O Problema do Sujeito e do Objeto

Mikhail Alexandrovich Lifschits

1940


Fonte: Manuscrito datado de meados da década de 1940. Traduzido para o espanhol por Víctor Antonio Carrión Arias e revisado por Rafael Pla León, a partir da versão publicada em russo no livro O que é Clássico? – coleção de notas e manuscritos publicadas após a morte do autor em 1983. Essa tradução tem permissão da editora Edithor e do tradutor Víctor Antonio Carrión Arias.
Tradução do espanhol: Marcelo José de Souza e Silva(1)
HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: Licença Creative Commons licenciado sob uma Licença Creative Commons.


A Estética Transcendental

As formas dos objetos do mundo exterior são o compêndio de sua história (a forma da árvore, o penhasco, a paisagem em seu conjunto, o semblante de uma pessoa). É a manifestação (Gestalt) exterior do desenvolvimento, da formação (Bildung). O todo concreto deve ter uma aresta externa, deve ser acessível à contemplação, à percepção, o ser para o outro. Isso já está na natureza do singular, do ens(2). O início da percepção é imperceptível – no singular (?) é puramente interno, indivisível. De maneira que a percepção do mundo, fundada na distinção, tem seu fundamentum divisionis(3) no mundo objetivo. Por isso a fórmula de Protágoras: “o homem é a medida de todas as coisas”, deve ser interpretada não em declínio e difamação da consciência humana, e sim em sentido objetivo. Seria notável demonstrar em que sentido o homem, com seus órgãos dos sentidos, na verdade se forja a si mesmo como a medida natural das coisas.

Seria necessário demonstrar como todos estes limiares das sensações e das outras facetas na escala da percepção do mundo pelo ser humano vêm a ser as fronteiras objetivas do ser para outro, do singular, da forma. Além dos limites de nossas sensações não há qualquer coisa que possa ser percebida (sentida), se bem existe um mundo objetivo colossal, que é independente de nossa consciência. Tudo que não é acessível à sensorialidade, não se encontra em um estado de separação do Engeweide(4), das entranhas do mundo. Somente neste sentido é possível compreender as palavras de Lenin: o homem possui tantos sentidos quantos são necessários para perceber o mundo. As ideias de Espinoza e de outros sobre de que nossos sentidos nos colocam às claras somente a parte que é possível e que pode ser sentida em outros seres, são falsas. Na verdade, em virtude de que estranho azar surgiram os sentidos particulares de um mundo que é acessível de forma sensorial? Isso é fruto da consideração puramente externa e mecânica da conexão do sujeito e do objeto. Mas foi muito importante fundamentar a necessidade objetiva e a divisibilidade, a desmembração das percepções humanas, deduzi-las dos elementos do próprio mundo. Está aqui a grande tarefa da física e fisiologia! Por acaso é possível? Essa seria a resolução da questão das “qualidades secundárias”.

“A perceptibilidade é proporcional à singularidade”. Por acaso não é por isso que não percebemos a luz como tal, e sim somente suas cores separadamente? Por acaso percebemos de forma igual a cor pura em geral? O que é a percepção do geral? O “ambiente comum”? (O geral é real, mas não é percebido como geral; exceção feita dos objetos nos quais o geral se transluz através do individual. O individual, o singular, que tem um valor, um sentido. Isso, aparentemente, é já o escalão seguinte na separação da consciência: o início do pensamento? Sim, a este [ao geral] devem preceder tais instâncias já no campo da estética).

“Mas cada (?) coisa singular, que está a uma distância de dois quilômetros de nós, se percebe muito pior que uma porção de qualquer outro objeto que se encontra diante de nossos narizes. Tomemos os óculos e corrijamos no possível as fraquezas de nossa percepção. De modo que a questão não está na singularidade real, e sim na nossa capacidade subjetiva de diferenciar? De modo algum.

A questão é que a própria singularidade é relativa. Essa árvore é parte da paisagem. Mas em certas escalas, esta é uma parte singular. Fora desses limites se perde no geral. Que caráter tem esses limites? Por acaso são subjetivos? Ou no “horizonte” humano vem dada a medida objetiva do trânsito do singular ao geral?

A singularidade, o “em-si” do objetivo, está determinada por suas relações internas com a natureza que a rodeia. A própria distância que constitui um sutiã, a base do horizonte humano, é a escala externa. Por acaso pode a simples distância medir a singularidade do objeto?

