O “Terceiro Período” dos Erros da Internacional Comunista(*)

Leon Trotsky

8 de Janeiro de 1930


Primeira Edição: The Militant, 25 de janeiro, 22 de fevereiro de 1930. Apesar deste trabalho ter data de 8 de janeiro de 1930, seus três primeiros capítulos apareceram nos jornais com data de 18, 22 e 27 de dezembro de 1929, respectivamente.
Fonte: Escritos de León Trotsky (1929-1940), publicado en disco compacto. Buenos Aires,
Tradução: do espanhol Victor Pixinga
HTML: Fernando A. S. Araújo.
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1. O que é a radicalização das massas?

Para a Internacional Comunista, a radicalização das massas passou a ser uma profissão de fé carente de conteúdo, e não a caracterização de um processo. Os comunistas autênticos — nos ensina l’Humanité — devem reconhecer o papel dirigente que deve jogar o partido e a radicalização das massas. Não tem sentido colocar o problema desta maneira. O papel dirigente que deve jogar o partido é um princípio intocável para todos os comunistas. Quem não o aceita é um anarquista ou um confucionista, jamais um comunista, ou seja um revolucionário proletário. Mas em si a radicalização não é um princípio senão uma caracterização do estado de ânimo das massas. Corresponde ou não essa caracterização ao período em questão? Há que se buscar as respostas nos fatos. Para avaliar corretamente o estado de ânimo das massas é mister utilizar os critérios adequados. Que é a radicalização? Como se manifesta? Quais são suas características? Qual é o ritmo do processo, em que direção aponta? A péssima direção do Partido Comunista Francês nem sequer se coloca estas questões. No máximo fará uma referência ao incremento das greves em um artigo editorial ou em algum discurso. Mas, ainda neste caso, só se cita as cifras, sem uma análise séria, nem sequer uma comparação com as cifras dos anos anteriores.

Essa atitude frente ao problema surge não só das malfadadas resoluções do Décimo Plenário do CEIC, senão também do próprio programa da Internacional Comunista. A radicalização das massas aparece descrita como um processo contínuo: as massas são hoje mais revolucionárias que ontem, amanhã serão mais revolucionárias que hoje. Semelhante mecanicismo não corresponde ao verdadeiro processo de desenvolvimento do proletariado nem da sociedade capitalista em seu conjunto. Mas sim corresponde perfeitamente à mentalidade dos Cachins, dos Monmousseaus(1) e demais oportunistas temerosos.

Os partidos socialdemocratas, sobretudo no pré-guerra, vislumbravam um futuro com um contínuo incremento de votos socialdemocratas, que aumentariam sistematicamente até o limite da tomada do poder. Para um pensador vulgar ou um pseudo-revolucionário, esta perspectiva mantém toda sua vigência; só que ao invés de falar de um contínuo incremento dos votos, fala da contínua radicalização das massas. Esta concepção mecanicista se apoia também no programa StalinBukhárin da Internacional Comunista. Não é demais dizer que, desde a perspectiva de nossa época de conjunto, o proletariado segue um processo que avança rumo à revolução. Mas não se trata de uma progressão ininterrupta, como não o é o processo objetivo de agudização das contradições capitalistas. Os reformistas(2) só veem o ascenso do capitalismo. Os “revolucionários” formais só veem suas baixas. Mas o marxista contempla o processo em seu conjunto, com todos seus altos e baixos conjunturais, sem perder jamais de vista sua dinâmica principal: as catástrofes bélicas, as explosões revolucionárias.

O estado de ânimo político do proletariado não muda automaticamente em uma mesma direção. A luta de classes mostra subidas seguidas de quedas, marés e refluxos, segundo as complexas combinações das circunstâncias ideológicas e materiais, tanto nacionais como internacionais. Um levante das massas que não é aproveitada ou é mal aproveitada se reverte e culmina em um período de refluxo, do qual as massas se recuperam cedo ou tarde sob a influência de novos estímulos objetivos. A nossa é uma época que se caracteriza por flutuações periódicas extremamente bruscas, por situações que mudam de maneira muito abrupta, e tudo isso traz, para a direção, responsabilidades muito árduas no que diz respeito à elaboração de uma orientação correta.

A atividade das massas propriamente dita se manifesta de distintas maneiras, segundo as circunstâncias. Em algumas épocas se pode observar as massas empenhadas por inteiro na luta econômica, demonstrando muito pouco interesse pelas questões políticas. Ou então, logo após uma série de derrotas na luta econômica, as massas podem dirigir abruptamente sua atenção à política. Nesse caso – tal como o determinem a situação concreta e a experiência anterior das massas -, sua atividade política pode manifestar-se em luta exclusivamente parlamentar ou na extraparlamentar.

Não colocamos senão algumas variantes, que servem para caracterizar as contradições do desenvolvimento revolucionário da classe operária. Aqueles que sabem interpretar os fatos e compreendem seu significado não vacilarão em reconhecer que estas variantes não são uma elucubração teórica, senão um reflexo da experiência internacional vivida durante a década passada.

De qualquer forma, é evidente que toda discussão sobre a radicalização das massas exige uma definição concreta. Naturalmente, a Oposição marxista deve se fazer a mesma exigência. Negar de imediato a radicalização é tão inútil quanto afirmá-la. Devemos caracterizar a situação e sua dinâmica.

As estatísticas das greves na França

Os dirigentes oficiais falam da radicalização da classe operária francesa tendo em conta quase exclusivamente o movimento grevista. O crescimento deste é um fato incontroverso, comprovado sistematicamente. O tomaremos como ponto de partida.

As estatísticas oficiais francesas sobre as greves sempre são confusas quanto às datas. O último informe sobre greves do ministério do trabalho finaliza em 1925. Não tenho em mãos os dados de 1926. Para os três anos seguintes conto com os dados fornecidos pela imprensa comunista. As cifras de ambas as fontes não se pode comparar. É duvidoso que o ministério do trabalho registre todas as greves. Por outro lado, é óbvio que os “revolucionários” superficiais de l’Humanité tendam a exagerar nos números. Mas, apesar de todos esses inconvenientes, as pautas gerais do movimento surgem com bastante clareza.

O movimento grevista francês alcançou seu ponto culminante nos dois anos que se seguiram à guerra. Em 1919 houve 2.100 greves, nas quais participaram 1.200.000 trabalhadores. Em 1920 houve 1.900 greves e participaram quase 1.500.000 trabalhadores. Este foi o ano em que houve maior número de grevistas. A partir de 1921 começa um refluxo sistemático, com uma breve interrupção que logo analisaremos, que alcança seu ponto mais baixo em 1926-1927. Estas são as cifras, em números redondos: em 1921 saíram à greve 450.000 homens, ou seja, um terço do ano anterior. Em 1922, 300.000 grevistas. Só em 1923 a curva descendente se deteve, e inclusive registra um leve ascenso: 365.000. Esta alta conjuntural deveu-se, indubitavelmente, aos acontecimentos relacionados à ocupação do Ruhr e a mobilização revolucionária na Alemanha(3). Em 1924 o número de grevistas se reduz a 275.000. Não possuímos os dados de 1926. De 1927 só sabemos o número total de greves: houve 230, enquanto que no período 1919-1925 essa cifra oscilou entre 570 e 2.100. Ainda que este número constitua um índice mais rudimentar, demonstra, entretanto, que a curva grevista seguiu uma trajetória descendente de 1921 a 1927. No último trimestre de 1927 houve 93 greves, com 70.000 grevistas. Supondo de a média de pessoas que participaram em cada greve se manteve estável durante todo o ano (o que é uma suposição claramente arbitrária), teremos aproximadamente 170.000 grevistas em 1927, cifra que é exagerada, não diminuída.

Em 1928 a imprensa comunista registra ao redor de 800 greves, das quais umas 600 se produziram no segundo semestre do ano, com 363.000 grevistas. Consequentemente, para todo o ano de 1928 podemos dar um número hipotético de 400.000 a 450.000 grevistas. Para 1929 o informe é de 1.200 greves, com uma quantidade de grevistas que se aproxima da de 1928 (quer dizer, entre 400.000 e 450.000); ou seja, não há incremento a respeito do ano anterior. A cifra de grevistas em 1928, assim como em 1929, é aproximadamente o dobro de 1925, praticamente igual à de 1921 e três ou três vezes e meio menor que a de 1920.

Como já disse, essas cifras não são totalmente exatas, mas servem para definir a dinâmica do processo. Depois do ponto máximo de 1919-1920, se sucede uma progressão decrescente até 1928, com uma muito breve interrupção em 1923. Em 1928-1929 se apresenta um aumento indiscutível e importante no movimento grevista, que se relaciona logicamente – como mostraremos mais abaixo – com a reanimação da indústria influenciado pela estabilização da moeda.

Podemos afirmar com certeza que o período 1919-1927 conforma um ciclo independente na vida do proletariado francês, que abarca um levante abrupto do movimento grevista imediatamente após a guerra e em seguida suas derrotas e refluxo com a catástrofe alemã de 1923. Este ciclo, em seus aspectos mais gerais, é característico não só da França, senão também do conjunto da Europa e, em boa medida, do mundo inteiro. O único elemento exclusivo da França é que a flutuação entre o pico mais alto e o mais baixo de todo o ciclo é relativamente pequeno. A França vitoriosa não conheceu uma autêntica crise revolucionária. O ritmo do movimento grevista francês foi um pálido reflexo dos gigantescos acontecimentos que aconteceram na Rússia, Alemanha, Inglaterra e outros países.

Há outras estatísticas que confirmam esta tendência do movimento grevista francês. No princípio de 1922 a quantidade de grevistas e de dias de greve sofreu uma queda abrupta. Em 1921 houve uma média de 800 grevistas por greve e um total de 14.000 dias parados. Em 1925 a média era de 300 grevistas por greve, com um total de pouco mais de 2.000 dias. Podemos supor que em 1926-1927 estas médias não aumentaram. A média de 1929 foi de 400 operários por greve.

Vejamos outro índice, que nos servirá mais adiante. Nos anos do pós-guerra a cifra mais alta de grevistas corresponde aos mineiros, nos dois últimos anos ocupam o primeiro lugar os operários têxteis e, em geral, os da chamada indústria leve.

O que demonstram as estatísticas?

Estas estatísticas confirmam ou refutam a tese de que existe uma radicalização das massas? Nossa primeira resposta é que tiram a discussão desse terreno de abstrações no qual Monmousseau diz que sim e Chambelland que não(4), sem definir o que é a radicalização. As estatísticas dos conflitos grevistas constituem uma prova irrecusável de que se produziram certas mudanças na classe operária. Ao mesmo tempo servem para quantificar e caracterizar essas mudanças. Esboçam a dinâmica geral do processo e, até certo ponto, permitem prever o futuro ou, dito com mais precisão, as possíveis variantes que se produzirão no futuro.

Em primeiro lugar afirmamos que as estatísticas de 1928-1929, comparadas com as do período anterior, caracterizam o começo de um novo ciclo na vida da classe operária francesa. Com base nisso podemos supor com fundamento que se produziram e estão se produzindo profundos processos moleculares no seio das massas, em virtude das quais começa a decrescer – apesar de no lado econômico – o ritmo da curva descendente.

De qualquer forma, as estatísticas demonstram que o ascenso do movimento grevista é ainda muito modesto, não dão sinal de um crescimento tempestuoso, que nos permita concluir que se trata de um período revolucionário ou sequer pré-revolucionário. Notamos, em particular, que não existem diferenças notáveis entre 1928 e 1929. A maior parte das greves segue afetando a indústria leve.

Daqui Chambelland tira a conclusão de que não há radicalização. Seria diferente, afirma ele, se as greves se estendessem às grandes empresas da indústria pesada e de maquinário. Em outras palavras, imagina que a radicalização cai do céu. De fato os números demonstram não só que começou um novo ciclo da luta proletária, senão que esse ciclo está em sua primeira fase. Depois de uma etapa de derrota e refluxo, e não tendo se produzido grandes acontecimentos, a reanimação só poderia vir na periferia industrial, ou seja, nas indústrias leves, nos ramos secundários, nas menores fábricas da indústria pesada. A extensão do movimento grevista à indústria metalúrgica, de maquinário e transportes significaria a transição a um nível de desenvolvimento mais elevado e seria o sinal não só do começo de um movimento senão também uma virada decisiva no estado de ânimo da classe operária. Contudo não ocorreu. Mas seria absurdo fechar os olhos diante da primeira fase do processo, porque ainda não se produziu a segunda, a terceira ou a quarta. A gravidez já no segundo mês é gravidez. E se a tentativa de forçar seu ritmo pode conduzir a um aborto, o mesmo pode acontecer se a ignoramos. Naturalmente devemos agregar a esta analogia que as datas não são tão exatas no terreno social quanto no da fisiologia.

Fatos e palavras

Ao estudar a radicalização das massas, jamais se deve esquecer que o proletariado não alcança a “unanimidade” senão no ápice dos períodos revolucionários. Na vida “cotidiana” sob o regime capitalista o proletariado está longe de alcançar a homogeneidade. Além disso, a heterogeneidade das camadas que o compõem se manifesta da maneira mais clara precisamente nas conjunturas do caminho. As camadas mais exploradas, menos especializadas ou politicamente mais atrasadas do proletariado costumam ser as primeiras a sair em luta e, em caso de derrota, as primeiras a abandoná-la. É precisamente na nova etapa que os operários que não sofreram a derrota na anterior são os primeiros a mobilizar-se, ainda que seja assim só porque não participaram da luta. De uma forma ou de outra estes fenômenos também deverão se manifestar na França.

O mesmo fato se reflete nas vacilações dos operários organizados, que assinala a imprensa comunista oficial. É verdade, as inibições dos operários organizados estão excessivamente desenvolvidas. Ao considerar-se um setor insignificante do proletariado, os operários organizados costumam desempenhar um papel conservador. Desde que este argumento não vá dirigido contra a organização, senão contra suas debilidades e contra os dirigentes sindicais tipo Monmousseau, que não compreendem a essência da organização sindical e são incapazes de avaliar a importância que esta reveste para a classe operária. De todas as formas, o papel de vanguarda que estão desempenhando na atualidade os setores não organizados demonstra que não se trata de uma luta revolucionária, senão de uma luta econômica unitária, que se encontra, além disso, no primeiro estágio.

O mesmo fato fica demonstrado no importante papel que desempenham na greve os trabalhadores estrangeiros, os quais, diga-se de passagem, cumprirão na França um papel análogo ao dos negros nos Estados Unidos. Mas isso é coisa do futuro. Na atualidade o papel que cumprem os operários estrangeiros, muitos dos quais não conhecem o idioma, demonstra uma vez mais que a luta não é política, mas econômica, e que seu impulso inicial partiu da conjuntura econômica.

