o mesmo com eles. Por isso, cada soldado acima de tudo deve procurar matar o inimigo”.

O agitador deve ser veraz. Não pinteis quadros cor de rosa para os soldados, mostrai-lhes a realidade tal qual é, não temais apontar-lhes as dificuldades, pois estais tratando com pessoas adultas que sabem compreender as coisas.

O mais difícil do trabalho de agitação é aprender a falar como é devido. A primeira vista parece não haver nada de complicado nisso: o homem começa a falar aos dois anos! Mas, na realidade, é uma tarefa importante e difícil. Em que consiste a dificuldade?

O agitador deve transmitir seus pensamentos de forma brilhante, para que impressionem, e, além disso, para que produzam precisamente a impressão desejada. Ao mesmo tempo, deveis expor vossas ideias de forma concisa, pois vosso tempo é pouco.

As ideias devem ser claras para os ouvintes e compreensíveis para todos e para cada um deles. É muito difícil conseguir tudo isso.

É preciso aprender a língua lendo os clássicos. Tomemos Turguêniev. Onde podereis encontrar uma descrição do aspecto exterior dos personagens como a que ele faz dos heróis de suas obras? Tentai descrever mesmo que não seja mais do que vossa própria esposa. Saberíeis encontrar as palavras necessárias? Nem todos saberiam fazê-lo, apesar de conhecê-la tão bem. Fá-lo-iam com frases comuns. Mas o que se exige do agitador é algo mais do que isso, é preciso que sua descrição seja feita cm cores vivas.

A linguagem é tudo para o agitador. Falais com os soldados de coisas que eles conhecem. Por conseguinte, somente podereis despertar seu interesse se lhes falardes destas coisas com palavras vivas e bem ditas. Não digo com palavras “bonitas”, porque, com frequência, muitos abusam da retórica, pensando que isto está muito bem. Mas, na realidade, fica muito mal encher a palestra de frases estereotipadas. Conheço agitadores capazes de falar três horas seguidas, mas depois de suas intervenções não ficam nas cabeças dos ouvintes mais do que umas quantas exclamações. Porque seus discursos não contêm nenhuma ideia. Vossos ouvintes são soldados, pessoas simples que percorreram milhares de quilômetros combatendo, que viram muitos horrores, de modo que as frases batidas, e ribombantes ainda por cima, eles as sentem sobretudo como uma punhalada. O de que eles necessitam é que o agitador exponha determinadas ideias de forma clara e concisa, com particularidade de que nunca é demais repetir as boas ideias. Não importa que vos digam, por exemplo: “Por que insistes tanto no entrincheiramento?” A isso podeis responder: “Continuarei falando disso até que aprendais a entrincheirar-vos bem; dói-me que percais a vida inutilmente”.

O agitador deve ser uma pessoa culta. Tem que ler muito e cultivar seu intelecto. Eu diria que o agitador deve dedicar todo o seu tempo livre à leitura. Lede as obras de nossos clássicos. Lede as obras de Lênin e Stálin. Aprendei a realizar o trabalho de agitação no estilo stalinista. O camarada Stálin é um ótimo agitador. Como sabe falar ao povo!

É sempre necessário preparar-se bem para as palestras, inclusive quando o agitador tem boa instrução, leu muito e conhece a arte militar. Pois, apesar de tudo, nossos conhecimentos são limitados e por isso é preciso preparar conscienciosamente cada palestra, aproveitando ao máximo os conhecimentos que possuímos. Por este motivo, sou partidário da organização mais frequente de palestras sobre temas fixos, pois estas proporcionam maiores conhecimentos e disciplinam as pessoas. Mas, quando vos dais conta de que o tema começa a cansar e que surge o desejo de conversar simples e cordialmente, então, ide tomar chá com os soldados e conversar com eles com toda a simplicidade e naturalidade.

Mas deveis ir preparados até para uma conversa desse gênero, porque no transcurso da mesma podem fazer numerosas perguntas. Não deveis escamotear as respostas nem tratar de passar por alto por uma pergunta feita. Tampouco deveis assustar-vos se não podeis responder a alguma delas. Dizei aos soldados com franqueza: “Não sei, procurarei a resposta em algum livro e quando a encontrar eu vos direi”.

Às vezes os soldados costumam dizer-nos: “Entre nós, particularmente entre os mais velhos, há crentes que trazem cruzes e rezam, mas os jovens os ridicularizam”... É necessário ter presente que nós não perseguimos ninguém por suas crenças. Consideramos a religião como um extravio e lutamos contra ela, ilustrando o povo. E como a religião ainda se estende a camadas consideráveis da população e algumas pessoas são profundamente crentes, não é com chacotas que poderemos combatê-la. É claro que não há nada grave no fato de um jovem fazer alguma troça. O importante é que as brincadeiras não se transformem em escárnio. Isso é o que não se deve tolerar.

O que é que exige atenção especial dos agitadores nestes momentos?

