Materialismo e Empiro-Criticismo
Notas e Críticas Sobre uma Filosofia Reacionária

V. I. Lênin

Capítulo I - A Teoria do Conhecimento do Empiro-Criticismo e do Materialismo Dialético


2. “A Descoberta dos Elementos do Mundo”


Tal é o título que, para sua obra sobre Mach, escolheu Friedrich Adler, Privatdozent da Universidade de Zurich, talvez o único escritor alemão serio, desejoso de completar Marx com auxilio de Mach(1). Sejamos justos para com esse ingênuo professor: em sua ingenuidade, presta desconcertante serviço à doutrina de Mach. Ele, pelo menos, coloca a questão com clareza, sem rebuços. Mach realmente “descobriu os elementos de mundo”? Se é assim, somente os ignorantes e os retardatários podem continuar materialistas. Ou essa descoberta de Mach não passa de uma volta aos velhos erros da filosofia?

Vimos Mach e Avenarius colocarem-se, em 1872 e 1876, em um ponto de vista puramente idealista; o mundo, para eles, não era senão a nossa sensação. Em 1883, apareceu a Mecânica, de Mach; o autor nela se referia, principalmente no prefacio à primeira edição, aos Prolegômenos, de Avenarius, elogiando seus conceitos filosóficos, “muito próximos” (sehr venvandte) dos seus. Citemos as reflexões sobre os elementos expostos na Mecânica:

“As ciências naturais não podem senão representar (nachbilden und vorbilden) os complexos dos elementos a que chamamos ordinariamente de sensações. Trata-se das relações existentes entre esses elementos. As relações entre A (calor) e B (chama) pertencem ao domínio da física; as relações entre A e N (nervos) pertencem ao domínio da fisiologia. Nem uma e nem outra dessas relações existem separadamente, encontram-se sempre em conjunto. Não podemos abstrair uma da outra senão momentaneamente. Nesse caso, parece mesmo que os processos mecânicos sejam sempre, por sua vez, processos fisiológicos" (p. 498 da 3.a ed.).

As mesmas teses em Analise das sensações:

… “Quando se empregam, ao lado das expressões elemento e complexos de elementos, ou, em seu lugar, as expressões sensações e complexos de sensações, é necessário ter sempre em vista que os elementos não são sensações senão dentro de tais relações (isto é dentro das relações de A, B e C com K, L e M, ou, seja, nas relações dos “complexos que chamamos de corpos” com o “complexo que chamamos de nosso corpo”). Eles são, ao mesmo tempo, sob outra dependência funcional, objetos físicos” (p. 13).

“A cor é um objeto físico quando, por exemplo, a estudamos do ponto de vista de sua dependência em relação à fonte luminosa que a ilumina (outras cores, calor, espaço, etc.). Mas se a estudamos do ponto de vista de sua dependência em relação à retina (elementos K, L, M...), estamos em presença de um objeto psíquico, de uma sensação” (p. 14).

Nessas circunstancias, a descoberta dos elementos do universo consiste em:

  1. proclamar sensação tudo quanto existe;
  2. chamar as sensações de elementos;
  3. dividir os elementos em físicos e psíquicos sendo esses últimos os que dependem dos nervos do homem e, em geral do organismo humano e os primeiros os que deles absolutamente não dependem;
  4. afirmar que não podem existir as relações dos elementos físicos e psíquicos, se separados os primeiros dos segundos e que só podem existir em conjunto;
  5. afirmar que não se pode fazer abstração de qualquer dessas relações senão momentaneamente;
  6. proclamar a “nova” teoria isenta de “exclusivismo”(2).

