Europa Oriental - Reformas e Revolução

Ernest Mandel

9 de Dezembro de 1989


Fonte: revista Teoria & Debate nº 9.
Transcrição: Daniel Monteiro
HTML:  Fernando A. S. Araújo
Direitos de Reprodução: © Revista Teoria & Debate. Gentilmente cedidos pela Fundação Perseu Abramo.


Pela primeira vez, desde a instauração do stalinismo, a liberdade e a democracia passam a tomar o lado das massas e do socialismo. Uma revolução política - pacífica, quase sempre, mas autêntica - ganha a cena nos países socialistas contra a burocracia estatal e partidária. Em contrapartida, importantes líderes das reformas de abertura política declaram sem titubear: "Vamos restaurar o capitalismo". Entre as incertezas e as contradições, há razões para entusiasmo e otimismo dos revolucionários com relação à virada no Leste europeu.

A primeira vista, uma grande contradição caracteriza os acontecimentos tumultuosos que estão ocorrendo na Europa oriental e na URSS. De um lado, há mobilizações de massa sem precedentes na República Democrática Alemã, na Tchecoslováquia, na URSS. De outro, a burguesia internacional exulta:

"É o fim do império soviético, a falência do comunismo; o capitalismo ganhou contra o socialismo".

O primeiro-ministro polonês Mozowiecki e, infelizmente, também Lech Walesa acrescentam:

"Nós vamos restaurar o capitalismo na Polônia".

Podemos então supor que milhões de pessoas, na maioria trabalhadores e trabalhadoras, se mobilizam pela vitória da "democracia ocidental" ou do capitalismo na Europa oriental?

A contradição se resolve entretanto partindo de uma constatação objetiva: os países da Europa do Leste, a URSS, a República Popular da China, estão sendo golpeados hoje por uma crise de sistema extremamente profunda, que vem de longe. Essa crise é ao mesmo tempo social, econômica, política, ideológica e moral. Pode ser resumida pela fórmula: a ditadura burocrática perdeu toda legitimidade aos olhos das massas e inclusive aos olhos de boa parte dos membros dos PCs no poder. A partir daí, ela provoca reações, mobilizações e até explosões revolucionárias por parte das massas, para obterem uma mudança radical de regime político. Provoca paralelamente reações por parte da burocracia reinante (a Nomenklatura), a fim de manter no essencial seu poder e seus privilégios por meio das mais diversas reformas - algumas implicam concessões importantes à pequena e média burguesia autóctone e ao grande capital internacional - na esperança de conseguir créditos importantes.

Entre esses dois movimentos, há uma contradição crescente que acabará por se tornar explosiva. Ou as massas se impõem, isto é, um novo poder popular, democrático, deve nascer graças à vitória de uma revolução política; ou a burocracia consolida momentaneamente seu poder sobre a base de um regime político reformado e de estruturas sócio-econômicas em lenta decomposição, o que poderia levar a muito longo prazo a um risco de restauração do capitalismo.

As correlações de forças sociais e a dinâmica política fundamental diferem de país para país. Na medida em que é possível formular um prognóstico, a primeira variante é a mais provável na República Democrática Alemã, na URSS e na Tchecoslováquia a longo prazo (a curto, o movimento de massas pode sofrer um fracasso, como foi o caso na Polônia, em dezembro de 1981, com o golpe de Estado do general Jaruzelski). A segunda variante tem mais possibilidades na Hungria e na Polônia, mas isso está longe de ser já irreversível.

Por toda parte, haverá uma forte resistência operária a vencer para eliminar o "direito ao trabalho" e a previdência social garantidos, as principais "conquistas da Revolução de Outubro", que subsistem em todos esses países. As batalhas decisivas estão à nossa frente, não atrás de nós, quaisquer que sejam as aparências e as fanfarronadas dos turiferários pró-capitalistas.

Um início de revolução na RDA e na Tchecoslováquia

Na República Democrática Alemã e na Tchecoslováquia assistimos atualmente a uma mobilização de massa sem precedentes na história da Europa desde a Revolução espanhola de 1936-1937, ou mesmo desde a Revolução russa de 1917. Os números são eloqüentes. Apenas nas jornadas de 4, 5 e 6 de novembro de 1989, dois milhões de pessoas desceram às ruas na República Democrática Alemã (das quais, perto de um milhão em Berlim Oriental, em 4 de novembro - a, maior manifestação operária da história da Alemanha). O número equivalente, levando em conta o tamanho da população, seria sete milhões de manifestantes na França, na Itália ou na Grã-Bretanha, e cinco milhões na Espanha (ou mais de quinze milhões no Brasil). Nunca se viu tal número de manifestantes em três dias, em qualquer destes países.

