Um Novo Massacre

V. I. Lênin

Junho de 1901


Primeira Edição: Iskra, n.° 5, junho de 1901. Encontra-se in Obras, t. V, págs. 13/18.
Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, novembro de 1961. Traduzido por Armênio Guedes, Zuleika Alambert e Luís Fernando Cardoso, da versão em espanhol de Acerca de los Sindicatos, das Ediciones em Lenguas Extranjeras, Moscou, 1958. Os trabalhos coligidos na edição soviética foram traduzidos da 4.ª edição em russo das Obras de V. I. Lênin, publicadas em Moscou pelo Instituto de Marxismo-Leninismo, anexo ao CC do PCUS. As notas ao pé da página sem indicação são de Lênin e as assinaladas com Nota da Redação foram redigidas pelos organizadores da edição do Instituto de Marxismo-Leninismo. Capa e planejamento gráfico de Mauro Vinhas de Queiroz. Pág: 48-53.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

capa

Pelo visto, estamos atravessando um momento em que nosso movimento operário encaminha-se de novo, com força incontível, para choques agudos que tanto assustam o governo e as classes possuidoras e que tanto alentam e alegram aos socialistas. Sim, esses choques nos dão alento e alegria, malgrado o enorme número de vítimas da repressão armada, porque a classe operária demonstra com sua resistência que não se resigna com a sua situação, não quer continuar sendo escrava, não se submete em silêncio à violência e á arbitrariedade. O atual regime impõe sempre, e de modo inevitável, à classe operária, mesmo com a mais pacífica marcha dos acontecimentos, sacrifícios sem medida. Milhares e dezenas de milhares de homens que trabalham durante toda a sua vida para criar riquezas alheias perecem em virtude da fome e da inanição constantes, correm prematuramente em consequência das enfermidades contraídas nas insuportáveis condições de trabalho, residências miseráveis e falta de descanso. Merece cem vezes o nome de herói quem prefere sucumbir na luta aberta contra os defensores e guardiães desse regime abominável a perecer em morte lenta como uma besta de carga submersa no embrutecimento, extenuada e submissa. Não queremos dizer, de modo algum, que o combate corpo a corpo com a polícia seja a melhor forma de luta. Pelo contrário, sempre indicamos aos operários que o que lhes deve interessar é fazer com que a luta seja mais serena e comedida, esforçar-se para orientar todo descontentamento para o apoio à luta organizada do partido revolucionário. Mas a fonte principal que nutre a social-democracia revolucionária é exatamente esse espírito de protesto das massas operárias que, dadas a opressão e a violência que cercam os operários, não pode deixar de culminar, de vez em quando, em explosões desesperadas. Essas explosões despertam para a vida consciente camadas mais extensas de operários atormentados pela miséria e a ignorância, propagam entre eles o espírito de um nobre ódio aos opressores e aos inimigos da liberdade. Por isso, a notícia de uma matança como a ocorrida, por exemplo, no dia 7 de maio na fábrica de Obukhov, obriga-nos a exclamar: “A insurreição operária foi reprimida, viva a insurreição operária!”

Houve uma época, relativamente recente, em que as insurreições operárias constituíam uma rara exceção e se deviam exclusivamente a determinadas condições especiais. Agora não é assim. Faz alguns anos, atravessávamos um período de prosperidade da indústria, no qual o comércio era ativo e se registrava uma grande procura de mão-de-obra. E, apesar disso, os operários realizaram diversas greves procurando conseguir melhores condições de trabalho: os operários compreenderam que não deviam deixar passar a ocasião, que deviam aproveitar o momento em que os lucros dos patrões eram bastante elevados e quando se podia obrigá-los mais facilmente a fazer concessões. Mas, à prosperidade seguiu-se a crise: as mercadorias dos patrões não encontram saída, seus ganhos diminuem, aumenta o número de falências, as fábricas reduzem a produção e despedem os operários, que em massa são postos na rua, ficando privados do pedaço de pão. Os operários sentem a necessidade de lutar desesperadamente, já agora não para melhorar sua situação, mas para manter a anterior, para diminuir as perdas que os patrões descarregam em cima deles. Portanto, o movimento operário adquire profundidade e amplitude: a princípio, é uma luta em determinados casos excepcionais, depois, uma luta tenaz e ininterrupta durante a reanimação da indústria e a reativização do comércio, e, por último, essa mesma luta ininterrupta e tenaz durante a crise. Agora já podemos dizer que o movimento operário passou a ser um fenômeno constante de nossa vida e que há de crescer, quaisquer que sejam as circunstâncias.