Essa teoria está, realmente, isenta de exclusivismo, mas constitui um magma de concepções filosóficas opostas. Se se consideram as sensações de um ponto de partida único, absolutamente não se corrige, com o auxilio da palavra elemento, o “exclusivismo" de seu idealismo, como não se faz senão aumentar a confusão e esquivar-se covardemente a sua própria teoria. Elimina-se verbalmente a contradição entre o físico e o psíquico(3), entre o materialismo (para o qual a matéria, a natureza constituem o primário) e o idealismo (para o qual o espirito, a consciência, a sensação constituem o primário), mas para logo restabelecê-la na realidade, renunciando sub-repticiamente à premissa fundamental! Porque, se os elementos são sensações, não se tem o direito de admitir, por um só instante, sua existência fora de sua dependência em relação aos meus nervos, à minha consciência. Mas, desde o momento em que se admitem objetos físicos independentes de meus nervos ou de minhas sensações, não suscitando a sensação senão por sua ação sobre a minha retina, troca-se vergonhosamente o idealismo “exclusivo” por um materialismo “incompleto”! Se a cor não é uma sensação senão em virtude de sua dependência em relação à retina (como obrigais as ciências naturais a admiti-lo) conclui-se que os raios luminosos atingem, alcançando a retina a sensação da cor. Vale dizer que existem, fora de nós, independentemente de nós e de nossa consciência, movimentos da matéria, digamos, ondas do éter de uma amplitude e de uma celeridade tais que, atuando sobre a retina, resultam, no homem, na sensação de uma cor definida. Tal é o ponto de vista das ciências naturais. Elas explicam as sensações das cores pela amplitude diferente das ondas luminosas existentes fora da retina humana, fora do Homem, independentemente dele. Tal é a concepção materialista: a matéria suscita a sensação atuando sobre os nossos órgãos dos sentidos. A sensação depende do cérebro, dos nervos, da retina, etc., isto é, da matéria organizada de maneira determinada. A existência da matéria não depende das sensações. A matéria é o primordial. A sensibilidade, o pensamento, a consciência são os produtos mais elevados da matéria organizada de um modo determinado. Tal é a concepção do materialismo em geral e de Marx e Engels em particular. Apoiando-se na palavra elemento que, parece-lhes, liberta sua teoria do “exclusivismo” do idealismo subjetivo e lhes permite admitir a dependência do psíquico em relação à retina, aos nervos, etc., bem como a independência do físico em relação ao organismo humano, Mach e Avenarius introduzem sorrateiramente o materialismo. Esse artificio verbal do “elemento” não passa, em definitivo, de um mesquinho sofisma! Na verdade, o leitor materialista de Mach e Avenarius não deixará de se perguntar: mas que são os “elementos”? seria pueril acreditar-se possível frustrar, graças à invenção de um termo novo, as principais correntes da filosofia. Ou o “elemento” é uma sensação, como sustentam todos os empiro-criticistas Mach, Avenarius, Petzoldt(4) e outros e vossa filosofia, senhores, não passa do idealismo que se esforça, em vão, por encobrir a nudez de seu solipsismo com uma terminologia mais “objetiva”; ou o “elemento” não é uma sensação, e, nesse caso, o vosso termo “novo” não tem o menor sentido e estais fazendo muito barulho com coisa nenhuma.

Tomemos, por exemplo, Petzoldt, essa última palavra do empiro-criticismo, a crer, pelo menos, no primeiro e maior dos empiro-criticistas russos, V. Lessevitch(5). Depois de ter proclamado que os elementos são sensações, Petzoldt afirma, no tomo II da sua obra já citada:

“Deve-se evitar tomar, na proposição “As sensações são elementos do universo", a palavra sensação como tendo uma significação puramente subjetiva, e, portanto, etérea, e transformando o quadro habitual do mundo numa ligação (verflüchtigendes)”(6).

A língua bate no dente que dói. Petzoldt sente que o mundo “se desvanece'’ (verflüchtigt sich) ou se reduz a uma ilusão, desde que se considerem as sensações como seus elementos. E o excelente Petzoldt acreditando safar-se mediante esta restrição: seria errôneo considerar a sensação como puramente subjetiva! Ora! não é esse um sofisma ridículo? Que terá mudado quando “tomamos” as sensações por sensações ou quando nos esforçamos por compreender o sentido desse termo? Isso impedirá que as sensações continuem ligadas, no homem, ao funcionamento normal dos nervos, da retina, do cérebro, etc., ou que o universo exterior exista independentemente de nossa sensação? Se não quiserdes contentar-vos com subterfúgios, se pretendeis verdadeiramente “livrar-vos” do subjetivismo e do solipsismo, libertai-vos primeiro das premissas idealistas fundamentais da vossa filosofia; substitui vossa tendencia idealista (das sensações para o universo exterior) pela tendencia materialista (do universo exterior oara as sensações); repeli esse ornamento verbal, confuso e desprovido de sentido, que é a palavra elemento, e dizei seriamente: a cor é o resultado da ação de um objeto físico sobre a retina, ou, o que dá no mesmo, a sensação é o resultado da ação da matéria sobre os nossos órgãos dos sentidos.

