Os Condenados da Terra

Frantz Fanon


2 Grandeza e debilidades da espontaneidade


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As reflexões sobre a violência levaram-nos a tomar consciência da existência frequente de um desequilíbrio, de uma diferença de ritmo entre os quadros do partido nacionalista e as massas. Em toda a organização política ou sindical existe classicamente um abismo entre as massas que exigem a melhoria imediata e total da sua situação e os quadros que, medindo as dificuldades criadas pelos patrões, limitam e restringem as suas reivindicações. Por isso, se adverte com frequência um descontentamento tenaz das massas a respeito dos quadros. Depois de cada jornada de reivindicação, quando os quadros celebram a vitória, as massas têm a impressão de haverem sido traídas. É a multiplicação das manifestações reivindicativas, a multiplicação dos conflitos sindicais, que provocará a politização dessas massas. Um sindicalista politizado é aquele que sabe que um conflito local não é uma explicação decisiva entre ele e o patronato. Os intelectuais colonizados que estudaram nas suas respectivas metrópoles o funcionamento dos partidos políticos, criam formações semelhantes com o fim de mobilizar as massas e de fazer pressão sobre a administração colonial. O aparecimento de partidos nacionalistas nos países colonizados é contemporâneo da constituição de uma elite intelectual e comerciante. As elites atribuirão uma importância fundamental à organização como tal e o feiticismo da organização prevalecerá frequentemente sobre o estudo racional da sociedade colonial. A noção de partido é uma noção importada da metrópole. Esse instrumento das lutas modernas é colocado sobre uma realidade proteiforme, desequilibrada, onde coexistem ao mesmo tempo a escravidão, a servidão, a troca, o artesanato e as operações da bolsa.

A debilidade dos partidos políticos não reside somente na utilização mecânica de uma organização que dirige a luta do proletariado no seio de uma sociedade capitalista altamente industrializada. No plano limitado do tipo de organização, deveriam ter surgido inovações e adaptações. O grande erro, o vício congénito da maioria dos partidos políticos nas regiões subdesenvolvidas, foi ter-se dirigido, segundo o esquema clássico, principalmente às elites mais conscientes: o proletariado das cidades, os artesãos e os funcionários, quer dizer, uma ínfima parte da população que não representa muito mais do que um por cento.

Mas se esse proletariado compreendia a propaganda do partido e lia a sua literatura, estava muito menos preparado para responder às eventuais palavras de ordem da luta implacável pela libertação nacional. Muitas vezes se assinalou: nos territórios coloniais, o proletariado é o núcleo do povo colonizado mais acariciado pelo regime colonial. O proletariado embrionário das cidades é relativamente privilegiado. Nos países capitalistas, o proletariado não tem muito que perder, eventualmente, teria tudo a ganhar. Representa, com efeito, a fracção do povo colonizado: ferroviários, mineiros, estivadores, intérpretes, enfermeiros, etc.... São esses elementos os partidários mais fiéis dos partidos nacionalistas e que, pelo lugar privilegiado que ocupam no sistema colonial, constituem a fracção «burguesa» do povo colonizado.

Assim se compreende que os partidários dos partidos políticos nacionalistas sejam a fracção principalmente urbana: capatazes, operários, intelectuais e comerciantes que residem essencialmente nas cidades. O seu tipo de pensamento leva já a muitos pontos a marca do meio técnico e relativamente acomodado em que se desenvolvem. Aqui, o «modernismo» é rei. São esses mesmos meios que lutarão contra as tradições obscurantistas, reformarão os costumes, entrando assim em luta aberta contra o velho pedestal de granito que constitui a herança nacional.

Os partidos nacionalistas, na sua grande maioria, sentem uma grande desconfiança pelas massas rurais. Essas massas dão-lhe, com efeito, a impressão de deslizarem na inércia e na infecundidade. Rapidamente, os membros dos partidos nacionalistas (operários das cidades e intelectuais) formam sobre o campesinato o mesmo juízo pejorativo que os colonos. Mas se se trata de compreender as razões dessa desconfiança dos partidos políticos pelas massas rurais, deve recordar-se o facto de que o colonialismo fortaleceu ou assentou frequentemente o seu domínio, organizando a petrificação dos campos. Enquadradas pelos mostrengos, bruxos e chefes tradicionais, as massas rurais vivem, no entanto, na época feudal, alimentada a omnipotência dessa estrutura medieval pelos agentes administrativos ou militares colonialistas.

A jovem burguesia nacional, sobretudo comerciante, vai entrar em competição com esses senhores feudais em sectores múltiplos: mostrengos e bruxos que fecham o caminho aos enfermos que poderiam consultar o médico, djemaas que julgam, considerando inúteis os advogados, caids que utilizam o seu poder político e administrativo para lançar um comércio ou uma linha de transportes, chefes tradicionais que se opõem em nome da religião e da tradição à introdução de negócios e de novos produtos.

A jovem classe de comerciantes e negociantes colonizados requer, para se desenvolver, o desaparecimento dessas proibições e barreiras. A clientela indígena que representa a caça guardada dos senhores feudais e à qual se inibe mais ou menos a compra de produtos novos, constitui, pois, um mercado que é objecto de disputa.

Os quadros feudais são um écran entre os jovens nacionalistas ocidentalizados e as massas. Cada vez que as elites fazem um esforço dirigido às massas rurais, os chefes das tribos, os chefes das confrarias, as autoridades tradicionais, multiplicam as advertências, as ameaças, as excomunhões. Essas autoridades tradicionais que são confirmadas pela potência ocupante vêem com desgosto como se desenvolvem as tentativas de infiltração das elites no campo. Sabem que as ideias susceptíveis de serem introduzidas por esses elementos vindos das cidades contestam o próprio princípio da perenidade do feudalismo. O seu inimigo não é a potência de ocupação, mas esses modernistas que procuram desarticular a sociedade autóctone e, desse modo, tirar-lhe o pão da boca.

Os elementos ocidentalizados experimentam pelas massas camponesas sentimentos que lembram os que se encontram no seio do proletariado dos países industrializados. A história das revoluções burguesas e a história das revoluções proletárias demonstraram que as massas camponesas formam, com frequência, o freio da revolução. As massas rurais nos países industrializados são, geralmente, os elementos menos conscientes, menos organizados e também os mais anarquistas. Apresentam todo um conjunto de heroísmos, individualismo, indisciplina, amor ao lucro, aptidão para os grandes ódios e os profundos desânimos, que definem uma conduta objectivamente reaccionária.

Já temos visto como os partidos nacionalistas decalcam os seus métodos e as suas doutrinas dos partidos ocidentais e, na maior parte dos casos, não orientam a sua propaganda até essas massas. Na realidade, a análise racional da sociedade colonizada, se se fizesse, havia de demonstrar-lhes que os camponeses colonizados vivem num meio tradicional, cujas estruturas permaneceram intactas, enquanto nos países industrializados é esse meio tradicional gretado pelos progressos da industrialização. É no seio do proletariado embrionário que encontramos, nas colónias, comportamentos individualistas. Ao abandonar o campo, onde a demografia coloca problemas insolúveis, os camponeses sem terra, que constituem o lumpen-proletariat, dirigem-se até às cidades, amontoam-se nos bairros miseráveis da periferia e procuram infiltrar-se nos portos e cidades criadas pelo domínio colonial. As massas camponeses continuam a viver num quadro imóvel e as bocas que estão a mais não têm outra solução que não seja a de emigrar para as cidades. O camponês que defende no seu lugar as suas tradições na sociedade colonizada, representa o elemento disciplinado cuja estrutura social continua a ser comunitária. É verdade que esta vida imóvel, situada em pólos rígidos, pode dar origem momentâneamente a movimentos baseados no fanatismo religioso, a guerras tribais. Mas na sua espontaneidade, as massas rurais continuam sendo disciplinadas, altruístas. O indivíduo retrai-se perante a comunidade.

Os camponeses desconfiam do homem da cidade. Vestido como um europeu, falando a sua língua, trabalhando com ele, vivendo por vezes no mesmo bairro, é considerado pelos camponeses como um desertor que abandonou tudo o que formava o património nacional. Os habitantes da cidade são «traidores, vendidos», que parecem dar-se bem com o ocupante e tratam de triunfar dentro do sistema colonial. Por isso, ouvimos os camponeses afirmarem frequentemente que a gente da cidade precisa de moral. Encontramo-nos em presença da clássica oposição entre o campo e a cidade. É a oposição entre o colonizado, excluído das vantagens do colonialismo, e aquele que se ajusta para tirar partido da exploração colonial.

