Lev Tolstoi como Espelho da Revolução Russa

V. I. Lénine

11 (24) de Setembro de 1908

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Primeira Edição: Publicado no Jornal Proletári nº 35 de 11 (24) de Setembro de 1908.
Fonte: Obras Escolhidas em seis tomos, Edições "Avante!", 1984, t1, pp 364-368.
Tradução: Edições "Avante!" com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t.17, pp. 206-213.
Transcrição: Manuel Gouveia
HTML:
Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Edições "Avante! - Edições Progresso Lisboa - Moscovo.

capa

O confronto do nome do grande artista com a revolução, que ele claramente não compreendeu, da qual ele claramente se afastou, pode à primeira vista parecer estranho e artificial. E não se pode chamar espelho àquilo que à evidência não reflecte correctamente os fenómenos. Mas a nossa revolução é um fenómeno extraordinariamente complexo; entre a massa daqueles que directamente a realizam e nela participam há muitos elementos sociais que claramente também não compreenderam o que se passa, que também se afastaram das verdadeiras tarefas históricas que a marcha dos acontecimentos lhes colocava. E se temos perante nós um artista realmente grande, então ele deve ter reflectido nas suas obras pelo menos alguns dos aspectos essenciais da revolução.

A imprensa russa legal, repleta de artigos, cartas e notas a propósito dos 80 anos de Tolstói, no que menos está interessada é na análise das suas obras do ponto de vista do carácter da revolução russa e das suas forças motoras. Toda esta imprensa está repleta até à náusea de hipocrisia, de hipocrisia de dois tipos: oficial e liberal. A primeira é a hipocrisia grosseira dos escrevinhadores venais que ontem eram obrigados a atacar L. Tolstói e hoje a descobrir nele o patriotismo e a observar o decoro perante a Europa. Que os escrevinhadores deste tipo são pagos pelos seus escritos toda a gente o sabe, e eles não podem enganar ninguém. Muito mais refinada e por isso muito mais prejudicial e perigosa é a hipocrisia liberal. A dar ouvidos aos Balalaikine democratas-constitucionalistas do Retch(1), a sua simpatia por Tolstói é a mais completa e a mais ardente. De facto, a declamação calculada e as frases empoladas sobre o «grande buscador de Deus» não passam de uma completa falsidade, porque o liberal russo nem acredita no Deus de Tolstói nem simpatiza com a crítica de Tolstói ao regime existente. Ele junta-se a um nome popular para aumentar o seu capital político, para se fazer passar pelo chefe da oposição nacional, esforça-se por abafar com o trovão e o estrépito das frases a necessidade de uma resposta directa e clara à pergunta: em que se manifestam as contradições gritantes do «tolstoísmo», quais os defeitos e debilidades da nossa revolução que elas exprimem?

As contradições nas obras, concepções, doutrinas, na escola de Tolstói, são realmente gritantes. Por um lado, um artista genial, que deu não só quadros incomparáveis da vida russa como obras de primeira classe da literatura mundial. Por outro lado, um latifundiário obcecado por Cristo. Por um lado, um protesto notavelmente forte, directo e sincero contra a mentira e a falsidade social, por outro lado o «tolstoiano», isto é, o gasto e histérico choramingas chamado intelectual russo, que, batendo no peito em público, diz: «eu sou ruim, eu sou mau, mas estou a ocupar-me do meu auto-aperfeiçoamento moral; já não como mais carne, agora alimento-me de almôndegas de arroz». Por um lado, uma crítica implacável da exploração capitalista, o desmascaramento das violências governamentais, da comédia dos tribunais e da administração estatal, a revelação de toda a profundidade das contradições entre o crescimento da riqueza e as conquistas da civilização e o crescimento da miséria, da incultura e dos sofrimentos das massas operárias: por outro lado, uma pregação tonta da «não resistência ao mal» por meio da violência. Por um lado, o realismo mais sóbrio, o arrancar de toda a espécie de máscaras; por outro lado, a pregação de uma das coisas mais infames que há no mundo, a saber, a religião, a aspiração a substituir os padres de nomeação oficial por padres por convicção moral, isto é, o cultivar do clericalismo mais refinado e por isso particularmente repugnante. Na verdade:

