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Primeira Edição: Escrito em setembro de 1905. Publicado, pela primeira vez, em 1924, na revista Pod Znamenien Marksizma (Sob a Bandeira do Marxismo), n.“ 2. Encontra-se in Obras, t. IX, págs. 264/268. |
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Os congressos dos social-democratas alemães já adquiriram há muito tempo uma importância que transcende em muito dos limites do movimento operário alemão. A social-democracia alemã marcha à frente de todos, por sua organização, pela integridade e coesão do movimento, pela riqueza e pelo conteúdo da literatura marxista. É natural que em tais condições as resoluções dos congressos social-democratas alemães assumam frequentemente um alcance quase internacional. Assim ocorreu no problema das novíssimas correntes oportunistas no socialismo (bernsteinianismo). A resolução do congresso social-democrata de Dresde, reafirmando a velha e provada tática da social-democracia revolucionária, foi acolhida pelo congresso socialista internacional de Amsterdã e passou a ser hoje uma resolução geral de todo o proletariado consciente do mundo inteiro. O mesmo acontece agora. O problema da greve política de massas — problema principal dó Congresso de Iena — inquieta toda a social-democracia internacional. ultimamente, os acontecimentos numa série de países, talvez de modo particular na Rússia, promoveram-no ao primeiro plano. E a resolução da social-democracia alemã exercerá, sem dúvida, muita influência sobre todo o movimento operário internacional, no sentido de apoiar e fortalecer o espírito revolucionário dos operários em luta.
Comecemos, porém, fazendo uma breve referência às demais questões, menos importantes, examinadas e resolvidas pelo Congresso de Iena. Este tratou principalmente do problema de organização do Partido. Naturalmente, não vamos nos deter aqui nos detalhes da revisão dos estatutos do Partido alemão. É importante salientar o traço fundamental, extraordinariamente característico, desta revisão: a tendência a aplicar de modo mais completo e rigoroso o centralismo, a criar uma organização mais forte. Essa tendência exprimiu-se, em primeiro lugar, na inclusão nos estatutos da indicação explícita de que cada social-democrata é obrigado a pertencer a uma das organizações do Partido, exceto os casos em que razões particularmente sérias não o permitam. Em segundo lugar, essa tendência expressou-se na substituição do sistema de delegados pelo sistema de organizações social-democratas locais, na substituição do princípio de delegação pessoal e de confiança pessoal pelo princípio do vínculo coletivo, do vínculo da organização. Em terceiro lugar, exprimiu-se na decisão em virtude da qual todas as organizações do Partido têm o dever de contribuir com 25% de sua receita para a caixa central do Partido.
Em suma, vemos aqui claramente que o ascenso do movimento social-democrata e o fortalecimento de seu espírito revolucionário levam indefectível e inevitavelmente a uma aplicação mais consequente do centralismo. O desenvolvimento da social-democracia alemã nesse sentido é extremamente educativo para nós, russos. Até pouco tempo, as questões de organização ocupavam entre nós, e em parte continuam ocupando ainda agora, um lugar desproporcionalmente grande na série de questões palpitantes da vida do Partido. Desde o III Congresso apresentaram-se nitidamente duas tendências no seio do Partido em matéria de organização: uma para o centralismo consequente e uma comedida ampliação do democratismo na organização do Partido, não para fazer demagogia, não para as expansões retóricas, mas sim para ir abrindo campo à social-democracia na Rússia à medida em que se vai ampliando a liberdade. A outra é a tendência à imprecisão orgânica, à “vacuidade orgânica”, cuja nocividade foi agora compreendida inclusive por Plekhanov, que durante tanto tempo a defendeu (confiemos em que os acontecimentos o obrigarão em breve a compreender também a ligação entre esta vacuidade orgânica e a vacuidade tática).
Lembrai-vos das discussões sobre o artigo primeiro de nossos estatutos. A conferência dos partidários da nova Iskra que antes defendiam com ardor a “ideia” de sua errônea formulação, agora simplesmente botou fora todo o artigo primeiro e toda essa ideia. O III Congresso confirmou o princípio do centralismo e da vinculação orgânica. Os seguidores da nova Iskra tentaram imediatamente apresentar no terreno dos princípios gerais o problema da obrigatoriedade de cada membro do Partido pertencer a uma organização. Agora vemos que os alemães — tanto os oportunistas como os revolucionários — nem sequer põem em dúvida a legitimidade de principio desta exigência. Ao introduzir diretamente em seus estatutos esta exigência (que cada membro do partido pertença a uma de suas organizações), os alemães não culpam de modo algum os princípios pela necessidade das exceções desta regra, mas sim... a falta de suficiente liberdade na Alemanha! Vollmar, que apresentou em Iena o informe sobre o problema de organização, justificou as exceções desta regra dizendo que a pessoas como os pequenos funcionários será impossível pertencer publicamente ao Partido Social-Democrata. Compreende-se sem esforço que na Rússia a situação é outra: não havendo liberdade, todas as organizações são igualmente secretas. Existindo liberdade revolucionária, é particularmente importante delimitar com rigor os partidos e não permitir a “imprecisão” nesse sentido. Quanto ao princípio de um desejável fortalecimento dos vínculos orgânicos, permanece inalterável.
