Notícias da França

Friedrich Engels

15 de Junho de 1844


Escrito: na primeira metade de junho de 1844;

Primeira Edição: The Northern Star, nº 344, de 15 de junho de 1844, com a nota editorial “Do nosso correspondente”;
Fonte: Marx-Engels Collected Works, volume 3, p. 527.
Tradução: Rafael Duarte Oliveira Venancio, dezembro de 2008.
HTML: Fernando A. S. Araújo, dezembro 2008.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


Houve uma séria mobilização de mineiros em Rive de Jier, perto de Lyons, por salários e outras reclamações. Esse caso teve todos os mesmos itens de uma greve inglesa: passeatas com cartazes, encontros, assédio dos fura-greves, etc. A greve durou seis semanas, vários homens foram presos por conspiração, apenar de nenhuma séria perturbação da ordem ter, aparentemente, ocorrido. No final, é reportado que os homens voltaram aos seus postos de trabalho, apesar de que não é mencionado se o objetivo da greve foi cumprido.

Demonstração Republicana — A descrição a seguir sobre a mobilização das forças republicanas na ocasião do funeral do falecido Sr. Laffitte feita pela pena do correspondente do Weekly Dispatch será considerada interessante, já que demonstra a grande força dos republicanos em Paris e a certeza de uma rápida revolução naquele país.

“Apesar de nenhum distúrbio ter ocorrido no funeral do célebre Jacques Laffitte, no dia 30 do mês passado, o Partido Republicano, sem dúvida, fez uma demonstração poderosa de sua força. Cinco mil estudantes das escolas de direito e de medicina se reuniram para honrar o homem, cuja vida inteira (com uma exceção fatal) foi devotada para a causa da liberdade política. Por esse único erro — a saber, colocar a Coroa em Louis Philippe(1) – ele parcialmente buscou compensar na Câmara dos Deputados ao implorar perdão a Deus e ao homem pela desgraçada mazela na qual ele foi crucial para infligi-la à França e ao mundo civilizado. Os cinco mil estudantes, que o seguiram até a sua última morada, são todos espíritos republicanos convictos — todos buscando a liberdade política. Esse jovens de mente nobre, junto com os estudantes militares das Escolas Politécnicas, são a esperança da jovem França. Deixem que eles erradiquem de seus peitos a animosidade absurda contra a Inglaterra, que os levariam à guerra meramente para assentarem a questão da rivalidade nacional novamente; deixem que eles aprendam a respeitar os seus aliados insulares como um poder avançando com eles, de mãos dadas, na estrada da civilização; e esses jovens — a geração nascente da qual imprensa conservadora de ambas Nações busca desmerecer — irá um dia ser chamada para decidir os destinos da França. Na Revolução de 1830, os estudantes militares de 16 e 18 anos se tornaram generais do povo na luta mortal contra as tropas reais. Na ocasião da morte de Louis Philippe, os republicanos não terão dúvidas em proclamar seus princípios para serem os únicos adaptados à França e aos interesses franceses; e os jovens estudantes de Paris devem cooperar com o povo e guiá-lo na arena política, tão prontamente e fidedignamente quanto eles o lideraram à vitória catorze anos antes. Mas a demonstração da força republicana na ocasião do funeral do Sr. Laffitte não foi resumida aos estudantes de direito e de medicina. As Sociedades Secretas não são preguiçosas. Os membros dessas formidáveis combinações políticas se reuniram em números estrondosos. Eles eram, em sua maioria, respeitáveis comerciantes, mecânicos e artesãos e não são, de maneira alguma uma multidão de baixo caráter tal como o The Times e o Journal des Débats os representaram em diversas ocasiões. Eles formaram quatro colunas e marcharam imediatamente na frente dos estudantes. Uma terceira seção do Partido Republicano também seguiu Laffitte para o cemitério de Père La Chaise. Ela era composta por agentes, todos bem vestidos, respeitáveis em aparência e exemplares em comportamento. Os amigos da liberdade, então, se uniram em massa para essa ocasião. Dessa maneira, é absurdo para a imprensa conservadora negar que a força numérica e a influência moral do Partido Republicano Francês são imensas. Em seus quadros há algum dos mais exaltados nomes na França – nomes famosos nas esferas da guerra, da literatura, da arte, da ciência e da política — e aumentam sua força diariamente pela aquisição daqueles que são afastados da causa dos Orleans pela tirania do Rei e pela pregação dos princípios que estão de acordo com os novos interesses e desejos da civilização. O Partido Republicano é aquele que chama a atenção de todos quando algum acidente imprevisto ou ocorrência natural pertuba o reino da dinastia dos Orleans.”

