Pensamento e Linguagem

Lev Semenovich Vygotsky


7. Pensamento e linguagem


Esqueci a palavra que pretendia dizer e o meu pensamento, desencarnado, volta ao reino das sombras (de um poema de Mandelstham)

I

Começamos o nosso estudo com uma tentativa de pôr a nu a relação existente entre o pensamento e a linguagem nos estádios iniciais do desenvolvimento filogenético e ontogenético. Não encontramos nenhuma interdependência específica entre as raízes genéticas do pensamento e da palavra. Tornou-se patente que a relação interna que buscávamos não era um requisito prévio do desenvolvimento histórico da consciência humana, antes era um seu produto.

Nos animais, mesmo naqueles antropóides cuja fala é foneticamente como a fala humana e cujo intelecto se aparenta com o do homem, a linguagem e o pensamento não se encontram interrelacionados. É indubitável que, no desenvolvimento da criança, existe também um período pré-linguístico do pensamento e um período pré-intelectual a fala: o pensamento e a palavra não se encontram relacionados por uma relação primária. No decurso da evolução do pensamento e da fala gera-se uma conexão entre um e outra que se modifica e desenvolve.

Seria errado no entanto encarar o pensamento e a fala como dois processos não relacionados entre si, seja como dois processos paralelos, seja como dois processos que se entrecruzassem em certos momentos e se influenciassem mutuamente duma forma mecânica.

A ausência de uma relação primária não quer dizer que a conexão entre eles só possa formar-se de uma forma mecânica.

A futilidade da maior parte das investigações primitivas devia-se em grande parte ao fato de se pressupor que o pensamento e a palavra eram elementos independentes e isolados e que o pensamento verbal era fruto da sua união externa.

O método de análise baseado nesta concepção estava votado ao fracasso. Buscava explicar as propriedades do pensamento verbal cindindo-o nos elementos que o compunham – a palavra e o pensamento – nenhum dos quais tomado em separado possuiria as propriedades do todo.

Este método não é uma verdadeira análise que nos seja útil para resolver problemas concretos, antes conduz à generalização.

Comparamo-lo à análise da água em hidrogênio e oxigênio – que só pode dar resultado em descobertas aplicáveis a toda a água existente na natureza, desde o Oceano Pacífico até uma gota de água da chuva.

Semelhantemente, a afirmação segundo a qual o pensamento verbal se compõe de processos intelectuais e funções de discurso propriamente ditas aplica-se a todo o pensamento verbal e não explica nenhum dos problemas específicos com que se defronta o estudioso do pensamento verbal.

Tentamos uma nova abordagem do problema e substituímos a análise em elementos pela análise em unidades, cada uma das quais retém, sob uma forma simples, todas as propriedades do todo. Encontramos esta unidade do pensamento verbal no significado da palavra.

O significado duma palavra representa uma amálgama tão estreita de pensamento e linguagem que é difícil dizer se se trata de um fenômeno de pensamento, ou se se trata de um fenômeno de linguagem. Uma palavra sem significado é um som vazio; portanto, o significado é um critério da palavra e um seu componente indispensável. Pareceria portanto que poderia ser encarado como um fenômeno lingüístico. Mas do ponto de vista da psicologia, o significado de cada palavra é uma generalização, um conceito. E, como as generalizações e os conceitos são inegavelmente atos de pensamento, podemos encarar o significado como um fenômeno do pensar. No entanto, daqui não se segue que o pensamento pertença a duas esferas diferentes da vida psíquica.

O significado das palavras só é um fenômeno de pensamento na medida em que é encarnado pela fala e só é um fenômeno lingüístico na medida em que se encontra ligado com o pensamento e por este é iluminado. É um fenômeno do pensamento verbal ou da fala significante – uma união do pensamento e da linguagem.

As nossas investigações experimentais confirmam integralmente esta tese fundamental. Não só provaram que o estudo concreto da gênese do pensamento verbal se tornou possível pelo estudo do significado das palavras como unidade analítica, como levaram também a outra tese que consideramos ser o mais importante resultado do nosso estudo e que decorre imediatamente da primeira: a tese segundo a qual o significado das palavras evolui. Este ponto de vista deve substituir o postulado da imutabilidade dos significados das palavras.

Do ponto de vista das velhas escolas da psicologia, a relação entre a palavra e o significado é uma relação associativa estabelecida através da repetição da percepção simultânea de um certo som e de um certo objeto. Uma palavra solicita no espírito o seu conteúdo, tal como o sobretudo dum amigo nos recorda esse mesmo amigo ou uma casa, os seus habitantes. A associação entre a palavra e o seu significado pode desenvolver-se mais forte ou mais debilmente, pode ser enriquecida pela relacionarão com outros objetos de tipo semelhante, difundir-se por sobre um vasto domínio, Ou tornar-se mais limitada, isto é, pode sofrer transformações quantitativas e externas, mas não pode modificar a sua natureza psicológica. Para que tal acontecesse teria que deixar de ser uma associação.

Desse ponto de vista, qualquer evolução do significado de uma palavra é impossível e inexplicável – conseqüência esta que constitui um handicap tanto para os lingüistas como para os psicólogos. A partir da altura em que se comprometeu com a teoria da associação, a semântica persistiu em considerar o significado da palavra como uma associação entre o som e o conteúdo. Todas as palavras, desde as mais concretas às mais abstratas, surgiam como sendo formadas da mesma maneira, relativamente ao seu significado, parecendo não conter nenhum elemento característico da fala enquanto tal; uma palavra fazia-nos recordar o seu significado tal como um objeto nos recordava outro objeto.

Pouco surpreenderá portanto que a semântica nem sequer pusesse a questão mais ampla da evolução do significado das palavras. Reduzia-se essa evolução às variações nas conexões associativas entre as palavras isoladas e os objetos isolados: uma palavra poderia em determinada altura denotar um objeto passando depois a associar-se com outro, como um sobretudo que, por mudar de proprietário, nos recordasse primeiro uma pessoa e, logo depois, outra.

A lingüística não compreendia que na evolução histórica da linguagem, a própria estrutura do significado e a sua natureza psicológica se transformam também.

Das generalizações primitivas, o pensamento verbal vai-se elevando ao nível de conceitos mais abstratos. Não é apenas o conteúdo de uma palavra que se altera, mas a forma como a realidade é generalizada e refletida numa palavra.

A teoria associativa também não se adequa à explicação do desenvolvimento dos significados das palavras na infância. Também neste aspecto, só pode explicar as alterações externas, puramente quantitativas, das conexões que ligam a palavra e o seu significado, o seu fortalecimento e o seu enriquecimento, mas não as transformações psicológicas e estruturais fundamentais que podem ocorrer e ocorrem no desenvolvimento da linguagem infantil.

Infelizmente, o fato de o associacionismo em geral ter sido abandonado durante um certo lapso de tempo não parece ter afetado a interpretação da palavra e do significado. A escola de Wuerzburg, cujo propósito principal era o de provar a impossibilidade de reduzir o pensamento a um simples jogo de associações e demonstrar a existência de leis específicas que regem a corrente de pensamento, não reviu a teoria associativa da palavra e do significado, nem reconheceu sequer a necessidade de uma tal revisão. Esta escola emancipou o pensamento dos grilhões da sensação e da imagem e das leis da associação e transformou-o num ato puramente espiritual. Mas ao fazê-lo, regrediu para os conceitos pré-científicos de Santo Agostinho e Descartes, acabando por chegar a um idealismo subjetivo extremo. A psicologia do pensamento encaminhava-se para as idéias de Platão, e, ao mesmo tempo, deixava-se a linguagem à mercê da associação. Mesmo após a obra realizada pela escola de Wuerzburg, continuou a considerar-se que a conexão entre a palavra e o seu significado era uma simples relação associativa. Encarava-se a palavra como correlativo externo do pensamento, como seu simples adereço, que não tinha qualquer influência na sua vida interna. O pensamento e a palavra nunca estiveram tão separados como durante o período de Wuerzburg. Na realidade, a destruição da teoria associativa no domínio do pensamento incrementou o seu poderio no domínio da linguagem.

A obra de outros psicólogos veio reforçar ainda mais esta tendência. Selz continuou a investigar o pensamento sem tomar em consideração a relação entre este e a linguagem e chegou à conclusão de que o pensamento produtivo do homem e do chimpanzé eram de natureza idêntica a tal ponto este investigador ignorava a influência das palavras sobre o pensamento.

Até Ach, que levou a cabo um estudo especial do significado das palavras e que tentou superar o associativismo na sua teoria dos conceitos se limitou a pressupor a existência de “tendências determinantes” que entrariam em ação conjuntamente com as associações na formação dos conceitos. Por conseguinte, as conclusões a que chegou não vieram alterar a anterior compreensão do significado das palavras. Ao identificar o conceito com o significado, impedia que se explicasse os desenvolvimentos e as transformações dos conceitos. Uma vez estabelecido, o significado de uma palavra ficava estabelecido para sempre; o seu desenvolvimento encontrava-se completo. Estes eram os mesmos princípios que os psicólogos atacados por Ach defendiam. Para ambos os lados, o ponto de partida da evolução dos conceitos constituía também o seu termo; só havia desacordo no tocante à forma como se iniciava o desenvolvimento da formação da palavra.

Na psicologia gestaltista (Psicologia da Forma), a situação não era muito diferente. Esta escola era ainda mais consistente do que as outras na tentativa de superar o princípio geral do associativismo. Não satisfeita com uma solução parcial do problema, tentou libertar o pensamento e a fala da lei da associação e colocá-los a ambos sob o domínio da lei da gênese de estruturas. Surpreendentemente, nem esta escola – que é a mais progressiva de todas as modernas escolas de psicologia – realizou quaisquer progressos na teoria da linguagem e do pensamento.

