Carta a Pietr Lavrovitch Lavrov
(em Londres)

Friedrich Engels

12-17 de Novembro de 1875

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Primeira Edição: Publicado pela primeira vez em russo, na revista Letopisi Marxisma, livro V, 1928. Traduzido do alemão, do francês e do russo. Publicado segundo o texto do manuscrito.
Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!" - Edição dirigida por um colectivo composto por: José BARATA-MOURA, Eduardo CHITAS, Francisco MELO e Álvaro PINA, tomo III, pág: 534-538.
Tradução: José BARATA-MOURA.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.


Londres, 12 [-17] de Nov[embro] de 1875
Meu caro senhor Lavrov,

capa

Finalmente, de regresso de uma viagem à Alemanha(1*), chego ao seu artigo[N292] , que acabo de ler com muito interesse. Eis as minhas observações relativas a ele, redigidas em alemão, o que me permiti-rá ser mais conciso(2*).

1. Da doutrina de Darwin, aceito a teoria do desenvolvimento [Entwicklungstheorie], tomo, porém, o método de prova [Beweismethode] de D[arwin] (struggle for life, natural selection(3*)) apenas como expressão primeira, provisória, imperfeita, de um facto recentemente descoberto. Até Darwin, precisamente a gente que agora só vê por toda a parte luta pela existência [Kampf ums Dasein] (Vogt, Büchner, Moleschott e outros) acentuava, precisamente, a co-operação [Zusammenwirken] da Natureza orgânica, como o reino vegetal fornece oxigénio e alimento ao reino animal e inversamente o reino animal [fornece] às plantas ácido carbónico e adubo, como foi, nomeadamente, salientado por Liebig. Ambas as concepções têm uma certa justificação dentro de certos limites, mas uma é tão unilateral e estreita [borniert] como a outra. A acção recíproca dos corpos da Natureza — tanto mortos como vivos — encerra tanto harmonia como colisão, luta como co-operação. Quando, portanto, um pretenso naturalista se permite subsumir toda a variada riqueza do desenvolvimento histórico na frase, unilateral e magra: «luta pela existência», uma frase que, mesmo no domínio da Natureza, só pode ser aceite cum grano salis (4*), este comportamento condena-se já a si próprio.

2. Dos três ubèzdennyie Darwinisty [darwinistas convencidos](5*) referidos, parece que só Hellwald merece menção. Seidlitz, no melhor dos casos, é apenas um pequeno luminar e Robert Byr um romancista de quem, neste momento, em Uber Land und Meer[N293] , saiu um romance: Drei Mal [Três Vezes]. Lá todas as suas fanfarronices assentam bem.

3. Sem contestar as vantagens do método de ataque de V., a que eu chamaria psicológico, teria escolhido outro. Cada um de nós é mais ou menos influenciado pelo meio intelectual em que de preferência se movimenta. Para a Rússia, onde V. conhece o seu público melhor do que eu, e para uma revista propagandista, que se dirige ao sviazujuscij affekt [sentimento que une](6*), ao sentimento moral, o método de V. é verosimilmente o melhor. Para a Alemanha, onde a falsa sentimentalidade tem provocado e ainda provoca prejuízos tão inauditos, ele não serviria, seria mal entendido, seria torcido num sentido sentimental. Na nossa terra, é antes preciso ódio do que amor — pelo menos, primeiro — e, antes de todas as coisas, [é preciso] desembaraçar-se dos últimos restos do idealismo alemão, estabelecer os factos materiais no seu direito histórico. Eu atacaria, portanto, estes darwinistas burgueses — e fá-lo-ei talvez a seu tempo — mais ou menos da seguinte maneira:

Toda a doutrina darwinista da luta pela existência é simplesmente a transposição da sociedade para a Natureza viva da doutrina de Hobbes do bellum omnium contra omnes(7*) e da [doutrina] económica burguesa da concorrência, juntamente com a teoria da população de Malthus. Depois de se ter aprontado este passe [de mágica] (cuja justificação incondicionada, particularmente no que toca à teoria de Malthus, eu contesto, como indicado sub(8*) 1), retrotranspõe-se as mesmas teorias, da Natureza orgânica outra vez para a história, e afirma-se, então, que se demonstrou a sua validade como leis eternas da sociedade humana. A infantilidade deste procedimento salta aos olhos, não é preciso gastar palavras com isso. Se, porém, quisesse entrar mais de perto nisso, faria de modo que, em primeira linha, os apresentasse como maus economistas e só em segunda linha como maus naturalistas e filósofos.

4. A diferença essencial da sociedade humana relativamente à sociedade animal é que os animais, no máximo, recolhem [sammeln], enquanto os homens produzem. Esta única, mas capital diferença, só ela, torna impossível transpor sem mais leis das sociedades animais para a [sociedade] humana. Torna possível que, como V. correctamente observa,

«celovêk vel borjbu ne toljko za suscestvovanie, no za naslazdenie i za uvelicenie svojich naslazdenij... gotov byl dlja vyssago naslazdenija otrecsja ot nissich» [o homem não lute só pela existência, mas, além disso, pelo prazer, e pelo aumento dos prazeres... esteja disposto a renunciar aos prazeres inferiores em benefício do superior»(9*)].

