Os Destinos Históricos da Doutrina de Marx

Lênin

1 de Março de 1913


Primeira Edição: Pravda, n. 50 (254), 14-1.° de março de 1913
Fonte: Materialismo e Empirocriticismo - Editorial Calvino Ltda., Rio, 1946, pág. 546-548. A presente edição foi traduzida do original russo "Materialismo Dialético", Moscou, edição da Academia de Ciências da URSS, 1954.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
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O essencial na doutrina de Marx é a descoberta do papel histórico mundial do proletariado como edificador da sociedade socialista. Foi confirmada esta doutrina, pelo curso dos acontecimentos no mundo inteiro, desde que Marx a definiu?

Foi em 1844, que Marx a formulou pela primeira vez. O Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, publicado em 1848, já apresenta uma exposição completa e sistemática dessa doutrina, considerada a melhor exposição até os nossos dias.

A história universal, desde a publicação do Manifesto, pode ser dividida em três períodos principais:

  1. da revolução de 1848 à Comuna de Paris (1871);
  2. da Comuna de Paris à revolução russa (1905);
  3. da revolução russa até os dias de hoje.

Lancemos uma vista d'olhos sobre os destinos históricos da doutrina de Marx em cada um desses períodos.

I

No começo do primeiro período, doutrina de Marx esteve longe de ser a dominante. Não era senão uma das numerosas tendencias, uma das correntes do socialismo. Estavam em voga, então, as formas de socialismo que, no fundo, se aparentavam com nosso movimento populista: incompreensão da base materialista do movimento histórico, incapacidade de distinguir o papel e a importância de cada uma das classes na sociedade capitalista, com a ajuda de muitas frases, ditas socialistas, como “o povo”, “a justiça”, “o direito”, etc., do sentido burguês das reformas democráticas, em geral.

A revolução de 1848 fere de morte todas estas formas coloridas, ruidosas e turbulentas do socialismo anterior a Marx.

Em todos os países, a revolução põe em ação as diferentes classes da sociedade. O massacre dos operários parisienses, pela burguesia republicana, nas jornadas de junho de 1848, atesta para todo o sempre que só o proletariado pode ser socialista. A burguesia liberal teme, cem vezes mais que a pior reação, a ação independente desta classe. O liberalismo poltrão avilta-se frente à reação Os camponeses contentam-se com a abolição dos vestígios do feudalismo e passam para o lado da ordem, hesitando apenas raramente entre a democracia operaria e o liberalismo burguês. Todas as doutrinas referentes a um socialismo e a uma política extraclasse se evidenciam como puras patacoadas. A Comuna de Paris (1871) completa este desenvolvimento das reformas burguesas; a República, isto é, a forma do Estado em que as relações de classes se manifestam do modo o menos dissimulado, só se firmou graças ao heroísmo do proletariado. Em todos os demais países da Europa, uma evolução mais confusa, incompleta, conduz, também, à mesma sociedade burguesa.

No fim do primeiro período (1848-1871), período de tumultos e de revoluções, o socialismo pré-marxista se aniquila. Nascem partidos proletários independentes: são a Primeira Internacional e a social-democracia alemã

II

O segundo período (1872-1904) distingue-se do primeiro pelo seu caráter "pacifico", pela ausência de revoluções. O Ocidente acabou com as revoluções burguesas. O Oriente ainda não está maduro para elas. O Ocidente entra na época da preparação “pacifica” das reformas do futuro. Por toda a parte formam-se partidos socialistas, proletários em sua base, que procuram obter vantagens do parlamentarismo burguês, criar sua imprensa quotidiana, seus estabelecimentos de educação, seus sindicatos, suas cooperativas.

A doutrina de Marx alcança uma vitoria completa e ganha em extensão. Lentamente, mas com firmeza, processa-se a seleção e o recrutamento das forças do proletariado, que se está preparando para as batalhas futuras.

Na dialética da história, a vitoria do marxismo no domínio da teoria obriga aos seus inimigos a se disfarçarem em marxistas. O liberalismo, podre em seu interior, tenta reviver sob a forma do oportunismo socialista. Passa a interpretar o período da preparação para as grandes batalhas, no sentido da renúncia a estas batalhas. Interpreta o melhoramento da condição dos escravos, em relação à luta contra a escravidão assalariada, como se os escravos vendessem por cinco vinténs os seus direitos à liberdade. Prega-se covardemente a “paz social” (isto é, a paz com a escravidão), a renuncia à luta de classe e assim por diante. Os oportunistas tiveram muitos partidários entre os parlamentares socialistas, os diversos funcionários do movimento operário e os intelectuais “simpatizantes”.

III

Logo depois de terminarem os oportunistas de glorificar a “paz-social”, e a possibilidade de evitar as tempestades na “democracia”, abre-se, na Ásia a fonte nova de grandes lutas mundiais. A revolução russa é seguida por revoluções na Turquia, na Pérsia e na China(1): Atravessamos, precisamente, hoje, a época destas tempestades e de sua repercussão em “sentido inverso” na Europa. Qualquer que seja a sorte reservada à grande Republica chinesa que excita hoje a concupiscência das hienas “civilizadas”, nenhuma força no mundo poderá restabelecer o velho feudalismo na Asia, nem varrer da face da terra o democratismo heroico das massas populares nos países asiáticos e semiasiáticos.

De tanto ver adiada, indefinidamente, a luta decisiva contra o capitalismo na Europa, algumas pessoas, desatentas aos fatores da preparação e do desenvolvimento da luta das massas, levadas ao desespero e ao anarquismo. Estamos vendo hoje como este desespero anarquista é cego e pusilânime.

Não é desespero, mas coragem, que devemos tirar do fato de estarem oitocentos milhões de asiáticos envolvidos na luta por estes mesmos ideais europeus.

As revoluções da Asia demonstraram a mesma falta de caráter e a mesma baixeza do liberalismo, a mesma diferenciação nítida entre o proletariado e toda a burguesia. Quem fala, depois da experiencia da Europa e da Asia, de uma política extraclasse e de um socialismo extraclasse, merece simplesmente ser enjaulado e exibido como se fosse um canguru australiano.

Logo depois da Asia, a Europa se movimentou — mas não à maneira asiática. O período “pacifico” de 1872-1904 pertence a um passado nunca relembrado. A carestia da vida e o jugo dos trustes provocam as dificuldades sem precedentes da luta econômica que sacode até mesmo os operários ingleses, os mais corrompidos pelo liberalismo. Uma crise política amadureceu-se sob nossos olhos, na própria Alemanha, nesta cidadela da burguesia e dos junkers. A loucura armamentista e a política imperialista fazem da Europa moderna uma paz social”, que se assemelha mais à um barril de pólvora.

A decomposição de todos os partidos burgueses e o amadurecimento do proletariado processam-se, entretanto, irresistivelmente. Desde o aparecimento do marxismo, cada uma das três grandes épocas da história universal trouxe para ele novas confirmações e novos triunfos. Mas a época que se está abrindo trará para o marxismo, doutrina do proletariado, um triunfo ainda mais brilhante.

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Notas de rodapé:

(1) Revolução turca: 1908; revolução persa: 1906-1907; revolução chinesa: 1912. (retornar ao texto)

Inclusão 09/05/2014