Por um lado, manteve a separação completa entre estas duas junções. A luz da teoria gestaltista, a relação entre o pensamento e a palavra aparece como uma simples analogia, uma redução de ambos a um denominador estrutural comum. Encara-se a formação das primeiras palavras com significado por parte das crianças como algo semelhante às operações intelectuais dos chimpanzés nas experiências de Koehler. As palavras entram na estrutura das coisas e adquirem um certo significado funcional, duma forma bastante semelhante àquela como, para o chimpanzé, o pau se torna parte da estrutura de obtenção do fruto e adquire o significado funcional de instrumento. Já não se encara a conexão entre palavra e significado como uma questão de simples associação, mas como uma questão de estrutura. Parece ser um passo em frente, mas se examinarmos mais de perto a nova abordagem, é fácil ver que o passo em frente é um passo em falso, ilusório, e que não saímos ainda do mesmo sítio. Aplica-se o princípio da estrutura a todas as relações entre as coisas, da mesma forma avassaladora como anteriormente se aplicava o princípio da associação. Continua a ser impossível explicar as relações específicas entre palavra e significado, pois à partida continua a considerar-se que em princípio são idênticas a todas as outras relações entre coisas. Os gatos continuam a ser tão pardos na poeira da psicologia gestaltista como nos primitivos nevoeiros do associacionismo universal.

Enquanto Ach procurava superar o associonismo com a “tendência determinante”, a teoria psicológica gestaltista combateu-o com o princípio da estrutura – mantendo no entanto os dois erros fundamentais da velha teoria: o pressuposto da identidade de natureza de todas as conexões e o pressuposto de que os significados das palavras não se alteram. Tanto a antiga como a nova teoria psicológica partem ambas da hipótese de que a evolução do significado de uma palavra termina mal esta emerge. As novas tendências da psicologia produziram progressos em todos os ramos, exceto no estudo do pensamento e da palavra. Neste domínio, os novos princípios parecem-se com os antigos como dois gêmeos.

Se a psicologia gestaltista estagnou no campo da linguagem, deu um grande passo à retaguarda no campo do pensamento. A escola de Wuerzburg, pelo menos, considerava que o pensamento tinha leis próprias, ao passo que a escola gestaltista nega a existência de tais leis. Reduzindo a um denominador estrutural comum as percepções dos animais domésticos, as operações mentais de um chimpanzé, as primeiras palavras significativas das crianças e o pensamento conceptual dos adultos, oblitera toda e qualquer distinção entre a percepção mais elementar e as mais elevadas formas de pensamento.

Esta recensão crítica pode ser resumida como se segue: todas as escolas e tendências psicológicas descuram um ponto fundamental: todo e qualquer pensamento é uma generalização. Assim, estudam a palavra e o significado sem fazerem qualquer referência à evolução. Enquanto estas duas condições persistirem em tendências sucessivas nas tendências posteriores, estas muito pouca relevância terão para o tratamento do problema.

II

A descoberta de que o significado das palavras evolui tira o estudo do pensamento e da linguagem de um beco sem saída. Os significados das palavras passam a ser formações dinâmicas e não já estatísticas, transformam-se à medida que as crianças se desenvolvem e alteram-se também com as várias formas como o pensamento funciona.

Se os significados das palavras se alteram na sua natureza interna, então a relação entre o pensamento e a palavra também se modifica. Para compreender a dinâmica dessa relação, teremos que complementar a abordagem genética do nosso estudo principal com a análise funcional e examinar o papel do significado da palavra no processo de pensamento.

Consideremos o processo seguido pelo pensamento verbal desde o primitivo e difuso surgir dum pensamento até à sua formulação Neste momento pretendemos mostrar não a forma como os significados evoluem ao longo de dilatados intervalos de tempo, mas o modo como funcionam no processo vivo do pensamento verbal. A partir dessa análise funcional, poderemos mostrar também que, em cada fase do desenvolvimento do significado das palavras há uma relação particular entre o pensamento e a linguagem. Como a forma mais fácil de resolver os problemas funcionais consiste em examinar a forma mais elevada de determinada atividade poremos por um momento de parte o problema do desenvolvimento e consideraremos as relações entre o pensamento e a palavra no cérebro que já atingiu a maturidade.

A idéia diretriz da discussão que se segue pode ser reduzida à seguinte fórmula: a relação entre o pensamento e a palavra não é uma coisa mas um processo, um movimento contínuo de vaivém entre a palavra e o pensamento; nesse processo a relação entre o pensamento e a palavra sofre alterações que, também elas, podem ser consideradas como um desenvolvimento no sentido funcional. As palavras não se limitam a exprimir o pensamento: é por elas que este acede à existência. Todos os pensamentos tendem a relacionar determinada coisa com outra, todos os pensamentos tendem a estabelecer uma relação entre coisas, todos os pensamentos se movem, amadurecem, se desenvolvem, preenchem uma função, resolvem um problema. Esta corrente do pensamento flui como um movimento interno através de uma série de planos. Qualquer análise da interação entre o pensamento e a palavra terá de principiar por investigar os diferentes planos e fases que um pensamento percorre antes de se encarnar nas palavras.

A primeira coisa que qualquer estudo revela é a necessidade de estabelecer a distinção entre dois planos de discurso. Ambos os aspectos da linguagem, tanto o interno, significante, semântico, como o aspecto externo, fonético, têm as suas leis de movimento específicas, embora formem uma verdadeira unidade, mas que é uma unidade complexa e não homogênea. Alguns fatos do desenvolvimento lingüístico da criança indicam a existência de movimentos independentes nas esferas fonética e semântica. Apontaremos dois dos mais importantes.

Quando começa a dominar a fala exterior, a criança principia por uma palavra, passando depois a ligar dois ou três termos entre si; um pouco depois, progride das frases simples para outras mais complicadas, chegando por fim ao discurso coerente composto por uma série de frases dessas; por outras palavras, progride da parte para o todo. Relativamente ao significado em contrapartida, a primeira palavra da criança é uma frase completa. Semanticamente, a criança parte do todo, de um complexo significante e só mais tarde começa a dominar as unidades semânticas separadas, os significados das palavras e a subdividir o seu pensamento primitivamente indiferenciado nessas unidades. O seu aspecto externo e o aspecto semântico da linguagem desenvolvem-se em direções opostas – o primeiro do particular para o geral, da palavra para a frase e o outro do todo para o particular, da frase para a palavra.

Isto, em si, basta para mostrar como é importante distinguir o aspecto fonético do discurso do seu aspecto semântico. Como se movem em sentidos opostos, o seu desenvolvimento não é coincidente, mas isso não quer dizer que sejam independentes um do outro. Pelo contrário, a sua diferença é o primeiro estádio de uma estreita união.

De fato, o nosso exemplo revela a sua conexão interna tão claramente como a sua diferença. O pensamento das crianças, precisamente porque surge como um conjunto amorfo e indistinto, tem que encontrar a sua expressão numa palavra isolada; à medida que o seu pensamento se vai tornando mais diferenciado, a criança vai perdendo a possibilidade de se exprimir por meio de palavras isoladas e tem que construir um todo compósito. Inversamente, a progressão da linguagem em direção ao todo diferenciado numa frase, ajuda o pensamento da criança a progredir de conjuntos homogêneos para partes bem definidas. O pensamento e a palavra não são talhados no mesmo modelo: em certo sentido há mais diferenças do que semelhanças entre eles. A estrutura da linguagem não se limita a refletir como num espelho a estrutura do pensamento; é por isso que não se pode vestir o pensamento com palavras, como se de um ornamento se tratasse. O pensamento sofre muitas alterações ao transformar-se em fala. Não se limita a encontrar expressão na fala; encontra nela a sua realidade e a sua forma. Os processos evolutivos da fonética e da semântica são essencialmente idênticos, precisamente devido a seguirem sentidos inversos.

O segundo fato, que é tão importante como o primeiro, surge num período de desenvolvimento posterior. Piaget demonstrou que a criança utiliza orações subordinadas em que figuram porque, embora, etc., muito antes de compreender as estruturas significantes correspondentes a estas formas semânticas. A gramática precede a lógica. Também aqui, tal como nos nossos exemplos anteriores, a discrepância não exclui a unidade, antes lhe é necessária.

Nos adultos, a divergência entre o aspecto semântico e o aspecto fonético do discurso é ainda mais flagrante. A lingüística moderna que se guia pela psicologia, encontra-se familiarizada com este fenômeno, especialmente no que toca ao sujeito e ao predicado gramaticais e psicológicos. Por exemplo, na frase “o relógio caiu”, a ênfase e o significado podem variar com as situações. Suponhamos que noto que o relógio parou e pergunto, porque terá isto acontecido. A resposta é: “o relógio caiu”. O sujeito gramatical e psicológico coincidem: “o relógio” é a primeira idéia que existe na minha consciência; “caiu” é o que se diz do relógio. Mas se ouvir um barulho no quarto ao lado e indagar o que aconteceu, e receber a mesma resposta, o sujeito e o predicado psicológicos inverter-se-ão. Eu sabia que alguma coisa tinha caído – era disso que estávamos a falar. “O relógio” vem completar a idéia. Poder-se-ia trocar a frase por esta: “o que caiu foi o relógio”. Então o sujeito gramatical e o sujeito psicológico coincidiriam. No prólogo da sua peça O Duque Ernst von Schwaben, Uhland diz: “cenas sinistras desenrolar-se-ão perante os vossos olhares”. Psicologicamente, o sujeito é “desenrolar-se-ão”: o espectador sabe que vai ver o desenrolar de certos acontecimentos. A idéia adicional, o predicado, é “cenas sinistras”. Uhland queria dizer: “Aquilo que se desenrolará perante os vossos olhares é uma tragédia”. Qualquer parte de uma frase pode tornar-se o sujeito psicológico, a parte portadora da ênfase fundamental; por outro lado, por detrás de uma estrutura gramatical podem ocultar-se significados totalmente diferentes. O acordo entre o sujeito gramatical e o sujeito psicológico não é tão predominante como tendemos a presumir -- antes pelo contrário, é um requisito raramente satisfeito. Não são só o sujeito e o predicado que têm os seus duplos psicológicos, pois também o gênero, o número, o caso, o tempo, o modo, o grau gramaticais o possuem. Uma exclamação espontânea, que do ponto de vista gramatical é errada, pode ter encanto e valor estético. A correção absoluta só se consegue para lá da linguagem natural, na matemática. A nossa linguagem quotidiana oscila constantemente entre os ideais da harmonia matemática e os da harmonia imaginativa.

Vamos ilustrar a interdependência dos aspectos semânticos e gramaticais da linguagem citando dois exemplos que nos mostram que as variações da estrutura formal podem arrastar consigo alterações do significado de grande alcance.

