A Guerra Contra a Pérsia

Karl Marx

27 Janeiro 1857


Escrito: Janeiro de 1857
Primeira Edição:  Artigo publicado no New Tork Daily Tribune em 27 de Janeiro de 1857.
Fonte: amavelmente cedido por  GeoEconomia.
Tradução: Jason Borba.
HTML de  José Braz para o Marxist Internet Archive.


Para compreender as razões políticas e o objeto da guerra recentemente empreendida pelos britânicos contra a Pérsia, e que, segundo as notícias recentes, foi tão energicamente conduzida para reduzir o Xá à submissão, é necessário assumir uma visão retrospectiva dos affairs persas. A dinastia persa, fundada em 1502 por Ismael, que se proclamou descendente dos reis da Pérsia, após haver mantido durante mais de dois séculos o poder e a dignidade de um grande estado, havia sofrido, por volta de 1720, uma rude derrota para a rebelião dos afegãos, habitantes de suas províncias orientais. A Pérsia ocidental foi invadida por eles e dois príncipes afegãos conseguiram manter-se alguns anos no trono persa. Eles foram, no entanto, expulsos pelo famoso Nadir, agindo de início na qualidade de general do pretendente persa. Tendo tomado ele mesmo a coroa, derrotou os afegãos rebelados e, com sua famosa invasão da Índia, contribuiu em muito para a desorganização do Império Mongol, já em seu declínio, o que abriu a via aos progressos da dominação britânica na Índia.

Na Pérsia, em meio à anarquia que se seguiu à morte do Xá Nadir, assumiu o poder, sob o governo de Ahmed Dourrani, um estado afegão independente, compreendendo os principados de Hérat, Cabul, Kandahar, Peshawar e o conjunto de territórios tomados mais tarde pelos Sikhs. Este reino, apenas superficialmente alicerçado, ruiu após a morte de seu fundador e se encontra desmembrado em suas partes constituintes, as tribos afegãs independentes, com seus próprios chefes, divididos por intermináveis inimizades, unindo-se excepcionalmente sob a ameaça de uma colisão com a Pérsia. Este antagonismo político entre afegãos e persas, baseado em diferenças tribais às quais adicionam-se reminiscências históricas, mantido vivo por querelas de fronteira e pretensões rivais, é igualmente consagrado, por assim dizer, pelo antagonismo religioso, os afegãos sendo sunitas, isto é muçulmanos ortodoxos, enquanto a Pérsia constitui a citadela dos chiitas heréticos.

A despeito desse antagonismo intenso e universal, existia um ponto de contato entre persas e afegãos - sua hostilidade comum contra a Rússia. A Rússia invadiu a Pérsia pela primeira vez sob Pedro o Grande, mas sem grande vantagem. Alexandre I, mais afortunado, pelo tratado de Gulistan privou a Pérsia de doze províncias, a maior parte ao sul do Cáucaso. Nicolau, pela guerra de 1826-1827, que chegou a o fim pelo tratado de Tourkmantchai, expropriou a Pérsia de vários outros distritos e proibiu-lhe a navegação ao largo de suas próprias costas do Mar Cáspio. A memória das expoliações passadas, as restrições presentes que ela tem que sofrer e o temor de novas restrições, são incitações que concorrem para por a Pérsia em oposição mortal à Rússia. Os afegãos, por seu lado, se bem que não estando jamais implicados em verdadeiros conflitos com a Rússia, estão habituados a considerá-la como o inimigo eterno de sua religião e um gigante pronto a engolir a Ásia. Vendo na Rússia seu inimigo hereditário, persas e afegãos foram levados a considerar a Inglaterra como seu aliado natural. Assim, para manter sua supremacia, a Inglaterra só teria que desempenhar a função do mediador benévolo entre a Pérsia e o Afganistão e mostrar-se o adversário resoluto das restrições russas. Uma demonstração de amizade de uma parte e uma firme resolução de resistência de outra: não era necessário mais nada.