Em Leipzig, a capital industrial da República Democrática Alemã, durante oito semanas consecutivas, em cada Segunda-feira, entre duzentas e trezentas mil pessoas desceram às ruas. É toda a classe operária dessa cidade de meio milhão de habitantes que se manifesta a cada segunda-feira por oito semanas consecutivas. Nesse ponto, a quantidade se transforma, evidentemente, em qualidade.

Mas a qualidade se manifesta também se fizermos abstração do número de participantes nos cortejos. Ela explode na extraordinária espontaneidade reivindicativa das massas. Na manifestação de Berlim de 4 de novembro, pudermos contar até sete mil cartazes e faixas diferentes, todos fabricados pelos próprios manifestantes, com poucas exceções. Em Praga, uma coisa análoga ocorreu em 21 e 27 de novembro. O espírito ao mesmo tempo sarcástico e humorístico, cético e cheio de esperança, insolente e brincalhão, antinacionalista, antimilitarista - na Prússia! - e, freqüentemente, internacionalista nos aquecia o coração. Eis a primeira geração de alemães e alemãs totalmente antiautoritária e antiburocrática. Rosa Luxemburgo ficaria feliz se visse esses manifestantes.

O espírito geral em antistalinista e pró socialista. As multidões gritavam sempre: "Ficamos aqui!" - alusão aos refugiados na República Federal da Alemanha. "Nós somos o povo. Nós somos o Estado. Nós somos o poder."

Os temas concretos foram das liberdades democráticas. "Eleições livres. Liberdade de imprensa. Liberdade de circulação. Legalização dos partidos de oposição e de sindicatos independentes. Fim do papel dirigente garantido pela Constituição ao PC. Demissão do governo. Demissão do bureau político e do comitê central do SED (Partido Socialista Unificado, o PC da República Democrática Alemã). Pôr a polícia política na produção. Revelar a corrupção dos dirigentes."

Com uma rapidez extraordinária, nunca vista no curso de qualquer revolução, as massas da República Democrática Alemã puderam obter ganho de causa para suas reivindicações principais. Nem um dia se passa, há um mês, sem uma nova vitória. As principais são: a queda de Honecker; a demissão do governo; a queda do muro de Berlim; a demissão de três bureaux políticos sucessivos e depois a do comitê central, inclusive a do triste Krenz, que tinha substituído Honecker; a realização de um congresso extraordinário do SED no meio de dezembro (recusado faz quinze dias); eleições livres em maio de 1990; desnudamento dos privilégios e da corrupção da cúpula da Nomenklatura e início de seu castigo.

Na Tchecoslováquia, os acontecimentos, estimulados pelo exemplo da República Democrática Alemã, se precipitaram a partir do meio de novembro e avançaram com uma rapidez ainda mais impressionante que na Alemanha do Leste. As manifestações de estudantes se amplificaram no espaço de alguns dias de dez mil a várias centenas de milhares de pessoas. Um chamado da oposição a uma greve geral em todo país levou a debates apaixonados nas empresas e, depois, ao sucesso total da greve, na segunda-feira, 27 de novembro. Perto de um milhão de pessoas desceram às ruas de Praga. Os operários tchecoslovacos, aliás, organizaram-se melhor que os da República Democrática Alemã. A Nomenklatura cedeu, eliminando os "normalizadores" mais odiados. Mas conserva mais trunfos de poder que na República Democrática Alemã. Uma repressão do tipo da de Jaruzelski não pode ser totalmente excluída a curto prazo. Mas levaria a uma reação popular (e internacional) absolutamente explosiva.

"É apenas um começo; continuemos a luta"

Em muitos aspectos, a explosão revolucionária na República Democrática Alemã e na Tchecoslováquia pode ser caracterizada como uma combinação de maio de 1968 francês e da Primavera de Praga. Para os que gostam das referências literárias, podemos considerar o espírito combinado de Gavroche e do bom soldado Schwejk.

