A Crise da Social-Democracia
(Folheto Junius)

Rosa Luxemburgo

Socialismo ou Barbárie?


O cenário mudou fundamentalmente. A marcha de seis semanas sobre Paris[1] tomou as proporções de um drama mundial: a imensa carnificina se tornou um assunto cotidiano, esgotante e monótono, sem que a solução, em qualquer sentido que seja, tenha progredido um passo. A política burguesa está encurralada, presa em sua própia armadilha: não pode mais se livrar dos espíritos que invocou.

Acabou a embriaguez. Acabou a tempestade patriótica nas ruas, a perseguição aos automóveis suspeitos, os sucessivos telegramas falsos; não mais se fala das fontes contaminadas com o bacilo da cólera, sobre os estudantes russos que lançam bombas sobre todas as pontes ferroviárias de Berlim, de franceses sobrevoando Nuremberg; terminados os excessos de uma população que por toda parte pressentia espiões, terminada a multidão tumultuosa nos cafés onde se ficava ensurdecido pelos cantos patrióticos cada vez mais altos; a população de toda uma cidade transformada em populacho, pronta a denunciar não importa quem, a molestar as mulheres, a gritar Hurra!, e a atingir o paroxismo do delírio lançando ela mesma boatos loucos; um clima de crime ritual, uma atmosfera de Kishinev, onde o único representante da dignidade humana era o policial na esquina da rua.[2]

O espetáculo terminou. Os sábios alemães, estes “lêmures vacilantes”, já há muito tempo, ao sinal do apito, retornaram para suas tocas. A alegria radiante da moças correndo ao lado dos comboios não faz mais companhia aos trens de reservistas e estes não saúdam mais as multidões dependurando-se das janelas dos vagões, um sorriso alegre no rosto; silenciosos, com os pertences sob o braço, eles caminham nas ruas onde uma multidão de rostos desgostosos se entrega a suas atividades cotidianas.

Na atmosfera desencantada destes dias pálidos é outro o coro que se ouve: o grito rouco dos abutres e das hienas nos campos de batalha. Dez mil barracas padrão garantidas! Cem mil quilos de toucinho, de chocolate, de café artificial, entregues imediatamente contra pagamento! Obuses, tornos, cartucheiras, agências de casamento para viúvas de soldados mortos no front, cinturões de couro, intermediários que vos oferecem contratos com o exército — só se aceitam ofertas sérias! A carne de canhão, embarcada em agosto e setembro recheada de patriotismo, apodrece agora na Bélgica, em Vosgues, em Masuria, nos cemitérios onde se vêem os lucros de guerra crescerem vigorosos. É preciso começar logo esta colheita, Sobre o oceano de tal trigo, milhares de mãos se estendem, ávidas para obter sua parte.

Os negócios prosperam sobre as ruínas. As cidades se transformam em montes de escombros, os vilarejos em cemitérios, regiões inteiras em desertos, populações inteiras em tropas de mendigos, igrejas em estrebarias. O direito dos povos, os tratados, as alianças, as palavras mais sagradas, a autoridade suprema, tudo está em pedaços. Qualquer soberano pela graça de Deus trata seu primo, se ele está no campo adversário, de imbecil, patife e perjuro, qualquer diplomata chama seu colega na cara de canalha infame, qualquer governo assegura que o governo adversário leva seu povo à derrota, cada um desejando para o outro a execração pública; e as revoltas da fome estouram em Veneza, em Lisboa, em Moscou, em Singapura; e a peste se estende na Rússia, a miséria e o desespero por toda parte.

Pisada, desonrada, patinando no sangue, coberta de imundície: eis como se apresenta a sociedade burguesa, eis o que ela é. Não é quando, bem alimentada e decente, ela se traveste de cultura e filosofia, de moral e ordem, de paz e de direito, mas quando ela se assemelha a uma besta selvagem, quando ela dança o sabá da anarquia, quando ela sopra a peste sobre a civilização e a humanidade que ela se mostra cruamente como é na realidade.

