Carta a Friedrich Bolte
(em Nova Iorque)

Karl Marx

23 de Novembro de 1871

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Primeira Edição: Publicado pela primeira vez de forma abreviada no livro Briefe und Auszüge aus Briefen von Joh. Phil. Becker, JOs. Dietzgen, Friedrich Engels, Karl Marx und A. an F. A. Sorge und Andere, Stuttgart, 1906; de forma completa, em russo, nas Obras de K. Marx e F. Engels, 1ª edição, t. XXVI, 1935. Publicado segundo o manuscrito. Traduzido do alemão.
Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!" - Edição dirigida por um colectivo composto por: José BARATA-MOURA, Eduardo CHITAS, Francisco MELO e Álvaro PINA, tomo II, pág: 459-461.
Tradução: José BARATA-MOURA e João Pedro GOMES.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.


capa

[Londres,] 23 de Novembro de 1871

... A Internacional foi fundada para pôr no lugar das seitas socialistas ou semi-socialistas a organização real da classe operária para a luta. Os Estatutos originais, bem como a «Mensagem Inaugural» mostram isto à primeira vista. Por outro lado, a Internacional não teria podido afirmar-se se a marcha da história não tivesse já destruído o sistema de seitas. O desenvolvimento do sistema de seitas socialista e o desenvolvimento do movimento operário real estão sempre na relação inversa. Enquanto as seitas se justificarem (historicamente), a classe operária está ainda imatura para um movimento histórico autónomo. Logo que ela atingir essa maturidade, todas as seitas serão essencialmente reaccionárias. Entretanto, repetiu-se na história da Internacional aquilo que a história mostra em toda a parte. O antiquado procura reproduzir-se e afirmar-se no interior da forma recém-alcançada.

E a história da Internacional foi uma luta contínua do Conselho Geral contra as seitas e as tentativas de amadores que procuravam afirmar-se contra o movimento real da classe operária no interior da própria Internacional. Essa luta foi conduzida nos congressos, mas muito mais ainda nas negociações privadas do Conselho Geral com cada uma das secções.

Como em Paris os proudhonianos (mutualistas[N308]) foram co-fundadores da Associação, orientaram naturalmente, durante os primeiros anos, o leme para Paris. Em oposição a eles formaram-se aí mais tarde, naturalmente, grupos colectivistas, positivistas, etc.

Na Alemanha — a clique de Lassalle. Eu próprio me correspondi durante dois anos com o famoso Schweitzer e demonstrei-lhe irrefutavelmente que a organização de Lassalle é uma mera organização sectária e, como tal, inimiga da organização do movimento operário real procurada pela Internacional. Ele tinha a sua «tinha» para não compreender.

Em finais de 1868, o russo Bakúnine entrou para a Internacional com o fim de, dentro dela, formar uma segunda Internacional, com ele como chefe, sob o nome de «Alliance de la Démocratie Socialiste». Ele — um homem sem qualquer saber teórico — pretendeu representar nesse corpo separado a propaganda científica da Internacional e fazer da mesma a missão especial dessa segunda Internacional dentro da Internacional.

O seu programa era uma misturada, apanhada superficialmente à direita e à esquerda — igualdade das classes (!), abolição do direito de herança como ponto de partida do movimento social (disparate saintsimonista), ateísmo de antemão ditado como dogma aos membros, etc, e, como dogma principal, abstenção (proudhonista) do movimento político.

Esta fábula infantil encontrou eco (e tem ainda um certo apoio) em Itália e Espanha, onde as condições reais do movimento operário estão ainda pouco desenvolvidas, e entre alguns doutrinários fúteis, ambiciosos e ocos na Suíça romanda e na Bélgica.

Para o senhor Bakúnine, a doutrina (coalho esmolado a Proudhon, Saint-Simon, etc.) foi e é coisa secundária — simples meio para se fazer valer pessoalmente. Se zero teoricamente, como intriguista está no seu elemento.

