A Crise Amadureceu[N187]

V. I. Lénine

29 de Setembro 1917

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Escrito: a 29 Setembro 1917.
Primeira Edição: Os capítulos I-III e V foram publicados a 20 (7) de Outubro 1917 no n° 30 do Jornal Rabótchi Put. O VI capítulo foi publicado pela primeira vez em 1924..

Fonte: Obras Escolhidas em Três Tomos, 1978, t2, pp 318-325, Edições Avante! — Lisboa, Edições Progresso — Moscovo.
Tradução: Edições "Avante!" com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t.34 pp 272-283.
Transcrição: Partido Comunista Português
Enviado: Diego Grossi Pacheco
HTML: Fernando A. S. Araújo, março 2009.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Edições "Avante!" — Edições Progresso Lisboa — Moscovo, 1977.


I

capa

Não há dúvida de que o fim de Setembro nos trouxe uma grandiosa viragem na história da revolução russa e, segundo todas as aparências, também da revolução mundial.

A revolução operária mundial começou com as acções de homens isolados, que representam com uma coragem sem reservas tudo quanto de honesto ficou do apodrecido «socialismo» oficial, que, na realidade, é social-chauvinismo. Liebknecht na Alemanha, Adler na Áustria, MacLean na Inglaterra, tais são os nomes mais conhecidos destes heróis isolados que assumiram o difícil papel de precursores da revolução mundial.

A segunda etapa na preparação histórica desta revolução foi a vasta efervescência das massas, que se manifestou tanto na forma de cisão dos partidos oficiais como na forma de publicações ilegais e na forma de manifestações de rua. Intensificava-se o protesto contra a guerra — aumentava o número de vítimas das perseguições governamentais. As prisões dos países célebres pela sua legalidade e mesmo pela sua liberdade, a Alemanha, a França, a Itália, a Inglaterra, começaram a encher-se de dezenas e centenas de internacionalistas, de inimigos da guerra, de partidários da revolução operária.

Chegou agora a terceira etapa, que pode ser denominada véspera da revolução. As prisões em massa de dirigentes de partidos na livre Itália e, principalmente, o começo de sublevações militares na Alemanha[N188] — eis indícios indubitáveis de uma grande viragem, indícios da véspera da revolução à escala mundial.

Não há dúvida de que na Alemanha houve também anteriormente casos isolados de motins nas tropas, mas estes casos eram tão pequenos, tão dispersos, tão fracos, que conseguiam abafá-los, silenciá-los, e isto foi o principal para impedir o contágio massivo das acções sediciosas.

Finalmente amadureceu na armada também um movimento semelhante, quando não se conseguia já nem abafá-lo nem silenciá-lo, mesmo com todos os rigores do regime prisional militar alemão, inauditamente refinados e observados com incrível pedantismo.

As dúvidas são impossíveis. Encontramo-nos no limiar da revolução proletária mundial. E como nós, os bolcheviques russos, somos os únicos de todos os internacionalistas proletários de todos os países que gozamos de uma liberdade relativamente enorme, que temos um partido legal, umas duas dezenas de jornais, que temos ao nosso lado os Sovietes de deputados operários e soldados das capitais, que temos ao nosso lado a maioria das massas populares num momento revolucionário, podem e devem realmente ser-nos aplicadas as palavras: a quem muito se deu, muito se pede.

II

Na Rússia é indubitável o momento de viragem da revolução. Num país camponês, com um governo revolucionário, republicano, que goza do apoio dos partidos dos socialistas-revolucionários e mencheviques, que ainda ontem dominavam entre a democracia pequeno-burguesa, cresce a insurreição camponesa.

Isto é inacreditável, mas é um facto.

E a nós, bolcheviques, não nos surpreende este facto, nós sempre dissemos que o governo da famigerada «coligação» com a burguesia é o governo da traição ao democratismo e à revolução, o governo do massacre imperialista, o governo da protecção dos capitalistas e latifundiários contra o povo. Na Rússia, graças ao engano pelos socialistas-revolucionários e mencheviques, permaneceu e permanece sob a república, durante a revolução, ao lado dos Sovietes, o governo dos capitalistas e latifundiários. Tal é a amarga e terrível realidade.

Que tem pois de surpreendente que na Rússia, com as inauditas calamidades causadas ao povo pelo prolongamento da guerra imperialista e pelas suas consequências, tenha começado e cresça a insurreição camponesa?