Na tradução que fez da fábula “La Cigale et la Fourmi”(6*) de La Fontaine, Krylov substituiu a cigarra de La Fontaine por uma libelinha. Em francês, cigarra é uma palavra feminina, sendo portanto, adequada para simbolizar uma atitude leviana e despreocupada. A nuance perder-se-ia numa tradução literal, pois cigarra em russo, é masculino, Ao decidir-se por libelinha, que em russo é feminino, Krylov menosprezou a tradução literal em favor da forma gramatical necessária para dar o pensamento de La Fontaine (7*)

Tjutchev fez o mesmo na sua tradução do poema de Heine sobre um abeto e uma palmeira. Em alemão, abeto é uma palavra masculina e palmeira é uma palavra feminina, e o poema sugere o amor de um homem por uma mulher, mas em russo ambas árvores são femininas. Para manter a implicação, Tjutchev substituiu o abeto por um cedro, masculino. Lermontov, na sua tradução mais literal do mesmo poema, destituiu-o destes matizes poéticos e deu-lhe um significado essencialmente diferente, mais abstrato e mais generalizado. Um pormenor gramatical pode, em certas circunstâncias, modificar todo o propósito do que se diz.

Por detrás das palavras, há a gramática independente do pensamento, a sintaxe dos significados das palavras. A mais simples exclamação, não reflete uma correspondência rígida e constante entre som e significado, é, na realidade, muito pelo contrário, um processo. As expressões verbais não podem nascer completamente formadas, têm que se desenvolver gradualmente. Este complexo processo de transição do significado para o som tem também que se desenvolver e aperfeiçoar. A criança tem que aprender a distinguir entre a semântica e a fonética e a compreender a natureza da diferença entre uma e outra coisa. A princípio, começa por utilizar o pensamento e as formas verbais e os significados sem ter consciência deles como coisas distintas. Para a criança, a palavra é parte integrante do objeto que denota. Tal concepção parece ser característica da consciência lingüística primitiva. Todos conhecemos a velha história do rústico que afirmava que não lhe surpreendia que os sábios, com todos os instrumentos que possuíam, pudessem calcular o tamanho das estrelas e as suas trajetórias – o que lhe fazia espécie era como eles conseguiam saber o nome das estrelas. Algumas experiências simples mostram que as crianças em idade pré-escolar “explicam” o nome dos objetos pelos seus atributos. Segundo elas, um animal chama-se “vaca” porque tem cornos, bezerro, quando os seus cornos ainda são pequenos, cão”, porque é pequeno e não tem cornos; chama-se “carro” a determinado objeto porque não é animal. Quando se lhes pergunta se poderia trocar os nomes das coisas, chamando por exemplo, “tinta” a uma vaca e “vaca” à tinta, respondem que não, “porque a tinta é para escrever e a vaca dá leite”. Trocar os nomes significaria trocar as características específicas de cada objeto, tão inseparável é a conexão de ambos no espírito da criança. Numa experiência disse-se às crianças que em determinado jogo se chamaria “vaca” a um cão. Eis a seguir um exemplo típico de perguntas e respostas que ocorreram:

– Mas as vacas têm cornos?

– Têm.

– Mas então não te lembras que os cães é que são vacas? Ora vê bem: os cães têm cornos?

– Pois claro. Se são vacas, se lhes chamamos vacas, têm que ter cornos. Têm que ser uma espécie de vacas com corninhos.

Podemos ver pois como, para as crianças, é difícil separar o nome de um objeto dos seus atributos, que aderem ao nome mesmo quando este é transferido, como as coisas possuídas seguindo o seu dono.

A fusão dos dois planos da imagem, o plano semântico e o plano vocal, começa a desarticular-se à medida que a criança cresce e a distância entre um e outro vai aumentando gradualmente. Cada estádio no desenvolvimento das palavras implica uma inter-relação específica entre os dois planos. A capacidade da criança para comunicar através da linguagem encontra-se diretamente relacionada com a diferenciação dos significados das palavras no seu discurso e na sua consciência.

Para compreendermos isto teremos que recordar uma característica fundamental da estrutura dos significados das palavras. Na estrutura semântica de uma palavra estabelecemos a distinção entre referente e significado: correspondentemente, distinguimos o nominativo de uma palavra da sua função significante. Quando comparamos estas relações funcionais e estruturais nos diversos estádios de desenvolvimento, isto é, no estádio primitivo, no estádio intermédio e no estádio mais desenvolvido, deparamos com esta regularidade genética: a princípio só existe a função nominativa; e, semanticamente, só existe a referência objetiva; a independência entre a significação e a nomeação, assim como a independência entre o significado e a referência só surgem posteriormente e desenvolvem-se segundo as trajetórias que tentamos detectar e descrever.

Só quando este desenvolvimento se encontra completo é que a criança se torna totalmente capaz de formular o seu pensamento e compreender o pensamento dos outros. Até essa altura, a utilização que dá às palavras coincide com a que lhes dão os adultos na sua referência objetiva, mas não no seu significado.

III

Temos que levar a nossa investigação a planos mais profundos e explorar o plano do discurso interno que se encontra por detrás do plano semântico. Examinaremos aqui alguns dos dados que obtivemos em experiências especialmente dedicadas ao assunto. Não poderemos compreender integralmente a relação entre o pensamento e a palavra em toda a sua complexidade se não tivermos uma compreensão clara da natureza psicológica do discurso interno. No entanto, de todos os problemas relacionados com o pensamento e a linguagem, este é talvez o mais complicado, sobrecarregado como se encontra de toda a espécie de mal entendidos terminológicos e doutro gênero.

Tem-se aplicado a expressão discurso interior ou endofasia a vários fenômenos, e autores há que discutem entre si acerca de coisas diferentes e têm-se travado muitas discussões entre autores que chamam o mesmo nome a coisas distintas. Originalmente, parece que se chamava discurso interior à memória verbal: exemplo disto, seria a recitação silenciosa de um poema sabido de cor. Nesse caso, o discurso interno difere do externo apenas da mesma maneira que a imagem ou idéia de um objeto difere do objeto real. Era neste sentido que entendiam o discurso interior os autores franceses que tentaram descobrir como as palavras são reproduzidas pela memória – como imagens auditivas, visuais, motoras ou sintéticas. Veremos que a memória das palavras, a memória verbal é realmente uma das componentes, um dos elementos constituintes do discurso interior, mas não o único.

Numa segunda interpretação, vê-se o discurso interior como um discurso externo truncado – como “linguagem sem som” (Mueller) ou “discurso sub-vocal” (Watson). Bekhterev definiu-o como um reflexo do discurso inibido da sua parte motora. Tal explicação não é suficiente. A “locução” silenciosa das palavras não é equivalente ao processo integral do discurso interior.

A terceira definição, pelo contrário é demasiado ampla. Para Goldstein(12) (13)(12, 13), a expressão recobre tudo que precede o ato motor da fala, incluindo os “motivos do discurso” de Wundt e a indefinível experiência discursiva não motora, não sensível – isto é, todo o aspecto interior do discurso, de qualquer atividade discursiva. É difícil aceitar a identificação do discurso interior com uma experiência interior não articulada, na qual os planos estruturais separáveis e identificáveis desapareceriam sem deixar traços. Esta experiência central é comum a toda e qualquer atividade lingüistica e só por esta razão, a interpretação de Goldstein não é adequada a essa função específica, única e exclusiva que merece o nome de discurso interior.

Levada até ás suas últimas conseqüências lógicas, o ponto de vista de Goldstein conduzir-nos-ia à tese segundo a qual o discurso interior não é de maneira nenhuma linguagem, mas antes uma atividade intelectual e volitiva-afetiva, pois engloba os motivos do discurso e o pensamento que se exprime por palavras.

Para obtermos uma descrição adequada do discurso interior, temos de partir do pressuposto de que se trata de uma formação específica que tem as suas leis próprias e mantém relações complexas com as outras formas de atividade lingüística. Antes de podermos estudar a relação entre o discurso interior e o pensamento, por um lado, e a linguagem, por outro lado, teremos que determinar as características e as funções que lhe são próprias.

O discurso interior é um discurso para o próprio locutor; o discurso externo é um discurso para os outros. Seria na verdade surpreendente que uma diferença de funcionamento tão radical não afetasse as estruturas de ambos os tipos de discurso. A ausência de vocalização, por si só, não é mais do que uma conseqüência da natureza específica do discurso interior e não é, nem um antecedente do discurso exterior, nem a sua reprodução na memória, antes é em certo sentido, o contrário do discurso exterior. Este último consiste em verter os pensamentos em palavras, consiste na sua materialização e na sua objetivização. Com o discurso interior, pelo contrário, o processo é invertido: o discurso volta-se para dentro, para o pensamento. Por conseqüência as suas estruturas têm que ser diferentes uma da outra.

O domínio do discurso interior é um dos mais difíceis de investigar. Manteve-se praticamente inacessível até se terem encontrado formas de aplicar os métodos genéticos de experimentação. Piaget foi o primeiro investigador a preocupar-se com o discurso egocêntrico das crianças e a ver a sua importância teórica, mas continuou cego à característica mais importante do discurso egocêntrico – a sua relação genética com o discurso interior – e isto veio distorcer a sua interpretação das suas funções e estrutura. Fizemos dessa relação problema central do nosso estudo, e isso permitiu-nos investigar a natureza do discurso interior com invulgar exaustão. Um certo número de observações e considerações levou-nos a concluir que o discurso egocêntrico é um estádio de desenvolvimento que precede o discurso interior. Ambos preenchem funções intelectuais; as suas estruturas são semelhantes; o discurso egocêntrico desaparece por alturas da idade escolar, quando o discurso interior começa a desenvolver-se. De tudo isto inferimos que se transformam um no outro.

Se esta transformação se dá, então o discurso egocêntrico fornece-nos a chave para compreendermos o discurso interior. Uma das vantagens que advêm de se utilizar o discurso egocêntrico para abordar o discurso interior é a de que aquele é acessível à observação e à experimentação. É ainda um discurso vocalizado, audível, isto é, um discurso externo no seu modo de expressão, mas é ao mesmo tempo um discurso interno na sua função e na sua estrutura. Para estudarmos um processo interno temos que exteriorizá-lo experimentalmente, relacionando-o com outra qualquer atividade; só então será possível a análise funcional objetiva. Na realidade, o discurso egocêntrico é uma experiência natural deste tipo.

