Do Diário de um Publicista
Os Erros do Nosso Partido

V. I. Lénine

22 de Setembro de 1917

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Primeira Edição: em 1924 na Revista Proletárskaia Revoliútsia n°3.

Fonte: Obras Escolhidas em Três Tomos, 1978, t2, pp 313-317, Edições Avante! - Lisboa, Edições Progresso - Moscovo.
Tradução: Edições "Avante!" com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t. 34, pp. 257-263.
Transcrição: Partido Comunista Português
Enviado: Diego Grossi Pacheco
HTML: Fernando A. S. Araújo, março 2009.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Edições "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1977.


capa

Sexta-feira, 22 de Setembro de 1917

Quanto mais se medita no significado da chamada Conferência Democrática, quanto mais atentamente se a observa de fora — e de fora, dizem, vê-se melhor — mais firme se torna a convicção de que o nosso partido cometeu um erro ao participar nela. Devíamos tê-la boicotado. Perguntarão talvez qual a utilidade de analisar tal questão. Não podes voltar ao passado. Mas esta objecção quanto à táctica do dia de ontem seria claramente inconsistente. Sempre condenámos e, como marxistas, somos obrigados a condenar, a táctica daquele que vive «dia a dia». Os êxitos momentâneos não nos bastam. Não nos bastam também em geral os planos para um minuto ou para um dia. Devemos verificar constantemente os nossos actos, estudando a cadeia dos acontecimentos políticos na sua totalidade, nas suas relações de causalidade, nos seus resultados. Analisando os erros do dia de ontem, aprendemos nós próprios a evitar os erros de hoje e de amanhã.

No país cresce claramente uma nova revolução, uma revolução de outras classes (em comparação com as que realizaram a revolução contra o tsarismo). Nessa altura foi uma revolução do proletariado, do campesinato e da burguesia em aliança com o capital financeiro anglo-francês contra o tsarismo.

Agora cresce a revolução do proletariado e da maioria dos camponeses, isto é: do campesinato pobre contra a burguesia, contra o seu aliado, o capital financeiro anglo-francês, contra o seu aparelho governamental encabeçado pelo bonapartista Kérenski.

Agora não nos deteremos nos factos que testemunham o crescimento de uma nova revolução, pois, a julgar pelos artigos do nosso órgão central, o Rabótchi Put[N184], o partido já esclareceu a sua opinião sobre este ponto. O crescimento de uma nova revolução representa, parece, um fenómeno geralmente reconhecido pelo partido. Naturalmente, ainda precisamos de uma revisão dos dados sobre este crescimento, mas eles devem constituir o tema de outros artigos.

Neste momento, o mais importante é prestar a maior atenção às diferenças de classe entre a velha revolução e a nova, a apreciação do momento político e das nossas tarefas do ponto de vista desse fenómeno fundamental que é a correlação das classes. Então, na primeira revolução, a vanguarda foram os operários e soldados, isto é, o proletariado e as camadas avançadas do campesinato.

Esta vanguarda arrastou atrás de si não só muitos dos elementos piores, vacilantes, da pequena burguesia (recordemos as vacilações dos mencheviques e dos trudoviques em relação à república), mas ainda o partido monárquico dos democratas-constitucionalistas, a burguesia liberal, transformando-a em republicana. Porque é que tal transformação foi possível?

Porque o domínio económico é tudo para a burguesia, e a forma de domínio político é uma questão secundária, a burguesia pode dominar também numa república, o seu domínio é mesmo mais seguro numa república, no sentido de que neste regime político nenhumas alterações na composição do governo, na composição e no agrupamento dos partidos dirigentes atingem a burguesia.

Naturalmente, a burguesia era e será pela monarquia, porque a protecção mais brutal, militar, do capital pelas instituições monárquicas é mais visível, «mais próxima» para todos os capitalistas e latifundiários. Mas, sob uma forte pressão «de baixo», a burguesia «conformou-se» sempre e por toda a parte com a republica, com a condição de salvaguardar o seu domínio económico.

Agora o proletariado e o campesinato pobre, isto é, a maioria do povo, colocaram-se numa relação tal com a burguesia e o imperialismo «aliado» (e também mundial) que não é possível «arrastar» atrás de si a burguesia. Mais ainda: as camadas superiores da pequena burguesia e as camadas mais abastadas da pequena burguesia democrática são claramente contra uma nova revolução. Este facto é a tal ponto evidente que não é preciso determo-nos nele agora. Os senhores Liberdan[N185], Tseretéli e Tchernov ilustram-no com a maior evidência.

A inter-relação das classes modificou-se. Nisto está o essencial.

Não são as mesmas classes que se encontram «de um lado e do outro da barricada».

Isto é o principal.

Nisto e nisto está a base científica para falar de uma nova revolução que poderia, raciocinando de forma puramente teórica, tomando a questão em abstracto, realizar-se legalmente se, por exemplo, a Assembleia Constituinte convocada pela burguesia desse uma maioria contra ela, desse a maioria aos partidos dos operários e dos camponeses pobres.