E no âmago deste sabá de feiticeira produziu-se uma catástrofe de alcance mundial: a capitulação da social-democracia internacional. Seria para o proletariado o cúmulo da loucura alimentar ilusões quanto a isto ou encobrir esta catástrofe: é o pior que lhe poderia acontecer.

“O democrata” (quer dizer o pequeno-burguês revolucionário) diz Marx, “sai da derrota mais vergonhosa tão puro e inocente como quando começou a luta: com a convicção renovada de que deverá vencer, não porque ele e seu partido consideram que devem revisar suas posições, mas ao contrário porque espera que as condições mudem em seu favor.”[3]

O proletariado moderno se comporta de outra maneira ao sair das grandes provas históricas. Seus erros são tão gigantescos quanto suas tarefas. Não há esquema pré-estabelecido, válido de uma vez por todas, não há um guia infalível a lhe mostrar o caminho a percorrer. Não há outro mestre que não a experiência histórica. O penoso caminho de sua libertação não é pavimentado apenas com sofrimentos imensos mas também de inumeráveis erros. Seu objetivo, sua libertação, ele atingirá se souber aprender com seus própios erros. Para o movimento proletário a autocrítica, uma autocrítica sem piedade, cruel, indo ao fundo das coisas, é o ar, a luz sem o qual não pode viver.

Na guerra mundial atual o proletariado caiu mais baixo que nunca. Isto é uma desgraça para toda a humanidade. Mas seria o fim do socialismo apenas se o proletariado internacional se recusasse a avaliar a profundidade de sua queda e a tirar os ensinamentos que ela traz.

O que está em questão atualmente é o último capítulo da evolução do movimento operário moderno no decorrer destes últimos vinte e cinco anos. O que nós assistimos é a crítica e ao balanço da obra realizada desde aproximadamente meio século. A queda da Comuna de Paris encerrou a primeira fase do movimento operário e o fim da Iª Internacional.[4] A partir de então começa uma nova fase. Às revoluções espontâneas, aos levantamentos, aos combates nas barricadas, após os quais o proletariado recaía outra vez em seu estado passivo, sucedeu-se então a luta cotidiana sistemática, a utilização do parlamentarismo burguês, a organização das massas, a união da luta econômica e da luta política, a união do ideal socialista e da defesa decidida dos interesses cotidianos imediatos. Pela primeira vez a causa do proletariado e de sua emancipação via brilhar a sua frente uma estrela para guiá-la: uma doutrina científica rigorosa. Em lugar das seitas, das escolas, das utopias, das experiências que cada um fazia isolado em seu próprio país, tinha-se um fundamento teórico internacional, base comum que fazia convergir os diferentes países em um ramo único. A teoria marxista colocou nas mãos da classe operária do mundo inteiro uma bússola que lhe permitia encontrar a rota no turbilhão dos acontecimentos de cada dia e de orientar sua tática de combate a cada momento em direção do objetivo final, imutável.

Foi o partido social-democrata alemão que se fez o representante, o campeão e o guardião deste novo método. A guerra de 1870 e a derrota da Comuna de Paris tinham deslocado para a Alemanha o centro de gravidade do movimento operário europeu. Da mesma forma que a França havia sido o local por excelência da luta de classe proletária durante esta primeira fase, da mesma forma que Paris havia sido o coração palpitante e sangrante da classe operária européia daquela época, da mesma maneira a classe operária alemã tornou-se a vanguarda durante a segunda fase. Ao preço de sacrifícios inumeráveis, por um trabalho minucioso e infatigável, ela edificou uma organização exemplar, a mais forte de todas: ela criou a imprensa mais numerosa, criou os meios de formação e educação mais eficazes, agrupou ao seu redor as massas de eleitores mais consideráveis e obteve o maior número de assentos de deputados. A social-democracia alemã parecia a mais pura encarnação do socialismo marxista. O partido social-democrata ocupava e reivindicava um lugar de exceção enquanto mestre e guia da IIª Internacional.[5]

Em 1895 Engels escrevia em seu célebre prefácio à “Luta de Classes em França“ de Karl Marx:

«Mas, seja o que venha a acontecer em outros países, a social-democracia alemã tem uma posição particular e, por causa disto, ao menos no momento, também uma tarefa particular.  Os dois milhões de eleitores que ela envia às urnas, levando-se em conta ainda os jovens e as mulheres que estão por trás deles como não-eleitores,  constituem a massa mais numerosa e mais compacta, o “grupo de choque” decisivo do exército proletário internacional."

