Trotsky e o Trotskismo


Trotsky e os Sindicatos


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Durante os anos da guerra civil, o Partido levantou-se muitas vezes contra Trotsky.

Todas as-operações decisivas do Exército Vermelho que levaram à derrota de Koltchak, Denikine e outros guardas-brancos, foram conduzidas contra os planos de Trotsky. Só se esmagou Koltchak desde que a proposta de Trotsky de suspender a ofensiva contra Koltchak foi rejeitada e que o CC, com Lenine à cabeça, tomou a resolução de mobilizar as forças necessárias para atacar os guardas-brancos na frente oriental.

Do mesmo modo, só desde que Lenine confirmou, no Outono de 1919, o plano de operações contra Denikine, proposto por Staline, e que se afastou completamente Trotsky da direção das operações na frente Sul, é que Denikine foi derrotado.

O mesmo se passou em numerosas outras questões relativas à luta armada do proletariado da República Soviética. A criação de um poderoso Exército Vermelho, as vitórias heroicas deste exército, a derrota dos guardas-brancos, tudo isso se deve à direção de Lenine e de Staline, à sua luta contra o trotskismo.

Em fins de 1920, na véspera da nova política económica, surgiu no Partido uma discussão sobre o papel dos sindicatos. E, também aí, Trotsky encabeçou a luta contra Lenine. Propôs «estatizar os sindicatos», isto é, transformá-los em simples apêndices do aparelho de Estado.

Negando o papel dos sindicatos que Lenine. considerava como uma escola do comunismo, Trotsky destruía um dos principais fundamentos da ditadura do proletariado. Lenine dizia que a política de Trotsky tendente a estatizar e a «sacudir» os sindicatos só conduziria e uma cisão entre o Partido Comunista e os sindicatos e desligaria destes as massas trabalhadores. É o que Lenine explica nas passagens seguintes:


Sobre os Sindicatos, o Momento Presente e o Erro do Camarada Trotsky


I

Tratando do papel dos sindicatos na produção, Trotsky comete um erro fundamental: fala constantemente do «princípio geral». Em todas as suas teses, foca a questão sob o ângulo do «principio geral». Esta é uma forma de proceder radicalmente errônea. O IX Congresso do Partido já falou mais do que o necessário sobre o papel dos sindicatos na produção...

O erro capital de Trotsky consiste em puxar para trás o Partido Soviético, pondo agora a questão de «princípio». Graças a Deus, já passámos dos princípios ao trabalho prático, ativo. Em Smolny(1) perorámos sobre os princípios, e algo mais do que teria sido necessário. Agora, três anos depois, temos, relativamente aos elementos constitutivos da questão da produção, decretos que, infelizmente, assinámos para logo a seguir nós próprios os esquecermos e não os aplicarmos. E, depois, pomo-nos a inventar desacordos de principio. Mais adiante, referirei um decreto relativo ao papel dos sindicatos na produção, decreto que todos esquecemos, mesmo eu, tenho de confessá-lo.

Os desacordos reais existentes, abstraindo os que enumerei, não têm absolutamente nada a ver com os princípios gerais. Eu próprio tive de enumerar os meus «desacordos» com Trotsky, pois, neste vasto assunto: papel, tarefas dos sindicatos, acho que Trotsky caiu numa série de erros ligados à própria essência da questão da ditadura do proletariado. Mas, abstraindo disso, porque é que não temos essa coordenação do trabalho que nos é tão necessária? Devido a um desacordo sobre os métodos a empregar para abordar as massas, para exercer uma influência preponderante sobre as massas, para se ligar com as massas. E isso é precisamente a particularidade dos sindicatos, enquanto instituição criada sob o capitalismo, necessária no período de transição do capitalismo ao comunismo e cuja existência, mais tarde, é problemática. Mas «mais tarde», é o futuro longínquo e são os nossos netos que terão de resolver esta questão. Agora, trata-se de abordarmos a massa, de a conquistarmos; de nos ligarmos a ela, de regularmos o mecanismo complexo do trabalho para a realização da ditadura do proletariado.

