Eleições

Amadeu Bordiga

192?


Escrito em: Década de 1920

1ª Edição: (?)

Tradução de: Nildo Viana.

Origem da presente transcrição: (?)

Transcrição de: amavelmente cedido pelo Núcleo de Pesquisa Marxista.

HTML por José Braz para o Marxists Internet Archive


Nós também esperávamos, e logo se compreenderá por qual motivo, que não houvessem eleições.  Mas a partir de agora é necessário abandonar toda a esperança. As eleições serão feitas. O que fará o partido comunista?

Deixando de lado todas as formas de participação que os órgãos competentes podem estabelecer, seria conveniente, de acordo com certos companheiros, esboçar esta questão: o PC deve ou não deve participar nas eleições? Do meu ponto de vista, este problema não tem razão de ser. Por razões muito claras de disciplina tática internacional, o PC deve participar e participará nas eleições.

Eu não quero dizer que o problema das tática eleitoral foi definitivamente resolvido no seio da Internacional Comunista pelas decisões de seu segundo Congresso. Acredito, inclusive, que nós, os abstencionistas, aumentamos em muitos partidos comunistas ocidentais. E não está excluída que a pergunta volte novamente à ordem do dia no próximo 3º Congresso. Se isto acontecesse, defenderia novamente as teses que eu apresentei no Congresso do último ano: desenvolver melhor a propaganda comunista e a preparação revolucionária nos países "democráticos" ocidentais. Os comunistas, neste período de crise revolucionária universal, deveriam NÃO participar nas eleições. Porém, como estão em vigor as teses contrárias de Bukhárin e Lênin, para a participação nas eleições e nos parlamentos com diretrizes e finalidades antidemocráticas e anti-socialdemocráticas, é necessário participar sem discutir e tentar agüentar a estas regras táticas. O resultado desta ação fornecerá novos elementos para julgar se nós, os abstencionistas, estávamos enganados ou se tínhamos razão.

   Certos companheiros abstencionistas — e também alguns eleitoralistas — dizem: porém, não se pode encontrar nas teses de Moscou um pretexto que permita a abstenção sem cair na indisciplina? Acima de tudo, eu respondo a isto que o abstencionismo que nós tentamos fazer passar pela porta não deveria entrar pela janela, por meio de pretextos e subterfúgios. Além disso, todas as circunstâncias desta campanha eleitoral tendem a fazer mais claro o espírito e a carta das teses de Moscou a favor da participação.

Que os companheiros releiam todos os argumentos de Lênin e de Bukhárin e eles verão que eles correspondem melhor a momentos de reação e de opressão da liberdade de movimento do partido. Que releiam os argumentos que eu apresentei e eles verão que eles se referem principalmente a situações de "democracia" e de liberdade, o que não significa que eu julgue estes argumentos como superados nas circunstâncias atuais. Quando Lênin disse "nós participamos na Duma mais reacionária", lhe respondi que o verdadeiro perigo está nos parlamentos mais liberais. Lênin está convencido que um partido verdadeiramente comunista pode e deve participar no Parlamento, porém admite, como eu, que nas condições de 1919 e com um partido não comunista, a participação tem um caráter contra-revolucionário.

As duas teses consideram o caso em que os partidos comunistas deveriam boicotar o parlamento e as eleições e se referem às situações "que permite o passo imediato à luta armada pela conquista do poder". Eu desejaria que fosse assim, porém não é este o caso hoje; não está excluído que a situação mude completamente amanhã; então não necessitaríamos de muito esforço para fazer desaparecer junto ao prédio parlamentar, os comitês eleitorais que nosso partido constituiu.

Se houvesse sido aceito as sugestões de certos companheiros de Moscou, talvez tivesse sido obtido uma "ampliação" destas exceções, que talvez poderia se aplicar hoje, embora nós nos encontremos, repito, sob condições específicas previstas por Lênin para uma participação útil. Mas eu preferi, pelo contrário, apresentar conclusões altamente divergentes. Isto teve a vantagem de nos dar diretrizes claras e sólidas e nos desembaraçarmos do argumento aborrecedor para Serrati sobre as "condições especiais". A centralização está na base de nosso método teórico e prático: sendo marxista, sou primeiramente centralista e depois abstencionista.

   Procedeu-se de um modo diferente para outras teses. Alguns pontos foram remendados para satisfazer oposições pequenas, apesar das oposições maiores de nosso grupo de abstencionistas de todo o ocidente. A razão desta aplicação um pouco abandonada da diretriz teórica a nossas teses é que não as consideram favoráveis para a efetividade e a segurança da ação revolucionária.

Os abstencionistas foram os únicos que se opuseram às teses propostas por homens cuja autoridade era e continua sendo, justamente, formidáveis, com precisas conclusões inversas. (enquanto muitos críticos de última hora, que não souberam opor qualquer coisa às conclusões contra as quais se revelaram depois, guardaram silêncio). Nós, abstencionistas, igualmente devemos dar o exemplo de disciplina, sem trapacear, sem tergiversar.

O partido comunista não tem, pois, nenhuma razão de discutir para saber se deveria participar nas eleições. Deve participar. De que forma? Isto será decidido a seu devido tempo. Com que objetivo? É o que dizem as teses de Moscou, resumidas nestas poucas palavras: Quebrar o preconceito parlamentar e receber, por conseguinte, ao invés dos votos se quer contar as batidas e coisas piores. Quebrar o preconceito socialista e voltar com inflexível intransigência nossas baterias contra o partido social-democrata.

Os abstencionistas estão a seu posto.

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Inclusão 21/07/2003
Última alteração 06/05/2009