Este método tem ainda uma outra grande vantagem: como o discurso egocêntrico pode ser estudado no momento em que algumas das suas características se estão desvanecendo enquanto outras novas se vão formando, estamos em condições de avaliar que traços são essenciais para o discurso interior e que traços são apenas temporários, determinando assim o objetivo deste movimento que progride do discurso egocêntrico para o discurso interior – isto é, a natureza do discurso interior.

Antes de passarmos aos resultados obtidos por este método, examinaremos rapidamente a natureza do discurso egocêntrico, sublinhando as diferenças entre o nosso método e o de Piaget. Piaget defende que o discurso egocêntrico da criança é uma expressão direta do egocentrismo do seu pensamento, o qual, por seu turno, é um compromisso entre o autismo primário do seu pensamento e a sua socialização gradual. À medida que a criança cresce, o autismo definha e a socialização desenvolve-se, levando a um desvanecimento do egocentrismo no seu pensamento e no seu discurso.

Segundo a concepção de Piaget, a criança, pelo seu discurso egocêntrico, não se adapta ao pensamento dos adultos. O seu pensamento mantém-se integralmente egocêntrico; isto torna a sua conversa totalmente incompreensível para os outros. O discurso egocêntrico não tem qualquer função no pensamento ou na atividade realística da criança – limita-se a acompanhá-los. E, como é uma expressão do pensamento egocêntrico da criança, desaparece simultaneamente com o seu egocentrismo. Do seu auge de desenvolvimento no começo do desenvolvimento infantil, o discurso egocêntrico cai a zero no limiar da idade escolar. A sua história caracteriza-se mais pela involução do que pela evolução. Não tem futuro.

Na nossa concepção, o discurso egocêntrico é um fenômeno de transição entre o funcionamento inter-físico e o funcionamento intra-físico, quer dizer, da atividade social e coletiva da criança para a sua atividade mais individualizada – modelo de desenvolvimento este que é comum a todas as funções psicológicas mais elevadas.

O discurso de si para si tem origem na diferenciação do discurso para os outros. Na medida em que a trajetória principal do desenvolvimento psicológico da criança é uma trajetória de progressiva individualização, esta tendência reflete-se na função e na estrutura do seu discurso.

Os nossos estudos experimentais indicam que a função do discurso egocêntrico é a mesma da do discurso interior: não se limita a acompanhar a atividade da criança: está ao serviço da orientação mental, da compreensão consciente; ajuda-a a vencer as dificuldades; é discurso de si para si, que se encontra íntima e utilitariamente relacionada com o pensamento da criança: o seu destino é muito diferente daquele que lhe consigna Piaget. O discurso egocêntrico desenvolve-se segundo uma curva ascendente e não segundo uma curva descendente: segue uma evolução não uma involução. No termo dessa evolução transforma-se em discurso interior.

A nossa hipótese tem várias vantagens sobre a de Piaget: ela explica a função e o desenvolvimento do discurso interior e, em particular, o seu súbito incremento, quando a criança se defronta com dificuldades que exigem consciência e reflexão – fato que as nossas experiências puseram a nu e que a teoria de Piaget não pode explicar. Mas a maior vantagem da nossa teoria consiste no fato de nos proporcionar uma resposta satisfatória a uma situação paradoxal descrita pelo próprio Piaget. Para Piaget, a diminuição quantitativa do discurso egocêntrico à medida que a criança vai crescendo significa o desaparecimento dessa mesma forma de discurso. Se assim fosse, seria de esperar que as suas peculiaridades estruturais declinassem também: é difícil acreditar que o processo só afetasse a sua quantidade e não a sua estrutura interna. O discurso da criança torna-se infinitamente menos egocêntrico entre os três e os sete anos. Se as caraterísticas do discurso egocêntrico que o tornam incompreensível para os outros têm realmente as suas raízes no egocentrismo, deveriam tornar-se menos patentes à medida que esta forma de discurso se vai tornando menos freqüente; o discurso egocêntrico deveria ir-se assemelhando ao discurso social, tornando-se progressivamente mais inteligível. Mas o que é que acontece? Será a fala de uma criança de três anos mais difícil de seguir do que a de uma criança de sete anos? Pelas nossas investigações chegamos à conclusão de que os traços do discurso egocêntrico, responsáveis pela sua ininteligibilidade se encontram no seu ponto de desenvolvimento mais baixo aos três anos, atingindo o seu maior desenvolvimento aos sete anos. Desenvolve-se em sentido inverso ao discurso egocêntrico. Enquanto este último vai diminuindo e atinge uma incidência nula por alturas da idade escolar, as características estruturais tornam-se progressivamente mais e mais pronunciadas.

Este fato lança uma nova luz sobre a diminuição quantitativa do discurso egocêntrico, que é a pedra de toque da teoria de Piaget.

Que significa esta diminuição? As características peculiares do discurso de si para si e a sua diferenciação relativamente ao discurso exterior aumentam com a idade. Que diminuirá então? Apenas um dos seus aspectos: a vocalização. Quer isto dizer que o discurso egocêntrico como um todo se encontra em vias de desaparecer'? Estamos em crer que tal não se passe, porque, nesse caso, como poderíamos explicar o desenvolvimento das características funcionais e estruturais do discurso egocêntrico? Por outro lado, tal desenvolvimento é perfeitamente compatível com a diminuição da vocalização – na verdade, clarifica até o seu significado. O seu rápido declínio e o rápido desenvolvimento das outras características só na aparência são contraditórios.

Para explicarmos isto vamos partir de um fato inegável, experimentalmente demonstrado. As qualidades funcionais e estruturais do discurso egocêntrico tornam-se mais marcadas à medida que a criança se desenvolve. Aos três anos a diferença entre o discurso social e o discurso egocêntrico da criança é nula. Aos sete anos, temos um discurso que pela sua estrutura e pela sua função é totalmente diferente do discurso social. Deu-se uma diferenciação dos dois discursos. Isto é um fato – e sabe-se bem que os fatos são de difícil refutação.

Uma vez isto aceite, tudo o resto daqui decorre automaticamente. Se as peculiaridades funcionais e estruturais do discurso egocêntrico o vão isolando progressivamente do discurso exterior, então o seu aspecto vocal deverá desvanecer-se; e é isto, precisamente, o que acontece entre os três e os sete anos de idade. Com o progressivo isolamento do discurso de si para si a sua vocalização torna-se desnecessária e perde significado e, dado que as suas peculiaridades estruturais se vão desenvolvendo, também impossível. O discurso de si para si não pode achar expressão no discurso externo. Quanto mais independente e autônomo o discurso egocêntrico se torna, mais debilmente se desenvolve nas suas manifestações externas. No termo do processo, separa-se integralmente do discurso para os outros, deixa de ser vocalizado e parece nessa altura que está a morrer.

Mas isso é uma ilusão. Interpretar o coeficiente de profundidade do discurso egocêntrico como um sinal de que este tipo de discurso está a morrer é como dizer que a criança deixa de contar quando cessa de utilizar os dedos para passar a calcular mentalmente. Na realidade., para lá dos sintomas de dissolução, oculta-se um desenvolvimento progressivo, o nascimento de uma nova forma de discurso.

O declínio da vocalização do discurso egocêntrico é sinal de que a criança se vai progressivamente abstraindo do som, e vai adquirindo uma nova capacidade, a faculdade de “pensar as palavras” em vez de as pronunciar. Tal é o significado positivo do grau de aprofundamento do discurso egocêntrico. A curva descendente significa uma evolução em direção do discurso interior.

Podemos ver que todos os fatos conhecidos relativamente às características funcionais, genéticas e estruturais do discurso egocêntrico apontam para uma e mesma coisa: tal discurso evolui para o discurso interior. A história do seu desenvolvimento só pode ser compreendida como um progressivo desabrochar das características do discurso interior.

Estamos em crer que tal fato corrobora a nossa hipótese acerca da origem e da natureza do discurso egocêntrico. Para convertermos a nossa hipótese numa certeza, temos que idealizar uma experiência suscetível de nos mostrar qual das duas interpretações é a correta. Quais são os dados de que dispomos para esta experiência crítica?

Formulemos de novo as teorias sobre as quais temos de tomar uma decisão. Piaget crê que o discurso egocêntrico é gerado pela insuficiente socialização do discurso e que só se pode desenvolver de uma maneira: diminuindo e acabando por morrer. O seu ponto culminante fica para trás, no passado. O discurso interior é algo de novo, importado do exterior paralelamente à socialização. O seu ponto culminante está por vir. Evolui para o discurso interior.

Para obtermos provas a favor ou contra um ou outro dos dois pontos de vista, temos que colocar a criança alternadamente em situações experimentais que encorajem o discurso social e em situações que o desencorajem, observando como as alterações afetam o discurso egocêntrico. Consideramos esta experiência um experimentum crucis pelas seguintes razões.

Se a fala egocêntrica da criança resulta do seu pensamento egocêntrico e da insuficiência de socialização, então qualquer debilitamento dos elementos sociais no quadro experimental, qualquer fator que aumente o isolamento da criança relativamente ao grupo conduzirá necessariamente a um súbito aumento do discurso egocêntrico. Mas se este último resulta de uma insuficiente diferenciação entre o discurso para si próprio e o discurso para os outros, então as mesmas alterações conduzirão ao seu declínio.

Tomamos como ponto de partida para a nossa experiência três observações do próprio Piaget: 1) o discurso egocêntrico só surge na presença de outras crianças implicadas na mesma atividade, e não quando a criança está sozinha; isto é, num monólogo coletivo. 2) a criança tem a ilusão de que este discurso egocêntrico que não é dirigido para ninguém, é compreendido pelos que a cercam. 3) o discurso egocêntrico tem o caráter de discurso exterior. Não é inaudível nem murmurado. Estas características não são com certeza fruto do acaso. Do ponto de vista da própria criança, o discurso egocêntrico ainda não se diferencia do discurso social. Ocorre nas condições objetivas e subjetivas do discurso social e pode ser considerado como um equivalente de insuficiente isolamento entre a consciência individual da criança e o todo social.