A social democracia alemã era, como o escrevia o Wiener Arbeitzeitung em 5 de agosto de 1914 “a jóia da organização do proletariado consciente”. A social-democracia francesa, italiana, belga, os movimentos operários da Holanda, da Escandinávia, da Suíça e dos Estados-Unidos seguiam seus passos com um zelo cada vez maior. Quanto aos Eslavos, os Russos e os social-democratas dos Bálcãs, eles a olhavam com uma admiração sem limites, por assim dizer incondicional. Na IIª Internacional o “grupo de choque” alemão tinha um papel preponderante. Durante os congressos, durante as sessões do bureau da Internacional socialista, todos aguardavam a opinião dos alemães. Em particular durante os debates sobre os problemas colocados pela luta contra o militarismo e sobre a questão da guerra, a posição da social-democracia alemã era sempre determinante. “Para nós, Alemães, isto é inaceitável” era habitualmente suficiente para decidir a orientação da Internacional. Com uma confiança cega, esta se referia à direção da poderosa social-democracia alemã tão admirada: ela era o orgulho de cada socialista e o terror das classes dirigentes em todos os países.

E ao que nós assistimos na Alemanha no momento da grande prova histórica? À queda mais catastrófica, ao desmantelamento mais impressionante. Em nenhuma parte a organização do proletariado foi colocada tão completamente a serviço do imperialismo, em nenhuma parte o estado de sítio foi aceito com tão pouca resistência[6]. Em nenhuma parte a imprensa foi tão amordaçada, a opinião pública tão silenciada, a luta de classes econômica e política da classe operária tão completamente abandonada quanto na Alemanha.

Ora, a social-democracia alemã não era apenas a vanguarda mais firme da Internacional, ela era também seu cérebro. Assim, é necessário começar por ela, pelo estudo de sua queda; é pelo estudo de seu caso que deve começar o processo de autoreflexão. É para ela uma questão de honra preceder todos pelo bem do socialismo internacional, quer dizer, ser a primeira a realizar uma autocrítica impiedosa. Nenhum outro partido, nenhuma outra classe da sociedade burguesa pode estampar suas própias faltas perante o mundo, nenhuma outra pode mostrar suas própias fraquezas no claro espelho da crítica, pois que este mesmo espelho lhe faria ver simultaneamente os limites históricos que se apresentam diante de si e, atrás, seu destino. A classe operária, só ela, ousa olhar a verdade de frente, mesmo se esta verdade constitui a mais dura acusação contra si, pois sua fraqueza não passa de um desvio e a lei imperiosa da história lhe devolve a força e lhe garante a vitória final.

A autocrítica implacável não é apenas um direito vital para a classe operária, é para ela também o dever supremo. Em nosso navio transportávamos os tesouros mais preciosos da humanidade, confiados à guarda do proletariado e já que a sociedade burguesa, rebaixada e desonrada pela orgia sangrenta da guerra, continua a se precipitar em direção á sua perda é preciso que o proletariado internacional se recupere, e ele o fará, para recuperar os tesouros que, em um momento de confusão e fraqueza em meio ao turbilhão desencadeado pela guerra mundial, deixou cair no abismo.

Uma coisa é certa, a guerra representa uma mudança para o mundo. É uma tolice insensata achar que basta deixar acabar a guerra, como a lebre que espera o fim da tempestade embaixo de um arbusto para depois seguir tranqüila seu caminho. A guerra transformou as condições de nossa luta e transformou a nós mesmos radicalmente. Não que as leis fundamentais da evolução capitalista, o combate de vida e morte entre o capital e o trabalho, devam ter um desvio ou abrandamento. Mesmo agora, em meio à guerra, caem as máscaras e o velhos rostos que conhecemos tão bem nos olham rindo sarcasticamente. Mas após a erupção do vulcão capitalista, o ritmo da evolução recebeu um impulso tão violento que perto dos conflitos que irão surgir no seio da sociedade e perto da imensidão das tarefas que esperam o proletariado socialista de imediato, toda história do movimento operário até agora não foi mais que uma época paradisíaca.

