As Tarefas do Partido com Relação ao Problema Nacional
Informe prestado ante o X Congresso do PC da Rússia

J. V. Stálin

10 de Março de 1921


capa

Primeira Edição: “Décimo Congresso do Partido Comunista da Rússia”. Atas taquigráficas. Ed. do Estado, 1921.
Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, 1946. Tradução de Brasil Gerson. Pág: 131-144.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
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Antes de passar diretamente às tarefas concretas e imediatas do Partido com relação ao problema nacional, é preciso deixar assentadas algumas premissas sem as quais seria impossível a sua solução. Estas premissas se referem ao problema do aparecimento das nações, ao nascimento da opressão nacional, às formas que essa opressão adquire no decurso do desenvolvimento histórico e, em continuação, às formas de resolver o problema nacional nos distintos períodos de seu desenvolvimento.

Esses períodos são três.

O primeiro período é o da liquidação do feudalismo no Ocidente e do triunfo do capitalismo. A organização dos homens em nações corresponde a este período. Refiro-me a nações tais como a Inglaterra (sem a Irlanda), a França e a Itália. No Ocidente — na Inglaterra, na França, na Itália e em parte na Alemanha — o período da liquidação do feudalismo e da organização dos homens em nações coincidiu, em termos gerais, no tempo, com o período do aparecimento dos Estados centralizados, e daí o fato de as nações, no seu desenvolvimento, se terem ali revestido de formas estatais. E como no interior desses Estados não existiam outros grupos nacionais de alguma importância, também não existia neles opressão nacional. No Oriente europeu, pelo contrário, o processo de formação das nacionalidades e de liquidação do fracionamento feudal não coincidiu no tempo com o processo de formado dos Estados centralizados. Refiro-me à Hungria, à Áustria e à Rússia. Nestes países não existia ainda um desenvolvimento capitalista (possivelmente esse desenvolvimento apenas se iniciava), mas os interesses da defesa contra as invasões dos turcos, mongóis e outros povos do Oriente exigiam de modo impostergável a formarão de Estados centralizados, capazes de resistir à fôrça dos invasores. E como no Oriente europeu o processo do aparecimento dos Estados centralizados era mais rápido que o processo de organização dos homens em nações, formaram-se ali Estados mistos, compostos de vários povos que ainda não se haviam organizado em nações, mas que já se haviam agrupado em um Estado comum.

Assim, pois, o primeiro período se caracteriza pelo aparecimento das nacionalidades no raiar do capitalismo; e enquanto no Ocidente da Europa nascem Estados puramente nacionais, sem opressão nacional, no Oriente nascem Estados multinacionais, com uma nação mais desenvolvida à frente, encontrando-se as demais nações, menos desenvolvidas, em submissão política e mais tarde também econômica com respeito à nação dominante. Esses Estados multinacionais do Oriente foram a pátria da opressão nacional, que engendrou os conflitos nacionais, os movimentos nacionais, o problema nacional e as diferentes formas de resolvê-lo.

O segundo período da opressão nacional e dos meios de luta contra ela corresponde ao período do aparecimento do imperialismo, quando, em busca de mercados, matérias-primas, combustível e mão-de-obra barata, lutando pela exportação de capitais e pela manutenção das grandes vias marítimas e ferroviárias, o capitalismo transpõe os limites do Estado nacional e estende o seu território a expensas dos vizinhos, próximos e distantes. Neste segundo período os antigos Estados nacionais do Ocidente — Inglaterra, França e Itália — deixam de ser Estados nacionais, isto é, em virtude da anexação de novos territórios, se convertem em Estados multinacionais e coloniais, constituindo desse modo o terreno para a mesma opressão nacional e colonial que já existia anteriormente no Ocidente europeu. Aqui, este período se caracteriza pelo despertar e o fortalecimento das nações submetidas (tchecos, polacos, ucranianos), que produziram, em resultado da guerra imperialista, a desagregação dos velhos Estados multinacionais burgueses e a formação de novos Estados nacionais que se acham subjugados pelas chamadas grandes potências.