O Conselho Geral teve de lutar durante anos contra essa conjura (apoiada até certo ponto pelos proudhonianos franceses, especialmente no Sul da França). Finalmente, desferiu, por meio das resoluções I, 2 e 3, IX e XYI e XVII da Conferência o golpe há muito preparado[N309].

É evidente que o Conselho Geral não apoia na América aquilo que combate na Europa. As resoluções I, 2, 3 e IX dão agora ao Comité de Nova Iorque as armas legais para pôr fim a todo o sistema de seitas e grupos de amadores e, se necessário, para expulsá-los...

... O politicai movement(1) da classe operária tem naturalmente como fim último a conquista do politicai power(2) para si, e para isso é naturalmente necessária uma previous organisation da working class(3) com um certo grau de desenvolvimento e resultante das suas próprias lutas económicas.

Mas, por outro lado, todo o movimento em que a classe operária enfrenta como classe as classes dominantes e tenta obrigá-las por meio de uma pressure from without(4) é um politicai movement, A tentativa, p. ex., de impor aos capitalistas isolados uma redução do tempo de trabalho numa só fábrica ou num dado ramo industrial por meio de strikes,(5) etc, é um movimento puramente económico; em contrapartida, o movimento para impor uma lei das oito horas, etc, é um movimento político. E deste modo surge em toda a parte, a partir dos movimentos económicos isolados dos operários, um movimento político, i. e., um movimento da classe, para impor os seus interesses de uma forma geral, de uma forma que possua força geral, socialmente coactiva. Se estes movimentos supõem uma certa organização previous, eles são na mesma medida, por seu lado, meio do desenvolvimento dessa organização.

Onde a classe operária ainda não está suficientemente avançada na sua organização para empreender uma campanha decisiva contra a violência colectiva, i. e., a violência política das classes dominantes, ela tem, de qualquer modo, de ser ensinada por meio de agitação permanente (e posição hostil) contra a política das classes dominantes. Caso contrário, a classe operária continuará a ser uma bola de jogar nas suas mãos, como a revolução de Setembro em França[N310] demonstrou e como até certo ponto está a demonstrar o jogo que o senhor Gladstone e C.a conseguem fazer com êxito até hoje em Inglaterra.

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Notas de rodapé:

(1) Em inglês no texto: movimento político. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(2) Em inglês no texto: poder político. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(3) Em inglês no texto: organização prévia da classe operária. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(4) Em inglês no texto: pressão de fora. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(5) Em inglês no texto: greves. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N308] Mutualistas: assim se designavam a si próprios nos anos 60 do século XIX os proudhonistas, que apresentavam o plano reformista pequeno-burguês de libertação dos trabalhadores por meio da organização da ajuda mútua (criação de cooperativas, de sociedades de socorros mútuos, etc). (retornar ao texto)

[N309] Referência às seguintes resoluções da Conferência de Londres de 1871: «Sobre as designações de conselhos nacionais, etc.» (resolução II, pontos 1, 2, 3), «Sobre a acção política da classe operária» (resolução IX), «Sobre a Aliança da Democracia Socialista» (resolução XVI) e «Sobre a cisão na Suíça romanda» (resolução XVII). (retornar ao texto)

[N310] Em A de Setembro de 1870 em Paris, depois de recebida a notícia da derrota do exército francês em Sedan, teve lugar uma acção revolucionária das massas populares que conduziu à queda do regime do Segundo Império e à proclamação da república. Contudo, no governo provisório então formado entraram, além de republicanos moderados, também monárquicos. Este governo, encabeçado pelo governador militar de Paris, Trochu, e por Thiers, o seu verdadeiro inspirador, tomou, reflectindo as tendências capitulacionistas dos círculos burgueses e latifundiários da França e o seu medo das massas populares, a via da traição nacional e do entendimento com o inimigo externo. (retornar ao texto)

Inclusão 03/12/2010