Sobre o Problema da China

J. V. Stálin

1 de Agosto de 1927


Primeira Edição: Do discurso “A situação internacional e a defesa da URSS”, pronunciado na sessão de 1 de agosto de 1927, do Pleno Conjunto do Comitê Central e da Comissão Central de Controle. Da coletânea Sobre a oposição Ed. do Estado, Moscou, 1928.
Fonte: Editorial Vitória Ltda., Rio, 1946. Tradução de Brasil Gerson. Pág: 299-325.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: Licença Creative Commons licenciado sob uma Licença Creative Commons.

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Passemos ao problema da China. Não pretendo estender-me a propósito dos erros da oposição no que diz respeito ao caráter e às perspectivas da revolução chinesa. Não o farei, uma vez que já se falou sobre isso bem amplamente e de modo suficientemente convincente para que valha a pena repeti-lo. Nem tampouco me estenderei relativamente à questão de que, pretende-se, a revolução chinesa seja, na etapa atual, uma revolução pela autonomia aduaneira (Trotsky). Nem vale a pena, igualmente, estender-me, sobre a asserção de que na China não existem, pretende-se, sobrevivências feudais, ou que, se existem, não têm grande importância e, portanto, a revolução agrária na China é absolutamente incompreensível (Trotsky e Rádek). Já conheceis, certamente, por intermédio da nossa imprensa do Partido, esses erros e outros análogos da oposição com referência ao problema chinês.

Passemos ao problema dos princípios fundamentais do leninismo que servem de ponto de partida para a solução dos problemas da revolução nos países coloniais e dependentes.

Em que consiste o ponto de partida adotado pela Internacional Comunista e pelos Partidos Comunistas em geral, na análise dos problemas do movimento revolucionário nos países coloniais e dependentes?

Consiste em estabelecer uma rigorosa diferença entre a revolução nos países imperialistas, nos países que oprimem outros povos, e a revolução nos países coloniais e dependentes, nos países que suportam a opressão imperialista de outros Estados. A revolução nos países imperialistas é uma coisa: neles, a burguesia é a opressora de outros povos; neles, a burguesia é contrarrevolucionária em todas as etapas da revolução; neles, falta o fator nacional como fator da luta emancipadora. A revolução nos países coloniais e dependentes é outra coisa: neles, a opressão imperialista de outros Estados é um aos fatores da revolução; neles, essa opressão não pode deixar de afetar também a burguesia nacional; neles, em determinada etapa e durante determinado período, a burguesia nacional pode apoiar o movimento revolucionário de seu país contra o imperialismo; neles, o fator nacional, como fator da luta pela emancipação, é um fator da revolução. Não fazer essa distinção, não compreender essa diferença, identificar a revolução nos países imperialistas com a revolução nos países coloniais, tudo isso significa desviar-se do caminho marxista, do caminho leninista, e situar-se no dos partidos da II Internacional.

Eis o que, sobre o assunto, dizia Lênin em seu informe sobre o problema nacional e colonial, no II Congresso da Internacional Comunista:

Qual é a ideia mais importante, a ideia fundamental da nossa tese? É a distinção entre povos oprimidos e povos opressores. Frisamos essa distinção, em oposição à II Internacional e à democracia burguesa”(1) (Lênin, Obras Completas, t. XXV, pág. 351).

O erro fundamental da oposição consiste em não compreender nem reconhecer essa diferença entre a revolução de um tipo e a de outro.

O erro fundamental da oposição consiste em identificar a revolução de 1905 na Rússia, país imperialista que oprimia outros povos, com a revolução na China, país oprimido, semicolonial, obrigado a lutar contra a opressão imperialista de outros Estados.

Aqui, na Rússia, em 1905, a revolução era dirigida contra a burguesia, contra a burguesia liberal, apesar de a revolução ter sido uma revolução democrático-burguesa. Por que? Porque a burguesia liberal de um país imperialista não pode deixar de ser contrarrevolucionária. Precisamente por isso, os bolcheviques não colocavam então nem podiam colocar a questão de blocos ou acordos temporários com a burguesia liberal. Tomando isso como base, a oposição afirma que o mesmo se deve fazer na China, em todas as etapas do movimento revolucionário; que os acordos e blocos temporários com a burguesia nacional não são admissíveis na China, em nenhum momento e sob nenhuma condição. Mas a oposição se esquece de que somente podem falar assim pessoas que não compreendem nem reconhecem a diferença existente entre a revolução nos países oprimidos e a revolução nos países opressores; que somente podem falar assim pessoas que rompem com o leninismo e se desviam para as posições dos partidários da II Internacional.

Eis o que diz Lênin sobre a admissão de acordos e blocos temporários com o movimento burguês de emancipação nos países coloniais:

A Internacional Comunista deve caminhar para uma aliança temporária(2) com a democracia burguesa das colônias e dos países atrasados, mas não se fundir com ela e manter, de modo completo, a independência do movimento proletário, mesmo em sua forma mais embrionária” (t. XXV, pág. 290) . . . “Nós, como comunistas, só deveremos apoiar os movimentos burgueses de emancipação(3) nos países coloniais, no caso de que esses movimentos sejam verdadeiramente revolucionários, no caso de que os seus representantes não nos impeçam de educar e organizar com espírito revolucionário os camponeses e as grandes massas de explorados” (t. XXV, p. 353).

Como pôde “acontecer” que Lênin, que lançou raios e trovões contra o acordo com a burguesia na Rússia, tenha reconhecido a admissibilidade de tais blocos e acordos na China? Lênin terá cometido um erro? Ter-se-á desviado da tática revolucionária para a tática oportunista? Evidentemente não. Isso “aconteceu” porque Lênin compreendia a diferença entre a revolução em país oprimido e a revolução em país opressor. Isso “aconteceu” porque Lênin compreendia que, em determinada etapa do seu desenvolvimento, a burguesia nacional dos países coloniais pode apoiar o movimento revolucionário em seu país contra o imperialismo estrangeiro. Isso a oposição não quer compreender; mas não o quer compreender porque rompe com a tática revolucionária de Lênin, porque rompe com a tática revolucionária do leninismo.