Vejamos ainda Avenarius. Sua última obra (a mais importante, pode-se dizer, para a inteligencia de sua filosofia), as Observações sobre o objeto da psicologia(7), proporciona as mais preciosas indicações sobre a questão dos “elementos”. O autor nela apresenta, com evidencia, um pequeno quadro “notável” (t. XVIII, p. 410), do qual reproduzimos o essencial:

  Elementos, complexos de elementos
I. Objetos ou materialidade Objetos materiais
II. Pensamentos ou idealidade ( Gedankenhaftes) Objetos não materiais, memória e imaginação

Confrontemos com isso o que diz Mach, depois de todos os seus esclarecimentos sobre os “elementos’’ (Analise das sensações, p. 23):

“Não são os corpos que produzem as sensações, mas os complexos de elementos (complexos de sensações) É que formam os corpos.

Eis aí a “descoberta dos elementos do mundo”, que ultrapassa o exclusivismo do idealista e o do materialista! Primeiro, é-nos assegurado que os “elementos”, ao mesmo tempo físicos e psíquicos, são qualquer coisa de novo, e, em seguida, introduz-se sorrateiramente uma ligeira correção a essa tese: em vez da grosseira distinção materialista da matéria (corpo, objetos) e do psíquico (sensações, memória, imaginação), é-nos apresentada a doutrina do “positivismo moderno” sobre os elementos materiais e os elementos mentais. Adler (Fritz) não ganhou grande coisa com a “descoberta dos elementos do mundo”!

Bogdanov, respondendo a Plerrânov, escrevia em 1906:

"Não posso considerar-me discípulo de Mach em filosofia. No tocante à minha concepção filosófica em geral, não tomei de Mach senão uma noção, a da neutralidade dos elementos da experiência em relação ao “físico” e ao “psíquico”, cujas definições dependem apenas da experiência” (Empiro-monismo, t. III, São Petersburgo, 1906, p. XLI).

É como se um crente vos dissesse: “Não posso considerar-me religioso, porque não tomei aos crentes senão a fé em Deus”. A “única noção” tomada por Bogdanov a Mach constitui precisamente o erro fundamental de Mach, o erro fundamental de toda essa filosofia. As restrições que Bogdanov faz ao empiro-criticismo, às quais ele mesmo dá considerável importância, são, na verdade, secundarias e não vão além de algumas discriminações circunstanciais, parciais, individuais, entre os empiro-criticistas que aprovam Mach e os que são por ele aprovados (nós o veremos ainda, mais adiante). Assim, quando se ofendia por ser confundido com os discípulos de Mach, Bogdanov atestava tão somente sua ignorância das divergências fundamentais entre o materialismo e o que ele, Bogdanov, tem de comum com os outros discípulos de Mach. Não era o caso de se saber o quanto Bogdanov havia desenvolvido, aperfeiçoado ou “empírizado” a filosofia de Mach. O importante era que ele se tinha afastado do ponto de vista materialista, caindo, desse modo, nos desvios idealistas e na confusão.

Bogdanov tinha razão, como já vimos, ao escrever em 1899:

“A imagem do homem que está diante de mim, imagem que me é diretamente transmitida pela vista, chama-se sensação”(8).

Bogdanov não se deu ao trabalho de uma critica de seu antigo ponto de vista. Acreditou cegamente em Mach, sob palavra, e, pôs-se a repetir, acompanhando-o, que os “elementos” da experiência são neutros em relação ao físico e ao psíquico.

“Como o demonstrou a mais moderna filosofia positiva — escrevia Bogdanov no tomo I do Empiromonismo (2.a ed., p. 90) —, os elementos da experiência psíquica são idênticos aos de toda experiência em geral, como são idênticos aos da experiência física.”

Escrevia ainda em 1906 (t. III, p. XX):

“Quanto ao idealismo, pode, por assim dizer, basear-se unicamente no fato, evidentemente indubitável, de que os elementos da experiência física são reconhecidamente idênticos aos da experiência psíquica ou às sensações elementares?”