No que se refere ao sistema dos delegados, do que agora prescindiram os social-democratas alemães, sua existência estava inteiramente ligada à lei de exceção contra os socialistas. Quanto mais esta lei ia sendo relegada ao passado, mais natural e inevitável se fazia a passagem para um sistema através do qual todo o Partido se baseia na ligação direta entre as organizações, e não através de delegados.
Outra questão examinada em Iena foi a da greve política, também extraordinariamente instrutiva para a Rússia. É a questão da festa do Primeiro de Maio, ou, mais exatamente (se tomarmos a essência do problema, e não o ponto que ocasionara a discussão), a questão da atitude do movimento sindical em relação ao Partido Social-Democrata. Já falamos mais de uma vez em Proletari a respeito da profunda impressão que produziu nos social-democratas alemães, e não só nos alemães, o congresso de sindicatos de Colônia(2). Neste congresso manifestou-se com a maior clareza que, inclusive na Alemanha, onde mais fortes são as tradições e influência do marxismo, desenvolvem-se nos sindicatos — prestai atenção: nos sindicatos social-democratas — tendências antissocialistas, tendências para um “trade-unionismo puro” no espírito inglês, isto é, absolutamente burguês. Por isso, da questão sobre a manifestação do Primeiro de Maio no próprio sentido da palavra surgiu inevitavelmente no Congresso de Iena a relativa ao trade-unionismo e à social-democracia, a questão do “economismo”, para usar uma expressão, de acordo com as tendências existentes no seio dos social-democratas russos.
Fischer, que apresentou o informe sobre a questão do Primeiro de Maio, disse abertamente que seria um grande erro fechar os olhos diante do fato de que desaparece nos sincatos, hoje num, amanhã noutro, o espírito socialista. A coisa chegou a ponto de, por exemplo, Bringman, representante do sindicato de carpinteiros, dizer e publicar na imprensa frases como as seguintes: “A greve do Primeiro de Maio é um corpo estranho no organismo humano”, “os sindicatos, nas atuais condições, são o único meio para melhorar a situação dos operários”, etc. E a estes “sintomas mórbidos”, segundo a feliz expressão de Fischer, é preciso acrescentar vários outros. O sindicalismo estreito, ou “economismo”, está ligado na Alemanha, como na Rússia e em toda parte, ao oportunismo (revisionismo). O jornal desse mesmo sindicato de carpinteiros escrevia acerca do desmoronamento das bases do socialismo científico, da inexatidão da teoria das crises e da teoria das catástrofes, etc. O revisionista Calver exortava os operários não a manifestar descontentamento, nem a aumentar suas exigências, mas a ser modestos, etc, etc. Liebknecht obteve a aprovação do Congresso quando se pronunciou contra a ideia da “neutralidade” dos sindicatos e indicou que “Bebel, é certo, também falou a favor da neutralidade, mas, na minha opinião, este é um dos poucos pontos em que a maioria do Partido não segue Bebel”.
O próprio Bebel negou que tivesse aconselhado a neutralidade dos sindicatos em relação à social-democracia. Bebel reconhecia incondicionalmente o perigo de um sindicalismo estreito. Bebel dizia, além disso, que conhecia exemplos ainda piores dessa embrutecedora limitação gremial: a coisa chega entre jovens dirigentes sindicais até à zombaria do Partido em geral, do socialismo em geral e da teoria da luta de classes. Estas palavras de Bebel foram acolhidas com clamores gerais de indignação por parte do congresso social-democrata. Estrugiram calorosos aplausos quando Bebel afirmou resolutamente:
“Camaradas, permanecei em vosso posto; pensai no que fazeis; seguis um caminho fatal, que vos levará à ruína!”
Em homenagem à social-democracia alemã é preciso dizer, portanto, que encarou de frente o perigo. Não escondeu os extremismos do economismo, não imaginou subterfúgios e evasivas da pior espécie (a que tanto recorreu, por exemplo, Plekhanov, entre nós, depois do II Congresso). Não, a social-democracia alemã constatou rigorosamente a enfermidade, condenou com energia as tendências nocivas e chamou pública e abertamente todos os membros do Partido a lutar contra elas. Instrutivo acontecimento para os social-democratas russos, alguns dos quais mereceram os elogios do senhor Struve por sua “lucidez” na questão do movimento sindical!
Notas de rodapé:
(1) O Congresso de lena do Partido Operário Social-Democrata da Alemanha realizou-se em setembro de 1905. Sobre a questão principal da ordem-do-dia do Congresso, foi adotada uma resolução reconhecendo a necessidade de recorrer à greve política de massas. (retornar ao texto)
(2) O Congresso de Colônia dos Sindicatos da Alemanha, realizado em maio de 1905, aprovou uma resolução proibindo a propaganda da greve política de massas. (retornar ao texto)
| Inclusão | 10/11/2012 |