O terceiro período é o período soviético, o período da destruição do capitalismo e da liquidação da opressão nacional quando o problema das nações dominantes e submetidas, das colônias e metrópoles, é relegado aos arquivos históricos, quando se erguem diante de nós no território da RSFSR as nacionalidades que gozam de igualdade de direitos, que têm as mesmas possibilidades de desenvolver-se, mas que conservaram certa desigualdade, herdada historicamente em consequência do seu atraso econômico, político e cultural. O fundo desta desigualdade das nacionalidades está na herança que, como consequência do desenvolvimento histórico, recebemos do passado e segundo a qual uma nacionalidade, precisamente a grande-russa, se tornou mais adiantada que as demais, tanto no seu aspecto político como no industrial. Daí a desigualdade efetiva que não se pode suprimir num só ano, mas que se há de suprimir prestando ajuda econômica, política e cultural às nacionalidades atrasadas.

Estes são os três períodos do desenvolvimento do problema nacional, cujo processo histórico examinamos.

Os dois primeiros períodos possuem um traço comum. Consiste ele em que durante ambos os períodos as nacionalidades sofrem opressão e submissão e, em consequência, a luta nacional se mantém em vigor e o problema nacional continua sem solução. Mas também existe entre eles uma diferença. Ela consiste em que, no primeiro período, o problema nacional não sai dos limitei, dos diferentes Estados nacionais e afeta unicamente umas poucas nacionalidades, principalmente europeias; enquanto no segundo período o problema nacional se transforma de problema interno do Estado em problema interestatal, no problema da guerra entre os Estados imperialistas pela manutenção, sob o seu domínio, das nacionalidades que não gozam da plenitude dos seus direitos, pela submissão à sua influência de novos povos e raças, fora dos limite- da Europa. Deste modo, o problema nacional, que anteriormente só tinha importância nos países cultos, perde nesse período seu caráter isolado e funde-se com o problema geral das colônias.

O desenvolvimento do problema nacional até converter-se em problema colonial geral não constitui uma casualidade histórica. Este desenvolvimento se explica, em primeiro lugar, pelo fato de que durante a guerra imperialista os próprios grupos imperialistas dos países beligerantes tivessem de apelar para as colônias, de onde extraíam o material humano com que formavam suas tropas. É fora de dúvida que esse processo, processo de apelação inevitável dos imperialistas aos povos atrasados das colônias, não podia senão provocar o despertar desses povos e raças, estimulando-os à emancipação e à luta. O segundo fator, que fez com que o problema nacional se ampliasse e se desenvolvesse até se converter no problema geral das colônias, que alcançou o mundo todo, primeiro com pequenas faíscas e depois com a chama do movimento de emancipação, é a tentativa dos grupos imperialistas de dividir a Turquia e acabar com a sua existência estatal. Entre os povos muçulmanos, a Turquia era o país mais adiantado no sentido estatal. Essa Turquia não podia resignar-se a tais perspectivas, levantou a bandeira da luta e agrupou em torno de si, contra o imperialismo, os povos do Oriente. O terceiro fator foi o aparecimento da União Soviética, cuja luta contra o imperialismo teve uma série de êxitos e, naturalmente, inspirou os povos oprimidos do Oriente, despertou-os, levou-os à luta e com isso tornou possível a criação de uma frente comum das nacionalidades oprimidas, que se estende da Irlanda à Índia.

Estes são os fatores que, na segunda etapa do desenvolvimento da opressão nacional, fizeram com que a sociedade burguesa não só não resolvesse o problema nacional, não só não levasse a paz aos povos, mas, pelo contrário, lançasse a faísca da luta nacional, convertendo-a na chama da luta dos povos oprimidos, das colônias e semi-colonias contra o imperialismo mundial.

É evidente que o único regime capaz de resolver o problema nacional, isto é, o único regime capaz de criar as condições que assegurem a convivência pacífica e a fraternal colaboração dos diversos povos e raças, é o regime do Poder Soviético, o regime da ditadura do proletariado.

Parece desnecessário demonstrar que, sob o domínio do capital, da propriedade privada dos meios de produção e com a existência das classes, não pode ser mantida a igualdade das nacionalidades; que enquanto subsista o poder do capital, enquanto continue a luta pela posse dos meios de produção, não pode existir nenhuma igualdade entre as nacionalidades, como também não pode existir colaboração entre as massas trabalhadoras das nacionalidades. A história nos diz que o único meio de acabar com a desigualdade nacional, o único meio de estabelecer um regime de fraternal colaboração entre as massas trabalhadoras dos povos oprimidos e não oprimidos, é a liquidação do capitalismo e a instauração do regime soviético.