Não se pode dizer, no entanto, que as vantagens dessa posição foram utilizadas de modo tão eficaz. Em 1834, quando tratava-se da escolha de um herdeiro do Xá da Pérsia, os ingleses foram induzidos a cooperar em favor do príncipe proposto pela Rússia e, no ano seguinte, a ajudar esse príncipe com o dinheiro e a assistência ativa de oficiais britânicos, a sustentar suas pretensões contra seu rival. Os embaixadores ingleses enviados à Pérsia foram encarregados de por em guarda o governo persa para não se deixar levar a um engajamento contra os afegãos, uma guerra que não poderia ter outro resultado que dissipar seus recursos; mas quando estes embaixadores requisitaram seriamente os poderes para prevenir a ameaça de uma tal guerra, foram lembrados pelo seu ministério, na metrópole, de um artigo do velho tratado de 1814, em virtude do qual em caso de guerra entre a Pérsia e o Afganistão, os ingleses não deveriam intervir, a menos que sua mediação fosse solicitada. A idéia dos enviados e das autoridades britânicas na Índia era que essa guerra era maquinada pela Rússia, desejosa de tirar proveito com a expanção persa para o leste como meio de abrir uma rota pela qual um exército russo poderia, algum dia, entrar na Índia. Essas considerações, totavia, pareciam não ter causado prontamente qualquer impressão, ou talvez muito pouca, em lorde Palmerston então à testa do Departamento dos Negócios Estrangeiros, quando em setembro de 1837 um exército persa invadiu o Afganistão. Alguns pequenos sucessos o conduziram até Herat, diante da qual acampou e começou o sítio sob a direção pessoal do conde Simonitch, embaixador russo na corte persa. No curso das operações de guerra, McNeil, o embaixador britânico, se encontrava paralisado por instruções contraditórias. De uma parte, lorde Palmerston lhe impunha"abster-se de fazer das relações da Pérsia com Herat um assunto de discussão" conquanto alí a Inglaterra nada tinha a dizer. De outra parte, lorde Auckland, o governador geral da Índia, queria que ele dissuadisse o Xá de prosseguir suas operações. Bem no início das hostilidades M. Ellis tinha convocado os oficiais britânicos que serviam no exército persa, mas Palmerston os havia reintegrado. Quando o governador geral indiano reiterava suas instruções a McNeil para retirar os oficiais britânicos, Parmeston de novo revertia essa decisão. Em 8 de março de 1838, McNeil rendeu-se ao campo persa e ofereceu sua mediação não em nome da Inglaterra, mas no da Índia.

Em fins de maio de 1838, após quase nove meses de sítio, Palmerston enviou um despacho ameaçador à corte persa, fazendo pela primeira vez do caso de Herat objeto de protesto e pela primeira vez fazendo violenta queixa das"conexões da Pérsia com a Rússia". Simultaneamente, o governador indiano ordenou uma expedição naval punitiva para o Golfo Pérsico e para conquista da ilha de Karak - a mesma que foi recentemente ocupada pelos ingleses. Em uma época mais recente, o enviado britânico deixou Teerã por Erzeroum, e o embaixador persa enviado à Inglaterra teve recusadas suas credenciais por este país. Nesse ínterim, a despeito de um bloqueio muito prolongado, Herat resistiu, os assaltos persas tinham sido repelidos e, em 15 de agosto de 1838, o Xá foi forçado a levantar o sítio e a se retirar em marcha forçada do Afganistão. Com isso, poderia se supor que as operações dos ingleses poderiam ter um fim, mas longe disso, as coisas tomaram um curso extraordinário. Não contentes de rechaçar as tentativas da Pérsia, feitas, como se alegava, por instigação e no interesse da Rússia que desejava conquistar uma parte do Afganistão, os ingleses resolveram ocupar, por si mesmos, a totalidade deste país. Donde a famosa guerra afegã cujo resultado final foi tão desastroso para os ingleses e cuja responsabilidade real permanece totalmente misteriosa.

A presente guerra contra a Pérsia foi motivada por eventos muito parecidos aos que precederam a guerra afegã, isto é um ataque contra Herat pelos Persas, que desta vez teve por resultado a conquista dessa cidade. Uma circunstância marcante, todavia, é que os ingleses agem no presente como aliados e defensores desse mesmo Dost Mohammed, que eles sem sucesso tinham se esforçado para destronar no curso do conflito afegão... Resta ver se esta guerra terá consequências tão extraordinárias e inesperadas como precedente. 

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Inclusão 21/07/2003
Última alteração 16/09/2011