A Organização do Partido e a Literatura de Partido

V. I. Lénine

13 de Novembro de 1905

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Primeira Edição: Publicado a 13 de Novembro de 1905 no jornal Nóvaia Jizn nº12.
Fonte: Obras Escolhidas em seis tomos, Edições "Avante!", 1986, t1, pp 277-282.
Tradução: Edições "Avante!" com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t.12, pp. 99-105.
Transcrição: Manuel Gouveia
HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Edições "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo.

capa

As novas condições do trabalho social-democrata que se formaram na Rússia depois da revolução de Outubro(1) puseram na ordem do dia a questão da literatura do partido. A diferença entre a imprensa ilegal e legal - essa triste herança da época da Rússia feudal e autocrática - começa a desaparecer. Ainda não morreu, longe disso. O governo hipócrita do nosso primeiro-ministro(2) leva ainda o arbítrio ao ponto de o Izvéstia Soveta Rabótchikh Deputátov(3) ser impresso ilegalmente, mas, além da vergonha para o governo, além dos novos golpes morais que lhe são desferidos, nada se consegue com as estúpidas tentativas de «proibir» aquilo que o governo não tem forças para impedir.

Quando existia a diferença entre a imprensa ilegal e legal a questão da imprensa do partido e não do partido resolvia-se de modo extremamente simples e extremamente falso, monstruoso. Toda a imprensa ilegal era do partido, era editada por organizações, dirigida por grupos ligados de uma maneira ou de outra a grupos de militantes práticos do partido. Toda a imprensa legal era não partidária — porque os partidos eram proibidos —, mas «tendia» para um ou outro partido. Eram inevitáveis alianças monstruosas, «coabitações» anormais, falsas coberturas; com as forçadas reticências de pessoas que queriam exprimir concepções partidárias misturava-se a irreflexão ou a cobardia de pensamento daqueles que não se tinham elevado até essas concepções, daqueles que não eram, no fundo, homens de partido.

Um período maldito de discursos esópicos, de baixeza literária, de linguagem de escravos, de servidão ideológica. O proletariado pôs fim a esta podridão, que sufocava tudo o que de vivo e fresco existia na Rússia. Mas por enquanto o proletariado só conquistou meia liberdade para a Rússia.

A revolução ainda não está concluída. Se o tsarismo já não tem forças para vencer a revolução, a revolução ainda não tem forças para vencer o tsarismo. E vivemos numa época em que por toda a parte e em tudo se manifesta esta combinação antinatural do partidarismo aberto, honesto, directo, consequente, com a «legalidade» clandestina encoberta, «diplomática», manhosa. Esta combinação antinatural manifesta-se também no nosso jornal: por mais que o Sr. Gutchkov graceje acerca da tirania social-democrata, que proíbe a publicação de jornais moderados liberais-burgueses, um facto continua a ser um facto — o Órgão Central do Partido Operário Social-Democrata da Rússia, o Proletári, continua fora das fronteiras da Rússia autocrática-policial.

Seja como for, a meia revolução obriga-nos a todos nós a passar imediatamente a uma nova maneira de organizar as coisas. Agora a literatura pode, mesmo «legalmente», ser 90% partidária. A literatura deve tornar-se partidária. Em oposição aos costumes burgueses, em oposição à imprensa empresarial e mercantil burguesa, em oposição ao carreirismo e ao individualismo literários burgueses, ao «anarquismo aristocrático» e à corrida ao lucro, o proletariado socialista deve avançar o princípio da literatura de partido, desenvolver este princípio e aplicá-lo da forma mais completa e integral possível.

Em que consiste este princípio da literatura de partido? Não é só no facto de para o proletariado socialista a actividade literária não poder ser um instrumento de lucro de pessoas ou grupos; ela não pode ser de modo nenhum uma actividade individual, não dependente da causa proletária geral. Abaixo os literatos apartidários! Abaixo os literatos super-homens! A actividade literária deve tornar-se uma parte da causa proletária geral, «um rodízio e um parafuso» de um só grande mecanismo social-democrata posto em movimento por toda a vanguarda consciente de toda a classe operária.

A actividade literária deve tornar-se uma parte do trabalho partidário social-democrata organizado, planificado, unificado.

