A Burguesia Prepara a Armadilha

J. V. Stálin

15 de outubro de 1905


Primeira Edição: Jornal "Proletariatis Brdzola" (A Luta do Proletariado), n.º 12. Artigo não assinado.
Fonte: J.V. Stálin" Obras" 1º vol." traduzida da edição italiana da Obras Completas de Stálin publicada pela Edizioni Rinascita, Roma, 1949.
Tradução de:........
Transcrição e HTML de: Fernando A. S. Araújo, dezembro 2005.
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Realizou-se, em meados de setembro, o congresso dos "representantes das cidades e dos zemstvos". Nesse congresso foi fundado um novo "partido"(1), tendo à frente um comitê central e órgãos locais nas diversas cidades. O congresso aprovou o "programa", determinou a "tática" e, na mesma ocasião, elaborou um apelo que esse "partido", mal saído da casca, deve lançar ao povo. Numa palavra, os "representantes das cidades e dos zemstvos" fundaram um partido próprio.

Quem são esses "representantes" e como se chamam?

Liberais burgueses.

Quem são os liberais burgueses?

Representantes conscientes da burguesia abastada.

A burguesia abastada é nosso implacável inimigo. A sua riqueza funda-se em nossa miséria, a sua alegria em nossa dor. É claro que seus representantes conscientes serão nossos inimigos jurados, que tentarão conscientemente desbaratar-nos.

Formou-se, assim, um "partido" de inimigos do povo, que tem a intenção de dirigir um apelo ao povo.

Que pretendem esses senhores, que dizem no seu apelo?

Eles não são socialistas, odeiam o movimento socialista. Isto significa que consolidam a ordem burguesa e travam uma luta de morte contra o proletariado. Esse o motivo por que desfrutam de grandes simpatias nos ambientes burgueses.

Eles não são sequer democratas, odeiam a república democrática. Isto significa que consolidam o trono do tzar e lutam com ardor também contra os martirizados camponeses. Eis por que Nicolau II "lhes concedeu" permissão para realizar reuniões e os autorizou a convocar o congresso do "partido". Eles pretendem somente reduzir um pouco as prerrogativas do tzar, e isso sob a condição de que essas prerrogativas passem às mãos da burguesia. O tzarismo, segundo eles, deve necessàriamente permanecer o baluarte seguro da burguesia abastada, que o utiliza na luta contra o proletariado. Para isso, dizem em seu "projeto de constituição" que "o trono dos Romanov deve permanecer inviolável" querem, assim, uma constituição mutilada, com uma monarquia não absoluta.

Os senhores burgueses liberais "nada têm a opor" a que também ao povo sejam concedidos direitos eleitorais, mas só com a condição de que a Câmara dos representantes do povo seja subordinada à Câmara dos ricos, que se empenhará, pela força das circunstâncias, em corrigir e modificar as deliberações da Câmara dos representantes do povo. Por isso é que eles dizem em seu programa: "É preciso duas câmaras".

Os senhores burgueses liberais ficarão "muito contentes" se for concedida a liberdade de palavra, de imprensa e de associação, desde que seja limitada a liberdade de greve. Eis por que falam tanto em "direitos do homem e do cidadão", enquanto nada dizem de preciso quanto à liberdade de greve, a não ser os seus hipócritas balbucios a respeito de vagas "reformas econômicas".

Esses estranhos senhores não regateiam seus favores nem mesmo aos camponeses; eles "nada têm a opor" a que a terra da nobreza fundiária passe para as mãos dos camponeses, desde que os camponeses comprem essas terras aos proprietários e não "as recebam gratuitamente". Como são bons, esses mesquinhos "políticos"!

Se eles sobreviverem até a realização de todas estas aspirações seguir-se-á daí, então, que os direitos do tzar passarão para as mãos da burguesia e a autocracia tzarista se transformará gradualmente em autocracia da burguesia. Eis para onde nos arrastam os "representantes das cidades e dos zemstvos". Por isso, até em sonhos têm medo da revolução popular e falam tanto em "pacificação da Rússia".

Depois disso, não é de admirar que esses "representantes" falidos tenham depositado grandes esperanças na chamada Duma de Estado. Como é sabido, a Duma tzarista é a negação da revolução popular, o que é muito cômodo para os nossos burgueses liberais. A Duma tzarista, conforme ninguém ignora, constitui um "determinado" campo de ação para a burguesia abastada, coisa tão necessária aos nossos burgueses liberais. Eis por que constroem todo o seu programa, desenvolvem toda a sua atividade contando com a existência da Duma; com a derrota da Duma ruem também, inevitàvelmente, todos os seus "planos". É por esse motivo que os apavora o boicote da Duma, é por esse motivo que nos aconselham a entrar para a Duma. "Será um grande erro se não participarmos da Duma tzarista" - dizem eles, pela boca de seu chefe Iakuchkin. E, na realidade, isso seria um "grande erro" mas para quem? Para o povo ou para seus inimigos? Eis o problema.