Ainda em relação à frente puramente econômica, não se pode outorgar à luta o caráter ofensivo que lhe atribuem Monmousseau e Cia. Eles baseiam sua definição no fato de que um alto percentual das greves se iniciem por aumento de salário. Estes bons dirigentes esquecem que os operários se veem obrigados a levantar tais reivindicações devido, por um lado, ao aumento no custo de vida e, por outro, à intensificação da exploração física, fruto dos novos métodos industriais (racionalização). O operário tem que exigir o aumento de salário nominal para defender seu nível de vida. Estas greves só podem ser “ofensivas” para a contabilidade capitalista. Desde o ponto de vista da tática sindical seu caráter é estritamente defensivo. É precisamente este aspecto do problema que todo sindicalista sério deveria compreender ou destacar de todas as formas possíveis. Mas Monmousseau e Cia. creem estar no direito de ser sindicalistas indiferentes porque ostentam o título, vejam vocês, de “dirigentes revolucionários”. Ainda que gritem até ficar roucos que estas greves defensivas revestem um caráter político e revolucionário ofensivo, não mudarão o caráter das mesmas nem agregarão uma vírgula a sua importância. Pelo contrário, ajudam os patrões e o governo a se armar contra os trabalhadores.

A coisa não melhora quando nossos “dirigentes” afirmam que as greves se tornam políticas em virtude... da intervenção da polícia. Argumento assombroso! Quando a polícia bate nos grevistas, falam... do progresso revolucionário dos operários. A história francesa é testemunha de não poucos massacres de operários em greves exclusivamente econômicas. Nos Estados Unidos o esmagamento sangrento dos grevistas é norma. Isso significa que os operários estadunidenses estão embarcados numa luta revolucionária extrema? O fuzilamento dos grevistas é, naturalmente, um fato de transcendência política. Mas só um charlatão poderia identifica-lo com o avanço político revolucionário das massas trabalhadoras, e com isso não favoreceria outros senão os patrões e sua polícia.

Quando o Conselho Geral do Congresso Sindical britânico qualificou a greve geral revolucionária de 1926 de manifestação pacífica, sabia o que fazia(5). Foi uma traição planificada intencionalmente. Mas quando Monmousseau e Cia. qualificam uma série de greves econômicas isoladas de um ataque revolucionário contra o Estado burguês, ninguém pensaria em acusá-los de traidores conscientes. É duvidoso que esta gente seja capaz de atuar conscientemente. Mas muito pequeno é o favor que fazem aos trabalhadores.

No próximo capítulo veremos como estes grandes heróis revolucionários prestam outros serviços à patronal ao ignorar a reanimação comercial e industrial, ao subestimar sua importância, ou seja, ao subestimar os ganhos dos capitalistas e minar, por conseguinte, os fundamentos das lutas operárias econômicas.

Tudo isso se faz, desde já, para maior glória do “terceiro período”.

As crises conjunturais e a crise do capitalismo

No Quinto Congresso da Confederação Geral do Trabalho Unitária (CGTU), A. Vassart atacou Chambelland em um longo discurso que posteriormente foi publicado em um folheto com prólogo de Jean Bricot(6). Neste discurso Vassart tratou de defender a perspectiva revolucionária contra a perspectiva reformista. Nos solidarizamos plenamente com a intenção. Mas, desgraçadamente, os argumentos que emprega em defesa da perspectiva revolucionária só servem para fortalecer a posição dos reformistas. Seu discurso contém múltiplos erros teóricos e de fatos. Alguém poderia questionar ‘para que atacar este discurso particularmente errôneo?’. Vassart todavia pode aprender muito. Seria feliz se pudesse crer. Mas é difícil porque o discurso apareceu em um folheto propagandístico. O prólogo pertence a Jean Bricot, que é, pelo menos, primo do próprio Monmousseau, e ele dá ao folheto um caráter programático. O fato de que nem o autor nem o editor perceberam os erros flagrantes que contém o discurso revela o lamentável nível teórico dos atuais dirigentes do comunismo francês. Jean Bricot ataca incansavelmente a Oposição marxista. Como logo demonstraremos, lhe seria mais conveniente sentar e estudar o ABC. A condução do movimento operário é incompatível com a ignorância, disse Marx a Weitling.

No congresso, Chambelland expressou o superficial pensamento – baseado exclusivamente em suas posições reformistas – de que a estabilização capitalista durará aproximadamente trinta ou quarenta anos mais, ou seja, que nem sequer a nova geração proletária que surge agora poderá fazer a revolução. Chambelland não apresentou argumentos sérios para fundamentar esse lapso fantasioso. A experiência histórica das duas décadas passadas e a análise teórica da situação atual refutam por completo a perspectiva de Chambelland.

Como o refuta Vassart? Em primeiro lugar demonstra que inclusive antes da guerra o sistema capitalista não pôde existir sem convulsões.

“Entre 1850 e 1910 se produziu uma crise econômica a cada quatorze anos aproximadamente (?), engendrada pelo sistema capitalista” (página 14).

Mais adiante:

“Se antes da guerra houve uma crise a cada quatorze anos, este fato se contradiz com a afirmação de Chambelland, que não prevê uma crise séria para os próximos quarenta anos” (página 15).

Não é difícil compreender que, com este tipo de argumento, com o qual se confunde as crises conjunturais com a crise revolucionária do capitalismo em seu conjunto, Vassart não faz mais do que reforçar as posições errôneas de Chambelland.

Em primeiro lugar, esse ciclo conjuntural de quatorze anos nos é surpreendente. De onde Vassart tira esse número? É a primeira vez que o vemos. E como é que Jean Bricot, que nos ensina com tanta autoridade (quase equivalente à do mesmíssimo Monmousseau), não percebeu tamanho erro, tratando-se sobretudo de um problema que tem uma importância tão imediata e vital para o movimento operário? Antes da guerra qualquer sindicalista sabia que se produzia uma crise ou, pelo menos, uma depressão a cada sete ou oito anos. Se observamos o lapso de um século e meio, vemos que jamais transcorreram mais de onze anos entre uma crise e a seguinte. O ciclo era de uma duração média de aproximadamente oito anos e meio e, além disso, no período pré-bélico se demonstrou que o ciclo conjuntural tendia a acelerar-se, não a frear-se, em virtude da renovação da maquinaria técnica. Nos anos do pós-guerra as flutuações conjunturais eram de caráter turbulento, o que se reflete no fato de que as crises sucediam-se com frequência maior que antes da guerra. Como é que os principais sindicalistas franceses desconhecem fatos tão elementares? Como se pode dirigir um movimento grevista sem ter um panorama realista das mudanças econômicas conjunturais? Todo comunista sério pode e deve insistir que os dirigentes da CGTU, e principalmente Monmousseau, respondam esta pergunta.

Assim se coloca a situação desde o ponto de vista dos fatos. Não fica melhor do ponto de vista da metodologia. O que Vassart demonstra, na realidade? Que não se pode conceber o desenvolvimento capitalista sem contradições conjunturais; existiam antes da guerra e existirão no futuro. Nem o próprio Chambelland nega este lugar comum, o que não significa que este simples fato abra uma perspectiva revolucionária. Pelo contrário; no transcurso do último século e meio o mundo capitalista atravessou dezoito crises conjunturais, e isso de maneira alguma nos permite supor que o capitalismo cairá na décima nona ou na vigésima. A verdade é que os ciclos conjunturais desempenham na vida do capitalismo um papel análogo, por exemplo, ao dos ciclos da circulação sanguínea no organismo: a inevitabilidade da revolução depende tanto da periodicidade das crises como a inevitabilidade da morte depende do pulso rítmico.

No Terceiro Congresso da Internacional Comunista (1921), os ultra-esquerdistas de então (Bukhárin, Zinoviev, Rádek, Thaelmann, Thalheimer, Pepper, Bela Kun e outros) prognosticaram que o capitalismo não voltaria a conhecer uma reanimação industrial porque havia entrado em seu período final (o terceiro?)(7) que se desenvolveria sobre a base de uma crise permanente até que se fizesse a revolução. No congresso se produziu uma grande polêmica ideológica em torno a essa questão. Dediquei boa parte de meu informe a demonstrar que na época do imperialismo as leis que governam os ciclos industriais seguem vigentes e que as flutuações conjunturais serão uma das características do capitalismo enquanto ele subsista(8): o pulso só se detém com a morte. Mas o ritmo do pulso, junto com outros sintomas, serve ao médico para determinar se o organismo é forte ou débil, são ou enfermo (claro que não me refiro aos médicos da escola de Monmousseau). Vassart, porém, trata de demonstrar que a revolução é inevitável e próxima porque as crises e booms se sucedem a cada quatorze anos.

Não teria sido difícil para Vassart evitar esses erros crassos se pelo menos tivesse estudado o informe e a polêmica do Terceiro Congresso da Internacional Comunista. Mas, lamentavelmente, está proibida a leitura dos documentos mais importantes dos quatro primeiros congressos, quando a autêntica ideologia marxista era a norma na Internacional Comunista. Para a nova geração de dirigentes a história do pensamento marxista começa no Quinto Congresso e especialmente no Décimo Plenário do CEIC. O maior crime deste aparato burocrático obtuso e cego reside em sua interpretação mecânica de nossa tradição teórica.

Conjuntura econômica e radicalização

Se Vassart não conhece a dinâmica dos ciclos comerciais e não compreende a relação entre as crises conjunturais e as crises revolucionárias do sistema capitalista em seu conjunto, a interdependência dialética da conjuntura e a luta da classe operária não lhe é menos estranha. A concepção de Vassart sobre essa interdependência é tão mecânica quanto a de seu adversário Chambelland; suas conclusões, ainda que opostas, são igualmente errôneas.

Chambelland diz:

“Em certo sentido, a radicalização das massas é o barômetro que permite avaliar a situação do capitalismo em um dado país. Se o capitalismo está em decadência, as massas necessariamente se radicalizam” (página 23).

A partir dali Chambelland tira a conclusão de que, posto que as greves francesas só afetam aos operários da periferia, posto que as indústrias metalúrgicas e químicas se veem muito pouco afetadas, o capitalismo ainda não entrou em decadência. Prevê quarenta anos de desenvolvimento.

Como lhe responde Vassart? Segundo ele, Chambelland

“não vê a radicalização porque não vê os novos métodos de exploração” (página 30).

Vassart repete o conceito de que se se reconhece que a exploração se intensificou e se compreende que se intensificará ainda mais, “só resta afirmar a radicalização das massas” (página 31).

Ao ler estas polêmicas tem-se a sensação de encontrar-se frente a dois homens que se perseguem com os olhos vendados. Não é certo que uma crise, sempre e em todas as circunstâncias, radicaliza as massas. Exemplo: Itália, Espanha, os Bálcãs, etc. Não é certo que a radicalização da classe operária corresponde necessariamente ao período de decadência do capitalismo. Exemplo: o cartismo inglês(9), etc. Vassart, como Chambelland, substitui com cadáveres a história viva do movimento operário. E a conclusão de Chambelland é igualmente errônea. Não se pode negar o começo da radicalização porque as greves ainda não abarcam os principais setores operários; pode-se e deve-se avaliar concretamente a extensão, profundidade e intensidade da radicalização.

É evidente que Chambelland aceita o fato da radicalização quando já o conjunto da classe operária está na ofensiva. Mas a classe operária não necessita de dirigentes dispostos a intervir quando tudo está pronto. É necessário possuir a capacidade de observar os primeiros sintomas de reanimação, ainda que sejam débeis e se circunscrevam à esfera econômica, para adaptar as táticas e observar atentamente o desenvolvimento do processo. Enquanto isso, nem porum instante deve se perder de vista o caráter geral de nossa época, que demonstrou mais de uma vez, e voltara a demonstrar, que entre os primeiros sintomas de reanimação e o levante tempestuoso que inicia uma situação revolucionária, não se passam quarenta anos senão um quinto ou um décimo disso.

Vassart não se sai melhor. Cria um paralelo automático entre exploração e radicalização. Como negar a radicalização das massas – pergunta Vassart aborrecidamente – se a exploração aumenta dia após dia? Esta concepção metafísica infantil concorda perfeitamente com o espírito de Bukhárin. A radicalização deve demonstrar-se com fatos, não com deduções. Não é difícil reverter a conclusão de Vassart. Podemos colocar a questão da seguinte maneira: como podem os capitalistas aumentar a exploração dia após dia se se enfrentam com a radicalização das massas? Justamente a carência de espírito combativo é o que permite intensificar a exploração. É verdade que tais argumentos, enunciados sem comentários, também são unilaterais, mas estão muito mais próximos da realidade que as elucubrações de Vassart.

O problema é que o aumento da exploração nem sempre eleva o espírito combativo do proletariado. Assim, em meio a uma baixa conjuntural, quando aumenta o desemprego, sobretudo se depois de uma derrota, o incremento da exploração não provoca a radicalização das massas, senão, pelo contrário, sua desmoralização, atomização e desintegração. O vimos, por exemplo, nas minas de carvão inglesas imediatamente depois da greve de 1926. O vimos em maior escala na Rússia, quando a crise industrial de 1907 coincidiu com o esmagamento da revolução de 1905. Se nos dois últimos anos o aumento da exploração provocou um crescimento do movimento grevista, o que é evidente, as bases desse processo se encontram na reanimação conjuntural da economia, não em seu declínio.

O medo dos processos econômicos

Mas os oportunistas ultra-esquerdistas que dirigem a Internacional Comunista temem a reanimação industrial: para eles é uma contrarrevolução econômica. Seu esquerdismo se sustenta em bases superficiais, porque a reanimação da conjuntura industrial e comercia seria, em primeiro lugar, um golpe mortal para suas estúpidas teorias sobre o “terceiro e último período”. Esta gente não deduz suas perspectivas revolucionárias dos contraditórios processos reais, senão de esquemas falsos. E dali surgem seus funestos erros táticos.

Pode parecer inverdade que os oradores oficiais no congresso da CGTU tenham tratado de trazer um panorama o mais sombrio possível do estado do capitalismo francês. A descrição stalinista da situação da indústria francesa, que exagera enormemente a envergadura atual do movimento grevista, dá a impressão de que as greves futuras não têm a menor possibilidade de seguir adiante. Vassart foi um deles. Justamente em virtude de que ele, com Monmousseau, é incapaz de distinguir entre as crises fundamentais do capitalismo e as crises de conjuntura, e que neste caso acredita com Chambelland que a subida conjuntural poderá postergar a revolução por várias décadas, Vassart teme a reanimação industrial. Nas páginas 21 a 24 de seu folheto demonstra que a atual reanimação industrial francesa é “artificial” e “momentâneo” (página 24). No Comitê Nacional de dezembro, Richetta pintou zelosamente um quadro da indústria têxtil francesa em crise. Se é assim, então a onda de greves, que até o momento foi o único sintoma da radicalização, carece de bases econômicas ou as está perdendo rapidamente. No melhor dos casos, Vassart e Richetta proporcionam aos representantes do capital um argumento infalível para não fazer concessões econômicas aos trabalhadores e, mais importante ainda, proporcionam aos reformistas um argumento decisivo contra as greves econômicas, porque todos devem compreender que não se pode desenvolver uma perspectiva de lutas econômicas a partir de uma crise crônica.

