Do artigo: A Greve Política e a Luta de Rua em Moscou

V. I. Lênin

17 (4) de Outubro de 1905


Primeira Edição: Proletari, n.° 21, 17 (4) de outubro de 1905. Encontra-se in Obras, t. IX, págs. 318/324.
Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, novembro de 1961. Traduzido por Armênio Guedes, Zuleika Alambert e Luís Fernando Cardoso, da versão em espanhol de Acerca de los Sindicatos, das Ediciones em Lenguas Extranjeras, Moscou, 1958. Os trabalhos coligidos na edição soviética foram traduzidos da 4.ª edição em russo das Obras de V. I. Lênin, publicadas em Moscou pelo Instituto de Marxismo-Leninismo, anexo ao CC do PCUS. As notas ao pé da página sem indicação são de Lênin e as assinaladas com Nota da Redação foram redigidas pelos organizadores da edição do Instituto de Marxismo-Leninismo. Capa e planejamento gráfico de Mauro Vinhas de Queiroz. Pág: 169-174.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
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Os acontecimentos revolucionários de Moscou são o primeiro relâmpago da tempestade que iluminou o novo campo de batalha. A promulgação da lei sobre a Duma de Estado e a assinatura da paz(1) marcaram o começo de uma nova fase na história da revolução russa. A burguesia liberal, já fatigada por causa da obstinada luta dos operários e intranquila ante o fantasma da “revolução permanente”, suspirou aliviada e aceitou com alegria a esmola que lhe atiraram. Começou em toda a linha a luta contra a ideia do boicote, iniciou-se uma evidente reviravolta do liberalismo para a direita. Lamentavelmente, inclusive entre os social-democratas houve elementos instáveis (no campo dos partidários da nova Iskra), dispostos a apoiar em determinadas condições estes traidores burgueses da revolução e a “levar a sério” a Duma de Estado. Cabe esperar que os acontecimentos de Moscou enrubescerão as pessoas sem fé e ajudarão os que duvidam a aquilatar acertadamente o estado de coisas no novo campo de batalha. Ante a primeira grande ação revolucionária do proletariado se dissiparão os sonhos dos intelectuais de vistas curtas sobre a possibilidade de eleições populares sob a autocracia e as ilusões dos liberais obtusos sobre o significado fundamental da Duma de Estado.

Nossas informações sobre os sucessos de Moscou são agora (12 de outubro, segundo o novo calendário) ainda muito escassas. Reduzem-se a comunicados breves e frequentemente contraditórios dos jornais estrangeiros e a informações da imprensa legal que puderam filtrar-se através da peneira fina da censura, dando conta do início do movimento. Uma coisa é certa: a luta dos operários moscovitas, em sua fase inicial, seguiu o roteiro que já se tomou habitual neste último ano revolucionário. O movimento operário imprimiu seu selo a toda a revolução russa. Havendo começado por greves dispersas, desenvolveu-se com rapidez até chegar, por um lado, às greves de massas e, por outro, às manifestações de rua. Em 1905 a forma já plenamente cristalizada do movimento é a greve política, que se transformou diante de nossos olhos até chegar à insurreição. E se o conjunto do movimento operário na Rússia necessitou de dez anos para elevar-se ao grau atual (que, naturalmente, ainda está muito longe de ser o definitivo), agora o movimento em diversas zonas do país eleva-se em poucos dias da simples greve a um gigantesco estrondo revolucionário.

Segundo nos informam, a greve dos gráficos de Moscou foi iniciada por operários não conscientes. Mas o movimento se lhes escapa rapidamente das mãos, transforma-se num amplo movimento profissional. Aderem a ele operários de outros ofícios. A ação inevitável dos operários nas ruas, ainda que apenas para informar seus camaradas ainda não a par da greve, converte-se numa manifestação política com canções e discursos revolucionários. Vem à tona a indignação, muito tempo contida, contra a vil comédia das eleições “populares” à Duma de Estado. A greve de massas cresce até converter-se numa mobilização maciça de lutadores pela verdadeira liberdade. Surge em cena o estudantado radical, que também em Moscou aprovou, não faz muito tempo, uma resolução inteiramente análoga à de São Petersburgo; com a linguagem dos cidadãos livres e não de uns funcionários desprezíveis, essa resolução anatematiza de verdade a Duma de Estado como um escárnio cínico de que se quer fazer vítima o povo, e exorta a lutar em prol da República, em prol da convocação por um governo provisório revolucionário de uma Assembleia realmente popular e realmente constituinte. Começa a luta de ruas do proletariado e das camadas avançadas da democracia revolucionária contra o exército e a polícia tzaristas.