Prestastes atenção ao fato de como em seus discursos os líderes da oposição punham de lado, cuidadosamente, essas diretivas de Lênin, temendo tocá-las, apesar de, em seu informe, Bukharin ter focalizado de frente a questão referente a essas orientações de Lênin? Porque, então, afastam essas diretivas táticas de Lênin, conhecidas de todos, relativas aos países coloniais e dependentes? Por que temem tais diretivas? Porque temem a verdade. Porque as orientações táticas de Lênin lançam por terra todas as concepções ideológicas e políticas do trotskismo no problema da revolução chinesa.

Falemos agora das etapas da revolução chinesa. A oposição enredou-se até o ponto de agora negar a existência de qualquer etapa no desenvolvimento da revolução chinesa. Mas existe porventura alguma revolução sem etapas determinadas em seu desenvolvimento? A nossa revolução não teve então as suas etapas de desenvolvimento? Tomai as Teses de Abril, de Lênin, e vereis que Lênin reconhecia duas etapas em nossa revolução: a primeira etapa era a da revolução democrático-burguesa, com um movimento agrário como eixo principal; a segunda etapa, a da Revolução de Outubro, com a conquista do poder pelo proletariado como eixo principal. Quais são es etapas da revolução chinesa? A meu ver, têm de ser três: a primeira etapa é a da revolução da frente única nacional geral, o período de Cantão, quando a revolução dirigia seus golpes fundamentalmente contra o imperialismo estrangeiro, enquanto a burguesia nacional apoiava o movimento revolucionário; a segunda etapa é a da revolução democrático- burguesa, após a chegada das tropas nacionais ao rio Yang-Tse, quando a burguesia se afastou da revolução, enquanto o movimento agrário se desenvolveu até converter-se em poderosa revolução de dezenas de milhões de camponeses (a revolução chinesa encontra-se atualmente na segunda etapa de seu desenvolvimento) ; a terceira etapa é a da revolução soviética, à qual ainda não se chegou, mas se chegará. Quem não tenha compreendido que não pode haver uma revolução sem determinadas etapas de seu desenvolvimento, quem não tenha compreendido que a revolução chinesa tem três etapas em seu desenvolvimento, não compreendeu nada do marxismo nem do problema chinês.

Qual é a característica da primeira etapa da revolução chinesa?

A característica da primeira etapa da revolução chinesa consiste, em primeiro lugar, em que foi uma revolução da frente única nacional geral e, em segundo lugar, era dirigida fundamentalmente contra a opressão imperialista estrangeira (a greve de Hong Kong, etc.). Era Cantão o centro, o quartel-general do movimento revolucionário da China? Indubitavelmente o era. Somente os cegos podem agora negá-lo.

É certo que a primeira etapa da revolução colonial há de ter precisamente esse caráter? Acredito que seja certo. Nas Teses complementares do II Congresso da Internacional Comunista, que tratam da revolução na China e na índia, diz-se explicitamente que, nesses países:

“a dominação estrangeira freia constantemente o desenvolvimento da vida social” e que, “por esse motivo, o primeiro passo da revolução nas colônias há de ser a derrocada do capitalismo estrangeiro”(4) (v. as notas taquigráficas do II Congresso da I. C., pág. 605).

A característica da revolução chinesa reside no fato de que essa revolução deu esse “primeiro passo”, atravessou a primeira etapa de seu desenvolvimento, ultrapassou o período da revolução da frente única nacional geral e entrou na segunda etapa de seu desenvolvimento, na período da revolução agrária.

A característica da revolução turca (os kemalistas), por exemplo, reside, ao contrário, no fato de que essa revolução se deteve no “primeiro passo”, na primeira etapa de seu desenvolvimento, na etapa do movimento burguês de emancipação, não tentando sequer entrar na segunda etapa de seu desenvolvimento, na etapa da revolução agrária.

Que eram o Kuomintang e seu governo na primeira etapa da revolução, no período de Cantão? Nesse período eram o bloco dos operários, dos camponeses, da intelectualidade burguesa e da burguesia nacional. Nesse período era Cantão o centro do movimento revolucionário, o quartel-general da revolução? Nesse período era acertada a política de apoio ao Kuomintang de Cantão, como governo da luta de emancipação contra o imperialismo? Tínhamos razão ao apoiar Cantão na China e, por exemplo, Angora na Turquia, quando Cantão e Angora lutavam contra o imperialismo? Sim, tínhamos razão. Tínhamos razão e seguíamos as pegadas de Lênin, uma vez que as lutas de Cantão e Angora dispersavam as fôrças do imperialismo, debilitavam e solapavam o imperialismo e, com isso, facilitavam o desenvolvimento do centro da revolução mundial, o desenvolvimento da URSS É certo que, naquela época, os atuais líderes da oposição apoiaram Cantão e Angora juntamente conosco, prestando-lhes determinada ajuda? Sim, é certo. Ninguém pretenda pô-lo em dúvida.

Mas como se deve entender a frente única com a burguesia nacional na primeira etapa da revolução colonial? Quer isso dizer que os comunistas não devam aguçar a luta dos operários e camponeses contra os latifundiários e a burguesia nacional, que o proletariado deva sacrificar, em grau mínimo que seja, por um minuto que seja, a sua independência? Não, não quer dizer tal coisa. A frente única somente pode ter significação revolucionária nas condições e no caso em que não impeça o Partido Comunista de desenvolver o seu trabalho político e de organização independente, de organizar o proletariado como fôrça política independente, de levantar os camponeses contra os latifundiários, de organizar abertamente a revolução dos operários e camponeses e de preparar, desse modo, as condições necessárias à concretização da hegemonia do proletariado. Acho que Bukharin demonstrou plenamente em seu informe, na base de documentos conhecidos de todos, que a Internacional Comunista indicava ao Partido Comunista chinês precisamente essa concepção da frente única.