Aqui, Trotsky comete um erro. Da sua teoria, ressalta que a defesa dos interesses materiais e espirituais do operário não incumbe aos sindicatos no Estado operário. Isto é um erro. Trotsky fala do «Estado operário». Se me permitem, isso é uma abstracção. Quando, em 1917, falávamos do Estado operário, era compreensível; mas agora, quando alguém nos diz: «Porquê, contra quem è que se defende-a classe operária, pois já não há burguesia, pois o Estado é operário», comete aí um erro evidente. O Estado não é absolutamente operário, eis o busílis. Este é um dos erros fundamentais de Trotsky. Agora, passamos dos princípios gerais à ação prática e aos decretos, e há quem tente fazer-nos andar para trás. É inadmissível...

Vou terminar. Considerando tudo isto, acho que é um grande erro submeter todas estas divergências de perspectivas a uma discussão alargada no Partido e apresentá-las no Congresso do PCR. Politicamente, isso é um erro. Teríamos podido entregar-nos a um exame prático, unicamente em comissão, e teríamos progredido, enquanto que, agora, andamos para trás e, durante algumas semanas, continuaremos a andar para trás, para teses abstratas, em vez de abordarmos praticamente a questão.

Além disso, as teses de Trotsky e de Bukharin(2) enfermam de toda uma série de erros teóricos fundamentais, Politicamente, esta forma de encarar a questão denota uma falta de tacto extraordinária. As «teses» da Trotsky são politicamente nocivas. A sua política é uma política que consiste em sacudir fortemente os sindicatos de um modo burocrático. E o Congresso do nosso Partido, estou certo, condenará e rejeitará essa política.

28 de Dezembro de 1920.
V. I. Lenine: «Sobre os sindicatos, o momento presente e os erros do camarada Trotsky».
Obras completas, tomo XXVI, pp. 65-81, ed. r.

★ ★ ★
II

Trotsky declara que a sua brochura Papel e tarefas dos sindicatos é «fruto de um trabalho colectivo», que «numerosos militantes responsáveis nela colaboraram (particularmente de entre os membros do bureau do Conselho central dos sindicatos, do Comité central dos metais, do Comité central dos transportes, etc...)», que se trata de uma «brochura-plataforma». No fim da tese quatro, diz-se que «o próximo Congresso do Partido terá de escolher entre duas tendências no movimento sindical».

Se não se trata aqui da criação por um membro do CC de uma fracção, então que Bukharin ou os seus adeptos expliquem ao Partido o sentido da palavra russa «fracção»! Será possível imaginar uma cegueira mais monstruosa que a das pessoas que querem desempenhar o papel de «grupo-tampão» e fecham obstinadamente os olhos a esta tendência para o «fraccionismo»?

Pensemos um pouco: após duas reuniões plenárias do Comité Central (9 de Novembro e 7 de Dezembro) consagradas a uma longa e ardente discussão do seu primeiro projecto de teses e de toda a sua política sindical, Trotsky, isolado entre os dezenove membros do Comité Central, recruta um grupo fora do CC, erige o «trabalho colectivo» deste grupo em «plataforma» e propõe ao Congresso do Partido «escolher entre duas tendências»! Diga-se de passagem, que o fato de Trotsky, em 25 de Dezembro de 1920, falar apenas de duas tendências, quando, já em 9 de Novembro, Bukharin intervinha como «tampão», mostra bem o verdadeiro papel do grupo Bukharin, que se faz cúmplice do pior fraccionismo. Mas eu pergunto a todos os membros do Partido: uma tal ofensiva, uma semelhante intimação para que se escolha entre duas tendências no movimento sindical, não é de ficar estupefacto? Na verdade, é penoso pensar que, depois de três anos de ditadura do proletariado, se tenha podido encontrar um membro do Partido capaz de desencadear um semelhante ataque na questão do movimento sindical...

Voltem a ler atentamente estes raciocínios e reflictam. As «pérolas» abundam aqui.

Vejam primeiramente o carácter nitidamente «fraccionista» deste discurso. Imaginem os clamores que Trotsky teria levantado se Tomsky tivesse publicado uma plataforma e o tivesse acusado, a ele Trotsky, e a outros militantes do exército, de desenvolver o burocratismo, de manter sobrevivências bárbaras, etc.? Como qualificar o papal de Bukharin, Préobrazhenski, Serebriakov e outros, que não vêem aqui nenhuma violência, nenhum «fracclonismo»?

Em segundo lugar, reflitam nesta forma de tratar a questão. Muitos militantes sindicais «cultivam no seu meio um certo espírito». Isto é burocratismo puro. Para Trotsky, o que importa, não é o grau de desenvolvimento e as condições de vida das massas, é o «espírito» que Tomsky e Losovsky «cultivam no seu meio».