O caráter massivo e deliberadamente não-violento dessas revoluções, excepcionais pela correlação de forças sociais ultrafavoráveis, chama a atenção de todos os observadores. A conclusão teórica imediata que se impõe a partir dessas revoluções em curso é que a burocracia não é uma classe dominante, nem uma classe "capitalista de Estado", nem uma "nova classe". Ela não tem nenhuma base social minimamente coerente. Seu poder parece desmoronar como um castelo de cartas. Na proporção de mil contra um, ou até de cinco mil contra um, não se precisa de nenhuma violência.

Entretanto, é preciso evitar toda euforia, todo otimismo excessivo. A amplitude das mobilizações populares e sua força de choque irresistível têm por que nos fazer perder o fôlego. São aliás um ensinamento para as massas e os socialistas de todos os países industrializados e semi-industrializados.

Mas ao mesmo tempo, essas magníficas explosões revolucionárias não se situam à véspera de uma vitória decisiva. Preferimos falar de um início de revolução. O famoso slogan de maio de 1968 - "É apenas o começo; continuemos a luta" - se aplica certamente também na República Democrática Alemã e na Tchecoslováquia, embora com um potencial de vitória superior ao da França de 1968.

É que na República Democrática Alemã e na Tchecoslováquia as massa têm o tempo a seu favor - por dois anos? três anos? quem sabe? -, pela ausência de forças de repressão prontas a barrar rapidamente o movimento. Devido a todas as mudanças na situação mundial que se produziram nos últimos vinte anos, a revolução política na República Democrática Alemã e na Tchecoslováquia é a primeira revolução moderna que não está confrontada nem ameaçada por uma intervenção armada contra-revolucionária imediata. Bush e Gorbatchev deram a impressão em Malta de reestabelecer uma espécie de "condomínio" sobre a Europa central. Mas foi apenas para a galeria e a propaganda. Nem um nem outro têm os meios políticos de conter os trabalhadores alemães-orientais e tchecoslovacos. Nem o Exército soviético, nem o Exército americano, nem o Bundeswehr (Exército alemão) estão prontos neste momento a desempenhar o papel de gendarme na Europa central, mesmo se forem assustados por uma descrição de pretensas "ameaças de caos, de anarquia e de desestabilização".

As massas da República Democrática Alemã e da Tchecoslováquia dispõem então de tempo para que seu movimento revolucionário amadureça e reúna as condições da vitória; precisam muito disso. Seu movimento sofre de três fraquezas que poderão ser fatais.

Em primeiro lugar, carecem ainda de auto-organização e, em função dessa fraqueza, de objetivos claros de poder (embora, segundo as últimas notícias, começam a se formar comitês de greve e um comitê central de greve se reúne na Tchecoslováquia). O objetivo de eleições livres para uma instituição de tipo parlamentar é inteiramente correto. Merece o apoio de todo socialista revolucionário que não esteja cego pelo dogmatismo sectário. Esse objetivo tem o apoio de 99% da população. É normal após décadas de ditadura despótica.

Mas um Parlamento eleito a cada quatro anos e deliberando sem controle popular não é um substituto para o poder popular. Pode ser recuperado por frações reformistas da Nomenklatura, governando em coalisão com componentes moderados da oposição. Se órgãos de controle e de exercício de poder direto das massas não se juntarem a essa instituição, as massas poderão ter seu dinamismo gasto e correm o risco de ficarem decepcionadas. Quando o movimento de massas entrar em declínio, a Nomenklatura poderia golpear para obter uma revanche temporária.

O que se passou numa série de grandes cidades soviéticas durante a primeira sessão do Congresso de Deputados do Povo indica o caminho a seguir. Todos os dias, milhares de eleitores e eleitoras se reuniam em assembléias públicas, para exigir que seu deputado (ou deputada) prestasse contas de suas intervenções e de seus votos no Parlamento. No fim desse caminho, estão a revogabilidade dos eleitos segundo a vontade dos eleitores e eleitoras, o direito de veto dos comitês de base (comitês de cidadãos) - especialmente com relação a ameaças ao meio ambiente e a decisões contrárias aos interesses dos trabalhadores das empresas. No fim desse caminho, está o referendo de iniciativa popular que permite à massa dos cidadãos e cidadãs decidir por si mesma as grandes questões políticas.