Estes lamentáveis sindicalistas não leem a imprensa econômica? Poderiam responder que a imprensa capitalista tem um otimismo fingido. Contudo, não se trata dos editoriais. Dia a dia, mês a mês, os diários publicam informes de mercado, balanços dos bancos, das empresas industriais e comerciais e ferroviárias. Algumas das cifras foram reproduzidas em La Verité(10). Os números mais recentes constituem uma prova adicional da tendência à elevação da indústria francesa. O último suplemento econômico semanal que chegou em minhas mãos (Le Temps(11), 9 de dezembro de 1929) informa sobre uma assembleia geral de acionistas da indústria metalúrgica do norte e leste da França. Não conhecemos a posição de M. Cuvelette sobre a filosofia do “terceiro período”, e devemos confessar que não nos interessa muito. Entretanto é muito hábil para somar lucros e recolher dividendos. Cuvelette faz o seguinte resumo de todo o ano anterior: “A situação do mercado interno foi excepcionalmente favorável”. Espero que ninguém veja nesta informação um mero alarde de otimismo platônico; está respaldada por dividendos de quarenta francos contra dividendos de vinte e cinco francos do ano anterior. Este fato, é ou não é importante para as lutas econômicas da indústria metalúrgica? Pareceria que sim. Mas, desgraçadamente, pelas costas de Cuvelette se levantam as vozes de Vassart e Bricot, ou a do mesmíssmimo Monmousseau, clamando: “Não escuteis as palavras deste otimista que não sabe que está fundido até as orelhas no ‘terceiro período’!”. Quem pode duvidar de, se algum operário comete o erro de acreditar em Monmousseau e não em Cuvelette, tem que chegar forçosamente à conclusão de que não existem bases para lançar com êxito uma luta econômica, menos ainda falar de uma ofensiva?

A escola Monmousseau – se é que se pode dar esse título a uma instituição que ensina as pessoas a esquecer o que aprendeu em matéria de pensar, ler e escrever – tem medo da reativação econômica. Há que dizer com toda clareza que para a classe operária francesa – que nos dois últimos anos renovou sua composição em duas ocasiões, durante e depois da guerra, ao ingressar em suas fileiras grandes contingentes de jovens, mulheres e estrangeiros aos quais ainda não assimilou por completo – um desenvolvimento maior da reativação industrial criaria uma escola extraordinária, lhe permitiria aglutinar suas forças, mostraria aos setores mais atrasados a importância do papel que cumprem na estrutura capitalista e assim elevaria o nível de consciência do conjunto da classe a novas alturas. Dois ou três anos, talvez um só, de luta econômica ampla e triunfante rejuvenesceriam o proletariado. Depois de uma reanimação econômica bem aproveitada, uma crise conjuntural poderia dar um grande impulso à autêntica radicalização política das massas.

Ao mesmo tempo, não se deve esquecer que as guerras e revoluções de nossa época não são fruto das crises conjunturais, mas das contradições, elevadas até suas últimas consequências, entre o desenvolvimento das forças produtivas e a existência das fronteiras nacionais do Estado burguês. A guerra imperialista e a Revolução de Outubro revelaram o alcance dessas contradições. O novo papel da América do Norte as acentuou. Quanto mais importante for o desenvolvimento das forças produtivas em tal ou qual país ou em uma série de países, menos a reanimação industrial tardará em chocar-se com as contradições fundamentais da indústria mundial e mais forte será a reação econômica e política, nacional e internacional. Em todo caso, uma importante reativação da economia não constituiria para o comunismo francês uma armadilha senão um tremendo estímulo, porque daria lugar a um poderoso movimento grevista como pré-anúncio de uma ofensiva política. Não faltarão as situações revolucionárias. É provável, porém, que falte a capacidade de aproveitá-las.

Porém, está garantido que a conjuntura industrial francesa seguirá em curva ascendente? Não nos atrevemos a fazer semelhante afirmação, Há todo tipo de possibilidade em jogo. De qualquer forma, não depende de nós. O que sim depende de nós, o que constitui uma obrigação para nós, é não fechar os olhos diante dos fatos em nome de esquemas lamentáveis, senão contemplar a marcha do processo econômico tal como se dá na realidade e elaborar a tática sindical com base nesses fatos. Aqui falamos de tática em contraposição a estratégia. Esta não é determinada pelas mudanças conjunturais, senão das tendências fundamentais do processo. Mas apesar de que a tática está subordinada à estratégia, esta só se realiza por meio daquela.

Para a Comintern, como para a Profintern(12), a tática consiste nos ziguezagues periódicos e a estratégia é a soma aritmética desses ziguezagues. Por isso a vanguarda proletária sofre uma derrota após a outra.

Quais são os sintomas da radicalização política?

Naturalmente, o problema da radicalização das massas não se esgota na análise do movimento grevista. Qual é o nível da luta política? E, sobretudo, quantos militantes tem o Partido Comunista e qual é o alcance de sua influência?

É notável que, ao falar da radicalização, os dirigentes oficiais ignorem diretamente o problema de seu próprio partido. Contudo os fatos demonstram que, a partir de 1925 o número de militantes diminuiu de ano em ano: 1925, 83.000 militantes; 1926, 65.000; 1927, 56.000; 1928, 52.000; 1929, 35.000. Para os anos anteriores utilizamos as cifras oficiais do secretário da Comintern, Piatnitski; para 1929, as de Semard. Estas cifras, de qualquer ângulo que forem olhadas, são bem exageradas; de qualquer forma, tomadas de conjunto, a curva do partido é descendente; em cinco anos sua militância se reduziu a menos da metade.

Poderia se supor que a qualidade vale mais que a quantidade e que no partido só ficam comunistas firmes. Suponhamos que seja assim. Mas não é essa a questão. O processo de radicalização das massas de forma alguma pode provocar o isolamento dos quadros; pelo contrário, deve provocar o ingresso ao partido de militantes firmes e conseguir que os que não são tanto cheguem a sê-lo. A radicalização das massas só se pode conciliar com a diminuição regular da militância partidária quando se considera que o papel do partido na vida da classe operária é a quinta roda de um carro. As palavras calam quando os fatos falam. A curva do partido seguiu uma trajetória uniformemente decrescente, não só durante 1925-1927, em meio ao refluxo da maré grevista, senão também durante os dois últimos anos, quando o número de greves começou a aumentar.

Neste momento os honoráveis Pangloss do comunismo oficial nos interromperão para fazer referência à “desproporção” entre o tamanho do partido e sua influência. Esta é, na atualidade, a fórmula da Internacional Comunista, inventada pelos astutos para enganar os tontos. Entretanto esta fórmula ritual consagrada não só não explica nada, senão que em certo sentido piora as coisas. A experiência do movimento operário demonstra que na medida em que um partido revolucionário adquire um caráter cada vez mais “parlamentar” – enquanto as demais variáveis não se alteram – sua influência tende a transcender seu tamanho. É muito mais fácil ser oportunista que marxista, porque aquele se baseia nas massas em geral. Isso se vê com toda clareza se comparamos o Partido Socialista com o Comunista(13). Consequentemente, o crescimento sistemático da “desproporção”, junto com a diminuição do número de comunistas organizados, só pode significar que o Partido Comunista Francês está se transformando de revolucionário em parlamentar e municipalista. Os recentes escândalos “municipais”(14) demonstraram que este processo se desenvolveu até certo ponto no curso dos últimos anos, e é de se temer que sucedam escândalos “parlamentares”. De qualquer forma, a diferença entre o Partido Comunista de hoje e os agentes socialdemocratas da burguesia segue sendo enorme. Os Pangloss da direção caluniam o Partido Comunista Francês quando falam de uma gigantesca desproporção entre seu tamanho e sua influência. Não é difícil demonstrar que, lamentavelmente, a influência política do comunismo aumentou muito pouco nos últimos anos.

Para os marxistas não é nenhum segredo que as eleições parlamentares e municipais distorcem e inclusive falsificam tendenciosamente os estados de ânimo das massas. Apesar disso, a dinâmica do processo político se reflete nas eleições parlamentares; esta é uma das razões pelas quais os marxistas participam ativamente nas eleições. Mas, o que revelam os resultados? Nas eleições legislativas de 1924 o Partido Comunista recebeu 875.000 votos, pouco menos de 10% do total(15). Nas eleições de 1928 o partido obteve pouco mais de um milhão de votos (1.064.000), ou seja, 11,33% do total. Assim, o peso específico do partido no seio do eleitorado aumentou em 1,33%. Se o processo segue avançando a esse passo, a perspectiva de Chambelland de “paz social” por trinta ou quarenta anos será muito... revolucionária.

O Partido Socialista, cuja “inexistência” havia sido proclamada por Zinoviev e Lozovski em 1924, obteve em 1928 quase 1.700.000 votos, mais de dezoito porcento do total, ou seja, superou o voto comunista em 150%(16).

Os resultados das eleições municipais produzem poucas mudanças no panorama global. Em alguns centros industriais (Paris, o Norte), os comunistas indubitavelmente ganharam votos às custas dos socialistas. Assim, em Paris, de 1925 a 1929, o voto comunista aumentou de 18,9% a 21,8%, ou seja em 3%, enquanto no mesmo período os votos socialistas diminuíram de 22,4 % a 18,1%, ou seja em 4%. Estes fatos possuem uma importância sintomática inegável, mas até o momento, são de caráter estritamente local e veem-se muito diminuídos pelo “municipalismo” antirrevolucionário que personificam Louis Sellier(17) e os pequeno-burgueses de sua laia. Graças aos Sellier, as eleições municipais não registraram verdadeiras mudanças em comparação com as parlamentares do ano anterior.

A vida política mostra outros índices que, no melhor dos casos, contradizem a charlatanice prematura em torno da radicalização política das massas que, supostamente, se iniciou dois anos atrás. Que saibamos, a circulação de l’Humanité não aumentou. As campanhas para reunir fundos para l’Humanité são, é verdade, alentadoras. Mas, tendo em vista o ataque reacionário feito contra o jornal, essas campnhas também teriam rendido frutos a um, dois ou três anos.

Não se pode esquecer nem por um instante que no 1º de agosto(18) o partido foi incapaz de mobilizar todos os trabalhadores que haviam votado nele, nem sequer todos os operários sindicalizados. Segundo os informes, provavelmente exagerados, de l’Humanité, na manifestação de 1º de agosto em Paris participaram ao redor de cinquenta mil trabalhadores, menos da metade dos operários sindicalmente organizados. As cifras correspondentes às províncias são infinitamente inferiores. Digamos de passagem que isto também revela que o “papel dirigente” do Burô Político no aparato da CGTU não é garantia de que o partido cumpra o mesmo papel entre os operários sindicalizados. Mas estes não constituem mais que uma pequena fração da classe. Se o levante revolucionário é um fato irrefutável, de que serve uma direção partidária que, no momento crítico do conflito sino-soviético, foi incapaz de arrastar um quarto – ou melhor, um décimo – do eleitorado a uma mobilização anti-imperialista? Ninguém exige da direção partidária que consiga o impossível. Não se pode manipular uma classe. Mas o que imprime na mobilização de agosto o selo do fracasso é a monstruosa “desproporção” entre os gritos vitoriosos da direção e a resposta real das massas.

A respeito das organizações sindicais, sua curva descendente – a julgar pelos números oficiais – foi paralela à do partido, com um ano de diferença. Em 1926 a CGTU tinha 475.000 filiados; em 1927, 452.000; em 1928, 375.000. A perda de 100.000 filiados por parte dos sindicatos, em um momento no qual a maré grevista do país estava em ascenso, demonstraria sem sombra de dúvida que a CGTU não reflete os processos fundamentais inerentes às lutas econômicas das massas. A CGTU, projeção aumentada do partido, simplesmente experimenta com alguma demora a decadência deste.

Os dados aqui apresentados confirmam em dobro as conclusões nas quais chegamos com base em nossa análise do movimento grevista. Recapitulemos: 1919-1920 foram testemunhos do momento culminante da luta proletária na França. Imediatamente depois se iniciou o refluxo, que começou a reverter-se lentamente no terreno econômico. Em troca, no terreno político o refluxo ou estancamento prossegue até o dia de hoje, pelo menos no que diz respeito à maioria dos trabalhadores. O despertar à luta econômica de certos setores proletários é um fato irrecusável, mas este processo apenas está em sua primeira etapa. O ramo que participa na luta é principalmente o da indústria leve, com predomínio evidente dos trabalhadores não organizados – que compreendem um grande número de estrangeiros – sobre os organizados.

O que deu ímpeto a esta onda de greves foi a reanimação econômica, simultânea ao aumento no custo de vida. As primeiras etapas do ascenso das lutas econômicas geralmente não vem acompanhadas de um ascenso revolucionário. Assim acontece neste caso. Pelo contrário: até é possível que as lutas econômicas debilitem por um tempo os interesses políticos da classe operária ou, pelo menos, de alguns setores da mesma.

Se consideramos, além disso, que a reanimação econômica da indústria francesa já tem dois anos de duração, que não há desemprego nos ramos fundamentais da indústria e inclusive existe em algumas uma grande escassez de mão-de-obra, não é difícil chegar à conclusão de que, dadas as circunstâncias tão favoráveis para a luta sindical, a onda grevista é bem modesta. Os índices que melhor revelam seu caráter moderado são a passividade das massas, fator que que vem da etapa precedente, e a lentidão da própria reativação industrial.

Quais são as perspectivas imediatas?

Seja qual fosse o ritmo das mudanças conjunturais, só é possível conseguir uma estimativa aproximada da mudança das fases no ciclo. O mesmo sucedeu com o capitalismo do pré-guerra, mas nesta etapa é mais difícil prognosticar a conjuntura. Depois do caos provocado pela guerra o mercado mundial não atingiu uma conjuntura uniforme, ainda que se aproximou bastante em comparação com os cinco primeiros anos do pós-guerra. Por isso há que ser muito cuidadoso ao esboçar o prognóstico das mudanças que se alternam na conjuntura mundial.

Na atualidade vemos como variantes mais prováveis as seguintes:

1. A crise da bolsa de valores de Nova York é o pré-anúncio de uma crise comercial e industrial nos Estados Unidos, que alcançará grande magnitude nos próximos meses. O capitalismo estadunidense se vê obrigado a voltar-se decisivamente ao mercado mundial. Abre-se uma época de competição enlouquecida. As mercadorias europeias retrocedem ante o ataque avassalador. A crise europeia se inicia posteriormente à dos Estados Unidos, mas por isso mesmo é de extrema gravidade.

2. A queda da bolsa de valores não provoca uma crise comercial e industrial imediata, senão uma depressão conjuntural. O golpe que a especulação sofre no mercado de valores leva a uma melhor correlação entre o papel moeda e a realidade comercial e industrial, e entre esta e o poder aquisitivo real do mercado. Passada a depressão e o período de reajuste, a curva da conjuntura comercial e industrial volta a ascender, ainda que em menor graus que na etapa anterior. Não se pode excluir esta variante. O capitalismo norte-americano conta com enormes recursos, muitos dos quais correspondem ao orçamento governamental (pedidos, subsídios, etc.).