Que tem pois de surpreendente que os adversários dos bolcheviques, os chefes do partido socialista-revolucionário oficial, o mesmo que constantemente apoiou a «coligação», o mesmo que até aos últimos dias ou as últimas semanas tinha a seu lado a maioria do povo, o mesmo que continua a censurar e a perseguir os «novos» socialistas-revolucionários[N189], que se convenceram da traição aos interesses do campesinato pela política da coligação, — que estes chefes do partido socialista-revolucionário oficial tenham escrito a 29 de Setembro no editorial do seu órgão oficial, o Delo Naroda:

«... Até este momento quase nada se fez para suprimir as relações de servidão que ainda dominam no campo precisamente da Rússia central... A lei sobre a regulação das relações agrárias no campo, já há muito apresentada ao Governo Provisório e que até passou num purgatório como a Conferência Jurídica, esta lei emperrou irremediavelmente em certas repartições... Acaso não teremos razão quando afirmamos que o nosso governo republicano está ainda longe de se ter libertado dos velhos hábitos da administração tsarista, que o pulso stolipiniano ainda se faz sentir fortemente nos métodos dos ministros revolucionários?»

Assim escrevem os socialistas-revolucionários oficiais! Pensai só: os partidários da coligação são obrigados a reconhecer que, depois de sete meses de revolução num país camponês, «quase nada se fez para suprimir a servidão» dos camponeses, a sua submissão aos latifundiários! Estes socialistas-revolucionários são obrigados a chamar stolipinianos ao seu colega Kérenski e a todo o seu bando de ministros.

Será possível encontrar testemunho mais eloquente vindo do campo dos nossos adversários que confirme não só que a coligação faliu, não só que os socialistas-revolucionários oficiais, que toleram Kérenski, se tornaram um partido antipopular, anticamponês, contra-revolucionário, mas também que toda a revolução russa chegou a uma viragem?

Uma insurreição camponesa num país camponês, contra o governo de Kérenski, socialista-revolucionário, de Nikítine e Gvózdev, mencheviques, e de outros ministros representantes do capital e dos interesses latifundiários! O esmagamento desta insurreição com medidas militares de um governo republicano.

Será ainda possível perante tais factos ser um partidário honesto do proletariado e negar que a crise amadureceu, que a revolução atravessa uma grandiosa viragem, que a vitória do governo sobre a insurreição camponesa seria agora o enterro definitivo da revolução, o triunfo definitivo da kornilovada?

III

É claro por si mesmo que, se num país camponês, depois de sete meses de república democrática, as coisas puderam chegar a uma insurreição camponesa, ela demonstra irrefutavelmente a bancarrota nacional da revolução, a sua crise, que atingiu uma intensidade nunca vista, a aproximação das forças contra-revolucionárias do último limite.

Isto é claro por si mesmo. Perante um facto como a insurreição camponesa, todos os outros sintomas políticos, mesmo que contradissessem este amadurecimento da crise nacional, não teriam absolutamente nenhuma importância.

Mas, pelo contrário, todos os sintomas indicam precisamente que a crise nacional amadureceu.

Depois da questão agrária, na vida de todo o Estado russo tem uma importância especialmente grande, especialmente para as massas pequeno-burguesas da população, a questão nacional. E vemos que na Conferência «Democrática», fabricada pelo senhor Tseretéli e C.a, a cúria «nacional» ocupa o segundo lugar pelo seu radicalismo, cedendo apenas aos sindicatos e colocando-se acima da cúria dos Sovietes de deputados operários e soldados quanto à percentagem de votos emitidos contra a coligação (40 em 55). O governo de Kérenski, o governo do esmagamento da insurreição camponesa, retira da Finlândia as tropas revolucionárias para reforçar a burguesia reaccionária finlandesa. Na Ucrânia, tornam-se cada vez mais frequentes os conflitos dos ucranianos em geral e das tropas ucranianas em particular com o governo.

Consideremos seguidamente o exército, que em tempo de guerra tem uma importância excepcionalmente grande em toda a vida do Estado. Vimos a completa separação do governo das tropas finlandesas e da esquadra do Báltico. Vemos a declaração do oficial Dubássov, não bolchevique, que diz em nome de toda a frente, e diz mais revolucionariamente que todos os bolcheviques, que os soldados não combaterão mais[N190]. Vemos os relatórios governamentais dizendo que os soldados estão «nervosos», que é impossível garantir a «ordem» (isto é, a participação destas tropas no esmagamento da insurreição camponesa). Vemos, finalmente, a votação em Moscovo, onde catorze mil soldados em dezassete mil votam pelos bolcheviques.

