Conservarão os Bolcheviques o Poder de Estado?[N194]

V. I. L énine

14 de Outubro de 1917

Link Avante

Escrito: em finais de Setembro 1 (14) Outubro 1917.
Primeira Edição: em Outubro de 1917 no n° 1-2 da Revista Prosvechtchénie.

Fonte: Obras Escolhidas em Três Tomos, 1978, t2, pp 327-365, Edições Avante! - Lisboa, Edições Progresso - Moscovo.
Tradução: Edições "Avante!" com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t.34 pp 287-339.
Transcrição: Partido Comunista Português
Enviado: Diego Grossi Pacheco
HTML: Fernando A. S. Araújo, março 2009.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Edições "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1977.


Prefácio à Segunda Edição

[Publicado em 1918 na brochura: N. Lénine, Conservarão os Bolcheviques o Poder de Estado?, colecção «Biblioteca do soldado e do camponês» Petersburgo.]

capa

Como é visível do seu texto, a presente brochura foi escrita em finais de Setembro e terminada em 1 de Outubro de 1917.

A revolução de 25 de Outubro fez passar a questão colocada nesta brochura do domínio da teoria para o domínio da prática.

A esta questão é preciso responder agora com factos, e não com palavras. Os argumentos teóricos contra o poder bolchevique são extremamente fracos. Estes argumentos foram rebatidos.

A tarefa consiste agora em demonstrar com a prática da classe avançada — o proletariado — a vitalidade do governo operário e camponês. Todos os operários conscientes, tudo o que existe de vivo e honesto no campesinato, todos os trabalhadores e explorados mobilizarão todos os seus esforços para resolver na prática esta importantíssima questão histórica.

Ao trabalho, todos ao trabalho, a causa da revolução socialista mundial deve vencer e vencerá.

Petersburgo, 9 de Novembro de 1917.
N. Lénine

Em que concordam todas as tendências, desde o Retch até ao Nóvaia Jizn inclusive, desde os democratas-constitucionalistaskornilovistas até aos semi-bolcheviques, todos com excepção dos bolcheviques?

Em que os bolcheviques sozinhos ou nunca se decidirão a tomar todo o poder de Estado nas suas mãos, ou, se se decidirem e o tomarem, não poderão conservá-lo mesmo pelo mais curto período de tempo.

Se alguém observar que a questão da tomada de todo o poder de Estado pelos bolcheviques sozinhos é uma questão política absolutamente irreal, que só a mais tola presunção de um qualquer «fanático» pode considerá-la real, refutaremos esta observação citando as exactas declarações dos partidos e tendências políticas mais responsáveis e mais influentes das diferentes «cores».

Mas para começar duas palavras acerca da primeira das questões apontadas, a saber: decidir-se-ão os bolcheviques a tomar sozinhos todo o poder de Estado? Já tive ocasião, no Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia, de responder com uma afirmação categórica a esta questão numa observação que fui levado a gritar do lugar durante um dos discursos ministeriais de Tseretéli[N195]. E não encontrei nem na imprensa nem oralmente declaração da parte dos bolcheviques de que não devamos tomar sozinhos o poder. Continuo a manter o ponto de vista de que um partido político em geral — e em particular o partido da classe avançada — não teria direito a existir, seria indigno de se considerar como um partido, seria um triste zero em todos os sentidos se renunciasse ao poder uma vez que tivesse a possibilidade de obter o poder.

Citemos agora as declarações dos democratas-constitucionalistas, dos socialistas-revolucionários e dos semi-bolcheviques (gostaria mais de dizer um quarto de bolcheviques) sobre a questão que nos interessa.

Editorial do Retch de 16 de Setembro:

«... Na sala do Teatro Alexandrínski reinavam o desacordo e a confusão, e a imprensa socialista reflecte o mesmo quadro. Só a opinião dos bolcheviques se distingue pela sua determinação e franqueza. Na Conferência, esta é a opinião da minoria. Nos Sovietes, esta corrente reforça-se cada vez mais. Mas, apesar de toda afogosidade verbal, das frases jactanciosas, da demonstração de autoconfiança, os bolcheviques, com excepção de alguns fanáticos, só são valentes nas palavras. Por sua própria vontade não tentarão tomar «todo o poder». Desorganizadores e destruidores par excellence(1*), em essência são cobardes, no fundo da alma estão perfeitamente conscientes da sua intrínseca ignorância e do carácter efémero dos seus êxitos actuais. Compreendem tão bem como todos nós que o primeiro dia do seu definitivo triunfo seria também o primeiro dia da sua queda precipitada. Irresponsáveis por natureza, anarquistas pelos métodos e processos, são concebíveis apenas como uma das correntes do pensamento político, melhor dizendo, como uma das suas aberrações. O melhor método para nos livrarmos por muitos anos do bolchevismo, para o banir, seria a entrega aos seus dirigentes dos destinos do país. E se não fosse a consciência do carácter inadmissível e funesto de semelhantes experiências, poderia em desespero de causa decidir-se um meio tão heróico. Felizmente, repetimos, estes tristes heróis do dia não aspiram de facto de modo nenhum à conquista de toda a plenitude do poder. Em nenhumas condições são capazes de um trabalho criador. Deste modo, toda a sua determinação e franqueza se limita à esfera da tribuna política, à retórica dos comícios. Na prática a sua posição não pode ser tomada em consideração de qualquer ponto de vista. De resto, num só aspecto ela tem no entanto uma certa consequência real: une todos os outros matizes do 'pensamento socialista' na rejeição da sua atitude...»

Assim raciocinam os democratas-constitucionalistas. E eis o ponto de vista do maior partido, «dominante e governante», da Rússia, do partido dos «socialistas-revolucionários», num editorial igualmente não assinado, isto é, da redacção do Delo Naroda, seu órgão oficial, de 21 de Setembro:

«... Se a burguesia não quer trabalhar juntamente com a democracia até à Assembleia Constituinte na base da plataforma aprovada pela Conferência, então a coligação tem de surgir no seio da Conferência. Isto é um pesado sacrifício da parte dos defensores da coligação, mas a ela têm de chegar também os propagandistas de uma 'linha pura' do poder. Mas tememos que também aqui não possa ter lugar um acordo. E então resta uma terceira e última combinação: o poder deve ser organizado pela metade da Conferência que defendeu em princípio a ideia da sua homogeneidade. «Falemos claramente: os bolcheviques serão obrigados a formar o gabinete. Eles inculcaram com a maior energia na democracia revolucionária o ódio à coligação, prometendo-lhe todos os bens depois da eliminação da 'política de conciliação e atribuindo a esta última todos os males do pais. «Se se davam conta da sua agitação, se não enganavam as massas, são obrigados a pagar as letras que emitiram a torto e a direito. «A questão coloca-se claramente.

«E que não façam esforços inúteis para se esconderem atrás de qualquer teoria criada à pressa sobre a impossibilidade de eles tomarem o poder. «A democracia não aceitará essas teorias.

«Ao mesmo tempo, os partidários da coligação devem garantir-lhes um apoio total. Eis as três combinações, os três caminhos que estão diante de nós — não há outros!» (O itálico pertence ao próprio Delo Naroda.)

Assim raciocinam os socialistas-revolucionários. Eis, finalmente, a «posição», se é que se pode chamar posição à tentativa de se sentar entre duas cadeiras, dos «um quarto de bolcheviques» do Nóvaia Jizn, tomada no editorial do Nóvaia Jizn de 23 de Setembro:

«...Se a coligação com Konoválov e Kichkine for novamente formada, isto significará simplesmente uma nova capitulação da democracia e a revogação da resolução da Conferência sobre um poder responsável na base da plataforma de 14 de Agosto...

«...Um ministério homogéneo de mencheviques e socialistas-revolucionários poderá sentir tão pouco a sua responsabilidade como a sentiram os ministros socialistas responsáveis no governo de coligação... Tal governo não só não poderia reunir à sua volta as forças vivas' da revolução, como não poderia contar com o mínimo apoio activo da sua vanguarda - o proletariado.

«Não obstante, não seria uma saída melhor da situação, mas ainda pior, propriamente não seria uma saída, mas simplesmente um malogro, a constituição de um gabinete homogéneo de outro tipo, de um governo 'do proletariado e do campesinato pobre'. É verdade que ninguém lança tal palavra de ordem, excepto em notas casuais, tímidas, sistematicamente 'esclarecidas' depois, do Rabótchi Put(Escrevem «corajosamente» esta inverdade gritante publicistas responsáveis que até se esqueceram do editorial do Delo Naroda de 21 de Setembro...)

«Os bolcheviques ressuscitaram agora formalmente a palavra de ordem: todo o poder aos Sovietes. Ela foi anulada quando, depois das jornadas de Julho, os Sovietes, por meio do CEC, adoptaram com determinação a via de uma activa política anti-bolchevique. Hoje, porém, não só pode considerar-se restaurada a 'linha do Soviete' como existem todas as razões para considerar que o projectado congresso dos Sovietes dará uma maioria bolchevique. Em tais condições, a palavra de ordem 'todo o poder aos Sovietes', ressuscitada pelos bolcheviques, é uma 'linha táctica' orientada precisamente para a ditadura do proletariado e do 'campesinato pobre'. É verdade que por Sovietes se entendem também os Sovietes de deputados camponeses, e deste modo a palavra de ordem bolchevique pressupõe um poder apoiado numa parte esmagadora de toda a democracia da Rússia. Mas em tal caso a palavra de ordem 'todo o poder aos Sovietes' perde o significado próprio, na medida em que, pela sua composição, torna os Sovietes quase idênticos ao 'pré-parlamento' formado pela Conferência...» (A afirmação do Nóvaia Jizn é uma desavergonhada mentira, equivalente à declaração de que a imitação e falsificação do democratismo são «quase idênticas» ao democratismo: o pré-parlamento é uma imitação que faz passar a vontade da minoria do povo, especialmente de Kuskova, Berkenheim, dos Tchaikóvski e C.a, pela vontade da maioria. Isto em primeiro lugar. Em segundo lugar, até os Sovietes camponeses, falsificados pelos Avxéntiev e pelos Tchaikóvski, deram na Conferência uma percentagem tão alta de adversários da coligação que, juntamente com os Sovietes de deputados operários e soldados, originariam um fracasso certo da coligação. E, em terceiro lugar, «o poder aos Sovietes» significa que o poder dos Sovietes camponeses se propagaria principalmente no campo, e nos campos está assegurada a preponderância dos camponeses pobres.) «... Se isto é assim, então a palavra de ordem bolchevique deve ser imediatamente retirada da ordem do dia. E se 'o poder aos Sovietes' apenas encobre a ditadura do proletariado, então tal poder significa precisamente o fracasso e o naufrágio da revolução.

«Será preciso demonstrar que o proletariado, isolado não só das outras classes do país, mas também das verdadeiras forças vivas da democracia, não poderá nem dominar tecnicamente o aparelho de Estado e pô-lo em movimento numa situação excepcionalmente complicada, nem politicamente será capaz de resistir a toda a pressão das forças inimigas que varrerá não só a ditadura do proletariado mas além disso toda a revolução?

«O único poder que responde às exigências do momento é actualmente uma coligação realmente honesta dentro da democracia.»

* * *

Pedimos desculpa aos leitores por estes longos extractos, mas eles eram absolutamente necessários. Era necessário apresentar com exactidão a posição dos diferentes partidos hostis aos bolcheviques. Era necessário demonstrar com exactidão a circunstância extraordinariamente importante de que todos estes partidos reconheceram que a questão da tomada da plenitude do poder de Estado pelos bolcheviques sozinhos é não só uma questão real, mas também actual, premente.

Passemos agora à análise dos argumentos devido aos quais «todos», desde os democratas-constitucionalistas até aos do Nóvaia Jizn, estão convencidos de que os bolcheviques não conservarão o poder.

O respeitável Retch não avança absolutamente nenhum argumento. Ele apenas lança sobre os bolcheviques uma torrente de injúrias das mais escolhidas e virulentas. A passagem que citámos mostra, entre outras coisas, como seria profundamente errado pensar que o Retch «provoca» os bolcheviques para a tomada do poder, e que por isso: «muito cuidado, camaradas, pois o que o inimigo aconselha é de certeza mau!». Se, em vez de analisarmos com sentido prático as razões, tanto de carácter geral como concreto, nos deixamos «convencer» de que a burguesia nos «provoca» para a conquista do poder, encontrar-nos-emos enganados pela burguesia, pois ela infalivelmente sempre profetizará maldosamente milhões de males derivados da conquista do poder pelos bolcheviques, sempre gritará maldosamente: «o melhor para nos desembaraçarmos dos bolcheviques de um só golpe e por 'longos anos' seria deixá-los chegar ao poder e depois derrotá-los totalmente». Tais gritos são também uma provocação, se quiserdes, só que do lado oposto. Os democratas-constitucionalistas e os burgueses não nos «aconselham» de modo nenhum e nunca nos «aconselharam» a tomar o poder, eles apenas se esforçam por nos intimidar com as tarefas pretensamente insolúveis do poder.

Não. Não devemos deixar-nos intimidar pelos gritos dos burgueses intimidados. Devemos lembrar-nos firmemente de que nunca nos colocámos tarefas sociais «insolúveis», mas as tarefas perfeitamente solúveis dos passos imediatos para o socialismo, como única saída de uma situação muito difícil, só as resolverá a ditadura do proletariado e do campesinato pobre. Mais do que nunca, mais do que em qualquer outro lugar, a vitória, e uma vitória duradoura, está agora assegurada ao proletariado na Rússia se tomar o poder.