Além do mais, demonstrou a história que os povos que conseguiram libertar-se da sua burguesia nacional, ou, melhor, os que estabeleceram nas suas nações o regime soviético na existência do imperialismo, não estão em condições de assim subsistir isoladamente nem de defender com êxito sua existência sem o apoio militar e econômico das Repúblicas Soviéticas vizinhas. O exemplo da Hungria prova com demasiada eloquência que sem uma aliança estatal das Repúblicas Soviéticas, sem união compacta numa só fôrça econômico-militar, é impossível resistir às fôrças coligadas do imperialismo mundial, tanto no terreno militar como no econômico.

A Federação de Repúblicas Soviéticas é a forma procurada de união estatal, e a sua encarnação viva é a RSFSR.

Estas são, camaradas, as premissas sobre as quais queria falar aqui em primeiro lugar, para mostrar a necessidade que tem o nosso Partido de dar alguns passos na solução do problema nacional dentro dos marcos da RSFSR.

Embora com o regime soviético já não existam na Rússia nem nas Repúblicas a ela ligadas nacionalidades dominantes nem nacionalidades despojadas dos seus direitos, nem metrópoles nem colônias, nem explorados nem exploradores, existe, contudo, na Rússia o problema nacional. O fundamento do problema nacional na RSFSR consiste em eliminar o atraso (econômico, político e cultural) das nacionalidades, atraso que herdamos do passado; em dar aos povos atrasados a possibilidade de alcançar a Rússia Central nos terrenos estatal, cultural e econômico. No antigo regime, o Poder czarista não procurava, e não podia procurar, o desenvolvimento da vida estatal da Ucrânia, do Azerbaidzhan, do Turquestão e de outras regiões da periferia; o Poder czarista lutava contra o desenvolvimento da vida estatal, como lutava contra o progresso cultural das mesmas, tendendo para a assimilação violenta da população nativa. Além disso, no antigo Estado, os aristocratas agrários e os capitalistas nos deixaram como herança povos tão oprimidos como os quirguizes, os tchetchenos e os ossetinos, cujas terras eram colonizadas pelos elementos cossacos e culaques da Rússia. Estavam esses povos condenados a suportar sofrimentos incríveis, a extinguir-se. Por outro lado, a situação da nacionalidade grande-russa, como nacionalidade dominante, deixou as marcas da sua influência até nos comunistas russos, que não sabem ou não querem aproximar-se mais intimamente das massas trabalhadoras nativas, compreender suas necessidades e ajudá-las a sair do seu atraso e na cultura. Refiro-me aos grupos, pouco numerosos, de comunistas russos, que desprezam no trabalho as particularidades da vida e da cultura das regiões periféricas e se desviam às vezes para o chovinismo russo de “grande potência”. Além disso, a situação das nacionalidades não-russas, que sofreram a opressão nacional, não deixou também de exercer influência sobre os comunistas nativos, que às vezes não sabem distinguir dos interesses de classe das massas laboriosas do seu povo os interesses chamados “comuns a todo o povo”. Refiro-me ao desvio que se faz notar no sentido do nacionalismo local, desvio que se observa ás vezes nas fileiras dos comunistas nativos e que no Oriente tem sua expressão no pan-islamismo e no pan-turquismo. Finalmente, é preciso salvar da extinção os quirguizes, basquires e certas tribos de montanheses e assegurar-lhes as terras necessárias a expensa dos culaques colonizadores.

Depois de haver caracterizado estas tarefas imediatas do Partido, desejaria passar à tarefa geral, a da adaptação da nossa política comunista na periferia às condições particulares da situação econômica que contemplamos principalmente no Oriente.

A questão está em que toda uma série de povos, sobretudo turcos — são cerca de 30 milhões de homens — não passou, não teve tempo de passar pela fase do capitalismo industrial, e, por esse motivo, não possui ou quase não possui um proletariado industrial. Por conseguinte esses povos têm de vir das primitivas formas da economia para a etapa da economia soviética sem passar pelo capitalismo industrial. Para levar a cabo essa operação difícil, mas de nenhum modo impossível, é necessário tomar em consideração todas as particularidades da situação econômica, inclusive o passado histórico, a vida e a cultura desses povos. É inconcebível e perigoso transplantar para eles as medidas que tinham valia e significação aqui, no centro da Rússia. Ao realizar a política econômica da RSFSR, faz-se absolutamente indispensável — é evidente — levar em conta as particularidades da situação econômica, da estrutura de classe e do passado histórico com que nos defrontamos nas regiões da periferia. Não falemos da eliminação de incongruências como a da requisição de leitões na Quirguízia, feita pelo Comissariado do Povo para os Abastecimentos, de acordo com o sistema de entregas ao Estado, pois a população muçulmana dessa região jamais criou leitões. Por este exemplo se vê até que ponto se deixam de levar em conta as peculiaridades dos costumes, peculiaridades que saltam à vista de qualquer viajante.