Kámenev e Zinóviev se referiram aqui a um único telegrama enviado a Shanghai em outubro de 1926, no qual se diz que, no momento, antes da tomada de Shanghai, não se deve intensificar o movimento agrário. Estou longe de reconhecer que esse telegrama constitua um acerto. Nunca considerei e não considero infalível o nosso Comitê Central. Ás vezes se cometem erros, e esse telegrama é, sem dúvida, um deles. Mas, em primeiro lugar, esse telegrama foi anulado por nós mesmos semanas mais tarde (em novembro de 1926), sem qualquer espécie de indicações da oposição. Em segundo lugar, por que a oposição guardou silêncio até agora, nesse particular, por que somente se lembrou desse telegrama no fim de nove meses e por que ocultou ao Partido que tal telegrama tinha sido anulado por nós há nove meses? Por isso, seria uma calúnia premeditada supor que o referido telegrama definia a linha da nossa direção. Na realidade, esse telegrama não tinha senão um caráter acidental, de modo algum característico da linha da Internacional Comunista, da linha da nossa direção. Podemos vê-lo, repito, apenas com o fato de o telegrama ter sido anulado algumas semanas depois por uma série de documentos que determinavam a linha e que eram, indubitavelmente, característicos para a nossa direção.

Permiti-me que recorra a esses documentos.

Eis, por exemplo, um trecho da resolução do VII Pleno da Internacional Comunista, realizado em novembro de 1926, isto é, um mês depois do telegrama acima citado:

“Uma peculiaridade original da situação atual é constituída por seu caráter transitório, em que o proletariado tem de escolher entre a perspectiva de um bloco com camadas consideráveis da burguesia e a perspectiva do fortalecimento posterior da sua aliança com os camponeses. Se o proletariado não expuser um programa agrário radical, não conseguirá arrastar os camponeses para a luta revolucionária e perderá a hegemonia do movimento de libertação nacional”(5)

E mais adiante:

“O governo popular de Cantão não se poderá manter no poder durante a revolução, não poderá obter o triunfo completo sobre o imperialismo estrangeiro e sobre a reação indígena, enquanto a causa da libertação nacional não estiver identificada com a revolução agrária”(6) (v. a resolução do VII Pleno Ampliado do Comitê Executivo da Internacional Comunista).

Aí está, pois, um documento que define realmente a linha da direção da Internacional Comunista.

É muito estranho que os líderes da oposição silenciem sobre esse documento da Internacional Comunista, conhecido de todos.

Talvez não seja imodéstia recorrer ao meu discurso pronunciado na Comissão Chinesa da Internacional Comunista em novembro do mesmo ano de 1926, a qual elaborou, evidentemente não sem a minha participação, a resolução sobre o problema chinês, aprovada pelo VII Pleno Ampliado. Esse discurso foi publicado mais tarde em folheto à parte, sob o título de Sobre as perspectivas da revolução na China. Eis alguns parágrafos desse discurso:

Sei que, entre os membros do Kuomintang e também entre os comunistas chineses, existem pessoas que não consideram possível o desencadeamento da revolução nos campos, temerosas de que a incorporação dos camponeses à revolução solape a frente única anti-imperialista. Isso é um erro profundo, camaradas. A frente anti-imperialista na China será tanto mais forte e poderosa quanto antes e mais a fundo se incorporem os campônios chineses à revolução”.

E mais adiante:

“Sei que, entre os comunistas chineses, existem camaradas que não consideram convenientes as greves dos operários pela melhoria de sua situação material e jurídica e dissuadem os operários de organizá-las (Uma voz: “Isso aconteceu em Cantão e em Shanghai”). É um grave erro, camaradas. É um profundo desprezo do papel e da importância do proletariado da China. Deve ser assinalado nas teses como manifestação indubitavelmente negativa. Seria grande erro os comunistas chineses não aproveitarem a favorável situação atual para ajudar os operários a melhorar a sua situação material e jurídica, ainda que seja por meio de greves. Para que serviria então a revolução na China?” (v. Stálin, Sobre as perspectivas da revolução na China).

Eis o terceiro documento, do mês de dezembro de 1926, escrito no momento em que a Internacional Comunista se via assediada por informações procedentes de todas as cidades da China, assegurando que o desenvolvimento da luta dos operários conduz à crise, à paralisação do trabalho, ao fechamento das fábricas e oficinas:

“A política geral do recuo nas cidades e de redução da luta dos operários pela melhoria da sua situação é falsa. É necessário desenvolver a luta nos campos, mas, ao mesmo tempo, é necessário aproveitar o momento favorável para melhorar a situação material e jurídica dos operários, procurando-se, por todos os meios, dar um caráter organizado à luta dos operários, excluindo-se os excessos e as antecipações exageradas. Cumpre fazer, com particular empenho, que a luta nas cidades seja dirigida contra as camadas da grande burguesia, e sobretudo contra os imperialistas, com o objetivo de, na medida do possível, manter a burguesia chinesa, pequena e média, na frente única contra o inimigo comum. Consideramos adequado o sistema de juntas de conciliação, tribunais de arbitragem, etc., contanto que fique assegurada uma política operária acertada nessas instituições. Ao mesmo tempo, consideramos necessário advertir que os decretos contra a liberdade de greve, de reunião, etc. são absolutamente inadmissíveis. Em virtude da importância desses problemas, trazei-nos informações com regularidade”.

O quarto documento, redigido um mês e meio antes do golpe de Estado de Chang Kai-Shek, diz:

“É necessário reforçar o trabalho das células do Kuomintang e das células comunistas no exército, organizá- las onde não existam e onde a sua organização seja possível; nos lugares em que não seja possível a organização de células comunistas, é necessário realizar intenso trabalho com a ajuda dos comunistas encobertos.

É necessário orientar-se para o armamento dos operários e camponeses, para a transformação dos comitês camponeses locais em organismos efetivos do Poder, com milícias armadas, etc.