Historicamente esta guerra era considerada como favorecendo fortemente a causa do proletariado. Em Marx que, com um olhar profético, descobriu no seio do futuro tantos eventos históricos, podemos encontrar n´A Luta de Classe na França a seguinte passagem marcante:

«Na França o pequeno burguês faz o que, normalmente, deveria fazer o burguês industrial; o operário faz o que, normalmente, seria a tarefa do pequeno burguês; e a tarefa do operário, quem a cumpre? Ninguém. Ela não é resolvida na França, na França ela é proclamada. Ela não é em lugar nenhum resolvida dentro dos limites da nação; a guerra de classes no seio da sociedade francesa se expandiu em uma guerra mundial onde as nações se enfrentam face a face. A solução só começa no momento em que, pela guerra mundial, o proletariado se coloca à frente do povo que domina o mercado mundial, à frente da Inglaterra. A revolução, encontrando lá não o seu término mas o seu começo de organização, não é uma revolução de curta duração. A geração atual assemelha-se aos Judeus que Moisés conduziu através do deserto. Ela não tem apenas um novo mundo a conquistar, é preciso que ela pereça para dar lugar aos homens que estarão à altura do novo mundo."

Isto foi escrito em 1850, em uma época onde a Inglaterra era o único país capitalista desenvolvido, onde o proletariado inglês era o mais organizado e parecia chamado a comandar a classe operária internacional em virtude do desenvolvimento econômico de seu país. Substituam Inglaterra por Alemanha e as palavreas de Marx aparecem como uma prefiguração genial da guerra mundial atual. Esta guerra era chamada a colocar o proletariado alemão à frente do povo e assim produzir um «começo de organização» em vista do conflito internacional generalizado entre o Capital e o Trabalho pelo poder político.

E quanto a nós, apresentamos de uma maneira diferente o papel da classe operária na guerra mundial? Relembremos como ainda há pouco nós descrevíamos o futuro:

«Então chegará a catástrofe. Então soará na Europa a hora da marcha geral, que conduzirá ao campo de batalha de 16 a 18 milhões de homens, a flor das diversas nações, equipados dos melhores instrumentos de morte e lançados uns contra os outros. Mas, a meu ver, por trás da grande marcha geral, há o grande convulsionamento. Não é nossa culpa, é deles. Eles forçam as coisas ao seu limite. Eles vão provocar uma catástrofe. Eles colherão o que semeararm. O crepúsculo dos deuses do mundo burguês se aproxima. Estejam certos, ele se aproxima!»

Eis o que declarava o orador de nossa fração, Bebel[7], durante o debate sobre o Marrocos no Reichstag.

A Declaração oficial do partido, Imperialismo ou Socialismo, que foi divulgada há alguns anos em centenas de milhares de exemplares, terminava com estas palavras:

«Assim a luta contra o capitalismo se transforma cada vez mais em um combate decisivo entre o Capital e Trabalho. Perigo de guerra, penúria e capitalismo – ou paz, prosperidade para todos, socialismo; eis os termos da alternativa. A história se adianta às grandes decisões. O proletariado deve incansavelmente realizar sua tarefa histórica, reforçar a força de sua organização, a clareza de seu conhecimento. Desde já, aconteça o que possa acontecer, seja que, pela força que ele representa, consiga poupar à humanidade o pesadelo abominável de uma guerra mundial, seja que o mundo capitalista só possa perecer e afundar no abismo da histíoria tal como nasceu, ou seja no sangue e na violência, na hora histórica a classe operária estará pronta.»