Mais do que tudo é preciso propagar o espírito de organização. Como? Darei um exemplo simples: é hora da comida, mas o rancho ainda não chegou e é preciso sair para procurá-lo Ao topar com uma situação destas, tendes um tema para uma palestra sobre o espírito de organização. Debatei como se pode conseguir que o rancho chegue sempre a tempo e que medidas cumpre tomar para isso. Numa palestra deste gênero não será de mais censurar como é devido nossa negligência russa, contra a qual temos que continuar lutando ainda hoje em dia. Se eu fosse agitador, dedicaria noventa por cento do meu tempo a este tema.

Nosso principal defeito é a imprevisão. Ainda costumamos ser despreocupados e com frequência pensamos: “Ora, de qualquer forma há de se dar um jeito!” É sabido por todos que quando uma unidade ocupa posições na frente, ela deve pôr todo o seu empenho em reforçá-las e manter-se nelas; quando empreende uma ofensiva, deve fazer todo o possível para que esta seja eficaz e se desenvolva com um mínimo de baixas. Mas entre nós as coisas muitas vezes são feitas na hora, obtendo-se um mau resultado, como consequência. É preciso desterrar decididamente a improvisão.

No período inicial da guerra tropeçamos com muitas dificuldades, porque não organizávamos devidamente o combate, quando na realidade tudo depende da boa organização do mesmo. Todos os chefes militares devem ser excelentes organizadores. Antes, muitos chefes pensavam que era preciso organizar o combate do posto de comando. Mas esta já é a última etapa da organização. Quando o combate começou e o chefe ocupa seu posto de comando, ele não faz mais do que recolher os frutos do trabalho previamente realizado.

Considero muito importante inculcar nos soldados o sentido da precaução. Não é justo que os soldados se disponham a comer num lugar descoberto, na zona da frente- Qualquer projétil que caia nesse momento provocará um desastre. Morrerá gente e serão necessárias substituições. Vós, os agitadores, deveis lutar energicamente contra os que adotam uma atitude negligente com o perigo.

Também deveis propagar o desenvolvimento da destreza militar e a astúcia. Insisto na astúcia, porque vós desenvolveis vosso trabalho entre os soldados, cujo campo de ação é limitado. É preciso inculcar nos soldados a ideia de que devem meditar bem suas ações, que devem procurar fazer tudo da melhor maneira e que, na medida do possível, devem superar o inimigo em astúcia. A arte do sniper(1) é muito valiosa, entre outras coisas porque habitua o soldado a calcular bem seus atos e desenvolve nele, por assim dizer, qualidades de caçador. O sniper procura matar o inimigo e o inimigo procura matar o sniper Por isso o sniper deve conhecer todos os recursos da astúcia, tem que saber camuflar-se e deve ter olho de lince e mão firme. É preciso cultivar essas qualidades não só no sniper, mas em todos os nossos combatentes.

Prestai muita atenção para que os soldados se habituem a cavar trincheiras. Às vezes procura-se fugir a esses trabalho, especialmente durante as ofensivas. Os soldados costumam dizer: “Para que vamos cavar trincheiras, se dentro de meia hora já não nos farão falta?” Mas vós deveis inculcar-lhes a ideia de que sempre é um trabalho necessário e, mesmo que a trincheira depois não faça falta, é um treinamento muito necessário na luta que sustentamos.

Também acho que deveis prestar mais atenção aos feridos. Eles precisam de alento e simpatia e é aí que podeis demonstrar cordialidade. O soldado ferido se recordará sempre do bom trato recebido e falará disso em mil lugares. Em consequência, uma palavra pronunciada a meia voz se difundirá até muito longe.

Deveis cultivar nos soldados um profundo respeito pelos que tombaram. Qual é a atitude do povo diante de um morto? Em presença de um morto todo o mundo fala em voz baixa. Devemos honrar os mortos em combate e sois vós, os agitadores, quem deve implantar esses costume. Escrevi aos presidentes dos Comitês Executivos dos Sovietes locais no sentido de que cuidem das valas comuns e de que se dê essa tarefa aos piorneiros. Em vossas unidades, deveis conseguir que os enterros sejam feitos na devida forma e que se erga um túmulo sobre cada fossa. É claro que isto nem sempre é possível quando o exército avança, mas também há agitadores no segundo escalão. Deveis propagar a ideia e cuidar para que, na medida do possível, se dê um caráter solene aos enterros dos soldados. Isto exercerá grande influência sobre a educação do povo e o habituará a ter carinho para com os defensores da Pátria.

O agitador deve ser sempre o guia das massas e conduzi-las. O papel do agitador adquire particular importância durante o combate. Ocorre às vezes que até uma boa unidade, ao sofrer grandes baixas, perde a confiança em suas fôrças. Em tais momentos, o agitador pode elevar o moral dos soldados e conseguir uma reviravolta no curso do combate.

O agitador deve sempre estudar o lugar e levar em consideração qual é a gente com a qual tem que atuar. Tratais com soldados, gente disciplinada, porém que suporta grandes sofrimentos. Deveis ter isto em conta, bem como que são pessoas de diferente nacionalidade, idade e caráter. Tudo isto deve estar presente para o agitador.

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Notas de rodapé:

(1) Atirador especializado. (retornar ao texto)

Inclusão 22/12/2012