É necessário que o Partido Comunista se manifeste em toda parte como tal; é inadmissível a política de semi- legalidade voluntária; o Partido Comunista não pode manifestar-se como um freio do movimento de massas; o Partido Comunista não deve ocultar a política reacionária e traidora dos elementos de direita do Kuomintang; é necessário mobilizar as massas em torno do Kuomintang e do Partido Comunista chinês, para desmascarar esses elementos.

É necessário chamar a atenção de todos os militantes fiéis à revolução para o fato de que, nas circunstâncias atuais, em relação com o reagrupamento das fôrças de classe e a concentração dos exércitos imperialistas, a revolução chinesa atravessa um período crítico, e as suas vitórias posteriores só serão possíveis orientando-se decididamente para o desenvolvimento do movimento de massas. Caso contrário, um grande perigo ameaçará a revolução. A realização prática das diretivas é, por isso, mais necessária do que nunca”

Mesmo antes, já em abril de 1926, um ano antes do golpe de Estado dos elementos de direita do Kuomintang e de Chang-Kai-Shek, a Internacional Comunista havia advertido o Partido Comunista chinês, indicando-lhe que:

“é necessário levar as coisas no sentido da saída ou da expulsão do Kuomintang dos seus elementos de direita”.

Eis, pois, como entendia e como continua entendendo a Internacional Comunista a tática da frente única contra o imperialismo, na primeira etapa da revolução colonial.

Conhece a oposição a existência desses documentos-diretivas? Naturalmente os conhece. Por que, pois, silencia a respeito desses documentos-diretivas? Porque o que busca são as dissensões e não a verdade.

Houve, entretanto, uma época em que os atuais líderes da oposição, particularmente Zinóviev e Kámenev, entendiam alguma coisa do leninismo e defendiam, no fundamental, a mesma política do movimento revolucionário chinês que a realizada pela Internacional Comunista e que o camarada Lênin nos havia prescrito em suas teses. Refiro-me ao VI Pleno da Internacional Comunista, realizado em fevereiro-março de 1926, quando Zinóviev ainda era presidente da Internacional Comunista, quando ainda era leninista e não havia tido tempo para passar-se para o campo de Trotsky. Refiro-me ao VI Pleno da Internacional Comunista, porque existe uma resolução desse Pleno sobre a revolução chinesa, aprovada por unanimidade em fevereiro-março de 1926, em que se encara a primeira etapa da revolução chinesa — o Kuomintang de Cantão e o governo de Cantão — de modo aproximadamente igual ao encarado pela Internacional Comunista e pelo Partido Comunista da URSS e agora pela oposição abjurado. Refiro-me a essa resolução, porque então Zinóviev votou a favor dela e porque nenhum dos membros do Comitê Central, sem excetuar Trotsky, Kámenev e outros líderes da atual oposição, fez objeção contra ela.

Permiti-me que cite alguns parágrafos dessa resolução.

Eis o que diz a respeito do Kuomintang:

“As greves políticas dos operários chineses de Shanghai e Cantão (junho-setembro de 1925) produziram uma transformação na luta de libertação do povo chinês contra os imperialistas estrangeiros... As ações políticas do proletariado estimularam consideravelmente o desenvolvimento posterior e o fortalecimento de todas as organizações democrático-revolucionárias do país e, antes de tudo, do partido popular revolucionário, o Kuomintang, e do governo revolucionário de Cantão. O Kuomintang, que, em seu núcleo fundamental, atuava em aliança com os comunistas chineses, representa um bloco revolucionário de operários, camponeses, intelectuais e da democracia urbana(7) na base da comunidade de interesses de classe dessas camadas na luta contra os imperialistas estrangeiros e contra toda a ordem militar-feudal, pela independência do país e pelo poder democrático-revolucionário único” (v. a resolução do VI Pleno do Comitê Executivo da Internacional Comunista).

Temos, pois, o Kuomintang de Cantão como uma aliança de quatro classes. Como estais vendo, isso é quase martinovismo(8), consagrado, nada mais nada menos, pelo então presidente da Internacional Comunista, Zinóviev.

Sobre o governo de Cantão, do Kuomintang:

"O governo revolucionário criado em Cantão pelo Kuomintang já conseguiu ligar-se às grandes massas de operários, camponeses e da democracia urbana e, apoiando-se nelas, derrotar os bandos contrarrevolucionários sustentados pelos imperialistas (e realizar um trabalho de democratização radical de toda a vida política da província de Kuang-Tung). Sendo, portanto, a vanguarda na luta do povo chinês pela independência, o governo de Cantão serve de modelo para a futura edificação democrática-revolucionária no país”(9) (v. obra citada).

Desse modo, o governo de Cantão, do Kuomintang, que representava um bloco de quatro classes, era um governo revolucionário, e não somente revolucionário, mas também um modelo para o futuro governo democrático-revolucionário na China.

Sobre a frente única dos operários, camponeses e da burguesia:

“Diante dos novos perigos, o Partido Comunista chinês e o Kuomintang devem desenvolver o mais amplo trabalho político, organizando ações de massas em apoio da luta dos exércitos populares, aproveitando as contradições internas do campo dos imperialistas e opondo-lhes a frente única nacional-revolucionária das mais amplas camadas da população (dos operários, dos camponeses e da burguesia)(10), sob a direção das organizações democrátíco-revolucionárias” (v. obra citada).

Desse modo, nos países coloniais, os blocos e os acordos temporários com a burguesia, numa etapa determinada da revolução colonial, não apenas são admissíveis, mas evidentemente necessários.

Não é isso então muito parecido com o que Lênin indicava em suas conhecidas diretivas a respeito da tática dos comunistas nos países coloniais e dependentes? Só é de lamentar que Zinóviev o tenha esquecido tão cedo.

O problema da saída do Kuomintang:

“Alguns grupos da grande burguesia chinesa, que se haviam agrupado temporariamente em torno do Kuomintang, separaram-se dele no curso do último ano. o que provocou a formação, na ala direita do Kuomintang, de um reduzido grupo que se manifestou abertamente contra a aliança estreita do Kuomintang com as massas trabalhadoras, pela exclusão dos comunistas do Kuomintang e contra a política revolucionária do governo de Cantão. A condenação dessa ala direita no II Congresso do Kuomintang (janeiro de 1926) e a confirmação da necessidade de uma aliança de luta do Kuomintang com os comunistas fortalecem a orientação revolucionária da atividade do Kuomintang e do governo de Cantão e asseguram ao Kuomintang o apoio revolucionário do proletariado”(11) (v. obra citada).