Na nossa primeira série de experiências(46) (47)(46, 47), tentamos destruir a ilusão da criança de que era compreendida. Após termos medido o grau de egocentricidade do discurso numa situação semelhante à das experiências de Piaget, pusemos a criança numa situação diferente e nova: com crianças surdas-mudas ou com crianças que falavam uma língua estrangeira. O quadro experimental mantinha-se inalterado relativamente a todas as outras condições. O coeficiente de discurso egocêntrico tornou-se nulo na maioria dos casos e nos restantes, desceu em média para um número que era um oitavo do primitivo. Isto prova que a ilusão da compreensão não é um simples epifenômeno do discurso egocêntrico, antes se encontra funcionalmente correlacionado com aquele. Os nossos resultados devem parecer paradoxais do ponto de vista das teorias de Piaget: quanto mais débil é o contato entre a criança e o grupo (quer dizer, quanto menos a situação social a força a ajustar os seus pensamentos aos outros e a fazer uso do discurso social) mais livremente deverá manifestar-se o egocentrismo do seu discurso e do seu pensamento. Mas, do ponto de vista da nossa hipótese, o significado destas descobertas é claro: o discurso egocêntrico, que resulta do insuficiente grau de diferenciação entre o discurso para si próprio e do discurso para os outros, desaparece quando o sentimento de ser compreendido, que é essencial para o discurso social, se encontra ausente.

Na segunda série de experiências, o fator variável era a possibilidade do monólogo coletivo. Após termos medido o coeficiente de discurso egocêntrico de cada criança em situações que permitiriam o monólogo coletivo, colocamo-las numa situação que o tornava impossível – num grupo de crianças que lhe são estranhas ou então numa mesa separada num canto da sala; noutros casos deixava-se a criança trabalhar completamente só, fazendo-se com que o próprio experimentador abandonasse a sala. Os resultados desta série estão em concordância com os primeiros resultados. A impossibilidade do monólogo coletivo teve por conseqüência uma queda do coeficiente de egocentricidade e do discurso, embora não de forma tão flagrante como no primeiro caso – raramente se tornou nulo e em média baixou para um sexto do número inicial. Os diferentes métodos de impossibilitar o monólogo coletivo não tiveram a mesma eficácia no respeitante à redução do coeficiente de discurso egocêntrico. No entanto, a tendência para a redução desse coeficiente era patente em todas as variantes da experiência. A exclusão do fator coletivo não libertou completamente o discurso egocêntrico pelo contrário, inibiu-o. A nossa hipótese foi mais uma vez confirmada.

Na terceira série de experiências, o fato variável era a qualidade vocal do discurso egocêntrico. Do lado de fora da sala onde a experiência se desenrolava, encontrava-se instalada uma orquestra que tocava tão alto ou fazia-se tanto barulho, que não só todas as outras vozes, mas também a da própria criança ficavam afogadas numa variante de experiência, proibia-se expressamente à criança falar alto, permitindo-se-lhe apenas que murmurasse. Mais uma vez o coeficiente de discurso egocêntrico baixou, sendo a relação entre o seu número e o número primitivo de 5:1. Também neste caso os diferentes métodos não tinham a mesma eficácia, mas a tendência de base encontrava-se invariavelmente presente.

O propósito de todas estas séries de experiências era eliminar as características do discurso egocêntrico que se assemelham com o discurso social. Chegamos à conclusão que tal levava invariavelmente a um abrandamento do discurso egocêntrico. É portanto lógico pressupor que o discurso egocêntrico é uma forma que se desenvolve a partir do discurso social e que ainda não se encontra separada desta nas suas manifestações, embora já seja distinta nas suas funções e estrutura. A discordância existente entre nós e Piaget no tocante a esta questão tornar-se-á clara com o seguinte exemplo: estou sentado na minha secretária e falo para uma pessoa que se encontra colocada por detrás de mim, não me sendo possível vê-la; se essa pessoa sair da sala sem eu dar por ela, continuo a falar, julgando que ela continua a ouvir-me e a compreender-me. Externamente, estou a falar de mim para mim, mas psicologicamente o meu discurso continua a ser social. Do ponto de vista de Piaget passa-se o contrário com a criança: o seu discurso egocêntrico é um discurso de si para si; apenas tem a aparência de um discurso social, tal como o meu discurso dava a impressão de ser egocêntrico. Do nosso ponto de vista, a situação é muito mais complicada: subjetivamente, o discurso egocêntrico da criança já possui a sua função específica – nessa medida é independente do discurso social; no entanto, a sua independência não é completa, porque não é sentido como um discurso interior e a criança não o distingue do discurso para os outros. Também objetivamente é diferente do discurso social, mas também neste caso tal não se verifica completamente, pois o discurso só funciona em situações sociais. Mas tanto subjetiva como objetivamente, o discurso egocêntrico representa uma transição entre o discurso para os outros e o discurso de si para si. Já tem a função do discurso interior, mas, pela sua expressão, continua a ser semelhante ao discurso social.

A investigação do discurso egocêntrico preparou o terreno para a compreensão do discurso interior, que passaremos a analisar seguidamente.

IV

As nossas experiências convenceram-nos de que se deve encarar o discurso interior, não como um discurso sem som, mas como uma função discursiva totalmente diferente. O seu traço principal é a sua sintaxe muito particular. Em comparação com o discurso exterior, o discurso interior parece desconexo e incompleto.

Esta observação não é nova. Todos os que estudaram o discurso interior, mesmo os que o abordaram dum ponto de vista behaviourista notaram esta característica. O método de análise genética permite-nos ir além de uma simples descrição dessa característica. Aplicamos este método e verificamos que, à medida que o discurso interior se desenvolve, evidencia uma tendência para a forma de abreviação totalmente específica: nomeadamente, a omissão do sujeito de uma frase e de todas as palavras com ele relacionadas, embora preservando o predicado. Esta tendência para a predicação surge em todas as nossas experiências com tal regularidade que somos forçados a admitir que se trata da forma sintática fundamental do discurso interior.

Para compreendermos esta tendência poderá ser-nos útil recordarmos certas situações em que o discurso exterior apresenta uma estrutura semelhante. A predicação pura ocorre no discurso exterior em duas circunstâncias: quando se trata de uma resposta ou quando o sujeito da oração já é conhecido de antemão de todos os participantes da conversa. A resposta à pergunta: “Quer uma chávena de chá?” não é nunca: “Não, não quero uma chávena de chá”, mas um simples “Não”. Obviamente, tal sentença só é possível porque o sujeito já é conhecido de ambas as partes. À pergunta: “O teu irmão leu este livro?” ninguém responde “Sim, o meu irmão leu este livro”. A resposta é um curto “Leu”, ou “Sim, leu”. Imaginemos agora que um grupo de pessoas está à espera do autocarro: ninguém dirá, ao ver que o autocarro se aproxima: “O autocarro de que estamos à espera aproxima-se”. O mais provável é a frase consistir num abreviado: “Vem aí”, ou qualquer expressão do gênero, pois o sujeito é evidente, dada a situação. Muito freqüentemente, as frases abreviadas são causa de confusão. O ouvinte pode relacionar a frase com um sujeito que lhe ocupa o espírito duma forma predominante e não com um sujeito que o emissor quer significar. Se os pensamentos das duas pessoas coincidirem, pode-se conseguir um perfeito entendimento pelo uso dos simples predicados, mas se estiverem a pensar em coisas diferentes, o mais certo é haver um mal-entendido entre eles.

Nos romances de Tolstoy encontramos exemplos muito bons de condensação do discurso exterior e sua redução a predicados: tais exemplos freqüentemente incidem sobre a psicologia do conhecimento: “Ninguém ouviu claramente o que ele disse, mas Kitty compreendeu-o. Compreendeu-o porque o seu espírito estava constantemente a observar as suas necessidades” (Anna Karenina, Parte V, Cap. 18). Poderíamos dizer que os seus pensamentos ao seguirem os pensamentos do moribundo, continham o sujeito a que a sua palavra se referia e que ninguém mais compreendeu. Mas talvez o exemplo mais flagrante seja a declaração de amor entre Kitty e Levin por intermédio das letras iniciais:

“Há muito que desejava perguntar-lhe uma coisa.

– Faça favor.

– É o seguinte – disse ele, escrevendo as iniciais Q r: n p s, q d n m o n?. Estas letras queriam dizer: “Quando respondeu: não pode ser, queria dizer naquele momento, ou nunca?” Parecia impossível que ela pudesse compreender a complicada frase.

– Compreendo – disse ela.

– Que palavra é esta? – perguntou ele, apontando para o n que significava “nunca”.

– A palavra é “nunca” – disse ela, – mas não é verdade. Levin apagou rapidamente o que tinha escrito, estendeu-lhe o giz e levantou-se. Ela escreveu: N m, n p t r d m.

A sua face resplandeceu: tinha compreendido. A frase significava: “Naquele momento, não poderia ter respondido doutra maneira”.

Kitty escreveu as iniciais seguintes: p q p e e p o q s t p. Isto queria dizer: para que pudesses esquecer e perdoar o que se tinha passado.

Ele tomou o giz com mãos tensas e trêmulas, quebrou-o e escreveu as iniciais do seguinte: “Não tenho nada a esquecer e a perdoar. Nunca deixei de te amar”.

– Compreendo – sussurrou ela.

O rapaz sentou-se e escreveu uma longa frase. Ela compreendeu-a integralmente sem lhe perguntar se estava a ir bem, pegou no giz e respondeu-lhe imediatamente. Ele esteve um longo intervalo sem compreender o que tinha sido escrito e manteve olhar fixo no dela O seu espírito encontrava-se tonto de felicidade. Sentia-se completamente incapaz de deduzir as palavras que ela indicava; mas nos olhos radiantes e felizes da rapariga leu tudo o que precisava de saber. E escreveu três letras. Não tinha ainda acabado de escrever e já Kitty estava lendo por sob a sua mão e escrevia a resposta: “Sim”. Tinham dito tudo na conversação que tinham mantido: que ela o amava e que diria ao pai e à mãe que ele haveria de dirigir-se-lhes na manhã seguinte”. (Anna Karenina, Parte V, Cap. 13).