Os colonialistas utilizam esta oposição na sua luta contra os partidos nacionalistas. Mobilizam os montanheses, os habitantes do bled,(1) contra os habitantes da cidade. Colocam o interior contra as costas, reactivam as tribos e não deve causar surpresa que Kalondji se faça coroar rei do Kasai, como não surpreendia nada, há alguns anos atrás, ver a assembleia de chefes do Gana pagando caro o seu apoio a Kwame Nkrumah.

Os partidos políticos não conseguem implantar a sua organização no campo. Em vez de utilizar as estruturas existentes para lhes dar um conteúdo nacionalista ou progressista, tratam de transtornar a realidade tradicional dentro do quadro do sistema colonial. Acreditam na possibilidade de imprimir um impulso à nação, quando reflectem sobre as pesadas malhas do sistema colonial. Não vão ao encontro das massas. Não colocam os seus conhecimentos teóricos ao serviço do povo, mas tentam enquadrar as massas segundo um esquema a priori. Da capital enviam às aldeias, como paraquedistas, dirigentes desconhecidos ou muito jovens que, investidos pela autoridade central, tratam de manejar o lugar ou a aldeia como uma célula de empresa. Os chefes tradicionais são ignorados, por vezes molestados. A história da nação futura esmaga, com singular desenvoltura, as pequenas histórias locais, quer dizer, a única actualidade nacional da aldeia, quando havia de inserir harmoniosamente a história da aldeia, a história dos conflitos tradicionais dos clãs e das tribos na acção decisiva para a qual se chama o povo. Os velhos, rodeados e respeitados nas sociedades tradicionais e, geralmente, revestidos de uma autoridade moral indiscutível, são publicamente ridicularizados. Os serviços do ocupante não deixam de utilizar esses rancores e estão ao corrente das mais pequenas decisões adoptadas por essa caricatura de autoridade. A repressão policial, bem dirigida, porque se baseia em informações precisas, abate-se. Os dirigentes paraquedistas e os membros importantes da nova assembleia são eliminados.

Os fracassos sofridos confirmam «a análise teórica» dos partidos nacionalistas. A experiência desastrosa do propósito de enquadramento das massas rurais fomenta a sua desconfiança e cristaliza a sua agressividade contra essa parte do povo. Depois do triunfo da luta de libertação nacional, os mesmos erros renovam-se, alimentando as tendências descentralizadoras e autónomas. O tribalismo da fase colonial é substituído pelo regionalismo da fase nacional, com a sua expressão institucional: o federalismo.

Mas acontece que as massas rurais, apesar da escassa influência que sobre elas têm os partidos nacionalistas, intervêm de forma decisiva no processo de maturação da consciência nacional, para completar a acção dos partidos nacionalistas ou, mais raramente, para suprir pura e simplesmente a esterilidade desses partidos.

A propaganda dos partidos nacionalistas encontra sempre um eco no seio das massas camponesas. A recordação do período anticolonial permanece viva nas aldeias. As mulheres, todavia, murmuram ao ouvido dos meninos as canções que acompanharam os guerreiros que resistiam à conquista. Aos 12 ou 13 anos, os pequenos aldeãos conhecem o nome dos velhos que assistiram à última insurreição e os sonhos nos lugares e nas aldeias não são sonhos de luxo ou de sucesso nos exames dos meninos das cidades; pelo contrário, são sonhos de identificação com este ou aquele combatente, o relato de cuja morte heróica faz hoje cair abundantes lágrimas.

No momento em que os partidos nacionalistas procuram organizar a classe operária embrionária das cidades, no campo produzem-se explosões aparentemente inexplicáveis. Assim, por exemplo, lembramos a famosa insurreição de 1947 em Madagáscar. Os serviços colonialistas são formais: trata-se de uma revolta camponesa. Na realidade, sabemos hoje que as coisas foram, como sempre, muito mais complicadas. No decurso da Segunda Guerra Mundial, as grandes companhias coloniais estenderam o seu poder e apoderaram-se da totalidade das terras então livres. Sempre nessa mesma época se falou da implantação eventual na ilha de refugiados judeus, kabyles,(2) antilhanos. Correu igualmente o rumor da próxima invasão da ilha, com a cumplicidade dos colonos, pelos brancos da África do Sul. Depois da guerra, os candidatos da lista nacionalista foram triunfalmente eleitos. Imediatamente, organizou-se a repressão contra as células do partido M. D. R. M. (Movimento Democrático da Renovação Malgache). O colonialismo, para atingir os seus fins, utilizou os meios mais clássicos: múltiplas prisões, propaganda racista entre as tribos è criação de um partido com os elementos desorganizados do lumpen-proletariat. Esse partido, chamado dos Deserdados de Madagáscar (P.A.D.E.S.M.) daria à autoridade colonial, com as suas provocações decisivas, o pretexto legal para a manutenção da ordem. Mas essa operação banal da liquidação de um partido, preparada de antemão, toma aqui proporções gigantescas. As massas rurais, na defensiva desde há três ou quatro anos, sentem-se subitamente em perigo de morte e decidem opor-se ferozmente às forças colonialistas. Armado de azagaias e mais amiúde de pedras e de paus, o povo lança-se na insurreição generalizada em favor da libertação nacional. Já se conhecem os resultados.

Essas insurreições armadas representam apenas um dos meios utilizados pelas massas rurais para intervir na luta nacional. Algumas vezes, os camponeses relevam a agitação urbana, quando o partido nacionalista das cidades é objecto da repressão policial. As notícias chegam ao campo alteradas, demasiadamente alteradas: dirigentes presos, múltiplos metralhamentos, o sangue dos negros inunda à cidade, os pequenos colonos banham-se em sangue árabe. Então, o ódio acumulado, exacerbado, estala. O posto de polícia mais próximo é assaltado, os guardas são despedaçados, o professor é assassinado, o médico só conserva a vida porque se encontrava ausente, etc... Colunas de pacificação são enviadas para o local, a aviação bombardeia. O estandarte da rebelião manifesta-se, ressurgem então as velhas tradições guerreiras, as mulheres aplaudem, os homens organizam-se e tomam posição nas montanhas, começam as guerrilhas. Espontâneamente, os camponeses criam a insegurança generalizada, o colonialismo assusta-se, empreende a guerra ou transige.

Como reagem os partidos nacionalistas perante esta irrupção decisiva das massas camponesas na luta nacional? Temos visto como a maioria dos partidos nacionalistas não inscreveu na sua propaganda a necessidade da acção armada. Não se opõem à persistência da insurreição, mas contentam-se em confiar na espontaneidade dos camponeses. Em geral, comportam-se em relação a este novo elemento como se se tratasse de um maná caído do céu, pedindo à sorte que continue. Exploram esse maná, mas não procuram organizar a insurreição. Não enviam ao campo quadros para politizar as massas, para aclarar as consciências, para elevar o nível do combate. Esperam que, arrebatada pelo seu próprio movimento, a acção dessas massas não se deterá. Não há contaminação do movimento rural pelo movimento urbano. Cada um evolui segundo a sua própria dialéctica.

Os partidos nacionalistas não tentam introduzir palavras de ordem nas massas rurais, que nesse momento se encontram inteiramente disponíveis. Não lhes propõem um objectivo, esperam com naturalidade que esse movimento se perpetue indefinidamente e que os bombardeios não acabarão com ele. Nem sequer nesta ocasião, pois, os partidos nacionalistas exploram a possibilidade que se lhes oferece de se integrarem nas massas rurais, de politizá-las, de elevar o nível da sua luta. Mantém-se a posição criminal da desconfiança perante o campo.

Os quadros políticos metem-se nas cidades, dão a entender ao colonialismo que nada têm a ver com os insurrectos ou partem para o estrangeiro. Quase nunca sucede que eles se liguem ao povo das montanhas. No Quénia, por exemplo, durante a insurreição Mau-Mau, nenhum nacionalista conhecido reivindicou a sua adesão a esse movimento nem defendeu esses homens.