Mas a substituição da reanimação da indústria pela crise não só ensinará aos operários que a luta unida é para eles uma necessidade permanente. Esta substituição também dissipará as nocivas ilusões que já haviam começado a elaborar-se no período de prosperidade da indústria. Em alguns lugares, os operários conseguiram, com relativa facilidade, arrancar dos patrões concessões, por meio de greves, e começaram a exagerar a importância dessa luta “econômica”, começaram a esquecer que com as associações profissionais (gremiais) dos operários e com as greves consegue-se apenas, no melhor dos casos, alcançar condições um pouco mais vantajosas para a venda da mercadoria chamada força de trabalho. As associações gremiais e as greves não podem ajudar quando esta “mercadoria” não é procurada em virtude da crise, não podem modificar as condições que convertem a força de trabalho numa mercadoria e condenam as massas trabalhadoras às mais duras privações e ao desemprego. Para modificar tais condições torna-se necessária a luta revolucionária contra todo o regime social e político atual, e a crise industrial obrigará, muitos operários a se persuadirem da justeza dessa verdade.

Voltemos ao massacre de 7 de maio. Mais adiante citaremos os dados de que dispomos sobre as greves e agitações dos operários de Petersburgo por ocasião do 1.° de Maio. Aqui analisaremos o comunicado da polícia sobre a matança de 7 de maio. Nesses últimos tempos já nos habituamos um pouco aos comunicados governamentais (ou policiais, dá no mesmo) sobre as greves, manifestações e choques com as tropas; agora já dispomos de uma documentação considerável para julgar a respeito da veracidade de tais comunicados; às vezes, através da fumaça das falsidades da polícia, podemos adivinhar o fogo da indignação popular.

"o dia 7 de maio — diz o comunicado oficial — depois do intervalo para almoço, nas fundições de aço de Obukhov, situadas na aldeia de Alexandrovskoie, na estrada de Shlisselburg, cerca de 200 operários de diferentes setores da fábrica interromperam o trabalho e, na entrevista mantida com o tenente-coronel Ivanov, subdiretor da empresa, apresentaram diversas reivindicações improcedentes”.

Se os operários suspenderam o trabalho sem avisar com duas semanas de antecedência — supondo que a suspensão do trabalho não foi ocasionada por desaforos dos patrões, como acontece muito frequentemente — isso, inclusive segundo a legislação russa (que ultimamente se tem reforçado e aperfeiçoado sistematicamente contra os operários) constitui um simples ato de alteração das normas policiais que se encontra na jurisdição do juiz de paz. Mas o governo russo coloca-se cada vez mais numa situação ridícula com seus rigores: por um lado, ditam-se leis que estabelecem novos delitos (por exemplo, o abandono não autorizado do trabalho ou a participação num distúrbio que origina danos para os bens alheios ou que represente uma reação violenta frente à força armada), agravam-se as penas pela participação em greves, etc, e, por outro lado, perde-se a possibilidade física e política de. aplicar essas leis e de impor sanções de acordo com a lei. Não há possibilidade física de exigir responsabilidade a milhares e dezenas de milhares de pessoas por abandonarem o trabalho, por se declararem em greve e por promoverem “distúrbios”. Não há possibilidade política de instaurar em cada um desses casos um processo judicial, pois, por mais preparado que esteja o tribunal e por mais que se evite a publicidade, sempre restará um resquício de tribunal e, naturalmente, de um “tribunal” não contra os operários, mas contra o governo. Pois bem, as leis penais promulgadas com a finalidade direta de facilitar a luta política do governo contra o proletariado (e de encobrir, ao mesmo tempo, o caráter político dessa luta por meio de considerações “de Estado” sobre a “ordem pública”, etc) ficam irremissivelmente relegadas a um segundo plano para luta política direta, pelos choques abertos de rua. A “justiça” tira a máscara de imparcialidade e solenidade e foge, deixando o campo de ação à polícia, aos gendarmes e aos cossacos, aos quais se recebe a pedradas.

Recordai essa alusão do governo às “reivindicações” dos operários. Do ponto de vista da lei, a suspensão do trabalho é um delito, independente das reivindicações que os operários apresentem. Mas o governo já perdeu a possibilidade de situar-se no terreno da lei que ele mesmo promulgou em data tão recente, e trata de justificar a repressão feita “com seus próprios meios”, afirmando que as reivindicações dos operários eram improcedentes. Mas quem foi o árbitro nesse assunto? O tenente-coronel Ivanov, subdiretor da fábrica, isto é, o mesmo chefe de que os operários se queixavam! Não é de estranhar que os operários respondam a pedradas tais explicações dos poderosos!