Tu és miserável e és abundante,
Tu és poderosa e és impotente
Mãezinha Rússia!(2)

É perfeitamente evidente que com tais contradições Tolstói não podia de modo nenhum compre-ender nem o movimento operário e o seu papel na luta pelo socialismo nem a revolução russa. Mas as contradições nas concepções e doutrinas de Tolstói não são um acaso mas uma expressão das condições contraditórias em que se encontrava colocada a vida russa do último terço do século XIX. O campo patriarcal, ainda ontem liberto da servidão, foi literalmente entregue ao capital e ao fisco para ser completamente arruinado. Os velhos pilares da economia camponesa e da vida camponesa, que se tinham realmente conservado durante séculos, foram demolidos com extraordinária rapidez. E é preciso avaliar as contradições nas concepções de Tolstói não do ponto de vista do movimento operário contemporâneo e do socialismo contemporâneo (essa avaliação é evidentemente necessária, mas é insuficiente) mas do ponto de vista do protesto contra o capitalismo que avançava, contra a ruína das massas e o facto de elas serem despojadas de terras, protesto que tinha de ser gerado pelo campo russo patriarcal. Tolstói é ridículo como profeta que descobriu novas receitas para salvar a humanidade — e por isso são perfeitamente mesquinhos os «tolstoianos» estrangeiros e russos que querem transformar num dogma precisamente o lado mais fraco da sua doutrina. Tolstói é grande como porta-voz das ideias e estados de espírito que se formaram em milhões de camponeses russos na altura da aproximação da revolução burguesa na Rússia. Tolstói é original porque a soma das suas concepções, tomadas como um todo, exprime exactamente a particularidade da nossa revolução como revolução burguesa camponesa. As contradições nas concepções de Tolstói são, deste ponto de vista, um verdadeiro espelho das condições contraditórias em que estava colocada a actividade histórica do campesinato na nossa revolução. Por um lado, séculos de jugo servil e decénios de acelerada ruína pós-reforma acumularam montanhas de ódio, rancor e desesperada decisão. A aspiração de varrer até aos seus fundamentos a igreja oficial, os latifundiários e o governo dos latifundiários, de liquidar todas as velhas formas e regulamentações de propriedade da terra, de desembaraçar a terra, de criar em vez do Estado policial e de classe uma comunidade de pequenos camponeses livres e iguais em direitos, esta aspiração atravessa como um fio condutor cada passo histórico dos camponeses na nossa revolução, e é indubitável que o conteúdo ideológico dos escritos de Tolstói corresponde muito mais a esta aspiração camponesa do que a um abstracto «anarquismo cristão», como por vezes é avaliado o seu «sistema» de concepções.

Por outro lado, o campesinato» aspirando a novas formas de vida em sociedade, tinha uma atitude muito inconsciente, patriarcal, uma atitude de iluminado, em relação a como deve ser esta vida, qual a luta por que é preciso conquistar a liberdade, quais os dirigentes que pode ter nesta luta, qual a atitude da burguesia e da intelectualidade burguesa em relação aos interesses da revolução camponesa, por que razão é necessário o derrubamento violento do poder tsarista para liquidar a propriedade latifundiária da terra. Toda a vida passada do campesinato lhe ensinou a odiar o senhor e o funcionário, mas não lhe ensinou nem lhe podia ensinar onde procurar resposta para todas estas questões. Na nossa revolução uma menor parte do campesinato lutou realmente, organizando-se minimamente para este fim, e uma parte muito pequena ergueu-se de armas na mão para exterminar os seus inimigos, para aniquilar os servidores do tsar e os defensores dos latifundiários. A maior parte do campesinato chorou e rezou, filosofou e sonhou, escreveu petições e enviou «solicitadores» — exactamente no espírito de Lev Nikoláitch Tolstói! E, como sempre acontece nestes casos, a abstenção tolstoiana da política, a renúncia tolstoiana à política, a ausência de interesse por ela e de compreensão dela, fizeram com que o proletariado consciente e revolucionário fosse seguido por uma minoria, enquanto a maioria se tornou presa dos intelectuais burgueses sem princípios e servis que, sob o nome de democratas-constitucionalistas, corriam de uma assembleia dos trudoviques para a ante-sala de Stolípine, pedinchavam, negociavam, conciliavam, prometiam conciliar - enquanto não eram enxotados por um pontapé de uma bota de soldado. As ideias de Tolstói são um espelho da fraqueza e dos defeitos da nossa insurreição camponesa, um reflexo da frouxidão do campo patriarcal e da entranhada cobardia do «mujique empreendedor».

