Capitalismo e Agricultura nos Estados Unidos

V. I. Lênin


16. Balanço e conclusões


Os recenseamentos agrícolas realizados nos Estados Unidos em 1900 e 1910 representam a última palavra da estatística social neste domínio da economia nacional. Seus materiais, os melhores existentes nos países avançados, têm por objeto milhões de explorações e permitem tirar conclusões precisas e concretas sobre a evolução da agricultura no regime capitalista. Na medida em que os Estados Unidos da América constituem o país onde a agricultura capitalista ocupa as mais vastas extensões e apresenta a maior diversidade de relações, a maior riqueza de nuances e formas, estes materiais permitem que as leis desta evolução possam ser mais particularmente estudadas. Neste país, encontramos, de um lado, a passagem da estrutura escravista da agricultura — ou feudal, o que vem a dar no mesmo. — à estrutura mercantil e capitalista; de outro lado, uma amplitude e rapidez. particulares do desenvolvimento do capitalismo no país burguês mais livre e mais avançado. E, ao mesmo tempo, uma colonização em vastíssima escala, guiada pelos princípios da democracia capitalista.

Encontramos aí regiões há muito povoadas, extremamente industrializadas, com uma agricultura altamente intensiva, análogas à maioria das regiões da Europa Ocidental civilizada, nas quais o capitalismo desde há muito se instalou; e também regiões de agricultura, e pecuária primitivas e extensivas, do gênero de certas regiões periféricas da Rússia ou de partes da Sibéria. Nos Estados Unidos, nós encontramos os mais variados tipos de pequenas e grandes farms: grandes latifúndios, plantations no antigo Sul escravista, o Oeste em processo de colonização e o Norte altamente capitalista no litoral do Atlântico; pequenas farms de parceiros negros e pequenas farms capitalistas produtoras. de leite ou hortaliças no Norte industrial, ou de frutas não litoral do oceano Pacífico; "fábricas de trigo" que empregam trabalhadores assalariados, e homesteads de pequenos, agricultores "independentes" ainda cheios de ingénuas ilusões sobre a possibilidade de viverem "do trabalho de suas próprias mãos".

Notável a diversidade de relações, abrangendo o passado e o futuro, a Europa e a Rússia. A comparação com a Rússia é particularmente instrutiva, especialmente em relação às consequências da passagem eventual de todas as terras, sem indenizações, aos camponeses, operação progressista, mas de caráter indiscutivelmente capitalista.

O exemplo doa Estados Unidos permite, melhor que qualquer outro, estudar as leis gerais do desenvolvimento do capitalismo na agricultura e a diversidade de formas sob as quais elas se manifestam. E este estudo conduz a conclusões que podem ser resumidas nas sucintas teses que se seguem.

Na agricultura, o trabalho manual predomina sobre a máquina muito mais que na indústria. Mas a máquina está em constante avanço, melhorando a técnica de cultivo, ampliando a escala das explorações e tornando-as mais capitalistas. As máquinas são empregadas de forma capitalista na agricultura moderna.

O indicador essencial do capitalismo na agricultura é o trabalho assalariado. É possível constatar o desenvolvimento do trabalho assalariado, bem como o aumento do emprego de máquinas, em todas as regiões do país e em todos os ramos da agricultura. O aumento do número de operários assalariados supera o de população rural e o da população total do país. O crescimento do número de farmers atrasa-se em relação ao crescimento da população rural. As contradições de classe aprofundam-se e exacerbam-se.

A eliminação da pequena produção pela grande avança na agricultura. A comparação dos dados de 1900 e 1910 sobre o conjunto dos bens das farms fornece, com relação a este aspecto, a prova formal.

Mas esta eliminação é minimizada e a situação dos pequenos agricultores é embelezada como decorrência do fato de que, em 1910, os investigadores limitaram-se na América — como, eles fazem em quase toda a Europa — a classificar as explorações segundo sua superfície Quanto mais intensiva se torna a agricultura, mais se observa esta tendência a minimizar e embelezar os fatos. O capitalismo não se expande apenas pela aceleração do desenvolvimento das explorações de grande extensão nas regiões de agricultura extensiva, mas também pela criação de explorações maiores quanto ao volume de sua produção, de caráter capitalista mais acentuado, em lotes de terra de menor dimensão, nas regiões de agricultura intensiva.

Em suma, a concentração da produção nas grandes explorações é efetivamente mais forte, a eliminação da pequena produção e efetivamente mais profunda e progressiva do que indicam os dados habituais sobre as farms agrupadas segundo a sua superfície. Os dados do recenseamento de 1900, interpretados de forma mais criteriosa, mais detalhada e mais científica, não deixam qualquer sombra de dúvida a este respeito.

A expropriação da pequena agricultura prossegue. No curso das últimas décadas observa-se uma contínua redução dos proprietários em relação ao número total de farmers, que por seu lado, atrasa-se em sua progressão, em relação ao crescimento da população. Na principal região, o Norte, que fornece a massa mais significativa de produtos agrícolas e que desconhece qualquer vestígio de escravismo e colonização, o número de farmers proprietários de toda a sua fazenda diminuiu em termos absolutos. No curso dos últimos dez anos, a percentagem de farmers que possuem gado decresceu, paralelamente ao aumento da percentagem de explorações que possuem gado leiteiro cresceu o número de explorações que não possuem cavalos. E isto numa proporção bem mais acentuada, sobretudo entre os pequenos farmers.

De uma forma geral, a confrontação de dados da mesma natureza e para uma mesma época, relativos à indústria e à agricultura, mostram-nos, juntamente com um atraso infinitamente mais significativo da segunda, uma notável identidade das leis de evolução e a eliminação da pequena produção tanto numa quanto na outra.

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Inclusão 03/04/2012