Espiões Prussianos em Londres

Karl Marx, Friedrich Engels e August Willich

14 de Junho de 1850


Primeira Edição: The Spectator, 14 de junho de 1850;
Fonte: Marx-Engels Collected Works, volume 10, p.381.
Tradução: Rafael Duarte Oliveira Venancio, dezembro de 2008.
HTML: Fernando A. S. Araújo, dezembro 2008.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


Senhor,

Já por algum tempo, nós, os refugiados alemães, aqui abaixo-assinados, residentes nesse país, temos a oportunidade de admirar a atenção a nós dispensada pelo Governo Britânico. Nós estamos acostumados a encontrar, de tempos em tempos, algum empregado obscuro do Embaixador prussiano, não “registrado tal como manda a lei”; nós estamos acostumados às ferozes declarações e às propostas radicais de tais agents provocateurs e nós sabemos como tratá-los. O que nós admiramos não é a atenção dada a nós pela Embaixada Prussiana – nós temos orgulho de merecê-la – mas sim a entente cordiale que parece estar estabelecida, até onde sabemos, entre espiões prussianos e informantes ingleses.

Realmente, Senhor, nós nunca tínhamos pensado que existia nesse país tantos  espiões policiais quantos nós tivemos boa fortuna de ter tomado conhecimento nesse curto espaço de uma semana. Não só as portas das nossas casas foram vigiadas de perto por indivíduos muito mais do que duvidosos, que tomavam notas friamente todas as vezes que alguém entrava ou saía da casa; nós não podemos dar um único passo sem sermos seguidos por eles em qualquer lugar que vamos. Nós não podemos entrar em um ônibus ou em uma cafeteria sem sermos agraciados pela companhia de pelo menos um desses amigos desconhecidos. Nós não sabemos se os cavalheiros que estão nessa grata ocupação estão totalmente “sob o serviço de Sua Majestade”; mas nós sabemos que a maioria deles aparenta tudo menos serem limpos e respeitáveis.

Agora, qual é a utilidade, para qualquer um, dessa escassa informação raspada de nossas portas por um bando de espiões miseráveis, gigolôs de baixo escalão, que parecem terem sido retirados da classe de informantes comuns e pagos por trabalho? Será que essa informação seria de tanto valor para sacrificar a velha ordem dos ingleses de que em seu país não há chance de introduzir um sistema espional do qual nenhum país da Europa Continental é livre?

Além disso, nós sempre estivemos, e ainda estamos, dispostos a dar qualquer informação a nosso respeito se o Governo desejar, desde que ela esteja em nosso poder.

Nós sabemos, no entanto, muito bem o que está no fundo de tudo isso. O Governo Prussiano aproveitou o último atentado à vida de Frederick William IV para iniciar uma outra campanha contra os seus inimigos políticos dentro e fora da Prússia. E graças a um notório louco que disparou contra o Rei da Prússia, o Governo Inglês está prestes a ser induzido a utilizar a Alien Bill [Lei dos Estrangeiros] contra nós; além disso, estamos preocupados em saber como nossa presença em Londres pode entrar em confronto com a “preservação da paz e da tranqüilidade desse reino”.

Há oito anos, quando nós, na Prússia, atacamos o sistema vigente de governo, os funcionários oficiais e a imprensa perguntaram porque, se esses cavalheiros não gostam do sistema prussiano, eles não tomavam a liberdade de sair do país. Nós saímos do país e nós sabemos o porquê. Mas, após deixá-la, nós encontramos a Prússia em todo lugar; na França, na Bélgica, na Suíça, nós sentimos a influência do Embaixador prussiano. Se, graças à sua influência, nós formos obrigados a sair do último refúgio que nos restou na Europa, por que, então, a Prússia se enxergará como o poder dominante do mundo.

A Inglaterra sempre foi o único obstáculo no caminho da Sagrada Aliança, agora reconstruída sob a proteção da Rússia; e a Sagrada Aliança, da qual a Prússia faz parte, não busca nada mais que encurralar a Inglaterra anti-russa em uma política interna mais ou menos pró-Rússia O que, então, a Europa pensaria das últimas notas diplomáticas e asserções parlamentares do Governo Britânico, se comentadas à luz do uso da Alien Bill para saciar as instâncias vingativas de governos reacionários estrangeiros?

O Governo Prussiano declara que o tiro contra o seu Rei é o resultado de uma ampla conspiração revolucionária com o centro em Londres. De acordo com isso, eles, primeiramente, destroem a liberdade de imprensa em casa e, depois, exigem, que o Governo Inglês remova de seu território os supostos chefes da suposta conspiração.

Considerando o caráter e as qualidades pessoais do atual Rei da Prússia e de seu irmão, herdeiro ao trono, que partido teria o maior interesse na rápida ascensão do último: o Partido revolucionário ou os ultra-realistas?

Permita-nos afirmar que, às portas do atentado em Berlim, pessoas, que temos todos os motivos para considerá-los como agentes do Governo Prussiano ou dos ultra-realistas, se apresentaram a nós e quase diretamente nos engajaram a entrar nas conspirações para organizar o regicídio em Berlim ou qualquer outro lugar. Nós não precisamos acrescentar que essas pessoas não conseguiram nos aliciar.

Permita-nos afirmar que, depois do atentado, outras pessoas de caráter similar tentaram se impor perante nós e falavam de maneira similar.

Permita-nos afirmar que Sefeloge, o sargento que atirou no Rei não era um revolucionário, mas sim um ultra-realista. Ele pertencia à seção nº 2 da sociedade ultra-realista, a Treubund. Ele é registrado sob o número 133 da lista de membros. Ele foi sustentado por um tempo com o dinheiro dessa sociedade, seus documentos foram deixados na casa de um Major ultra-realista empregado no Escritório da Guerra.

Se esse caso for a julgamento aberto, algo que duvidamos, o público verá claramente que houve instigadores no atentado e quem eles são.

O ultra-realista Neue Preussische Zeitung foi o primeiro a denunciar os refugiados em Londres como os reais autores do atentado. Ele até nomeou um dos aqui abaixo-assinados, de quem o jornal já havia afirmado que estaria em Berlim na véspera, enquanto, tal como dúzias de testemunhas podem provar, ele nunca, nem por um momento, deixou Londres. Nós escrevemos para o Sr. Bunsen, o Embaixador prussiano, pedindo que ele nos informasse os números em questão naquele jornal. A atenção dedicada a nós por aquele cavalheiro não foi tão longe para fazê-lo cumprir o que nós esperávamos da courtoisie de um cavalheiro.

Nós acreditamos, Senhor, que sob essas circunstâncias, nós não podemos fazer nada mais do que trazer o caso inteiro a público. Nós acreditamos que os ingleses estão interessados em tudo que possa afetar mais ou menos a reputação de longa data da Inglaterra enquanto asilo mais seguro para refugiados de todos os partidos e de todos os países.

Cordiais saudações,
Karl Marx, Friedrich Engels - Editores do Neue Rheinische Zeitung de Colônia
August Willich - Coronel no Exército Insurgente em Baden
64 Dean Street, Soho Square, 14 de junho de 1850

Compartilhe este texto:
Início da página
 
Visite o MIA no Facebook
 

Abriu o arquivo 15/12/2008