Esta votação nas eleições para as Dumas de bairro em Moscovo é, em geral, um dos sintomas mais surpreendentes da profundíssima viragem no estado de espírito nacional. Que Moscovo é mais pequeno-burguesa que Petrogrado, isto toda a gente sabe. Que o proletariado de Moscovo tem incomparavelmente maiores laços com o campo, simpatias pelo campo, afinidade com o estado de espírito dos camponeses, isto é um facto muitas vezes confirmado e indiscutível.

Pois bem, em Moscovo os votos dos socialistas-revolucionários e mencheviques caem de 70% em Junho para 18%. A pequena burguesia afastou-se da coligação, o povo afastou-se dela, aqui são impossíveis as dúvidas. Os democratas-constitucionalistas fortaleceram-se, passando de 17% a 30%, mas continuam em minoria, numa minoria irremediável, apesar de os socialistas-revolucionários «de direita» e os mencheviques «de direita» se terem evidentemente juntado a eles. E o Rússkie Védomosti[N191] diz que o número absoluto de votos a favor dos democratas-constitucionalistas baixou de 67 mil para 62 mil. Só os bolcheviques aumentaram o número de votos de 34 mil para 82 mil. Obtiveram 47 % do número total de votos. Não pode haver sombra de dúvida de que, juntamente com os socialistas-revolucionários de esquerda, temos agora a maioria tanto nos Sovietes como no exército e no país.

E no número dos sintomas que têm um significado não só sintomático, mas também muito real, é preciso incluir ainda que os exércitos dos ferroviários e dos empregados dos Correios, que têm uma gigantesca importância económica geral, política geral e militar, continuam em agudo conflito com o governo[N192], e mesmo os mencheviques defensistas estão descontentes com o «seu» ministro Nikítine e os socialistas-revolucionários oficiais chamam «stolipinianos» a Kérenski e C.a Não será claro que tal «apoio» dos mencheviques e socialistas-revolucionários ao governo tem, se é que tem, apenas um significado negativo?

IV

Sim, os chefes do Comité Executivo Central aplicam uma táctica justa de defesa da burguesia e dos latifundiários. E não há a menor dúvida de que os bolcheviques, se se deixassem apanhar na armadilha das ilusões constitucionalistas, da «fé» no congresso dos Sovietes e na convocação da Assembleia Constituinte, da «espera» pelo congresso dos Sovietes, etc. — não há dúvida de que esses bolcheviques se revelariam uns miseráveis traidores à causa proletária.

Seriam traidores a ela, pois com a sua conduta trairiam os operários revolucionários alemães, que começaram uma sublevação na armada. Em tais condições, «esperar» pelo congresso dos Sovietes, etc, é uma traição ao internacionalismo, uma traição à causa da revolução socialista internacional.

Porque o internacionalismo consiste não em frases, não em expressões de solidariedade, não em resoluções, mas em factos.

Os bolcheviques seriam traidores ao campesinato, pois tolerar o esmagamento da insurreição camponesa por um governo que mesmo o Delo Naroda compara com os stolipinianos significa deitar a perder toda a revolução, deitá-la a perder para sempre e irrevogavelmente. Grita-se que há anarquia e que cresce a indiferença das massas: e como não hão-de as massas ser indiferentes às eleições se o campesinato foi levado à insurreição e a chamada «democracia revolucionária» tolera pacientemente que ele seja esmagado militarmente.

Os bolcheviques revelar-se-iam traidores à democracia e à liberdade, pois tolerar o esmagamento da insurreição camponesa em tal momento significa deixar falsificar as eleições para a Assembleia Constituinte exactamente — e ainda pior, mais grosseiramente — como foram falsificados a Conferência Democrática» e o «pré-parlamento».

A crise amadureceu. Está em jogo todo o futuro da revolução russa. Está em questão toda a honra do partido bolchevique. Está em jogo todo o futuro da revolução operária internacional pelo socialismo.

A crise amadureceu ...

29 de Setembro de 1917.

* * *

Até aqui pode ser publicado, mas a continuação é para distribuir aos membros do Comité Central, Comité de Petrogrado, Comité de Moscovo e dos Sovietes.

VI

Que fazer? É preciso aussprechen was ist, «dizer o que existe», reconhecer a verdade de que entre nós, no CC e nos meios dirigentes do partido, existe uma corrente ou opinião favorável a esperar pelo congresso dos Sovietes, contra a tomada imediata do poder, contra a insurreição imediata. É preciso vencer esta corrente ou opinião[N193].

