Actividade Consciência e Personalidade

Alexei N. Leontiev


Conclusão


Embora chame a estas páginas de conclusão, a tarefa aqui não é resumir o trabalho, mas, em vez disso, anotar perspectivas futuras. Do meu ponto de vista, aparecem como uma investigação daquelas transições que podem ser chamadas de transições entre níveis. 

Sem dificuldade, isolamos vários níveis do estudo do homem: o nível biológico, no qual aparece como um ser físico, natural; o nível psicológico, no qual aparece como um sujeito da atividade da vida; e, finalmente, o nível social, no qual aparece realizando relações sociais objetivas, o processo sócio-histórico. A existência destes níveis coloca um problema a respeito das relações internas que conectam o nível psicológico com o biológico e o social. 

Apesar de que este problema tenha desafiado a psicologia por longo tempo, mesmo agora não pode ser considerado resolvido. A dificuldade é que, para uma solução científica, requer-se uma abstração preliminar daquelas interações e conexões do sujeito que geram o reflexo psíquico da realidade no cérebro humano. A categoria da atividade realmente contém esta abstração, e isto, compreende-se, não só não destrói a totalidade do sujeito concreto da maneira como o vemos no trabalho, em sua família, e até em nossos laboratórios, mas, ao contrário, devolve-o à psicologia. 

A devolução do homem completo para a psicologia, no entanto, só pode ser executada com base numa investigação especial das intertransições de certos níveis em outros, a qual ocorre no decorrer do desenvolvimento. Tal investigação deve rejeitar a idéia que leva a considerar estes níveis como se fossem superpostos uns aos outros, e, ainda mais fortemente, a reduzir um nível ao outro. A obviedade disto torna-se particularmente evidente no estudo da ontogênese. Se, nos estágios iniciais do desenvolvimento psicológico da criança, suas adaptações biológicas (que fornecem uma contribuição decisiva para o estabelecimento de suas percepções e emoções) aparecem no primeiro plano, então, subseqüentemente, estas adaptações são transformadas. Isto, naturalmente, não significa que simplesmente param de funcionar; significa algo mais, especificamente que começam a realizar um outro nível mais alto de atividade, do qual depende a porção de sua contribuição em cada dado estágio de desenvolvimento. Nossa dupla tarefa consiste, portanto, em investigar a possibilidade (ou limitação) que representam. No desenvolvimento ontogenético, este problema reaparece constantemente, às vezes de forma bastante aguda, como, digamos, no período da puberdade, quando ocorrem mudanças biológicas, as quais, desde o início, têm uma expressão já transformada psicologicamente, e quando toda a questão diz respeito a que tipos de expressões serão essas. 

Porém, vamos deixar de lado a questão da psicologia do desenvolvimento. Todo o princípio do qual dependem as relações entre níveis consiste do fato de que o nível superior disponível sempre se torna dominante, porém não pode ser realizado senão com a ajuda de níveis subjacentes e, portanto, depende deles.

O problema das investigações entre níveis, assim, reside no estudo das formas multifacetadas destas realizações graças às quais os processos do nível superior são, não apenas concretizados, mas também individualizados. 

O aspecto principal que não devemos perder de vista é que, nas investigações entre níveis, confrontamo-nos, não com algo que seja apenas unilateral, mas com algo bilateral e que tem um movimento em forma espiral: com a formação de níveis superiores e o "abandono" ou alternância de níveis inferiores, os quais, por sua vez, servem a possibilidade do desenvolvimento posterior do sistema como um todo. Desta forma, as investigações entre níveis, sendo interdisciplinares, também excluem a sua compreensão como se implicasse a redução de um nível a outro, ou a tentativa de encontrar suas conexões e coordenações correlativas. Particularmente, enfatizo este fato, porque, se, na sua época, N.N.Lange falou do paralelismo psicofisiológico como de um pensamento "terrível", então, hoje, o reducionismo tem se tornado um pensamento verdadeiramente terrível para a psicologia. Um reconhecimento deste fato tem penetrado cada vez mais a ciência ocidental. A conclusão geral de uma análise do reducionismo foi mais agudamente formulada por autores ingleses na última edição (1974) do jornal internacional "Cognição": a única alternativa para o reducionismo é o materialismo dialético (S. Rose e H. Rose, Vol. 2, No. 4). A questão é realmente essa. A solução científica do problema, biológico e psicológico, psicológico e social, é simplesmente impossível fora do sistema marxista de análise. Por esta razão, até mesmo o programa positivista "Ciência Unida" (com letras maiúsculas!), com a intenção de unir o conhecimento por meio da cibernética universal e de esquemas (modelos) multi-matemáticos, fracassou claramente.

Embora esses esquemas sejam, de fato, capazes de comparar entre si, qualitativamente, os diferentes fenômenos, no entanto não são eficientes em dado nível de abstração, no nível dos detalhes destes fenômenos e de suas intertransformações. No que concerne à psicologia, neste ponto definitivamente há uma quebra na concretude do homem. 

Naturalmente, ao dizer tudo isto, tive em mente a maior parte de todas as relações entre os níveis psicológico e morfofisiológico de investigação. É necessário pensar, entretanto, que o assunto permanece o mesmo na conexão que existe entre os níveis social e psicológico. 

Infelizmente, exatamente esses problemas sócio-psicológicos continuam sendo os menos pesquisados em nossa ciência, havendo uma invasão de conceitos e métodos trazidos da pesquisa estrangeira, isto é, da pesquisa subordinada ao problema de encontrar uma base psicológica para justificar e imortalizar as relações inter-humanas geradas pela sociedade burguesa. Porém, uma reconstrução da ciência sócio-psicológica do ponto de vista marxista não pode se dar independentemente de uma ou de outra compreensão sócio-psicológica do homem, e do papel, em sua formulação, das conexões vitais do homem com o mundo, as quais são engendradas pelas relações sociais dentro das quais ele age. 

Por esta razão, ao pensar sobre as perspectivas da ciência psicológica de forma que centre, em si, abordagens multifacetadas do homem, não podemos nos distrair do fato de que esse centramento ocorre no nível social - da mesma forma com que é nesse nível que o destino humano é decidido.


Inclusão 17/11/2003