Acabam de enviar-me uma nota com o pedido de que responda aos artigos do camarada Tchitcherin(1). Camaradas, acho que nos artigos de Tchitcherin, que li atentamente, não há mais que pura literatura. Neles existem quatro erros ou mal-entendidos. Em primeiro lugar, o camarada Tchitcherin se inclina a negar as contradições entre os Estados imperialistas, sobrestimando a união internacional dos imperialistas e perdendo de vista, menosprezando as contradições internas entre os grupos e Estados imperialistas, contradições que existem e engendram as guerras (França, América do Norte, Inglaterra, Japão e outros). Tchitcherin sobrestimou a união dos principais imperialismos e menosprezou as contradições existentes no seio desse truste. E, contudo, essas contradições existem e nelas se baseia a atividade do Comissariado do Povo para os Negócios Estrangeiros. Comete, além disso, outro erro o camarada Tchitcherin. Menospreza as contradições existentes entre as grandes potências dominantes e os Estados nacionais recentemente constituídos (Tchecoslováquia, Polônia, Finlândia, etc.), que a elas se encontram submetidos militar e economicamente. O camarada Tchitcherin perdeu completamente de vista o fato de que, apesar de subordinados esses Estados nacionais às grandes potências, ou, melhor, graças a essa subordinação, existem entre esses Estados e as grandes potências contradições que se tornaram visíveis, por exemplo, nas conversações com a Polônia, a Estônia, etc. A razão de ser do Comissariado do Povo para os Negócios Estrangeiros consiste precisamente em levar em conta todas essas contradições, em apoiar-se nelas, em manobrar na esfera delas mesmas. O camarada Tchitcherin menosprezou do modo mais surpreendente este fator. O terceiro erro do camarada Tchitcherin consiste em falar demasiado da autodeterminação nacional, que se converteu, com efeito, numa palavra vazia de sentido, aproveitada comodamente pelos imperialistas. O camarada Tchitcherin esqueceu de maneira estranha que há dois anos nos despedimos dessa palavra. Ela já não existe no nosso programa. Nele não se fala da autodeterminação — palavra completamente inexpressiva — mas de outra mais precisa e mais definida, a do direito dos povos à separação estatal. O camarada Tchitcherin, de modo estranho, não leva em conta nos seus artigos esse fator; e por isso todas as sua objeções a essa palavra, que se tornou vaga, não passam de pólvora gasta em salvas, desde que nem nas minhas teses nem no programa do Partido se faz menção, para coisa nenhuma, da “autodeterminação”. Fala-se neles, somente, no direito dos povos à separação estatal. E esta palavra, neste momento em que o movimento de emancipação se aviva nas colônias, é para nós revolucionária. Por se agruparem os Estados Soviéticos na federação à base de livre adesão, o direito de separação fica sem ser utilizado pela vontade dos próprios povos que integram a RSFSR. Mas quando se trata Ias colônias que se encontram sob os grilhões da Inglaterra, da França, da América do Norte e do Japão, de Países subordinados como a Arábia, a Mesopotâmia, a Turquia e o Indostão, isto é, de países que constituem colônias da Entente, a palavra do direito dos povos à separado é revolucionária e deixá-la de lado significa fazer o jogo da Entente. O quarto equívoco consiste na ausência de indicações práticas nos artigos do camarada Tchitcherin. Escrever artigos é decerto, coisa fácil; mas para intitulá-los “Contra as teses do camarada Stálin” seria preciso expor neles algo de sério, mesmo que fossem umas contra proposições de caráter prático. E, contudo, não encontrei nos seus artigos nenhuma proposição prática que valesse a pena ser levada em consideração.