3. A retirada de fundos para a especulação nos Estados Unidos gera atividade comercial e industrial. A sorte desta dependerá de fatores puramente europeus, além de mundiais. Inclusive na eventualidade de que os Estados Unidos atravessem uma aguda crise econômica, a Europa seria capaz de sustentar por um determinado período uma tendência elevatória, já que não se pode duvidar que o capitalismo norte-americano levará poucos meses a se refazer e lançar o ataque decisivo ao mercado mundial.

4. Por último, possivelmente a verdadeira marcha do processo combine elementos de todas as variantes mencionadas acima, seguindo uma curva oscilante com pequenos altos e baixos.

O processo que sofre a classe operária, sobretudo tal como se reflete no movimento grevista, se caracterizou desde o começo do capitalismo por sua estreita ligação com o ciclo conjuntural. Mas esse vínculo não é mecânico. Ocorre que, em certas circunstâncias que transcendem o ciclo comercial e industrial (mudanças abruptas na economia ou na política mundial, crises sociais, guerras, revoluções), a onda grevista seja expressão das tarefas históricas revolucionárias fundamentais da classe operária, não das reivindicações imediatas que surgem da conjuntura em questão. Assim, por exemplo, as greves do pós-guerra na França não eram do tipo conjuntural; expressavam a crise profunda do conjunto da sociedade capitalista. À luz deste critério, observamos que o movimento grevista atualmente em curso na França possui um caráter fundamentalmente conjuntural; seu curso e seu ritmo dependerão diretamente das oscilações do mercado, das sucessivas fases conjunturais e da envergadura e intensidade das mesmas. Dada, pois, a instabilidade do período que atravessamos, é absolutamente ilícito proclamar a existência de um “terceiro período” sem a menor relação com o desenvolvimento real dos acontecimentos econômicos.

Resta dizer que, ainda no caso de se produzir uma conjuntura favorável na América do Norte e uma reanimação comercial e industrial na Europa, não se poderá evitar uma nova crise. Não duvidamos que quando esta se produzir os dirigentes afirmarão que seu “prognóstico” foi plenamente confirmado, que a estabilização do capitalismo não se produziu e que a luta de classes se agudizou. É evidente que não custa muito fazer tal “prognóstico”. Se alguém prediz diariamente um eclipse solar, em algum momento da vida verá cumprida sua predição. Mas ninguém consideraria um astrônomo semelhante profeta. A tarefa dos comunistas não consiste em prognosticar crises, revoluções e guerras todos os dias senão em preparar-se para o surgimento de guerras e revoluções mediante a sóbria avaliação das circunstâncias e situações que se produzem nos períodos entre as guerras e revoluções. Há que prever que depois de cada ascenso se produzirá uma crise. Há que advertir as massas da iminência da crise. Mas as massas estarão melhor preparadas para recebê-la se aproveitam, com uma boa direção, o ascenso econômico. No último plenário do Comitê Nacional da CGTU se expressaram ideias bastante sãs. Por exemplo, Claveri e Dorelle se queixaram de que no último congresso da CGTU (setembro de 1929) se ignorou o problema das reivindicações econômicas das massas trabalhadoras. De qualquer forma estes oradores não se detiveram a pensar como seria possível que um congresso sindical passasse por cima precisamente do que deveria constituir sua primeira e principal tarefa. No espírito da chama “autocrítica”, os principais oradores atacaram a direção da CGTU, com um vigor jamais implementado pela Oposição.

Naturalmente, o mesmo Dorelle provocou bastante confusão ao se referir, em nome do “terceiro período”, ao caráter político das greves. Dorelle exigiu que os sindicalistas comunistas revolucionários – não existe outro tipo de sindicalista revolucionário na atualidade – ensinem a todo grevista a relação que existe entre os casos isolados de exploração e o regime contemporâneo em seu conjunto, com a conseguinte relação entre as reivindicações operárias imediatas e a revolução proletária. Isto é o ABC para um marxista, mas em si não determina o caráter da greve. Uma greve política não é aquela na qual os comunistas realizam agitação política, senão uma greve na qual os operários de todos os ramos e fábricas saem à luta por objetivos políticos específicos. A agitação revolucionária no meio da greve é uma tarefa que se deve realizar em todas as circunstâncias, mas a participação dos operários em greves políticas, ou seja, revolucionárias, é uma das formas de luta mais avançadas e só se dá em circunstâncias excepcionais, que nem o partido nem os sindicatos podem fabricar de acordo com seus desejos. Confundir as greves econômicas com greves políticas provoca um estado de confusão que impede aos dirigentes sindicais ter enfoques adequados para as greves econômicas, organizá-las e elaborar um programa prático de reivindicações operárias.

Todavia as coisas pioram no terreno da orientação econômica geral. A filosofia do “terceiro período” necessita uma crise econômica, imediatamente e a qualquer custo. Portanto, nossos sábios sindicalistas fecham os olhos diante do ascenso sistemático da conjuntura econômica na França durante os últimos dois anos, apesar de que sem uma avaliação concreta da conjuntura é impossível encontrar as consignas correspondentes e lutar por elas com êxito. Seria conveniente a Claveri e Dorelle estudar exaustivamente o problema. Se a reanimação econômica francesa dura mais um ano (o que não é de se descartar), o desenvolvimento e a extensão das lutas econômicas serão questões supremas na ordem do dia. A adaptação a essas circunstâncias não só é tarefa dos sindicatos senão também do partido. Não basta proclamar em abstrato o direito do comunismo a desempenhar um papel dirigente; há que se ganhar esse direito na ação, não nos estreitos marcos do aparato sindical senão no cenário da luta de classes. À fórmula anarquista e sindicalista de autonomia sindical o partido deve opor uma atividade teórica e política sério nos sindicatos, de forma a tornar-se mais fácil que estes orientem-se em meio aos acontecimentos econômicos e políticos e elaborem reivindicações e métodos de luta acertados.

As mudanças inevitáveis que provocaria a crise na reativação significariam uma mudança nas tarefas, ao passar para o segundo lugar as lutas econômicas. Já temos dito que a vinda de uma crise provavelmente sirva para dar ímpeto à atividade política das massas. Sua força dependerá de dois fatores: a duração e envergadura da reativação e o grau de agudeza da crise que a sucederá. Quanto mais abrupta e decisiva a mudança, mais explosiva será a mobilização das massas. É natural. Por inércia as greves geralmente alcançam seu pico no momento em que a subida econômica começa a decompor-se. É como se, em plena corrida, os operários se chocassem contra uma parede. Nesse caso é muito pouco o que podem conquistar as greves econômicas. Iniciada a recessão, os capitalistas recorrerão facilmente ao lock-out. Nesse momento a consciência de classe dos trabalhadores, que se aprofundou, começa a buscar outros canais. Quais? Não depende somente das situações conjunturais senão também da situação global do país.

Não se pode predizer com fundamento que a próxima crise conjuntural criará imediatamente uma situação revolucionária na França; para isso devem convergir uma série de fatores que transcendem a crise conjuntural. Neste momento só se pode fazer conjecturas teóricas. Levantar hoje a consigna de uma greve geral política, sobre a base de uma crise futura que levará as massas a tomar o caminho revolucionário, é querer matar a fome de hoje com a ceia de amanhã. Quando Molotov afirmou no Décimo Plenário que a greve geral está na ordem do dia na França, demonstrou definitivamente que não conhece a França, nem a ordem, nem o dia. Os anarquistas e sindicalistas não aceitam sequer a ideia de uma greve geral na França. O comunismo oficial, com suas tentativas de substituir o trabalho revolucionário sistemático por saltos aventureiristas no vazio, segue a corrente.

A atividade política das massas, antes de passar a formas mais explosivas, atravessa um período de maior ou menor duração que pode se expressar em uma maior participação nas assembleias, mais ampla circulação de literatura comunista, maior quantidade de votos nas eleições, maior ingresso de militantes no partido. Pode a direção adotar de antemão uma orientação já elaborada com base no pressuposto de que os acontecimentos avançarão tumultuosamente, sem saber o que resultará disso? Não. Deve estar preparada para distintos ritmos de marcha. Só assim o partido poderá acompanhar o ritmo das massas, sem mudar o sentido revolucionário de sua marcha.

Em resposta às considerações anteriores já se escuta uma voz, suave como uma lixa, que me acusa de cair no “economicismo” por um lado e no otimismo capitalista pelo outro, sem esquecer, desde já, os desvios socialdemocratas. É que para os Molotovs, tudo que não podem compreender – ou seja, muito – cai sob o rótulo de desvio socialdemocrata, assim como para os homens primitivos a explicação de quase tudo que acontece no universo reside na atividade dos espíritos malignos. Semard e Monmousseau, dignos discípulos de Molotov, nos ensinarão que as mudanças conjunturais não esgotam o problema, que existem muitos outros fatores, tais como a racionalização na indústria e a iminência da guerra. Essa gente fala de “muitos fatores”, e é incapaz de explicar em que consiste um só desses. Sim - responderemos -, uma guerra subverteria todas as perspectivas e abriria, por assim dizer, uma nova cronologia. Mas, em primeiro lugar, não sabemos quando nem por que vias virá a guerra. Em segundo lugar, para enfrentar a guerra com os olhos abertos devemos estudar cuidadosamente todas as curvas do caminho que conduz a ela. A guerra não cai do céu; sua problemática e seu início estão estreitamente vinculados ao problema do mercado mundial.

A arte da orientação

A arte da direção revolucionária é principalmente a da correta orientação política. Em todas as circunstâncias o comunismo prepara a vanguarda política e, através dela, a classe operária em seu conjunto para a conquista revolucionária do poder. Mas o faz de diferentes maneiras, segundo os distintos setores do movimento operário e os distintos períodos.

Um dos elementos mais importantes da orientação é a determinação do estado de ânimo das massas, de sua atividade e disposição para a luta. Este estado de ânimo, porém, não está determinado de antemão. Muda sob a influência de certas leis que regem a psicologia das massas que se põem em movimento por circunstâncias sociais objetivas. Dentro de certos limites, é possível quantificar o temperamento das massas: circulação da imprensa, presença nas assembleias, eleições, manifestações, greves, etc. Para compreender a dinâmica do processo, é preciso determinar por que e em que sentido muda o estado de ânimo da classe operária. Mediante a combinação de dados subjetivos e objetivos se pode determinar de forma experimental a dinâmica do processo, digamos, efetuar um prognóstico fundamentado cientificamente, sem o qual seria inconcebível fazer a luta revolucionária com seriedade. Mas um prognóstico político não possui a exatidão do plano de uma construção; é uma hipótese de trabalho. Enquanto se orienta a luta em tal ou qual direção, é necessário seguir atentamente as mudanças dos elementos objetivos e subjetivos do processo para endereçar o rumo tático conforme se necessite. Se é verdade que a verdadeira marcha do processo jamais corresponde plenamente com o prognóstico, isso não nos exime da necessidade de fazer prognósticos políticos. Mas não devemos nos embriagar com esquemas acabados, senão comparar constantemente a marcha do processo histórico e fazer os ajustes correspondentes.

Por sua própria natureza, o centrismo que domina agora a Internacional Comunista, como corrente intermediária que vive de ideias distantes, é incapaz de elaborar um prognóstico histórico. Na república soviética o centrismo se construiu como direção nas circunstâncias dadas como reação contra Outubro, em meio ao refluxo da revolução, quando o empirismo e o ecletismo lhe permitiram nadar a favor da corrente. E ao anunciar que a marcha do processo conduzia automaticamente ao socialismo em um só país, se livrou da necessidade de elaborar uma orientação mundial(19).

Mas os partidos comunistas dos países capitalistas, que apesar disso têm que lutar pelo poder ou preparar-se para essa luta, não podem viver sem prever. Para eles é questão de vida ou morte ter uma orientação cotidiana correta. Mas não são capazes de aprender esta importantíssima arte porque se veem obrigados a fazer as piruetas que lhes ordena a burocracia stalinista. O centrismo burocrático, que por um período poderá viver do capital acumulado pelo poder proletário já conquistado, é absolutamente incapaz de preparar os partidos jovens para a tomada do poder. Essa é a maior e principal contradição que sofre hoje a Internacional Comunista.

A história da direção centrista é a história de seus funestos erros de orientação. Depois que os epígonos(20) desaproveitaram a situação revolucionária alemã de 1923, que provocou profundas mudanças em toda situação europeia, a Internacional Comunista atravessou três etapas de erros fatais.

1924-1925: período de erros ultra-esquerdistas: a direção considerou que havia uma situação revolucionária adiante quando a mesma já havia passado. Nesse momento chamavam os marxistas-leninistas de “direitistas” e “liquidadores”.

1925-1927: período do oportunismo descarado, que coincidiu com o tempestuoso levante do movimento operário britânico e a revolução chinesa. Nos taxaram nada menos que de “ultra-esquerdistas”.

Por fim, em 1928 se anuncia o “terceiro período”, que repete os erros zinovievistas de 1924-1925 em um plano histórico mais elevado. O “terceiro período” não terminou; pelo contrário, segue em plena ação, destroçando a seu passo organizações e povos.

Não é casual que os três períodos se caracterizem pela decadência contínua da direção. No primeiro período: Zinoviev, Bukhárin, Stalin. No segundo: Stalin, Bukhárin. No terceiro: Stalin e... Molotov. Tudo conforma um quadro coerente.

Vejamos mais de perto a direção e a teoria do “terceiro período”.

Molotov “entra com os dois pés”

O plenário do CEIC que se reuniu um ano depois do Sexto Congresso não podia limitar-se a repetir o que esta já havia dito; devia apontar mais alto. Na edição do órgão teórico do Partido Comunista soviético que apareceu nas vésperas do plenário se lê o seguinte:

“Em todo o mundo capitalista a maré grevista está em ascenso. Esta onda abarca tanto os países imperialistas altamente desenvolvidos quanto as colônias atrasadas e se relaciona em certos momentos e lugares com uma obstinada luta revolucionária e a guerra civil. As massas não organizadas se veem arrastadas à luta, e participam ativamente na mesma [...] A crescente insatisfação e o giro à esquerda das massas abarca também milhões de operários agrícolas e camponeses oprimidos.” (Bolchevique, nº 12, junho de 1929, pág. 9).

Este quadro não deixa lugar a dúvidas. Se é verdade que a maré grevista se estende por todo o mundo, arrastando “milhões de operários agrícolas e camponeses oprimidos”, relacionando-se com a “luta revolucionária e a guerra civil”, é óbvio que nos encontramos diante de uma situação revolucionária e a tarefa do momento é, sem dúvida, a luta aberta. Aceitemos não entrar na discussão sobre se essas circunstâncias correspondem ou não a um “terceiro período”, ou se não levam número.