Desse modo, a saída dos comunistas do Kuomintang, na primeira etapa da revolução chinesa, constituía um grave erro. Somente é de lamentar que Zinóviev, que votou a favor de tal resolução, disso se tenha esquecido no fim de apenas um mês, uma vez que não depois de abril de 1926 (no fim de um mês) Zinóviev exigia a saída imediata dos comunistas do Kuomintang.

Sobre os desvios no Partido Comunista chinês e a inadmissibilidade de saltar a fase Kuomintang da revolução:

A autodeterminação política dos comunistas chineses se desenvolverá na luta contra dois desvios igualmente nocivos: contra o liquidacionismo de direita, que despreza as tarefas de classe independente do proletariado chinês e conduz a uma fusão amorfa com o movimento democrático nacional geral, e contra as tendências de extrema esquerda, que procuram saltar a etapa democrático-revolucionária do movimento e passar diretamente às tarefas da ditadura proletária e do Poder Soviético, esquecendo-se dos camponeses(12), esse fator fundamental e decisivo do movimento de libertação nacional na China” (v. obra citada).

Como vedes, temos aqui o necessário para poder acusar agora a oposição também de ter querido saltar a etapa Kuomintang do desenvolvimento na China, de ter menosprezado o movimento camponês, de ter dado um salto precipitado para os Sovietes. Verdadeira pedrada em casa de boticário!

Zinóviev, Kámenev e Trotsky conheciam essa resolução?

É de pensar que a conheciam. Em todo caso, Zinóviev não podia deixar de conhecê-la, uma vez que essa resolução havia sido aprovada sob a sua presidência no VI Pleno da Internacional Comunista e a favor da qual havia votado. Porque então os líderes da oposição iludem agora essa resolução do organismo supremo do movimento comunista mundial? Por que silenciam a seu respeito? Porque essa resolução se volta contra eles em todos os problemas da revolução chinesa. Porque lança por terra toda a orientação trotskista atual da oposição. Porque se afastaram da Internacional Comunista, porque se afastaram do leninismo e, agora, temerosos de seu passado, temerosos de sua própria sombra, se veem obrigados a eludir covardemente a resolução do VI Pleno da Internacional Comunista.

Tal é a situação no que diz respeito à primeira etapa da revolução chinesa.

Passemos agora à segunda etapa.

Se a primeira etapa se caracterizava pelo fato de que o gume da revolução se dirigia fundamentalmente contra o imperialismo estrangeiro, o traço característico da segunda etapa é constituído pelo fato de que a revolução dirige fundamentalmente seu gume contra os inimigos internos, sobretudo contra os feudais, contra o regime feudal. Realizou a primeira etapa sua tarefa de derrotar o imperialismo estrangeiro? Não, não a realizou. Deixou a realização como herança à segunda etapa da revolução chinesa. A primeira etapa não deu mais do que o primeiro impulso às massas revolucionárias contra o imperialismo e terminou sua carreira abandonando esse encargo ao futuro.'É de supor-se que tampouco a segunda etapa poderá resolver por completo a tarefa de expulsar os imperialistas. Essa etapa dará novo impulso às grandes massas de operários e camponeses chineses contra o imperialismo» mas o fará para transmitir o coroamento dessa empresa à etapa seguinte da revolução chinesa, à etapa soviética. E isso não tem nada de estranho. Então não se sabe que na história de nossa revolução houve fatos análogos, embora em outra situação e em outras circunstâncias? Não se sabe que a primeira etapa de nossa revolução não realizou integralmente sua tarefa de completar a revolução agrária, mas transmitiu tal tarefa à etapa seguinte da revolução, à Revolução de Outubro, que resolveu plena e integralmente a tarefa de extirpar pela raiz as sobrevivências feudais? Por isso, não há nada de estranho que na segunda etapa, da revolução chinesa não se consiga completar a revolução agrária, e que essa segunda etapa, ao mobilizar as massas de milhões de camponeses e ao levantá- las contra as sobrevivências feudais, transmita o coroamento da empresa à etapa seguinte da revolução, à etapa soviética. E isso não constituirá mais do que um fato favorável para a futura revolução soviética na China.

Qual era a missão dos comunistas na segunda etapa a revolução na China, quando o centro do movimento revolucionário se havia manifestamente deslocado de Cantão a Wu-Tchang, e quando, ao lado do centro revolucionário em Wu-Tchang, se criara um centro contrarrevolucionário em Nanquim? Aproveitar em tudo a possibilidade de organizar abertamente o Partido, o proletariado (sindicatos), os camponeses (uniões camponesas), a revolução em geral; impelir para a esquerda, para a revolução agrária, os membros do Kuomintang de Wu-Tchang; converter o Kuomintang de Wu-Tchang no centro da luta com a contrarrevolução e no núcleo da futura ditadura democrático-revolucionária do proletariado e dos camponeses.

Era acertada essa política? Os fatos demonstraram que era a única política acertada, capaz de educar as grandes massas de operários e camponeses no espírito do desenvolvimento posterior da revolução.