De outro modo, os bolcheviques desonrar-se-iam para sempre e ficariam reduzidos a nada como partido.

Porque deixar passar este momento e «esperar» pelo congresso dos Sovietes é uma completa idiotice ou uma completa traição.

Uma completa traição aos operários alemães. Não vamos esperar quo comece a sua revolução!! Então até os Liberdan[N185] serão pelo «apoio» a ela, Mas ela não pode começar enquanto Kérenski, Kichkine e C.a estiverem no poder.

Uma completa traição ao campesinato. Tendo ambos os Sovietes das capitais, deixar esmagar a insurreição dos camponeses significa perder, e perder merecidamente, toda a confiança dos camponeses, significa igualar-se aos olhos dos camponeses aos Liberdan e outros canalhas.

«Esperar» pelo congresso dos Sovietes é uma completa idiotice, pois isto significa deixar passar semanas, e as semanas e mesmo os dias agora decidem tudo. Isto significa renunciar cobardemente a tomada do poder, pois a 1-2 de Novembro ela será impossível (tanto política como tecnicamente: concentrarão os cossacos para o dia da insurreição «fixada»(1*) estupidamente).

«Esperar» pelo congresso dos Sovietes é uma completa idiotice, pois o congresso não dará nada, não pode dar nada!

Importância «moral»? É espantoso!! «Importância» das resoluções e das conversações com os Liberdan quando sabemos que os Sovietes são pelos camponeses e que a insurreição camponesa é esmagada!! Condenaríamos estes Sovietes ao papel de desprezíveis palradores. Primeiro vencei Kérenski, depois convocai o congresso.

A vitória da insurreição está agora assegurada aos bolcheviques:

  1. podemos(2*) (se não «esperarmos» pelo congresso dos Sovietes) atacar subitamente e a partir de três pontos, de Petrogrado, de Moscovo, da esquadra do Báltico;
  2. temos palavras de ordem que nos asseguram apoio: abaixo o governo que esmaga a insurreição camponesa contra os latifundiários!
  3. estamos em maioria no país;
  4. a desorganização dos mencheviques e socialistas-revolucionários é total;
  5. temos a possibilidade técnica de tomar o poder em Moscovo (que poderia mesmo começar para golpear o inimigo de surpresa);
  6. temos milhares de soldados e operários armados em Petrogrado, que podem tomar ao mesmo tempo o Palácio de Inverno, o Estado-Maior-General, a central telefónica e todas as grandes tipografias; não nos desalojarão dali — e a agitação no exército será tal que será impossível lutar contra este governo da paz, da terra para os camponeses, etc.

Se atacarmos simultaneamente de surpresa a partir de três pontos, em Petrogrado, em Moscovo, na esquadra do Báltico, há noventa e nove por cento de probabilidades de que venceremos com menos vítimas do que em 3-5 de Julho, pois as tropas não marcharão contra o governo da paz. Mesmo se Kérenski tiver já uma cavalaria «fiel», etc, em Petrogrado, com um ataque de dois lados e com a simpatia do exército por nós, Kérenski será obrigado a render- se. Se, mesmo com as possibilidades que agora existem, não tomarmos o poder, então todas as conversas sobre o poder aos Sovietes se converterão numa mentira.

Não tomar agora o poder, «esperar», pairar no CEC, limitar-se a «lutar pelo órgão» (o Soviete), «lutar pelo congresso», significa deitar a perder a revolução.

Ao ver que o CC deixou mesmo sem resposta as minhas instâncias neste espírito desde o começo da Conferência Democrática, que o Órgão Central risca dos meus artigos a indicação de erros tão gritantes dos bolcheviques como a vergonhosa decisão de participar no pré-parlamento, como a concessão de lugares aos mencheviques no praesidium do Soviete, etc, etc, vendo isto devo considerar que isto é uma «subtil» alusão à falta de desejo do CC mesmo de discutir esta questão, uma subtil alusão a que eu cale a boca e à proposta de que me retire.

Sou obrigado apresentar o pedido de demissão do CC, o que faço, mas reservando para mim a liberdade de agitação nas bases do partido e no Congresso do partido.

Porque estou profundamente convencido de que se «esperarmos» pelo Congresso dos Sovietes e deixarmos passar agora o momento, deitaremos a perder a revolução.