Termino, camaradas. Chegamos às conclusões seguintes: a sociedade burguesa não só demonstrou ser incapaz de resolver o problema nacional, como ainda, pelo contrário, nas suas tentativas de “resolvê-lo” o que fez foi aumentá-lo, convertendo-o em problema colonial e criando contra ela uma nova frente, que se estende da Irlanda ao Indostão. O único Estado capaz de enfrentar e resolver o problema nacional é o Estado que se baseia na propriedade coletiva dos meios e instrumentos da produção, o Estado Soviético. Sob o Estado Federal Soviético não existem já nações oprimidas nem dominantes, a opressão nacional foi liquidada; mas em virtude da desigualdade (cultural, econômica e política) existente de fato entre as nacionalidades mais cultas e as menos cultas, desigualdade herdada do velho regime burguês, o problema nacional toma uma forma que reclama a elaboração de medidas que facilitem às massas trabalhadoras dos povos atrasados, o progresso econômico, político e cultural e lhes permita alcançar a Rússia Central proletária, mais adiantada que eles. Daqui derivam as proposições práticas que constituem a terceira parte das teses propostas por mim sobre o problema nacional.

(Aplausos)

Resumo da discussão

Camaradas: o mais característico deste Congresso, na discussão em torno do problema nacional, foi rue das declarações sobre o problema nacional, passando pela nova divisão administrativa da Rússia, chegamos à exposição prática do problema, Nos começos da Revolução de Outubro nós nos limitávamos à declaração dos direitos à separação. Nos anos de 1918 e 1920 orientamos nosso trabalho no sentido da divisão administrativa da Rússia em base nacional, no interesse da aproximação entre as massas trabalhadoras dos povos atrasados e o proletariado da Rússia. Ao passo que hoje, neste Congresso, expomos o problema em base puramente prática, no sentido de qual há de ser a política do Partido a respeito das massas trabalhadoras e dos elementos pequeno-burgueses, no interior das regiões autônomas e das Repúblicas independentes ligadas à Rússia. Por isso me surpreendeu a declaração de Zatonski, dizendo que as teses que vos foram apresentadas têm um caráter abstrato. Tenho à mão suas próprias teses, que, não sei por que, não submeteu à atenção do Congresso, e nelas não consegui encontrar uma proposição de caráter prático, nem uma só, à exceção de uma proposição, segundo a qual o nome RSFSR deveria ser substituído pelas palavras “Europa Oriental” e as palavras “da Rússia” pelas palavras “russa” ou “grande-russa”. Não encontrei outras proposições práticas nas referidas teses.

Passo agora à questão seguinte. Digo que esperava mais dos delegados que aqui intervieram. A Rússia conta vinte e duas regiões periféricas, das quais umas foram muito afetadas pelo desenvolvimento industrial e diferem pouco da Rússia neste particular, outras não passaram pela etapa do capitalismo e diferem radicalmente da Rússia Central, e outras, finalmente, ficaram à margem desse desenvolvimento. É impossível abarcar nas teses toda essa diversidade das regiões da periferia em todos os seus detalhes. Não se pode exigir que as teses, de significação para todo o Partido, tenham um caráter exclusivamente turquestano, exclusivamente azerbaidzhano ou exclusivamente ucraniano. É preciso fixar os traços característicos comuns a todas as regiões da periferia e incluí-los nas teses, afastando-nos das particularidades; na natureza não há outros métodos de elaboração de teses. É preciso dividir as nacionalidades não grande-russas em vários grupos, o que nas teses foi feito. As nacionalidades não-russas representam uma população de cerca de 65 milhões de pessoas. O traço característico comum a todas essas nacionalidades não-russas está em que ficaram retardadas da Rússia Central no desenvolvimento da sua vida estatal. Nossa missão consiste em concorrer com todas as nossas fôrças na ajuda dessas nacionalidades, dos seus elementos proletários e trabalhadores, para que desenvolvam entre eles sua organização estatal soviética na língua materna. Esse traço comum está assinalado nas teses, na sua parte prática. Além do mais, se continuarmos nesse caminho da concretização sucessiva das peculiaridades das regiões periféricas, preciso será separar de um total de 65 milhões, que pertencem a nacionalidades não-russas, uns 30 milhões de turcos, que não passaram pelo capitalismo. O camarada Mikhoian não tem razão ao afirmar que o Azerbaidzhan supera, sob certos aspectos, as províncias russas. Pelo que se vê, confunde Bacu com o Azerbaidzhan. Bacu não saiu das entranhas do Azerbaidzhan, porque foi superestruturado pelos esforços de Nober, de Rothschild, de Víshau, etc. No que se trata do Azerbaidzhan, propriamente dito, é ele o país das relações patriarcal-feudais mais atrasadas. Por isso o incluo por inteiro no grupo das regiões periféricas que não passaram pelo capitalismo às quais é necessário aplicar métodos particulares para entrosá-los na economia soviética. Isto está assinalado nas teses. Existe, além disso, um terceiro grupo que não compreende mais de 8 ou 10 milhões de pessoas, constituído principalmente de tribos dedicadas ao pastoreio e que persistem na vida de clã, que não passaram ainda para a economia agrícola. Constituem-no principalmente os quirguizes, a parte setentrional do Turquestão, os basquires, os tchetchenos, os ossetinos e os ingushos. No que a eles diz respeito, é preciso, antes de tudo, assegurar-lhes a terra necessária. Aqui não se concedeu a palavra aos quirguizes: foi encerrada a discussão. Eles nos contariam mais coisas ainda sobre as penas que sofrem a Alta Basquíria, a Quirguízia e os montanheses, que se extinguem por falta de terras. Mas o que a propósito dizia Safárov se refere unicamente a um grupo de população de 8 ou 10 milhões de pessoas. Por isso é inconcebível tornar extensivas a todas as regiões periféricas as proposições práticas de Safárov, mesmo porque para o resto das nacionalidades não-russas, que compreendem cerca de 55 milhões, estas emendas não têm nenhuma importância. Eis porque, mesmo nada tendo que opor às concretizações, adendos e melhoramentos introduzidos por Safárov em diversos pontos e que se referem a certos grupos de nacionalidades, devo dizer que não se podem generalizar essas emendas. Hei de fazer ainda uma observação motivada por uma das emendas de Safárov. Numa delas desliza uma frase sobre a "autonomia nacional-cultural”:

“Antes da Revolução de Outubro — diz a emenda — os povos coloniais e semicoloniais das regiões periféricas orientais da Rússia ficaram privados, em virtude da política imperialista, de toda possibilidade de associar-se às conquistas culturais da civilização capitalista, mediante sua própria autodeterminação nacional-cultural, a instrução na sua língua materna”, etc.

Devo dizer que não posso aceitar esta emenda, porque cheira a coisa do Bund. A autodeterminação nacional-cultural é uma formulação do Bund. E faz tempo que nós nos despedimos da nebulosa autodeterminação, não havendo necessidade de restabelecê-la. Representa, além do mais, toda essa frase o mais antinatural dos conglomerados de palavras.

Tenho aqui uma nota, segundo a qual nós, os comunistas, implantamos de um modo supostamente artificial a nacionalidade bíelo-russa (n. do t.: Rússia-Branca). Isto não é certo, porque a nacionalidade bielo-russa existe, possui seu próprio idioma, diferente do russo, e por isso não é possível elevar a sua cultura senão na sua língua materna. Discursos parecidos se escutavam há cinco anos com relação à Ucrânia, com relação à nacionalidade ucraniana. E ainda recentemente se dizia que a República ucraniana e a nacionalidade ucraniana não eram mais que uma invenção dos alemães. É evidente, contudo, que a nacionalidade ucraniana existe e que o desenvolvimento de sua cultura é um dever dos comunistas. Não se pode ir contra a história. É evidente que, se até agora predominavam ainda nas cidades da Ucrânia os elementos russos, com o decorrer do tempo essas cidades se ucranianizarão inevitavelmente. Faz uns quarenta anos Riga era uma cidade alemã; mas como as cidades crescem a expensas do campo, e este é o guardião da nacionalidade, Riga é hoje em dia uma cidade puramente letã. Faz uns cinquenta anos todas as cidades da Hungria tinham caráter alemão, e atualmente estão magiarizadas. O mesmo acontecerá com a Bielo-Rússia, em cujas cidades ainda predominam os elementos não bielo-russos.

Ao concluir o resumo da discussão, proponho ao Congresso a eleição de uma comissão, na qual devem entrar os representantes das regiões, tendo em vista a ulterior concretização das proposições práticas das teses, que interessem a todas as nossas regiões periféricas. (Aplausos).


Notas de rodapé:

(1) Refere-se aos artigos de G. Tchitcherin, então Comissário do Povo para as Relações Exteriores, publicados nos nºs 50, 51 e 52 do Pravda (de 6, 7 e 9 de março de 1921), sob o título de Contra as teses do camarada Stálin. (retornar ao texto)

Inclusão 12/11/2012