No manual para os eleitores social-democratas do ano de 1911, destinado ás últimas eleições parlamentares, pode-se ler à página 42, a respeito da guerra temida:

«Será que nossos dirigentes e nossas classes dominantes acreditam poder exigir da parte dos povos uma tal monstruosidade? Será que um grito de pavor, de cólera e de indignação não vai tomar conta deles e levá-los a por um fim a este assassinato?»

«Não irão se perguntar: por quem e para que tudo isso? Somos então doentes mentais para sermos tratados assim ou para nos deixarem à própria sorte?»

«Aquele que examina de cabeça fria a possibilidade uma grande guerra européia só pode chegar a uma conclusão que é esta:

«A próxima guerra européia será um jogo de tudo-ou-nada sem precedentes na história do mundo, com toda probabilidade será a guerra final.»

Foi com esta linguagem e nestes termos que nossos atuais deputados ao Reichstag fizeram campanha pelos seus 110 mandatos.

Quando no verão de 1911 o Panther deu seu bote em Agadir[8] e a ruidosa agitação do imperialismo alemão tornou iminente o perigo de uma guerra européia, uma assembléia internacional reunida em Londres adotou em 4 de agosto a seguinte resolução:

«Os delegados alemães , espanhóis , ingleses , holandeses e franceses das organizações operárias se declaram prontos a se opor com todos os meios de que dispõem a toda declaração de guerra. Cada nação representada assume o compromisso de agir contra todas as manobras criminosas das classes dirigentes, conforme as decisões de seu Congresso nacional e do Congresso internacional»

Entretanto, quando em novembro de 1912 o Congresso internacional se reuniu em Bâle, enquanto o longo cortejo de delegados operários chegava catedral, todos os presentes foram tomados de emoção diante da solenidade da hora fatal que se aproximava e foram penetrados por um sentimento de heróica determinação.

O frio e cético Victor Adler  exclamava:

«Camaradas, é imperioso que, nos encontrando aqui na fonte comum de nosso poder, nós tenhamos a força de fazer o que pudermos em nossos respectivos países , com as formas e os meios de que dispomos e com todo poder que possuimos, para nos opor ao crime da guerra. E se isto vier a acontecer , se isto vier realmente a acontecer, então nós devemos cuidar para que seja um marco, um marco do final

«Eis o sentimento que anima toda a Internacional.»

«E se o morticínio, o fogo, a pestilência se espalham pela Europa civilizada – só podemos pensar nisto tremendo e a cólera e a revolta nos rasgam o coração. E nós nos perguntamos: os homens, os proletários, são eles ainda apenas carneiros, para que possam deixar-se levar ao abatedouro sem rebelar-se?

Troelstra tomou a palavra em nome das «pequenas nações” e também em nome da Bélgica:

O proletariado dos pequenos países se coloca de corpo e alma à disposição da Internacional para tudo o que ela vier a decidir a fim de afastar a ameaça da guerra. Nós exprimimos de novo a esperança que , se um dia as classes dominantes dos grandes Estados chamarem ás armas os filhos do seu proletariado para saciar a cupidez e o despotismo de seus governantes no sangue dos pequenos povos e sobre o  solo destes, então graças à poderosa influência de seus pais proletários e da imprensa proletária, os filhos do proletariado pensarão duas vezes antes de fazer mal á nós, seus amigos e irmãos, para servir à esta empreitada contrária à civilização»

E após haver lido o manifesto contra a guerra em nome do Bureaus da Internacional, Jaurés concluiu assim seu discurso:

«A internacional representa todas as forças morais do mundo! E se soar um dia a hora trágica que exige de nós que nos empenhemos completamente, esta idéia nos sustentará e nos fortificará. Não é levianamente mas do mais profundo do nosso ser que declaramos: nós estamos prontos a todos os sacrfícios!

Foi como um juramento de Ruetli.[9] O mundo inteiro tinha os olhos fixos sobre a catedral de Bâle, onde os sinos soavam com um ar grave e solene para aniunciar a grande batalha por vir entre o exército do Trabalho e as forças do Capital.

