Vitória da Contra-Revolução em Viena

Karl Marx

7 de Novembro de 1848


Primeira Edição: Neue Rheinische Zeitung. Organ der Demokratie (Nova Gazeta Renana. Órgão da Democracia), nº 136
Fonte: PUC SP Revista Margem
Tradução: Artigo recolhido e traduzido por Lívia Contrim (e-mail: lcotrim @ aol . com). Leia o artigo da tradutora: A contra-revolução na Alemanha. Marx e a Nova Gazeta Renana
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Fernando A. S. Araújo.
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A liberdade e a ordem croata venceram e celebraram sua vitória com incêndios, violações, pilhagens, com atrocidades de uma infâmia inominável. Viena está nas mãos de Windischgratz, Jellachich e Auersperg.(1) Hecatombes de sacrifícios humanos que fariam virar em seu túmulo o velho traidor Latour.

Todas as mais sombrias previsões de nosso correspondente de Viena(2) se confirmaram, e talvez neste momento ele mesmo já tenha sido trucidado.

Por um momento esperamos a libertação de Viena do socorro húngaro, e os movimentos do exército húngaro ainda nos parecem enigmáticos.

Traições de todo tipo prepararam a queda de Viena. Toda a história do parlamento e do Conselho Municipal desde 6 de outubro não passa de uma contínua história de traição. Quem estava representada no parlamento e no Conselho Municipal?

A burguesia.

Uma parte da Guarda Nacional de Viena, logo no início da Revolução de Outubro, tomou abertamente o partido da camarilha. E no final da Revolução de Outubro encontramos outra parte da Guarda Nacional em luta contra o proletariado e a Legião Acadêmica,(3) em entendimento secreto com os bandidos do imperador. Quem pertence a esta fração da Guarda Nacional?

A burguesia.

Mas na França a burguesia passou para a ponta da contra-revolução depois de ter derrubado todos os obstáculos que se punham no caminho da dominação de sua própria classe. Na Alemanha ela se encontra rebaixada a caudatária da monarquia absoluta e do feudalismo, antes de ter ao menos garantido as condições vitais básicas de sua própria liberdade civil e dominação. Na França ela se apresentou como déspota e fez sua própria contra-revolução. Na Alemanha ela se apresentou como escrava e fez a contra-revolução de seus próprios déspotas. Na França ela venceu para humilhar o povo. Na Alemanha ela se humilhou para que o povo não vencesse. A história inteira não mostra outra miséria ignominiosa como a da burguesia alemã.

Quem fugiu de Viena aos bandos e abandonou à generosidade do povo a vigilância das riquezas deixadas para trás, para caluniar seu serviço de guarda durante a fuga e no regresso assistir a seu massacre?

A burguesia.

Os segredos íntimos de quem manifestava o termômetro que descia a cada sopro de vida do povo de Viena e subia a cada estertor de morte dele?

Quem falou na língua rúnica da cotação da bolsa?

A burguesia.

A "Assembléia Nacional alemã" e seu "poder central" traíram Viena. Quem eles representavam?

Sobretudo a burguesia.

A vitória da "ordem e liberdade croata" em Viena estava condicionada pela vitória da república "honesta" em Paris. Quem venceu nas jornadas de junho?

A burguesia.

Com a vitória em Paris, a contra-revolução européia começou a comemorar sua orgia.

Nas jornadas de fevereiro e março o poder armado fracassou por toda parte. Por quê? Porque ele não representava nada além do próprio governo. Depois das jornadas de junho ele venceu por toda parte, porque por toda parte a burguesia se entendera secretamente com ele, enquanto, por outro lado, tinha em suas mãos a direção oficial do movimento revolucionário e tomou todas aquelas meias medidas cujo fruto natural é o aborto.

O fanatismo nacional dos tchecos foi a ferramenta mais poderosa da camarilha vienense. Os aliados já se desentenderam. Nossos leitores encontrarão neste número o protesto da deputação de Praga contra a impertinência vil com a qual foi saudada em Olmütz.

Este é o primeiro sintoma da guerra que começará entre o partido eslavo e seu herói Jellachich e o partido da simples camarilha, posta acima de toda nacionalidade, e seu herói Windischgratz. Por seu lado, o camponês alemão na Áustria ainda não está pacificado. Sua voz será atravessada estridentemente pela assuada nacional austríaca. E por um terceiro lado, a amável voz do czar será ouvida até em Pest; seus carrascos aguardam a palavra decisiva no principado do Danúbio.

Finalmente, só a última resolução da Assembléia Nacional alemã em Frankfurt, que incorpora a Áustria alemã ao reino alemão, devia levar a um enorme conflito, se o poder central alemão e a Assembléia Nacional alemã não acreditassem ter cumprido sua tarefa ao entrar no palco para serem vaiados pelo público europeu. Apesar de sua resignação religiosa, a luta na Áustria assumirá dimensões gigantescas, como a história mundial ainda não viu.

Agora mesmo foi representado em Viena o segundo ato do drama, cujo primeiro ato foi representado em Paris sob o título: "As Jornadas de Junho". Em Paris mobilizados, em Viena "croatas" — em ambos lazzaronis, o lumpem-proletariado armado e comprado contra o proletariado trabalhador e pensante. Em Berlim presenciaremos em breve o terceiro ato.

Posto que a contra-revolução viveu em toda a Europa pelas armas, ela morreria em toda a Europa pelo dinheiro. O fato que cassaria a vitória seria a bancarrota européia, a bancarrota do Estado. Nos escolhos "econômicos" as pontas das baionetas quebram-se como pavio macio.

Mas o desenvolvimento não espera o dia do vencimento da letra de câmbio que os Estados europeus sacaram contra a sociedade européia. Em Paris o contragolpe que aniquilou a revolução de junho será vencido. Com a vitória da "república vermelha" em Paris os exércitos serão lançados do interior dos países sobre as fronteiras, e o poder real dos partidos em luta se revelará claramente. Então nos lembraremos de junho, de outubro, e também nós clamaremos:

Vae victis!(4)

A carnificina inútil desde as jornadas de junho e outubro, a enfadonha festa de sacrifício desde fevereiro e março, o canibalismo da própria contra-revolução convencerão o povo de que só há um meio para encurtar, simplificar, concentrar as terríveis dores da agonia da velha sociedade e as sangrentas dores do nascimento da nova sociedade, só um meio — o terrorismo revolucionário.


Notas de rodapé:

(1) Windischgratz, Alfred, príncipe de (17871862): marechal-de-campo austríaco, em 1848-49 foi um dos líderes da contra-revolução na Áustria; em 1848 dirigiu a repressão às insurreições de junho em Praga e de outubro em Viena; depois esteve à cabeça do exército austríaco que combateu contra a revolução húngara. Jellachich, Josip, conde de Buzim (1801-1859): general austríaco, tomou parte ativa na repressão às revoluções de 1848-49 na Áustria e na Hungria. Auersperg, Karl, conde de (1793-1859): general austríaco, em 1848 foi comandante da guarnição de Viena, participou ativamente na repressão da insurreição de outubro. (retornar ao texto)

(2) Muller-Tellering. (retornar ao texto)

(3) A Legião Acadêmica era constituída de estudantes universitários e era a mais radical das organizações militares burguesas. (retornar ao texto)

(4) Ai dos vencidos! - Grito de Brennus antes da tomada e destruição de Roma pelos gauleses (390 a.C.). (retornar ao texto)

Inclusão 09/11/2014