Não há uma explicação fecunda, não se produz um confronto entre as diferentes capas da nação. No momento da independência, que se produz depois da repressão exercida sobre as massas rurais e o acordo entre o colonialismo e os partidos nacionalistas, a incompreensão acentua-se ainda mais. Os camponeses mostram-se reticentes sobre as reformas de estrutura propostas pelo governo bem como das inovações sociais, ainda que sejam objectivamente progressistas, porque precisamente os actuais responsáveis do regime não explicaram à totalidade do povo, durante o período colonial, os objectivos do partido, a orientação nacional, os problemas internacionais, etc...

A desconfiança que os camponeses e os feudais tinham sobre os partidos nacionalistas durante a fase colonial, continua uma semelhante hostilidade no período nacional. Os serviços secretos colonialistas, que não se dissolveram após a independência, mantêm o descontentamento e chegam mesmo a criar graves dificuldades aos novos governos. Em resumo, o governo somente faz pagar a sua preguiça do período de libertação e o seu habitual desprezo pelos camponeses. A nação poderá ter uma cabeça racional, mesmo progressista, mas o corpo imenso permanecerá débil, rebelde, incapaz de cooperar.

Então, surgirá a tentação de quebrar esse corpo, centralizando a administração e enquadrando firmemente o povo. Esta é uma das razões pela qual se escuta com frequência que nos países subdesenvolvidos faz falta certa dose de ditadura. Os dirigentes desconfiam das massas rurais. Mas essa desconfiança pode tomar formas graves. É o caso, por exemplo, de certos governos que muito tempo depois da independência nacional consideram o interior do país como uma região não pacificada, onde o chefe do estado e os ministros não se aventuram a ir, a não ser como motivo de manobras do exército nacional. Essa parte do país assemelha-se pràticamente a um desconhecido. Paradoxalmente, o governo nacional recorda, no seu comportamento junto das massas rurais, certos rasgos do poder colonial. «Não se sabe bem como essas massas reagirão» e os jovens dirigentes não se cansam de dizer: «Faz falta o garrote, se se quer tirar o país da Idade Média». Mas, como temos visto, a desenvoltura com que actuaram os partidos políticos em relação às massas rurais durante a fase colonial, não podia ser senão prejudicial para a unidade nacional, para o impulso acelerado da nação.

Algumas vezes o colonialismo tenta diversificar e deslocar o impulso nacionalista. Em vez de incitar os xeques e os chefes contra os «revolucionários» das cidades, as repartições de assuntos indígenas organizam as tribos e as seitas em partidos. Frente ao partido urbano que começava a «incarnar a vontade nacional» e a constituir um perigo para o regime colonial, surgem pequenos grupos, tendências, partidos com base étnica ou regionalista. É a tribo integralmente que se transforma em partido político aconselhado junto dos colonialistas. Pode começar a mesa redonda. O partido unitário será afogado em proporção às tendências. Os partidos tribais opõem-se à centralização, à unidade, denunciam a ditadura do partido unitário.

Mais tarde, essa táctica será utilizada pela oposição nacional. Entre os dois ou três partidos nacionalistas que realizaram a luta de libertação, o ocupante escolheu. As modalidades dessa selecção são clássicas: quando um partido conseguiu a unanimidade nacional e se impôs ao ocupante como único interlocutor, o ocupante multiplica as manobras e atrasa sempre a hora das negociações. Esse atraso será utilizado para esmagar as exigências desse partido ou obter da direcção o afastamento de certos elementos «extremistas».

Se, pelo contrário, nenhum partido se impôs realmente, o ocupante contenta-se em favorecer aquele que lhe parece mais «razoável». Os partidos nacionalistas que não participaram nas negociações lançam-se então numa denúncia do acordo estabelecido entre o outro partido e o ocupante. O partido que recebe o poder do ocupante, consciente do perigo que constituem as posições estritamente demagógicas e confusas do partido rival, procura dissolvê-lo e condená-lo à ilegalidade. O partido perseguido não tem outro recurso que não seja refugiar-se na periferia das cidades e no campo. Trata de levantar as massas rurais contra os «vendidos da costa e os corrompidos da capital». Então, utilizam-se todos os pretextos: argumentos religiosos, disposições inovadoras tomadas pela nova autoridade nacional e rompem com a tradição. Explora-se a tendência obscurantista, das massas camponesas. A doutrina chamada revolucionária descansa no carácter retrógrado, emocional e espontâneo do campo. Aqui e além murmura-se que há movimento na serra, que há descontentamento no campo. Afirma-se que em certa zona os polícias abriram fogo contra os camponeses, que foram enviados reforços, que o regime está prestes a desmoronar-se. Os partidos de oposição, sem programa definido, sem outro fim que não seja o de substituir a equipa dirigente, colocam o seu destino nas mãos espontâneas e obscuras das massas camponesas.

Inversamente, sucede que a oposição não se apoia já nas massas rurais senão nos elementos progressistas, os sindicatos da jovem nação. Nesse caso, o governo recorre às massas para resistir às reivindicações dos trabalhadores, denunciadas então como manobras de aventureiros antitradicionalistas. As constatações que temos tido oportunidade de fazer ao nível dos partidos políticos encontram-se, mutatis mutandis, ao nível dos sindicatos. Ao princípio, as formações sindicais nos territórios coloniais são quase sempre ramificações locais dos sindicatos metropolitanos e as palavras de ordem respondem como eco às da metrópole.

A fase decisiva da luta de libertação determina-se quando alguns sindicatos indígenas decidem a criação de sindicatos nacionais. A antiga formação, importada da metrópole, será objecto de uma deserção em massa pelos indígenas. Esta criação sindical é para a população urbana um novo elemento de pressão sobre o colonialismo. Temos dito que o proletariado nas colónias é embrionário e representa a fracção do povo mais favorecida. Os sindicatos nacionais aparecidos na luta organizam-se nas cidades e o seu programa é antes de mais um programa político, um programa nacionalista. Mas esse sindicato nacional nascido no decurso da fase decisiva do combate pela independência é, na verdade, o enquadramento legal dos elementos nacionalistas conscientes e dinâmicos.

As massas rurais, desprezadas pelos partidos políticos, continuam a manter-se isoladas. Haverá bem entendido, um sindicato de trabalhadores agrícolas, mas esta criação contenta-se por corresponder à necessidade formal de «apresentar uma frente unida ao colonialismo». Os responsáveis sindicais, que se prepararam no âmbito das formações sindicais da metrópole, não sabem organizar as massas urbanas. Perderam todo o contacto com o campesinato e preocupam-se em primeiro lugar com o enquadramento dos operários metalúrgicos, dos estivadores, dos empregados de gás e electricidade, etc...

Durante a fase colonial, as formações sindicais nacionalistas constituem uma espectacular força de pressão. Nas cidades, os sindicatos podem imobilizar ou estagnar em qualquer momento a economia colonialista. Como a população europeia está frequentemente acantoada nas cidades, as repercussões psicológicas das manifestações são consideráveis nessa população: não há electricidade, falta o gás, não se recolhem os desperdícios, as mercadorias apodrecem nos cais.

Esses ilhéus metropolitanos que constituem as cidades no quadro colonial resistem profundamente à acção sindical. A fortaleza do colonialismo, representada pela capital, suporta dificilmente esses golpes. Mas «o interior» (as massas rurais) permanece alheio a este confronto.

Assim, como se vê, existe uma desproporção desde o ponto de vista nacional entre a importância dos sindicatos e o resto da nação. Depois da independência, os operários enquadrados nos sindicatos têm a impressão de se moverem no vazio. O objectivo limitado em que se tinham fixado, no próprio momento em que se alcança, aparece muito precário em relação com a imensidão da tarefa de construção nacional. Frente à burguesia nacional, cujas relações com o poder são com frequência muito estreitas, os dirigentes sindicais descobrem que não podem restringir-se já à agitação proletária. Congènitamente isolados das massas rurais, incapazes de difundir palavras de ordem além dos bairros limítrofes, os sindicatos adoptam posições cada vez mais políticas. Na verdade, os sindicatos são candidatos ao poder. Tratam por todos os meios de encurralar a burguesia: protestos contra a manutenção de bases estrangeiras no território nacional, denúncia dos acordos comerciais, tomadas de posição contra a política exterior do governo nacional. Os operários agora «independentes» giram no vazio. Os sindicatos compreendem no dia seguinte à independência que as reivindicações sociais, se fossem expressas, escandalizariam o resto da nação. Os operários são, com efeito, os favorecidos pelo regime. Representam a fracção mais acomodada do povo. Uma agitação tendente a melhorar as condições de vida dos operários e dos estivadores não seria apenas impopular, como correria o risco de provocar a hostilidade das massas deserdadas do campo. Os sindicatos, aos quais se impede todo o sindicalismo, acabam por patear.