Em 3 de dezembro de 1912, David, o orador do grupo social-democrata declarava ao Reichstag:

“Foi uma das mais belas horas de minha vida, eu juro. Quando os sinos acompanharam o cortejo dos social-democratas internacionais, quando as bandeiras vermelhas se colocaram no coro da igreja ao redor do altar e o som do órgão saudava os delegados dos povos que vinham proclamar a paz – eu guardei uma impressão absolutamente inesquecível... As massas deixam de ser rebanhos dóceis e embrutecidos. É um elemento novo na história. Anteriormente os povos se deixavam excitar cegamente uns contra os outros por aqueles que tinham interesse na guerra, e se deixavam conduzir à morte em massa. Esta época está ultrapassada. As massas se recusam desde agora a serem instrumentos passivos e satélites do interesse de guerra, qualquer que este seja."

Ainda uma semana antes que a guerra eclodisse, em 26 de julho de 1914, os jornais do partido alemão escreviam:

‘Nós não somos marionetes, nós combatemos com toda energia um sistema que faz dos homens instrumentos passivos de circunstâncias que agem cegamente, deste capitalismo que se prepara para transformar uma Europa que aspira à paz em um açougue fumegante. Se este processo de degradação seguir seu curso, se a resoluta vontade de paz do proletariado alemão e internacional que aparecerá ao longo dos próximos dias em poderosas manifestações não estiver à altura de evitar uma guerra mundial, então, que ela seja ao menos a última guerra, que ela se torne o crepúsculo dos deuses do capitalismo.” (Frankfurter Volksstimme)

Em 30 de julho de 1914 , o órgão central da social-democracia alemã escrevia:

“O proletariado socialista alemão declina de toda responsabilidade pelos acontecimentos que uma classe dirigente cega até a demência está em vias de provocar. Ele sabe que para ele uma nova vida se levantará das ruínas. Os responsáveis, são aqueles que hoje detêm o poder!

“Para eles se trata de uma questão de vida ou morte!”

A história do mundo é o tribunal do mundo.”

E foi então que ocorreu este acontecimento inesperado, sem precedentes: o 4 de agosto de 1914.

Isto devia acontecer assim? Um acontecimento de tal monta não é certamente obra do acaso, ele deve ser o resultado da causas objetivas profundas e extensas. Entretanto estas causas podem se encontrar também nos erros da social-democracia que era o guia do proletariado, na fraqueza de nossa vontade de lutar, de nossa coragem, de nossa convicção. O socialismo científico nos ensinou a compreender as leis objetivas do desenvolvimento histórico. Os homens não fazem a história como desejam. Mas são eles própios que a fazem. O proletariado depende em sua ação do grau de desenvolvimento social da época, mas a evolução social não se faz tampouco prescindindo do proletariado, este é seu impulso e sua causa, tanto quanto seu produto e conseqüência. Sua ação faz parte da história ao mesmo tempo em que contribui para determiná-la. E se nós não podemos nos afastar da evolução histórica mais do que um homem pode se afastar de sua sombra, nós podemos entretanto acelerá-la ou retardá-la.

Na história, o socialismo é o primeiro movimento popular que tem como objetivo, e que para tal foi encarregado pela história, de dar à ação social dos homens um sentido consciente, de introduzir na história um pensamento metódico e, a partir daí, uma vontade livre. Eis porque Friedrich Engels disse que a vitória definitiva do proletariado socialista constitui um salto que faz passar a humanidade do reino animal ao reino da liberdade. Mas este “salto” não é alheio às leis de bronze da história, ele está ligado aos milhares de elos precedentes da evolução, uma evolução dolorosa e bastante lenta. E este salto não será realizado se, do conjunto de premissas materiais acumuladas pela evolução, não surge a centelha da vontade consciente da grande massa popular. A vitória do socialismo não cairá do céu como obra do destino, esta vitória só pode ser conquistada graças a uma longa série de enfrentamentos entgre as forças antigas e novas, enfrentamentos no curso dos quais o proletariado internacional faz sua aprendizagem sob a direção da social-democracia e procura tomar em suas mãos seu próprio destino, assumir o leme da vida social. Ele que era o joguete passivo de sua história procura se tornar o piloto lúcido.