A inter-relação objectiva das classes, o seu papel (económico e político) fora das instituições representativas de um determinado tipo e dentro delas; o crescimento ou o declínio da revolução, a correlação dos meios de luta extraparlamentares com os parlamentares — eis onde estão os dados principais, fundamentais, objectivos, que é preciso ter em conta para deduzir a táctica do boicote ou da participação, não arbitrariamente, não segundo as nossas «simpatias», mas de modo marxista.

A experiência da nossa revolução esclarece-nos claramente como se deve abordar de modo marxista a questão do boicote.

Porque é que o boicote à Duma de Bulíguine se revelou uma táctica justa?

Porque correspondia à correlação objectiva das forças sociais no seu desenvolvimento. Deu à revolução que crescia a palavra de ordem de derrubar o velho poder, que, para desviar o povo da revolução, convocava uma instituição (a Duma de Bulíguine) conciliadora, grosseiramente falsificada, e que por isso não abria perspectivas de «ancorar» seriamente no parlamentarismo. Os meios de luta extraparlamentares do proletariado e do campesinato eram mais fortes. Eis a partir de que elementos se formou a táctica justa, que tinha em conta a situação objectiva, de boicote à Duma de Bulíguine.

Porque é que a táctica de boicote à III Duma se revelou errada?

Porque se apoiava apenas no «brilho» da palavra de ordem de boicote e na repugnância pelo carácter grosseiramente reaccionário da «pocilga» de 3 de Junho. Mas a situação objectiva era tal que, por um lado, a revolução estava num fortíssimo declínio e caiu ainda mais. Para o seu ascenso, o apoio parlamentar (mesmo do interior de uma «pocilga») adquiria uma enorme importância política, pois quase não existiam, ou eram extremamente fracos, meios de propaganda, de agitação, de organização extraparlamentares. Por outro lado, o carácter grosseiramente reaccionário da III Duma não a impedia de ser um órgão da inter-relação real das classes, a saber: da aliança stolipiniana da monarquia com a burguesia. O país devia superar esta nova inter-relação das classes. Eis a partir de que elementos se formou a táctica justa da participação na III Duma, que tinha em conta a situação objectiva.

Basta reflectir nestas lições da experiência, nas condições de uma abordagem marxista da questão do boicote ou da participação, para nos convencermos da incorrecção mais completa da táctica da participação na «Conferência Democrática», no «Conselho Democrático» ou pré-parlamento.

Por um lado, cresce uma nova revolução. A guerra intensifica-se. Os meios extraparlamentares de propaganda, de agitação, de organização, são enormes. A importância da tribuna «parlamentar» neste pré-parlamento é insignificante. Por outro lado, este pré-parlamento não exprime nem «serve» nenhuma nova inter-relação das classes; o campesinato, por exemplo, está aqui pior representado do que nos órgãos já existentes (o Soviete de deputados camponeses). A própria essência do pré-parlamento é uma fraude bonapartista, não apenas no sentido em que o sórdido bando dos Liberdan, dos Tseretéli e dos Tchernov, juntamente com Kérenski e C.a, fizeram batota, falsificaram a composição desta Duma tseretelista-buliguinista, mas ainda no sentido mais profundo de que o único objectivo do pré-parlamento é enganar as massas, ludibriar os operários e os camponeses, desviá-los da nova revolução que cresce, tapar os olhos das classes oprimidas com uma nova roupagem para a velha «coligação» já experimentada, gasta, coçada, com a burguesia (isto é, a transformação pela burguesia dos senhores Tseretéli e C.a em fantoches que ajudam a submeter o povo ao imperialismo e à guerra imperialista).

Agora somos fracos - diz o tsar em Agosto de 1905 aos seus latifundiários feudais. — O nosso poder vacila. A vaga da revolução operária e camponesa eleva-se. É preciso enganar o «homem simples», entretê-lo com promessas...

Agora somos fracos — diz o tsar actual, o bonapartista Kérenski, aos democratas-constitucionalistas, aos Tit Títitch sem partido, aos Plekhánov às Brechkóvskaia e C.a - O nosso poder vacila. A vaga da revolução operária e camponesa contra a burguesia eleva-se. É preciso enganar a democracia, tingindo para isto de outras cores o fato de fantoche que usam, desde 6 de Maio de 1917, para mistificar o povo, os «chefes da democracia revolucionária» socialistas-revolucionários e mencheviques, os nossos queridos amigos Tseretélis e Tchernovs. Não é difícil entretê-los com promessas de um «pré-parlamento ».

Agora somos fortes — diz o tsar aos seus latifundiários feudais em Junho de 1907. — A vaga da revolução operária e camponesa decresce. Mas não poderemos manter-nos à maneira antiga, só o engano não basta. É precisa uma nova política no campo, é preciso um novo bloco económico e político com os GutchkovMiliukov, com a burguesia.

