Carta ao Diretor da Revista Russa Otiechéstvennie Zapiski

Karl Marx

Novembro de 1877


Primeira Edição: Gestamtausgabe. Escrita em francês em finais de Novembro de 1877.
Fonte: http://www.marxists.org/archive/marx/works/1877/11/russia.htm e http://www.marxists.org/espanol/m-e/cartas/m1877.htm
Tradução: Cássius M. T. M. B. de Brito.
HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: Licença Creative Commons licenciado sob uma Licença Creative Commons.

O autor do artigo Karl Marx diante do Tribunal de M. Shukovsky é evidentemente um homem inteligente e se, em minha exposição sobre a acumulação primitiva, ele tivesse encontrado uma única passagem em apoio às suas conclusões, ele a teria citado. Na ausência de tal passagem, ele se vê obrigado a recorrer a um hors d´oeuvre, uma espécie de polêmica contra um “literato russo” publicada no posfácio da primeira edição alemã de O Capital. Qual é a minha queixa contra este escritor naquele escrito? Que ele descobriu a comuna russa não na Rússia, mas no livro escrito por Haxthausen, conselheiro de Estado prussiano, e que em suas mãos a comuna russa só serve como um argumento para provar que a podre e velha Europa será regenerada pela vitória do pan-eslavismo. Meu juízo sobre este escritor pode estar certo ou errado, mas de forma alguma pode fornecer uma chave das minhas opiniões sobre os esforços “dos russos para encontrar um caminho de desenvolvimento para o seu país, que será diferente daquele pelo qual transitou e continua transitando a Europa Ocidental”, etc.

No posfácio à segunda edição de O Capital – que o autor do artigo sobre o sr. Shukovsky conhece, posto que o cita – falo de “um grande crítico e escritor russo” com a alta consideração que ele merece. Nos seus notáveis artigos, este escritor tem tratado da questão de se a Rússia, como sustentam seus economistas liberais, deve começar por destruir a “comuna rural” (a vila comunal) para passar ao regime capitalista ou se, ao contrário, ela pode, sem experimentar as torturas deste regime, apropriar-se de seus frutos desenvolvendo ses propres donnees historiques [suas próprias condições histórias]. Ele se pronuncia a favor desta segunda solução. E meu honorável crítico teria tido ao menos tanto mais razão para inferir da consideração a respeito deste “grande crítico e escritor russo” que eu compartilho de suas opiniões sobre a questão, como para concluir da minha polêmica contra o “literato russo” e pan-eslavista que eu as rejeito. 

Para concluir, como eu não gosto de deixar “nada para ser adivinhado”, irei direto ao ponto. A fim de que eu fosse qualificado para avaliar o desenvolvimento econômico atual da Rússia, eu estudei russo e, a seguir, estudei por muitos anos as publicações oficiais e outras mais vinculadas a este assunto. Cheguei a esta conclusão: se a Rússia continuar seguindo o caminho que vem seguindo desde 1861, perderá a melhor oportunidade jamais oferecida à história de uma nação e, assim, sofrerá todas as fatais vicissitudes do regime capitalista.

II

O capítulo sobre a acumulação primitiva não pretende mais do que traçar o caminho pelo qual, na Europa Ocidental, a ordem econômica capitalista emergiu do seio da ordem econômica feudal. Ele, portanto, descreve o movimento histórico que, ao divorciar os produtores dos seus meios de produção, converte-os em assalariados (proletários, no sentido moderno da palavra), enquanto converte em capitalistas aqueles que mantêm os meios de produção sob sua posse. Nesta história, fazem época todas as revoluções que servem de alavanca para a classe capitalista em formação; sobretudo as que, depois de despojar grandes massas de homens de seus meios de produção e subsistência, arremessa-os subitamente ao mercado de trabalho. Mas a base de todo este desenvolvimento é a expropriação dos camponeses. 

“Isso não se completou radicalmente, exceto na Inglaterra... mas todos os países da Europa Ocidental estão indo pelo mesmo movimento” (Capital, edição francesa, 1879, p. 315). Ao final do capítulo, a tendência histórica da produção é assim resumida: que ela mesma engendra sua própria negação com a inexorabilidade que preside as metamorfoses da natureza; que ela mesma criou os elementos de uma nova ordem econômica ao dar de uma vez um enorme impulso às forças produtivas do trabalho social e ao desenvolvimento integral de cada um dos produtores individuais; que a propriedade capitalista, descansando como ela já está sobre uma forma de produção coletiva, não pode fazer outra coisa do que transformar-se em propriedade social. Aqui, eu não forneço nenhuma prova pela simples razão de que esta afirmação não é mais do que um breve resumo de longos desenvolvimentos dados anteriormente nos capítulos que tratam da produção capitalista.

Agora, qual aplicação à Rússia pode meu crítico fazer deste esboço histórico? Unicamente esta: se a Rússia tende a se transformar em uma nação capitalista a exemplo dos países da Europa Ocidental – e durante os últimos anos ela tem estado muito agitada seguindo esta direção – ela não terá sucesso sem primeiro transformar uma boa Parte dos seus camponeses em proletários; e, em consequência, uma vez chegada ao coração do regime capitalista, ela experimentará suas impiedosas leis tal como os outros povos profanos. Isso é tudo. Mas é pouco para o meu crítico. Ele se sente obrigado a metamorfosear meu esboço histórico da gênese do capitalismo na Europa Ocidental numa teoria histórico-filosófica da marche generale [marcha geral] que o destino impõe a todos os povos, quaisquer que sejam as circunstâncias históricas em que eles se encontram, a fim de que possa chegar finalmente a essa formação econômica que assegura, junto ao maior desenvolvimento as capacidades produtivas do trabalho social, o mais completo desenvolvimento do homem. Mas eu lhe peço desculpas. (Ele está simultaneamente a honrar-me e a insultar-me excessivamente). Deixe-nos tomar um exemplo.

Em diversas passagens de O Capital, eu aludo ao destino a que foram submetidos os plebeus da Roma Antiga. Em sua origem, haviam sido camponeses livres, cultivando cada qual sua fração de terra. No curso da história romana, eles foram expropriados. O mesmo movimento que os divorciou de seus meios de produção e de subsistência trouxe consigo a formação, não apenas da grande propriedade fundiária, senão também a do grande capital monetário. E assim, numa bela manhã, haviam de ser encontrados, por um lado, homens livres despojados de tudo, exceto de sua força de trabalho e, por outro lado, para que explorassem este trabalho, aqueles que possuíam toda a riqueza adquirida. E o que aconteceu? Os proletários romanos se transformaram não em trabalhadores assalariados, mas em uma ralé de desocupados mais miseráveis que os antigos “pobres brancos” do sul dos Estados Unidos, e junto com eles se desenvolveu um modo de produção que não era capitalista e sim dependente da escravatura. Assim, pois, eventos notavelmente análogos, mas que têm lugar em meios históricos diferentes levam a resultados totalmente distintos. Estudando separadamente cada uma dessas formas de evolução e, logo depois, comparando-as poder-se-á encontrar facilmente a chave deste fenômeno, mas nunca se chegará a ela mediante o passaporte universal de uma teoria histórico-filosófica geral cuja suprema virtude consiste em ser suprahistórica.

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Inclusão 03/08/2013