Friedrich Engels disse um dia: “A sociedade burguesa se encontra diante de um dilema: ou avanço para o socialismo ou recaída na barbárie.” Mas o que significa “recaída na barbárie” no grau de civilização que conhecemos hoje na Europa? Até hoje nós temos lido estas palavras sem refletir sobre elas e nós as temos repetido sem perceber sua terrível gravidade. Lancemos um olhar ao nosso redor neste momento e nós compreenderemos o que significa a recaída da sociedade burguesa na barbárie. A vitória do imperialismo leva ao aniquilamento da civilização – esporadicamente durante o curso da guerra moderna e definitivamente se o período de guerras mundiais que se inicia agora vier a prosseguir sem entraves até suas últimas conseqüências. É exatamente o que Friedrich Engels havia predito, uma geração antes de nós, há quarenta anos. Nós estamos colocados hoje diante desta escolha: ou bem o triunfo do imperialismo e a decadência de toda a civilização tendo como conseqüências, como na Roma antiga, o despovoamento, a desolação, a degenerescência, um grande cemitério; ou bem vitória do socialismo, ou seja, da luta consciente do proletariado internacional contra o imperialismo e contra seu método de ação: a guerra. Eis aí o dilema da história do mundo, sua alternativa de ferro, sua balança no ponto de equlíbrio esperando a decisão do proletariado consciente. O proletariado deve jogar resolutamente na balança a sua espada do combate revolucionário: o futuro da civilização e da humanidade dependem disto. No curso desta guerra o imperialismo teve a vitória. Fazendo pesar a espada sangrenta do assassinato dos povos ele fez pender a balança para o lado do abismo, da desolação e da vergonha. Todo este fardo de vergonha e desolação só será contrabalançado se, do meio desta guerra, nós soubermos retirar a lição que ela contém, se o proletariado conseguir se reorganizar e se ele parar de representar o papel de um escravo manipulado pelas classes dirigentes para se tornar o dono de seu próprio destino.

A classe operária paga caro toda nova tomada de consciência de sua vocação histórica. O Gólgota de sua libertação é pavimentado de terríveis sacrifícios. Os combatentes das jornadas de Junho, as vítimas da Comuna, os mártires da Revolução russa – que fila interminável de espectros sangrantes![10] Mas estes homens caíram no campo de glória, eles estão, como Marx escreveu a respeito,dos heróis da Comuna, “guardados para sempre no coração da classe operária”. Atualmente, ao contrário, milhões de proletários de todos os países tombam nos campos da vergonha, do fratricídio, da automutilação, nos lábios seus cantos de escravos. Era necessário que isso também não nos fosse poupado. Realmente somos como aqueles judeus que Moisés conduziu através do deserto. Mas nós não estamos perdidos e nós venceremos desde que nós não tenhamos desaprendido a aprender. E se o guia atual do proletariado, a social-democracia, não mais souber aprender, então ela perecerá “para dar lugar aos homens que estarão à altura de um mundo novo”.


Notas:

[1] Seis semanas era o tempo previsto para a vitória no Front Ocidental pelo Plano Schlieffen. O Estado-Maior foi forçado a abandonar o plano a medida que a guerra rapidamente evoluiu para uma guerra de trincheiras. (retornar ao texto)

[2] Por três dias em abril de 1903, Kishinev, capital da província da Bessarábia, no Império Russo, foi cenário de distúrbios anti-semitas. De acordo com um relatório oficial, mais de cinqüenta judeus foram mortos e pelo menos quinhentos feridos; centenas de casas e lojas foram vandalizadas. As autoridades locais apoiaram as organizações anti-semitas e deliberadamente favoreceram a carnificina ao evitar o uso da força para restabelecer a ordem. Luxemburgo faz uso aqui da referência ao pogrom de Kishinev e ao “assassinato ritual” – crença medieval de que os judeus usam sangue de cristãos, especialmente crianças, para fins ritualísticos – como sendo o nadir da civilização. (retornar ao texto)

[3] Karl Marx, O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte (retornar ao texto)