Examinaremos de modo puramente prático as circunstâncias concretas que tornam desfavorável este ou aquele momento determinado, mas sem nos deixarmos intimidar nem por um só instante com os clamores selvagens da burguesia, e sem esquecer que a questão da tomada de todo o poder pelos bolcheviques se torna na verdade urgente. Agora um perigo infinitamente maior ameaça o nosso partido no caso de esquecermos isto do que no caso de considerarmos «prematura» a tomada do poder. A este respeito agora nada pode ser «prematuro»: todas as probabilidades num milhão, com excepção de uma ou duas, são favoráveis a isto.

A propósito das maldosas injúrias do Retch podemos e devemos repetir:

Ouvimos a aprovação
Não no doce murmúrio do louvor,
Mas nos gritos selvagens do furor![N196]

Que a burguesia nos odeie tão selvaticamente é uma das provas mais evidentes da verdade de que indicamos correctamente ao povo os caminhos e os meios para derrubar o domínio da burguesia.

* * *

O Delo Naroda, desta vez, por uma rara excepção, não se dignou honrar-nos com as suas injúrias, mas também não avançou nem sombra de argumentos. Apenas tenta intimidar-nos de forma indirecta, por alusões, com a perspectiva de que «os bolcheviques se verão obrigados a formar gabinete». Admito inteiramente que, ao intimidar-nos, os próprios socialistas-revolucionários estejam sinceramente intimidados, mortalmente intimidados pelo espectro do liberal intimidado. Também admito que os socialistas-revolucionários consigam intimidar alguns bolcheviques em instituições especialmente elevadas e especialmente apodrecidas, como o CEC e as comissões de «contactos» a ele semelhantes (isto é, nas que têm ligações com os democratas-constitucionalistas, que se conluiam com os democratas-constitucionalistas, para nos exprimirmos mais simplesmente), pois, em primeiro lugar, a atmosfera em todos estes CECs, no «pré-parlamento», etc, é nojenta e bafienta até à náusea, respirá-la durante muito tempo é nocivo para qualquer homem, e, em segundo lugar, a sinceridade é contagiosa, e um filisteu sinceramente intimidado é capaz de converter em filisteu por algum tempo até um revolucionário isolado.

Mas por mais compreensível que seja, julgando «humanamente», este medo sincero do socialista-revolucionário que teve a infelicidade de ser ministro com os democratas-constitucionalistas, ou de estar perante os democratas-constitucionalistas numa posição ministeriável, deixar-se intimidar significa cometer um erro político, que demasiado facilmente pode raiar a traição ao proletariado. Os vossos argumentos práticos, senhores! Não espereis que nos deixemos intimidar com o vosso medo!

* * *

Encontramos argumentos práticos apenas no Nóvaia Jizn. Ele desempenha desta vez o papel de advogado da burguesia, que lhe fica muito melhor que o papel de defensor dos bolcheviques, claramente «chocante» para esta dama agradável sob todos os aspectos.[N197]

O advogado avançou seis argumentos:

  1. o proletariado está «isolado das outras classes do país»;
  2. ele está «isolado das verdadeiras forças vivas da democracia»;
  3. «não poderá dominar tecnicamente o aparelho de Estado»;
  4. «ele não poderá pôr em movimento» este aparelho;
  5. «a situação é excepcionalmente complicada»;
  6. ele «não será capaz de resistir a toda a pressão das forças inimigas que varrerá não só a
    ditadura do proletariado mas além disso toda a revolução».

O primeiro argumento é exposto pelo Nóvaia Jizn de modo desajeitado até ao ridículo, pois na sociedade capitalista e semi-capitalista conhecemos apenas três classes: a burguesia, a pequena burguesia (o campesinato como seu principal representante) e o proletariado. Pois bem, que sentido tem falar do isolamento do proletariado em relação às outras classes, quando se trata da luta do proletariado contra a burguesia? da revolução contra a burguesia?

O Nóvaia Jizn quis provavelmente dizer que o proletariado está isolado do campesinato, pois aqui de facto não se podia tratar dos latifundiários. Mas era impossível dizer precisa, claramente, que o proletariado está agora isolado do campesinato, pois a falsidade gritante de semelhante afirmação salta aos olhos.

É difícil imaginar que num país capitalista o proletariado esteja tão pouco isolado da pequena burguesia - e notai: numa revolução contra a burguesia - como hoje o proletariado na Rússia. Entre os dados objectivos e indiscutíveis temos os últimos dados da votação por e contra a coligação com a burguesia nas «cúrias» da «duma de Bulíguine»[N198] tseretélista, isto é, da famigerada Conferência «Democrática». Tomemos as cúrias dos Sovietes. Obtemos:

 
Pela
coligação
Contra
Sovietes de deputados operários e soldados
83
195
Sovietes de deputados camponeses
102
70
Todos os Sovietes
185
262

Assim, a maioria no seu conjunto está do lado da palavra de ordem proletária: contra a coligação com a burguesia. E vimos acima que mesmo os democratas-constitucionalistas são obrigados a reconhecer o reforço da influência dos bolcheviques nos Sovietes. E temos aqui uma Conferência convocada pelos chefes de ontem nos Sovietes, pelos socialistas-revolucionários e mencheviques, que têm uma maioria assegurada nas instituições centrais! É claro que a preponderância real dos bolcheviques nos Sovietes está aqui diminuída.

Tanto quanto à questão da coligação com a burguesia como quanto à questão da entrega imediata das terras dos latifundiários aos comités camponeses, os bolcheviques têm já agora a maioria nos Sovietes de deputados operários, soldados e camponeses, a maioria do povo, a maioria da pequena burguesia. O Rabótchi Put n.° 19, de 24 de Setembro, cita do número 25 do Známia Trudá[N199], órgão dos socialistas-revolucionários, informações sobre a Conferência dos Sovietes locais de deputados camponeses realizada em Petrogrado em 18 de Setembro. Nesta conferência pronunciaram-se pela coligação sem restrições os comités executivos de quatro Sovietes camponeses (das províncias de Kostromá, Moscovo, Samara e Táurida). Pela coligação sem os democratas-constitucionalistas pronunciaram-se os comités executivos de três províncias e de dois exércitos (das províncias de Vladímir, de Riazan e do mar Negro). Contra a coligação pronunciaram-se os comités executivos de vinte e três províncias e quatro exércitos.

Assim, a maioria dos camponeses é contra a coligação!

Eis o vosso «isolamento do proletariado».

De passagem, é preciso observar que pela coligação se pronunciaram três províncias periféricas, a de Samara, a de Táurida e a do mar Negro, onde há relativamente muitos camponeses ricos, grandes latifundiários que empregam operários assalariados, e também quatro províncias industriais (Vladímir, Riazan, Kostromá e Moscovo), nas quais a burguesia camponesa é também mais forte do que na maioria das províncias da Rússia. Seria interessante reunir dados mais pormenorizados sobre esta questão e examinar se não haverá informações precisamente sobre os camponeses pobres nas províncias com um maior campesinato «rico».

É além disso interessante que os «grupos nacionais» deram uma preponderância muito significativa aos adversários da coligação, a saber: 40 votos contra 15. A política anexionista e brutalmente violenta do bonapartista Kérenski e C.a em relação às nações sem plenos direitos da Rússia deu os seus frutos. A grande massa da população das nações oprimidas, isto é, incluindo a massa da pequena burguesia, confia mais no proletariado da Rússia que na burguesia, pois a história pôs aqui na ordem do dia a luta das nações oprimidas contra os opressores pela libertação. A burguesia traiu de maneira infame a causa da liberdade das nações oprimidas, o proletariado é fiel à causa da liberdade.

As questões nacional e agrária são, actualmente, questões fundamentais do momento das massas pequeno-burguesas da população da Rússia. Isto é incontestável. E, quanto a ambas as questões, o proletariado está excepcionalmente «não isolado». Tem por si a maioria do povo. Só ele é capaz de conduzir, quanto a ambas as questões, uma política tão resoluta, verdadeiramente «democrático-revolucionária», que assegure imediatamente ao poder de Estado proletário o apoio da maioria da população, mas também uma verdadeira explosão de entusiasmo revolucionário nas massas, pois pela primeira vez as massas encontrariam da parte do governo não a opressão implacável dos camponeses pelos latifundiários, dos ucranianos pelos grão-russos, como sob o tsarismo, não a tentativa, encoberta com frases pomposas, de prosseguir sob a república exactamente a mesma política, não chicanas, ofensas, intrigas, adiamentos, rasteiras, evasivas (com que Kérenski recompensa os camponeses e as nações oprimidas), mas uma simpatia ardente demonstrada com factos, medidas imediatas e revolucionárias contra os latifundiários, a imediata restituição da plena liberdade à Finlândia, à Ucrânia, à Bielorrússia, aos muçulmanos, etc.

Os senhores socialistas-revolucionários e mencheviques sabem-no perfeitamente, e por isso arrastam as cúpulas semidemocratas-constitucionalistas das cooperativas em auxílio da sua política democrático-reaccionária contra as massas. Por isso nunca se decidirão a consultar a massa, a organizar um referendo ou mesmo uma votação em todos os Sovietes locais, em todas as organizações locais, relativamente a pontos determinados da política prática, por exemplo, se se deve entregar imediatamente todas as terras dos latifundiários aos comités camponeses, se se deve dar satisfação a estas ou aquelas reivindicações dos finlandeses ou dos ucranianos, etc.

E a questão da paz, esta questão fundamental de toda a vida actual. O proletariado está «isolado das outras classes»... Na realidade, o proletariado actua aqui como representante de toda a nação, de tudo o que há de vivo e de honesto em todas as classes, da gigantesca maioria da pequena burguesia, pois só o proletariado, quando alcançar o poder, proporá imediatamente a todos os povos beligerantes uma paz justa, só o proletariado tomará medidas verdadeiramente revolucionárias (publicação dos tratados secretos, etc.) para alcançar o mais rapidamente possível uma paz o mais justa possível.

Não. Os senhores do Nóvaia Jizn, que gritam acerca do isolamento do proletariado, com isso apenas exprimem o seu próprio medo subjectivo da burguesia. A situação objectiva na Rússia, indubitavelmente, é tal que exactamente agora o proletariado não esta «isolado» da maioria da pequena burguesia. Exactamente agora, depois da triste experiência da «coligação», o proletariado tem pelo seu lado a simpatia da maioria do povo. Esta condição necessária para a conservação do poder pelos bolcheviques existe.

* * *

O segundo argumento consiste em que o proletariado está pretensamente «isolado das verdadeiras forças vivas da democracia». O que isto significa, é impossível sabê-lo. Isto provavelmente é «grego», como dizem os franceses nestes casos.

Os escritores do Nóvaia Jizn são gente ministeriável. Seriam perfeitamente aptos para ministros sob os democratas-constitucionalistas. Pois o que se exige de tais ministros é precisamente habilidade para dizer frases plausíveis e delambidas absolutamente sem nenhum sentido, com as quais se possa encobrir todas as infâmias, com as quais por isso estão garantidos os aplausos dos imperialistas e dos sociais-imperialistas. Os aplausos dos democratas-constitucionalistas, de Brechkóvskaia, de Plekhánov e C.a, estão assegurados aos novojiznistas pela afirmação de que o proletariado está isolado das verdadeiras forças vivas da democracia, pois diz-se aqui de forma indirecta — ou esta afirmação será compreendida como se o dissessem — que os democratas-constitucionalistas, Brechkóvskaia, Plekhánov, Kérenski e C.a são «as forças vivas da democracia».

Isto é falso. São forças mortas. A história da coligação o demonstrou.

Os novojiznistas, intimidados pela burguesia e pelo ambiente burguês-intelectual, consideram «viva» a ala direita dos socialistas-revolucionários e mencheviques, como o Vólia Naroda[N200], o Edinstvo, etc, que em nada de substancial se distingue dos democratas-constitucionalistas. Mas nós consideramos vivo apenas o que está ligado às massas e não aos kulaques, apenas aqueles a quem as lições da coligação afastaram dela. As «forças vivas activas» da democracia pequeno-burguesa são representadas pela ala esquerda dos socialistas-revolucionários e mencheviques. O reforço desta ala esquerda, especialmente depois da contra-revolução de Julho, é um dos indícios objectivos mais seguros de que o proletariado não está isolado.

Mostram-no ainda com maior evidência nos últimos tempos as vacilações dos socialistas-revolucionários centristas para a esquerda, demonstradas pela declaração de Tchernov de 24 de Setembro de que o seu grupo não pode apoiar a nova coligação com Kichkine e C.a. Estas vacilações para a esquerda do centro socialista-revolucionário, que até este momento constituía a esmagadora maioria dos representantes do partido dos socialistas-revolucionários, do partido que vai à cabeça e predomina pelo número de votos recolhidos por ele na cidade e especialmente no campo, demonstram que as declarações do Delo Naroda por nós citadas acima sobre a necessidade de a democracia, em certas condições, «garantir pleno apoio» a um governo puramente bolchevique, que estas declarações não são, em todo o caso, apenas frases.

Factos como a recusa do centro socialista-revolucionário de apoiar a nova coligação com Kichkine ou a preponderância dos adversários da coligação entre os mencheviques-defensistas das províncias (Jordânia no Cáucaso, etc), são uma prova objectiva de que uma determinada parte das massas que até agora seguiam os mencheviques e os socialistas-revolucionários apoiará um governo puramente bolchevique.

É precisamente das forças vivas da democracia que o proletariado da Rússia não está agora isolado.