A oposição exigia naquele momento a formação imediata de Sovietes de deputados operários e camponeses. Mas isso representava, um espírito aventureiro, uma antecipação aventureira, uma vez que a formação imediata de Sovietes teria significado então, saltar a fase do desenvolvimento correspondente ao Kuomintang de esquerda. Por que? Porque o Kuomintang de Wu-Tchang, que mantinha aliança com os comunistas, ainda não havia tido tempo de desacreditar-se e desmascarar-se aos olhos das grandes massas de operários e camponeses, ainda não havia tido tempo de esgotar suas possibilidades como organização burguesa revolucionária; porque lançar a palavra de ordem dos Sovietes e da derrocada do governo de Wu-Tchang, no momento em que as massas ainda não se haviam convencido, por sua própria experiência, da inutilidade desse governo, da necessidade de sua derrocada, significava antecipar-se, isolar-se das massas, privar-se do apoio das massas e fazer fracassar, desse modo, a obra iniciada. A oposição considera que, se compreendeu a insegurança, a instabilidade e o insuficiente espírito revolucionário do Kuomintang de Wu-Tchang (coisa fácil de compreender para qualquer militante politicamente qualificado), é capaz de fazer que também as massas compreendam tudo isso, é capaz de substituir o Kuomintang pelos Sovietes e arrastar as massas consigo. Mas esse é o habitual erro ultra-esquerdista da oposição, que toma sua própria consciência e compreensão pela consciência e compreensão das massas de milhões de operários e camponeses. A oposição tem razão quando diz que o Partido deve marchar para diante. Essa á uma tese corrente do marxismo, e sem observância dela não existe nem pode existir um verdadeiro Partido Comunista. Mas isto não é mais que uma parte da verdade. A verdade inteira consiste em que o Partido não apenas deve marchar para diante, mas também arrastar consigo as grandes massas. Marchar para diante sem arrastar as grandes massas significa, de fato, ficar-se para trás do movimento, ficar-se à retaguarda do movimento. Marchar para diante separando-se da retaguarda, não sabendo levar consigo a retaguarda, significa cometer um erro capaz de fazer fracassar o movimento de avanço das massas durante determinado período. A direção leninista consiste precisamente em que a vanguarda saiba arrastar atrás de si a retaguarda, em que a vanguarda marche para diante sem se separar das massas. Mas para que a vanguarda não possa separar-se das massas, para que a vanguarda possa conduzir efetivamente atrás de si as grandes massas, para isso se requer uma condição decisiva, e essa é exatamente que as próprias massas se convençam, por sua própria experiência, do acerto das indicações, diretivas e palavras de ordem da vanguarda. A infelicidade da oposição consiste exatamente em que não reconhece essa simples regra leninista de direção das grandes massas, não compreendendo que o Partido sozinho, o grupo de vanguarda sozinho, sem o apoio das grandes massas, não se acha em estado de fazer a revolução, que a revolução "se faz", afinal, pelas massas de milhões de trabalhadores.

Por que, em abril de 1917, nós, os bolcheviques, não lançamos a palavra de ordem prática de deposição do Governo provisório e do estabelecimento do Poder Soviético, apesar de estarmos convencidos de que, em futuro próximo, nos encontraríamos diante da necessidade de depor o Governo provisório e instaurar o Poder Soviético? Porque as grandes massas trabalhadoras, tanto na retaguarda como na frente, e mesmo os próprios Sovietes não estavam ainda em condições de assimilar essa palavra de ordem, acreditavam ainda no caráter revolucionário do Governo provisório. Porque o Governo provisório não havia tido tempo de comprometer-se e desacreditar-se pelo apoio à contrarrevolução na retaguarda e na frente. Por que, em abril de 1917, em Leningrado, estigmatizou Lênin o grupo de Bogdátiev, que havia lançado a palavra de ordem da deposição imediata do Governo provisório e da instauração do Poder Soviético? Porque a tentativa de Bogdátiev constituía uma antecipação perigosa, que ameaçava isolar o Partido bolchevique das massas de milhões de operários e camponeses.

Aventurismo em política, bogdatievismo nos problemas referentes à revolução chinesa: eis o que mata hoje em dia a nossa oposição trotskista.

Zinóviev diz que, ao falar do bogdatievismo, eu identifico a atual revolução chinesa com a Revolução de Outubro. Evidentemente isso é um absurdo. Em primeiro lugar, em meu artigo Notas sobre temas atuais, eu fazia a reserva de que, “nesse caso, a analogia é convencional”, e que “a admito unicamente com todas as reservas necessárias, se temos presente a diferença de situações entre a China de nossos dias e a Rússia de 1917”. Em segundo lugar, seria absurdo afirmar que, em geral, não se possa fazer analogias com revoluções de outros países ao caracterizar tais ou quais correntes, tais ou quais erros na revolução de determinado país. Porventura a revolução de um país não aprende com as revoluções de outros países, mesmo no caso de que essas revoluções não sejam do mesmo tipo? A que ficou reduzida então a ciência da revolução? No fundo, Zinóviev nega a possibilidade de uma ciência da revolução. Não constitui porventura uma verdade que, no período que precedeu a Revolução de Outubro, Lênin acusava Tchzheídse, Tsereteli, Steklov e outros de “luís-blanquismo” da revolução francesa de 1848? Estudai o artigo de Lênin O luís-blanquismo e vereis como Lênin utilizava amplamente as analogias tomadas à revolução francesa de 1848, ao caracterizar os erros desses ou daqueles homens políticos antes de Outubro, se bem que Lênin soubesse perfeitamente que a revolução francesa de 1848 e a nossa Revolução de Outubro não eram revoluções do mesmo tipo. E se se pode falar do “luís-blanquismo” de Tchzheídse e Tsereteli no período que precede a Revolução de Outubro, por que não se poderá falar do “bogdatievismo” de Zinóviev e de Trotsky no período da revolução agrária na China?

A oposição afirma que Wu-Tchang não foi o centro do movimento revolucionário. Mas por que Zinóviev afirmava então que era “preciso ajudar por todos os meios” o Kuomintang de Wu-Tchang, com o objetivo de convertê-lo no centro da luta contra os Cavaignacs chineses? Por que motivo era o território de Wu-Tchang e não qualquer outro o que se convertera no centro do desenvolvimento máximo do movimento agrário? Não é verdade que foi precisamente o território de Wu-Tchang (Hu-Nan, Hu-Peh), em princípios deste ano, o centro do desenvolvimento máximo do movimento agrário? Por que motivo Cantão, onde não existiu um movimento agrário de massas, pode ser chamado “o quartel-general da revolução” Trotsky), enquanto Wu-Tchang, em cujo território se iniciou e desenvolveu a revolução agrária, não pode ser considerado o centro, o “quartel-general” do movimento revolucionário? Como explicar, no presente caso, que a oposição tenha exigido que se deixasse o Partido Comunista no seio do Kuomintang de Wu-Tchang e do governo de Wu-Tchang? Porventura era a oposição partidária, em abril de 1927, de um bloco com o Kuomintang “contrarrevolucionário” de Wu-Tchang? De onde provém essa “amnésia” e essa confusão da oposição?

