A Situação no Cáucaso
(Entrevista com um Correspondente da "Pravda")

J. V. Stálin

30 de Novembro de 1920


Primeira Edição: "Pravda" ("A Verdade"), n.° 269. 30 de novembro de 1920.
Fonte: J.V. Stálin – Obras – 4º vol., Editorial Vitória, 1954 – traduzida da edição italiana da Obras Completas de Stálin publicada pela Edizioni Rinascita, Roma, 1949.
Tradução: Editorial Vitória
Transcrição: Partido Comunista Revolucionário
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Fernando A. S. Araújo, setembro 2006.
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O camarada Stálin, de regresso da sua missão no sul, numa entrevista concedida a um nosso correspondente, fèz as seguintes declarações acerca da situação no Cáucaso:

O Cáucaso tem uma grande importância para a revolução, não só porque é fonte de matérias-primas, de combustíveis e de gêneros alimentícios, mas também porque está situado entre a Europa e a Ásia, e em particular entre a Rússia e a Turquia, e possui importantíssimas artérias econômicas e estratégicas (Batum-Baku, Batum-Tabriz, Batum-Tabriz-Erzerum).

A Entente leva em conta tudo isso, e, possuindo agora Constantinopla, chave do Mar Negro, desejaria conservar o caminho direto para o Oriente através da Transcaucásia.

A questão toda reside nisto: quem afinal se consolidará no Cáucaso, quem explorará o petróleo e os caminhos importantíssimos que levam ao coração da Ásia, a revolução ou, a Entente?

A libertação do Azerbaidjão enfraqueceu consideravelmente a posição da Entente no Cáucaso. A luta da Turquia contra a Entente conduziu aos mesmos resultados. Não obstante, a Entente não se dá por vencida e continua a tecer sua teia de aranha no Cáucaso.

A transformação de Tiflís numa base de atividade contra-revolucionáría, a formação dos governos burgueses do Azerbaidjão, do Daguestão e dos montanheses da região do Térek, naturalmente com os meios fornecidos pela Entente e com o auxílio da Geórgia burguesa; o namoro com os kemalistas e a propaganda da idéia da federação dos povos caucásicos sob o protetorado da Turquia; o vaivém dos ministros na Pérsia, organizado pela Entente, que inunda a própria Pérsia de sepóys, tudo isso e muitas outras coisas mais indicam que os velhos lobos da Entente não cochilam. Não há dúvida de que a atividade dos agentes da Entente nesse sentido intensificou-se consideravelmente e assumiu um caráter febril após a derrota de Wrángel.

Quais são as possibilidades de êxito da Entente e quais as da revolução no Cáucaso?

Não há dúvida de que as possibilidades de êxito da Entente no Daguestão e na região do Térek, por exemplo, reduziram-se a zero. A derrota de Wrángel e a proclamação da autonomia soviética no Daguestão e na região do Térek, a par do intenso trabalho construtivo soviético nessas regiões, reforçaram a posição do governo soviético nessa zona. Não é por acaso que os congressos de que participaram os representantes dos milhões de homens que povoam o Térek e o Daguestão tenham jurado solenemente bater-se pelos soviets, em estreita união com os operários e os camponeses da Rússia.

Os povos da montanha apreciaram no seu justo valor o fato de que a autonomia não foi proclamada num momento difícil para o Poder Soviético, mas no momento em que êxitos notáveis eram obtidos pelos seus exércitos, julgando-o uma prova de confiança do Poder para com os povos da montanha.

"Aquilo que é dado aos povos pelo governo — diziam-me montanheses durante uma conversação particular — num momento difícil, sob a pressão da necessidade do momento, não é estável. São duradouras só as reformas e as liberdades, que se concedem de cima, após vitórias obtidas sobre os inimigos, como faz agora o governo soviético".

Igualmente exíguas são as possibilidades de êxito da Entente no Azerbaidjão, que conquistou sua independência e voluntariamente uniu-se por laços estreitos aos povos da Rússia. Não há quase necessidade de demonstrar que as garras rapaces da Entente, alongadas sobre o Azerbaidjão e o petróleo de Baku, despertam um sentimento de horror nos trabalhadores do Azerbaidjão.