Este exemplo tem um interesse psicológico extraordinário, porque. tal como todo o episódio entre Kitty e Levin, Tolstoy o extraiu da sua própria vida. Foi precisamente desta maneira que Tolstoy comunicou a sua mulher o seu amor por ela. Estes exemplos mostram claramente que quando os pensamentos dos interlocutores são os mesmos, o papel da fala se reduz ao mínimo. Noutro ponto, Tolstoy assinala que entre pessoas que vivem num estreito contato psicológico, tal comunicação por meio do discurso abreviado se torna a regra, e deixa de ser a exceção.

“Agora, Levin habituara-se a exprimir o seu pensamento integralmente sem qualquer problema sem se preocupar em vertê-lo nas palavras exatas. Ele sabia que a sua mulher, nos momentos plenos de amor como este, compreenderia o que ele queria dizer, bastando-lhe um indício; e ela compreendia, de fato” (Anna Karenina, parte VI, Cap. 3).

A tendência para a predicação que surge no discurso interior quando os dois interlocutores sabem do que se trata é caracterizada por uma sintaxe simplificada, pela condensação e por um número de palavras extremamente reduzido. As confusões plenas de comicidade que se dão quando os pensamentos das pessoas seguem direções diferentes estão em completo contraste com este tipo de compreensão. A confusão a que isto pode levar é bem dada por este pequeno poema:

Dois surdos são julgados por um surdo juiz.
“Este roubou-me a minha vaca”, um deles diz,
“Alto aí, essa terra”, o segundo replica,
“Sempre foi do meu pai e comigo é que fica!”
E o juiz: “Mas que vergonha, tanta briga!
“A culpa não é vossa, é da rapariga”.

A conversação de Kitty com Levin e o julgamento do surdo são casos extremos, quer dizer, são na realidade os dois pólos extremos do discurso exterior. Um deles exemplifica a compreensão mútua que se pode conseguir através de um discurso completamente abreviado quando o sujeito que ocupa os dois espíritos é o mesmo; o outro, exemplifica a incompreensão total, mesmo com um discurso completo, quando os pensamentos das pessoas vagueiam em diferentes direções. Não são apenas os surdos que não conseguem compreender-se; tal acontece também com quaisquer duas pessoas que dão um significado diferente à mesma palavra ou que defendem pontos de vista diferentes. Como Tolstoy notou, aqueles que estão acostumados ao pensamento solitário e independente não apreendem facilmente os pensamentos de outrem e são muito parciais relativamente aos seus próprios: mas as pessoas que mantêm um contato estreito apreendem os significados complicados que transmitem mutuamente por meio de uma comunicação “lógica e clara” levada a cabo com o menor número de palavras.

Depois de termos examinado as abreviaturas no discurso exterior, podemos agora, enriquecidos, debruçar-nos sobre o mesmo fenômeno no discurso interior, em que não é a exceção, mas a regra. Será instrutivo comparar as abreviaturas nos discursos orais, interiores e escritos. A comunicação por escrito repousa sobre o significado formal das palavras e, para transmitir a mesma idéia, exige uma quantidade de palavras muito maior do que a comunicação oral. Dirige-se a um interlocutor ausente que raramente tem presente no espírito o mesmo sujeito que quem escreve. Por conseguinte, terá que ser um discurso completamente desenvolvido; a diferenciação sintática atinge a sua máxima expressão e utilizam-se expressões que soariam como não naturais na conversação oral. A expressão de Griboedov “ele fala como escreve” refere-se ao efeito estranho provocado pelas construções elaboradas quando utilizadas na linguagem na fala do dia a dia.

A natureza multifuncional da linguagem, que tem atraído a atenção aturada dos lingüistas, já tinha sido assinalada por Humboldt no tocante à poesia e à prosa – duas formas muito diferentes pela sua função e também pelos meios que mobilizam. Segundo Humboldt, a poesia é inseparável da música, ao passo que a prosa depende inteiramente da linguagem e é dominada pelo pensamento. Consequentemente, cada uma destas formas tem a sua própria dicção, a sua própria gramática, a sua própria sintaxe. Esta concepção é de primeiríssima importância, embora nem Humboldt, nem os que desenvolveram o seu pensamento tenham compreendido completamente todas as suas implicações. Limitavam-se a estabelecer a distinção entre poesia e prosa e, nesta última, entre a troca de idéias e a conversação vulgar, isto é, a simples troca de informações ou a cavaqueira convencional. Há outras importantes distinções funcionais no discurso. Uma delas e a distinção entre monólogo e diálogo. O discurso interior e o discurso escrito representam o monólogo; o discurso oral, na maioria dos casos, representa o diálogo.

O diálogo pressupõe sempre, da parte dos interlocutores, um conhecimento do assunto suficiente para permitir o discurso abreviado e, em certas condições, as frases puramente predicativas. Também pressupõe que todas as pessoas estão em condições se ver os seus interlocutores, as suas expressões faciais e os gestos que fazem e de ouvir o tom de voz. Já discutimos as abreviaturas e passaremos a considerar neste ponto apenas o aspecto auditivo, utilizando um exemplo clássico, extraído do “Diário de um Escritor”, de Dostoyevski, para mostrar o quanto a entoação ajuda a compreender as diferenciações sutis dos significados das palavras. Dostoyevski relata uma conversação de bêbados inteiramente constituída por uma palavra irreproduzível por escrito:

Uma noite de domingo aconteceu ter-me abeirado de um grupo de seis jovens trabalhadores bêbados, tendo ficado a uns quinze passos deles. Subitamente apercebi-me de que conseguiam exprimir todos os seus pensamentos, sentimentos e até todo um encadeado de raciocínios por meio dessa única palavra, que, ainda por cima, é extremamente breve. Um dos jovens disse-a de uma forma rude e enérgica para exprimir o seu completo desacordo com algo de que todos tinham estado a falar. Outro responde com o mesmo nome, mas num tom e num sentido totalmente diferentes – exprimindo as suas dúvidas sobre os fundamentos da atitude negativa do primeiro. Eis senão quando um terceiro se exalta contra o primeiro, irrompendo abruptamente na conversação e gritando excitadamente a mesma palavra, mas desta vez como se fora uma praga ou uma obscenidade. Aqui o segundo parceiro voltou a interferir, zangado com o terceiro, o agressor, retendo-o, como querendo dizer: “Tens alguma coisa que te pôr às marradas? Estávamos a discutir os assuntos calmamente e logo vens tu, metes-te, e começas logo a praguejar!” E disse todo este pensamento numa só palavra, a mesma venerável palavra; só que desta vez também levantou a mão, pondo-a sobre o ombro do companheiro. Subitamente, um quarto, o mais novo do grupo, que até àquele momento se tinha mantido silencioso, como provavelmente tivesse encontrado repentinamente uma solução para a dificuldade inicial donde partira a discussão, levantou a mão num transporte de alegria e gritou ... Eureka, será isto? Terei encontrado a solução? Não, nem “Eureka”, nem “encontrei a solução”, repetiu a mesma palavra irreproduzível, uma palavra, uma simples palavra, mas com êxtase, numa explosão de comprazimento – manifestação essa provavelmente um pouco exagerada, porque o sexto membro do grupo, o mais velho deles, sujeito de aparência soturna, não gostou da coisa e cortou cerce a alegria infantil do outro, dirigindo-se-lhe num tom de baixo solene e exortativo e repetindo ... sim, repetindo exatamente a mesma palavra, a mesma palavra proibida em presença de senhoras mas que naquele momento queria dizer claramente “Para que são esses berros sem sentido?”. Assim, sem terem proferido mais nenhuma palavra, nem uma sequer, repetiram aquela elocução querida seis vezes de enfiada, seis vezes sucessivas e entenderam-se perfeitamente. (Diário de Um Escritor, ano de 1873).

A inflexão revela o contexto psicológico em que se deve compreender determinada palavra. Na história de Dostoyevsky, tratava-se de uma negação de desafio, num dos casos, de uma dúvida, noutro, de ira, no terceiro. Quando o contexto é tão claro como neste exemplo, torna-se realmente possível transmitir todos os pensamentos, todos os sentimentos e até toda uma cadeia de raciocínios com uma só palavra.

No discurso escrito, como o tom de voz e o conhecimento do assunto não são possíveis, somos obrigados a utilizar muitas palavras e a utilizarmos essas palavras mais exatamente. O discurso escrito é a forma de discurso mais elaborada. Alguns lingüistas consideram que o diálogo é a forma natural do discurso ora!, a forma em que a linguagem patenteia completamente toda a sua natureza, e que o monólogo é em grande medida artificial. A investigação psicológica não nos deixa grandes dúvidas de que, na realidade, o monólogo é a forma mais elevada, mais complexa, a forma que historicamente se desenvolve mais tarde. No momento presente, contudo, só nos interessa estabelecer qualquer comparação no tocante à tendência para a elipse.

A velocidade do discurso oral não se propicia a um processo complicado de formulação – e não deixa tempo para deliberações e opções. O diálogo implica a expressão imediata não pré-determinada. É constituído por respostas e réplicas: é uma cadeia de reações. Em comparação com isto, o monólogo é uma formação complexa dando ao seu autor tempo e vagar para uma cuidada e consciente elaboração lingüística.

No discurso escrito, ao qual faltam os apoios situacionais, tem que se conseguir a comunicação por recurso exclusivo às palavras e suas combinações. Isto exige que a atividade discursiva assuma formas complicadas – e daí o emprego dos rascunhos. A evolução dos rascunhos para a versão final reproduz o nosso processo mental. O planeamento tem uma função importante no discurso escrito, mesmo quando não nos socorremos dum verdadeiro rascunho. Habitualmente, dizemos a nós próprios o que vamos escrever; trata-se também de um rascunho, embora apenas em pensamento. Como tentamos mostrar no capítulo precedente, este rascunho mental é um discurso interior. Como o discurso interior funciona como rascunho não só para o discurso escrito mas também para o discurso oral, passaremos agora a comparar ambas estas formas com o discurso interior, no tocante à tendência para a elipse e para a predicação.