O segundo problema é a deterioração econômica. Na República Democrática Alemã ela pode ser provocada em parte pelas próprias conquistas das massas. A liberdade de viajar ao estrangeiro provocará a hemorragia de divisas e uma forte pressão em favor de um marco alemão-oriental conversível em marco alemão-ocidental. A necessidade de melhorar o abastecimento da população em bens de consumo de alta qualidade terá um efeito análogo. O capital alemão-ocidental e a CEE - Comunidade Econômica Européia aproveitarão para exigir concessões em troca de ajudas e de créditos de toda espécie.

A população resistirá sem dúvida ao início dessa pressão. Ela não tem nenhum interesse em pagar o preço de uma política de austeridade pelos ganhos políticos que acaba de obter. Resistirá mais ainda contra uma política que faria da República Democrática Alemã em relação à República Federal da Alemanha o que a Coréia do Sul foi por muito tempo do Japão: um país de montagem industrial, exportando a partir de baixos salários e congelando-os. E isso com maior razão porque as riquezas naturais correm o risco de ser progressivamente vendidas a baixo preço em favor do capital alemão-ocidental e de outros países da CEE, com a ajuda de uma moeda com o curso fortemente especulativo e subavaliada.

Mas se a decepção política e o cansaço tomarem conta, se as esperanças de uma recuperação econômica graças a um regime de autogestão articulado e de um planejamento socialista-democrático forem frustradas, a tentação de ver na absorção da República Democrática Alemã pela República Federal da Alemanha e pela CEE um mal menor com chances de elevação do nível de vida poderá se impor. Esse risco seria maior ainda pelo fato de que uma fração - a mais tecnocrática mas também a mais corrompida da Nomenklatura - se engajaria resolutamente nesse caminho, com o apoio de uma parte moderada dos políticos da oposição.

Esses dois riscos se encadeiam a um terceiro. Para fazer face a adversários hábeis e dotados de grandes recursos - a ala Modrow da burocracia, muito flexível e hábil para manobrar; a ala liberal da burguesia alemã-ocidental, apoiada pela direita social-democrata e dispondo de enormes recursos financeiros e industriais -, é preciso uma direção política muito experiente, muito audaciosa, capaz de unificar as massas tanto em relação à defesa de seus interesses imediatos quanto ao objetivo da conquista do poder. Tal direção não existe no momento; criá-la é a tarefa principal do próximo período.

O espantalho da Hungria e da Polônia

Os riscos de a revolução escorregar para a direita alimentam-se, no plano político, com a idealização das condições sob a Primeira República (o regime Masaryk—Benes) na Tchecoslováquia e com a miragem de uma reunificação incondicional - isto é, capitalista - da Alemanha na República Democrática Alemã. Mas, por outro lado, a evolução da Hungria e sobretudo na Polônia funciona como espantalho para os trabalhadores e trabalhadoras da República Democrática Alemã e da Tchecoslováquia. É que todas as implicações da política de austeridade à qual são levados estes dois países a partir de uma maior inserção no mercado mundial segundo as "regras do jogo" do FMI se manifestam com toda a sua gravidade e muito mais rapidamente do que o previsto.

Todos os observadores minimamente lúcidos têm consciência disso, abstração feita dos dogmáticos cegos do neoliberalismo do tipo de madame Thatcher e seus apoiadores ideológicos.

Sob a manchete: "Perspectivas para os europeus do Leste: anos de sofrimento e de riscos", o International Herald Tribune, de 30 de novembro de 1989, anuncia:

"À medida que desmantelam o sistema econômico stalinista complexo que recobria tudo, que encorajam o novo setor privado e buscam investimentos ocidentais, os governos da Europa do Leste devem mergulhar suas sociedades num turbilhão de desagregação, no qual uma taxa elevada de inflação, desemprego alto e a emergência de uma desigualdade social e econômica aguda serão traços penosos mas inevitáveis. Tal processo, em curso na Polônia e na Hungria, incitará a emergência de movimentos políticos radicais e de novas insurreições populares ...".