Este mal-estar traduz a necessidade objectiva de um programa social que interesse, por fim, a totalidade da nação. Os sindicatos descobrem depressa que o interior do país deve ser igualmente instruído e organizado. Mas como nunca se preocuparam por estabelecer meios de comunicação entre eles e as massas camponesas, e dado que precisamente essas massas constituem as únicas forças espontâneamente revolucionárias do país, os sindicatos comprovarão a sua ineficácia e descobrirão o carácter anacrónico do seu programa.

Os dirigentes sindicais, submersos na agitação político-operária, chegam mecanicamente à preparação de um golpe de estado. Mas, também se exclui, então, o interior. É uma explicação limitada entre a burguesia nacional e o operariado sindical. A burguesia nacional, retomando as velhas tradições do colonialismo, mostra as suas forças militares e policiais, enquanto os sindicatos organizam motins, mobilizam dezenas de milhares de membros. Os camponeses, frente a esta burguesia nacional e a estes operários que, em resumo, comem muito bem, encolhem os ombros porque dão conta de que uns e outros os consideram como uma força de apoio. Os sindicatos, os partidos ou o governo, numa espécie de maquiavelismo imoral, utilizam as massas camponesas como força de manobra, inerte e cega. Como força bruta.

Em certas circunstâncias, pelo contrário, as massas camponesas intervêm de maneira decisiva, tanto na luta de libertação nacional como nas perspectivas que adopte a nação futura. Este fenómeno reveste uma importância fundamental para os países subdesenvolvidos; por isso, nos propomos estudá-lo em detalhe.

Temos visto como, nos partidos nacionalistas, a vontade de romper com o colonialismo está unida a outra vontade: a de se entender amigàvelmente com ele. Dentro desses partidos produzem-se algumas vezes dois processos. Primeiro, elementos intelectuais que procederam a uma análise apoiada pela realidade colonial e pela situação colonial, começaram a criticar o vazio ideológico do partido nacional e a sua indigência táctica e estratégica. Colocam incansàvelmente aos dirigentes problemas cruciais: «Que é o nacionalismo? Que colocam por detrás dessa palavra? Que contém esse vocábulo? Independência para quê? E, em primeiro lugar, como a conseguem?», exigindo que os problemas metodológicos sejam abordados com vigor. Vão sugerir que aos meios eleitorais se acrescentem «outros meios». Nas primeiras polémicas, os dirigentes desembaraçam-se ràpidamente dessa efervescência que qualificam de juvenil. Mas, como essas reivindicações não são a expressão de uma agitação nem um sinal de juventude, os elementos revolucionários que defendem essas posições vão ser prontamente isolados. Os dirigentes, revestidos da sua experiência, rejeitarão implacàvelmente «esses aventureiros, esses anarquistas».

A máquina do partido mostra-se rebelde a qualquer inovação. A minoria revolucionária encontra-se sozinha, frente a uma direcção assustada e angustiada perante a ideia de que poderia ser arrastada por um tormento, cujo aspecto e força de orientação nem sequer imagina. O segundo processo refere-se aos quadros dirigentes ou subalternos que, pelas suas actividades, tropeçaram com as perseguições policiais colonialistas. O que é interessante assinalar é que esses homens chegaram às esferas dirigentes do partido pelo seu trabalho obstinado, o seu espírito de sacrifício e um exemplar patriotismo. Esses homens, vindos da base, são frequentemente simples manobras, trabalhadores eventuais e, muitas vezes, autênticos desempregados. Para eles, militar num partido nacional não é fazer política, é escolher o único meio de passar da condição animal à condição humana. Esses homens, limitados pelo legalismo exacerbado do partido, revelarão nos limites das actividades que lhes confiam um espírito de iniciativa, um valor e um sentido da luta que quase mecânicamente lhes confiam as forças de repressão do colonialismo. Detidos, condenados, torturados, amnistiados, aproveitam o período da prisão para confrontar as suas ideias e fortalecer a sua vontade. Nas greves de fome, na solidariedade violenta dos calabouços comuns da prisão, vivem a sua libertação como uma oportunidade para desencadear a luta armada. Mas ao mesmo tempo, do outro lado, o colonialismo que começa a ser fustigado de todas as partes, faz insinuações aos nacionalistas moderados.

Assistimos, pois, a uma separação próxima da ruptura entre a tendência ilegalista e a tendência legalista do partido. Os ilegais sentem-se indesejáveis. Evitam-se. Tomando infinitas precauções, os ilegais do partido prestam-lhe ajuda, mas já se sentem alheios. Esses homens vão entrar em contacto com os elementos intelectuais cujas posições tinham podido apreciar alguns anos atrás. Um partido clandestino, à margem do partido legal, consagra este encontro. Mas a repressão contra esses elementos irrecuperáveis intensifica-se à medida que o partido legal se aproxima do colonialismo, procurando modificá-lo «a partir de dentro». A parte ilegal encontra-se, então, num histórico beco sem saída.

Afastados das cidades, esses homens agrupam-se, em princípio, nos subúrbios periféricos. Mas a rede policial encontra-os e obriga-os a abandonar definitivamente as cidades, a afastar-se dos locais onde se desencadeia a luta política. Voltam para o campo, para a montanha, para junto das massas camponesas. No primeiro contacto, as massas fecham-se em si mesmas, escondem-nos dos olhos da polícia. O militante nacionalista, em vez de jogar às escondidas com os polícias nos centros urbanos, decide colocar o seu destino nas mãos das massas camponesas e não o perde mais. O manto camponês cobre-o com uma ternura e um vigor insuspeitos. Verdadeiros exilados no interior, separados do meio urbano onde tinham conhecido as noções de nação e de luta política, esses homens converteram-se de facto em guerrilheiros. Obrigados constantemente a mudar de sítio para escapar aos polícias, caminhando de noite para não darem nas vistas, terão ocasião de percorrer o país e conhecê-lo. Esquecem, então, os cafés, as discussões sobre as próximas eleições, a maldade daquele polícia. Os seus ouvidos escutam a verdadeira voz do país, e os seus olhos contemplam a grande e infinita miséria do povo. Dão conta do tempo precioso que perderam em inúteis comentários sobre o regime colonial. Compreendem, finalmente, que a mudança não será uma reforma, não será uma melhoria. Compreendem, numa espécie de loucura que não deixará de os atormentar, que a agitação política nas cidades será sempre impotente para modificar e destruir o sistema colonial.

Esses homens habituam-se a falar com os camponeses. Descobrem que as massas rurais não deixaram de colocar nunca o problema da sua libertação em termos de violência, de recuperação da terra em mãos estrangeiras, de luta nacional, de insurreição armada. Tudo se simplifica. Esses homens descobrem um povo coerente que se perpetua numa espécie de imobilidade, mas que conserva intactos os seus valores morais, a sua lealdade à nação. Descobrem um povo generoso, disposto ao sacrifício, desejoso de se entregar, impaciente e de um orgulho de pedra. Compreende-se que o encontro desses militantes maltratados pela polícia e dessas massas agitadas e de espírito rebelde possa produzir uma mistura destoante de inusitada força. Os homens procedentes das cidades acolhem-se na escola do povo e, ao mesmo tempo, leccionam aí a formação política e militar. O povo prepara as suas armas. Na realidade, os cursos não duram muito tempo porque as massas, restabelecendo o contacto com o mais fundo dos seus músculos, conduzem os dirigentes para precipitarem as coisas. A luta armada desencadeia-se.

A insurreição desorienta os partidos políticos. A sua doutrina, com efeito, afirmou sempre a ineficácia de qualquer prova de força e a sua própria existência é uma constante condenação de toda a insurreição. Secretamente, alguns partidos políticos compartilham do optimismo dos colonos e congratulam-se por se encontrarem além dessa loucura que, segundo se afirma, será reprimida de forma sangrenta. Mas uma vez ateado o fogo, este propaga-se ao resto do país como uma epidemia galopante. Os tanques blindados e os aviões não atingem os êxitos esperados. Frente à amplitude do mal, o colonialismo começa a reflectir. No seio do próprio povo opressor, escutam-se vozes que chamam a atenção para a gravidade da situação.