A oposição se regozija de que o bloco com o Kuomintang de Wu-Tchang tenha tido uma vida efêmera, afirmando, ao mesmo tempo, que a Internacional Comunista não havia prevenido o Partido Comunista chinês da possibilidade do fracasso do Kuomintang de Wu-Tchang. Somente vale a pena demonstrar que o regozijo da oposição não faz mais do que testemunhar a sua bancarrota política. Ao que parece, a oposição supõe que os blocos com a burguesia nacional nos países coloniais hão de ser duradouros. Mas isso apenas podem supor pessoas que hajam perdido os últimos vestígios do leninismo. Se os senhores feudais e o imperialismo são, na China, na etapa atual, mais fortes do que a revolução, se a pressão dessas fôrças adversas levou o Kuomintang a desviar-se para a direita e a uma derrota temporária da revolução chinesa, apenas podem regozijar-se por isso pessoas contagiadas de derrotismo. No que diz respeito à afirmação da oposição de que a Internacional Comunista não advertiu o Partido Comunista Chinês quanto à possibilidade do fracasso do Kuomintang de Wu-Tchang, trata-se de uma das calúnias habituais de que está cheio atualmente o arsenal da oposição.

Permiti-me citar alguns documentos para refutar as calúnias da oposição.

Primeiro documento, de maio de 1927;

“O principal, agora, na política interna do Kuomintang, é o desenvolvimento sistemático da revolução agrária em todas as províncias, incluindo principalmente a de Kuang-Tung, sob a palavra de ordem de “Todo o Poder aos comitês e uniões de camponeses nos campos”. Nisso reside a base dos êxitos da revolução e do Kuomintang. Nisso reside a base da criação na China de um grande e poderoso exército político e militar contra o imperialismo e seus agentes. A palavra de ordem prática da confiscação das terras é inteiramente oportuna para as províncias abrangidas por um grande movimento agrário, como Hu-Nan, Kuang-Tung, etc. Sem isso é impossível o desenvolvimento da revolução agrária(13)...

É necessário começar a organizar, desde já, 8 ou 10 divisões formadas por camponeses e operários revolucionários, com comandos absolutamente seguros. Essa será a guarda de Wu-Tchang, tanto nas frentes como na retaguarda, para desarmar as unidades pouco seguras. Isso não admite demora alguma.

É preciso reforçar o trabalho na retaguarda e nas unidades de Chang-Kai-Shek para decompô-las e ajudar os camponeses sublevados em Kuang-Tung, onde é particularmente intolerável o poder dos latifundiários”.

Segundo documento, de maio de 1927:

Sem uma revolução agrária é impossível a vitória. Sem ela o Comitê Central do Kuomintang se converterá em vil joguete nas mãos de generais pouco seguros. É preciso lutar contra os excessos, mas não com tropas, e sim através das uniões camponesas. Somos resolutamente pela apropriação efetiva da terra desde baixo. Os temores relativos à viagem de Tang-Ping-Sian têm certo fundamento.(14) Não deveis separar-vos do movimento operário e camponês, mas colaborar com ele por todos os meios. No caso contrário, poreis a perder toda a empresa.

Alguns velhos líderes do Comitê Central do Kuomintang temem os acontecimentos, vacilam, inclinam-se ao compromisso. É preciso incorporar ao Comitê Central do Kuomintang o maior número possível de líderes operários e camponeses novos, da base. Sua voz audaciosa fará com que os velhos sejam resolutos ou os porá de lado. É preciso modificar a atual composição do Kuomintang. É absolutamente necessário arejar as altas esferas do Kuomintang e completá-las com os novos líderes que se tenham destacado na revolução agrária; a periferia tem que ser ampliada na base dos milhões de membros das uniões operárias e camponesas. Sem isso o Kuomintang corre o perigo de afastar-se da vida real e de perder toda a autoridade.

É preciso liquidar a dependência para com generais pouco seguros. Mobilizai uns vinte mil comunistas, acrescentai uns cinquenta mil operários e camponeses revolucionários de Hu-Nan e Hu-Peh, formai alguns corpos de exército novos, utilizai os alunos das escolas de oficiais e organizai, antes que seja tarde, um exército próprio e seguro. Sem isso não existem garantias contra o fracasso. É uma empresa difícil, mas não há outro caminho.

Organizai um tribunal militar revolucionário, com membros destacados do Kuomintang, não comunistas, à frente. Castigai os oficiais que mantenham contacto com Chang-Kai-Shek ou que atiram os soldados contra o povo, contra os operários e os camponeses. Não é possível limitar-se unicamente à persuasão. É hora de começar a atuar. É preciso castigar os canalhas. Se os membros do Kuomintang não aprenderem a ser jacobinos revolucionários, sucumbirão para o povo e para a revolução”.(15)

Como vedes, a Internacional Comunista previu os acontecimentos, assinalou a tempo os perigos e advertiu os comunistas chineses da morte do Kuomintang de Wu Tchang no caso de que os membros do Kuomintang não soubessem converter-se em jacobinos revolucionários.