Com efeito. O que isso significaria na Polônia, o semanário liberal alemão-ocidental Die Zeit ilustra num artigo publicado em 10 de novembro:

"Há dez anos, a Polna em Varsóvia era um mercado no qual tudo era muito caro, onde tudo o que a agricultura polonesa produz de maior qualidade podia ser obtido. Hoje a Polna tornou-se uma loja de alimentação ocidental, onde se pode conseguir quase tudo, a preços astronômicos, e os que têm dólares podem se permitir comprar, graças a uma taxa de câmbio extremamente favorável, mesmo alimento para gatos, evidentemente 'sem corantes'. Mas, ao mesmo tempo, uma velha aposentada rompe em lágrimas diante de uma loja 'normal', porque não pode mais pagar o estritamente necessário. Os dois tipos de pão mais baratos para os pobres só se acham no papel, mas não nas padarias; não é lucrativo (sic) vendê-los a preço baixo.

"A separação entre muito ricos e muito pobres cresce de modo inquietante. Não se limita às mercadorias. Este ano, as primeiras escolas privadas serão abertas; terão melhores professores, menos alunos, e um nível mais elevado. Mas o acesso a elas custará um quarto do salário mensal médio".

E o jornal liberal Süddeutsche Zeitung põe os pingos nos is na sua edição de 28 de novembro:

"Os indigentes recebem agora tickets de racionamento. Pelo menos quatro milhões de pessoas se beneficiam deles (o número real oscila entre cinco e seis milhões – E.M.) desde que o primeiro-ministro comunista (sic) Rakovski liberou os preços dos produtos alimentares no início de agosto... Um quilo de carne de boi custa atualmente vinte mil zlotys... Anna Zambrowsky, aposentada depois de uma vida inteira de trabalho, recebe uma pensão de setenta mil zlotys: três quilos e meio de carne por mês (...)

"Os preços dos víveres de qualidade aumentaram tanto que, segundo a opinião de especialistas do Ministério das Questões Sociais, a alimentação sadia e o desenvolvimento normal de parte importante das crianças está (biologicamente) ameaçada".

Ao mesmo tempo, a "dolarização" da economia permite que capitalistas estrangeiros comprarem empresas industriais por uma fração reduzida de seu valor real. Assim, os estaleiros Lenin, em Gdansk, onde Lech Walesa começou sua luta sindical, serão vendidos à herdeira (de origem polonesa - mas os lucros pesam mais do que o amor à pátria) do trust americano de cosméticos Johnson por cem milhões de dólares, enquanto seu valor real está entre quinhentos milhões e um bilhão de dólares.

Isso é a restauração do capitalismo? Não. Todos os especialistas econômicos têm a opinião de que o setor privado recuperará apenas 10% das empresas do Estado num futuro previsível: dois mil em mais de vinte mil. Seu peso na Polônia continuará menor do que a Rússia da NEP. A maior parte dessas empresas não é rentável no sistema atual (ou mesmo reformado) de preços. E qual capitalista estrangeiro comprará fábricas operando no vermelho?

Quanto aos pretensos capitalistas poloneses, não têm nem os meios nem a competência de empresários para comprar as grandes empresas industriais. São no "melhor" dos casos milionários em dólares, não bilionários como os grandes capitalistas do Ocidente, do Japão e do Brasil. Serão necessários vinte anos para mudar isso; e, em vinte anos, muitas coisas podem mudar e mudarão na Polônia, na Europa e no mundo, e não em benefício do capitalismo.

O que se passa na Polônia e na Hungria é então uma decomposição da "economia de comando" (da gestão burocrático-estatista), sem chegar ao capitalismo. Haverá um longo período de imbricação híbrida de um "capitalismo" embrionário, tateante, especulativo, corrompido, associal de forma atroz, e de uma economia estatizada em decomposição (com, possivelmente, um setor cooperativo em expansão).

Tendo em vista o preço social extremamente elevado que será preciso pagar para manter esse monstro, as massas resistirão cada vez mais. Um socialismo democrático e autogestionário recuperará aí pouco a pouco o apoio popular. Entretanto, a miséria da "economia" socialista mercado" colocará os trabalhadores da República Democrática Alemã, da Tchecoslováquia e da URSS em guarda. É uma vitória da revolução política na República Democrática Alemã estimulará fortemente uma volta dos trabalhadores poloneses e húngaros ao socialismo.