Eis a verdadeira fonte de todas as desventuras filosóficas de Bogdanov, bem como de outros discípulos de Mach. Pode-se e deve-se falar de idealismo quando se reconhece a identidade das sensações e dos “elementos da experiência física” (o físico, o mundo exterior, a matéria), o que, aliás, não é outra coisa senão a filosofia de Berkeley. Nesse particular, não há vestígio de filosofia moderna, nem de filosofia positiva, nem de nenhum fato real; há simplesmente um bem velho sofisma idealista. E se se pedisse a Bogdanov para provar o “fato indubitável” de que as sensações são idênticas ao físico, não se arrancaria dele um só argumento, a não ser o perpetuo refrão dos idealistas:

“Eu não constato senão minhas sensações, a testemunha de minha consciência” (die Aussage des Selbstbewusstseins, nos Prolegômenos, de Avenarius, p. 56 da 2ª edição alemã, § 93);

ou então:

“Em nossa experiência (que nos ensina que “somos substancias dotadas de sensibilidade”), a sensação nos é dada com mais certeza do que a substancialidade” (loc. cit., p. 55, § 91), etc., etc..

Bogdanov (acreditando em Mach, sob palavra) toma um subterfúgio filosófico reacionário por um “fato indubitável”, porque a verdade é que não se trouxe e não se pode trazer nenhum fato suscetível de refutar a concepção segundo a qual a sensação é uma imagem do mundo exterior, concepção partilhada por Bogdanov em 1899 e que as ciências naturais admitem até hoje. O físico Mach, em suas divagações filosóficas, coloca-se completamente à margem das “ciências naturais contemporâneas”. Teremos de repisar exaustivamente esse fato importante, passado despercebido por Bogdanov.

A doutrina de Avenarius sobre as séries dependentes e independentes da experiência é (abstração feita da influência de Ostwald) um dos fatores que facilitaram a Bogdanov sua brusca transição do materialismo dos naturalistas para o confuso idealismo de Mach. Bogdanov exprime-se, a esse respeito, nos termos seguintes (tomo I do Empiromonismo):

“Os dados da experiência criam, na medida em que dependem do estado de determinado sistema nervoso, o mundo psíquico de certa personalidade e ficamos, na medida em que tornamos os dados da experiência fora dessa dependência, na presença do mundo físico. Avenarius também designa esses dois domínios da experiência como as séries dependentes e independentes da experiência” (p. 18).

O pior é, precisamente, que essa doutrina da “série” independente (independente das sensações humanas) aí introduz o materialismo e de um modo sub-reptício, ilegítimo, arbitrário, eclético do ponto de vista da filosofia para a qual os objetos são complexos de sensações, as próprias sensações sendo “idênticas” aos “elementos” do físico. Realmente, desde que admitistes a existência das fontes luminosas e das ondas luminosas independentemente do homem e da consciência humana, a cor sendo, desse modo, condicionada pela ação dessas ondas sobre a retina, adotastes de fato a concepção materialista, destruindo até os alicerces todos os “fatos indubitáveis” do idealismo, com seu cortejo de “complexos de sensações”, de elementos descobertos pelo mais moderno positivismo e por frioleiras análogas.

O pior ainda é que Bogdanov (como todos os discípulos russos Mach) não penetrou as primeiras concepções idealistas de Mach e Avenarius, não verificou suas premissas idealistas e, em consequência, não percebeu tudo quanto havia de ilegitimo e de eclético em sua tentativa ulterior de introduzir, sub-repticiamente, o materialismo. O primitivo idealismo de Mach e Avenarius é reconhecido pela literatura filosófica; mas também se reconhece que o empiro-criticismo se esforçou, posteriormente, por se orientar para o materialismo. O autor francês Couwelaert, que já citamos, vê, nos Prolegômenos de Avenarius, o “idealismo monista”; na Critica da experiência futura (1888-1890), o "realismo absoluto”, e, na Concepção humana do mundo (1892), uma tentativa de “explicar” essa marcha à ré. Observemos que o termo realismo é empregado aqui como antônimo do termo idealismo. Mas seguindo, neste ponto, o exemplo de Engels, não uso nesse sentido senão a palavra materialismo. Considero essa terminologia como a única exata, tanto mais que o termo realismo é adotado pelos positivistas, bem como por outros confusionistas que oscilam entre o materialismo e o idealismo. Basta, no momento, guardar na memória que Couwelaert constata esse inegável fato de que, nos Prolegômenos (1876) de Avenarius, a sensação é considerada como a única realidade, que a substância é “eliminada” (conforme o principio da “economia do pensamento”!) e que, na Critica da experiência pura, o físico é tido como a série independente e o psíquico, e, portanto, as sensações, como a série dependente.