É sabido que batuta do Décimo Plenário estava nas mãos do maestro Molotov. No discurso programático que pronunciou ante os dirigentes da Internacional Comunista disse:

“Tendo em vista a realidade do movimento proletário mundial, só um oportunista obtuso [!], um liberal infeliz [!], poderia deixar de compreender que entramos com os dois pés no reino dos imensos acontecimentos revolucionários de importância internacional” (Pravda, nº 177).

“Com os dois pés”: que poder de síntese!

Ao compasso da batuta de Molotov, o Bolchevique de agosto de 1929 disse:

“Com base na análise da luta operária nos principais países capitalistas, o Décimo Plenário afirmou que se desenvolve e aprofunda o processo de giro à esquerda e radicalização das massas, que na atualidade começa a alcançar a magnitude de um princípio de levante revolucionário (pelo menos em alguns países, como Alemanha, França e Polônia)” (nº 15, pág. 4).

Não resta dúvida, Molotov afirmou taxativamente, senão com a cabeça pelo menos com os pés, que este período é revolucionário. E posto que ninguém gosta de ser considerado um “oportunista obtuso” ou um “liberal infeliz”, pareceria que a posição de Molotov está a salvo de toda crítica por parte do plenário. Sem se dar ao trabalho de fazer análises políticas ou econômicas, por razões cuja validez reconhecemos, Molotov se limitou a ler uma pequena ladainha de greves em distintos países (Ruhr, Lodz, norte da França, Bombay, etc), sendo essa a única prova de que “entramos no reino de imensos acontecimentos revolucionários”. Assim se criam os períodos históricos!

Aos comitês centrais e publicações das seções nacionais só restava garantir que seus próprios pés, adiantando-se no possível a suas cabeças, penetrassem o quanto antes nos “imensos acontecimentos revolucionários”. Mas, não é suspeito que a situação revolucionária surja simultaneamente em todo o mundo, nos países adiantados e nas colônias, ignorando a “lei do desenvolvimento desigual”(21), ou seja, a única lei histórica que Stalin conhece pelo menos de nome? Na realidade, é absurdo falar de simultaneidade. Como vemos, em vez de fazer uma análise da situação mundial, somam-se alguns conflitos isolados que ocorrem em distintos lugares do mundo e em situações distintas. De todos os países europeus, a Áustria é talvez o único que conheceu uma crise que, se houvesse um Partido Comunista com influência, poderia ter havido um processo revolucionário imediato. Mas a Áustria nem é mencionada. Em troca França, Alemanha e Polônia são “os países que [segundo Molotov] encontram-se na primeira fila do levante revolucionário”. Já analisamos a onda grevista francesa e o lugar que ocupa no desenvolvimento da classe operária e do país. Em breve esperamos abordar uma análise detalhada dos sintomas fundamentais que caracterizam a luta da classe operária alemã. Mas nossas conclusões a respeito da França, que segundo o Décimo Plenário é um dos três países mais revolucionários da Europa, demonstram que a análise de Molotov é uma combinação de três fatores: ignorância teórica, irresponsabilidade política e aventureirismo burocrático. Estes elementos não caracterizam o “terceiro período”, mas sim a burocracia centrista... em todos os períodos.

Greves econômicas e crise

“Onde está a base do levante revolucionário?” Molotov experimenta uma análise e imediatamente nos apresenta os frutos de suas elucubrações. “A base do levante revolucionário não se pode encontrar senão na crescente crise geral do capitalismo e no aprofundamento das contradições fundamentais do sistema capitalista”.

Quem não está de acordo é um “liberal infeliz”. Mas onde ele leu que a origem das greves econômicas “não se pode encontrar senão” na crise? Ao invés de analisar a situação econômica real, e examinar sua relação com o movimento grevista em curso, Molotov vai ao contrário: enumera meia dúzia de greves e daí tira a conclusão de que a crise capitalista é “crescente”. Assim sua análise termina... nas nuvens.

Sabemos que a causa do ascenso do movimento grevista em uma série de países reside nas melhoras experimentadas pela conjuntura econômica em curso nos dois últimos anos. Isso aconteceu principalmente na França. É verdade que a reativação industrial, que está distante de abarcar toda a Europa, segue sendo bastante modesta, mesmo na França, e seu futuro é incerto. Mas uma mudança conjuntural em qualquer sentido, por menor que seja, não passa sem afetar a vida do proletariado. Se diariamente se produzem demissões em massa os trabalhadores que mantém seu emprego não têm a mesma moral que numa época na qual se incorporam novos trabalhadores, ainda que não sejam muitos. Não é menor a influência da conjuntura sobre as classes dominantes. Em um período de reativação industrial, que sempre suscita nos operários a esperança de que se melhore ainda mais no futuro, os capitalistas tendem a aliviar as contradições internacionais, precisamente para garantir que a conjuntura favorável siga desenvolvendo-se. Isso é o que convencionou-se chamar de “espírito de Locarno e Genebra”(22).

O passado nos brinda com bons exemplos da relação entre fatores conjunturais e fundamentais.

Entre 1896 e 1913 produziu-se, com breves interrupções, uma poderosa expansão industrial. Em 1913 se transformou numa recessão que, como sabem todas as pessoas bem informadas, significou o começo da crise prolongada. A ameaça de uma mudança na conjuntura, depois de um período de auge sem precedentes, criou um estado de extremo nervosismo na classe dominante e serviu de estímulo direto para o início da guerra. Naturalmente a guerra imperialista foi fruto das contradições fundamentais do capitalismo. Até Molotov conhece esta generalização. Mas, no caminho que conduziu a ela, alternaram-se uma série de etapas nas quais as contradições se agudizaram ou se aliviaram. O mesmo aconteceu com a luta de classes.

No período pré-bélico os processos básicos e conjunturais se desenvolveram de forma muito mais parelha que no período atual, caracterizado por mudanças repentinas e descensos abruptos, quando basta uma mudança econômica relativamente moderada para provocar um salto político de grande magnitude. Mas isto não significa que se possa fechar os olhos diante da marcha do processo repetindo três fórmulas mágicas – “as contradições se agudizam”, “as massas trabalhadoras se deslocam para a esquerda”, “a guerra é iminente” – todos, todos, todos os dias. Se o que determina nossa estratégia, em última instância, são a inevitável agudização das contradições e a radicalização revolucionária das massas, nossas táticas, subordinadas a esta estratégia, se elaboram sobre a base da avaliação realista de cada época, cada etapa, cada momento, cujas características podem ser a atenuação circunstancial das contradições, uma virada à direita das massas, uma mudança na correlação de forças a favor da burguesia, etc. Se as massas se deslocassem ininterruptamente à esquerda, qualquer imbecil poderia dirigi-las. Por sorte ou por azar, a situação é mais complicada, sobretudo nesta época tão fluida, mutante, “caprichosa”.

A chamada linha geral não é mais que uma frase se não se adapta a cada mudança da situação nacional e internacional. Como atua a direção da Internacional Comunista? Em vez de analisar as situações concretas, bate cabeça ante cada nova etapa e logo consola as massas derrotadas com mudanças e inclusive expulsão dos que montavam guarda nos comitês centrais dos partidos nacionais. Aconselhamos encarecidamente Cachin, Monmousseau, Thaelmann e todos os Remmeles(23) que se preparem a cumprir o papel de bodes expiatórios da teoria e prática do terceiro período, o que acontecerá quando Stalin corrigir Molotov... uma vez consumado o fato.

Os progressos da URSS e o “terceiro período”

A primeira causa do “levante revolucionário” que se iniciou a dois anos é, segundo Molotov, essa crise econômica que ele descobriu, diga-se de passagem, por dedução. A segunda razão é, para ele, o progresso econômico da URSS, e chega ao extremo de acusar o CEIC de não apreciar em toda sua magnitude o efeito radicalizante do plano quinquenal. Não é necessário demonstrar que, efetivamente, os êxitos da república soviética em termos econômicos possuem uma importância enorme para a classe operária mundial. Mas de forma alguma pode se concluir com base nisso que o plano quinquenal é capaz, a priori, de provocar um levante revolucionário na Europa e em todo o mundo. As massas trabalhadoras não atuam com base nos números que o plano quinquenal aspira a alcançar. Mas ainda se deixamos de lado o plano quinquenal e nos referimos às conquistas reais da indústria, estas cifras não explicam a greve dos operários portuários franceses nem a dos operários têxteis da Índia. As massas operárias saem à luta em virtude de suas condições de vida imediatas. Por outro lado, a grande maioria dos operários se inteira dos êxitos e fracassos da economia soviética lendo as mentiras que publica a imprensa burguesa e a socialdemocrata. Por último, e isso é o mais importante, o que mais estimularia grandes massas de operários em todo o mundo não é a cifra estatística abstrata, senão uma verdadeira e importante melhora do nível de vida dos operários da URSS. Com certeza a grande escassez de alimentos em Moscou e Leningrado não serve para encher de entusiasmo revolucionário dezenas de milhões de operários do mundo capitalista. Lamentavelmente é um fato que só cem operários foram ouvir os informes triunfais da delegação francesa em seu retorno da URSS. Cem operários de toda Paris! É uma dura advertência; mas os prepotentes burocratas nem se dignam a pensar nisso.

A consigna de greve geral

Molotov penetra com brio nos “imensos acontecimentos revolucionários” e cinco minutos depois comenta, inesperadamente, que “no entanto, estas mobilizações contra o capital e o reformismo que está a seu serviço são isoladas e esporádicas”.

Dir-se-ia que, em distintos países e por diferentes razões, se dão greves isoladas e esporádicas mas que, no geral, posto que surgem de uma reativação conjuntural do mercado mundial, entretanto não são – em virtude precisamente de seu caráter isolado e esporádico – “imensos acontecimentos revolucionários”. Mas Molotov quer unificar as greves isoladas, o que é uma tarefa louvável. Pelo momento é uma tarefa, não um fato consumado. Pode-se unificar as greves isoladas – nos instrui Molotov – mediante greves políticas de massas. Sim, dadas as condições necessárias, a classe operária há de se unificar em greves revolucionárias de massas. Sempre segundo Molotov, a greve de massas é “esse problema novo, fundamental e característico que constitui o eixo das tarefas táticas dos partidos comunistas neste momento. E isso significa – prossegue nosso estrategista – que nos aproximamos [desta vez apenas ‘nos aproximamos’!] de novas e mais elevadas formas de luta de classes”. E com o objetivo de que o Décimo Plenário ratifique claramente a religião do “terceiro período”, Molotov agrega: “Não poderíamos ter levantado a consigna de greve política de massas se não nos encontramos em uma etapa de ascenso”. Eis aqui uma lógica sem igual! No começo os dois pés entravam em imensos acontecimentos revolucionários. Logo apareceu que a única tarefa que devia realizar a cabeça teórica era a greve geral; quer dizer, não a greve geral em si, mas sua consigna. E a partir dali, pelo método inverso, chega-se à conclusão de que “nos aproximamos de formas mais elevadas da luta de classes”. Porque, vejam vocês, se não nos aproximamos, como faria Molotov para levantar a consigna de greve geral? Toda esta elucubração só se apoia na palavra de honra do lactante estrategista. E os poderosos representantes dos partidos escutaram respeitosamente a palavra deste cretino prepotente e, por sua vez, responderam: “Tens razão!”.

De qualquer forma, nos inteiramos de que todos os países, desde a Inglaterra até a China – com França, Alemanha e Polônia à frente -, já estão maduros para a consigna de greve geral. Por fim nos convencemos de que da desgraçada lei do desenvolvimento desigual não sobram nem rastros. Poderíamos aceitá-lo se só nos explicassem com que objetivos políticos levantam a consigna de greve geral em todos os países. Pelo menos teriam que dizer que os operários saem à greve geral por amor à greve geral. O anarcossindicalismo não compreendeu, e rachou a cabeça. Às vezes a greve geral é uma manifestação de protesto. Esse tipo de greve pode iniciar quando algum acontecimento claro, às vezes inesperado, golpeia a imaginação dos trabalhadores e gera a necessidade de uma resistência unânime. Mas uma manifestação grevista de protesto não é, contudo, uma greve política revolucionária no verdadeiro sentido do termo: é só um ensaio para a preparação da mesma. A greve política revolucionária propriamente dita constitui, por assim dizer, o último ato da luta do proletariado pelo poder. A greve geral, ao paralisar o estado capitalista em suas funções, coloca a questão ‘quem manda na casa’? Esta questão só se resolve mediante o emprego da força armada. Por isso uma greve revolucionária que não conduz à insurreição armada culmina inevitavelmente na derrota do proletariado. Se têm algum sentido as frases de Molotov sobre as greves políticas revolucionárias e “formais mais elevadas de luta”, é o seguinte: em todo o mundo e de forma simultânea ou quase simultânea, a situação revolucionária alcançou tal grau de maturidade que os partidos comunistas do oriente, do ocidente, do sul e do norte têm colocada a tarefa da greve geral, prólogo imediato da insurreição armada.

Basta passar em revista à estratégia molotoviana do “terceiro período” para que se revele por completo seu absurdo.

“Ganhar as ruas”

A outra tarefa que se coloca com a greve geral é a de “ganhar as ruas”. Neste caso não se defende – pelo menos em palavras – os direitos democráticos, pisoteados pela burguesia e a socialdemocracia, senão o “direito” do proletariado a levantar suas barricadas. Esta é, precisamente, a interpretação que se tem dado à consigna “ganhar as ruas” em numerosos artigos da imprensa comunista oficial depois do plenário de julho. Não é tarefa nossa negar ao proletariado o direito de “ganhar as ruas” através de barricadas. Mas é necessário compreender o que isso significa. Sobretudo, há que compreender que a classe operária não levanta barricadas por amor às barricadas, assim como não sai à greve por amor à greve. Deve existir um objetivo político imediato, capaz de fundir milhões de trabalhadores e dar apoio firme à vanguarda. Dessa forma colocam o problema os revolucionários, não os oportunistas desenfreados.

À tarefa revolucionária de “ganhar as ruas” – à arte por amor à arte – dedicam-se várias jornadas especiais. A última exibição deste tipo foi, como todos sabem, a de 1º de agosto. Um mero mortal se perguntava ‘por que o 1º de agosto, cujo fracasso já havia sido anunciado pelo do 1º de maio?(24)’ ‘Como por quê?’ – respondiam exaltados os estrategistas oficiais -. Porque há que ganhar as ruas! Como devemos interpretá-lo, há que ganhar a calçada ou o asfalto? Até esse momento, para nós, a tarefa do partido revolucionário consistia em ganhar as massas, e a política capaz de mobilizar as mais amplas massas e levá-las a implementar a maior atividades abria inexoravelmente as ruas, por maior que fosse o empenho posto pela polícia em cuidar delas e fechá-las. A luta por ganhar as ruas não pode ser colocada como tarefa independente, separada da luta política das massas e subordinada ao programa oficial elaborado por Molotov.