Em terceiro lugar, Trotsky, desta vez, desvendou involuntariamente o fundo da discussão que, até aqui, com a ajuda de Bukharin e consortes, procurava cuidadosamente iludir, dissimular.

O fundo da discussão, a razão da luta consiste no fato de numerosos militantes sindicais se recusarem a aceitar as novas tarefas e métodos e cultivarem no seu meio uma certa inimizade em relação ao novos militantes?

Ou consiste no fato de a massa dos operários sindicalizados protestar com razão e ameaçar «correr» com estes novos militantes que não querem pôr fim aos nocivos excessos do burocratismo?

O fundo da discussão está no fato de existirem pessoas que não querem compreender as «novas tarefas e métodos»? Ou está antes no fato de algumas pessoas tentarem, com belas palavras sobre as novas tarefas e métodos, dissimular a sua defesa de certos excessos burocráticos nocivos?

Que o leitor não esqueça o fundo desta discussão.

«A democracia operária não conhece fetiches», escreve Trotsky nas suas teses, que são o «fruto de um trabalho colectivo». «Ela apenas conhece a lógica revolucionária» (tese 23).

Trotsky é muito infeliz com as teses: o que elas contêm de exato não é novo e volta-se contra ele, e o que contêm de novo é completamente falso...

Do ponto de vista democrático formal, Trotsky tinha o direito de apresentar uma plataforma de fracção, mesmo contra todo o CC isso é indiscutível. É igualmente indiscutível que o CC tem o direito formal de confirmar a sua decisão de 24 de Dezembro de 1920 sobre a liberdade de discussão. Bukharin reconhece a Trotsky este direito formal, mas não o reconhece à organização de Petrogrado, provavelmente porque, em 30 de Dezembro de 1920, chegou a falar da «palavra de ordem sagrada da democracia operária...»

Sob o pretexto de pôr no primeiro plano o ponto de vista económico (Trotsky), ou de ultrapassar a estreiteza do ponto de vista político e aliar este último ao ponto de vista económico (Bukharin), chega-se:

  1. — A esquecer o marxismo, como o demonstra a definição eclética e falsa que se deu da relação entre a política e a economia;
  2. — A defender ou a esconder o erro político que se exprime por intermédio da política do «sacudir profundamente» e de que toda a brochura-plataforma de Trotsky está impregnada. Ora, esse erro, se não for rectificado, conduz ao afundamento da ditadura do proletariado;
  3. — Ao regredir no domínio das questões puramente económicas, referentes aos meios de aumentar a produção. Das teses sensatas de Rudzutak, que põe problemas práticos, concretos, vitais (desenvolvimento da propaganda em favor da produção, repartição racional dos prémios em espécie, emprego justificado da força sob a forma de tribunais disciplinares compostos de operários da mesma empresa), chegou-se a teses abstractas, «vazias», teoricamente errôneas, a fórmulas de intelectuais que não têm em nenhuma conta o lado prático da questão...

As divergências de perspectivas que se manifestaram no seio do CC obrigaram-nos a dirigir-nos ao Partido.

A discussão mostrou claramente o fundo e a extensão dessas divergências, Não há razão para rumores mentirosos e para calúnias. O Partido educa-se e tempera-se na luta contra a nova doença do fraccíonismo (digo «nova» porque desde a Revolução de Outubro tínhamos esquecido a sua existência). Em suma, é uma velha doença, cujas recaídas são ainda muito prováveis durante alguns anos, mas de que agora nos temos de curar com facilidade e rapidez...

No espaço de um mês, Petrogrado, Moscovo e toda uma série de cidades da província mostraram já que o Partido respondeu à discussão e rejeitou por uma maioria esmagadora a linha errônea de Trotsky.

24 de Janeiro de 1921.
V. I. Lenine: «Uma vez mais sobre os sindicatos, o momento presente e os erros de Trotsky e Bukharin»,
Obras completas, tomo XXVI, PP. 114-115, ed. r.

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Notas de rodapé:

(1) Quartel-general do Soviete e dos bolcheviques em Petrogrado durante as jornadas de Outubro. (Nota da edição francesa.) (retornar ao texto)

(2) Na discussão sindical, Bukharin ocupava uma posição intermediária entre a de Lenine e a de Trotsky. (Nota da edição francesa.) (retornar ao texto)

Inclusão 22/06/2014