Assim é que se desenvolveu o movimento em Moscou. No sábado, 24 de setembro (7 de outubro), além dos impressores, já pararam as fábricas de cigarro e os bondes; começou a greve de padeiros. Pela tarde realizaram-se grandes manifestações, nas quais, além dos operários e estudantes, tomou parte a massa “neutra” (os operários revolucionários e os estudantes radicais já deixam de considerar-se estranhos entre si nas ações populares abertas). Os cossacos e os gendarmes dissolveram sem cessar os manifestantes, mas estes voltaram a agrupar-se constantemente. A multidão opôs resistência à polícia e aos cossacos; soaram disparos de revólver, e muitos policiais ficaram feridos.

No domingo, 25 de setembro (8 de outubro), os acontecimentos tomam feição ameaçadora. Desde as onze da manhã começam as concentrações de operários nas ruas. A multidão canta a Marselhesa. Improvisam-se comícios revolucionários. São destroçadas as oficinas gráficas que se recusam a acompanhar a greve. O povo assalta as padarias e os depósitos de armas: os operários necessitam de pão para viver e de armas para lutar pela liberdade (exatamente como se diz numa canção revolucionária francesa). Os cossacos só conseguem dissolver os manifestantes depois da mais tenaz resistência. Na Rua Tverskaia, perto da casa do governador geral, produz-se uma verdadeira refrega. Perto da padaria de Filippov congrega-se uma multidão de padeiros. Como declarou depois a administração dessa padaria, os operários saíram pacificamente para a rua, suspendendo o trabalho em sinal de solidariedade a todos os grevistas. Um destacamento de cossacos ataca a multidão. Os operários penetram numa casa, sobem ao telhado e de lá atiram pedras contra soldados. A casa é totalmente assediada. A tropa abre fogo contra os operários. Ficam cortadas todas as comunicações. Duas companhias de granadeiros efetuam um movimento envolvente, penetram na casa pelos fundos e tomam a posição inimiga. São detidos 192 padeiros, oito dos quais estão feridos; há dois operários mortos. Também do lado da polícia e das tropas há feridos; cai mortalmente ferido o chefe de uma companhia de gendarmes.

Como é natural, essas informações são muito incompletas. Por telegramas particulares reproduzidos em alguns jornais estrangeiros, a ferocidade dos cossacos e dos soldados não teve limites. A administração da padaria de Filippov faz um protesto público contra as arbitrariedades da tropa, absolutamente injustificáveis. Um jornal belga sério publica a notícia de que os porteiros trabalharam para limpar das ruas as marcas de sangue: este pequeno detalhe — diz o jornal —, mais que extensas informações, testemunha o caráter acirrado da luta. Vorwaerts, baseado em informações particulares aparecidas nos jornais, comunica que, na Rua Tverskaia, se bateram 10 000 grevistas contra um batalhão de infantaria. As tropas fizeram várias descargas. Os carros do serviço sanitário de urgência não podiam cumprir plenamente sua missão. Calcula-se o número de mortos em aproximadamente 50 e o de feridos em 600. Informa-se que os detidos foram conduzidos aos quartéis e espancados impiedosa e barbaramente, sendo passados entre filas de soldados. Também se diz que, durante a refrega nas ruas, os oficiais se distinguiram por sua crueldade desumana inclusive com as mulheres [telegrama do enviado especial do jornal burguês conservador Le Temps, datado em Petersburgo a 10 de outubro (27 de setembro)].

As informações sobre os acontecimentos das jornadas posteriores são ainda mais escassas. A indignação dos operários cresce em enormes proporções; o movimento amplia-se; o governo toma medidas para proibir e cortar todas as comunicações. Os jornais estrangeiros assinalaram abertamente as contradições entre os despachos tranquilizadores das agências oficiais (às quais se deu crédito durante certo tempo) e as notícias transmitidas a Petersburgo pelo telefone. Gaston Leroux telegrafa ao jornal parisiense Le Matin que a censura fez prodígios para impedir a difusão de notícias, por pouco alarmantes que fossem. Segunda-feira, 26 de setembro (9 de outubro) — dizia este jornalista — foi um dos dias mais sangrentos da história da Rússia. Lutou-se em todas as ruas principais e inclusive nas imediações da casa do governador-geral. Os manifestantes desfraldaram a bandeira vermelha. Houve muitos mortos e feridos.