Esta tendência, que não existe no discurso escrito e só muito raramente surge no discurso oral, aparece sempre no discurso interior. A predicação é a forma usual do discurso interior; psicologicamente, este é exclusivamente constituído por predicados. A omissão dos sujeitos é uma lei do discurso interior, exatamente na mesma medida em que a obrigatoriedade da presença do sujeito e do predicado constitui uma lei do discurso escrito.

Este fato experimentalmente estabelecido tem uma explicação: é que os fatores que facilitam a pura predicação encontram-se invariável e obrigatoriamente presentes no discurso interior. Sabemos aquilo em que estamos a pensar – isto é, sabemos já sempre quais são o sujeito e a situação. Psicologicamente, o contato entre os interlocutores numa conversação pode estabelecer uma percepção mútua que conduz à compreensão do discurso elíptico. No discurso interior, a percepção “mútua” está sempre presente, numa forma absoluta; por conseguinte, dá-se, regra geral, uma comunicação praticamente sem palavras mesmo quando se trata dos pensamentos mais complicados.

A predominância da predicação é um produto do desenvolvimento. De início, o discurso egocêntrico é, pela sua estrutura, idêntico ao discurso social, mas no seu processo de transformação em discurso interior vai-se tornando menos completo e coerente, à medida a que passa a ser regido por uma sintaxe totalmente predicativa. As experiências mostram-nos claramente como e porque razão a sintaxe predicativa vai começando a dominar As crianças falam das coisas que vêem, ouvem ou fazem em determinado momento. Em resultado disto, tendem a deixar de lado o sujeito e todas as palavras que com ele se relacionam, condensando progressivamente o seu discurso até que só ficam os predicados. Quanto mais diferenciada se torna a função específica do discurso egocêntrico, mais pronunciadas se tornam as suas peculiaridades sintáticas – a simplificação e a predicação. A vocalização corre a par com esta modificação. Quando conversamos de nós para nós precisamos ainda de menos palavras do que Kitty e Levin. O discurso interior é um discurso quase sem palavras.

Reduzida a sintaxe e o som ao mínimo, o significado passa a ocupar um lugar mais do que nunca proeminente. O discurso interior opera com a semântica e não com a fonética. A estrutura semântica específica do discurso interior também contribui para a elipse. A sintaxe dos significados no discurso interior não é menos original do que a sua sintaxe gramatical. A nossa investigação estabeleceu três peculiaridades semânticas do discurso interior.

A primeira, que é essencial, é a preponderância do sentido das palavras sobre o seu significado – distinção que devemos a Paulhan. Segundo este autor, o sentido de uma palavra é a soma de todos os acontecimentos psicológicos que essa palavra desperta na nossa consciência. É um todo complexo, fluido, dinâmico que tem várias zonas de estabilidade desigual. O significado mais não é do que uma das zonas do sentido, a zona mais estável e precisa. Uma palavra extrai o seu sentido do contexto em que surge; quando o contexto muda o seu sentido muda também. O significado mantém-se estável através de todas as mudanças de sentido. O significado de uma palavra tal como surge no dicionário não passa de uma pedra do edifício do sentido, não é mais do que uma potencialidade que tem diversas realizações no discurso.

As últimas palavras da já mencionada fábula de Krylov “A Cigarra e a Formiga” constituem uma boa ilustração da diferença entre sentido e significado. As palavras: “Pois agora dança'” têm um significado fixo e definido, mas no contexto da fábula adquirem um sentido intelectual e afetivo mais vasto. Passam a significar simultaneamente: “Diverte-te” e “Perece!”. Este enriquecimento das palavras pelo sentido que adquirem nos diferentes contextos é a lei fundamental da dinâmica dos significados das palavras. Num determinado contexto, uma palavra significa simultaneamente mais ou menos do que a mesma palavra tomada isoladamente; significa mais, porque adquire um novo contexto; significa menos, porque o seu significado é limitado e estreitado pelo mesmo contexto. O sentido de uma palavra, diz Paulhan, é um fenômeno complexo, móvel, protéico; modifica-se com as situações e consoante os espíritos e é praticamente ilimitado. As palavras extraem o seu sentido da frase em que estão inseridas, e esta, por seu turno, colhe o seu sentido do parágrafo, o qual, por sua vez, o colhe do livro e este das obras todas do autor.

Paulhan prestou ainda outro serviço à psicologia, analisando a relação entre a palavra e o sentido e mostrando que a independência entre um e outra é muito maior do que a que existe entre a palavra e o significado. Há muito já se sabe que as palavras podem mudar de sentido. Recentemente, houve quem assinalasse que o sentido pode modificar as palavras, ou melhor, que as idéias por vezes mudam de nome. Tal como o sentido duma palavra se encontra relacionada com o conjunto da palavra na sua totalidade, e não apenas com os seus sons isolados, também o sentido duma frase se relaciona com a globalidade da frase e não com as suas palavras tomadas isoladamente. Por conseguinte, uma palavra pode muitas vezes ser substituída por outra sem se dar nenhuma modificação do sentido. As palavras e os seus sentidos são relativamente independentes uns dos outros.

No discurso interior, a predominância do sentido sobre o significado, da frase sobre a palavra e do contexto sobre a frase constitui a regra.

Isto conduz-nos a outras peculiaridades do discurso interior. Ambas dizem respeito à combinação das palavras entre si. Um desses tipos de combinação será antes como que uma aglutinação – uma forma de combinar as palavras bastante freqüente em muitas línguas e relativamente rara noutras. A língua alemã forma freqüentemente um substantivo a partir de diversas palavras ou de frases. Em certas línguas primitivas, tal edição de palavras constitui regra geral. Quando diversas palavras se fundem numa única, a nova palavra não se limita a exprimir uma idéia bastante complexa, designa também todos os elementos separados contidos nessa idéia. Como a tônica recai sempre no radical ou na idéia principal, tais línguas são de fácil compreensão. O discurso egocêntrico da criança patenteia um fenômeno semelhante. À medida que o discurso egocêntrico se vai aproximando da forma do discurso interior, a criança começa a utilizar a aglutinação cada vez mais como modo de formar palavras compostas que exprimem idéias complexas.

A terceira peculiaridade semântica fundamental do discurso interior é a forma como os sentidos das palavras se combinam e congregam – processo que é regido por leis diferentes das que regem as combinações de significados. Na altura em que observamos esta forma singular de unir palavras no discurso egocêntrico, chamamos-lhe “influxo de sentido”. Os sentidos de diferentes palavras confluem numa outra – “influenciam-se” literalmente - de forma que as primeiras estão contidas nas últimas e as influenciam. Da mesma forma, uma palavra que continuamente se repete num livro ou num poema absorve por vezes todas as variantes de sentido neles contidas e se torna de certa maneira equivalente à própria obra. O título de uma obra literária exprime o seu conteúdo e completa o seu sentido num grau muito mais elevado do que o título de um quadro ou de uma peça de música. Títulos como Dom Quixote, Hamlet ou Anna Karenina ilustram isto com toda a clareza; todo o sentido da obra se encontra contido numa palavra, num nome. Outro excelente exemplo é a obra Almas Mortas, de Gogol. Originalmente, o título referia-se aos servos mortos cujo nome não fora removido das listas oficiais e que podiam continuar a ser comprados e vendidos como se estivessem vivos. É neste sentido que as palavras são utilizadas durante todo o livro, que é construído em torno deste tráfico com os mortos. Mas, pela sua íntima relação com o conjunto da obra, estas duas palavras adquirem uma nova significação e um sentido infinitamente mais vasto. Quando chegamos ao fim do livro, a expressão “Almas mortas” significa para nós não só os servos defuntos, mas também todos os personagens da história que estão fisicamente vivos, mas espiritualmente mortos.

No discurso interior, o fenômeno atinge a sua máxima incidência. Cada palavra isolada encontra-se tão saturada de sentido, que, para a explicar no discurso exterior seriam necessárias muitas palavras. Não é pois de surpreender que o discurso egocêntrico seja incompreensível para os outros. Watson diz que o discurso interior seria incompreensível, mesmo que fosse possível gravá-lo. A sua opacidade acentua-se devido a um fenômeno que, diga-se de passagem, Tolstoy notou no discurso exterior: no seu livro, Infância, Adolescência e Juventude, descreve como, em pessoas que se encontram em contato psicológico muito íntimo, as palavras adquirem significados especiais que só são entendidos pelos iniciados. No discurso interior, desenvolve-se o mesmo tipo de idioma – o tipo de idioma que é difícil de traduzir para a fala oral.

Com isto, concluímos o nosso relance sobre as peculiaridades do discurso interior, com que nos defrontamos pela primeira vez ao investigarmos o discurso egocêntrico. Quando fomos procurar comparações no discurso externo, descobrimos que este último já contém, pelo menos potencialmente, os traços característicos do discurso interno: a predicação, o declínio da oralidade, a predominância do sentido sobre o significado, a aglutinação, etc., aparecem também em certas condições já no discurso externo. Estamos em crer que isto é a melhor confirmação da nossa hipótese, segundo a qual o discurso interior tem origem na diferenciação do primitivo discurso das crianças.

Todas as nossas observações indicam que o discurso interior é uma função autônoma da linguagem. Podemos confiantemente encará-lo como um plano distinto do pensamento verbal. É evidente que a transição do discurso interior para o discurso externo não é uma simples tradução duma linguagem para outra. Não pode ser conseguida apenas pela simples oralização do discurso silencioso. É um processo complexo, dinâmico que envolve a transformação da estrutura predicativa, idiomática do discurso interior em discurso sintaticamente articulado, inteligível para os outros.

V

Podemos agora voltar a debruçar-nos sobre a definição do discurso interior que propusemos antes de iniciarmos a nossa análise. O discurso interior não é o aspecto interior do discurso externo – é uma função em si próprio. Continua a ser discurso, isto é, pensamento ligado por palavras. Mas enquanto o pensamento externo se encontra encarnado em palavras, no discurso interior é, em grande medida, um pensamento feito de significados puros. É uma coisa dinâmica, instável, e derivante, que flutua entre a palavra e o pensamento, os dois componentes mais ou menos estáveis, mais ou menos solidamente delineados do pensamento verbal. Só se pode compreender a sua verdadeira natureza e o seu verdadeiro lugar, após se ter examinado o plano seguinte do pensamento verbal, o plano ainda mais profundo do que o discurso interior.