O povo, nas suas choças e nos seus sonhos, põe-se em comunicação com o novo ritmo nacional. Em voz baixa, do fundo do seu coração, canta hinos intermináveis aos gloriosos combatentes. A insurreição invadiu já a nação. Agora, devem isolar-se dos partidos.

Portanto, os dirigentes da insurreição tomam consciência, hoje ou amanhã, da necessidade de estender essa insurreição às cidades. Essa tomada de consciência não é fortuita. Ela consagra a dialéctica que preside ao desenvolvimento de uma luta armada de libertação nacional. Ainda que o campo represente inesgotáveis reservas de energia popular e os grupos armados façam reinar ali a insegurança, o colonialismo não duvida, realmente, da solidez do seu sistema. Não se sente fundamentalmente em perigo. O dirigente da insurreição decide, então, levar a guerra ao inimigo, isto é, às cidades tranquilas e imponentes.

A entrada da insurreição nas cidades coloca à direcção problemas difíceis. Temos observado como a maioria dos dirigentes, nascidos ou formados nas cidades, abandonarão o seu meio natural ao serem perseguidos pela polícia colonialista e não serem compreendidos pelos quadros prudentes e razoáveis dos partidos políticos. A sua retirada do campo foi uma fuga perante a repressão e um indício de desconfiança para com as velhas formações políticas. As antenas urbanas naturais desses dirigentes são os nacionalistas conhecidos dentro dos partidos políticos. Mas, precisamente, temos visto como a sua história recente se desenvolveu, à margem desses dirigentes tímidos e irritados, numa reflexão ininterrupta sobre os males do colonialismo.

Além disso, as primeiras tentativas que os homens das guerrilhas realizam junto dos seus antigos amigos, precisamente aqueles que consideram mais voltados à esquerda, confirmarão as suas apreensões e perderão mesmo o desejo de retomar velhas relações. A insurreição, aparecida no campo, penetrará nas cidades por intermédio do campesinato bloqueado na periferia urbana, o qual não pôde encontrar ainda um osso para roer no sistema colonial. Os homens obrigados pela crescente população do campo e pela exploração colonial a abandonar a sua terra natal, giram incansàvelmente em volta das bonitas cidades, esperando que algum dia possam penetrar nelas. É nessa massa, nesse povo dos bairros de miséria, das casas de lata, no seio do lumpen-proletariat, que a insurreição encontrará a sua ponta de lança urbana. O lumpen-proletariat, coorte de esfomeados, destribalizados, descolonizados, constitui uma das forças mais espontâneas e radicalmente revolucionárias de um povo colonizado.

No Quénia, nos anos que precederam a rebelião dos Mau-Mau, as autoridades coloniais britânicas multiplicaram as medidas de intimidação contra o lumpen-proletariat. Forças de polícia e missionários coordenaram os seus esforços, nos anos de 1950-1951, para responder como convinha à afluência enorme de jovens quenienses vindos do campo e da selva e que, não podendo colocar-se na zona de trabalho, roubavam, entregavam-se ao vício, ao alcoolismo, etc.... A delinquência juvenil nos países colonizados é o produto directo da existência do lumpen-proletariat. Igualmente, no Congo, foram tomadas medidas draconianas a partir de 1957 para fazer regressar ao campo os «jovens vadios» que perturbavam a ordem estabelecida. Criaram-se campos de recuperação e confiaram-nos às missões evangélicas, debaixo da protecção, claro, do exército belga.

A constituição de um lumpen-proletariat é um fenómeno que obedece a uma lógica própria, nem a actividade desdobrada dos missionários nem as ordens do poder central podem impedir o seu desenvolvimento. Esse lumpen-proletariat, como um ninho de ratos, apesar das patadas, das pedradas, continua a roer as raízes da árvore.

A zona de miséria consagra a decisão biológica do colonizado invadir, por qualquer maneira e se for necessário pelas vias mais subterrâneas, a cidadela inimiga.

O lumpen-proletariat constituído e pesando com todas as suas forças sobre a «segurança» da cidade, significa a podridão irreversível, a gangrena, instaladas no centro do domínio colonial. Então, os rufiões, os vadios, os desempregados, os operários sem trabalho, lançam-se na luta de libertação como bons trabalhadores. Esses desempregados, desclassificados, encontrarão, pelo canal da acção militante e decisiva, o caminho da nação. Não se reabilitam em relação à sociedade colonial, nem através da moral do dominador. Pelo contrário, assumem a sua incapacidade para penetrar na cidade a não ser pela força da granada ou do revólver. Esses desempregados e esses sub-homens reabilitam-se em relação a si próprios e à história. Também as prostitutas, as criadas que ganham dois mil francos(3), as desesperadas, todas e todos que oscilam entre a loucura e o suicídio se reequilibrarão quando actuarem e participarem de maneira decisiva na grande procissão da nação que desperta.

Os partidos nacionalistas não compreendem este novo fenómeno que precipita a sua desintegração. A irrupção da insurreição nas cidades modifica a fisionomia da luta. Enquanto as tropas colonialistas se dirigiam na sua totalidade até ao campo, daqui refluíam precipitadamente até às cidades para proteger a segurança das pessoas e dos seus bens. A repressão despende as suas forças, o perigo está presente em todos os lados. É o território nacional, o conjunto da colónia que está em jogo. Os grupos camponeses armados vêem como se estende a pressão militar. A insurreição nas cidades é um inesperado balão de oxigénio.

Os dirigentes da insurreição que vêem como o povo entusiasta e ardente dá golpes decisivos na máquina colonialista, aumentam a sua desconfiança sobre a política tradicional. Cada êxito obtido, legitima a sua hostilidade a respeito do que chamarão o gargarismo, o verbalismo, a «blagologie», a agitação estéril. Odeiam a «política», a demagogia. Por isso, assistimos em princípio a um verdadeiro triunfo do culto da espontaneidade.

As múltiplas sublevações aparecidas no campo são a prova, onde quer que estalem, oblíqua e geralmente densa da nação. Cada colonizado em armas é um pedaço da nação viva. Essas sublevações camponesas põem em perigo o regime colonial, mobilizam as suas forças e dispersam-nas, ameaçam asfixiá-lo a todo momento. Obedecem a uma doutrina simples: fazem com que a nação exista. Não há programa, não há discursos, não há resoluções, não há tendências. O problema é claro: é necessário que os estrangeiros partam. Deve constituir-se uma frente comum contra o opressor e fortalecer essa frente através da luta armada.

Enquanto durar a inquietação do colonialismo, a causa nacional progride e converte-se na causa de cada um. A empresa de libertação desenha-se e afecta já a totalidade do país. Nesta fase, reina o espontâneo. A iniciativa é localizada. Em cada piton constitui-se um governo em miniatura que assume o poder. Nos vales e nos bosques, na selva e nas aldeias, em todos os lados encontra-se uma autoridade nacional. Cada um, através da sua acção, faz existir a nação e compromete-se a fazê-la triunfar em cada local. Encontramo-nos perante uma estratégia de dependência imediata, totalitária e radical. No fim, o programa de cada grupo espontâneamente constituído é a libertação local. Se a nação está em toda a parte, está também aqui. Um passo mais e está apenas aqui.

A táctica e a estratégia confundem-se. A arte política transforma-se simplesmente em arte militar. O militante político é o combatente. Fazer a guerra e fazer política é uma e a mesma coisa.