As informações de outros jornais são contraditórias. A única coisa sobre a qual não há dúvida é que a greve se alastra. A ela se incorpora a maioria dos operários das grandes fábricas e inclusive os das pequenas empresas. Param os ferroviários. A greve torna-se geral [na terça-feira, 10 de outubro (27 de setembro) e na quarta-feira].

A situação é extremamente séria. O movimento estende-se para Petersburgo: os operários da fábrica San-Galli já suspenderam o trabalho.

No momento, nossas informações se limitam a isto. A base dessas informações não se pode nem pensar, é claro, numa apreciação completa dos acontecimentos de Moscou. Ainda não se pode dizer se constituem um ensaio geral da decisiva ofensiva proletária contra a autocracia, ou o começo dessa ofensiva; se tais acontecimentos são uma simples propagação dos meios “correntes” de luta, expostos por nós mais acima, a uma nova zona da Rússia central, ou o começo da forma superior de luta e de uma insurreição mais decidida.

A resposta a essas perguntas será dada pelo futuro, muito provavelmente não longínquo. Uma coisa é certa: o crescimento da insurreição, a ampliação da luta, o aguçamento de suas formas é uma realidade que vemos constantemente diante de nossos olhos. O proletariado abre seu caminho em toda a Rússia mediante esforços heroicos, mostrando aqui e ali em que direção pode desenvolver-se, e sem dúvida se desenvolverá, a insurreição armada. É certo que inclusive a forma atual de luta, produto do movimento das massas operárias, assesta no tzarismo os golpes mais contundentes. A guerra civil adquiriu a forma de uma guerra de guerrilhas que se desencadeia em toda parte e com o mais porfiado ardor. A classe operária não dá tréguas ao inimigo, interrompe o curso normal da vida industrial, detém constantemente a máquina da administração local e cria em todo o país um estado de alarma, mobilizando novas e novas forças para a luta. Nenhum Estado pode resistir durante muito tempo a semelhante investida, e menos ainda o putrefato governo tzarista, do qual se afastam, uns após outros, seus antigos partidários. E se às vezes a luta parece muito obstinada à burguesia monárquica liberal, se a guerra civil e este estado de alarmante insegurança em que vive o país a assusta, para o proletariado revolucionário a continuação deste estado, o prolongamento da luta é uma necessidade vital. Se entre os ideólogos da burguesia começam a aparecer elementos que pretendem apagar o incêndio revolucionário recomendando um progresso pacífico legal e que se preocupam em amenizar a crise política, em vez de aguçá-la, o proletariado consciente, que nunca duvidou da natureza traiçoeira do amor burguês à liberdade, seguirá com firmeza para a frente, levantando e trazendo consigo os camponeses, semeando a decomposição nas fileiras do exército tzarista. A luta tenaz dos operários, as greves constantes, as manifestações, as insurreições parciais, todas essas batalhas e escaramuças experimentais, por assim dizer, incorporam inevitavelmente o exército à vida política e, por conseguinte, ao círculo dos problemas revolucionários. A experiência da luta educa com maior rapidez e profundidade que anos inteiros de propaganda em condições diferentes. A guerra exterior terminou, mas o governo receia evidentemente o retorno dos prisioneiros e a repatriação do exército da Manchúria. São cada vez maiores os indícios de um estado de espírito revolucionário nas fileiras desse exército. Os projetos de colônias agrícolas na Sibéria para os soldados e oficiais do exército manchu não podem deixar de acentuar a efervescência, ainda que tais projetos não passem disso. A mobilização não cessa, apesar de ter sido assinada a paz. Cada dia é mais evidente que o exército é necessário inteira e exclusivamente contra a revolução. E nessas condições, os revolucionários nada temos contra a mobilização, estamos inclusive dispostos a nos congratular com ela. Retardando o desenlace à custa de incorporar à luta novas e novas unidades do exército, habituando à guerra civil um número cada vez maior de tropas, o governo, longe de destruir a fonte de todas as crises, amplia o terreno para elas. O governo obtém um adiamento à custa de ampliar inevitavelmente o campo de luta e de aguçá-la. O governo traz para a luta os mais atrasados e mais ignorantes, os mais submissos e mais inertes no sentido político: a luta os instrui, põe-os em movimento e os reanima. Quanto mais se prolongar esse estado de guerra civil, mais inevitável será que se destaque no exército contrarrevolucionário uma massa de neutros e um núcleo de combatentes da revolução.