É a falência do Stalinismo não do Socialismo

O que está em crise na Europa oriental e na URSS não é o socialismo, que não existiu nunca aí. Não podemos declarar a bancarrota de uma empresa não existente. O que está se desagregando é a "economia de comando", estreitamente ligada ao "Estado de comando", isto é, ao despotismo, à ditadura burocrática. Os marxistas revolucionários não estão descobrindo a posteriori que não há, que nunca houve "socialismo realmente existente" no Leste; vêm afirmando isso há várias décadas e ficam evidentemente satisfeitos quando muitos soviéticos proclamam hoje que "stalinismo e socialismo são incompatíveis; onde há stalinismo, não há socialismo; onde houver socialismo, não haverá stalinismo".

Em matéria de organização econômica, o problema é muito concreto. O planejamento socialista é um esforço de desenvolvimento proporcional de todos os ramos da economia, de acordo com prioridades conscientemente determinadas. Ora, a burocracia soviética escolheu desde 1929 o caminho de desenvolvimento desproporcional. Seus abortos na Europa oriental se engajaram no mesmo caminho. As despesas atuais no setor de comércio, transportes, armazéns, consertos etc., constituem menos de 15% da renda nacional, enquanto os países capitalistas desenvolvidos consagram a elas 30% dos seus recursos ou mais. Resultado: em muitas cidades soviéticas, há uma loja de alimentação para vinte mil habitantes; isso torna as filas inevitáveis. Há perdas enormes e desperdício. A URSS produz batatas em abundância. Mas 75% (sic) dessas batatas não chegam ao consumidor normal. Resultado: há uma "economia paralela" amplamente difundida, com preços duplos ou triplos em relação aos preços oficiais e trocas de vantagens não menos difundidas. Nessas condições, os burocratas e mesmo os empregados da distribuição têm interesse em se manter e organizar a escassez. Podemos dizer até que quanto mais mercadorias chegam às lojas, menos são vendidas aos consumidores aos preços oficiais.

Tudo isso não é manifestamente resultado do planejamento "em si". É resultado de um planejamento pela burocracia, em proveito da burocracia. Podemos dizer até mesmo que é o resultado da falta verdadeira de planejamento. Pois o verdadeiro planejamento socialista exige a determinação das prioridades pelas massas populares; logo, a democracia socialista pluralista e pluripartidarista. O verdadeiro planejamento exige um controle operário-popular real sobre todas as engrenagens da vida econômica. O verdadeiro planejamento socialista exige a autogestão operária no nível das empresas e dos ramos da indústria. Nós nos batemos é por esse "terceiro modelo" de organização econômica, que se opõe ao mesmo tempo ao despotismo burocrático e ao despotismo do mercado, capaz de integrar plenamente os objetivos de liberdade, isto é, de livre escolha das prioridades pelas massas populares, de igualdade e de justiça sociais, de solidariedade. São ideais comuns aos socialistas revolucionários e aos cristãos sinceros.

Aliás, temos de ter muita prudência com a fórmula de "falência" para a economia de países como a República Democrática Alemã, a Tchecoslováquia ou a URSS. Preferimos por isso falar em "crise". O "planejamento" desproporcional, híbrido, tateante, não é uma anarquia total. Implica a possibilidade de um planejamento parcial. Justamente pela possibilidade de dispor de modo centralizado dos recursos econômicos, o planejamento burocrático leva a êxitos sensacionais em todos os domínios aos quais a burocracia dá prioridade. Freqüentemente cita-se a esse respeito o exemplo da produção de armas; mas não é único, longe disso.

Mas justamente esses êxitos espetaculares se explicam pela alocação suficiente, rigorosa, controlada do ponto de vista da qualidade, dos recursos para os setores considerados prioritários. Isso leva inevitavelmente à redução dos recursos para os outros setores; logo, a desproporções crescentes.

Um planejamento democrático e um controle adequado pelas massas o pelo mercado permitirão corrigir em grande parte esses desequilíbrios, na medida em que as massas determinem elas mesmas as prioridades e meçam os resultados da gestão pela satisfação de suas próprias necessidades.

A crise conjunta do Capitalismo e da ditadura burocrática

Os que falam de uma falência do socialismo não compreendem nada do que se passa no mundo há mais de 150 anos. Se há milhões de socialistas e de comunistas e centenas de milhões de sindicalistas, em todos os continentes, não é em função do que deu ou não certo na URSS, na China, na Europa oriental ou na Suécia. É porque a sociedade capitalista implica males insuportáveis, no nível do estômago, do coração ou do espírito. Os socialistas são produto do capitalismo e não dos êxitos ou fracassos relativos de qualquer "gestão alternativa da econômico, seja a do stalinismo ou a da social-democracia.