E, mais importante ainda, não se pode enganar a história. A tarefa não consiste em parecer mais forte senão em chegar a sê-lo. E não se conseguirá isso com fantoches grosseiros. Quando não existe um “terceiro período”, é possível inventá-lo e aprovar dezenas de resoluções. Mas não se pode fabricar o terceiro período nas ruas, de acordo com um calendário. Se os comunistas seguem por este caminho, não encontrarão mais que derrotas, trágicas em alguns casos, estúpidas e humilhantes na maioria deles.

“Nada de alianças com os reformistas”

O “terceiro período” dá lugar a outra conclusão tática importante, que Molotov expressa assim: “Agora mais do que nunca, a tática de alianças entre organizações revolucionárias e organizações reformistas é inadmissível e daninha” (Pravda, nº177, 4 de agosto de 1929).

As alianças com os reformistas são mais inadmissíveis “do que nunca”. Significa que antes também eram inadmissíveis? Sendo assim, como se concilia isso com a política aplicada entre 1926 e 1928? E se as alianças com os reformistas são inadmissíveis em geral, por que são agora particularmente inadmissíveis? Porque – nos dizem – entramos numa etapa de ascenso revolucionário. Mas não podemos deixar de recordar que o motivo do bloco conformado com o Conselho Geral dos sindicatos ingleses foi justamente que na Inglaterra havia se iniciado um ascenso revolucionário, e que a radicalização da classe operária britânica empurrava os reformistas para a esquerda. Em virtude de que a supersabedoria tática stalinista de ontem volta de cabeça baixa? Em vão buscaríamos a solução deste enigma. Entretanto, o problema é bastante simples. Os empíricos do centrismo queimaram as mãos com a experiência do Comitê Anglo-Russo(25), e juraram severamente evitar tais escândalos no futuro. Mas os juramentos são inúteis, porque nossos estrategistas seguem sem aprender as lições do Comitê Anglo-Russo.

O erro consistiu em não providenciar um acordo circunstancial com o Conselho Geral que, com efeito, durante esse período se deslocou à “esquerda” sob pressão das massas. O primeiro erro foi constituir um bloco não em base a objetivos concretos e práticos, acessíveis à classe operária, senão a frases pacifistas gerais e fórmulas diplomáticas enganosas. O erro principal, que se converteu em um gigantesco crime histórico, foi que nossos estrategistas não puderam romper imediata e abertamente com o Conselho Geral quando este voltou suas armas contra a greve geral, ou seja, quando o aliado circunstancial e pouco digno de confiança se transformou em franco inimigo.

A influência que a radicalização das massas exerce sobre os reformistas é bastante parecida com a da revolução burguesa sobre os liberais. Nas primeiras etapas da mobilização das massas, os reformistas vão à esquerda, esperando assim poder reter a direção da mesma. Mas quando a mobilização ultrapassa os marcos da reforma e exige dos dirigentes que rompam totalmente com a burguesia, a maioria dos reformistas muda de cor. Os covardes companheiros de viagem das massas se transformam em fura-greves, inimigos, traidores descarados. Ao mesmo tempo, porém, alguns deles – e não necessariamente os melhores – passam para o lado da revolução. A aliança com os reformistas, no momento que as circunstâncias os obrigue a dar um passo ou meio passo adiante, pode ser inevitável. Mas é necessário saber de antemão que os comunistas romperão implacavelmente com os reformistas apenas se estes dão um salto para trás. Os reformistas não são traidores porque sempre, e com cada um dos seus atos, cumpram as ordens da burguesia. Se fosse assim não teriam influência no movimento operário e, por conseguinte, a burguesia não precisaria deles.

Justamente a fim de contar com a autoridade necessária para trair os operários no momento decisivo, os oportunistas se veem obrigados, no período preparatório, a dirigir as lutas operárias, sobretudo nas primeiras etapas da radicalização das massas. Daí a necessidade da tática de frente única(26), que nos obriga, pela causa da maior unificação das massas, a arranjar alianças circunstanciais com seus dirigentes reformistas.

Deve-se conhecer a função histórica dos socialdemocratas para arrancá-los, passo a passo, de todos os seus postos de direção. A direção atual mostra não possuir nem rastros desse conhecimento. Só sabe de dois métodos: o brandlerista(27) - de prender-se na cauda da socialdemocracia (1926-1928) -, ou o de identificar a socialdemocracia com o fascismo, substituindo a política revolucionária pelo insulto inútil. O resultado de seis anos de ziguezagues é o fortalecimento da socialdemocracia e o debilitamento do comunismo. As orientações mecânicas do Décimo Plenário só servem para piorar uma situação que por si só já é ruim.

Só um ignorante sem remédio pode crer no poder milagroso do “terceiro período”, capaz de levar o conjunto da classe operária a romper com a socialdemocracia e lançar toda a burocracia reformista ao campo fascista. Não, a marcha do processo será mais complexa e contraditória. A consequência inevitável de uma crescente insatisfação com o governo socialdemocrata alemão e com os trabalhistas ingleses, a transformação das greves parciais e isoladas em movimentos de massas, etc., quando todos esses fatos se realizarem será – tenha isso em mente Molotov e cia. – uma virada à esquerda de amplos setores reformistas, assim como os processos internos da URSS obrigaram o bando centrista, ao qual pertencia Molotov, a girar no mesmo sentido.

Os socialdemocratas e a Internacional de Amsterdã, com a única exceção dos elementos mais direitistas (tipo Thomas, Hermann Müeller, Renaudel, etc.)(28), vão se ver obrigados pelas circunstâncias a porem-se à frente do avanço das massas, para manter esse avanço dentro de limites muito estreitos ou para atacar os operários desde a retaguarda quando se excedam esses limites. Apesar de sabermos de antemão e doutrinarmos a vanguarda a respeito, o futuro mostrará dezenas, centenas e milhares de casos em que os comunistas não poderão se negar a fazer alianças circunstanciais com os reformistas, senão que inclusive terão que assumir a iniciativa de sua organização, de maneira tal que, sem permitir que a direção lhes escape das mãos, possam romper com os reformistas caso estes se transformem, de aliados pouco firmes, em traidores descarados. Será inevitável empregar esta política, sobretudo com a esquerda socialdemocrata que, quando se produzir uma autêntica radicalização das massas, vai se ver obrigada a enfrentar a direita até o ponto de romper com ela. Esta perspectiva não contradiz de forma alguma o fato de que os dirigentes da socialdemocracia de esquerda sejam os aliados mais perigosos e daninhos colaboradores com a burguesia.

Quem pode se negar a se aliar com os reformistas, por exemplo, nas greves que eles dirigem? Se neste momento se dão poucos casos, deve-se a que o movimento grevista é muito débil e os reformistas podem ignorá-lo ou sabotá-lo. Mas quando as massas participarem da luta, as alianças serão inevitáveis para ambos os lados. Será igualmente impossível evitar a aliança com os reformistas – não só com as massas socialdemocratas mas também com seus dirigentes, ou melhor, com um setor da direção – na luta contra o fascismo. É possível que esta perspectiva não tarde em se colocar, não só na Áustria mas também na Alemanha. As diretivas do Décimo Plenário são fruto da psicologia dos oportunistas mortos de medo.

Os Stalin, Molotov e demais ex-aliados de Chiang Kai-Shek, Wang Tin-Wei, Purcell, Cook, Fimmen, La Follete e Radich não deixarão de clamar em alto e bom som que a Oposição de Esquerda milita por um bloco com a Segunda Internacional(29). Assim que a verdadeira radicalização das massas pegar os burocratas de surpresa, os gritos não lhes impedirão de anunciar que começou um quarto período, ou a segunda etapa do terceiro, e todos os Molotovs entrarão com “os dois pés” na etapa dos experimentos oportunistas como o do Comitê Anglo-Russo e o Kuomintang operário e camponês(30).

Não esqueçam seu próprio passado

Que todos os dirigentes do Partido Comunista Francês e os dos demais partidos da Internacional recordem seu próprio passado. Todos eles, menos os jovens, saíram das fileiras reformistas influenciados pelo giro à esquerda dos trabalhadores. Isso não foi obstáculo para que os bolcheviques fizessem acordos com os reformistas radicalizados, com condições muito precisas: um desses acordos foi o de Zimmerwald(31). Como podem os social-patriotas de ontem estar tão seguros de que as massas, no momento que se aproximarem das “posições de avanço da insurreição revolucionária”, não produzirão uma nova geração de Cachins, Monmousseaus, Thaelmanns, etc. (esperamos que a segunda edição seja melhor que a primeira), e que não nos veremos obrigados novamente a pegar estes cavalheiros pela orelha para arrastá-los a posições revolucionárias, conformar com eles alianças circunstanciais, colocar-lhes, numa etapa posterior, vinte e uma condições(32) ou talvez quarenta e duas ou, pelo contrário, jogá-los de cabeça no pântano do oportunismo assim que começarem a retroceder?

Os teóricos oficiais equivocam-se totalmente quando dizem que o fortalecimento da ala direita comunista se deve ao fato de que a radicalização das massas assustou os reformistas “inconscientes”. Demonstram não compreender o que é a psicologia política! Ser oportunista supões possuir uma grande elasticidade e capacidade de adaptação. Se a pressão das massas se fizesse sentir, os Brandler , Jilek e Lovestone(33) se deslocariam à esquerda, não à direita, e isso é certo sobretudo no caso de arrivistas já desgastados como Sellier, Carchery e os demais, aos quais o que mais lhes importa é não perder seus mandatos legislativos. É verdade que a capacidade de esquerdização dos oportunistas não é ilimitada. Ao chegar ao Rubicão – ao momento decisivo, à insurreição -, a maioria volta atrás, para a direita. Assim o demonstra, inclusive, a experiência de um partido tão provado como o Partido Bolchevique (Zinoviev, Kamenev, Rikov, Kalinin, Tomski, Lunacharski e outros)(34). Depois da vitória, os oportunistas giraram novamente à “esquerda”, ou melhor, ao grupo que tinha o poder (Lozovski, Martinov, Kuusinen e outros mais, logo seguidos por heróis da laia de Pepper, Cachin e Frossard)(35). Mas na França o momento decisivo ainda está longe. Os oportunistas franceses na atualidade não vão à esquerda, mas à direita, o que constitui uma prova certa de que a pressão revolucionária das massas não é sentida, que o partido se debilita e que os arrivistas municipais e de todo tipo esperam conservar seus assentos denunciando o comunismo(36). Quando esses péssimos elementos se vão, o partido ganha. Mas o triste é que a política errada, irresponsável, aventureiristas, auto-suficiente e covarde da direção oficial cria condições muito favoráveis para esses desertores e empurra para eles elementos proletários que deveriam integrar as fileiras comunistas.

Uma vez mais sobre o perigo da guerra

Como se a confusão criada fosse pouca, a situação revolucionária iminente aparece combinada com o perigo da guerra iminente. Ao fazer a defesa desta tese, Molotov surpreendeu a todos dirigindo suas baterias teóricas contra Varga(37), o conhecido teórico-cortesão, o Polaco shakespeariano, sempre disposto a bajular todo “príncipe”, seja de direita ou de esquerda, conforme sopra o vento. Contudo, desta vez não deu branco no Polaco. Seu conhecimento dos fatos e números divulgados pela imprensa mundial impediu-lhe de deslocar oportunamente o meridiano da Internacional Comunista ao lugar onde Molotov havia colocado seu pé esquerdo. Varga propôs a seguinte emenda política à resolução:

“A agudização das contradições imperialistas, que neste momento nenhum dos principais países imperialistas deseja resolver mediante a guerra, obriga-lhes tratar de arquivar temporariamente as contradições que provocam as indenizações.”

Poderia parecer que esta afirmação tão cautelosa é absolutamente irrefutável. Mas, posto que ela requeria algumas considerações adicionais, Molotov se exaltou. Como é possível crer – gritou – que nenhuma das principais potências imperialistas deseje na atualidade resolver as contradições imperialistas mediante uma guerra? “Todos sabem [!] – escutem, escutem! É Molotov quem lhes fala – que o perigo de uma nova guerra imperialista cresce dia após dia.” Apesar de que Varga “opina o contrário”. Não é monstruoso? Como se atreve Varga a “negar que, precisamente em virtude da implementação do Plano Young(38), a agudização das contradições seja um fato inevitável?”.

Tudo isso é tão absurdo, tão evidentemente estúpido, que nem dá lugar à ironia “todos sabem que o perigo de uma nova guerra imperialista cresce dia após dia”. Que poder de pensamento! Todos sabem? Infelizmente, só o sabe uma pequena porcentagem da humanidade que, assim como o exuberante líder da Internacional Comunista, desconhece como cresce na realidade o perigo de uma guerra. É tão absurdo dizer que cresce “dia após dia” como dizer que as massas se radicalizam dia após dia. Trata-se de um processo dialético, no qual a rivalidade imperialista se exacerba e se suaviza alternadamente. Talvez Molotov tenha ouvido dizer que nem sequer o desenvolvimento das forças produztivas, o mais fundamental dos processos capitalistas, se produz “dia após dia”, senão que atravessa períodos de crises e de auge, de retrocesso das forças produtivas e até de destruição total das mesmas (em tempos de guerra). A marcha dos processos políticos segue os mesmos ritmos, mas suas convulsões são ainda maiores.

Em 1923 o problema das indenizações provocou a ocupação do Ruhr. Foi nada menos que um preparo militar em pequena escala. Mas só isso bastou para gerar uma situação revolucionária na Alemanha. A Internacional Comunista, dirigida por Zinoviev e Stalin, e o Partido Comunista Alemão, sob comando de Brandler, arruinaram esta magnífica oportunidade. O ano de 1924, com o Plano Dawes, foi testemunha do debilitamento da luta revolucionária na Alemanha e da atenuação das contradições entre França e Alemanha. Assim se criaram as premissas políticas para a estabilização econômica. Quando nós o dissemos, ou melhor, quando predizemos este processo no final de 1923, Molotov e os demais sabichões nos taxaram de liquidadores e se jogaram de cabeça numa etapa de ascenso revolucionário.

Os anos de estabilização deram origem a novas contradições e agudizaram algumas das velhas. A revisão do Plano Dawes se mostrou uma necessidade imperiosa. Se a França ou Alemanha tivessem se negado a aceitar o Plano Young, a Europa seria testemunha de uma segunda ocupação do Ruhr, mas desta vez numa escala muito maior, com as consequências correspondentes. Porém isso não ocorreu. Todos os jogadores consideraram mais oportuno chegar a um acordo e, ao invés de uma segunda ocupação do Ruhr, hoje vemos uma limpeza do distrito do Ruhr. A ignorância se caracteriza por confundir as coisas, o conhecimento começa com a diferenciação. O marxismo jamais tolera a ignorância.