E quando os operários saíram em massa para a rua, paralisando o movimento dos bondes puxados a cavalos, começou uma verdadeira batalha. Pelo que se vê, os operários se bateram com todas as suas forças, pois conseguiram por duas vezes rechaçar o ataque da polícia, dos gendarmes, da guarda-montada e da escolta armada da fábrica(1), e isto apesar de as pedras terem sido a única arma dos operários. Certamente — a dar crédito ao comunicado da polícia — da multidão partiram “alguns disparos”, mas ninguém foi ferido. Em compensação, houve uma “chuva” de pedras, com a particularidade de que os operários não só manifestaram tenacidade na resistência, como também engenho e capacidade para adaptar-se imediatamente às condições e escolher a melhor forma de luta. Ocuparam os pátios vizinhos e apedrejaram os janízaros tzaristas das paliçadas, de modo que mesmo depois de três descargas, em consequência das quais morreu um operário (um só?) e oito ficaram feridos (?) (um morreu no dia seguinte). Inclusive depois disso, apesar de a multidão ter-se dispersado, ainda continuou a batalha e as companhias do regimento de infantaria de Omsk chamadas em seguida tiveram de “desalojar os operários” dos pátios próximos.

O governo venceu. Mas cada vitória dessa natureza aproximará inevitavelmente sua derrota definitiva. Cada batalha contra o povo multiplicará o número de operários indignados e dispostos ao combate, promoverá chefes mais capazes, mais armados e decididos. Quanto ao plano a que devem procurar ater-se em sua atuação esses chefes, já tivemos oportunidade de expressar nossa opinião anteriormente. Já apontamos mais de uma vez a necessidade absoluta de uma vigorosa organização revolucionária. Mas a propósito de acontecimentos como os de 7 de maio também é preciso não perder de vista o seguinte:

Ultimamente se tem falado muito que a luta de rua contra o exército moderno é impossível e carece de possibilidades de êxito; insistiram nisso sobretudo os inteligentes “críticos” que fizeram passar a velha embrulhada da sabedoria burguesa por novas deduções de uma ciência imparcial, tergiversando assim as palavras de Engels, que se referia, e além disso com reservas, apenas a uma tática temporária dos social-democratas alemães. Mesmo tomando-se como exemplo uma escaramuça isolada vemos que todas essas divagações são puros disparates. A luta de rua é possível; carece de perspectiva não a situação dos lutadores, mas sim a do governo, se ele tem que se avir não só com o pessoal de uma fábrica. Na escaramuça de 7 de maio, os operários tinham somente pedras, mas, naturalmente, não será a proibição do governador da cidade que os impedirá de arranjar outras armas na próxima vez. Os operários não estavam preparados e eram só 3 500, mas rechaçaram várias centenas de homens da guarda-montada, da gendarmeria, da guarda municipal e de unidades regulares de infantaria. Como podeis recordar, não foi fácil à polícia tomar de assalto apenas uma casa, a de número 63, da estrada de Shlisselburg! Acreditais que será fácil “desalojar os operários” não apenas de dois ou três pátios e casas, mas de bairros operários inteiros de Petersburgo? Quando as coisas chegarem à luta decisiva, não terão de “desalojar” das casas e dos pátios da capital não só os operários, mas todos que não esqueceram a infame matança de 4 de março, todos que não se resignaram com a existência de um governo policial e que estão apenas intimados, ainda sem fé em suas próprias forças?

Camaradas! Procurai recolher os nomes de todos os mortos e feridos do dia 7 de maio! Que todos os operários da capital honrem a sua memória e se preparem para a nova e decidida luta contra o governo policial, pela liberdade do povo!

Compartilhe este texto:
Início da página
 
Visite o MIA no Facebook
 

Notas de rodapé:

(1) A propósito. O comunicado do governo afirma que a “escolta armada da fábrica” “já se encontrava preparada no pátio da fábrica”, enquanto os gendarmes, os cavalarianos e os guardas municipais foram chamados mais tarde. Desde quando e por que tinham preparada no pátio da fábrica a escolta armada? Não a tinham desde o 1.º de Maio? Não esperavam que houvesse manifestação operária? Não o sabemos, mas não há dúvida de que o governo oculta intencionalmente os dados de que dispõe a respeito do que originou e fez aumentar o descontentamento e a efervescência dos operários. (retornar ao texto)

Inclusão 19/10/2012