* * *

Terceiro argumento: o proletariado «não poderá dominar tecnicamente o aparelho do Estado». Este é talvez o argumento mais habitual, mais corrente. Merece a maior atenção por este motivo e também porque aponta para uma das tarefas mais sérias, mais difíceis, que se colocarão ao proletariado vitorioso. Não há dúvida de que estas tarefas são muito difíceis, mas se nós, que nos chamamos socialistas, apontarmos esta dificuldade só para nos esquivarmos ao cumprimento de tais tarefas, na prática reduzir-se-ia a nada a diferença entre nós e os servidores da burguesia. A dificuldade das tarefas da revolução proletária deve estimular os partidários do proletariado a um estudo mais atento e concreto dos meios para realizar essas tarefas.

Por aparelho de Estado entende-se, em primeiro lugar, o exército permanente, a polícia e o funcionalismo. Ao dizerem que o proletariado não poderá dominar tecnicamente este aparelho, os escritores do Nóvaia Jizn revelam a mais extrema ignorância e a falta de desejo de ter em conta nem os factos da vida nem as considerações feitas há muito na literatura bolchevique.

Os escritores do Nóvaia Jizn consideram-se todos, se não marxistas, pelo menos conhecedores do marxismo, socialistas cultos. Mas Marx ensinou, na base da experiência da Comuna de Paris, que o proletariado não pode simplesmente apossar-se da máquina de Estado já existente e pô-la em marcha para os seus próprios fins, que o proletariado tem de destruir esta máquina e substituí-la por uma nova (disto falo mais pormenorizadamente numa brochura de que a primeira parte está já terminada e que em breve se publicará com o título: O Estado e a Revolução. A doutrina do marxismo sobre o Estado e as tarefas do proletariado na revolução). Esta nova máquina de Estado foi criada pela Comuna de Paris, e os Sovietes de deputados operários, soldados e camponeses russos são um «aparelho de Estado» do mesmo tipo. Eu apontei muitas vezes esta circunstância desde 4 de Abril de 1917, fala-se nisto nas resoluções das conferências bolcheviques e também na literatura bolchevique. O Nóvaia Jizn, naturalmente, poderia declarar o seu completo desacordo tanto com Marx como com os bolcheviques, mas iludir plenamente a questão da parte de um jornal que tão frequentemente e tão altivamente injuria os bolcheviques pela pretensa falta de seriedade em relação às questões difíceis, significa passar a si mesmo um atestado de pobreza.

O proletariado não pode «apossar-se» do «aparelho de Estado» e «pô-lo em movimento». Mas pode destruir tudo o que existe de opressor, de rotineiro, de incorrigivelmente burguês no velho aparelho de Estado, colocando em seu lugar um aparelho novo, seu. Este aparelho são precisamente os Sovietes de deputados operários, soldados e camponeses.

Não é possível deixar de chamar simplesmente monstruoso o facto de que o Nóvaia Jizn se tenha esquecido por completo deste «aparelho de Estado». Os novojiznistas, procedendo assim nos seus raciocínios teóricos, no fundo fazem no domínio da teoria política o que os democratas-constitucionalistas fazem na prática política. Pois se de facto o proletariado e a democracia revolucionária não necessitam de qualquer novo aparelho de Estado, então os Sovietes perdem a raison d'etre(2*) e perdem o direito de existir, então os democratas-constitucionalistas kornilovistas têm razão nos seus esforços para reduzir a nada os Sovietes!

Este monstruoso erro teórico e a cegueira política do Nóvaia Jizn são tanto mais monstruosos quanto até os mencheviques-intemacionalistas (com os quais o Nóvaia Jizn formou um bloco nas últimas eleições para a Duma urbana de Petrogrado) revelaram nesta questão uma certa aproximação em relação aos bolcheviques. Assim, lemos na declaração da maioria dos Sovietes, que o camarada Mártov apresentou na Conferência Democrática:

«...Os Sovietes de deputados operários, soldados e camponeses, criados nos primeiros dias da revolução pelo poderoso impulso da verdadeira actividade criadora do povo, formaram a nova tessitura do Estado revolucionário, que substitui a tessitura gasta do Estado do velho regime...»

Isto é dito de uma maneira demasiado bela, isto é, o requinte da expressão encobre aqui a falta de clareza do pensamento político. Os Sovietes não substituíram ainda a velha «tessitura» e esta velha «tessitura» não é o Estado do velho regime, mas o Estado tanto do tsarismo como da república burguesa. Mas em todo o caso Mártov está aqui duas cabeças acima dos novojiznistas.

Os Sovietes são um novo aparelho de Estado que, em primeiro lugar, proporciona a força armada dos operários e dos camponeses, e esta força não está, como a força do velho exército permanente, separada do povo, mas ligada a ele do modo mais estreito; no aspecto militar, esta força é incomparavelmente mais poderosa do que as anteriores; no aspecto revolucionário não pode ser substituída por qualquer outra. Em segundo lugar, este aparelho proporciona uma ligação tão estreita, indissolúvel, com as massas, com a maioria do povo, facilmente controlável e renovável, que não há absolutamente nada de semelhante no aparelho de Estado anterior. Em terceiro lugar, este aparelho, em virtude da elegibilidade e amovibilidade da sua composição pela vontade do povo, sem formalidades burocráticas, é muito mais democrático que os aparelhos anteriores. Em quarto lugar, ele proporciona uma sólida ligação com as profissões mais diversas, facilitando sem burocracia as reformas mais diversas com o mais profundo carácter. Em quinto lugar, proporciona uma forma de organização da vanguarda, isto é, da parte mais consciente, mais enérgica, mais avançada das classes oprimidas, dos operários e dos camponeses, sendo deste modo um aparelho mediante o qual a vanguarda das classes oprimidas pode elevar, educar, instruir e guiar toda a gigantesca massa destas classes, que até então estava completamente fora da vida política, fora da história. Em sexto lugar, proporciona a possibilidade de unir as vantagens do parlamentarismo com as vantagens da democracia imediata e directa, isto é, de unir na pessoa dos representantes eleitos do povo tanto a função legislativa como a execução das leis. Em comparação com o parlamentarismo burguês, isto é um passo em frente no desenvolvimento da democracia que tem uma importância histórica mundial.

Em 1905, os nossos Sovietes foram apenas, por assim dizer, um embrião, pois só existiram umas semanas. É claro que nas condições de então estava fora de questão o seu desenvolvimento completo. Também na revolução de 1917 isto está ainda fora de questão, pois o prazo de alguns meses é extremamente pequeno, e principalmente: os chefes socialistas-revolucionários e mencheviques prostituíram os Sovietes, reduziram-nos ao papel de lugares de conversa, ao papel de apêndices da política conciliadora dos chefes. Sob a direcção dos Líber, dos Dan, dos Tseretéli e dos Tchernov, os Sovietes apodreciam e desagregavam-se em vida. Os Sovietes só poderão desenvolver-se verdadeiramente, manifestar a plenitude das suas aptidões e capacidades tomando todo o poder de Estado, pois de outro modo nada têm a fazer, de outro modo eles são simples embriões (e é impossível ser embrião demasiado tempo) ou brinquedos. A «dualidade de poderes» é a paralisia dos Sovietes.

Se a actividade criadora popular das classes revolucionárias não tivesse criado os Sovietes, a revolução proletária na Rússia seria uma causa sem esperança, pois, com o velho aparelho, o proletariado indubitavelmente não poderia conservar o poder, e é impossível criar de um só golpe o novo aparelho. A triste história da prostituição tseretélistatchernovista dos Sovietes, a história da «coligação», é ao mesmo tempo a história da emancipação dos Sovietes das ilusões pequeno-burguesas, da sua passagem pelo «purgatório» do estudo prático por eles de toda a baixeza e imundície de todas e quaisquer coligações burguesas. Tenhamos esperança que o «purgatório» não tenha debilitado os Sovietes, mas os tenha temperado.

* * *

A principal dificuldade da revolução proletária é a realização à escala nacional do registo e controlo mais preciso e mais consciencioso, do controlo operário sobre a produção e a distribuição dos produtos.

Quando os escritores novojiznistas nos objectavam que caíamos no sindicalismo ao avançar a palavra de ordem de «controlo operário», esta expressão era um exemplo da aplicação escolar e tola do «marxismo», que não foi meditado, mas decorado à maneira struvista. O sindicalismo ou rejeita a ditadura revolucionária do proletariado ou relega-a, tal como o poder político em geral, para o último lugar. Nós colocamo-la em primeiro lugar. Se dissermos simplesmente no espírito dos novojiznistas: não controlo operário, mas controlo estatal, obtemos uma frase reformista burguesa, obtemos, no fundo, uma fórmula puramente democrata-constitucionalista, pois os democratas-constitucionalistas nada têm contra a participação dos operários no controlo «estatal». Os democratas-constitucionalistaskornilovistas sabem muito bem que tal participação é o melhor meio de a burguesia enganar os operários, o melhor meio para subornar subtilmente, no sentido político, todos os Gvózdev, Nikítine, Prokopóvitch, Tseretéli e todo este bando.

Quando dizemos: «controlo operário», colocando esta palavra de ordem sempre ao lado de ditadura do proletariado, imediatamente a seguir a ela, explicamos com isto de que Estado se trata. O Estado é o órgão de domínio de uma classe. De qual? Se é da burguesia, então é o Estado democrata-constitucionalistakornilovista—«kerenskista», pelo qual o povo operário na Rússia é «kornilovizado e kerenskizado» há já mais de meio ano. Se é do proletariado, se se trata de um Estado proletário, isto é, da ditadura do proletariado, então o controlo operário pode tornar-se o registo nacional, universal, omnipresente, muitíssimo preciso e consciencioso da produção e distribuição dos produtos.

Nisto está a dificuldade principal, nisto está a tarefa principal da revolução proletária, isto é, socialista. Sem os Sovietes esta tarefa seria, pelo menos para a Rússia, insolúvel. Os Sovietes apontam o trabalho organizativo do proletariado que pode resolver esta tarefa de importância histórica universal.

Chegámos aqui a outro aspecto da questão do aparelho de Estado. Além do aparelho predominantemente de «opressão» do exército permanente, da polícia e do funcionalismo, existe no Estado actual um aparelho ligado de modo particularmente estreito aos bancos e aos consórcios, um aparelho que efectua uma grande quantidade de trabalho de cálculo e registo, se é lícito exprimirmo-nos assim. Este aparelho não pode nem deve ser destruído. É preciso arrancá-lo da submissão aos capitalistas, cortar, separar, isolar dele os capitalistas e os seus fios de influência, é preciso subordiná-lo aos Sovietes proletários, é preciso torná-lo mais largo, mais universal, mais popular. E isto pode fazer-se, apoiando-se nas conquistas já realizadas pelo grande capitalismo (assim como a revolução proletária em geral só apoiando-se nestas conquistas é capaz de conseguir o seu objectivo).

O capitalismo criou aparelhos de registo na forma de bancos, consórcios, dos correios, sociedades de consumidores, associações de empregados. Sem os grandes bancos o socialismo seria irrealizável.

Os grandes bancos são o «aparelho do Estado» de que necessitamos para realizar o socialismo e que tomamos já pronto do capitalismo, e aqui a nossa tarefa consiste apenas em cortar aquilo que deforma do ponto de vista capitalista este magnífico aparelho, em torná-lo ainda maior, ainda mais democrático, ainda mais universal. A quantidade transformar-se-á em qualidade. Um banco único de Estado, o maior dos maiores, com sucursais em cada distrito, junto de cada fábrica, isto é já nove décimos do aparelho socialista. Isto é uma contabilidade nacional, um registo nacional da produção e distribuição dos produtos, isto, por assim dizer, é como que o esqueleto da sociedade socialista.

Podemos «tomar» e «pôr em movimento» este «aparelho de Estado» (que sob o capitalismo não é totalmente de Estado, mas que connosco, sob o socialismo, será inteiramente de Estado) de um só golpe, com um só decreto, pois o trabalho efectivo de contabilidade, de controlo, de registo, de estatística e de cálculo é executado aqui por empregados, a maioria dos quais se encontra numa situação de proletários ou semi-proletários.

Com um só decreto do governo proletário pode-se e deve-se transferir todos estes empregados para a situação de empregados do Estado — do mesmo modo que os cães de guarda do capitalismo, como Briand e outros ministros burgueses, transferem os ferroviários em greve, com um só decreto, para a situação de empregados do Estado. Precisaremos de muitos mais destes empregados do Estado, e pode-se obter mais, pois o capitalismo simplificou as funções de registo e de controlo, reduziu-as a registos relativamente simples, ao alcance de qualquer pessoa alfabetizada.

A «estatização» da massa dos empregados dos bancos, dos consórcios, do comércio, etc, etc, é uma coisa perfeitamente realizável tanto tecnicamente (graças ao trabalho prévio para nós realizado pelo capitalismo e pelo capitalismo financeiro) como politicamente, com a condição do controlo e da vigilância dos Sovietes.

E com os altos empregados, que são muito poucos, mas que pendem para os capitalistas, somos obrigados a proceder, como com os capitalistas, «com severidade». Eles, tal como os capitalistas, oferecerão resistência. Esta resistência teremos de a quebrar, e se o eternamente ingénuo Pechekhónov balbuciava, já em Junho de 1917, como um autêntico «menino de Estado», que «a resistência dos capitalistas foi quebrada», o proletariado realizará a sério esta frase pueril, esta fanfarronice infantil, esta saída própria de uma criança.