Discípulo de Avenarius, Rudolf Willy reconhece, igualmente, que seu mestre, “completamente idealista” em 1876, trabalhou mais tarde para a “reconciliação” (Ausgleich) dessa doutrina e do “realismo cândido” (loc. cit.), isto é, do materialismo inconsciente da humanidade, que admite a existência, independentemente de nossa consciência, do mundo exterior.

Oskar Ewald, autor dê um livro intitulado Avenarius, fundador do empiro-criticismo, escreve que essa filosofia “alia os elementos (no sentido comum da palavra e não no sentido que lhe empresta Mach) contraditórios do idealismo e do realismo" (seria melhor dizer “do materialismo”). Assim, “uma indagação absoluta entronizaria o realismo cândido e uma indagação conduzida no relativo entronizaria, para sempre, um idealismo exclusivo”(9). Avenarius chama de “indagação absoluta” o que corresponde, em Mach, às relações dos “elementos” fora do nosso corpo e de “indagação relativa” o que, em Mach, corresponde às relações dos elementos dependentes do nosso corpo.

A opinião de Wundt, que também se coloca, do mesmo modo que a maior parte dos mencionados escritores, do ponto de vista do idealismo confuso e que talvez tenha analisado o empiro-criticismo com mais atenção, parece-nos apresentar interesse especial. Eis o que dela diz P. Iuchkévitch:

“É curioso que Wundt veja no empiro-criticismo a forma mais cientifica do último tipo do materialismo(10), isto é, desse tipo de materialismo que tem o psíquico como uma função de processos materiais”, e Wundt considera acrescentemos como intermediário entre o spinozismo e o materialismo absoluto(11).

A opinião de W. Wundt é extremamente curiosa, naturalmente. Mas o que há de mais curioso no caso é a maneira pela qual Iuchkévitch estuda os livros e os trabalhos de filosofia de que fala. Sua maneira de fazê-lo caracteriza a de todos os nossos discípulos de Mach. O Petruchka, de Gogol(12), sempre achava engraçado que as letras formassem palavras. Iuchkévitch leu Wundt e achou “curioso” que esse último acusasse Avenarius de materialismo. Se Wundt está errado, por que não o refutar? Se tem razão, por que não explicar a incompatibilidade entre o materialismo e o empiro-criticismo? Iuchkévitch acha “curiosa” a opinião do idealista Wundt, mas, como discípulo de Mach, considera (sem duvida, em virtude do principio da “economia do pensamento”) trabalho inútil elucidar semelhante questão.

Com efeito, informando o leitor da acusação de materialismo lançada por Wundt contra Avenarius, mas deixando de dizer que Wundt qualifica de materialistas certos aspectos do empiro-criticismo, chama outros de idealistas e acha artificiais as relações entre esses e aqueles, Iuchkévitch deforma completamente os fatos. Ou o nosso cavalheiro não compreende uma palavra do que lê ou cede ao desejo de se fazer elogiar, embora sem motivo, por Wundt: Vejam! os professores oficiais tratam-nos, também a nós, não como tolos vulgares, mas como materialistas!

O estudo de Wundt constitui volumoso livro (mais de 300 paginas) dedicado à analise minuciosa da escola imanente, em primeiro lugar, e do empiro-criticismo, a seguir. Por que Wundt reuniu essas duas escolas num único estudo? Porque ele as acredita ligadas por um “próximo parentesco” — e essa opinião é de uma justeza absoluta, como veremos mais adiante. Wundt demonstra, na primeira parte de seu trabalho, que os imanentes são idealistas, subjetivistas, fideístas. Essa ainda é, como veremos mais longe, opinião absolutamente justa, embora sobrecarregada, em Wundt, por sua erudição professoral e adornada de sutilezas e reservas supérfluas, tanto mais explicáveis quanto o próprio Wundt é idealista e deísta. O que ele reprova nos imanentes não é a qualidade de idealistas e fideístas, mas o fato de, a seu ver, deduzirem mal esses grandes princípios. A segunda e a terceira parte do trabalho de Wundt são consagradas ao empiro-criticismo. O autor indica, muito claramente, que certos postulados teóricos dos mais importantes do empiro-criticismo (sua maneira de compreender a “experiência” e sua “coordenação de principio” de que falaremos mais tarde) são idênticos aos da filosofia imanente (die empiriokritische in Übereinstimmung mit der immanenten Philosophie annimmt, p. 382). Os outros postulados teóricos de Avenarius são tomados ao materialismo e o empiro-criticismo em seu conjunto é uma “estranha mistura (bunte Mischnng) (loc. cit., p. 57) em que as diversas partes constitutivas “são absolutamente heterogêneas (an sich einander völlig heterogen sind, p. 56).