Contudo, por exemplo, o som (um determinado som), se determina a si como algo?: Diminuição objetiva de flutuações em uma certa distância. Também o odor. A luz, sim, pode ser percebida através do telescópio, quando já não se percebe a olho nu. Mas é por acaso ilimitada? Teoricamente? Que papel desempenha aqui a velocidade da luz? O tato.

Contudo, é correto o axioma geral de que as escalas dos objetos e os fenômenos que chegam a ser em-si, singulares, são comensuráveis com as escalas das percepções humanas, que o mundo das coisas e fenômenos singulares cai dentro dos limites da sensorialidade humana. Que além de seus limites de forma alguma constituem algo singular ou na direção do macro – como do microcósmico.

Este mundo do relativamente singular não só tem fronteiras internas que determinam a essência das coisas, mas também externas (no espaço e tempo, tanto um como outro são a forma, mas não subjetivamente [comparar a Hobbes], e sim “exteriormente” com relação à essência e a seu desenvolvimento. Em que sentido se pode separar a essência dessa forma?), as quais determinam sua forma como compendio de seu desenvolvimento, de sua história.

1) A perceptibilidade, a diferenciabilidade no espaço e no tempo é proporcional à singularidade. Contudo, o teorema inverno não é exato. Por isso nem tudo que se diferencia no espaço e tempo é proporcional ao em-si verdadeiro, ao singular do ser ou substância.

Por isso é mais correto assinalar o caráter externo da percepção, que sua aparência ilusória ou seu caráter subjetivo.

2) Além disso: o coração está, é claro, naquilo que pode ser percebido. O ser humano é a medida das coisas. Mas esta não se aplica a todo o presente. É necessário diferenciar o que não é perceptível além dos limites do horizonte humano do que não é perceptível nos confins desse horizonte. De outro modo vamos acabar no antropologismo e coisas parecidas. A singularidade é relativa e é uma medida externa no homem. Mas nos confins destas escalas existe a diferença externa entre o singular e o total.

Deve existir também o caminho do exterior ao interior. Não deveria dizer que o ser humano é a medida exterior das coisas (mas também a interior)?

Lenin, Cadernos Filosóficos, 1947, p. 264.

A transição dialética da matéria ao movimento, da matéria ao pensamento, que Hegel não soube compreender, apesar de que foi um partidário da dialética. O salto?

Pode ser que Kant no ponto decisivo de seu sistema mescle a impossibilidade psicológica da união dos dois mundos com sua incompatibilidade lógica. A justificativa psicológica da crítica de Kant é evidente, mas seu segredo está em que a pessoa esteja em uma encruzilhada, ali onde tem lugar um salto de + (infinito) a – (infinito), ou de algum outro modo.

Logicamente, por meio do conceito, se pode e se deve abarcar essa discórdia na representação. E isso, a sua maneira, procura fazer Hegel. Mas por acaso ele colocou sua atenção na fonte psicológica das dificuldades kantianas?

O sonhador Dostoiévski em parte está certo: vivemos a realidade. Mas dado que cada coisa real está rodeada de uma atmosfera ideal, as “esperanças (?)” frequentemente importam mais que os fatos, que a posse. A coisa mesma = 0. Tudo (NB) é relação, movimento e nisso está a idealidade do ser, da matéria. Em particular na sociedade humana.

O ceticismo (tanto o rousseauniano como o tolstoiano e o socrático) separa as ilusões, mas aquilo que resta é natureza ilusória, o reino espiritual dos animais. O descobrimento do “ilusório”, da “vaidade” de nossas aspirações é somente um passo para a compreensão da idealidade, das relações. Já que a verdade, que colocam no lugar da vaidade, não é tampouco a coisa nua, e sim a relação harmoniosa (o rapport de Diderot).

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Notas de rodapé:

(1) Possui graduação em farmácia pela UFPR e é mestre em educação pela UFPR. Participa dos Grupos de Pesquisa: Núcleo de Pesquisa Educação e Marxismo (NUPE-Marx/UFPR), na linha Trabalho, Tecnologia e Educação; e Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva (NESC/UFPR), na linha Estudos Marxistas em Saúde. Contato: marcelojss @ gmail.com (retornar ao texto)

(2) [Essência, ser – V. A.] (retornar ao texto)

(3) [Diferença fundamental – V.A.] (retornar ao texto)

(4) [Prado assustador – M.S.] (retornar ao texto)

Inclusão 29/07/2014