Nós podemos fazê-lo, pois trata-se de quebrar a resistência de uma insignificante minoria da população, literalmente um punhado de homens, sobre cada um dos quais as associações de empregados, os sindicatos, as sociedades de consumidores e os Sovietes estabelecerão uma tal vigilância que cada Tit Títitch ficará cercado como os franceses em Sedan[N201]. Conhecemos estes Tit Títitch pelo nome: basta tomar as listas dos directores, dos membros das administrações, dos grandes accionistas, etc. São algumas centenas, quando muito alguns milhares em toda a Rússia, o Estado proletário, com o aparelho dos Sovietes, associação de empregados, etc, pode designar para cada um deles uma dezena e uma centena de controladores, de modo que, em vez de «esmagar a resistência», talvez se consiga mesmo, por meio do controlo operário (sobre os capitalistas) tornar qualquer resistência impossível.

A «chave» da questão nem sequer estará em confiscar os bens dos capitalistas, mas precisamente no controlo operário nacional, universal, sobre os capitalistas e os seus possíveis partidários. A confiscação só por si não basta, pois nela não há nenhum elemento de organização, de cálculo de uma distribuição correcta. Substituiremos facilmente a confiscação pela imposição de um imposto justo (mesmo que com uma taxa «chingariovista») — apenas excluiríamos a possibilidade de evitar a prestação de contas, de ocultar a verdade, de fugir à lei. E o controlo operário do Estado operário eliminará esta possibilidade.

A consorcização obrigatória, isto é, a união obrigatória em associações sob o controlo do Estado, eis o que o capitalismo preparou, eis o que foi realizado na Alemanha pelo Estado dos junkers, eis o que será completamente realizável na Rússia para os Sovietes, para a ditadura do proletariado, eis o que nos dará um «aparelho de Estado» universal, moderno e não burocrático.(3*)

* * *

Quarto argumento dos advogados da burguesia: o proletariado não poderá «pôr em movimento» o aparelho de Estado. Este argumento não representa nada de novo em comparação com o argumento precedente. Naturalmente não poderíamos nem apossar-nos do velho aparelho nem pô-lo em movimento. O novo aparelho, os Sovietes, foi posto em movimento pelo «poderoso impulso da verdadeira actividade criadora do povo». Apenas é necessário retirar a este aparelho as peias que lhe colocou a dominação dos chefes socialistas-revolucionários e mencheviques. Este aparelho está em marcha e só é preciso deitar fora as monstruosas inutilidades pequeno-burguesas que o impedem de ir avante e avante a toda a velocidade.

Duas circunstâncias temos aqui de analisar, para completar o que dissemos acima: em primeiro lugar, os novos meios de controlo criados não por nós, mas pelo capitalismo no seu estádio militar-imperialista; em segundo lugar, a importância do aprofundamento do democratismo na administração de um Estado de tipo proletário.

O monopólio do trigo e as senhas de racionamento de pão não foram criados por nós, mas pelo Estado capitalista em guerra. Ele criou já o trabalho geral obrigatório no quadro do capitalismo, que é um presídio militar para os operários. Mas também aqui, como em toda a sua actividade criadora histórica, o proletariado toma as suas armas do capitalismo, não as «inventa», não as «cria do nada».

O monopólio do trigo, as senhas de racionamento de pão, o trabalho geral obrigatório são, nas mãos do Estado proletário, nas mãos dos Sovietes investidos de todo o poder, o meio mais poderoso de registo e de controlo, um meio tal que, tornado extensivo aos capitalistas e aos ricos em geral, aplicado a eles pelos operários, representará uma força ainda nunca vista na história para «pôr em movimento» o aparelho de Estado, para superar a resistência dos capitalistas, para os submeter ao Estado proletário. Este meio do controlo e da obrigatoriedade de trabalhar é mais forte que as leis da Convenção[N202] e a sua guilhotina. A guilhotina intimidava, só quebrava a resistência activa. Para nós isto não basta.

Para nós isto não basta. Precisamos não apenas de «intimidar» os capitalistas, no sentido de que eles sintam a omnipotência do Estado proletário e não pensem sequer em resistência activa a ele. Também precisamos de quebrar a resistência passiva, indubitavelmente ainda mais perigosa e mais nociva. Precisamos não só de quebrar a resistência, qualquer que seja. Precisamos de obrigar a trabalhar dentro do novo quadro da organização do Estado. Não basta «pôr na rua os capitalistas», é preciso (depois de pôr na rua os «resistentes» imprestáveis e incorrigíveis) colocá-los ao serviço do novo Estado. Isto diz respeito tanto aos capitalistas como a certa camada superior da intelectualidade burguesa, dos empregados, etc.

E temos os meios para isso. O próprio Estado capitalista beligerante pôs nas nossas mãos os meios e as armas para isto. Estes meios são: o monopólio do trigo, a senha de racionamento de pão, o trabalho geral obrigatório. «Quem não trabalha não deve comer», eis a regra fundamental, a primeira e mais importante de todas que os Sovietes de deputados operários podem aplicar na prática e aplicarão quando tomarem o poder.

Cada operário tem uma caderneta de trabalho. Este documento não o humilha, ainda que agora, indubitavelmente, seja um documento da escravidão assalariada capitalista, um testemunho de que o trabalhador pertence a este ou àquele parasita.

Os Sovietes introduzirão a caderneta de trabalho para os ricos, e depois gradualmente também para toda a população (num país camponês, provavelmente, ainda por muito tempo a caderneta de trabalho não será necessária para a esmagadora maioria do campesinato). A caderneta de trabalho deixará de ser um sinal da «plebe», deixará de ser um documento das classes «inferiores», um testemunho da escravidão assalariada. Converter-se-á num testemunho de que na nova sociedade já não há «operários» mas que em compensação não há ninguém que não seja trabalhador.

Os ricos deverão receber do sindicato de operários ou empregados com o qual a sua esfera de actividade se relacione mais de perto uma caderneta de trabalho, deverão todas as semanas, ou em qualquer outro prazo determinado, receber deste sindicato um certificado de que cumprem conscienciosamente o seu trabalho; sem isto não poderão receber as senhas de racionamento de pão ou víveres em geral. Precisamos de bons organizadores da banca e da unificação de empresas (os capitalistas têm mais experiência neste assunto, e com gente experimentada o trabalho é mais fácil), precisamos em número cada vez maior do que antes de engenheiros, de agrónomos, de técnicos, de especialistas de todo o género com formação científica — dirá o Estado proletário. A todos estes trabalhadores daremos um trabalho adequado às suas forças e aos seus hábitos, provavelmente só de forma gradual estabeleceremos a igualdade completa de salários, mantendo durante o período de transição um salário mais elevado para estes especialistas, mas colocá-los-emos sob um controlo operário em todos os aspectos, e conseguiremos a aplicação plena e incondicional do princípio: «quem não trabalha não come». A forma de organização do trabalho não a inventamos, tomamo-la já pronta do capitalismo — bancos, consórcios, as melhores fábricas, estações experimentais, academias, etc; só teremos que adoptar os melhores modelos da experiência dos países avançados.

E, naturalmente, não cairemos de modo nenhum no utopismo, não abandonaremos o terreno do cálculo prático mais sensato se dissermos: toda a classe dos capitalistas oporá a resistência mais obstinada, mas a organização de toda a população em Sovietes quebrará essa resistência, e aos capitalistas especialmente obstinados e recalcitrantes será necessário, claro, castigá-los com a confiscação de todos os seus bens e a prisão, mas, em contrapartida, a vitória do proletariado aumentará o número de casos como o que, por exemplo, leio no Izvéstia de hoje.

«A 26 de Setembro apresentaram-se no Conselho Central de Comités de Fábrica dois engenheiros declarando que um grupo de engenheiros decidira constituir uma associação de engenheiros socialistas. Considerando que o actual momento é na realidade o começo da revolução social, a associação põe-se à disposição das massas operárias e deseja, em defesa dos interesses dos operários, actuar de pleno acordo com as organizações operárias. Os representantes do Conselho Central de Comités de Fábrica responderam que o Conselho, na sua organização, irá formar com muito gosto uma secção de engenheiros, cujo programa contenha as teses fundamentais da I Conferência de Comités de Fábrica sobre o controlo operário da produção. Nos próximos dias realizar-se-á uma reunião conjunta dos delegados do Conselho Central de Comités de Fábrica e do grupo de iniciativa dos engenheiros socialistas» (Izvéstia TsIK de 27 de Setembro de 1917).

* * *

O proletariado não poderá — dizem-nos — pôr em movimento o aparelho de Estado.

Depois da revolução de 1905, governavam a Rússia 130 000 latifundiários, governavam através de uma extrema violência sobre 150 milhões de pessoas com um escárnio sem limite, obrigando a imensa maioria a um trabalho de forçados e a uma existência de semi-famintos.

E pretensamente não poderiam governar a Rússia 240 000 membros do partido bolchevique, governar no interesse dos pobres e contra os ricos. Estas 240 000 pessoas têm já a seu favor, pelo menos, um milhão de votos da população adulta, pois é precisamente esta a relação entre o número de membros do partido e o número de votos nele que estabelece a experiência da Europa e a experiência da Rússia, quanto mais não seja, por exemplo, as eleições de Agosto para a Duma de Petrogrado. Assim, temos já um "aparelho de Estado» de um milhão de pessoas, fiéis ao Estado socialista ideologicamente e não para receber a 20 de cada mês uma bela soma.

Mais ainda, temos um «meio maravilhoso» para imediatamente, de um só golpe, decuplicar o nosso aparelho de Estado, um meio de que nunca dispôs nem pode dispor qualquer Estado capitalista. Esta coisa maravilhosa é a integração dos trabalhadores, dos pobres, no trabalho quotidiano de direcção do Estado.

Para explicar como é fácil de aplicar esse meio maravilhoso, como é isento de erros na sua actividade, tomaremos o exemplo mais simples e claro.

O Estado precisa de desalojar coercivamente uma determinada família de sua casa e de alojar outra. Isto é o que faz a todo o momento o Estado capitalista, e irá fazê-lo também o nosso, o Estado proletário ou socialista.

O Estado capitalista desaloja uma família de operários que perdeu a pessoa que a mantinha e deixa de pagar a renda. Aparece o oficial de diligências, um polícia ou um guarda, todo um pelotão deles. Num bairro operário, para executar um despejo é necessário um destacamento de cossacos. Porquê? Porque o oficial de diligências e o «guarda» se negam a ir sem uma muito forte protecção militar. Sabem que o espectáculo do despejo provoca em toda a população dos arredores, em milhares e milhares de pessoas quase levadas ao desespero, uma ira tão furiosa, um tal ódio aos capitalistas e ao Estado capitalista, que o oficial de diligências e o pelotão de guardas podem ser feitos em pedaços num instante. São necessárias grandes forças militares, para uma grande cidade é preciso trazer alguns regimentos, necessariamente de qualquer região afastada, para que os soldados sejam estranhos à vida dos pobres da cidade, para que os soldados não possam «ser contagiados» pelo socialismo.

O Estado proletário precisa de alojar coercivamente na casa de um rico uma família extremamente necessitada. O nosso destacamento da milícia operária é composto, suponhamos, por 15 pessoas: dois marinheiros, dois soldados, dois operários conscientes (bastará que só um deles seja membro do nosso partido ou simpatizante), 1 intelectual e 8 trabalhadores pobres, obrigatoriamente pelo menos 5 mulheres, criados, trabalhadores não qualificados, etc. O destacamento apresenta-se em casa do rico, analisa-a, encontra 5 quartos, dois homens e duas mulheres. — «Cidadãos, apertem-se durante este Inverno em dois quartos e preparem dois quartos para a instalação neles de duas famílias que vivem em caves. Temporariamente, enquanto com a ajuda dos engenheiros (o senhor é engenheiro, não é?) não tivermos construído boas casas para todos, terão forçosamente de se apertar um pouco. O vosso telefone servirá para dez famílias. Isto economizará umas 100 horas de trabalho, corridas para as lojas, etc. Além disso, há na vossa família dois semi-operários desocupados, que podem executar um trabalho ligeiro: uma cidadã de 55 anos e um cidadão de 14. Estarão de serviço diariamente 3 horas para velar pela justa distribuição de víveres para 10 famílias e fazer os registos necessários para isto. O cidadão estudante que se encontra no nosso destacamento irá agora redigir em dois exemplares esta ordem do Estado, e terão a bondade de nos darem uma declaração em que se comprometem a cumpri-la fielmente.»

Assim, em minha opinião, poderia ser apresentada em exemplos evidentes a correlação entre o aparelho estatal e a administração estatal velha, burguesa, e a nova, socialista.

Nós não somos utopistas. Sabemos que qualquer operário não qualificado e qualquer cozinheira não são capazes neste momento de começar a dirigir o Estado. Nisso estamos de acordo tanto com os democratas-constitucionalistas como com Brechkóvskaia e com Tseretéli. Mas diferenciamo-nos destes cidadãos em que exigimos a ruptura imediata com o preconceito de que administrar o Estado, levar a cabo o trabalho diário, quotidiano de administração, é coisa que só podem fazer os ricos ou funcionários provenientes de famílias ricas. Nós exigimos que a aprendizagem dos assuntos da administração do Estado seja realizada pelos operários e soldados conscientes e que ela seja iniciada imediatamente, isto é, que imediatamente se comece a fazer participar nesta aprendizagem todos os trabalhadores, todos os pobres.