Tome-se as insurreições de soldados de 1905-1906. A composição social destes combatentes da nossa revolução é intermédia entre o campesinato e o proletariado. Este último em minoria; por isso o movimento nas tropas não mostra nem sequer aproximadamente a coesão ao nível de toda a Rússia e a consciência partidária que foram reveladas pelo proletariado, que se tornou social-democrata como que por um gesto da mão. Por outro lado, não há nada mais errado do que a ideia de que a causa do malogro das insurreições de soldados foi a ausência de dirigentes provenientes da oficialidade. Pelo contrário, o gigantesco progresso da revolução desde os tempos da Naródnaia Vólia exprimiu-se precisamente no facto de o «rebanho cinzento» ter pegado em armas contra os superiores, «rebanho cinzento» cuja independência tanto assustava os latifundiários liberais e a oficialidade liberal. O soldado estava cheio de simpatia pela causa camponesa; os seus olhos incendiavam-se à simples menção da terra. Mais de uma vez o poder nas tropas passou para as mãos das massas de soldados, mas quase não existiu uma utilização decidida deste poder; os soldados vacilavam; ao fim de um par de dias, por vezes ao fim de algumas horas, depois de matar algum oficial odiado, libertavam os restantes, entravam em negociações com o poder e depois enfrentavam o fuzilamento, vergavam-se sob a chibata, submetiam-se novamente ao jugo — exactamente no espírito de Lev Nikoláitch Tolstói!

Tolstói reflectiu o ódio acumulado, a aspiração amadurecida a um destino melhor, o desejo de se libertar do passado, e a imaturidade dos sonhos, da falta de educação política, da frouxidão revolucionária. As condições histórico-económicas explicam também o carácter necessário do surgimento da luta revolucionária das massas e a sua impreparação para a luta, a tolstoiana não resistência ao mal, que foi uma causa seriíssima da derrota da primeira campanha revolucionária.

Diz-se que os exércitos derrotados aprendem bem. Naturalmente, a comparação das classes revolucionárias com exércitos só é verdadeira num sentido muito limitado. O desenvolvimento do capitalismo modifica e agudiza de hora a hora as condições que impulsionaram os milhões de camponeses, unidos pelo ódio aos latifundiários feudais e ao seu governo, para a luta democrática revolucionária. No próprio campesinato o crescimento da troca, do domínio do mercado e do poder do dinheiro desaloja cada vez mais a antiguidade patriarcal e a ideologia tolstoiana patriarcal. Mas há uma aquisição dos primeiros anos da revolução e das primeiras derrotas na luta revolucionária de massas que é indubitável: é o golpe de morte assestado na anterior inconsistência e frouxidão das massas. As linhas de delimitação tornaram-se mais nítidas. As classes e os partidos demarcaram-se. Sob o martelo das lições de Stolípine, com a constante e consequente agitação dos sociais-democratas revolucionários, não só o proletariado socialista mas também as massas democráticas do campesinato destacarão inevitavelmente combatentes cada vez mais temperados, cada vez menos capazes de cair no nosso pecado histórico do tolstoísmo.

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Notas de rodapé:

(1) Balalaikine: personagem da obra do escritor satírico russo M. E. Saltikov-Chtchedríne Um Idílio Contemporâneo (retornar ao texto)

(2) Lénine cita versos do poema Para Quem É Bom Viver na Rússia, do grande poeta russo N. A. Nekrássov. (retornar ao texto)

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Inclusão 10/04/2014