Carta da Frente Meridional a V. I. Lênin[N82]

J. V. Stálin

15 de Outubro de 1919


Primeira Edição: "Pravda" ("A Verdade"), n.° 301, 21 de dezembro de 1929.
Fonte: J.V. Stálin – Obras – 4º vol., Editorial Vitória, 1954 – traduzida da edição italiana da Obras Completas de Stálin publicada pela Edizioni Rinascita, Roma, 1949.
Tradução: Editorial Vitória
Transcrição: Partido Comunista Revolucionário
HTML:
Fernando A. S. Araújo, setembro 2006.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

capa

Camarada Lênin!

Há cerca de dois meses o Supremo Comando não se opunha, em princípio, a que o ataque principal fosse desfechado do ocidente para o oriente, através da bacia do Donetz. Se não se decidiu a desfechar esse ataque foi em vista da "herança" que havia deixado a retirada das tropas do sul durante o verão, isto é, das posições nas quais vieram a se encontrar as tropas na zona da atual frente sul-oriental, cuja reorganização teria acarretado uma séria perda de tempo em favor de Deníkin. Só por esse motivo não me opus a que a ofensiva fosse desfechada na direção já oficialmente decidida. Mas agora a situação e, por conseguinte, a disposição das forças, modificou-se substancialmente: o 8° exército (exército principal na ex-frente meridional) deslocou-se para a zona da frente meridional e também o corpo de cavalaria de Budiónni (outra força principal) deslocou-se para a zona da frente meridional; uma nova força foi acrescentada, a divisão letã, que dentro de um mês, após haver-se renovado, representará de novo uma força que Deníkin deverá levar em conta.

Como vê, as antigas posições (a "herança") não existem mais. Que é que obriga então o Comando Supremo (o quartel general) a defender o velho plano? Evidentemente, só a teimosia, ou, se você quiser, o facciosismo, o facciosismo mais obtuso e mais perigoso para a República, alimentado no Comando Supremo pelo "estrategista" fanfarrão Gúsiev. Há dias, o Comando Supremo deu a Cliórin a ordem de deslocar-se da região de Tzarítzin para Novorrossisk, através das estepes do Don, seguindo uma linha ao longo da qual pode acontecer que seja cômodo para os nossos aviadores voar, mas onde nossa infantaria e nossa artilharia não poderão absolutamente avançar. Não é necessário demonstrar que essa marcha doida (que nos é proposta) através de região hostil a nós, absolutamente desprovida de estradas, faz pesar sobre nós a ameaça de uma derrota. Não é difícil compreender que essa marcha através das stanitzas cossacas, como a experiência recente demonstrou, pode somente ter como resultado uma união mais estreita dos cossacos em torno de Deníkin contra nós pela defesa das suas stanitzas, pode somente fazer aparecer Deníkin como o salvador do Don, pode somente criar um exército cossaco para Deníkin, isto é, não pode fazer outra coisa senão reforçar Deníkin.

Justamente por isso é necessário imediatamente, sem perder tempo, mudar o velho plano já destruído pela prática, substituindo-o por um plano de ataque principal contra Rostov pela região de Vorónej, através de Khárkov e da bacia do Donetz. Antes de mais nada, teremos aqui um ambiente que não nos é hostil, que, pelo contrário, simpatiza conosco, o que facilitará nosso avanço.

Em segundo lugar, teremos em nossas mãos uma importantíssima rede ferroviária (a do Donetz) e a artéria principal que alimenta o exército de Deníkin, a linha Vorónej-Rostov (sem essa linha o exército cossaco ficará no inverno privado de abastecimentos, porque o Don, do qual o exército do Don se serve para os abastecimentos, gelará, e a estrada do Donetz oriental, Likhaia-Tzarítzin, será cortada). Em terceiro lugar, esse avanço cortará o exército de Deníkin em duas partes, das quais deixaremos como pasto para Makhnó[N83] a constituída pelos voluntários, enquanto sobre os exércitos cossacos faremos pesar a ameaça de uma surpresa pelas costas.

Em quarto lugar, teremos a possibilidade de semear a discórdia entre os "cossacos e Deníkin, que, no caso de um vitorioso avanço nosso, procurará deslocar para o oeste as unidades cossacas, coisa que a maior parte dos cossacos não aceitará, se nesse ínterim, naturalmente, apresentarmos aos cossacos o problema da paz, das negociações de paz, etc. Em quinto lugar, obteremos o carvão, ao passo que Deníkin ficará privado dele.

Não se pode adiar a aceitação desse plano, visto como o plano do Comando Supremo para o transporte e o deslocamento dos regimentos ameaça anular os nossos últimos êxitos na frente meridional. Não falo sequer do fato de que a última decisão do C.C. e do governo, "tudo para a frente meridional", é ignorada pelo quartel general e na prática já foi anulada por este.

Em suma: o velho plano, já destruído pela própria vida, não deve em caso algum ser ressuscitado, pois isso seria perigoso para a República, e sem dúvida melhoraria a situação de Deníkin. É preciso substituí-lo por outro plano. As circunstâncias e as condições não só estão maduras para fazê-lo, como nos ditam imperiosamente essa substituição. Então, a distribuição dos regimentos será feita também de maneira nova.

Sem isso, meu trabalho na frente meridional torna-se destituído de sentido, criminoso, inútil, o que me dá o direito, ou melhor, me obriga a ir embora para qualquer lugar, inclusive para o diabo, contanto que não fique na frente meridional.

Seu Stálin.
Serpukhov, 15 de outubro de 1919.

Compartilhe este texto:
Início da página
 
Visite o MIA no Facebook
 

Notas de fim de tomo:

[N82] Em 26 de setembro de 1919 o C.C. do P.C.(b) da Rússia resolveu enviar Stálin à frente meridional para organizar a ofensiva contra Deníkin. Em 3 de outubro Stálin chegou ao Estado-Maior da frente. O plano proposto por ele foi aceito pelo Comitê Central do Partido. (retornar ao texto)

[N83] (83) Nestor Makhnó (1884-1930), anarquista ucraniano, foi condenado em 1907 a trabalhos forçados por saque. Tendo fugido em 1917, combateu primeiro ao lado dos guerrilheiros vermelhos, mas em 1919, quando na Ucrânia foi instaurado o regime soviético, formou bandos próprios e por dois anos manteve uma posição pérfida, combatendo ora ao lado dos soviéticos ora contra. Em 1921 assumiu uma posição decididamente contra-revolucionária; seus bandos entregaram-se ao saque e à rapina, assassinaram militantes do Partido e soviéticos, entre os quais Parkhomenko, herói da guerra civil. Os bandos de Makhnó foram depois desbaratados por Vorochílov e por Frunze, e o próprio Makhnó refugiou-se na Polônia. (retornar ao texto)

pcr
Inclusão 25/03/2008