Esse povo deserdado, habituado a viver no círculo estreito das lutas e das rivalidades, vai proceder, numa solene atmosfera, à limpeza e purificação do aspecto local da nação. Num verdadeiro êxtase colectivo, famílias inteiras decidem apagar e esquecer tudo. As reconciliações multiplicam-se. Os ódios tenazes e escondidos despertam para serem mais seguramente extirpados. A assunção da nação faz progredir a consciência. A unidade nacional é em primeiro lugar a unidade do grupo, o desaparecimento das velhas querelas e a liquidação definitiva das reticências. Ao mesmo tempo, a purificação englobará aos poucos os indígenas que pelas suas actividades, pela sua cumplicidade com o ocupante, desonraram o país. Os traidores, os vendidos, serão julgados e castigados. O povo, nessa marcha contínua que empreendeu, legisla, descobre-se, quer ser soberano. Cada ponto conquistado ao sonho colonial atinge uma temperatura insuportável. Um efusão permanente reina nas aldeias, uma generosidade espectacular, uma bondade que desarma, uma vontade nunca desmentida de morrer pela «causa». Tudo isto evoca uma seita, uma igreja, uma mística. Nenhum indígena pode permanecer indiferente a este novo ritmo que arrasta a nação. Enviam-se emissários às tribos vizinhas. Constituem o primeiro elo de ligação da insurreição e levam ritmo e movimento às regiões sempre imóveis. Tribos cuja rivalidade obstinada é, sem dúvida, bem conhecida, abandonam a luta e, no meio da alegria e das lágrimas, prometem ajuda e apoio. Num «coude-à-coude» fraternal, na luta armada, os homens aproximam-se dos seus inimigos de ontem. O círculo nacional enriquece-se e são novas emboscadas que saúdam a entrada em cena de novas tribos. Cada aldeia se descobre agente absoluta. A solidariedade entre as tribos, entre as aldeias, a solidariedade nacional adivinha-se primeiro na multiplicação dos golpes dados no inimigo. Cada novo grupo que se forma, cada nova descarga que estala, indicam que cada um fustiga o inimigo, que cada um lhe faz frente.

Esta solidariedade vai manifestar-se muito claramente no decurso do segundo período, que se caracteriza pelo desencadeamento da ofensiva inimiga. As forças coloniais, depois da explosão, reagrupam-se, reorganizam-se e põem em prática métodos de combate correspondentes à natureza da insurreição. Esta ofensiva vai transformar em tortura a atmosfera eufórica e paradisíaca do primeiro período. O inimigo lança o ataque e concentra em pontos estratégicos numerosas forças. O grupo local é muito ràpidamente devassado, porque resolve encarar de frente o combate. O optimismo que reinou na primeira fase torna o grupo intrépido, isto é, inconsciente. O grupo, que está convencido de que o seu pitem é a nação, não aceita a razão de se desarmar, não suporta ter de se retirar. As perdas são numerosas e a dúvida infiltra-se maciçamente nos espíritos. O grupo aguenta o assalto local como uma prova decisiva. Comporta-se literalmente como se a sorte do país se jogasse aqui e agora.

Mas, como se compreende, esta impetuosidade voluntária que pretende decidir imediatamente a sorte do sistema colonial está condenada, como doutrina de instantaneidade, a negar-se. O realismo mais quotidiano, mais prático, substitui as efusões de ontem e a ilusão da eternidade. A lição dos factos, os corpos atravessados pela metralha, provocam uma reinterpretação global dos acontecimentos. O simples instinto de sobrevivência determina uma atitude mais dinâmica, mais movimentada, a utilização da técnica das guerrilhas.

Na guerrilha, com efeito, a luta não é onde se está, mas sim onde se vai. Cada combatente leva a pátria em guerra entre as suas mãos vazias. O exército de libertação nacional não é o que enfrenta sempre o inimigo, mas o que se desloca de aldeia em aldeia, que se concentra na selva e salta de júbilo quando se apercebe das colunas do adversário a avançarem por entre nuvens de poeira. As tribos põem-se em movimento, os grupos deslocam-se, mudam de terreno. Os do norte dirigem-se para oeste, os da planície sobem à montanha. Nenhuma posição estratégica é privilegiada. O inimigo imagina perseguir-nos, mas sempre nos ajustamos para marchar sobre os seus talhões, fustigando-o no próprio instante em que nos pensa ter aniquilado. Futuramente, somos nós que o perseguimos. Com toda a sua técnica e a sua capacidade de fogo, o inimigo dá a impressão de se embrulhar e de se perder em areias movediças. Nós cantamos, nós cantamos.

Entretanto, porém, os dirigentes da insurreição compreendem que é preciso ensinar os grupos, instruí-los, doutriná-los, criar um exército, centralizar a autoridade. O desfazamento da nação, que manifestava a nação em armas, exige ser corrigido e superado. Os dirigentes que limparam a atmosfera da inútil política das cidades, redes- cobrem a política, não já como técnica de adormecimento ou de mistificação, mas como meio único de intensificar a luta e de preparar o povo para a lúcida direcção do país. Os dirigentes da insurreição apercebem-se de que as sublevações camponesas, ainda que muito importantes, têm de ser controladas e orientadas. Os dirigentes acabam por negar o movimento enquanto sublevação camponesa, transformando-o assim em guerra revolucionária. Descobrem que o êxito da luta exige a claridade dos objectivos, a precisão da metodologia e sobretudo o conhecimento pelas massas da dinâmica temporal dos seus esforços. É possível suportar-se três dias ou mesmo três meses utilizando a dose de ressentimento contida nas massas, mas não se triunfa numa guerra nacional, não se decompõe a terrível máquina do inimigo, não se transformam os homens se se esquece de elevar a consciência do combatente. Nem a coragem encarniçada, nem a beleza dos «slogans» é suficiente.

O desenvolvimento da guerra de libertação encarrega-se, portanto, de dar um golpe decisivo na fé dos dirigentes. O inimigo modifica a sua táctica. À política brutal de repressão liga oportunamente os gestos espectaculares do gatilho, as manobras de divisão, «a acção psicológica».' Procura com êxito, aqui e além, reviver as lutas tribais, utilizando provocadores, fazendo o que se chama a contra-subversão. O colonialismo, para atingir os seus objectivos, empregará dois tipos de indígenas. Em primeiro lugar, os colaboradores tradicionais, os chefes, caids, feiticeiros. As massas camponesas submersas, como temos visto, na repetição sem história de uma existência insignificante, continuam a venerar os chefes religiosos, os descendentes das velhas famílias. A tribo, como um só homem, segue o caminho que determina o chefe tradicional. À custa de prebendas, a preço de ouro, o colonialismo obterá os serviços desses homens de confiança.

O colonialismo encontrará igualmente no lumpen-proletariat uma massa considerável propícia para a manobra. Todo o movimento de libertação nacional deve prestar a máxima atenção a esse lumpen-proletariat. Este responde sempre à chamada para a insurreição, mas se a insurreição faz por os ignorar, essa massa de esfomeados e desclassificados, lançar-se-á na luta armada, participará no conflito, mas ao lado do opressor. O opressor, que nunca perde a ocasião de chamar a si os negros, utilizará com singular alegria a inconsciência e a ignorância que são os defeitos do lumpen-proletariat. Esta reserva humana disponível, se não é organizada prontamente pela insurreição, encontrar-se-á como mercenária ao lado das tropas colonianistas. Na Argélia, o lumpen-proletariat integrou os harkis e os messalistes; em Angola, chegam os contingentes que abrem o caminho, precedendo as colunas armadas portuguesas; no Congo, encontra-se o lumpen-proletariat nas manifestações regionais de Kasai e Catanga, enquanto que na cidade de Leopoldville foi utilizado pelos inimigos do Congo para organizar motins «espontâneos» contra Lumumba.

O adversário, que analisa as forças da insurreição, que estuda cada vez melhor o inimigo global que constitui o povo colonizado, dá conta da debilidade ideológica, da instabilidade espiritual de certas camadas da população. O adversário descobre, junto de uma vanguarda insurrecta, rigorosa e bem estruturada, uma massa de homens, cuja participação pode ser posta em perigo constante por um hábito demasiado grande da miséria fisiológica, das humilhações e da irresponsabilidade. O adversário utilizará essa massa, para evitar males maiores. Criará a espontaneidade a golpes de baioneta ou de castigos exemplares. Os dólares e os francos belgas espalham-se sobre o Congo, enquanto em Madagáscar se multiplicam as exacções anti-Hova e na Argélia são enrolados recrutas, autênticos reféns, nas forças francesas. Literalmente, o chefe da insurreição vê soçobrar a nação. Tribos inteiras constituem-se em harkis e, apetrechadas com armas modernas, tomam o caminho da guerra e atacam a tribo rival, classificada, pelas conveniências do momento, como nacionalista. A unanimidade no combate, tão fecunda e grandiosa nas primeiras horas da insurreição encontra-se num momento decisivo. A politização das massas é reconhecida, então, como necessidade histórica.