29/IX. N. Lenine

PS. Toda uma série de factos demonstrou que mesmo as tropas cossacas não marcharão contra o governo da paz! E quantas são? Onde então? Será que todo o exército não destacará unidades que estejam por nós?

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Notas de rodapé:

(1*) "Convocar" o Congresso dos Sovietes para 20 de Outubro para decidir "a tomada do poder" — em que é que isto se distingue de "fixar" estupidamente a insurreição?? Agora é possível tomar o poder, mas a 20-29 de Outubro não vo-lo deixarão tomar. (Nota do Autor) (retornar ao texto)

(2*) O que fez o partido para estudar a disposição das tropas, etc?, para levar a cabo a insurreição como uma "arte"? — apenas conversas no CEC, etc!! (Nota do Autor) (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N185] Liberdan: nome irónico dado aos dirigentes mencheviques Líber e Dan e aos seus partidários depois da publicação no jornal bolchevique de Moscovo Sotsial-Demokrat de um artigo satírico de Demián Bédni intitulado "Liberdan". (retornar ao texto)

[N187] O artigo "A Crise Amadureceu" foi escrito por Lénine em Viborg. O artigo compunha-se de seis capítulos, dos quais o último, o sexto, não se destinava a ser publicado, mas distribuído aos membros do Comité Central, do Comité de Petrogrado, do Comité de Moscovo e dos Sovietes. Conservou-se o manuscrito apenas dos dois últimos — o V e o VI — deste artigo. No jornal Rabótchi Put, n° 30, de 20 (7) de Outubro de 1917, onde o artigo foi publicado pela primeira vez, publicaram-se não cinco, mas quatro capítulos do artigo, omitindo-se um. O quinto capítulo do artigo foi publicado como sendo o quarto, facto que se constatou ao comparar o texto do jornal com o manuscrito do quinto capítulo. (retornar ao texto)

[N188] Lénine refere-se ao levantamento revolucionário de marinheiros da armada alemã em Agosto de 1917. O levantamento foi dirigido por uma organização revolucionária de marinheiros que contava em fins de Julho quatro mil membros. A organização era encabeçada pelos marinheiros Max Reichpietsch e Albin Kobis, do navio de guerra Friedrich der Grosse. A organização decidiu lutar por uma paz democrática e preparar a insurreição. Em princípios de Agosto começaram na armada as primeiras acções abertas. Os marinheiros do navio Prinz-Regent Luitpold, que se encontrava em Wilhelmshafen, desembarcaram sem autorização para lutar pela libertação de camaradas seus anteriormente presos por terem participado numa greve. Em 16 de Agosto os fogueiros do navio Westphalen recusaram-se a trabalhar. Ao mesmo tempo sublevaram-se os marinheiros do cruzador Nurnberg que estava no alto mar. O movimento dos marinheiros propagou-se também a outros navios de várias esquadras que estavam em Wilhelmshafen. O levantamento revolucionário dos marinheiros da armada alemã foi ferozmente reprimido. Os dirigentes do movimento, Reichpietsch e Kobis, foram fuzilados, e outros marinheiros que participaram activamente na insurreição foram condenados a longas penas de trabalhos forçados. (retornar ao texto)