Podemos assim apresentar três situações: Agosto de 1905, Setembro de 1917, Junho de 1907, para explicar de forma mais evidente os fundamentos objectivos da táctica do boicote, a sua ligação com a inter-relação das classes. As classes oprimidas são sempre enganadas pelos opressores, mas o significado deste engano é diferente em diferentes momentos da história. Não se pode basear a táctica no facto de que os opressores enganam o povo; é preciso determiná-la analisando no seu conjunto a inter-relação das classes e o desenvolvimento da luta tanto extraparlamentar como parlamentar.

A táctica da participação no pré-parlamento é errada, ela não corresponde à inter-relação objectiva das classes, às condições objectivas do momento.

Era preciso boicotar a Conferência Democrática, errámos todos não o fazendo, mas o erro não se torna falsificação. Corrigiremos o erro, se tivermos o desejo sincero de apoiar a luta revolucionária das massas, se reflectirmos seriamente nos fundamentos objectivos da táctica.

É preciso boicotar o pré-parlamento. É preciso retirarmo-nos para o Soviete de deputados operários, soldados e camponeses, retirarmo-nos para os sindicatos, retirarmo-nos em geral para as massas. É preciso chamá-las para a luta. É preciso dar-lhes uma palavra de ordem justa e clara: dispersai o bando bonapartista de Kérenski e o seu pré-parlamento falsificado, essa Duma tseretelista-buliguinista. Mesmo depois da kornilovada, os mencheviques e os socialistas-revolucionários não aceitaram o nosso compromisso, a transferência pacífica do poder para os Sovietes (nos quais não tínhamos ainda a maioria então), escorregaram novamente para o pântano das transacções sórdidas e infames com os democratas-constitucionalistas. Abaixo os mencheviques e os socialistas-revolucionários. Luta implacável contra eles. Sua expulsão implacável de todas as organizações revolucionárias. Nenhumas conversações, nenhumas relações com esses amigos dos Kichkine, amigos dos latifundiários e dos capitalistas kornilovistas.

* * *

Sábado, 23 de Setembro.

Trótski era pelo boicote. Bravo, camarada Trótski!

O boicotismo foi vencido na fracção dos bolcheviques da Conferência Democrática.

Viva o boicote!

Não podemos nem devemos em caso algum aceitar a participação. A fracção de uma das Conferências não é o órgão supremo do partido, e mesmo as decisões dos órgãos supremos estão sujeitas a uma revisão, na base da experiência da vida.

É preciso, a todo o custo, conseguir a decisão da questão do boicote tanto por um plenário do Comité Executivo como por um congresso extraordinário do partido. É preciso tomar agora a questão do boicote como plataforma para as eleições para o congresso e para todas as eleições dentro do partido. É preciso levar as massas a discutir a questão. É preciso que os operários conscientes tomem o assunto nas suas mãos, conduzindo esta discussão e fazendo pressão sobre as «cúpulas».

São impossíveis quaisquer dúvidas acerca de que nas «cúpulas» do nosso partido há vacilações manifestas que podem tornar-se funestas, pois a luta desenvolve-se e, em determinadas condições, as vacilações, em determinado momento, podem deitar a perder a causa. Enquanto não é tarde, é preciso iniciar a luta com todas as forças, defender a linha justa do partido do proletariado revolucionário.

Entre nós nem tudo vai bem nas cúpulas «parlamentares» do partido; grande atenção a elas, grande vigilância dos operários sobre elas; é preciso determinar mais rigorosamente a competência das fracções parlamentares.

O erro do nosso partido é evidente. O partido combatente da classe avançada não teme os erros. O que deveria temer seria a persistência no erro, uma falsa vergonha em o reconhecer e em o corrigir.

* * *

Domingo, 24 de Setembro.

O congresso dos Sovietes foi adiado para 20 de Outubro. Isto quase equivale a adiá-lo para as calendas gregas[N186], ao ritmo a que vive a Rússia. Repete-se pela segunda vez a comédia representada pelos socialistas-revolucionários e pelos mencheviques depois de 20-21 de Abril.

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Notas de fim de tomo:

[N184] Rabótchi Put (Via operária): diário, órgão central do Partido Bolchevique; publicou-se de 3 (16) de Setembro a 26 de Outubro (8 de Novembro) de 1917 em substituição do jornal Pravda, fechado pelo Governo Provisório. A partir de 27 de Outubro (9 de Novembro) o Pravda voltou a publicar-se com o seu título original. (retornar ao texto)

[N185] Liberdan: nome irónico dado aos dirigentes mencheviques Líber e Dan e aos seus partidários depois da publicação no jornal bolchevique de Moscovo Sotsial-Demokrat de um artigo satírico de Demián Bédni intitulado "Liberdan". (retornar ao texto)

[N186] Calendas Gregas: calendas era a palavra com que os romanos designavam o primeiro dia do mês. Esta palavra não existia em grego. "Calendas Gregas" significava nunca. (retornar ao texto)

 

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Inclusão 19/04/2009