«Todas as comparações coxeiam», diz um provérbio alemão. Também coxeia a minha comparação da literatura com um parafuso, do movimento vivo com um mecanismo. Talvez se encontrem mesmo intelectuais histéricos que ergam brados a propósito desta comparação, que rebaixa, paralisa, «burocratiza» a livre luta ideológica, a liberdade de crítica, a liberdade da criação literária, etc., etc. No fundo semelhantes brados seriam apenas uma expressão de individualismo intelectual burguês. Não se discute que a actividade literária é a que menos se submete à igualização e nivelamento mecânicos, à dominação da maioria sobre a minoria. Não se discute que nesta actividade é absolutamente necessário assegurar maior amplitude à iniciativa pessoal, às inclinações individuais, amplitude ao pensamento e à fantasia, à forma e ao conteúdo. Tudo isto é indiscutível, mas tudo isto apenas prova que a parte literária da actividade partidária do proletariado não pode ser mecanicamente identificada com outras partes da actividade partidária do proletariado. Tudo isto de modo nenhum refuta a tese, alheia e estranha para a burguesia e para a democracia burguesa, de que a actividade literária deve necessária e obrigatoriamente tornar-se uma parte, indissoluvelmente ligada às outras partes, do trabalho partidário social-democrata. Os jornais devem tornar-se órgãos das diferentes organizações do partido. Os literatos devem obrigatoriamente fazer parte de organizações do partido. As editoras e depósitos, lojas e salas de leitura, bibliotecas e diferentes comércios de livros, tudo isto deve tornar-se do partido e ser sujeito a prestação de contas. O proletariado socialista organizado deve seguir todo este trabalho, controlá-lo todo, introduzir em todo este trabalho, sem qualquer excepção, a corrente viva da causa proletária viva, retirando deste modo toda a base ao velho princípio russo semioblomoviano(4) e semimercantil: o escritor escreve como calha, o leitor lê como calha.

Não diremos, evidentemente, que esta transformação da actividade literária, que foi estropiada pela censura asiática e pela burguesia europeia, possa dar-se de repente. Estamos longe de pensar em defender qualquer sistema uniforme ou a resolução da tarefa com alguns decretos. Não, neste domínio menos do que em qualquer outro não se pode sequer falar de esquematismo. A questão consiste em que o nosso partido, em que todo o proletariado social-democrata consciente de toda a Rússia, tenham consciência desta nova tarefa, a coloquem correctamente e se lancem em toda a parte à sua resolução. Ao sair do cativeiro da censura feudal, nós não queremos e não iremos para o cativeiro das relações literárias burguesas-mercantis. Queremos criar e criaremos uma imprensa livre não apenas no sentido policial mas também no sentido da liberdade em relação ao capital, da liberdade em relação ao carreirismo; mais ainda: também no sentido da liberdade em relação ao individualismo burguês-anarquista.

Estas últimas palavras parecerão um paradoxo ou uma troça de que são objecto os leitores. Como! gritará talvez um intelectual, ardente partidário da liberdade. Como! Quereis subordinar à colectividade uma coisa tão subtil e individual como a criação literária! Quereis que os operários resolvam por maioria de votos as questões da ciência, da filosofia, da estética! Negais a liberdade absoluta da criação ideológica individual!

Tranquilizai-vos, senhores! Em primeiro lugar, trata-se da literatura de partido e da sua subordinação ao controlo do partido. Cada um é livre de escrever e de dizer tudo o que queira, sem a menor limitação. Mas cada associação livre (incluindo um partido) é também livre de afastar aqueles membros que utilizam o nome do partido para defender concepções antipartido. A liberdade de palavra e de imprensa deve ser completa. Mas a liberdade de associação também deve ser completa. Eu sou obrigado a atribuir-te, em nome da liberdade de palavra, o pleno direito de gritar, de mentir e de escrever o que quiseres. Mas tu és obrigado a atribuir-me, em nome da liberdade de associação, o direito de estabelecer ou de romper a associação com pessoas que dizem isto e aquilo. O partido é uma associação voluntária, que se dissolveria inevitavelmente, primeiro ideologicamente e depois também materialmente, se não se depurasse dos membros que defendem concepções antipartido. E para definir as fronteiras entre o que é de partido e o que é antipartido existe o programa do partido, existem as resoluções tácticas do partido e os seus estatutos, existe, finalmente, toda a experiência da social-democracia internacional, das associações voluntárias internacionais do proletariado, que incluiu constantemente nos seus partidos determinados elementos ou correntes não de todo consequentes, não de todo puramente marxistas, não de todo correctas, mas que também empreendeu constantemente «depurações» periódicas do seu partido. Também assim será connosco, senhores partidários da «liberdade de crítica» burguesa, dentro do partido: agora o nosso partido está a tornar-se de repente massivo, estamos agora a atravessar uma transição brusca para uma organização aberta, agora aderirão inevitavelmente a nós muitas pessoas inconsequentes (do ponto de vista marxista), talvez até alguns cristãos, talvez até alguns místicos. Temos estômagos fortes, somos marxistas duros como pedra. Digeriremos essas pessoas inconsequentes. A liberdade de pensamento e a liberdade de crítica dentro do partido nunca nos obrigarão a esquecer a liberdade de agrupamento das pessoas em associações livres chamadas partidos.

