Carta a Otto von Boenigk
(em Breslau)(1*)

Friedrich Engels

21 de Agosto de 1890

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Primeira Edição: Publicado pela primeira vez na íntegra, em russo, na revista Voprossi istorii KPSS, n.° 2, 1964, e, em alemão? na revista Beiträge zur Geschichte der deutschen Arbeiterbewegung, n.° 2, 1964. Publicado segundo o texto do manuscrito. Traduzido do alemão.
Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!" - Edição dirigida por um colectivo composto por: José BARATA-MOURA, Eduardo CHITAS, Francisco MELO e Álvaro PINA, tomo III, pág: 545-546.
Tradução: José BARATA-MOURA.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.


Folkestone, near Dover, 21/8/90

capa

Senhor Otto v. Boenigk

Breslau

Mui caro senhor,

Só posso responder de modo breve e em geral aos pedidos de informação(2*) de V.; caso contrário, acerca do primeiro tinha que escrever um tratado.

Ad(3*) I. A chamada «sociedade socialista» é, em meu entender, não uma coisa pronta de uma vez por todas, mas, tal como os outros estados da sociedade [Gesellschfatszustände], é de apreender [como] compreendido em contínua mudança e reorganização [Umbildung]. A diferença crítica relativamente ao estado actual consiste naturalmente na organização da produção na base da propriedade comum — antes do mais, pela nação — de todos os meios de produção. Não vejo quaisquer dificuldades em executar este revolucionamento — quer dizer, gradualmente — no dia de amanhã. Que os nossos operários são capazes disso, demonstram-no as suas muitas cooperativas de produção e de distribuição que, lá onde a polícia as não arruina propositadamente, são tão bem administradas como as sociedades por acções burguesas, e de longe mais honestamente. Não consigo ver como é que V. pode falar de incultura [Unbildung] das massas, na Alemanha, depois da brilhante prova de maturidade política que os nossos operários deram na luta vitoriosa contra a lei dos socialistas[N23]. A pedante presunção fátua das nossas chamadas pessoas cultas [Gebildete] parece-me um impedimento de longe maior. Sem dúvida que ainda temos falta de técnicos, agrónomos, engenheiros, químicos, arquitectos, etc, mas, no pior dos casos, podemos comprá-los, do mesmo modo que os capitalistas o fazem, e se se estatuir um exemplo severo para um par de traidores — pois nessa sociedade havê-los-á seguramente — verão que é do interesse deles não nos roubarem mais. Mas, para além de semelhantes especialistas, entre os quais eu conto também os professores [Schullehrer], podemos muito bem passar sem as restantes «pessoas cultas» e, por exemplo, o presente forte afluxo de literatos e estudantes ao Partido pode arrastar todo o tipo de males, desde que esses senhores não sejam mantidos nos devidos limites.

Os latifúndios dos Junker a leste do Elba podem sem dificuldade, sob pertinente direcção técnica, ser arrendados aos actuais jornaleiros ou criados de quinta [Hofgesinde] e ser cultivados em associação. Se houver excessos, os senhores Junker serão responsáveis por eles, já que, contra toda a legislação escolar existente, deixaram as pessoas embrutecer a esse ponto.

O maior impedimento são os pequenos camponeses e as importunas e superespertas «pessoas cultas» que sabem tudo tanto melhor quanto disso menos entendem.

Se, portanto, tivermos um número suficiente de apoiantes entre as massas, a grande indústria e a grande agricultura de latifúndios podem ser socializadas muito rapidamente, assim que tivermos a dominação política. O resto seguir-se-á dentro em breve, mais depressa ou mais devagar. E, com a grande produção, nós é que temos o leme.

V. fala de ausência de uma igual inteligência das coisas [Einsicht]. Ela existe — mas do lado das pessoas cultas saídas dos círculos nobres e burgueses, que não fazem ideia nenhuma de quanto ainda têm que aprender com os operários.

Ad II. A senhora Marx era filha do conselheiro de governo von Westphalen, de Trier, e irmã mais nova do ministro da reacção von Westphalen do ministério de Manteuffel.

Devotado [e] com alta estima
F. Engels

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Notas de rodapé:

(1*) Nome actual: Wroclaw. (retornar ao texto)

(2*) A carta de Otto v. Boenigk a Engels era de 16 de Agosto de 1890. A primeira pergunta era se Marx e Engels acreditavam na possibilidade de uma «salutar exequibilidade» (heilsame Durchführbarkeit) da «ideia socialista» nas condições então reinantes de uma grande diversidade ao nível da cultura (Bildung) e da «inteligência das coisas» (Einsicht). O. v. Boenigk inclinar-se-ia a pensar que a execução dessa ideia deveria ser adiada até que a mencionada «inteligência das coisas» se encontrasse mais igualmente espalhada. A segunda pergunta referia-se à indicação do nome de solteira da mulher de Marx. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(3*) Em latim no texto, significando neste sentido: em relação a. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N23] Trata-se da lei de excepção contra os socialistas promulgada na Alemanha em 21 de Outubro de 1878. Em virtude desta lei foram proibidas todas as organizações do Partido Social-Democrata, as organizações operárias de massas, a imprensa operária, foi confiscada a literatura socialista e perseguidos os sociais-democratas. Por pressão do movimento operário de massas a lei foi abolida a 1 de Outubro de 1890. (retornar ao texto)

Inclusão 06/10/2011