Qual é a função da Duma tzarista, que dizem a esse respeito os "representantes das cidades e dos zemstvos".

"... A primeira e principal tarefa da Duma é a transformação da própria Duma" - eis o que dizem em seu apelo... "Os eleitores de primeiro grau devem obrigar seus delegados a eleger candidatos que queiram, antes de tudo, transformar a Duma", dizem no seu apelo.

Em que consiste essa "transformação"? Em dar à Duma"voto deliberativo na elaboração das leis e no exame das receitas e das despesas estatais... e o direito de controlar a atividade dos ministros." Os eleitores de segundo grau devem, portanto, exigir antes de tudo a ampliação dos direitos da Duma. Eis, ao que parece, no que consiste a "transformação" da Duma. Quem entrará para a Duma? Na maior parte, a grande burguesia. É claro que a extensão dos direitos da Duma significa um fortalecimento político da grande burguesia. E os "representantes das cidades e dos zemstvos" aconselham o povo a eleger para a Duma os burgueses liberais e a lhes confiar antes de tudo a tarefa de favorecer o fortalecimento da grande burguesia! Devemos, ao que parece, preocupar-nos antes de mais nada e sobretudo em fortalecer com as nossas próprias mãos os nossos inimigos, eis o conselho que nos dão agora os senhores burgueses liberais. Conselho muito "amistoso" não se pode negar! Bem, mas com os direitos do povo, quem se ocupará? Oh, nem se duvide: os senhores burgueses liberais não esquecerão o povo. Prometem que quando fizerem parte da Duma, quando ali estiverem fortalecidos, reivindicarão direitos também para o povo. E graças a esse farisaísmo, os "representantes das cidades e dos zemstvos" esperam alcançar seu objetivo... Eis por que, ao que tudo indica, eles nos aconselham a ampliar antes de mais nada os direitos da Duma...

Bebel dizia: o que o inimigo nos aconselha é nocivo para nós. O inimigo aconselha: "Participai da Duma" é evidente que a participação na Duma nos é nociva. O inimigo aconselha: "Ampliai os direitos da Duma" é evidente que a ampliação dos direitos da Duma nos é nociva. Minar a confiança na Duma e desacreditá-la aos olhos do povo, eis o que nos compete fazer. Em vez de ampliação dos direitos da Duma, ampliação dos direitos do povo, isto é o de que precisamos. E se, ao mesmo tempo, esse mesmo inimigo nos diz palavrinhas doces e nos promete certos "direitos", isto significa que nos prepara a armadilha e quer construir pelas nossas próprias mãos uma fortaleza para si mesmo. Não podemos esperar coisa melhor por parte dos burgueses liberais.

Mas, que dizer de alguns "social-democratas" que nos pregam a tática dos burgueses liberais? Que dizer da "minoria" do Cáucaso, que repete literalmente os pérfidos conselhos dos nossos inimigos? Eis, por exemplo, a "minoria" do Cáucaso que diz: "Reconhecemos ser necessário participar da Duma de Estado" (vide a Segunda Conferência, pág. 7). Exatamente como "o reconhecem necessário" os senhores burgueses liberais.

Essa mesma "minoria" nos aconselha:

"Se a comissão de Buliguin... conceder o direito de eleger apenas aos ricos, deveremos, então, intervir nessas eleições e obrigar, por meios revolucionários, os eleitores a elegerem candidatos de vanguarda e a pedirem, no Zemski Sobor, a Assembléia Constituinte. Em suma obrigar, por todos os meios possíveis... o Zemski Sobor a convocar a Assembléia Constituinte, ou então a se proclamar como tal"(vide Sotzial-Demokrat, n.º 1).

Isto é, mesmo que só os ricos tenham o direito de voto, mesmo que a Duma seja composta apenas de ricos, ainda assim deveremos reclamar que a essa assembléia de ricos sejam conferidos os poderes de Assembléia Constituinte! Mesmo que os direitos do povo sejam reduzidos, deveremos esforçar-nos ainda por ampliar ao máximo possível os poderes da Duma! É supérfluo dizer que a eleição dos candidatos de "vanguarda" não passará de palavras ocas, se os direitos eleitorais forem conferidos apenas aos ricos.

Como verificamos acima, essas mesmas coisas são as que nos pregam os burgueses liberais.

Das duas uma: ou os burgueses liberais se menchevizaram, ou a "minoria" do Cáucaso se liberalizou.

Num ou noutro caso, não há dúvida de que o "partido" dos burgueses liberais mal saído da casca prepara hàbilmente a sua armadilha...

Destruir essa armadilha, torná-la visível a todos, lutar impiedosamente contra os inimigos liberais do povo, eis o de que precisamos agora.

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Notas:

(1) O Partido Democrático Constitucional (K.D., cadetes), partido da burguesia liberal-monárquica e, em seguida, da burguesia imperialista. Seu objetivo era a transformação do tzarismo em monarquia constitucional. (retornar ao texto)

Inclusão 09/12/2005
Última alteração 22/09/2011