[4] No final da Guerra Franco-Prussiana de 1870-71, uma Paris sitiada revoltou-se contra o governo regular da França (situado em Bourdeaux). Por dez semanas representantes da classe trabalhadora, organizados como Comuna, controlou a “capital da Europa” com uma eficiência e firmeza que surpreendeu e assustou as classes propietárias de toda Europa. Reagrupando suas forças, o governo eleito da França retomou Paris em uma luta de rua em rua marcada por atrocidades e destruição de propiedades de ambos os lados. A Primeira Internacional, fundada com a colaboração de Karl Marx em 1864, foi falsamente acusada de fomentar a Comuna, mas a defendeu contra os ataques da Reação (cf..Karl Marx, A Guerra Civil em França). Seu objetivo era unir os partidos da classe operária na busca dos objetivos revolucionários esboçados pela primeira vez no Manifesto Comunista (1848). Mas após a derrota da Comuna divisões doutrinárias e o fracionalismo paralisaram a organização, que se reuniu pela última vez na Philadelphia em 1874. (retornar ao texto)

[5] Sucessora da Primeira Internacional, a segunda surgiu em 1889 e coordenou a maioria dos partidos Social-Democratas a partir de seu escritório central em Bruxelas. A 1ª Guerra Mundial destruiu a viabilidade da organização, embora tenha continuado a funcionar como a porta-voz dos socialistas moderados e oposta aos partidos comunistas radicais reunidos na Terceira Internacional ou Comintern (1919-43) fundada por Lênin. (retornar ao texto)

[6] Com a mobilização após o início da guerra o papel da sociedade civil na Alemanha reduziu-se continuamente. O país foi dividido em setrores de defesa e os generais nos comando destes assumiram todas as funções de governo, podiam suspender os direitos civis, deter pessoas sob a justificativa de custódia preventiva e exercer considerpáveis poderes de censura. Estavam assim aptos a abafar dissidências e a bloquear notícias de derrotas militares. (retornar ao texto)

[7] August Bebel ( 1840-1913), um autêntico trabalhador, organizou sozinho a ala marxista do movimento operário alemão nos anos 1860 e o dirigiu até sua morte. A segunda Crise do Marrocos de 1911 levantou temores de uma iminente guerra européia. A resolulação da crise resultou no reconhecimento alemão de um protetorado francês em troca de uma larga e inútil faixa da África Equatorial francesa. Enquanto os britânicos apoiaram firmemente seu aliado francês, a Alemanha teve que recuar quando seus aliados demonstraram uma clara resistência em ir à guerra por ganhos ultramarinos. Os nacionalistas domésticos encararam o resultado como uma humilhação, uma prova adicional de que o governo do Kaiser era incapaz de comandar a disputa pelo poder mundial. Os esquerdistas viram a crise como uma prova das intenções dos militaristas e imperialistas. (retornar ao texto)

[8] Enviar um navio de guerra, o Panther ( Pantera), para o porto de Agadir no Marrocos foi a maneira do Kaiser anunciar sua intenção de defender os interesses alemães. A tentativa simbólica de impedir a França de criar um protetorado em Marrocos foi vista como uma provocação elevou o conflito de interesses a desembocar em uma crise completa. (retornar ao texto)

[9] De acordo com a tradição, Guilherme Tell e representantes de três cantões suíços reuniram-se em Ruetli em 1307 para resistir à tirania austríaca, considerada tradicionalmente como a fundação da liberdade suíça. (retornar ao texto)

[10] Em junho de 1848, quatro meses após a derrubada revolucionária da monarquia orleanista na França, a burguesia conservadora recuperou o contrle sobre Paris através de lutas de rua e grande derramamento de sangue. A derrota dos communards parisienses em junho de 1871 pelas forças regulares francesas foi acompanhada de execuções em massa e deportações. A revolução russa citada por Rosa teve lugar em 1905. Durante breve período conselhos de trabalhadores (sovietes) controlaram São Petersburgo e Moscou mas as forças tsaristas conseguiram derrotar os revolucionários e reestabelecer uma autocracia algo modificada. (retornar ao texto)

Inclusão 02/07/2009
Última alteração 29/07/2016