Kámenev dizia que a política da Internacional Comunista é culpada da derrota da revolução chinesa, que “formamos os Cavaignacs da China”. Camaradas, apenas pode falar assim de nosso Partido uma pessoa disposta a cometer um crime contra o Partido. Assim falavam os mencheviques a respeito dos bolcheviques no período da derrota de julho de 1917, quando apareceram em cena os Cavaignacs russos. Lênin escrevia, em seu artigo A propósito das palavras de ordem, que a derrota de julho constitui a “vitória dos Cavaignacs”. Os mencheviques alegravam-se malignamente, afirmando então que a política de Lênin tinha a culpa do aparecimento dos Cavaignacs russos. Acredita acaso Kámenev que foi a política de nosso Partido, e não outra coisa, culpada pelo aparecimento dos Cavaignacs russos no período da derrota de julho de 1917? Considera Kámenev decente imitar os senhores mencheviques no caso atual? (Risos) Eu não acreditava que os homens da oposição pudessem descer tanto... Sabe-se que a revolução de 1905 sofreu uma derrota, e que, além disso, essa derrota foi mais profunda do que a atual derrota da revolução chinesa. Os mencheviques diziam então que a tática demasiadamente revolucionária dos bolcheviques tinha a culpa da derrota da revolução de 1905. Não pensa Kámenev tomar também aqui por modelo a interpretação menchevique da história de nossa revolução e atirar a pedra aos bolcheviques? Como explicar a derrota da República Soviética da Baviera? Talvez pela política de Lênin e não pela correlação das fôrças de classe? Como explicar a derrota da República Soviética da Hungria? Talvez pela política da Internacional Comunista e não pela correlação das fôrças de classe? Como é possível afirmar que a tática de tal ou qual partido pode eliminar ou inverter a correlação das fôrças de classe? Era ou não acertada a nossa política em 1905? Por que fomos então derrotados? Porventura os fatos não dizem que, com a política da oposição, a revolução na China seria derrotada mais rapidamente do que o foi realmente? Que qualificativo merecem as pessoas que esquecem a correlação de fôrças de classe durante a revolução e tentam explicar tudo exclusivamente pela tática de tal ou qual partido? Dessas pessoas apenas cabe dizer uma coisa: que romperam com o marxismo.

Conclusões

Principais erros da oposição:

  1. A oposição não compreende o caráter nem as perspectivas da revolução chinesa.
  2. A oposição não vê a diferença entre a revolução na China e a revolução na Rússia, entre a revolução nos países coloniais e a revolução nos países imperialistas.
  3. A oposição rompe com a tática leninista no terreno das relações com a burguesia nacional nos países coloniais, na primeira etapa da revolução.
  4. A oposição não compreende o problema da participação dos comunistas no Kuomintang.
  5. A oposição viola os princípios da tática leninista no problema das relações entre a vanguarda (o Partido) e a retaguarda (as massas de milhões de trabalhadores).
  6. A oposição rompe com as resoluções dos Plenos VI e VII da Internacional Comunista.

A oposição elogia entusiasticamente sua política em relação ao problema chinês, afirmando que, com essa política, estariam agora melhores as coisas na China. Releva demonstrar que, com erros tão grosseiros cometidos pela oposição, o Partido Comunista chinês se teria metido num atoleiro, caso houvesse adotado a política aventureira e anti-leninista da oposição. Se o Partido Comunista da China, em breve prazo, cresceu e converteu-se de um pequeno grupo de duas mil pessoas, num partido de massa de 60 mil filiados; se o Partido Comunista chinês conseguiu, durante esse tempo, organizar em sindicatos cerca de três milhões de proletários; se o Partido Comunista chinês conseguiu sacudir o letargo de uma classe camponesa de muitos milhões de homens e incorporar dezenas de milhões de camponeses às uniões camponesas revolucionárias; se o Partido Comunista chinês conseguiu, durante esse tempo, atrair para seu lado regimentos e divisões inteiros, constituídos por fôrças nacionais; se o Partido Comunista chinês conseguiu, durante esse tempo, transformar de desejo em realidade a ideia da hegemonia do proletariado; se o Partido Comunista chinês conseguiu em breve prazo todas essas conquistas, isso se explica, entre outras causas, pelo fato de que seguiu o caminho traçado por Lênin, o caminho marcado pela Internacional Comunista.

Nem se pode dizer que, com a política da oposição, com seus erros, com sua orientação anti-leninista nos problemas da revolução colonial, essas conquistas da revolução chinesa não teriam existido de todo ou se teriam reduzido ao mínimo.

Apenas os renegados e aventureiros ultra-esquerdistas podem duvidar disso.

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Notas de rodapé:

(1) Grifado por mim. — J. St. (retornar ao texto)

(2) Grifado por mim. — J. St. (retornar ao texto)

(3) Grifado por mim. — J. St. (retornar ao texto)

(4) Grifado por mim. — J. St. (retornar ao texto)

(5) Grifado por mim. —J. St. (retornar ao texto)

(6) Grifado por mim. —J. St. (retornar ao texto)

(7) Grifado por mim. (retornar ao texto)

(8) Martinovismo: de A. Martinov (ex-menchevique, admitido pelo XII Congresso nas fileiras do PC(b) da URSS). Em um de seus artigos sobre o problema da revolução chinesa, A. Martinov expôs a tese da transição pacífica para a ditadura do proletariado, “sem um choque decisivo ou uma luta aguda com o poder existente, sem uma segunda revolução”. Os trotskistas e os zinovíevistas procuravam por todos os meios, e com o propósito de provocação, fazer recair sobre a direção da Internacional Comunista e do PC(b) da URSS a responsabilidade dessa tese errônea de A. Martinov. (retornar ao texto)

(9) Grifado por mim. — J. St. (retornar ao texto)

(10) Grifado por mim. — J. St. (retornar ao texto)

(11) Grifado por mim. — J. St. (retornar ao texto)

(12) Grifado por mim. — J. St. (retornar ao texto)

(13) Grifado por mim. (retornar ao texto)

(14) Como Ministro da Agricultura do governo de Wu-Hchang, em 1927, Tang-Ping-Sian procurava entorpecer por todos os meios o desenvolvimento da revolução agrária na China. Mais tarde foi expulso do Partido Comunista e se passou para as fileiras da contrarrevolução. (retornar ao texto)

(15) Grifado por mim. — J. St. (retornar ao texto)

Inclusão 30/10/2013
Última alteração 30/04/2014