A essas parcelas de materialismo da mistura de Avenarius e Mach, Wundt relaciona, antes de tudo, a doutrina do primeiro sobre a “série vital independente”. Se tomais como ponto de partida o “sistema C” (Avenarius, grande aficionado do jogo cientifico de expressões novas, designa desse modo o cérebro do homem ou o sistema nervoso geral), se o psíquico é, para vós, uma função do cérebro, esse “sistema C”, diz Wundt (loc. cit., p. 64), é uma “substância metafísica” e vossa doutrina não passa de materialismo. É necessário dizer que bom numero de idealistas e todos os agnósticos (inclusive os discípulos de Kant e de Hume) qualificam os materialistas de metafísicos, porque reconhecer a existência do universo exterior independentemente da consciência do homem é ultrapassar, parece-lhes, os limites da experiência. Voltaremos a essa terminologia e veremos que é absolutamente errônea do ponto de vista do marxismo. Consideramos importante observar, no momento, que a hipótese da série “independente” constitui, em Avenarius (do mesmo modo que em Mach, que exprime o mesmo pensamento noutros termos), um empréstimo tomado ao materialismo, como bem o reconhecem os filósofos pertencentes a diversos partidos, isto é, a diversas correntes filosóficas. Se tomais como ponto de partida que tudo quanto existe é sensação ou que os objetos são complexos de sensações, não podeis, sem negar todas as vossas premissas, toda a “vossa” filosofia, chegar à conclusão de que o físico existe independentemente de nossa consciência e de que as sensações constituem uma junção da matéria organizada de certo modo. Mach e Avenarius reúnem, em sua filosofia, os postulados fundamentais do idealismo e algumas conclusões materialistas, precisamente porque sua teoria é uma amostra dessa “miserável sopa eclética” tratada por Engels(13) com o desprezo que merece.

Tal ecletismo salta aos olhos na última obra filosófica de Mach, Conhecimento e erro (2.ª edição, 1906). Mach nela diz, e já o vimos, que:

“não há nenhuma dificuldade para construir qualquer elemento físico partindo das sensações, isto é, dos elementos psíquicos”.

Podemos ler ainda:

“As relações situadas além do U (além do Umgrenzung, isto é, dos limites físicos do nosso corpo, p. 8) constituem o físico, no sentido mais amplo da palavra” (p. 323, § 4).

“Para obter essas relações em toda sua pureza (rein erhalten) é necessário excluir, tanto quanto possível, a influencia do observador, isto é, dos elementos situados aquém do U” (Ibid.).

Muito bem, muito bem. O melharuco ilude-se pretendendo incendiar o mar, isto é, construir “com elementos psíquicos os elementos físicos”: ora, os elementos físicos encontram-se fora dos limites dos elementos psíquicos situados dentro de nosso corpo!” Bela filosofia, não há duvida!

Outro exemplo:

“Não há gás perfeito (vollkommenes), líquido perfeito, corpo perfeitamente elástico; o físico sabe que suas ficções não correspondem, senão aproximadamente, aos fatos, sabe que elas os simplificam arbitrariamente; conhece essa discrepância, que não pode ser evitada” (p. 418, § 30).

De que discrepância (Abweichung) se trata? Da discrepância de que, relativa a que? Da referente ao pensamento (teoria física) e os fatos. Que são os pensamentos, as ideias? As ideias são os “vestígios das sensações” (p. 9). Que são os fatos? Os fatos são “complexos de sensações”. Conclui-se que a discrepância entre os vestígios das sensações e os complexos das sensações não pode ser evitada.