A “Guerra Santa”. — O Imperador do Marrocos(2) declarou uma “guerra santa” contra a França e os franceses e está mobilizando várias pessoas e tribos dentro ou próximas de suas fronteiras para que se armem [em] defesa da fé única e pelo extermínio dos “Infiéis”. Abd-el-Kader, o “Wallace Africano”, é o líder dessa empreitada nacional para a derrubada e expulsão dos conquistadores franceses(3). As últimas notícias avisam que a vanguarda do Exército Mouro estava no campo de visão das Forças francesas.

Baseado nas notícias recebidas de Constantine, sabe-se que o Duque d'Aumale sofreu alguns reveses, que parecem terem sido o resultado de sua própria imprudência e falta de experiência. Tal como pode ser visto nos trechos abaixo, um pequeno corpo de tropas, deixado no comando de Biskra, foi surpreendido e morto; e as bagagens, munições e suprimentos levados pelos nativos.

Uma carta de Toulon do dia 3 afirma que:

“Nós recebemos as notícias mais chocantes da província de Constantine, datadas do dia 20 do mês passado. O Duque d'Aumale deixou em Biskra uma pequena guarnição, composta apenas por Tenente Petitgand – o comandante –, Sub-tenente Crochard, e Cirurgião-Auxiliar Major Arcelin, com quarenta homens, aproximadamente, do batalhão dos Fuzileiros de Constantine. Esse pequeno efetivo deveria formar o núcleo de um novo batalhão, a ser recrutado entre as tribos aos arredores de Biskra. De todos eles, só um sargento-major chamado Pelisse, escapou. Os novos recrutas abriram os portões de Casbah durante a noite para Mahommed Seghir, o Califa(4) de Aid-el-Kader, e seus seguidores, que surpreenderam nossos homens durante o sono e os mataram. Plunder se tornou general e 70 mil francos foram deixados com o comandante para pagar os homens e todos os canhões, mosquetes, munição e outros suprimentos levados. Esse caso desafortunado parece ter encorajado as tribos dos arredores a pegarem em armas. As notícias fatais chegaram ao Príncipe(5) quando estava nas montanhas de Ouled Sultan, ele marchou imediatamente para Biskra com uma coluna de 3 mil homens. Ele chegou no dia 18, mas o Califa saíra no dia anterior. O terceiro batalhão da Infantaria Leve Africana marchou de Constantine no dia 24t para Biskra, para formar sua guarnição.”

Na Sexta-feira, a Câmara dos Deputados aprovou, por uma maioria de 190 a 53, a soma de 7,5 milhões de francos para custear as despesas para aumentar as atuais forças militares francesas na Argélia (96 mil, que com o aumento de 15 mil a mais; aumentando assim os números de baionetas na Argélia para 111 mil).

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Notas:

(1) Nota 234 do volume 3 do MECW: Durante a Revolução de Julho de 1830, que causou a queda da dinastia Bourbon, Jacques Laffitte, representante dos círculos moderados liberais da burguesia financeira e membro da Cãmara, que assumiu o poder em Paris, ajudou a assegurar a acensão ao trono de Louis Philippe, o Duque de Orleans. (retornar ao texto)

(2) Nota do Tradutor: O rei em questão é Abd ur-Rahman II. (retornar ao texto)

(3) Nota 235 do volume 3 do MECW: A luta por liberdade dos argelinos liderada por Emir Abd-el-Kader contra os colonizadores franceses durou sem interrupções entre 1832 a 1847. Utilizando a sua superioridade militar, os franceses conquistaram as terras de Abd-el-Kader na Argélia Ocidental no período entre 1839 a 1844. No entanto, Abd-el-Kader continou a luta, utilizando de táticas de guerrilha e contando com a ajuda do Sultão do Marrocos. Quando o último foi derrotado na Guerra Franco-marroquina em 1844, Abd-el-Kader se escondeu nos oásis do Sahara. Um levante na Argélia Ocidental em 1845-47, que foi derrotada pelos colonizadores franceses, foi o último ato dessa luta. (retornar ao texto)

(4) Nota 236 do volume 3 do MECW: Califas: dirigentes locais nas terras de Abd-el-Kader, sujeitos ao Governo Central. (retornar ao texto)

(5) NT: O príncipe em questão é o próprio Duque d'Aumale. (retornar ao texto)

Inclusão 09/01/2009
Última alteração 16/09/2011