Também na Armênia e na Geórgia as possibilidades de êxito da Entente diminuíram consideravelmente após a derrota de Wrángel. A Armênia dos dachnaki indubitavelmente foi vítima de uma provocação da Entente, que primeiro atiçou-a contra a Turquia e depois abandonou-a ignominiosamente, deixando-a ser estraçalhada pelos turcos. É difícil duvidar que para a Armênia não tenha restado senão uma única possibilidade de salvação: a união com a Rússia Soviética. Essa circunstância, não há dúvida, servirá de lição a todos os povos cujos governos burgueses não param de fazer rapapés diante da Entente, e sobretudo à Geórgia.

A catastrófica situação econômica e alimentar da Geórgia é um fato constatado até pelos atuais dirigentes da Geórgia. A Geórgia, que se emaranhou nas redes da Entente e portanto se privou do petróleo de Baku e do trigo do Kuban, a Geórgia, que se transformou, na principal base das operações imperialistas da Inglaterra e da França e por isso está em relações hostis com a Rússia Soviética, essa Geórgia vive hoje seus últimos dias. Não é por obra do acaso que o corrupto chefe da II Internacional moribunda, o senhor Kautsky, varrido da Europa por uma onda revolucionária, encontrou asilo na pútrida Geórgia, emaranhada nas redes da Entente, junto aos fracassados social-comerciantes georgianos. É quase certo que no momento das dificuldades a Geórgia será abandonada pela Entente como o foi a Armênia.

Torna-se cada vez mais difícil para os ingleses, na Pérsia, esconder sua posição de conquistadores. Sabe-se que o governo persa, que muda com fabulosa rapidez os seus componentes, é o anteparo dos adidos militares ingleses. É sabido que o chamado exército persa cessou de existir e que em seu lugar apareceram os sepóys inglêses. É sabido que por isso em Teerã e em Tabriz houve várias ações contra a Inglaterra. É quase certo que essa circunstância não pode aumentar as possibilidades de êxito da Entente na Pérsia.

Enfim, a Turquia. Não há dúvida de que o período do acordo de Sèvres[N118], dirigido de um modo geral contra a Turquia e em particular contra os kemalistas, está chegando ao fim. Por um lado, a luta dos kemalistas contra a Entente e a fermentação crescente nas colônias da Inglaterra suscitada por essa luta, a derrota de Wrángel e a queda de Venizelos na Grécia por outro, obrigaram a Entente a abrandar consideravelmente sua política em relação aos kemalistas. A derrota infligida à Armênia pelos kemalistas enquanto a Entente mantinha uma absoluta "neutralidade", os rumores sobre a eventual restituição da Trácia e de Smirna à Turquia, sobre as negociações entre os kemalistas e o sultão, agente da Entente, e sobre a eventual evacuação de Constantinopla e, finalmente, a trégua na frente ocidental da Turquia, são sintomas todos que indicam como a Entente faz a corte aos kemalistas e como os kemalistas deram, talvez, uma guinada para a direita.

Que fim levará esse namoro da Entente e até que ponto chegarão os kemalistas em sua guinada para a direita, é difícil dize-lo. Todavia, uma coisa é indubitável, que a luta pela libertação das colônias, iniciada faz alguns anos, se reforçará em qualquer caso; que a Rússia, como porta-estandarte reconhecida dessa luta, sustentará com todas as forças e por todos os meios os guerrilheiros dessa luta; que essa luta levará à vitória, juntamente com os kemalistas, se eles não traírem a causa da libertação dos povos oprimidos, ou apesar dos kemalistas, se eles se encontrarem no campo da Entente.

A revolução que lavra no Ocidente e o crescente poderio da Rússia Soviética estão a demonstrá-lo.


Notas de fim de tomo:

[N118] O tratado de paz imposto pela Entente à Turquia, aliada da Alemanha na primeira guerra mundial, foi assinado em Sèvres, a 10 de agosto de 1920. As duríssimas condições desse tratado destruíram de fato a independência da Turquia. (retornar ao texto)

 

pcr