Mas, por acaso – exclama nosso estrategista -, “o resultado do Plano Young não será necessariamente uma agudização das contradições?” Será necessariamente! Mas... como resultado. É necessário compreender a sucessão dos acontecimentos e a dialética de suas alternativas. O fruto inevitável de todo auge conjuntural é uma recessão, às vezes uma crise. Porém isso não significa que uma conjuntura boa seja o mesmo que uma ruim e que a crise se aproxime “dia após dia”. “Como resultado” de ter vivido, o ser humano vai unir-se a seus antepassados, o que não significa que essa pessoa chega à morte sem ter conhecido a infância, o crescimento, a doença, a maturidade e a velhice. A ignorância se caracteriza por confundir as etapas de um processo. A maçã da sabedoria nos ensina a distingui-las. Mas Molotov jamais provou desse fruto.

O lamentável esquematismo dos dirigentes não é totalmente inofensivo; pelo contrário, afeta a revolução a cada passo. O conflito sino-soviético criou a necessidade urgente de mobilizar as massas contra o perigo da guerra e pela defesa da União Soviética. Não resta dúvida de que nessa situação, e ainda nas condições dadas, os partidos comunistas poderiam ter realizado esta tarefa com todo êxito. Para isso era necessário que a imprensa comunista se deixasse ouvir a tremenda voz dos próprios acontecimentos. Mas, quis a sorte que o conflito do Extremo Oriente surgisse justo quando se realizavam os preparativos para o 1º de agosto. Os agitadores e jornalistas oficiais insistiram de maneira tão furiosa e persistente sobre o perigo em geral e a guerra em geral, que o verdadeiro conflito internacional se perdeu de vista e quase não chegou à consciência das massas. Mesmo assim, na política da Internacional Comunista os peixinhos do esquematismo burocrático são tragados pela baleia da realidade viva.

Quanto à luta contra o perigo de guerra, é necessário rever a estratégia do “segundo período”: a importância de uma luta comum contra o perigo de guerra foi uma das principais justificativas do bloco com o Conselho Geral britânico. No plenário do Comitê Central de julho de 1927, Stalin jurou que o bloco com o Conselho Geral se justificava plenamente, em virtude de os sindicatos britânicos nos ajudarem a lutar contra o imperialismo britânico. Portanto, quem exigisse a ruptura do bloco com os fura-greves não estava de coração pela defesa da União Soviética. E assim foi que, em 1926-1927, além da guinada à esquerda dos operários britânicos, o outro grande argumento para conformar o bloco com os reformistas foi o perigo de guerra. Agora parece que tanto a radicalização das massas como a iminência do perigo de guerra justificam o repúdio a qualquer aliança com os reformistas. Tudo se coloca como que para semear a maior confusão possível entre os operários de vanguarda.

Não resta dúvida de que em caso de guerra, inclusive ante o perigo certo de guerra, os reformistas passarão com armas e bagagens para o lado da burguesia. Uma aliança com eles para lutar contra a guerra é tão inútil quanto um bloco para levar adiante a revolução proletária. Precisamente por isso, a justificativa stalinista do Comitê Anglo-Russo como arma para a luta contra o imperialismo foi uma enganação criminosa perpetrada contra os operários.

Mas a história não conhece somente guerras e revoluções, mas também os intervalos entre as mesmas, períodos nos quais a burguesia se prepara para a guerra e o proletariado para a revolução. Assim é o período que vivemos hoje. Devemos afastar as massas dos reformistas que, longe de entrar em decadência, se fortaleceram nos últimos anos. Porém este fortalecimento os faz depender mais que antes de sua base proletária. A tática da frente única é dirigida precisamente a esta dependência. Mas esta tática não deve ser colocada em prática segundo Zinoviev e Brandler, segundo Stalin e Bukhárin; temos que voltar a Lênin.

As três correntes do comunismo

A Oposição de Esquerda, que não assina o dogma do “terceiro período”, será acusada mais uma vez por franco-atiradores do tipo de Monmousseau de cair em desvios direitistas. Depois de tudo que aconteceu nos últimos seis anos, podemos analisar esta acusação com tranquilidade. Já no Terceiro Congresso da Internacional Comunista muitos dos cavalheiros que depois se passaram à socialdemocracia ou permaneceram temporariamente no brandlerismo nos acusaram, a nós e a Lênin, de desvios direitistas. Basta recordar que no Quinto Congresso Louis Sellier foi um dos grandes adversários do “trotskismo”.

Contudo, seguramente os direitistas tratarão de utilizar algumas de nossas críticas. É absolutamente inevitável. Nem todos os argumentos da direita são errados. Em muitas ocasiões os próprios saltos da burocracia dão fundamento às suas críticas. Dentro desse marco, frequentemente usam critérios marxistas para contrapor o oportunismo ao aventureirismo.

Deve se agregar que nas fileiras da oposição, que com toda justiça se autointitula Oposição de Esquerda, existiam há pouco tempo alguns elementos que se uniram a nós em 1924, não porque defendíamos uma posição revolucionária internacional, senão porque combatíamos o aventureirismo de Zinoviev. Muitos franceses, elementos oportunistas em potencial, se abrigaram sob a capa protetora da Oposição russa. Até pouco tempo atrás, muitos deles se vangloriavam de um acordo total (“sans reserves”) conosco. Porém quando se tratou de lutar pelas posições da Oposição abriu-se um abismo entre nós e esses militantes de salão. Eles negam a existência de uma situação revolucionária somente porque não desejam que a mesma se produza.

Muitas pessoas boas se incomodavam sinceramente que nos ocupávamos de introduzir uma barreira entre a Oposição de Esquerda e a de Direita. Diziam que nossa classificação das três correntes fundamentais do comunismo contemporâneo era arbitrária e inaplicável à França, porque ali não existia uma ala direita. Entretanto, os últimos meses, tanto na França quanto em outros países, confirmaram a correção deste “esquema” internacional. A Liga Sindicalista levantou com toda ostentação a bandeira da luta contra o comunismo, e assim encontrou aliados na segunda fila da oposição sindical(39). Ao mesmo tempo os reformistas romperam com o partido. Em sua luta contra o aventureirismo burocrático tratam de reter seus mandatos com o pretexto de criar um novo partido. Imediatamente, e em virtude de seu parentesco político, a oposição sindical de direita apareceu como vinculada ao novo “partido” parlamentar municipal. Assim tudo vai ocupando o lugar que lhe corresponde. E cremos que nisso La Verité cumpriu uma grande tarefa.

Entre dois pontos se traça uma linha reta. Para traçar uma curva são necessários pelo menos três. Os caminhos da política são muito complexos e curvilíneos. Para avaliar corretamente os distintos agrupamentos, há que examiná-los em suas diversas etapas: em momentos de levante revolucionário e em momentos de refluxo revolucionário. Se queremos traçar a órbita política da Oposição de Esquerda Comunista devemos estabelecer uma série de pontos críticos: os acontecimentos alemães de 1923, a estabilização de 1924, a política de industrialização e a política para o kulak na URSS em 1923-1928, a questão do Kuomintang e a do Comitê Anglo-Russo, a insurreição de Cantão(40), a caracterização da teoria e a prática do “terceiro período”, etc. Cada uma destas questões abarca toda uma série de tarefas práticas. Deste complexo de ideias e consignas os saqueadores do aparato arrancam frases isoladas e com elas constroem a teoria de uma aproximação entre a direita e a esquerda. Os marxistas visualizam o problema em seu conjunto e mantém consequentemente sua estratégia fundamental, apesar das mudanças circunstanciais. Este método não traz resultados instantâneos, mas é o único que merece confiança. Que os saqueadores saqueiem. Nós nos preparamos para o amanhã.


Notas de rodapé:

(*) Segundo o esquema proclamado pelos stalinistas em 1928, o “terceiro período” é o período final do capitalismo. Em 1934 se rejeitou a teoria e a prática do terceiro período, substituindo-as pelas da Frente Popular (1935-1939), mas este não foi numerado. O “primeiro período” foi de 1917-1924 (crise do capitalismo e ascenso revolucionário), o “segundo período”, de 1925 a 1928 (estabilização do capitalismo). (Algumas das notas que acompanham este trabalho foram tomadas da antologia de Trotsky intitulada Le mouvement communiste em France, preparada por Pierre Broué, Editions du Minuit, Paris, 1967.) (retornar ao texto)

(1) Marcel Cachin (1869-1958): dirigente do PC, proveniente do PS, onde teve atuação parlamentar. Gaston Monmousseau (1883-1960): sindicalista revolucionário, ingressou logo ao PC e chegou a ser dirigente do mesmo e da CGTU. Foi um firme partidário de Stalin. (retornar ao texto)

(2) O reformismo é a teoria e a prática da mudança gradual, pacífica e parlamentar (em oposição à revolução), como a melhor e a única maneira de passar do capitalismo ao socialismo. Por isso os reformistas tratam de destemperar a luta de classes e fomentam a colaboração de classes. (retornar ao texto)

(3) Em 1923 as tropas francesas ocuparam o Ruhr quando a Alemanha atrasou o pagamento das indenizações da guerra. Isso provocou a eclosão de uma crise pré-revolucionária na Alemanha mas, devido aos erros da direção do PC Alemão, o governo alemão pôde recuperar o controle da situação, o que provocou a consolidação temporal do capitalismo alemão e europeu. (retornar ao texto)

(4) Maurice Chambelland (1901-1966): renunciou ao PC Francês junto com Monatte em 1924; foi o colaborador mais estreito deste no grupo Revolution Proletarienne. Representou a minoria sindicalista nas polêmicas com a maioria stalinista no Quinto Congresso da CGTU, realizado em Paris em setembro de 1929. (retornar ao texto)

(5) O Conselho Geral do Congresso Sindical britânico chamou à greve geral em apoio à greve mineira de maio de 1926, mas cancelou-a nove dias depois e os mineiros tiveram que lutar sozinhos até que foram derrotados. (retornar ao texto)

(6) A Confederação Geral do Trabalho Unitária (CGTU) se constituiu em 1921 como adversária esquerdista da Confederação Geral do Trabalho, a grande federação sindical francesa, dominada naquele momento pelos reformistas. No Quinto Congresso da CGTU a maioria stalinista obteve um número de votos oito vezes maior que a minoria. A CGTU e a CGT se reunificaram em 1936, durante o período de Frente Popular. Albert Vassart (1898-1958): Secretário da CGTU e importante dirigente do PC Francês. Jean Bricot: era o pseudônimo que utilizava Monmousseau na imprensa sindical. (retornar ao texto)

(7) August Thalheimer (1884-1948): fundador e dirigente do PC Alemão, foi expulso do mesmo em 1929 e organizou junto com Heinrich Brandler a Oposição do Partido Comunista (KPO), contrapartida alemã da Oposição de Direita da União Soviética. John Pepper (pseudônimo de Joseph Pogany): desempenhou um papel secundário na revolução húngara de 1919, mas ao viajar aos Estados Unidos em 1922 como integrante de uma delegação da Comintern soube manobrar para que o elegessem como membro do Comitê Central do PC; foi um dos principais dirigentes até que foi expulso em 1929 por ser simpatizante da Oposição de Direita. Bela Kun (1886-1939): dirigente da revolução húngara de 1919 e chefe de estado a efêmera República Soviética Húngara. Mudou-se para Moscou e foi funcionário da Comintern. Supõe-se que o regime stalinista o fuzilou durante a purga de comunistas exilados levada a cabo em fins da década de 30. De todos os personagens citados aqui por Trotsky, Kun é o único que merece o título de ultra-esquerdista congênito; a respeito dos demais seria mais acertado dizer que foram ultra-esquerdistas ou se adaptaram ao ultra-esquerdismo “nessa época”, vale dizer em 1921 e no Terceiro Congresso Mundial. Trotsky pergunta com sarcasmo se o ano de 1921, quando os ultra-esquerdistas acreditavam que a revolução mundial estava logo na esquina, cumpre os requisitos do “terceiro” período. (retornar ao texto)

(8) O informe sobre a crise econômica mundial e as tarefas da Internacional Comunista foi apresentado por Trotsky diante do Terceiro Congresso Mundial em 23 de junho de 1921. Foi publicado posteriormente em The First Five Years of the Communist International, vol. 1, Monad Press, Nova York, 1972; distribuído por Pathfinder Press. [Os Cinco Primeiros Anos da Internacional Comunista, sem edição em português. Edição em espanhol: Los cinco primeros años de la Internacional Comunista, tomo I, Ediciones Pluma, Buenos Aires, 1973] (retornar ao texto)

(9) O cartismo (1838-1850): movimento de agitação revolucionária em torno da “Carta do Povo”, uma petição de seis reivindicações elaborada em 1838 pela London Workingmen’s Association [Associação Operária Londrina]. O movimento se iniciou, teve seu auge e morreu em um período no qual o capitalismo britânico estava em ascenso. (retornar ao texto)

(10) Observamos com alegria que La Verité começou a publicar resenhas econômicas mensais. O primeiro artigo (n° 12) traz uma excelente exposição sobre a necessidade de que todos os comunistas tenham uma orientação econômica, tanto para o trabalho político como para o sindical. A oposição deve prestar especial atenção a este aspecto do problema, elaborar uma perspectiva correta, baseada na análise marxista dos fatos e números, para enfrentar não só a charlatanice de Cachin e Monmousseau, senão também as fantasias políticas de certos cavalheiros que, perambulando de um lado a outro, ingressaram por engano na oposição. [Nota de León Trotsky] (retornar ao texto)

(11) Le Temps (O Tempo): porta-voz oficial do governo francês nos anos 30. (retornar ao texto)

(12) A Profintern (Internacional Sindical Vermelha) foi criada em Moscou em 1920 como oposição comunista à Internacional de Amsterdã (Federação Sindical Internacional), dos reformistas. Em 1945 ambas se unificaram para formar a Federação Sindical Mundial, mas em 1949, ao iniciar-se a guerra fria, os reformistas se separaram e formaram a Confederação Internacional de Sindicatos Livres. (retornar ao texto)

(13) Nas vésperas das eleições legislativas de 1924, o Burô do CEIC dirigiu um manifesto especial ao Partido Comunista Francês segundo o qual o Partido Socialista da França era “inexistente”. O autor do manifesto foi o irresponsável Lozovski. Em vão protestei ante o burô por esta caracterização irresponsável: em minha carta afirmei que é possível que um partido reformista parlamentar conserve uma grande influência apesar de contar com uma organização débil e inclusive com uma imprensa de pouca circulação. Esta posição recebeu a qualificação de “pessimista”. Naturalmente, os resultados das eleições de 1924, assim como toda a marcha posterior dos acontecimentos, não tardaram a derrubar a ligeireza de Zinoviev e Lozovski. [Nota de León Trotsky] (retornar ao texto)

(14) Escândalos “municipais”: referência a um episódio acontecido em novembro de 1929, quando seis militantes do PC Francês, membros do Conselho Municipal de Paris, foram expulsos do partido. Um mês depois fundaram o POP (Partido Operário e camponês), com um programa centrista; mais adiante o POP se unificou com outros elementos centristas para formar o PUP (Partido de Unidade Proletária). (retornar ao texto)

(15) Nas eleições parlamentares francesas de 1924 o OS aumentou seu número de votos e compartilhou o poder com o Partido Radical Socialista, em uma coalizão chamada Bloco de Esquerda – precursora da Frente Popular —, da qual o PC se negou a participar. (retornar ao texto)