Sabemos que os democratas-constitucionalistas também estão de acordo em ensinar ao povo o democratismo. As damas democratas-constitucionalistas estão de acordo em dar conferências às criadas sobre a igualdade de direitos da mulher, segundo as melhores fontes inglesas e francesas. E também num próximo concerto-comício, perante milhares de pessoas, será organizada no palco uma troca de beijos: a dama conferencista democrata-constitucionalista beijará Brechkóvskaia, Brechkóvskaia o ex-ministro Tseretéli, e o povo agradecido aprenderá deste modo eloquentemente o que são a igualdade, a liberdade e a fraternidade republicanas...

Sim, estamos de acordo em que os democratas-constitucionalistas, Brechkóvskaia e Tseretéli, são, a seu modo, dedicados ao democratismo e propagandeiam-no entre o povo. Mas que fazer, se temos uma concepção um tanto diferente do democratismo?

No nosso modo de ver, para aligeirar os inauditos sofrimentos e desgraças da guerra, bem como para curar as horríveis feridas que a guerra causou ao povo, é necessário um democratismo revolucionário, são necessárias medidas revolucionárias, precisamente do tipo das que descrevemos como exemplo na distribuição de habitações no interesse dos pobres. Precisamente assim é preciso proceder tanto na cidade como no campo com os produtos alimentares, com a roupa, com o calçado, etc, e no campo com a terra, etc. Para administrar o Estado neste espírito, podemos dispor imediatamente de um aparelho estatal de uns dez, senão mesmo vinte milhões de homens, um aparelho como ainda nenhum Estado capitalista conheceu. Só nós podemos criar este aparelho, porque temos assegurada a simpatia mais completa e sem reservas da gigantesca maioria da população. Só nós podemos criar este aparelho, porque temos operários conscientes, disciplinados por uma longa «escola» capitalista (não é em vão que estivemos na escola do capitalismo), que são capazes de criar uma milícia operária e de gradualmente a ampliarem (começando a ampliar imediatamente) para a transformarem em milícia de todo o povo. Os operários conscientes devem dirigir, mas podem integrar no trabalho de administração verdadeiras massas de trabalhadores e oprimidos.

É claro que os erros são inevitáveis nos primeiros passos deste novo aparelho; mas não cometeram erros os camponeses, quando passaram da servidão para a liberdade e começaram a resolver eles próprios os seus assuntos? Haverá outro caminho para ensinar o povo a governar-se a si mesmo, para evitar os erros, que não seja o caminho da prática? que não seja o começo imediato do verdadeiro auto-governo popular? Agora o mais importante é acabar com o preconceito intelectual burguês de que só podem dirigir o Estado funcionários especiais, totalmente dependentes do capital por toda a sua posição social. O mais importante é pôr fim a um estado de coisas em que os burgueses, os funcionários e os ministros «socialistas» tentam dirigir como no passado, mas não podem dirigir, e depois de sete meses obtêm uma insurreição camponesa num país camponês!! O mais importante é incutir nos oprimidos e nos trabalhadores a confiança nas suas forças, mostrar-lhes na prática que podem e devem encarregar-se eles próprios de uma distribuição correcta, severamente regulamentada, organizada, do pão, de todos os alimentos, do leite, do vestuário, da habitação, etc, no interesse dos pobres. Sem isto não há salvação da Rússia da bancarrota e da ruína, e ao iniciar-se honesta e corajosamente em toda a parte a entrega dos assuntos da administração nas mãos dos proletários e semi-proletários, originar-se-á um entusiasmo revolucionário das massas nunca visto na história, multiplicar-se-ão de tal modo as forças do povo na luta contra as desgraças, que muitas coisas que parecem impossíveis para as nossas estreitas e velhas forças burocráticas se tornarão realizáveis para as forças da massa de milhões de homens que começam a trabalhar para si mesmos e não para o capitalista, para o fidalgote, para o burocrata, e não por medo ao cacete.

* * *

Com a questão do aparelho de Estado relaciona-se também a questão do centralismo, que foi colocada de uma maneira particularmente enérgica e com particular falta de êxito pelo camarada Bazárov, no número 138 do Nóvaia Jizn de 27 de Setembro, no artigo: Os Bolcheviques e o Problema do Poder.

O camarada Bazárov raciocina deste modo:

«Os Sovietes não são um aparelho adaptado a todos os domínios da vida do Estado», pois uma experiência de sete meses, segundo ele, mostrou, «dezenas e centenas de dados documentais que a Secção Económica do Comité Executivo de Petersburgo possui» confirmaram que os Sovietes, embora em muitos locais tenham utilizado de facto «toda a plenitude do poder», «não conseguiram alcançar resultados minimamente satisfatórios no domínio da luta contra a ruína». É necessário um aparelho «dividido por ramos de produção, rigorosamente centralizado dentro de cada ramo e subordinado a um centro único nacional». «Trata-se — vede bem — não de substituir o velho aparelho, mas apenas de o reformar... por mais que os bolcheviques escarneçam dos homens que têm um plano...»

Todos estes raciocínios do camarada Bazárov são assombrosamente fracos, como um decalque dos raciocínios da burguesia, de cujo ponto de vista de classe são o reflexo!

De facto, é simplesmente ridículo (a não ser que se trate de uma repetição da egoísta mentira de classe dos capitalistas) dizer que os Sovietes tenham tido onde quer que seja na Rússia «toda a plenitude do poder». Toda a plenitude do poder exige o poder sobre toda a terra, sobre todos os bancos, sobre todas as fábricas; e quem conhecer minimamente a experiência da história e os dados da ciência sobre a ligação da política com a economia, não poderá «esquecer» esta «pequena» circunstância.

O método enganador da burguesia consiste em, não dando o poder aos Sovietes, sabotando todos os seus passos sérios, conservando o governo nas suas mãos, conservando o poder sobre a terra e sobre os bancos, etc, atirar para cima dos Sovietes a culpa pela ruína!! Nisto consiste também toda a triste experiência da coligação.

Os Sovietes nunca tiveram a plenitude do poder, e as suas medidas nunca puderam ser mais que paliativos que aumentaram a confusão.

Demonstrar aos bolcheviques, centralistas por convicção e por programa e por táctica de todo o seu partido, a necessidade do centralismo significa verdadeiramente arrombar uma porta aberta. Se os escritores do Nóvaia Jizn se dedicam a esta ocupação vazia, é apenas porque nada compreenderam do sentido e da importância dos nossos gracejos sobre o seu ponto de vista «nacional». E os novojiznistas não compreenderam isto porque reconhecem a teoria da luta de classes apenas em palavras e não por convicção. Repetindo palavras aprendidas de cor acerca da luta de classes, a cada momento se desviam para o «ponto de vista supra-classista», teoricamente ridículo e praticamente reaccionário, chamando a este servilismo para com a burguesia plano «nacional».

O Estado, estimados senhores, é um conceito de classe. O Estado é um órgão ou uma máquina de violência de uma classe sobre outra. Enquanto for uma máquina para a violência da burguesia sobre o proletariado, até então a palavra de ordem proletária só poderá ser uma: destruição desse Estado. Mas quando o Estado for proletário, quando for uma máquina de violência do proletariado sobre a burguesia, então seremos plena e incondicionalmente partidários de um poder firme e do centralismo.

Falando em termos mais populares: não nos rimos dos «planos», mas de que Bazárov e C.a não compreendem que, negando o «controlo operário», negando a «ditadura do proletariado», eles são pela ditadura da burguesia. Não há meio termo, o meio termo é apenas um sonho oco de democrata pequeno-burguês.

Nenhum órgão central, nenhum bolchevique nunca se pronunciou contra o centralismo dos Sovietes, contra a sua unificação. Nenhum de nós tem nada a objectar aos comités de fábrica por ramos de produção e à sua centralização. Bazárov atira ao lado.

Nós rimos, ríamos e riremos não do «centralismo», não dos «planos», mas do reformismo. Porque, depois da experiência da coligação, o vosso reformismo é excepcionalmente risível. E falar «não de substituir o aparelho, mas de o reformar» significa ser reformista, significa tornar-se não democrata revolucionário, mas democrata reformista. O reformismo outra coisa não é que concessões da classe dirigente e não o seu derrubamento, concessões conservando o poder nas suas mãos.

É isto precisamente o que foi provado por meio ano de coligação.

E é disso que nos rimos. Bazárov, não meditando na teoria da luta de lasses, deixa-se apanhar pela burguesia que canta em coro: «é assim, precisamente assim, não nos opomos de modo nenhum às reformas, somos partidários da participação dos operários no controlo a nível nacional, estamos perfeitamente de acordo», e o bom do nosso Bazárov desempenha objectivamente o papel de porta-voz dos capitalistas.

Assim foi sempre, assim será sempre com as pessoas que, em situações de aguda luta de classes, tentam ocupar uma posição «intermédia». E é precisamente porque os escritores do Nóvaia Jizn não conseguem compreender a luta de classes que a sua política é uma eterna vacilação tão risível entre a burguesia e o proletariado.

Ponham-se a fazer «planos», caros cidadãos, isso não é política, isso não é luta de classes, aqui podeis prestar um bom serviço ao povo. Tendes no vosso jornal uma quantidade de economistas. Uni-vos aos engenheiros, etc, que estão dispostos a estudar as questões da regulação da produção e da distribuição, dedicai o suplemento do vosso grande «aparelho» (jornal) ao estudo prático dos dados precisos sobre a produção e a distribuição dos produtos na Rússia, sobre os bancos e os consórcios, etc, etc. — eis como prestareis um serviço ao povo, aqui a vossa posição entre duas cadeiras não será particularmente nociva, eis qual o trabalho em matéria de «planos» que provocará não o riso mas o reconhecimento dos operários.

Quando vencer o proletariado fará assim: porá os economistas, os engenheiros, os agrónomos, etc, sob o controlo das organizações operárias, a elaborar um «plano», a verificá-lo, à procura dos meios de economizar trabalho por meio da centralização, à procura das medidas e métodos de controlo mais simples, mais barato, mais conveniente e universal. Por isto pagaremos aos economistas, aos estatísticos, aos técnicos bom dinheiro, mas... não lhes daremos de comer se não executarem este trabalho conscienciosa e inteiramente no interesse dos trabalhadores.

Somos pelo centralismo e por um «plano», mas por um centralismo e por um plano do Estado proletário, pela regulação proletária da produção e da distribuição no interesse dos pobres, dos trabalhadores e explorados, contra os exploradores. E estamos de acordo em reconhecer como «à escala nacional» apenas aquele que quebre a resistência dos capitalistas, que dê toda a plenitude do poder à maioria do povo, isto é, aos proletários e semi-proletários, aos operários e camponeses pobres.

* * *

O quinto argumento consiste em que os bolcheviques não conservarão o poder, pois «a situação é excepcionalmente complicada...».

Oh, que espertalhões! Estão prontos, talvez, a reconciliar-se com a revolução — mas sem uma «situação excepcionalmente complicada».

Tais revoluções não existem, e os suspiros por tais revoluções não são mais que lamentos reaccionários de intelectual burguês. Ainda que a revolução comece numa situação que, aparentemente, não é muito complicada, a própria revolução, no seu desenvolvimento, cria sempre uma situação excepcionalmente complicada. Porque uma revolução, uma revolução verdadeira, profunda, «popular», segundo a expressão de Marx[N203], é um processo incrivelmente complicado e doloroso de agonia da velha ordem social e de nascimento da nova ordem social, de um novo modo de vida de dezenas de milhões de homens. A revolução é a luta de classes e a guerra civil mais agudas, mais furiosas, mais encarniçadas. Na história não houve uma só grande revolução sem guerra civil. E só um homem enconchado[N204] pode pensar que uma guerra civil é concebível sem uma «situação excepcionalmente complicada».

Se não tivesse havido situações excepcionalmente complicadas não teria também havido revoluções. Quem tem medo dos lobos não se meta pelo bosque.

No quinto argumento nada há para analisar, pois não há nele quaisquer pensamentos económicos, nem políticos, nem quaisquer outros em geral. Nele há apenas suspiros, suspiros de homens aflitos e assustados com a revolução. Permitir-me-ei, para caracterizar estes suspiros, duas pequenas recordações pessoais.

Uma conversa com um engenheiro rico pouco antes das jornadas de Julho. Este engenheiro foi em tempos revolucionário, foi membro do partido social-democrata e até do bolchevique. Agora todo ele é medo, ódio aos operários enfurecidos e indomáveis. Ainda se estes operários fossem como os alemães — diz ele (homem culto, que esteve no estrangeiro) — eu, naturalmente, compreendo em geral a inevitabilidade da revolução social, mas no nosso país, com o baixo nível dos nossos operários que a guerra trouxe... isto não é uma revolução, isto é o abismo.

Ele estaria pronto a reconhecer a revolução social se a história conduzisse a ela de maneira tão pacífica, tão tranquila, tão suave e tão precisa como um comboio rápido alemão chega à estação. O solene revisor abre as portas da carruagem e exclama: «estação revolução social. Alle aussteigen (toda a gente sai)!». Então porque não passar da situação de engenheiro sob os Tit Títitch para a situação de engenheiro sob as organizações operárias?

Este homem viu greves. Sabe que tempestade de paixões se levanta sempre, mesmo nos tempos mais pacíficos, na greve mais vulgar. E compreende, naturalmente, quantos milhões de vezes mais forte essa tempestade deve ser quando a luta de classes levanta todos os trabalhadores de um país enorme, quando a guerra e a exploração levaram quase ao desespero milhões de homens, martirizados durante séculos pelos latifundiários, saqueados e maltratados durante décadas pelos capitalistas e pelos funcionários tsaristas. Compreende «teoricamente» tudo isto, reconhece tudo isto apenas em palavras, simplesmente está assustado com a «situação excepcionalmente complicada».

