Do «Prefacio à Tradução Russa das Cartas de K. Marx a L. Kugelmann»

V. I. Lénine

5 de Fevereiro de 1907

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Primeira Edição: Publicado em 1907, pela Editorial Novaya Duma, de Petersburgo.

Tradução: Edições "Avante!" com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t. 12 pp 87-91.
Transcrição: Partido Comunista Português
Enviado: Diego Grossi Pacheco
HTML: Fernando A. S. Araújo, março 2009.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Edições "Avante!" — Edições Progresso Lisboa — Moscovo, 1977.


A apreciação que Marx faz da Comuna coroa a sua correspondência com Kugelmann. E esta apreciação é particularmente instrutiva se a compararmos com os métodos empregados pelos sociais-democratas russos da ala direita. Plekhánov que, depois de Dezembro de 1905(1), bradava pusilanimemente: «Não se devia ter pegado em armas!», teve a modéstia de se comparar a Marx. Em sua opinião, também Marx refreou a revolução em 1870.

Sim, Marx também a refreou. Mas veja-se que abismo se abre nesta comparação, feita pelo próprio Plekhánov, entre este e Marx.

Plekhánov, em Novembro de 1905, um mês antes do ponto alto da primeira vaga revolucionária russa, longe de advertir resolutamente o proletariado, falava-lhe, pelo contrário, claramente, da necessidade de aprender a servir-se das armas e de se armar. Mas quando, um mês depois, estalou a luta, Plekhánov, sem tentar sequer analisar a sua importância, o seu papel na marcha geral dos acontecimentos, a ligação com as lutas que a tinham precedido, apressou-se a fingir de intelectual arrependido, gritando: «Não se devia ter pegado em armas!»

Marx, em Setembro de 1870, seis meses antes da Comuna, tinha advertido francamente os trabalhadores franceses: a insurreição seria uma loucura, disse ele no famoso Manifesto da Internacional(2). Denunciou antecipadamente as ilusões nacionalistas sobre a possibilidade de um movimento no género do de 1792. Soube dizer, não depois dos acontecimentos, mas muitos meses antes: «Não se deve pegar em armas.»

E qual foi a posição de Marx, quando esta empresa desesperada, segundo a sua própria declaração de Setembro, começou a tomar corpo em Março de 1871? Terá Marx aproveitado a ocasião (como Plekhánov em relação aos acontecimentos de Dezembro) somente para «humilhar» os seus adversários, os proudhonianos e os blanquistas que dirigiam a Comuna? Ter-se-á posto a rabujar como um bedel: «Bem vos tinha dito, bem vos tinha prevenido, aí tendes onde levam o vosso romantismo, os vossos delírios revolucionários»? Terá dirigido aos communards, como Plekhánov aos combatentes de Dezembro, o seu sermão de filisteu satisfeito consigo mesmo: «Não se devia ter pegado em armas»?

Não. Em 12 de Abril de 1871, Marx escreveu a Kugelmann uma carta cheia de entusiasmo, uma carta que bem gostaríamos de pendurar em casa de cada social-democrata russo, de cada trabalhador russo que soubesse ler.

Marx, que em Setembro de 1870 considerava a insurreição uma loucura, em Abril de 1871, ao ver um movimento popular de massas, seguiu-o com a atenção extrema de quem participa nos grandes acontecimentos que marcam um progresso no histórico movimento revolucionário mundial.

Isto, disse Marx, é uma tentativa de destruir a máquina burocrática e militar, e não simplesmente o fazê-la mudar de mãos. E canta um verdadeiro hossana aos «heróicos» operários de Paris, dirigidos pelos proudhonianos e pelos blanquistas.

«Que flexibilidade, escreveu ele, que iniciativa histórica e que capacidade de sacrifício possuem estes parisienses!» (p. 88)... «A história ainda não conhece outro exemplo de semelhante heroísmo!»

A iniciativa histórica das massas é o que Marx mais aprecia. Ah! se os nossos sociais-democratas russos tivessem aprendido com Marx a dar valor à iniciativa histórica dos operários e camponeses russos, em Outubro e Dezembro de 1905!

Por um lado, o mais profundo dos pensadores, que seis meses antes previra o fracasso, inclina-se perante a iniciativa histórica das massas; por outro, esta declaração sem vida, sem alma, esta declaração de pedante: «Não se devia ter pegado em armas!» Acaso não se acham tão distantes como a terra do céu?

E na qualidade de participante na luta de massas, em que intervém com todo o ardor e paixão que lhe são próprios, Marx, do seu exílio, em Londres, empreende a crítica aos actos imediatos dos parisienses «temerários até à loucura» e «dispostos ao assalto do céu».

Oh! como teriam, nessa altura, troçado de Marx os nossos «realistas», os nossos sábios do marxismo, que na Rússia de 1906-1907 vituperam contra o romantismo revolucionário! Como teriam troçado do materialista, do economista, do inimigo das utopias que admira a «tentativa» de tomar o céu de assalto! Quantas lágrimas de compaixão ou risos condescendentes não teriam estes homens esclerosados(3) prodigalizado perante essas tendências revoltosas, esse utopismo, etc, etc, perante essa apreciação de movimento lançado ao assalto do céu! Mas Marx não se deixou levar pelos «sabichões de pantufas»(4) que receiam estudar a técnica das formas superiores da luta revolucionária, e analisou, precisamente, estas questões técnicas da insurreição. Defensiva ou ofensiva? pergunta, como se as operações militares se desenrolassem às portas de Londres. E conclui: a ofensiva, sem dúvida! «Devia-se ter marchado imediatamente sobre Versalhes...»

Assim escrevia Marx, em Abril de 1871, algumas semanas antes do grande Maio sangrento...