Toda a marcha da revolução russa nos últimos meses testemunha que a fase a que se chegou agora não é nem pode ser a fase superior. O movimento alcançará um nível superior, como já o alcançou a partir de 9 de janeiro(2). Então, vimos pela primeira vez um movimento que assombrou o mundo pela unanimidade e coesão das gigantescas massas operárias levadas à luta em nome de reivindicações políticas. Mas esse movimento ainda era extremamente inconsciente no sentido revolucionário e completamente impotente quanto ao armamento e à disposição para o combate. A Polônia e o Cáucaso ofereceram o modelo de uma luta jamais elevada, na qual o proletariado começou a atuar armado em parte e a guerra adquiriu um caráter prolongado. A insurreição de Odessa(3) significou o aparecimento de uma nova e importante condição de êxito: a passagem de uma parte das tropas para o lado do povo. É certo que não se obteve êxito em seguida; ainda não foi resolvida a difícil tarefa de “combinar as forças navais e terrestres” (uma das tarefas mais árduas até para um exército regular), mas a tarefa foi formulada, e todos os sintomas indicam que os acontecimentos de Odessa não serão um caso isolado. A greve de Moscou mostra-nos a extensão da luta a uma zona “autenticamente russa”, cuja estabilidade foi durante tanto tempo motivo de alegria para os reacionários. A ação revolucionária nesta zona reveste-se de gigantesca importância pelo simples fato de receberem o batismo de fogo as massas do proletariado menos dinâmico, concentrado por sua vez numa região relativamente pequena e em número que não tem igual em nenhuma outra parte da Rússia. O movimento começou em Petersburgo, atingiu a periferia de toda a Rússia, mobilizou Riga, Polônia, Odessa e o Cáucaso, e agora o incêndio propagou-se para o próprio “coração” da Rússia.

A vergonhosa comédia da Duma de Estado parece ainda mais odiosa ao lado desta verdadeira ação revolucionária da classe autenticamente avançada e disposta à luta. Vai-se tomando um fato a união do proletariado com a democracia revolucionária, união da qual falamos mais de uma vez. Os estudantes radicais, que, tanto em Petersburgo como em Moscou, aceitaram as palavras de ordem da social-democracia revolucionária, são a vanguarda de todas as forças democráticas que desprezam a vileza dos reformistas “constitucional democráticos”, vacilantes diante da Duma de Estado e que tendem para a verdadeira luta decidida contra o inimigo jurado do povo russo, e não para composições com a autocracia.

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Notas:

(1) O projeto de lei instituindo a Duma Consultiva de Estado e o Regulamento das eleições para a Duma, preparados por uma comissão presidida por A. Buliguin, ministro do Interior, foram publicados a 6 (19) de agosto de 1905. Os bolcheviques declararam um boicote ativo à Duma de Buliguin. O governo não conseguiu convocar a Duma, que foi barrada pela revolução.
A 23 de agosto de 1905, foi assinada em Portsmouth a paz, com a qual terminou a guerra russo-japonêsa. De acordo com as cláusulas do tratado de paz, o governo tzarista cedeu ao Japão a parte meridional da ilha de Sakhalina, transmitiu-lhe os direitos de arrendamento de Port Arthur e da península de Liao-tung, e entregou também ao Japão a estrada de ferro do sul da Manchúria. Foi dada ao Japão a liberdade de ação na Coreia. (retornar ao texto)

(2) A 9 de janeiro de 1905, por ordem do tzar, a manifestação pacífica dos operários de Petersburgo, que se dirigiram ao Palácio de Inverno, para fazer entrega de uma petição ao tzar, foi metralhada. Em resposta a este selvagem fuzilamento dos operários indefesos, começaram em toda a Rússia greves políticas de massas e manifestações sob a palavra de ordem de “Abaixo a autocracia!” Os acontecimentos de 9 de janeiro iniciaram a revolução de 1905/1907. (retornar ao texto)

(3) Trata-se da sublevação, na frota do Mar Negro, do encouraçado Potiômkin, que rebentou a 14 de junho de 1905. Os marinheiros mataram muitos oficiais e assumiram o comando do navio. A chegada do encouraçado em Odessa, onde na ocasião havia sido declarada a greve geral, levantou os operários da cidade em luta armada contra o tzarismo.
No entanto, o Potiômkin não conseguiu realizar um desembarque em ajuda aos operários de Odessa e teve que lutar sozinho contra a esquadra do Mar Negro. Sem apoio em terra, sem carvão nem víveres, uma semana depois o Potiômkin foi obrigado a dirigir-se para as costas da Romênia e entregar-se às autoridades deste país. (retornar ao texto)

Inclusão 24/01/2013