Depois das jornadas de Julho, graças à atenção especialmente solícita com que me honrou o governo de Kérenski, tive de ir para a clandestinidade. Naturalmente, eram os operários que nos escondiam. Num distante subúrbio operário de Petrogrado, numa pequena casa de operários, dão-nos almoço. A dona da casa traz pão. O dono da casa diz: «Olha que magnífico pão. Agora 'eles' não se atrevem, claro, a dar-nos pão mau. Até já nos tínhamos esquecido de que em Petrogrado podem dar pão bom.»

Surpreendeu-me esta apreciação de classe das jornadas de Julho. O meu pensamento girava em torno do significado político do acontecimento, pesava o seu papel no curso geral dos acontecimentos, analisava de que situação decorria este ziguezague da história e que situação criaria, como devíamos mudar as nossas palavras de ordem e o nosso aparelho do partido para o adaptar à situação em mudança. Eu, homem que não conheci necessidades, não tinha pensado no pão. Para mim, o pão era como qualquer coisa que existia por si mesma, como uma espécie de produto derivado do trabalho do escritor. Ao que é a base de tudo, à luta de classes pelo pão, chega o pensamento através da análise política por um caminho extraordinariamente complicado e confuso.

Mas um representante da classe oprimida, embora fosse um dos operários bem pagos e instruídos, agarra directamente o touro pelos cornos com esta simplicidade e esta franqueza admiráveis, com esta firme decisão, com esta assombrosa clareza de pensamentos de que nós, os intelectuais, estamos tão afastados como das estrelas do céu. Todo o mundo se divide em dois campos: «nós», os trabalhadores, e «eles», os exploradores. Nem sombra de perplexidade pelo acontecido: é apenas uma das batalhas na longa luta do trabalho contra o capital. Onde trabalha o machado saltam estilhas.

«Que coisa dolorosa esta 'situação excepcionalmente complicada' da revolução» — assim pensa e sente o intelectual burguês.

«Demos-'lhes' um apertão, 'eles' não se atrevem a ser tão insolentes como antes. Mais um apertão, derrubá-los-emos completamente» — assim pensa e sente o operário.

* * *

Sexto e último argumento: o proletariado «não será capaz de resistir a toda a pressão das forças inimigas que varrerá não só a ditadura do proletariado mas além disso toda a revolução».

Não tenteis assustar-nos, senhores, porque não nos assustareis. Vimos essas forças inimigas e a sua pressão na kornilovada (de que a kerenskiada em nada se diferencia). Como o proletariado e o campesinato pobre varreram a kornilovada, em que situação lamentável e desamparada se encontraram os partidários da burguesia e os poucos representantes das camadas locais de pequenos proprietários de terra particularmente abastados e particularmente «inimigos» da revolução, isto todos viram, disto o povo lembra-se. O Delo Naroda de 30 de Setembro, exortando os operários a «aceitarem com paciência» a kerenskiada (isto é, a kornilovada) e a forjada Duma tsereteliana-buliguiniana até à Assembleia Constituinte (convocada sob a protecção de «medidas militares» contra o campesinato insurrecto!), o Delo Naroda repete esganiçando-se precisamente o sexto argumento do Nóvaia Jizn e gritando até enrouquecer: «o governo de Kérenski não se submeterá em nenhum caso» (ao poder dos Sovietes, ao poder dos operários e camponeses, que o Delo Naroda, para não ficar atrás dos pogromistas e dos anti-semitas, dos monárquicos e dos democratas-constitucionalistas, chama o poder «de Trótski e Lénine»: eis até que métodos chegam os socialistas-revolucionários!!).

Mas nem o Nóvaia Jizn nem o Delo Naroda assustarão os operários conscientes. «O governo de Kérenski — dizeis — não se submeterá em nenhum caso», isto é, falando em termos mais simples, mais directos e mais claros, repetirá a kornilovada. E os senhores do Delo Naroda atrevem-se a dizer que isto seria uma «guerra civil», que isto é uma «perspectiva terrível»!

Não, senhores, não enganareis os operários. Não será uma guerra civil, mas um motim desesperado de um punhado de kornilovistas: se eles desejam «não se submeter» ao povo e incitá-lo a todo o custo a repetir em vasta escala o que aconteceu em Viborg com os kornilovistas, se os socialistas-revolucionários desejam isto, se o membro do partido socialista-revolucionário Kérenski deseja isto, pode levar o povo à exasperação. Mas com isto, senhores, não assustareis os operários e os soldados.

Que desfaçatez sem limites: forjaram uma nova Duma buliguiniana, por meio de fraudes aliciaram em seu auxílio cooperativistas reaccionários, kulaques do campo, acrescentaram-lhes capitalistas e latifundiários (os chamados elementos censitários), e com este bando de kornilovistas querem sabotar a vontade do povo, a vontade dos operários e camponeses.

Levaram as coisas a tal ponto num país camponês que por toda a parte a insurreição camponesa se estende como um largo rio! Ora pensem: numa república democrática em que 80% da população são camponeses, levaram-nos a uma insurreição camponesa... Esse mesmo Delo Naroda, jornal de Tchernov, órgão do partido dos «socialistas-revolucionários», que a 30 de Setembro tem a desvergonha de aconselhar os operários e camponeses a «terem paciência», no seu editorial de 29 de Setembro viu-se obrigado a reconhecer:

«Até este momento quase nada se fez para suprimir as relações de servidão que ainda dominam no campo precisamente da Rússia central.»

No mesmo editorial de 29 de Setembro, este mesmo Delo Naroda diz que «o pulso stolipiniano ainda se faz sentir fortemente» nos métodos dos «ministros revolucionários». Isto é, por outras palavras, falando mais clara e simplesmente, chama stolipinianos a Kérenski, Nikítine, Kichkine e
C.a

Os «stolipinianos» Kérenski e C.a, que levaram os camponeses à insurreição, adoptam agora «medidas militares» contra os camponeses e consolam o povo com a convocação da Assembleia Constituinte (embora Kérenski e Tseretélitenham enganado o povo uma vez, declarando solenemente a 8 de Julho que a Assembleia Constituinte seria convocada a 17 de Setembro, na data fixada, e depois faltaram à sua palavra e adiaram a convocatória da Assembleia Constituinte, contrariamente ao conselho até do menchevique Dan, adiaram a Assembleia Constituinte não para fins de Outubro, como queria o CEC menchevique de então, mas para fins de Novembro). Os «stolipinianos» Kérenski e C.a consolam o povo com a convocação próxima da Assembleia Constituinte, como se o povo pudesse acreditar em quem mentiu uma vez num caso semelhante, como se o povo pudesse acreditar na convocação regular da Assembleia Constituinte por um governo que toma medidas militares em aldeias remotas, isto é, que encobre claramente as prisões arbitrárias de camponeses conscientes e a falsificação das eleições.

Levar os camponeses à insurreição e ter a desvergonha de lhes dizer: «é preciso 'ter paciência', é preciso esperar, ter confiança num governo que reprime com 'medidas militares' os camponeses insurrectos!»

Levar as coisas até à morte de centenas de milhares de soldados russos na ofensiva depois de 19 de Junho, até ao prolongamento da guerra, até à insurreição dos marinheiros alemães, que atiram os seus superiores à água, levar as coisas até aqui, palrando todo o tempo de paz, sem propor uma paz justa a todos os beligerantes, e ter a desvergonha de dizer aos operários e camponeses, aos soldados que morrem: «é necessário ter paciência», tende confiança no governo do «stolipiniano» Kérenski, tende confiança mais um mês nos generais kornilovistas, talvez durante este mês mandem para o matadouro mais algumas dezenas de milhares de soldados... «É necessário ter paciência.»

Não é isto desvergonha??

Não, senhores socialistas-revolucionários, colegas de partido de Kérenski, não enganareis os soldados!

Os operários e soldados não tolerarão o governo de Kérenski nem um só dia, nem uma só hora mais, pois sabem que um governo dos Sovietes fará imediatamente a todos os beligerantes a proposta de uma paz justa e consequentemente conseguirá, segundo toda a probabilidade, um armistício imediato e uma paz rápida.

Nem um só dia, nem uma só hora mais tolerarão os soldados do nosso exército de camponeses que, contra a vontade dos Sovietes, se mantenha o governo de Kérenski, que reprime com medidas militares a insurreição camponesa.

Não, senhores socialistas-revolucionários, colegas de partido de Kérenski, não enganareis mais os operários e os camponeses.

* * *

Na questão da pressão das forças inimigas que, segundo assegura o Nóvaia Jizn mortalmente assustado, varrerá a ditadura do proletariado, há ainda um monstruoso erro lógico e político, que só podem deixar de ver aqueles que se deixaram assustar quase até à irresponsabilidade.

«A pressão das forças inimigas varrerá a ditadura do proletariado» — dizeis. Muito bem. Mas vós sois todos economistas e pessoas instruídas, queridos concidadãos. Todos sabeis que é um absurdo e uma prova de ignorância confrontar a democracia com a burguesia, que isto é o mesmo que confrontar puds com archinas. Porque há uma burguesia democrática e camadas não democráticas (capazes de uma Vendeia) da pequena burguesia.

«Forças inimigas» — isso é uma frase. O que é um conceito de classe é a burguesia (a favor da qual estão também os latifundiários).

A burguesia juntamente com os latifundiários, o proletariado, a pequena burguesia, os pequenos proprietários e, em primeiro lugar, os camponeses — eis as três «forças» fundamentais em que a Rússia se divide, como qualquer país capitalista. Eis as três «forças» fundamentais que desde há muito tempo foram reveladas em cada país capitalista (e na Rússia) não só pela análise económica científica mas também pela experiência política de toda a história moderna de todos os países, pela experiência de todas as revoluções europeias desde o século XVIII, pela experiência das duas revoluções russas de 1905 e 1917.

Assim, ameaçais os proletários de que a pressão da burguesia varrerá o seu poder? É a isto e só a isto que se reduz a vossa ameaça, não tem qualquer outro conteúdo.

Muito bem. Se a burguesia, por exemplo, pode varrer o poder dos operários e camponeses pobres, então nada mais resta senão a «coligação», isto é, a aliança ou o acordo entre os pequenos burgueses e a burguesia. É impossível conceber outra coisa!!

Mas a coligação tentada durante meio ano conduziu ao fracasso, e vós próprios, queridos cidadãos do Nóvaia Jizn, que não sabeis pensar, renunciastes à coligação.

Qual é então o resultado?

Tanto vos enredastes, cidadãos do Nóvaia Jizn, de tal modo vos deixastes assustar, que já não sois capazes de levar até ao fim o mais simples raciocínio, de contar já não até cinco, mas até três.

Ou todo o poder à burguesia — isto não o defendeis há muito, e a própria burguesia não se atreve mesmo a insinuá-lo, sabendo que já em 20-21 de Abril o povo, com um só movimento de ombros, derrubou esse poder e o derrubará agora três vezes mais decidida, mais implacavelmente. Ou o poder à pequena burguesia, isto é, à sua coligação (aliança, acordo) com a burguesia, pois a pequena burguesia não quer e não pode tomar o poder, autónoma e independentemente, como demonstrou a experiência de todas as revoluções, como demonstra também a ciência económica, que explica que num país capitalista é possível estar pelo capital, é possível estar pelo trabalho, mas não é possível manter-se no meio. Esta coligação já experimentou na Rússia durante meio ano mais de uma dúzia de métodos e fracassou.

Ou, finalmente, todo o poder aos proletários e aos camponeses pobres, contra a burguesia, para quebrar a sua resistência. Isto ainda não se experimentou, e vós, senhores do Nóvaia Jizn, desaconselhais isto ao povo, tentando assustá-lo com o vosso próprio medo perante a burguesia.

Não se pode inventar uma quarta via.

Portanto, se o Nóvaia Jizn teme a ditadura do proletariado e renuncia a ela por causa de uma derrota pretensamente possível do poder proletário pela burguesia, isto equivale a um regresso furtivo à posição de conciliação com os capitalistas!!! É claro como o dia que quem teme a resistência, quem não acredita na possibilidade de quebrar esta resistência, quem ensina ao povo: «temei a resistência dos capitalistas, não podereis com ela», com isso mesmo apela de novo à conciliação com os capitalistas.

O Nóvaia Jizn enredou-se impotente e lamentavelmente, como se enredaram agora os democratas pequeno-burgueses que vêem a falência da coligação, que não ousam defendê-la abertamente, mas que, ao mesmo tempo, defendidos pela burguesia, temem o poder pleno dos proletários e do campesinato pobre.

* * *

Temer a resistência dos capitalistas e, ao mesmo tempo, chamar-se a si próprio revolucionário, querer figurar entre os socialistas - que vergonha! Que decadência ideológica do socialismo mundial corrompido pelo oportunismo foi necessária para poderem surgir tais vozes!

Nós já vimos, todo o povo viu, a força da resistência dos capitalistas, pois os capitalistas são mais conscientes do que outras classes e logo compreenderam a importância dos Sovietes, logo puseram em tensão até ao último grau todas as suas forças, recorreram a tudo, lançaram mão de todos os meios, chegaram a recursos inauditos de mentira e de calúnia, às conspirações militares, para fazer fracassar os Sovietes, para os reduzir a nada, para os prostituir (com a ajuda dos mencheviques e socialistas-revolucionários), para os transformar em locais de conversa, para cansar os camponeses e os operários com meses e meses do palavreado mais oco e do jogo à revolução.