[N189] Trata-se dos socialistas-revolucionários de esquerda. Ssocialistas-revolucionários de esquerda: o partido dos socialistas-revolucionários de esquerda (internacionalistas) foi criado como organização no seu I Congresso de Toda a Rússia que se realizou de 19 a 28 de Novembro (de 2 a 11 de Dezembro) de 1917. Antes dessa data os socialistas-revolucionários de esquerda existiam como ala esquerda do partido dos socialistas-revolucionários, tendo começado a formar-se durante a Primeira Guerra Mundial. Entre os seus dirigentes contavam-se M. A. Spiridónova, B. D. Kamkov e M. A. Natanson (Bóbrov). A ala esquerda do partido socialista-revolucionário começou a crescer rapidamente depois das jornadas de Julho de 1917. Este processo reflectiu o crescimento dos sentimentos de esquerda do campesinato.
No II Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia os socialistas-revolucionários de esquerda constituíam a maioria da fracção dos socialistas-revolucionários, que se dividiu quanto à questão da participação no Congresso: os socialistasrevolucionários de direita, cumprindo as indicações do CC do partido socialista-revolucionário, abandonaram o Congresso, enquanto os socialistas-revolucionários de esquerda permaneceram no Congresso e em relação às questões mais importantes da ordem do dia votaram ao lado dos bolcheviques. Os bolcheviques, considerando necessário constituir um bloco com o partido socialista-revolucionário de esquerda, que naquela altura tinha um número considerável de partidários entre os camponeses, propuseram aos socialistas-revolucionários de esquerda que entrassem para o Governo Soviético, mas eles rejeitaram a proposta. Não obstante, como resultado das negociações realizadas em Novembro e princípios de Dezembro de 1917, alcançou-se um acordo entre os bolcheviques e os socialistas-revolucionários de esquerda sobre a participação destes últimos no governo. Os socialistas-revolucionários de esquerda comprometeram-se a aplicar na sua actividade a política geral do Conselho de Comissários do Povo (CCP) e a entrarem numa série de colégios dos Comissários do Povo. Os socialistas-revolucionários de esquerda, embora colaborassem com os bolcheviques, discordavam destes em questões fundamentais da construção do socialismo e pronunciavam-se contra a ditadura do proletariado. Em Janeiro e Fevereiro de 1918, o CC dos socialistas-revolucionários de esquerda iniciou uma luta contra a conclusão do Tratado de Brest-Litovsk e, quando este foi concluído e ratificado pelo IV Congresso dos Sovietes em Março, os socialistas-revolucionários de esquerda retiraram-se do Conselho de Comissários do Povo, continuando contudo a participar nos colégios dos comissariados do povo e nos órgãos locais de poder. Com o desenvolvimento, no Verão de 1918, da revolução socialista nos campos e após a criação dos comités de camponeses pobres, começaram a crescer entre os socialistas-revolucionários de esquerda as tendências anti-soviéticas. Em Julho o CC dos socialistas-revolucionários de esquerda organizou em Moscovo o assassínio do embaixador alemão Mirbach e um levantamento armado contra o poder soviético, esperando com isso frustar o Tratado de Brest e provocar uma guerra entre a Rússia Soviética e a Alemanha. Considerando estes factos, o V Congresso dos Sovietes da Rússia, após o esmagamento da revolta de Julho, resolveu expulsar dos Sovietes os socialistas-revolucionários de esquerda que compartilhavam o ponto de vista da sua direcção. Tendo perdido todo o apoio das massas o partido dos socialistas-revolucionários de esquerda tomou o caminho da luta armada contra o Poder Soviético. Uma parte dos socialistas revolucionários de esquerda, partidários da cooperação com os bolcheviques, formou os partidos dos "comunistas populistas" e o dos "comunistas revolucionários". Um número considerável de membros destes partidos foi posteriormente admitido no Partido Comunista. (retornar ao texto)

[N190] Trata-se do discurso, na reunião do Soviete de Petrogrado de 21 de Setembro (4 de Outubro) de 1917, do oficial Dubássov, recém-chegado da frente. Na sua intervenção Dubássov declarou:" O que quer que aqui digais, os soldados não combaterão mais." (retornar ao texto)

[N191] Rússkie Védomosti (Notícias Russas): jornal que se publicou em Moscovo a partir de 63, exprimindo as concepções dos intelectuais liberais moderados. A partir de 1905 o jornal tornou-se o órgão da ala direita do partido democrata-constitucionalista. O Rússkie Védomosti foi fechado em 18, juntamente com outros jornais contra-revolucionários. (retornar ao texto)

[N192] Lénine refere-se à greve nacional dos operários e empregados dos caminhos-de-ferro, que exigiam aumento dos salários. A greve em toda a rede ferroviária do país começou na noite de 23 para 24 de Setembro (6 para 7 de Outubro) de 1917 e terminou na noite de 27 de Setembro (10 de Outubro) de 1917, depois do Governo Provisório ter satisfeito parcialmente as exigências dos grevistas. A greve foi apoiada pelo Partido Bolchevique, cujo Comité Central lançou um apelo a todo o proletariado para que apoiasse os ferroviários. (retornar ao texto)

[N193] Trata-se da atitude de Kámenev, Zinóviev, Trotski e dos seus partidários. Kámenev e Zinóviev pronunciavam-se contra o plano de Lénine de preparação da insurreição armada, procurando demonstrar que a classe operária da Rússia ainda não era capaz de levar a cabo a revolução socialista. Caíram na posição dos mencheviques, que defendiam a república buiguesa. Trótski insistia em que a insurreição fosse adiada até ao II Congresso dos Sovietes de toda a Rússia, o que na realidade significava frustá-la, visto que o Governo Provisório teria podido concentrar forças para essa data e esmagar a insurreição. (retornar ao texto)

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Inclusão 23/04/2009