Em segundo lugar, senhores individualistas burgueses, devemos dizer-vos que os vossos discursos sobre a liberdade absoluta não passam de hipocrisia. Numa sociedade baseada no poder do dinheiro, numa sociedade em que as massas dos trabalhadores vivem na miséria e em que um punhado de ricos vive como parasitas não pode haver «liberdade» real e efectiva. É livre em relação à sua editora burguesa, senhor escritor? ao seu público burguês, que lhe exige pornografia em limites(5) e quadros, a prostituição sob a forma de «complemento» da «sagrada» arte cénica? Esta liberdade absoluta é uma frase burguesa ou anarquista (porque, como concepção do mundo, o anarquismo é o burguesismo voltado do avesso). Não se pode viver na sociedade e ser livre em relação à sociedade. A liberdade do escritor, do artista, da actriz burgueses é apenas uma dependência mascarada (ou que hipocritamente se mascara) do saco do dinheiro, do suborno, da situação de viver por conta de alguém.

E nós, socialistas, desmascaramos esta hipocrisia, arrancamos as tabuletas falsas, não para obter uma literatura e uma arte não de classe (isto só será possível na sociedade socialista sem classes) mas para contrapor a uma literatura hipocritamente livre, mas de facto ligada à burguesia, uma literatura realmente livre, abertamente ligada ao proletariado.

Será uma literatura livre porque não será o proveito e a carreira mas a ideia do socialismo e a simpatia com os trabalhadores que recrutarão novas e novas forças para as suas fileiras. Será uma literatura livre porque servirá não uma heroína saciada, não os «dez mil de cima» aborrecidos e sofrendo de obesidade, mas milhões e dezenas de milhões de trabalhadores, que constituem a flor do país, a sua força, o seu futuro. Será uma literatura livre, que fecundará a última palavra do pensamento revolucionário da humanidade com a experiência e o trabalho vivo do proletariado socialista, que criará uma interacção constante entre a experiência do passado (o socialismo científico, que concluiu o desenvolvimento do socialismo desde as suas formas primitivas, utópicas) e a experiência do presente (a presente luta dos camaradas operários).

Ao trabalho, pois, camaradas! Temos perante nós uma tarefa difícil e nova, mas grande e gratificante - organizar uma actividade literária ampla, multilateral e multiforme em estreita e indissolúvel ligação com o movimento operário social-democrata. Toda a literatura social-democrata deve tornar-se partidária. Todos os jornais, revistas, editoras, etc., devem lançar-se imediatamente a um trabalho de reorganização, à preparação de uma situação em que eles sejam integrados, na base de uns ou outros princípios, numas ou noutras organizações do partido. Só então a literatura «social-democrata» se tornará de facto social-democrata, só então ela será capaz de cumprir o seu dever, só então ela será capaz, mesmo no quadro da sociedade burguesa, de escapar à escravatura da burguesia e de se fundir com o movimento da classe realmente avançada e revolucionária até ao fim.

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Notas de rodapé:

(1) Lénine alude à greve política geral de toda a Rússia de Outubro de 1905, que decorreu sobre a palavra de ordem de derrubamento da autocracia, de convocação da assembleia constituinte e de estabelecimento da república democrática (retornar ao texto)

(2) S. I. Vitte. (N. Ed.) (retornar ao texto)

(3) Izvéstia Soveta Rabótchikh Deputátov (Notícias do Soviete de Deputados Operários): órgão oficial do Soviete de Deputados Operários publicado de 17 (30) de Outubro a 14 (27) de Dezembro de 1905. (retornar ao texto)

(4) Oblómov: personagem principal do romance homónimo do escritor russo I. A. Gontcharov. Oblomovismo é sinónimo de falta de força de vontade, de um estado de falta de actividade e de preguiça. (retornar ao texto)

(5) Deve haver uma gralha na fonte, onde se lê ramkakh (limites), quando pelo sentido devia ser romanakh (romances). (N. Ed.) (retornar ao texto)

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Inclusão 12/08/2014