Este voluntarismo espectacular que pretendia conduzir, de um só golpe, o povo colonizado à soberania absoluta, esta certeza que se tinha de arrastar, no mesmo passo e com igual claridade, todos os sectores da nação, essa força que se fundava na esperança, revela-se, com a experiência, como uma grande fraqueza. Enquanto imaginava poder passar sem transição da situação de colonizado à de cidadão soberano de uma nação independente, enquanto se desejava admirar pela miragem imediata dos seus músculos, o colonizado não fazia progressos no caminho do conhecimento. A sua consciência continuava a ser rudimentar. O colonizado entrega-se à luta com paixão, já o afirmámos, sobretudo se essa luta é armada. Os camponeses lançaram-se na insurreição com mais entusiasmo, porque não deixaram nunca de ter um modo de vida praticamente anticolonial. Desde sempre e como consequência de múltiplas astúcias, de equilíbrios que evocam as proezas do prestidigitador, ou camponeses preservaram relativamente a sua subjectividade da imposição colonial. Chegaram a acreditar que o colonialismo não era realmente vencedor. O orgulho do camponês, a sua relutância para descer às cidades, para se relacionar com o mundo edificado pelo estrangeiro, os seus perpétuos movimentos de retrocesso frente à aproximação dos representantes da administração colonial, não deixavam de significar que opunham à dicotomia do colono a sua própria dicotomia.

O racismo anti-racista, a vontade de defender a própria pele que caracteriza a resposta do colonizado à opressão colonial, representam evidentemente razões suficientes para se entregar à luta. Mas não se aguenta uma guerra, não se sofre uma dura repressão, não se assiste ao desaparecimento de toda a família, para fazer triunfar o ódio ou o racismo. O racismo, o ódio, o ressentimento, «o legítimo desejo de vingança», não podem alimentar uma guerra de libertação. Esses relâmpagos da consciência que lançam num onirismo quase patológico, onde o rosto do outro me convida à vertigem, onde o meu sangue chama o sangue do outro, essa grande paixão das primeiras horas desloca-se, claro, se deseja nutrir-se da sua própria substância. É verdade que as intermináveis exacções das forças colonialistas reintroduzem os elementos emocionais na luta, dão ao militante novos motivos de ódio, novas razões de sair em busca do colono «para o matar». Mas o dirigente compreende, de dia para dia, que o ódio não poderá constituir um programa. Não se pode, a não ser por perversão, confiar no adversário que evidentemente se desembaraça sempre para multiplicar os crimes, aprofundar o «abismo», colocando assim a totalidade do povo ao lado da insurreição. Em todo o caso, o adversário, como temos assinalado, trata de ganhar a simpatia de certos grupos da população, de determinadas regiões, de diversos chefes. No decorrer da luta, dão palavras de ordem aos colonos e às forças de polícia. O comportamento modifica-se, «humaniza-se». Chegará mesmo a introduzir, nas relações entre colono e colonizado, tratamentos tais como Senhor ou Senhora. Multiplicar-se-ão as cortesias, as delicadezas. Concretamente, o colonizado tem a impressão de assistir a uma mudança.

O colonizado, que não tomara somente as armas porque morria de fome e contemplava a desintegração da sua sociedade, mas também porque o colono o considerava como um animal, o tratava como um animal, mostra-se muito sensível a essas medidas. O ódio é desviado através desses achados psicológicos. Os tecnólogos e os sociólogos iluminam as manobras colonialistas e multiplicam os estudos sobre os «complexos»: complexo de frustração, complexo belicoso, complexo de «colonizabilidade». Promove-se o indígena, procura-se desarmá-lo através da psicologia e, naturalmente, com algumas moedas. Essas medidas miseráveis, esses rebocos de fachada, sàbiamente doseados por outro lado, chegam a dar certos resultados. A fome do colonizado, a fome de qualquer coisa que o humanize — ainda que limitadamente — é até tal ponto incoercível, que essas esmolas conseguem fazê-lo vacilar. A sua consciência é tão precária e opaca, que responde à menor faísca. A grande sede de luz indistinta do começo, vê-se ameaçada a todo o instante pela mistificação. As exigências violentas e globais que raiavam o céu recuam, fazem-se modestas. O lobo impetuoso que queria devorar tudo, que desejava realizar uma autêntica revolução, pode tornar-se, se a luta dura, e ela dura, desconhecido. O colonizado corre o risco, constantemente, de se deixar desarmar por qualquer concessão.

Os dirigentes da insurreição descobrem com receio essa instabilidade do colonizado. Desorientados primeiro, compreendem, por este novo desvio, a necessidade de explicar e de realizar o resgate radical da consciência. Porque a guerra continua, o inimigo organiza-se, fortalece-se, adivinha a estratégia do colonizado. A luta de libertação nacional não consiste em transpor um espaço de uma única pisada. A epopeia é quotidiana, difícil e os sofrimentos que se suportam superam os sofrimentos conhecidos no período colonial. Em baixo, nas cidades, parece que os colonos mudaram. Os nossos são mais felizes. Respeitam-se. Os dias sucedem-se aos dias e é preciso que os colonizados comprometidos na luta e no povo continuem a dar o seu apoio, não se deixem quebrar. Não devem pensar que alcançaram o fim. Não devem imaginar, quando se lhes determinem os reais objectivos da luta, que isso não é possível. Uma vez mais, é necessário explicar que o povo veja para onde vai, até onde pode chegar. A guerra não é uma batalha, mas uma sucessão de combates locais em que, na verdade, nenhum é decisivo.

É necessário, pois, cuidar das próprias forças, não as colocar de um só golpe na balança. As reservas do colonialismo são mais ricas, mais importantes que as do colonizado. A guerra prolonga-se, o adversário defende-se. A grande explicação não será para hoje, nem para amanhã. Na verdade, começou desde o primeiro dia e não terminará porque não exista adversário, mas simplesmente porque este último, por múltiplas razões, dará conta de que interessa acabar essa luta e reconhecer a soberania do povo colonizado. Os objectivos da luta não devem permanecer na indiferença dos primeiros dias. Se não se tem cuidado, corre-se o risco de a todo o momento o povo perguntar, perante a mais pequena concessão do inimigo, as razões da continuação da guerra. Existe até tal ponto o hábito do desprezo do ocupante, da sua vontade firme de manter a qualquer preço a sua opressão, que toda a iniciativa de aspecto generoso, toda a boa disposição manifestada, é saudada com surpresa e alegria. O colonizado tem tendência, então, para cantar. É necessário estender as explicações e fazer compreender ao militante que as concessões do adversário não o devem cegar. Essas concessões, que são apenas concessões, não afectam o essencial e, na perspectiva do colonizado, pode afirmar-se que uma concessão não se refere ao essencial quando não afecta o regime colonial no que este tem de essencial.

É evidente que as formas brutais de presença do ocupante podem desaparecer perfeitamente. Na verdade, este desaparecimento espectacular revela-se como um alívio dos gastos do ocupante e uma medida positiva contra a disseminação de forças. Mas este desaparecimento vai ser pago de forma muito cara. Exactamente pelo preço de um enquadramento mais coercivo do destino do país. Alguns exemplos históricos serão evocados e o povo poderá convencer-se de que a máscara da concessão, a aplicação do princípio de concessão a todo o preço, saldou-se em certos países por uma servidão mais discreta, mas mais total. O povo, a totalidade dos militantes, deverão conhecer essa lei histórica que estipula que certas concessões são, na realidade, novas cadeias. Quando o trabalho de clarificação não se fez, surpreende a facilidade com que os dirigentes de certos partidos políticos estabelecem inumeráveis compromissos com o antigo colonizador. O colonizado deve convencer-se de que o colonialismo não lhe oferece qualquer regalia. O que o colonizado obtém pela luta política ou armada não é o resultado da boa vontade ou do bom coração do colono, mas o que se traduz pela sua impossibilidade de demorar as concessões. Mais ainda, o colonizado deve saber que essas concessões não são dadas pelo colonialismo, mas por ele mesmo. Quando o governo britânico decide outorgar à população africana mais alguns lugares na Assembleia do Quénia, era necessário muito impudor ou inconsciência para afirmar que o governo britânico fez concessões. Não é evidente que o povo do Quénia é que faz concessões? É preciso que os povos colonizados, os povos que foram despojados, percam a atitude mental que os tem caracterizado. Em rigor, o colonizado pode aceitar uma transacção com o colonialismo, mas nunca um compromisso.