Mas ainda não vimos a força da resistência dos proletários e dos camponeses pobres, pois esta força só se revelará em toda a sua dimensão quando o poder estiver nas mãos do proletariado, quando dezenas de milhões de homens esmagados pelas necessidades e pela escravidão capitalista virem na experiência, sentirem que o poder no Estado pertence às classes oprimidas, que o poder ajuda os pobres a lutar contra os latifundiários e os capitalistas, quebra a sua resistência. Só então poderemos ver quanta força ainda intacta de resistência contra os capitalistas dormita no povo, só então se revelará o que Engels chama o «socialismo latente»[N205], só então, por cada dez mil inimigos abertos ou ocultos, que se revelam a si próprios pela acção ou pela resistência passiva, do poder da classe operária, se levantará um milhão de novos combatentes, até agora politicamente adormecidos, que vegetavam nos tormentos da necessidade e no desespero, que tinham perdido já a fé em que também eles são pessoas, em que também eles têm direito à vida, em que todo o poderio de um Estado moderno centralizado pode estar ao seu serviço e em que os destacamentos da milícia proletária também os chamam a eles, com plena confiança, à participação directa, mais próxima e quotidiana na administração do Estado.

Com a participação benevolente dos Plekhánov, Brechkóvskaia, Tseretéli, Tchernov e C.a, os capitalistas e latifundiários tudo fizeram para sujar a república democrática, para sujá-la com o seu servilismo perante a riqueza até ao ponto em que a apatia e a indiferença dominam o povo, tudo lhe é igual, pois um faminto não pode distinguir a república da monarquia, um soldado que tirita de frio, descalço, martirizado, que morre por interesses alheios, não está em condições de amar a república.

Mas quando o último operário não qualificado, qualquer desempregado, cada cozinheira, todo o camponês arruinado, virem — não pelos jornais, mas virem com os próprios olhos — que o poder proletário não rasteja perante a riqueza, mas ajuda os pobres, que este poder não recua perante as medidas revolucionárias, que tira os produtos supérfluos aos parasitas e os dá aos famintos, que instala à força nas residências dos ricos os que não têm tecto, que obriga os ricos a pagar o leite mas não lhes dá uma gota de leite enquanto não forem dele abastecidos em quantidades suficientes as crianças de todas as famílias pobres, que a terra passa para os trabalhadores, as fábricas e os bancos para o controlo dos operários, que um castigo imediato e severo espera os milionários que escondem as suas riquezas — quando os pobres virem e sentirem isto, então nenhuma força dos capitalistas e dos kulaques, nenhuma força do capital financeiro mundial que maneja centenas de milhares de milhões, vencerá a revolução popular, mas, pelo contrário, ela vencerá no mundo inteiro, pois a revolução socialista amadurece em todos os países.

A nossa revolução é invencível se não tiver medo de si própria, se entregar toda a plenitude do poder ao proletariado, pois connosco estão ainda forças infinitamente maiores, mais desenvolvidas, mais organizadas do proletariado mundial, temporariamente esmagadas pela guerra, mas não suprimidas, e, pelo contrário, multiplicadas por ela.

* * *

Temer que o poder dos bolcheviques, isto é, o poder do proletariado, que tem assegurado o apoio sem reservas do campesinato pobre, seja «varrido» pelos senhores capitalistas! Que miopia, que vergonhoso temor do povo, que hipocrisia! Os que dão provas desse temor pertencem a essa «alta sociedade» (alta segundo o critério capitalista, mas, de facto, apodrecida) que pronuncia a palavra «justiça» sem acreditar nela, por hábito, como uma frase, sem lhe dar qualquer conteúdo.

Eis um exemplo:

O senhor Pechekhónov é um conhecido semidemocrata-constitucionalista. Não se encontrará um trudovique e correligionário mais moderado das Brechkóvskaia e dos Plekhánov. Nunca houve ministro mais servil diante da burguesia. O mundo nunca viu partidário mais caloroso da «coligação», do acordo com os capitalistas!

E eis qual a confissão que foi obrigado a fazer este senhor no seu discurso na Conferência «Democrática» (leia-se buliguiniana), segundo o defensista/zvásfra:

«Existem dois programas. Um é o programa das pretensões de grupo, das pretensões de classe e nacionais. Os que mais abertamente defendem este programa são os bolcheviques. Mas também para os outros sectores da democracia não é fácil renunciar a este programa. Pois trata-se de pretensões das massas trabalhadoras, de pretensões das nacionalidades prejudicadas e oprimidas. Por isso, não é assim tão fácil para a democracia romper com os bolcheviques, renunciar a estas reivindicações de classe, em primeiro lugar porque no fundo estas reivindicações são justas. Mas este programa pelo qual lutámos antes da revolução, pelo qual fizemos a revolução e que, noutras condições, todos defenderíamos unanimemente, representa nas actuais condições um enorme perigo. Agora o perigo ainda é mais forte porque temos de apresentar essas reivindicações num momento em que ao Estado é impossível satisfazê-las. Primeiro é preciso proteger o todo — o Estado —, salvá-lo da morte, e para isso só há um caminho: não o de satisfazer as reivindicações, por mais justas e fortes que sejam, mas, pelo contrário, restrições e sacrifícios que todos devem fazer» (Izvéstia TsIK de 17 de Setembro).

O senhor Pechekhónov não compreende que, enquanto estiverem no poder os capitalistas ele não defende o todo, mas os interesses egoístas do capital imperialista russo e «aliado». O senhor Pechekhónov não compreende que a guerra só deixaria de ser de conquista, imperialista, de rapina, depois de romper com os capitalistas, com os seus tratados secretos, com as suas anexações (conquistas de terras alheias), com as suas falcatruas financeiras bancárias. O senhor Pechekhónov não compreende que só depois disto a guerra se tornará, no caso de recusa pelo adversário da proposta que lhe seja feita de uma paz justa, uma guerra defensiva, justa. O senhor Pechekhónov não compreende que a capacidade de defesa de um país que derrubou o jugo do capital, entregou a terra aos camponeses e pôs os bancos e as fábricas sob o controlo operário, seria muitas vezes superior à capacidade de defesa de um país capitalista.

E, principalmente, o senhor Pechekhónov não compreende que, ao ver-se obrigado a reconhecer a justiça do bolchevismo, ao reconhecer que as suas reivindicações são reivindicações «das massas trabalhadoras», isto é, da maioria da população, abandona deste modo todas as suas posições, todas as posições de toda a democracia pequeno-burguesa.

Eis onde está a nossa força. Eis por que o nosso governo será invencível: porque até os nossos adversários são obrigados a reconhecer que o programa bolchevique é o programa «das massas trabalhadoras» e «das nacionalidades oprimidas».

De facto o senhor Pechekhónov é um amigo político dos democratas-constitucionalistas, do público do Edinstvo e do Delo Naroda, das Brechkóvskaia e dos Plekhánov, é um representante dos kulaques e dos senhores cujas esposas e irmãs viriam amanhã a vazar os olhos com as suas sombrinhas aos bolcheviques agonizantes, se estes viessem a ser derrotados pelas tropas de Kornílov ou (o que é completam ente igual) pelas tropas de Kérenski.

E tal senhor é obrigado a reconhecer a «justiça» das reivindicações bolcheviques.

Para ele, a «justiça» é apenas uma frase. Mas para as massas dos semiproletários, para a maioria da pequena burguesia da cidade e do campo, arruinados, torturados e extenuados pela guerra, não é uma frase, é a questão mais aguda, mais candente, mais importante da morte pela fome, do pedaço de pão. É por isso que não é possível fundamentar qualquer política sobre a «coligação», sobre a «conciliação» dos interesses dos famintos e dos arruinados com os interesses dos exploradores. É por isso que um governo bolchevique tem assegurado o apoio destas massas, na sua esmagadora maioria.

Justiça é uma palavra vazia, dizem os intelectuais e os canalhas que se inclinam a declarar-se marxistas com o elevado fundamento de que «contemplaram o traseiro» do materialismo económico.

As ideias tornam-se uma força quando se apoderam das massas. E precisamente agora os bolcheviques, isto é, os representantes do internacionalismo revolucionário proletário, encarnam com a sua política a ideia que impulsiona em todo o mundo as imensas massas trabalhadoras.

Só por si, a justiça, só por si o sentimento das massas indignadas pela exploração, nunca as teria conduzido ao caminho certo para o socialismo. Mas quando, graças ao capitalismo, cresceu o aparelho material dos grandes bancos, dos consórcios, dos caminhos-de-ferro, etc; quando a riquíssima experiência dos países avançados acumulou uma reserva de maravilhas da técnica, cuja aplicação é entravada pelo capitalismo; quando os operários conscientes forjaram um partido de um quarto de milhão de membros para tomar planificadamente nas mãos este aparelho e pô-lo em marcha, com o apoio de todos os trabalhadores e explorados - quando existem estas condições, então não se poderá encontrar na Terra força que possa impedir os bolcheviques, se não se deixarem assustar e se souberem tomar o poder, de o conservarem até à vitória da revolução socialista mundial.

Posfácio

As linhas precedentes estavam já escritas quando o editorial do Nóvaia Jizn de 1 de Outubro trouxe uma nova pérola de estupidez, tanto mais perigosa quanto se esconde atrás de uma bandeira de simpatia pelos bolcheviques e sob o véu de um sábio raciocínio filisteu: «não vos deixeis provocar» (não vos deixeis apanhar na armadilha dos gritos acerca de provocações com o objectivo de assustar os bolcheviques e induzi-los a não tomar o poder).

Eis essa pérola:

«As lições de movimentos como o de 3-5 de Julho, por um lado, e das jornadas kornilovistas, por outro, demonstraram com plena clareza que uma democracia que tem à sua disposição os órgãos mais influentes entre a população é invencível quando ocupa na guerra civil uma posição defensiva, e sofre uma derrota, perdendo todos os elementos intermédios e vacilantes, quando toma nas suas mãos a iniciativa de uma ofensiva.»

Se os bolcheviques manifestassem sob qualquer forma qualquer transigência em relação à estupidez filistina expressa neste raciocínio, deitariam a perder tanto o seu partido como a revolução.

Pois o autor deste raciocínio, pondo-se a falar da guerra civil (exactamente o tema adequado para a dama simpática em todos os aspectos), adulterou até uma incrível comicidade as lições da história sobre esta questão.

Eis como raciocinava acerca destas lições, acerca das lições da história sobre esta questão, o representante e fundador da táctica proletária-revolucionária, Karl Marx:

«Ora, a insurreição é uma arte, do mesmo modo que a guerra ou outras artes, e sujeita a certas regras cujo desprezo leva à ruína do partido que dele se torna culpado. Estas regras, inferências lógicas da essência dos partidos e das condições que num tal caso há que enfrentar, são tão claras e simples que a curta experiência de 1848 familiarizara consideravelmente os alemães com elas. Em primeiro lugar, nunca se deve jogar com a insurreição se não há decisão para ir até ao fim (literalmente: arrostar com todas as consequências desse jogo). A insurreição é uma operação com grandezas extremamente indeterminadas, cujo valor se pode alterar dia a dia; as forças armadas contra as quais se tem de lutar têm a vantagem da organização, da disciplina e da autoridade tradicional completamente do seu lado» (Marx tem em vista o caso mais «difícil» da insurreição: contra um velho poder «firme», contra um exército ainda não desagregado sob a influência da revolução e das oscilações do governo); «se não se pode levantar contra elas grandes forças contrárias é-se batido e aniquilado. Em segundo lugar, uma vez iniciada a insurreição, aja-se então com a maior decisão e tome-se a ofensiva. A defensiva é a morte de todos os levantamentos armados; estes ficam perdidos ainda antes de se terem medido com o inimigo. Surpreende os adversários, enquanto as suas tropas estão dispersas, assegura diariamente novos êxitos, ainda que pequenos; conserva a preponderância moral que o primeiro levantamento vitorioso te trouxe; chama a ti aqueles elementos oscilantes que seguem sempre o ímpeto mais forte e se batem sempre do lado seguro; força os teus inimigos a recuar antes que possam reunir as suas forças contra ti; em suma, nas palavras de Danton, até hoje o maior mestre conhecido da táctica revolucionária: de l'audace, de l'audace, encore de l'audace!(4*)» (Revolução e Contra-revolução na Alemanha, ed. alemã de 1907, p. 118.)[N206]

Nós refizemos tudo isto — poderão dizer os pseudomarxistas do Nóvaia Jizn —, em vez da tripla audácia, possuímos duas virtudes: «temos duas: a moderação e a meticulosidade»[N207]. Para «nós» a experiência da história universal, a experiência da grande revolução francesa, não é nada. Para «nós» o importante é a experiência dos dois movimentos de 1917, adulterados pelos óculos de Moltcháline.

Examinemos esta experiência sem estes lindos óculos.

Comparais o 3-5 de Julho com a «guerra civil» pois confiastes em Aléxinski, Perevérzev e C.a. É característico dos senhores do Nóvaia Jizn acreditarem em tal gente (não fazendo por si próprios absolutamente nada, apesar do enorme aparelho de um grande diário, para reunir informações sobre o 3-5 de Julho).

Mas suponhamos por um momento que o 3-5 de Julho não foi o começo de uma guerra civil, mantida pelos bolcheviques nos limites de um começo, mas uma verdadeira guerra civil. Suponhamos.

O que demonstra, neste caso, esta lição?

Em primeiro lugar, que os bolcheviques não passaram à ofensiva, pois é indiscutível que na noite de 3 para 4 de Julho, e mesmo em 4 de Julho, teriam obtido muito se tivessem passado à ofensiva. A defensiva foi a sua fraqueza, se se fala de uma guerra civil (como fala o Nóvaia Jizn e não da transformação de uma explosão espontânea numa manifestação do tipo da de 20-21 de Abril, como dizem os factos).

