Perseguição de Estrangeiros em Bruxelas(1)

Karl Marx

12 de Março de 1848


Escrito: por volta de 10 de março de 1848;
Primeira Edição: La Réforme, 12 de março de 1848;
Fonte: Marx-Engels Collected Works, volume 6, p.567.
Tradução: Rafael Duarte Oliveira Venancio, novembro de 2008.
HTML: Fernando A. S. Araújo, novembro 2008.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


No domingo, dia 27 de fevereiro, a Associação Democrática de Bruxelas realizou sua primeira reunião pública desde a veiculação das notícias da proclamação da República Francesa. Era sabido antecipadamente que uma imensa multidão de trabalhadores, determinados a fornecer sua ajuda ativa em todas as medidas que a Associação julgaria apropriadas, estaria presente.

O governo alemão, por sua vez, espalhou o rumor que o Rei Leopold estava pronto para abdicar quando o povo quisesse. Isso era uma armadilha contra os democratas belgas para eles não resolverem nada de forma decisiva contra um rei tão bom, que não pedia nada mais do que um abrigo para o peso da realeza, já que ele deixaria honradamente uma pensão razoável.

Ao mesmo tempo, o governo real já tinha uma lista de pessoas consideradas propícias à prisão nessa mesma noite sob a acusação de perturbação da ordem pública. Foi acordado com o Sr. Hody, o chefe da segurança pública, para que ele enxergasse, nessa lista, os estrangeiros como os principais instigadores de uma rebelião artificial, assim como acobertar a prisão de belgas conhecidos como republicanos resolutos para levantar suscetibilidades nacionais. Isso explica porque, mais tarde, o Sr. Rogier, que tão belga quanto Sua Majestade Rei Leopold é francês, publicou um decreto que comanda as autoridades a vigiarem cuidadosamente os franceses e os alemães, os primeiros são compatriotas do Sr. Rogier e os últimos são compatriotas de Leopold. Esse decreto relembra, em sua escrita, as leis sobre os suspeitos.(2)

Esse plano astuto foi executado de maneira tão brutal e desleal que as pessoas presas na noite de 27 de fevereiro se abstiveram de qualquer provocação.

Deve-se dizer que houve prazer na prisão dessas pessoas a fim de maltratá-las e abusá-las por prazer.

Imediatamente após a prisão, eles foram submetidos a diversos socos, chutes e golpes de sabres; eles foram esbofeteados no rosto, esses republicanos. Eles foram maltratados na presença do filantropo Hody, que estava se deliciando ao dar a esses estrangeiros a prova de seu poder.

Já que não havia nenhuma acusação contra eles, só restava liberá-los. Mas não! Eles foram mantidos em celas por seis dias! Depois os prisioneiros estrangeiros foram separados do resto e levados diretamente em camburões para a estação ferroviária. Lá eles foram postos nos vagões, cada um em uma cela separada, e mandados para Quiévrain onde a polícia belga os recebeu e os levou para a fronteira francesa.

Quando, por fim, eles se encontraram em liberdade, descobriram que não tinham nada nos bolsos a não ser os papéis de extradição, datados da véspera da prisão. Um dos extraditados, Sr. Allard, é francês.

Ao mesmo tempo o governo do Pequeno Rei proclamou, na Câmara dos Representantes, que o “reino” belga, incluindo os dois Flandres como o melhor das possíveis “repúblicas”, possuía uma força policial modelo, dirigida por tal homem como o Sr. Hody, um velho republicano, filantropo e recém-leopoldista. A Câmara chorou de alegria, os jornais católicos e liberais estavam em êxtase sobre as virtudes domésticas do Rei Leopold e as virtudes públicas de seu servo Rogier.

O povo belga é republicano. Os únicos leopoldistas são a grande burguesia, a aristocracia agrária, os jesuítas, os oficiais e os franceses extraditados que, expulsos da França, se encontram no comando da administração belga e da imprensa.

Metternich está feliz em encontrar, oportunamente na fronteira francesa, um Coburg,(3) um inimigo nato da Revolução Francesa. Mas ele esquece que os Coburgs de hoje só têm valor nas questões de casamento.

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Notas:

(1) Nota 321 do volume 6 do MECW: Nesse artigo, Marx utilizou as notas que ele fez no começo de Março de 1848 acerca da prisão, maus tratos e explusão de Wilhelm Wolff pela polícia de Bruxelas (vol. 6 do MECW, p. 581). (retornar ao texto)

(2) Nota 322 do volume 6 do MECW: As Leis sobre os suspeitos – o decreto aprovado pela Convenção Francesa de 17 de setembro de 1793 e outras medidas do governo revolucionário jacobino que declaravam suspeitos e sujeitos à prisão todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, apoiaram a derrubada da monarquia, incluindo todos os antigos aristocratas e oficiais reais que não testemunharam sua lealdade à revolução. Essas leis foram concebidas de tal forma que até mesmo as pessoas não envolvidas em atividades contra-revolucionárias poderiam ser classificadas como “suspeitos”. (retornar ao texto)

(3) Nota do Tradutor: O termo Coburg é uma referência ao Príncipe Frederich Josias de Saschen-Coburg-Saalfeld, conhecido como Príncipe de Coburg. Ele foi um famoso general a serviço do Império Habsburgo que comandou as atividades militares contra a Revolução Francesa. Mais tarde, o nome Coburg se tornaria um signo da união da Europa contra a Revolução. (retornar ao texto)

Inclusão 11/12/2008