Esse plano é o próprio pensamento. Como dissemos, todos os pensamentos criam uma conexão, preenchem uma função, resolvem um problema. A corrente de pensamento não é acompanhada por um desabrochar simultâneo do discurso. Os dois processos não são idênticos e não há correspondência rígida entre as unidades de pensamento e de discurso. Isto é particularmente verdade quando um pensamento aborta – quando como Dostoyevski diz, um “pensamento não entra nas palavras”. O pensamento tem a sua própria estrutura e a transição entre ele e a linguagem não é coisa fácil. O teatro defrontou-se, antes da psicologia, com o problema dos pensamentos ocultos por detrás das palavras. Ao ensinar o seu sistema de representação, Stanislawsky exigia dos autores que descobrissem o “subtexto” das suas réplicas na peça. Na comédia de Griboedov “O Espírito traz a Infelicidade”, à heroína que afirma nunca o ter esquecido, o herói, Chatsky, diz: “Três vezes abençoado quem tal acreditar. A fé aquece o coração”. Stanislawsky interpretou esta passagem como querendo dizer: “Acabemos com esta conversa”, mas poderia também ser interpretada como querendo dizer: “Não acredito em si. Diz isso para me reconfortar”, ou: “Não vê que me está a atormentar? Eu bem queria acreditar em si. Seria uma benção...”. Todas estas frases que proferimos na vida real possuem uma espécie de sub-texto, um pensamento oculto por detrás delas. Nos exemplos que atrás demos da ausência de concordância entre o sujeito e o predicado, não levamos a nossa análise até ao fim. Tal como uma frase pode exprimir muitos pensamentos, um mesmo pensamento pode ser expresso por meio de diferentes frases. Por exemplo, a frase “O relógio caiu”, como resposta à pergunta: “Porque é que o relógio parou?” poderia significar: “Não tive culpa de o relógio se ter estragado; caiu”. O mesmo pensamento, que é uma auto-justificação, poderia assumir a forma seguinte: “Não é meu hábito mexer nas coisas das outras pessoas. Só estava a limpar o pó aqui”, ou muitas outras frases.

Ao contrário do discurso, o pensamento não é constituído por unidades separadas. Quando desejo comunicar o pensamento de que hoje vi um rapaz descalço de camisa azul a correr pela rua abaixo, não vejo cada elemento em separado: o rapaz, a camisa, a cor desta última, a corrida do rapaz, a ausência de sapatos. Concebo tudo isto num só pensamento, mas exprimo o pensamento em palavras separadas. Um interlocutor leva por vezes vários minutos a expor um só pensamento. No seu espírito o pensamento encontra-se presente na sua globalidade num só momento, mas no discurso tem que ser desenvolvido por fases sucessivas. Podemos comparar um pensamento com uma nuvem que faz cair uma chuva de palavras. Como, precisamente, um pensamento não tem correspondência imediata em palavras, a transição entre o pensamento e as palavras passa pelo significado Na nossa fala, há sempre o pensamento oculto, há sempre o sub-texto. Houve sempre lamentos acerca da inexpressibilidade do pensamento devido ao fato de ser impossível uma transição direta do pensamento para a palavra:

Como poderá o coração exprimir-se?
Como poderá outro compreendê-lo?
(F. Tjutchev)

A comunicação direta entre os espíritos é impossível, não só fisicamente mas também psicologicamente. A comunicação só é possível de uma forma indireta. O pensamento tem que passar primeiro pelos significados e depois pelas palavras.

Chegamos assim ao último passo da nossa análise do pensamento verbal. O pensamento propriamente dito é gerado pela motivação, isto é, pelos nossos desejos e necessidades, os nossos interesses e emoções. Por detrás de todos os pensamentos há uma tendência volitiva-afetiva, que detém a resposta ao derradeiro porquê da análise do pensamento. Uma verdadeira e exaustiva compreensão do pensamento de outrem só é possível quando tivermos compreendido a sua base afetiva-volitiva. Ilustraremos isto por meio de um exemplo que já tem sido utilizado: a interpretações dos papéis de uma peça. Nas suas instruções para os atores, Stanislawsky enumerava os motivos subjacentes nas palavras dos seus personagens. Por exemplo:

Texto da Peça
Motivos Subjacentes
Sofia: Ah, Chatsky, como estou contente por teres vindo! Tente ocultar a atrapalhação.
Chatsky: Estás tão contente! Que simpático! Mas alegrias dessas não entendo bem! Pois antes me parece que ao fim e ao cabo. Ao vir por aí à chuva mais o meu cavalo. A mim me contentei e a mais ninguém. Tenta fazê-la sentir-se culpada. “Não tens vergonha?!” Tenta forçá-la a ser franca!
Liza: Senhor se aqui estivesses neste
mesmo lugar. Há uns cinco minutos, não, nem há tanto, não. Vosso nome ouviríeis bem alto soar! Ah Menina! Dizei-lhe que tenho razão!
Tenta acalmá-lo. Tenta ajudar Sofia numa situação difícil.
Sofia: Assim é, nem mais, nem menos! Que quanto a isso, sei que não tendes nada que me censurar! Tenta serenar Chatsky. Não sou culpada de nada.
Chatsky: Pronto, aceitemos que assim é, deixai estar! Três vezes louvado quem tiver fé! Pois a fé o coração aquece! Acabemos com esta conversa, etc.

Para compreendermos o discurso de outrem, não basta compreender as suas palavras – temos que compreender o seu pensamento. Mas também isto não basta – temos que conhecer também as suas motivações. Nenhuma análise psicológica de uma frase proferida se encontra completa antes de se ter atingido esse plano.

Chegamos ao fim da nossa análise; passemos os seus resultados em revista. O pensamento verbal surge-nos como uma entidade dinâmica e complexa e a relação entre o pensamento e a palavra no seu interior aparece-nos como um movimento que abarca uma série de planos. A nossa análise seguiu o processo desde o seu plano mais externo até ao seu plano mais interno. Na realidade, o desenvolvimento do pensamento verbal segue uma trajetória oposta: do motivo que gera um pensamento à modelação do pensamento, primeiro no discurso interior, depois nos significados das palavras e finalmente nas palavras. Seria no entanto errado imaginar que este é o único caminho do pensamento para a palavra. O desenvolvimento pode deter-se num ponto qualquer da sua complexa trajetória; é possível uma infinidade de movimentos progressivos e recessivos, uma grande variedade de evoluções que desconhecemos ainda. O estudo destas multifacetadas variações não cabe no âmbito da nossa tarefa presente.

A nossa investigação seguiu um percurso bastante invulgar. Desejávamos estudar a forma como internamente operam o pensamento e a linguagem, formas essas que se encontram ocultas à observação direta. O significado e todo o aspecto interior da linguagem, a sua faceta que se encontra voltada para a pessoa e não para o mundo exterior tem constituído até hoje um território desconhecido. Sejam quais forem as interpretações que lhes sejam dadas, as relações entre o pensamento e a palavra foram sempre consideradas como algo constante e imutável, estabelecido para sempre. A nossa investigação mostrou que tais relações são, pelo contrário, relações mutáveis entre processos, que surgem durante o desenvolvimento do pensamento verbal. Não queríamos nem podíamos esgotar o assunto do pensamento verbal. Tentamos apenas dar uma concepção geral da infinita complexidade desta estrutura dinâmica – concepção que parte dos fatos experimentalmente documentados.

Para a psicologia associacionista, o pensamento e a palavra encontram-se unidos por laços externos, semelhantes aos laços existentes entre duas sílabas sem sentido. A psicologia gestaltista introduziu o conceito dos nexos estruturais, mas, tal como a velha teoria, não entrou em linha de conta com as relações específicas entre o pensamento e a palavra. Quanto às outras teorias, agrupavam-se em torno de dois pólos – quer o pólo do conceito behaviourista segundo o qual o pensamento é linguagem sem o ponto de vista idealista, defendido pela escola de Wuerzburg, e Bergson, segundo o qual o pensamento poderia ser “puro”, isto é, pensamento sem qualquer relação com a linguagem, pensamento que seria distorcido pelas palavras. A frase de Tjutchev “Uma vez dito um pensamento torna-se mentira”, poderia muito bem servir de epitáfio para o último grupo. Quer se inclinem para o puro naturalismo quer se inclinem para o idealismo mais extremo, todas estas teorias comungam dum mesmo traço – o seu pendor anti-histórico. Estudam o pensamento e a palavra sem fazerem qualquer referência à sua História genética.

Só uma teoria histórica do discurso interior poderá tratar cabalmente este complexo e imenso problema. A relação entre o pensamento e a palavra é um processo vivo; o pensamento nasce através das palavras. Uma palavra vazia de pensamento é uma coisa morta, e um pensamento despido de palavras permanece uma sombra. A conexão entre ambos não é, no entanto, algo de constante e já formado: emerge no decurso do desenvolvimento e modifica-se também ela própria. À expressão bíblica “No princípio era o Verbo”, Goethe faz Fausto responder: “No princípio era a ação”. A intenção desta frase é a de diminuir o valor da palavra, mas podemos aceitar esta versão se lhe dermos outra acentuação: no princípio era a ação. A palavra não é o ponto de partida – a ação já existia antes dela; a palavra é o termo do desenvolvimento, o coroamento da ação.

Não podemos encerrar o nosso relance sem mencionarmos as perspectivas abertas pela nossa investigação. Estudamos os aspectos internos da linguagem que eram tão desconhecidos para a Ciência como o outro lado da Lua. Mostramos que as palavras têm por característica fundamental serem um reflexo generalizado do mundo. Este aspecto da palavra conduz-nos ao limiar de um tema muito mais profundo e mais vasto – o problema geral da consciência. As palavras desempenham um papel fundamental, não só no desenvolvimento do pensamento mas também no desenvolvimento histórico da consciência como um todo. Cada palavra é um microcosmos da consciência humana.

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Notas:

(6*) “A cigarra e a formiga”. Em francês no original. (retornar ao texto)

(7*) O exemplo dado por Vygotsky perde parte do seu impacto em português, devido às diferentes relações entre os gêneros na língua portuguesa e na língua russa. (retornar ao texto)

Inclusão 03/01/2011