Assim, a «lição» fala contra os sábios do Nóvaia Jizn.

Em segundo lugar, se em 3-4 de Julho os bolcheviques nem sequer se colocaram o objectivo da insurreição, se nem um único organismo bolchevique colocou sequer semelhante questão, a causa disso está fora da nossa discussão com o Nóvaia Jizn. Pois estamos a discutir sobre as lições da «guerra civil», isto é, da insurreição, e não quando uma notória ausência de maioria do seu lado impede um partido revolucionário de pensar na insurreição.

Como toda a gente sabe que os bolcheviques obtiveram a maioria tanto nos Sovietes das capitais como do país (mais de 49% dos votos em Moscovo) só muito depois de Julho de 1917, consequentemente as «lições» a tirar não são de modo nenhum as que quer ver essa dama agradável em todos os aspectos que é o Nóvaia Jizn.

Não, não, será bem melhor que não trateis de política, cidadãos do Nóvaia Jiznl

Se o partido revolucionário não tem a maioria nos destacamentos avançados das classes revolucionárias e no país, nem se pode pensar em insurreição. Além disso, para ela é necessário: 1) o crescimento da revolução à escala nacional; 2) a total bancarrota moral e política do velho governo, por exemplo, do de «coligação»; 3) grandes oscilações no campo de todos os elementos intermédios, isto é, aqueles que não estão inteiramente com o governo, ainda que ontem estivessem inteiramente com ele.

Por que é que o Nóvaia Jizn, ao falar das «lições» de 3-5 de Julho, nem sequer notou esta lição muito importante? Porque não se trata de políticos que se põem a tratar de questões políticas, mas de gente de um círculo intelectual assustada pela burguesia.

Continuemos. Em terceiro lugar, os factos dizem que foi precisamente depois de 3-4 de Julho, precisamente em ligação com o desmascaramento dos senhores Tseretéli pela sua política de Julho, em ligação com o facto de que as massas viram nos bolcheviques os seus combatentes de vanguarda, e traidores nos «sociais-bloquistas», que começa a derrota dos socialistas-revolucionários e dos mencheviques. Esta derrocada foi demonstrada plenamente já antes da komilovada, com as eleições de 20 de Agosto em Petrogrado, que deram a vitória aos bolcheviques e a derrota aos «social-bloquistas» (o Delo Naroda, não há muito tempo, tentou refutar isto, escondendo os resultados sobre todos os partidos; porém isso é enganar-se a si mesmo e enganar os leitores; segundo os dados do Den de 24 de Agosto, que se referiam apenas à cidade, a percentagem de votos a favor dos democratas-constitucionalistas aumentou de 22% para 23%, mas o número absoluto de votos a seu favor diminuiu 40%; a percentagem dos votos a favor dos bolcheviques subiu de 20% para 33%, e o número absoluto de votos a seu favor apenas baixou 10%; a percentagem dos votos a favor de todos os «partidos intermédios» diminuiu de 58% para 44%, e o número absoluto de votos a seu favor diminuiu 60%!!).

A derrocada dos socialistas-revolucionários e dos mencheviques depois das jornadas de Julho e até à kornilovada é demonstrada também pelo crescimento da ala «esquerda» de ambos os partidos, que atinge quase 40%: é a «vingança» das perseguições dos bolcheviques pelos senhores Kérenski.

O partido proletário, apesar da «perda» de algumas centenas dos seus membros, ganhou enormemente com o 3-4 de Julho, pois foi precisamente nessas duras jornadas que as massas compreenderam e viram a sua lealdade e a traição dos socialistas-revolucionários e mencheviques. A «lição» que se tira, pois, não é de modo nenhum, de modo nenhum a do Nóvaia Jizn, mas outra: não vos afasteis das massas em efervescência para os «Moltcháline da democracia», e se fazeis a insurreição, passai à ofensiva enquanto as forças do inimigo estão dispersas, apanhai o inimigo de surpresa.

Não é assim, senhores pesudomarxistas do Nóvaia Jizn?

Ou será que o «marxismo» consiste em não pôr na base da táctica a apreciação exacta da situação objectiva, mas em manter no mesmo saco, sem reflexão e sem crítica, tanto a «guerra civil» como o «Congresso dos Sovietes e a convocação da Assembleia Constituinte»?

Mas isto é simplesmente ridículo, senhores, isto é simplesmente escarnecer do marxismo e de toda a lógica em geral!

Se na situação objectiva das coisas não existe base para agudizar a luta de classes até ao ponto da «guerra civil», então porque falais de «guerra civil» a propósito do «Congresso dos Sovietes e da Assembleia Constituinte»? (pois precisamente assim se intitula o editorial do Nóvaia Jizn que examinamos). Então deveríeis dizer claramente ao leitor e demonstrar-lhe que nas condições da situação objectiva não existe terreno para a guerra civil e que, por isso, a táctica pode e deve basear-se em coisas «simples», pacíficas, constitucionais legais, do ponto de vista jurídico e parlamentar, como o Congresso dos Sovietes e a Assembleia Constituinte. Poderia então sustentar-se a opinião de que semelhante Congresso e semelhante Assembleia são realmente capazes de decidir.

Mas se as condições objectivas do momento implicam a inevitabilidade ou mesmo apenas a probabilidade da guerra civil, se não falastes dela «no ar», mas vendo claramente, sentindo, palpando a existência de um ambiente de guerra civil, então como e possível pôr em primeiro lugar o Congresso dos Sovietes ou a Assembleia Constituinte?? Isso é escarnecer das massas famintas e martirizadas! Mas então o faminto estará de acordo em «esperar» dois meses? Ou será que a ruína, sobre cujo aumento vós próprios escreveis diariamente, estará de acordo em «esperar» até ao Congresso dos Sovietes ou até à Assembleia Constituinte? Ou será que a ofensiva alemã, na ausência de passos sérios para a paz (isto é, na ausência de uma proposta formal de uma paz justa a todos os beligerantes) da nossa parte, estará de acordo em «esperar» o Congresso dos Sovietes ou a Assembleia Constituinte? Ou tendes dados que vos permitem concluir que a história da revolução russa, que desde 28 de Fevereiro até 30 de Setembro se desenvolveu de uma maneira extraordinariamente tempestuosa e com um ritmo inauditamente rápido, decorrerá de 1 de Outubro a 29 de Novembro[N208] com um ritmo arquitranquilo, pacífico, legalmente equilibrado, que exclui as explosões, os saltos, as derrotas na guerra, as crises económicas? Ou será que o exército na frente, a propósito do qual o oficial não bolchevique Dubássov declarou oficialmente em nome da frente que ele «não lutará», este exército continuará tranquilamente a passar fome e frio até à data «marcada»?

Ou será que a insurreição camponesa, porque vós a chamais «anarquia» e «progrome», porque Kérenski enviará forças, «militares» contra os camponeses, deixará de ser um elemento da guerra civil? Ou será possível, será concebível um trabalho tranquilo, justo, não falsificado do governo para convocar a Assembleia Constituinte num país camponês quando este governo reprime a insurreição camponesa?

Não riais da «confusão no Instituto Smólni»[N209], senhores! A vossa confusão não é menor. Às terríveis questões da guerra civil respondeis com frases confusas e miseráveis ilusões constitucionais. Eis porque é que eu digo que se os bolcheviques cedessem a esse estado de espírito, deitariam a perder tanto o seu partido como a sua revolução.

N. Lénine
1 de Outubro de 1917

Compartilhe este texto:
Início da página
 
Visite o MIA no Facebook
 

Notas de Rodapé:

(1*) Por excelência. (N. Ed.) (retornar ao texto)

(2*) Razão de ser. (N. Ed.) (retornar ao texto)

(3*) Para mais pormenores sobre a importância da consorcização obrigatória ver a minha brochura A Catástrofe Que Nos
Ameaça e Como Combatê-la.
(retornar ao texto)

(4*) Audácia, audácia, mais uma vez audácia. Em francês no original. (N. Ed.) (retornar ao texto)

Notas de Fim de Tomo:

[N194] O artigo "Conservarão os Bolcheviques o Poder de Estado?" foi escrito por Lénine em Víborg em fins de Setembro - 1 (14) de Outubro de 1917 - e publicado pela primeira vez em Outubro de 1917 no n°. 1-2 da revista Prosvechtchénie.
Prosvechtchénie: revista teórica bolchevique legal; publicou-se em Petersburgo de Dezembro de 1911 a Junho de 1914. A revista foi criada por iniciativa de Lénine que, a partir do estrangeiro, dirigia o seu trabalho. No Outono de 1917 recomeçou a publicação da revista, mas só saiu um número (duplo). (retornar ao texto)

[N195] O facto que Lénine menciona teve lugar na sessão do I Congresso dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados
de Toda a Rússia realizada em 4 (17) de Junho de 1917. (Ver Tomo II das Obras Escolhidas de VI Lénine em três tomos, p. 105). (retornar ao texto)

[N196] Lénine cita o poema de N. A. Nekrássov "Ditoso é o poeta sem malícia" (retornar ao texto)

[N197] Dama agradável sobre todos os aspectos: trata-se de uma das personagens da obra "Almas Mortas" do escritor russo N.V. Gógol. (retornar ao texto)

[N198] Duma de Bulíguine: organismo representativo consultivo que o governo tsarista tencionava convocar em 1905. O projecto de lei para a instituição de uma Duma consultiva do Estado e o regulamento eleitoral foram elaborados por uma comissão presidida pelo ministro do Interior Bulíguine e publicados juntamente com o manifesto do tsar em 6 (19) Agosto de 1905. Os bolcheviques boicotaram a Duma de Bulíguine, que o Governo não conseguiu chegar a reunir devido à revolução de 1905. (retornar ao texto)

[N199] Známia Trudá (A bandeira do trabalho): diário, órgão do Comité de Petrogrado do Partido Socialista-Revolucionário. A partir de 28 de Dezembro de 1917 (10 Janeiro de 1918), tornou-se o órgão central do partido dos socialistas-revolucionários de esquerda. Fechado em Julho de 1918 durante a revolta dos socialistas-revolucionários de esquerda. (retornar ao texto)

[N200] Vólia Noroda (A Vontade do Povo): diário, órgão da ala direita do Partido Socialista-Revolucionário; publicou-se em Petrogrado de Abril a Novembro de 1917. Mais tarde foi publicado com outros nomes. Foi fechado definitivamente em Fevereiro de 1918. (retornar ao texto)

[N201] Sedan: cidade da França; durante a guerra franco-prussiana de 1870-1871 todo o exército francês, chefiado pelo Imperador Napoleão III, foi cercado e aprisionado perto de Sedan. (retornar ao texto)

[N202] Convenção: terceira Assembleia Nacional durante a revolução burguesa francesa de fins do século XVIII. A Convenção foi criada como máxima instituição representativa em França em resultado da insurreição popular de 10 de Agosto de 1792, que derrubou a monarquia. A Convenção existiu até 26 de Outubro de 1795. O seu trabalho mais fecundo teve lugar no período da ditadura jacobina (de 31 de Maio-2 Junho de 1793 a 27 de Julho de 1794). A Convenção acabou definitivamente com o feudalismo, reprimiu impiedosamente todos os elementos contra-revolucionários e conciliadores e lutou contra a intervenção estrangeira. (retornar ao texto)

[N203] Ver a carta de K. Marx a L. Kugelmann de 12 de Abril de 1871. (In Karl Marx / Friederich Engels, Werke, Bd. 33, S. 205). (retornar ao texto)

[N204] Homem enconchado: protagonista da narrativa do mesmo nome do escritor russo A. P. Tchékhov. É o tipo do pequeno-burguês medíocre que tem medo de todas as inovações e de todas as iniciativas. (retornar ao texto)

[N205] Ver a carta de F. Engels a F. A. Sorge de 22 de Fevereiro de 1888. (In Karl Marx / Friederich Engels, Werke, Bd. 37, S. 22). (retornar ao texto)

[N206] F. Engels, Revolução e Contra-revolução na Alemanha (In Karl Marx / Friederich Engels, Werke, Bd. 8, S. 95). (retornar ao texto)

[N207] A moderação e a meticulosidade: palavras com que Moltcháline, personagem da comédia de A. S. Griboédov "A Desgraça de Ter Engenho", arrivista e adulador, descreve as suas virtudes. Lénine utilizava frequentemente esta expressão ao falar da burguesia liberal e dos sociais-oportunistas. (retornar ao texto)

[N208] Lénine, ao citar as datas mencionadas no texto, referia-se a: 28 de Fevereiro (13 de Março) de 1917 — data da revolução democrática burguesa de Fevereiro; 30 Setembro (13 de Outubro) de 1917 — dia para que o Governo Provisório planeava inicialmente convocar a Assembleia Constituinte; 28 de Novembro (11 de Dezembro) de 1917 — data marcada para a reunião da Assembleia Constituinte. (retornar ao texto)

[N209] Lénine cita palavras de N. Sukhánov no seu artigo "Rebentou Novamente a Trovoada", publicado no Nóvaia Jizn. Desde Agosto de 1917, no edifício do Instituto Smólni funcionavam as fracções bolcheviques do Comité Executivo Central de Toda a Rússia e do Soviete de Deputados Operários e Soldados de Petrogrado. Em Outubro o Comité Militar Revolucionário tinha também aí as suas instalações. (retornar ao texto)

    banner
    Inclusão 29/04/2009
    Última alteração 23/11/2010