Que significa isso? Que Mach, tratando dos problemas da física, se esquece da própria teoria, raciocina com simplicidade, sem sutilezas idealistas, isto é, como materialista. Então, todos os seus “complexos de sensações” e seus requintes à Berkeley se desvanecem. A teoria dos físicos torna-se uma representação dos sólidos, líquidos e gases existentes fora de nós e essa representação tem, certamente, um valor aproximado, sem que, entretanto se possa qualificar de “arbitrária” semelhante representação ou simplificação. Na verdade, a sensação é aqui considerada por Mach tal como o é em ciências naturais, isto é, como uma “imagem do mundo exterior” e não como a apresentara os discípulos de Berkeley e Hume: “purificada”. A própria teoria de Mach é um idealismo subjetivo, mas, desde que Mach precisa de objetividade, introduz nos raciocínios, sem o aparentar, postulados da teoria do conhecimento adversária, ou, noutros termos, da teoria materialista. Eduard von Hartmann, idealista consequente e reacionário consequente em filosofia, que vê com um ar benévolo a luta dos discípulos de Mach contra o materialismo, muito se aproxima da verdade quando diz que a filosofia de Mach representa:

“uma confusão (nicht Unterscheidung; literalmente: uma falta de diferenciação) do realismo ingênuo e do ilusionismo absoluto"(14).

É verdade. A doutrina para a qual os corpos são complexos de sensações, etc., é ilusionismo absoluto, isto é, solipsismo, porquanto o universo não é mais, desse ponto de vista, do que a minha ilusão. Quanto ao raciocínio de Mach, que acabamos de citar, e a tantos outros raciocínios esparsos desse autor, constituem apenas vestígios do chamado “realismo ingenuo”, isto é, da teoria materialista do conhecimento inconscientemente tomada aos naturalistas.

Avenarius e os professores que seguem suas pegadas esforçam-se por velar essa promiscuidade com auxilio da teoria da “coordenação de principio”. Vamos analisar essa teoria, mas terminemos primeiramente, com a acusação de materialismo formulada contra Avenarius. Iuchkévitch, a quem a apreciação de Wundt, que ele não compreendeu, pareceu curiosa, não teve sequer o cuidado de se informar ou não se dignou informar o leitor da maneira pela qual os discípulos e os continuadores imediatos de Avenarius reagiram a semelhante acusação. Por conseguinte, precisamos de tal coisa nos informar, se nos interessamos pela atitude da filosofia de Marx, do materialismo, em relação ao empiro-criticismo. Nessas circunstancias, se a doutrina de Mach confunde, mistura o materialismo e o idealismo, cumpre saber em que sentido ela se orienta, se se pode dizê-lo, quando os idealistas oficiais começaram a repeli-la em virtude de suas concessões ao materialismo.

J. Petzoldt e Fr. Carstanjen, dois dentre os mais puros e ortodoxos discípulos de Avenarius, responderam principalmente a Wundt. Repelindo, com nobre indignação, a acusação de materialismo, deprimente para todo professor alemão, Petzoldt apela (acreditais?) para os Prolegômenos de Avenarius, em que a própria noção de substância está, a seu ver, refutada! Comoda teoria, à qual se podem relacionar, tanto as obras puramente idealistas, como os postulados materialistas arbitrariamente admitidos!

“A Critica da experiência pura, de Avenarius, — escreve Petzoldt — não está, certamente, em contradição com essa doutrina — isto é, com o materialismo —, mas não está tão pouco em contradição com a doutrina espiritualista diametralmente oposta"(15).

Excelente defesa! Engels qualificava tais defesas de “miserável sopa eclética”. Bogdanov, que não se quer reconhecer discípulo de Mach e pretende passar por marxista (em filosofia), segue Petzoldt. A seu ve:

“o empiro-criticismo... não se deve preocupar nem com o materialismo, nem com o espiritualismo ou qualquer outra metafísica em geral”(16), e “a verdade.. não se encontra no “justo meio” entre as correntes antagônicas” (materialismo e espiritualismo), mas “fora delas”(17).

O que Bogdanov toma como verdade não passa de confusão, de oscilações entre o materialismo e o idealismo.

Respondendo a Wundt, Carstanjen escreveu que repudia:

“toda introdução sub-reptícia” (Unterschiebung) do principio materialista “absolutamente estranho à critica da experiência pura”(18) “O empiro-criticismo não é senão o ceticismo, principalmente no que diz respeito ao conteúdo das noções”.

Essa tendencia a frisar com exagero a neutralidade da doutrina de Mach tem certa razão de ser: as correções feitas por Mach e Avenarius em seu idealismo primitivo significam nada mais nada menos que semiconcessões ao materialismo. Em vez do pensamento consequente de Berkeley, que afirma que o mundo exterior não é outra coisa senão minha sensação, chega-se à concepção de Hume, que se recusa a indagar se há alguma coisa mais além de minhas sensações. E essa concepção agnóstica condena-nos inevitavelmente a errar entre o materialismo e o idealismo.