(16) Na verdade são 70% a mais. [Nota do Tradutor para o português]. (retornar ao texto)

(17) Louis Sellier (n. 1885): secretário geral do PC Francês em 1923, foi um dos seis conselheiros expulsos em 1929. (retornar ao texto)

(18) O 1º de agosto: dia designado pela Comintern como “jornada vermelha” internacional. Nesse dia os partidos comunistas do mundo deviam lançar uma mobilização contra a guerra imperialista e pela defesa da União Soviética, em cumprimento de uma resolução do Sexto Congresso Mundial. A retórica ultra-esquerdista que acompanhou o chamado à mobilização fazia parecer que em 1º de agosto teria início uma guerra civil em Berlim e Paris (veja Escritos 1929), mas na realidade só se produziram algumas manifestações pequenas, isoladas, que não surtiram o menor efeito. As “jornadas vermelhas” seguiram sendo características da Comintern durante a maior parte do “terceiro período”; em 1930 se adotou o nome de “jornadas de combate”. (retornar ao texto)

(19) O socialismo num só país: teoria de Stalin, introduzida no movimento comunista pela primeira vez em 1924. Sustentava que podia se chegar à sociedade socialista dentro das fronteiras de um só país. Mais adiante, ao incorporá-la ao programa e às táticas da Comintern, foi empregada como justificativa ideológica do abandono do internacionalismo revolucionário e da conversão dos partidos comunistas de todo o mundo em peões da política exterior do Kremlin. Trotsky a submete a uma extensa crítica em A Terceira Internacional Depois de Lenin. (retornar ao texto)

(20) Epígonos: discípulos que corrompem as doutrinas de seu mestre. Trotsky empregava este termo em sentido pejorativo para se referir aos stalinistas, que se autoentitulavam leninistas. (retornar ao texto)

(21) A lei do desenvolvimento desigual, aplicada ao processo histórico, refere-se aos distintos ritmos e graus de desenvolvimento das forças produtivas, classes, instituições sociais, etc., de diferentes países. Seu corolário é a lei do desenvolvimento combinado, que se refere aos processos que emergem da combinação dos estágios de desenvolvimento mais primitivos com outros mais elevados. Marx empregou estas leis e Trotsky as utilizou explicitamente ao formular sua teoria da revolução permanente e ao analisar as forças motrizes da Revolução de Outubro. Quando Trotsky diz que Stalin conhece essa lei, não só quer dizer que a lei era de conhecimento geral, senão também que Stalin havia tratado de emprega-la para justificar sua “teoria do socialismo num só país”. (retornar ao texto)

(22) O “espirito de Locarno e Genebra” (o apaziguamento das contradições internacionais): referência ao Pacto de Locarno, uma série de tratados e convenções de arbitragem referendada em 1925 por Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Bélgica, Tchecoslováquia e Polônia, que “garantiam” a paz e o respeito pelas fronteiras nacionais existentes, e Genebra, sede da Liga das Nações e de numerosas conferências de desarmamento patrocinadas por esta. (retornar ao texto)

(23) Germann Remmele (1880-1937): um dos dirigentes stalinistas do PC Alemão e defensor da política do Kremlin que conduziu à vitória de Hitler em 1933. Fugiu para a URSS onde foi executado pela GPU no curso de uma purga de comunistas estrangeiros. (retornar ao texto)

(24) O fracasso do 1º de maio se refere aos acontecimentos iniciados em 1º de maio de 1929 em Berlim, quando o governo socialdemocrata proibiu a realização de manifestações de rua e o partido comunista chamou a desobedecer a proibição. Desarmados e desorganizados, os operários que responderam ao PC foram espancados ferozmente e baleados; a polícia assassinou mais de vinte e cinco operários e feriu várias centenas. O PC tentou organizar uma greve geral de protesto contra o terror policial. A resposta foi débil, mas os stalinistas qualificaram os acontecimentos de maio como “página gloriosa” da história e incentivaram a sair às ruas no mesmo espírito na manifestação de 1º de agosto. (retornar ao texto)

(25) O Comitê de Unidade Sindical Anglo-Russo: fundado em maio de1925 pelos burocratas de “esquerda” do Congresso Sindical e os dirigentes stalinistas dos sindicatos soviéticos. Em 1926, quando os britânicos traíram a greve geral, Trotsky exigiu que se dissolvesse o comitê, mas os stalinistas se negaram e seguiram aferrados a ele até que os britânicos, considerando que já não necessitavam desse escudo de esquerda, o abandonaram em setembro de 1927. As posições de Trotsky a respeito das lições do Comitê Anglo-Russo estão compiladas em Leon Trotsky on Britain, Monad Press, 1973; distribuído por Pathfinder Press. [Edição em espanhol: ¿Adónde va Inglaterra?, El Yunque Editora, Buenos Aires, 1974.] (retornar ao texto)

(26) A tática da frente única foi utilizada pelos bolcheviques russos antes da Revolução de Outubro. O Segundo Congresso da Comintern de 1920 deu-lhe expressão programática. O objetivo desta tática é permitir que os operários se unifiquem na luta contra o inimigo de classe comum ainda quando se encontrem divididos em organizações reformistas e revolucionárias; ao mesmo tempo, a unidade na luta permite ao partido revolucionário entrar em contato com as bases de outras organizações operárias. Segundo os bolcheviques, é condição indispensável do emprego desta tática que o partido revolucionário mantenha a todo momento sua independência e seu direito a criticar os demais integrantes da frente única. No “terceiro período” os stalinistas distorceram esta tática com o que eles chamavam a “frente única desde baixo”, baseado na ideia de que os acordos de unidade de ação deviam se negociar unicamente com as bases e não com os dirigentes das organizações não-stalinistas; a consequência foi que desapareceu toda possibilidade de realizar a frente única. As análises mais profundas de Trotsky sobre o problema da frente única estão compilados em La lucha contra el fascismo em Alemania, [Ediciones Pluma, Buenos Aires, 1973]. (retornar ao texto)

(27) Os brandleristas constituíam a oposição do Partido Comunista (KPO) Alemão, assim chamada por seu dirigente, Heinrich Brandler (1881-1967), fundador do PC Alemão e seu principal dirigente nos momentos em que este partido desperdiçou a crise revolucionária de 1923. O Kremlin o converteu em bode expiatório e o expulsou da direção em 1924. Quando a KPO se alinhou com a oposição de direita de Bukhárin em 1929, Brandler e seus partidários foram expulsos do PC e da Comintern. A KPO seguiu existindo até a Segunda Guerra Mundial. (retornar ao texto)

(28) A Internacional de Amsterdã (chamada também de A Internacional “Amarela”): a Federação Sindical Internacional, a mais importante de seu tipo associada aos reformistas e controlada por eles. O Thomas que se menciona aqui poderia ser uma destas duas pessoas: James H. Thomas (1874-1949), dirigente do sindicato ferroviário britânico, secretário de colônias no primeiro governo trabalhista e lorde do selo privado no segundo, que desertou do Partido Trabalhista em 1931 parta colaborar com MacDonald na instauração de um governo de coalizão com os conservadores; ou Albert Thomas (1878-1932), dirigente da ala direita do PS Francês e ministro durante a Primeira Guerra Mundial, partidário da colaboração de classes, que presidiu a Oficina Internacional do Trabalho da Liga das Nações depois da guerra. Hermann Müeller (1976-1931): chanceler socialdemocrata do governo de coalizão alemão, de 1928 a 1930. Pierre Renaudel (1871-1935): dirigente da ala direita do PS Francês, expulso do partido em 1933 por votar a favor da diminuição dos salários dos funcionários públicos. (retornar ao texto)

(29) Wang Tin-Wei (1884-1944): chefe do governo chinês na zona industrial de Wuhan, a quem os stalinistas apoiaram depois da traição de Chiang Kai-Shek. Seis semanas depois do golpe de Chiang em Shangai, Wang atacou os operários de Wuhan. Albert A. Purcell (1872-1935) e Arthur J. Cook (1885-1931): dirigentes da “esquerda” do movimento sindical inglês e do Comitê Anglo-Russo. Robert La Follete (1855-1925): senador pelo estado de Wisconsin, foi o candidato presidencial do Partido Progressista em 1924; o PC dos Estados Unidos pensava em apoiá-lo como candidato operário-camponês. Stephan Radich (1871-1928): dirigente do Partido Camponês Croata, foi proclamado repentinamente um “verdadeiro líder popular” por Moscou, porque esteve presente em um congresso da Internacional Camponesa em 1924. A Segunda Internacional (Internacional Operária e Socialista): nasceu em 1889 como sucessora da Primeira Internacional. Era uma associação livre de partidos socialdemocratas e trabalhistas, integrada tanto por elementos revolucionários quanto reformistas. Seu caráter progressista chegou ao fim em 1914, quando suas seções mais importantes violaram os princípios mais elementares do socialismo ao apoiar seus governos imperialistas na Primeira Guerra Mundial. Se desintegrou durante a guerra, porém ressurgiu como organização totalmente reformista em 1923. (retornar ao texto)

(30) Eram, desde cedo, os stalinistas, e não Trotsky, que consideravam o Kuomintang chinês, fundado em 1911 por Sun Yat-Sem, uma organização “operária e camponesa”. (retornar ao texto)

(31) Em Zimmerwald, povoado suíço, reuniu-se em setembro de 1915 uma conferência com o objetivo de reunificar as correntes internacionalistas antibélicas que haviam sobrevivido ao desastre da Segunda Internacional. A maioria dos participantes eram pacifistas; uma minoria revolucionária encabeçada por Lênin constituiu a esquerda Zimmerwaldiana, embrião d aTerceira Internacional, fundada em 1919. (retornar ao texto)

(32) O Segundo Congresso Mundial da Comintern aprovou as vinte e uma condições de admissão, como obstáculo para o ingresso dos partidos que não haviam rompido completamente com o reformismo; seu redator foi Lênin (veja suas Obras Completas ou Los Cuatro primeros Congressos de la Internacional Comunista, tomo I, Ediciones Pluma, Buenos Aires, 1973). (retornar ao texto)

(33) Bohumil Jilek (1892-1963): primeiro secretário do PC Tchecoslovaco logo após sua fundação em 1921, afastado da direção com a queda de Bukhárin, foi expulso em 1929 e se inclinou ainda mais à direita. Jay Lovestone (n. 1898): dirigente do PC dos Estados Unidos que dirigiu a expulsão dos partidários de Trotsky em 1928. Moscou ordenou sua expulsão em 1929 por ter se declarado partidário da Oposição de Direita. O grupo de Lovestone subsistiu como organização independente até a Segunda guerra Mundial. Durante a guerra fria Lovestone foi assessor de George Meany, presidente da AFL-CIO [central operária norteamericana] em questões de política exterior. (retornar ao texto)

(34) Leon Kamenev (1883-1936): foi, assim como Zinoviev, aliado de Stalin na cruzada contra o “trotskysmo” e logo depois aliado de Trotsky contra o stalinismo até que a Oposição foi derrotada e seus dirigentes expulsos. Retratou-se de suas ideias e foi readmitido no partido, mas foi executado depois do primeiro Processo de Moscou. Alexei Rikov (1881-1938): comissário do interior em 1917 e, depois da morte de Lênin, presidente do Conselho dos Comissários do Povo (1924-1930). Neste posto colaborou com Stalin na luta contra a Oposição de esquerda. Foi afastado de todos os seus cargos por ser integrante da Oposição de Direita e executado após o Processo de Moscou de 1938. Mikhail Kalinin (1875-1946): eleito presidente do Comitê Executivo Central depois da morte de Jakov Sverdlov, em 1919. Mikhail Tomski (1886-1936): presidente dos sindicatos soviéticos, foi aliado de Stalin até 1928, quando colaborou com a fundação da Oposição de Direita; como os demais dirigentes da mesma, capitulou em 1929. Suicidou-se durante o primeiro processo de Moscou. Anatole V. Lunacharski (1875-1933): primeiro comissário de educação do governo soviético, de 1917 a 1929. Seu folheto sobre os dirigentes da Revolução Russa foi publicado em inglês com o título Revolutionary Silhouettes [Silhuetas Revolucionárias]. Todas as pessoas que Trotsky menciona nesta ocasião foram bolcheviques da velha guarda que no último momento, quando se resolveu lançar a insurreição, em outubro de 1917, vacilaram ou inclusive se pronunciaram contrários publicamente. (retornar ao texto)

(35) Otto Kuusinen (1891-1964): socialdemocrata finlandês, fugiu para a União Soviética com a derrota da revolução finlandesa de abril de 1918. Foi um dos primeiros partidários de Stalin e foi secretário da Comintern de 1922 a 1931. Louis-Olivier Frossard (1889-1946): centrista do OS Francês que participou da fundação do PC e foi seu secretário geral. Logo voltou ao OS e foi porta-voz de sua ala direita até que o abandonou para ocupar postos em distintos gabinetes capitalistas, inclusive no primeiro regime de Petain. (retornar ao texto)

(36) Assinalamos de passagem que ao criar um partido “operário e camponês” em vez de um partido proletário, Louis Seller e cia. deram vida no ocidente à charmosa fórmula que Stalin inventou para o oriente. [nota de Trotsky] (retornar ao texto)

(37) Eugene Varga (1879-1964): socialdemocrata e economista húngaro, foi presidente do Conselho Econômico Supremo do efêmero regime soviético húngaro. Em 1920 foi à União Soviética, ingressou no PC e foi assessor econômico da Comintern. (retornar ao texto)

(38) O Plano Young, que toma seu nome do advogado do grande capital estadunidense Owen Young, foi o segundo de dois acordos para a supervisão do pagamento das indenizações de guerra alemãs por uma comissão criada pelo Tratado de Versalhes. O primeiro era o Plano Dawes, elaborado pelo financista e político norte-americano Charles Dawes. Young foi o administrador dos dois planos, os quais, assim como o Tratado de Versalhes, tinham o objetivo contraditório de subordinar a economia alemã e por fim ao ascenso revolucionário do pós-guerra. O Plano Young ficou obsoleto em 1931, ao se aprovar a proposta do presidente Herbert Hoover de aplicar uma moratória ao pagamento da dívida de guerra alemã. (retornar ao texto)

(39) A Liga Sindicalista Francesa, fundada por Monatte e seus correligionários em 1926, serviu principalmente de ponte para distanciar do comunismo os sindicalistas que haviam militado nas fileiras ou na periferia do PC. (retornar ao texto)

(40) A insurreição de Cantão de dezembro de 1927: golpe instigado por Stalin; nesse mesmo mês o PC Soviético celebrava seu décimo quinto congresso e Stalin esperava poder “refutar” a acusação da Oposição de Esquerda de que sua política na China tinha sido causa de derrotas. Posto que o PC Chinês encontrava-se isolado, a insurreição foi lançada sem preparativos prévios, foi esmagada em menos de três dias, às custas de vários milhares de mortos. (retornar ao texto)

Inclusão 12/08/2011