Sem contestar as ulteriores consequências que V. [tira] daqui, a partir das minhas premissas, eu concluiria da seguinte maneira: A produção dos homens atinge, portanto, num certo estádio, um nível tal que são produzidas, não só necessidades indispensáveis [notwendige Bedürfnisse], mas também prazeres de luxo, ainda que primeiro só para uma minoria. A luta pela existência — se quisermos, por um instante, fazer valer aqui essa categoria — transforma-se, portanto, numa luta por prazeres [Kampf um Genüsse], por meios não mais simplesmente de existência [Existenz], mas por meios de desenvolvimento [Entwicklungsmittel], [por] meios de desenvolvimento socialmente produzidos, e, para este estádio, as categorias [tiradas] do reino animal não mais são aplicáveis. Se, porém, como agora acontece, a produção, na sua forma capitalista, produz uma quantidade de meios de existência e de desenvolvimento de longe maior do que aquela que a sociedade capitalista pode consumir, porque mantém a grande massa dos produtores reais artificialmente afastada desses meios de existência e de desenvolvimento; se essa sociedade é obrigada pela sua própria lei de vida [Lebensgesetz] a aumentar continuamente essa produção, já grande demais para ela, e, portanto, periodicamente, todos os dez anos, chega ao ponto de destruir, não apenas uma massa de produtos, mas mesmo de forças produtivas — que sentido tem ainda a conversa da «luta pela existência»? A luta pela existência só pode, então, consistir ainda em que a classe produtora tire a direcção da produção e da repartição à classe até aqui incumbida disso, mas que agora se tornou incapaz [de o fazer] — e isto é, precisamente, a revolução socialista.

Observe-se de passagem que já a simples consideração da história até aqui como uma série de lutas de classes é suficiente para fazer aparecer em toda a sua superficialidade a concepção dessa mesma história como uma exposição com fracas variações da «luta pela existência». Eu nunca daria, portanto, esse prazer a esses falsos naturalistas.

5. Pelas mesmas razões, eu teria, em conformidade, formulado de outra maneira esta proposição de V., inteiramente correcta em substância [der Sache nach]:

«cto ideja solidarnosti dlja oblegcenija borjby mogla... vyrosti nakonec do togo, ctoby ochvatitj vcé celovècestvo i protivu[po]stavitj jego, kak solidarnoje obscestvo bratjev, ostaljnomu miru mineralov, rasteniji i zivotnych» [a ideia da solidariedade para tornar o combate mais fácil pôde finalmente surgir e crescer até abarcar toda a Humanidade e opô-la como sociedade de irmãos solidários ao mundo dos minerais, das plantas e dos animais(10*)].

6. Em contrapartida, eu não posso concordar com V. em que borjba vsêch protiv vsêch [a luta de todos contra todos](11*) tenha sido a primeira fase do desenvolvimento humano. Segundo o meu parecer, o instinto social [Gesellschaftstrieb] foi uma das alavancas mais essenciais do desenvolvimento do homem a partir do macaco. Os primeiros homens tiveram de ter vivido em bandos e, tão longe quanto podemos remontar, encontramos que foi esse o caso.

(12*)17 de Novembro. Fui novamente interrompido e retomo hoje estas linhas para as enviar a V. V. vê que as minhas observações se prendem mais com a forma, com o método de ataque de V., do que com o fundo. Espero que V. as achará suficientemente claras, escrevi-as à pressa e, ao relê-las, quereria mudar muitas palavras, mas receio tornar o manuscrito demasiado ilegível.

Saúdo-o cordialmente.
F. Engels

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Notas de rodapé:

(1*) Engels regressara a Londres a 6 de Novembro. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(2*) Até aqui a carta encontra-se redigida em francês. Relativamente às observações que se seguem, tenha-se em conta que elas coincidem substancialmente — nalguns passos mesmo literalmente — com passagens do fragmento «Struggle for life» [«Luta pela vida»], incluído em Dialektik der Natur [Dialéctica da Natureza] de Engels: cf. MEW, Bd. 20, S. 564-566. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(3*) Em inglês no texto: luta pela vida, selecção natural. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(4*) Em latim no texto: literalmente, com um grão de sal. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(5*) Aqui e mais adiante Engels cita em russo, mas em caracteres latinos, expressões e passagens do artigo de Lavrov. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(6*) Ver nota 5 acima. (retornar ao texto)

(7*) Em latim no texto: guerra de todos contra todos. Cf. Thomas Hobbes, por exemplo, Elementa philosophica de Cive [Elementos Filosóficos acerca do Cidadão], I, 12, e Leviathan [Leviatã], I, 13 e 14. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(8*) Em latim no texto: literalmente, sob; neste contexto poderia traduzir-se por: em. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(9*) Aqui e mais adiante Engels cita em russo, mas em caracteres latinos, expressões e passagens do artigo de Lavrov. O sublinhado é de Engels. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(10*) Aqui e mais adiante Engels cita em russo, mas em caracteres latinos, expressões e passagens do artigo de Lavrov. (Nota da edição portuguesa.) (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(11*) Aqui e mais adiante Engels cita em russo, mas em caracteres latinos, expressões e passagens do artigo de Lavrov. (Nota da edição portuguesa.) (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(12*) Daqui para diante, o texto original da carta volta a estar redigido em francês. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N292] Trata-se do artigo de P. Lavrov «O Socialismo e a Luta pela Existência», publicado sem assinatura no jornal Vperiod! (Avante!) n.° 17, de 15 de Setembro de 1875. (retornar ao texto)

[N293] Über Land und Meer (Sobre Terra e Mar): semanário ilustrado alemão, publicou-se em Stuttgart de 1858 a 1923. (retornar ao texto)

Inclusão 25/10/2011