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Notas de rodapé:

(1) Friedrich Adler, Die Entdeckung der Weltelemente (Zu E. Mach 70. Geburtstag), Der Kampf, 1908, n. 5 (fevereiro). Traduzido em The International Socialist Review, 1908, n. 10, (abril). — N. L. (retornar ao texto)

(2) Mach diz em sua Análise das sensações: “Os elementos são comumente chamados de sensações. Como essa denominação serve para designar uma teoria exclusiva bem determinada, preferimos não falar senão sucintamente dos elementos” (págs. 27-28). — N. L. (retornar ao texto)

(3) “A contradição entre o eu e o mundo, entre a sensação ou o fenômeno e o objeto, desaparece então e tudo se reduz à combinação dos elementos”. (Análise das sensações, pág. 11). — N. L. (retornar ao texto)

(4) Joseph Petzoldt, Einführung in die Philosophie der reinen Erfahrung (Introdução à filosofia da experiência pura), t. I, 1900, Leipzig, pág. 113. “Chamam-se elementos as sensações, isto é, no sentido ordinário da palavra, as percepções simples irredutíveis (Wahrnehmungen)”. — N. L. (retornar ao texto)

(5) V. Lessevitch, Que é a filosofia cientifica ? (entenda-se isso a filosofia em moda, a filosofia professoral, eclética). São Petersburgo, 1891, págs. 229 e 247. — N. L. (retornar ao texto)

(6) Petzoldt, t. II, Leipzig, 1904, pág. 329. — N. L. (retornar ao texto)

(7) R. Avenarius, Bemerkungen zum Begriff des Gegesstandes der Psychologie, em Vierteljahrsschrift für wissenschaftliche Philosophie. — N. L. (retornar ao texto)

(8) Os elementos fundamentais da concepção histórica da natureza, pág. 216. Compare-se com os trechos citados anteriormente. — N. L. (retornar ao texto)

(9) Oskar Ewald, Richard Avenarius als Begründer des Empiriorkritizismus, Berlim, 1905, pág. 66. N. L. (retornar ao texto)

(10) P. Iuchkévitch, Materialismo e realismo critico, São Petersburgo, 1908, pág. 15. — N. L. (retornar ao texto)

(11) W. Wundt, Über naiven und kritischen Realismus (Sobre o realismo ingênuo e crítico), nos Philosophische Studien, t. XXIII, 1898, pág. 334. — N. L. (retornar ao texto)

(12) Personagem do romance de Gogol, Almas mortas. Tipo simples de espírito, sua paixão consistia em ler continuamente livros de que nada entendia. — N. do T. (retornar ao texto)

(13) Prefácio a Ludwig Feuerbach, datado de fevereiro de 1888. Essas Palavras de Engels referem-se à filosofia universitária alemã em geral. Os discípulos de Mach, desejosos de serem marxistas, mas incapazes de compreensão do sentido e da penetração desse pensamento de Engels, esquivam-se às vezes, com auxilio dessa desprezível reserva: "Engels ainda não conhecia Mach” (Fritz Adler no Materialismo histórico, pág. 370). Sobre que se baseia essa desculpa? Por Que Engels não cita Mach e Avenarius? Essa desculpa não tem qualquer fundamento, e isso é mau, Engels não citar nenhum autor eclético. Quanto a Avenarius, que, desde 1876, publicava sua revista trimestral de filosofia científica, é duvidoso que Engels o tenha ignorado. — N. L. (retornar ao texto)

(14) Eduard von Hartmann, Die Weltanschauung der modernen Physik (O mundo segundo a física moderna), Leipzig, 1902, pág. 219 — N. L. (retornar ao texto)

(15) J. Petzoldt, Einführung in die Philosophie der reinen Erfahrung, t. I, págs. 351 e 352.— N. L. (retornar ao texto)

(16) Empiromonismo, t. I, 2.ª edição, pág. 21. — N. L. (retornar ao texto)

(17) Loc. cit., pag. 93. — N. L. (retornar ao texto)

(18) F. Carstanjen, Der Empiriokritizismus zugleich eine Erwiederung auf W. Wundt's Aufsäze, na Vierteljarsschr. f. wiss. Philos., ano XXII, 1898, págs. 73 e 214. - N. L. (retornar ao texto)

Inclusão 26/02/2014