Enquanto o capitalismo subsistir, com suas contradições, suas crises e suas injustiças insuperáveis, haverá milhões de socialistas. A depressão econômica e social atualmente em curso, que agravou a miséria do Terceiro Mundo de modo desumano, estimula o desenvolvimento do socialismo em países como o Brasil. A recessão que se anuncia o estimulará do mesmo modo nas metrópoles imperialistas.

Quem pode acreditar que espíritos lúcidos e corações generosos não continuarão a se rebelar contra o fato de que todos os anos dezesseis milhões de crianças morrem de fome ou de doenças curáveis nos países do Terceiro Mundo? Isso mata tanta gente a cada cinco anos quanto durante toda a Segunda Guerra Mundial, incluindo Auschwitz e Hiroshima: a cada cinco anos uma guerra mundial contra as crianças...

Sem nenhuma dúvida, o desenvolvimento do movimento socialista e sobretudo de sua ala revolucionária é freado hoje pelo fato de que, após a falência do stalinismo e o fracasso do reformismo, as massas não vêem soluções alternativas globais ao capitalismo "democrático". Tendem então a lutar essencialmente por objetivos imediatos.

Mas ao fim e à medida que a camada de chumbo do stalinismo vai sendo levantada, novas forças importantes se formam no seio da classe operária internacional, não-controladas e incontroláveis pela burguesia por intermédio de aparelhos burocráticos. O PT brasileiro é hoje a força mais importante nesse sentido. Essas forças representam uma ameaça muito grave para a burguesia e para todas as forças conservadoras do mundo. Estas se tornam tão mais repressivas e autoritárias quanto as crises se agravam e a atividade dos trabalhadores se amplifica. Isso se aplica igualmente à atitude desses conservadores com relação às massas revoltadas nos países do Leste europeu. O diário conservador suíço Neue Zürcher Zeitung escreveu no seu número de 18/19 de novembro:

"Uma democracia (nos países da Europa oriental) implica o risco... de que haja mais e sempre resistência diante das reformas (econômicas) radicais demais... Regimes autoritários chegam mais facilmente a elas. Os 'ditadores benevolentes' se apresentariam como a única saída...".

E mesmo o dirigente da ala de língua francesa da social-democracia belga, Guy Spitaels, não hesita em afirmar:

"Nós (a Comunidade Européia) não devemos fazer nada que, por excesso de perestroika política, paralise a perestroika econômica. Não há lugar para um exagero nas formas de democracia que pudesse tornar inoperante o funcionamento da economia".

Mas, justamente, as massas revoltada na Europa oriental exigem o máximo de democracia. E isso significa que vivemos uma virada importante da história. Pela primeira vez desde a chegada do stalinismo, a democracia e a liberdade passam cada vez mais para o nosso lado, para o lado do socialismo. Isso nos tornará invencíveis.
Uma saída positiva para a crise política na República Democrática Alemã, na Tchecoslováquia, e mesmo amanhã na URSS, pela vitória do que chamamos no nosso livro sobre a perestroika "a revolução por baixo", modificaria de alto a baixo a situação mundial.

Desde que um poder popular democrático se instale na República Democrática Alemã e/ou na Tchecoslováquia, que a liberdade real de que as massas gozem seja fortemente superior à que têm nas democracias ocidentais, para não falar dos países do Terceiro Mundo, a situação mundial seria totalmente modificada. A principal objeção contra o socialismo desapareceria A combinação de liberdade (inclusive autodeterminação econômica) e socialismo tornaria este invencível aos olhos das amplas massas.

Eis por que o futuro da humanidade se joga hoje em grande medida na República Democrática Alemã e na Tchecoslováquia. Eis por que a luta das massas populares desses dois países para tornar sua sorte nas próprias mãos, para completar uma revolução política, não violenta, antiburocrática, merece nosso apoio e nossa solidariedade ativos e entusiasmados.

Compartilhe este texto:
Início da página
 
Visite o MIA no Facebook
 

Inclusão 11/03/2011
Última alteração 14/04/2014