Os insurrectos que se lançaram à obra «louca» de tomar o céu de assalto (Setembro de 1870) «deviam ter marchado imediatamente sobre Versalhes».

«Não se devia ter pegado em armas», em Dezembro de 1905, para defender pela força, contra os primeiros intentos de as roubar, as liberdades conquistadas...

Sim, Plekhánov não se comparava debalde a Marx!

«O segundo erro, prossegue Marx na sua crítica de carácter técnico, o Comité Central [ou seja, o comando militar da Comuna, reparem bem, trata-se do CC da Guarda Nacional] renunciou demasiado cedo aos seus poderes...»

Marx sabia prevenir os dirigentes contra uma insurreição prematura. Mas perante o proletariado que tomava o céu de assalto, assumia a atitude de conselheiro prático, de participante na luta das massas que elevam todo o movimento a um grau superior, apesar das falsas teorias e dos erros de Blanqui e Proudhon.

«Seja como for, escreve Marx, a insurreição de Paris, mesmo se vier a ser subjugada pelos lobos, os porcos e os cães infames da velha sociedade, é a mais gloriosa proeza do nosso Partido desde a insurreição de Junho.»

E Marx, sem omitir ao proletariado um único dos erros da Comuna, dedicou a essa proeza uma obra que ainda hoje é o melhor guia na luta pela «céu» e a ameaça mais temida pelos «porcos»(5) liberais e radicais.

Plekhánov consagrou a Dezembro uma «obra» que se converteu quase num evangelho para os democratas constitucionalistas(6).

Sim, Plekhánov não se comparava debalde a Marx!

Na sua resposta a Marx, Kugelmann manifestou, provavelmente, algumas dúvidas, aludindo ao desesperado da empresa, ao realismo em oposição ao romantismo; pelo menos, comparava a Comuna, a insurreição, com a manifestação pacífica de 13 de Junho de 1849 em Paris.

Marx, imediatamente (em 17 de Abril de 1871), dá uma severa réplica a Kugelmann:

«Seria, evidentemente, muito cómodo fazer a história universal, se somente com infalíveis probabilidades de êxito se travasse a luta.»

Em Setembro de 1870, Marx qualificava a insurreição de loucura. Porém, uma vez sublevadas as massas, Marx quer marchar com elas, aprender ao lado das massas, no próprio curso da luta, e não dar-lhes conselhos burocráticos. Compreende que qualquer tentativa de prever, com toda a precisão, as probabilidades de êxito, seria charlatanismo ou pedantismo irremissível. Põe acima de tudo o facto de que a classe operária cria heroicamente, com abnegação, com iniciativa, a história do mundo. Marx considerava a história do ponto de vista dos seus criadores, sem ter a possibilidade de prever, de um modo infalível, as probabilidades de êxito, e não do ponto de vista do intelectual filisteu que vem pregar moral: «era fácil prever... não se devia ter negado...»

Marx também sabia ver que há momentos na História em que uma luta encarniçada das massas, mesmo por uma causa sem perspectiva, é indispensável para a educação ulterior dessas massas, para as preparar para a luta seguinte.

Os nossos pseudo-marxistas actuais, que gostam de citar Marx a torto e a direito, extraindo dele somente julgamentos sobre o passado, e não ensinamentos para preparar o futuro, não podem compreender de modo nenhum que a questão seja posta desta maneira, isto é, em princípio é-lhes mesmo complemente estranha. Plekhánov nem sequer nisso pensou quando, depois de Dezembro de 1905, empreendeu a tarefa de «refrear»...

Mas Marx põe precisamente esta questão sem de qualquer modo esquecer que, em Setembro de 1870, ele próprio tinha considerado que a insurreição seria uma loucura.

«A canalha burguesa de Versalhes, escreve, colocou os parisienses perante uma alternativa: aceitar o desafio ou entregar-se sem luta. No último caso, a desmoralização da classe operária teria sido uma desgraça muito maior do que a perda de qualquer número de chefes.»

Terminaremos aqui este breve esboço das lições de uma política digna do proletariado, tal como Marx no-las oferece nas suas cartas a Kugelmann.

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Notas:

(1) Referência à insurreição armada dos operários moscovitas contra a autocracia, em Dezembro de 1905, a qual foi reprimida com crueldade. (retornar ao texto)

(2) Alusão de Lénine ao Segundo Manifesto do Conselho Geral da Associação Internacional de Trabalhadores sobre a Guerra Franco-Prussiana de Marx (in A Guerra Civil em França) (retornar ao texto)

(3) Como a personagem de uma novela de Anton Tchekov, protótipo do pequeno-burguês medroso de quanto é novo e de toda a iniciativa. (retornar ao texto)

(4) Protótipo do pequeno-burguês medroso. (retornar ao texto)

(5) Referência a "A Guerra Civil em França" de Marx. (retornar ao texto)

(6) Democratas-constitucionalistas (cadetes): membros do Partido Democrata-Constitucionalista, o mais importante da burguesia monárquica liberal da Rússia. Foi fundado em Outubro de 1905. Com o objectivo de enganar as massas trabalhadoras, os democratas-constitucionalistas denominam-se falsamente de "partido da liberdade do povo", mas, de facto, não foram além das reivindicações da monarquia constitucional. Depois da Revolução democrática burguesa de Fevereiro de 1917, ocuparam posições dirigentes no Governo Provisório e aplicaram uma política anti-popular. Após a Grande Revolução Socialista de Outubro actuaram como inimigos inconciliáveis do Poder Soviético e tomaram parte activa em todas as acções contra-revolucionárias armadas e nas campanhas dos intervencionistas. (retornar ao texto)

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Inclusão 10/07/2009