Todas estas explicações, estas iluminações sucessivas da consciência, este encaminhamento pela via do conhecimento da história das sociedades, não são possíveis senão no quadro de uma organização, de um enquadramento do povo. Esta organização é formada mediante o emprego dos elementos revolucionários procedentes das cidades no princípio da insurreição e dos que voltam ao campo à medida que a luta se desenrola. É esse núcleo o que constitui o organismo político embrionário da insurreição. Mas, por seu lado, os camponeses que elaboram os seus conhecimentos no contacto directo com a experiência, mostrar-se-ão aptos para dirigir a luta popular. Estabelece-se uma corrente de edificação e enriquecimento recíproco entre a nação em pé de guerra e os seus dirigentes. As instituições tradicionais são reformadas, aprofundadas e algumas vezes transformadas. O tribunal de conflitos, as djemaas, as assembleias das aldeias, transformam-se em tribunal revolucionário, em comité político- -militar. Em cada grupo de combate, em cada aldeia, aparecem legiões de comissários políticos. O povo, que começa a encontrar muita incompreensão, será esclarecido por esses comissários políticos. Por isso, estes últimos não temeram abordar os problemas que, se não fossem esclarecidos, contribuiriam para desorientar o povo. O militante em armas irrita-se, com efeito, ao verificar como muitos indígenas continuam a fazer a sua vida nas cidades como se fossem alheios ao que se passa nas montanhas, como se ignorassem que o movimento essencial já começou. O silêncio das cidades, a continuação do ramerrame quotidiano, dão ao camponês a amarga impressão de que todo um sector da nação se contenta em fazer contas. Estes factos repugnam aos camponeses e fortalecem a sua tendência para desprezar e condenar inteiramente os citadinos. O comissário político deverá conseguir que mudem essa posição, fazendo-os tomar consciência de que certas camadas da população possuem interesses particulares que nem sempre coincidem com o interesse nacional. O povo compreende, então, quo a independência nacional descobre múltiplas realidades que, algumas vezes, são divergentes e antagónicas. A explicação, nesse momento da luta, é decisiva porque faz passar o povo do nacionalismo global e indiferenciado a uma consciência social e económica. O povo, que no princípio da luta adoptou o maniqueísmo primitivo do colono: brancos e negros, árabes e roumis,(4) percebe que há negros que são mais brancos que os brancos e que a eventualidade de uma bandeira nacional, a possibilidade de uma nação independente, não conduzem automàticamente certas camadas da população a renunciar aos seus privilégios ou aos seus interesses. O povo apercebe-no que outros indígenas não perdem quaisquer vantagens, mas, pelo contrário, parecem aproveitar-se da guerra para melhorar a sua posição material e o seu poder nascente. Os indígenas traficam e obtêm verdadeiros benefícios de guerra a expensas do povo que, como sempre, se sacrifica sem restrições e rega com o seu sangue o solo nacional. O militante que enfrenta, com meios rudimentares, a máquina bélica do colonialismo, dá conta do que, ao mesmo tempo que destrói a opressão colonial, contribui para construir outro aparato de exploração. Esta descoberta é desagradável, dolorosa e repugnante. Tudo era tão simples: de um lado, os maus, do outro, os bons. À claridade idílica e irreal do princípio, substitui-se uma penumbra que desvia a consciência. O povo descobre que o fenómeno iníquo da exploração pode apresentar uma aparência negra ou árabe. Clama que existe uma traição, mas é necessário corrigir esse grito. A traição não é nacional, é uma traição social, deve ensinar-se ao povo a denunciar o ladrão. Na sua marcha laboriosa até ao conhecimento racional, o povo deverá também abandonar o simplismo que caracteriza a sua percepção do dominador. A espécie decompõe-se ante os seus olhos. Em redor, ele constata que certos colonos não participam na histeria criminal, que se distinguem da espécie. Estes homens, que eram postos de lado no bloco monolítico da presença estrangeira, condenam a guerra colonial. O escândalo estala realmente quando alguns protótipos desta espécie se passam do outro lado, se convertem em negros ou árabes e aceitam os sofrimentos, a tortura, a morte.

Estes exemplos mostram o ódio global que o colonizado sentia a respeito da população estrangeira. O colonizado rodeia esses homens de um afecto caloroso e tende, por uma espécie de acentuado afecto, a outorgar-lhes a sua confiança de uma forma absoluta. Na metrópole, concebida como madrasta implacável e sanguinária, numerosas vozes e por vezes ilustres tomam posição, condenam sem reserva a política de guerra do seu governo e aconselham a tomar em conta finalmente fileiras colonialistas, outros negam-se a lutar abertamente contra a liberdade do povo, são encarcerados e sofrem em nome do direito desse povo à independência e à direcção dos seus próprios interesses.

O colono não é já simplesmente o homem que é necessário matar. Os membros da massa colonialista mostram-se mais perto, infinitamente mais perto, da luta nacionalista que alguns filhos da nação. O nível racial e racista é superado nos dois sentidos. Já não se entrega uma patente de autenticidade a todos os negros ou a todos os muçulmanos. Já não se procura a espingarda ou o machado ante o aparecimento de qualquer colono. A consciência descobre laboriosamente verdades parciais, limitadas, instáveis. Tudo isto, sem dúvida, é muito difícil. A tarefa de converter o povo em adulto será facilitada pelo rigor da organização e pelo nível ideológico dos seus dirigentes. A força do nível ideológico elabora-se e cresce à medida que se desenvolve a luta, as manobras do adversário, as vitórias e os reveses. A direcção revela a sua força e a sua autoridade denunciando os erros, aproveitando cada retrocesso da consciência para obter uma lição, para assegurar novas condições de progresso. Cada refluxo local será aproveitado para retomar a questão à escala de todas as aldeias, de todas as redes. A insurreição prova a si mesma a sua racionalidade, expressa a sua maturidade cada vez que um caso faz avançar a consciência do povo. Apesar do ambiente, que se inclina algumas vezes a pensar que os matizes constituem perigos e introduzem fendas no bloco popular, a direcção permanece firme sobre os princípios fixados na luta nacional e na luta geral que o homem realiza para sua libertação. Existe uma brutalidade e um desprezo das subtilezas e dos casos individuais tipicamente revolucionária, mas existe outra forma de brutalidade semelhante à primeira e que é tipicamente contra-revolucionária, aventureira e anarquista. Esta brutalidade pura, total, se não for prontamente combatida, provoca inevitavelmente a derrota do movimento no fim de algumas semanas.

O militante nacionalista que fugiu da cidade, ferido, pelas manobras demagógicas e reformistas dos dirigentes, decepcionado pela «política», descobre na prática concreta uma nova política que não se parece em nada com a antiga. Esta política é uma política de responsáveis, de dirigentes integrados na História que assumem com os seus músculos e os seus cérebros a direcção da luta da libertação. Esta política é nacional, revolucionária, social. Esta nova realidade que o colonizado vai conhecer agora não pode existir senão pela acção. É a luta que, ao fazer estalar a antiga realidade colonial, revela facetas desconhecidas, faz surgir significações novas e põe o dedo sobre as condições disfarçadas por esta realidade. O povo que luta, o povo que, graças à luta, dispõe desta nova realidade e a conhece, avança, libertado do colonialismo, prevenido para avançar contra todos os propósitos de mistificação, contra todos os hinos à nação. Apenas a violência exercida pelo povo, violência organizada e esclarecida pela direcção, permite às massas decifrar a realidade social, dá-lhe a chave desta. Sem essa luta, sem esse conhecimento na prática, há somente carnaval e estribilhos. Um mínimo de readaptação, algumas reformas por alto, uma bandeira e, lá em baixo, a massa indivisa sempre «medieval», que continua o seu movimento perpétuo.

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Notas de rodapé:

(1) Região agreste da África do Norte. (N. do T.) (retornar ao texto)

(2) Habitantes de Kabylia, nome pelo qual se designam diversos maciços da Argélia. (N. do T.) (retornar ao texto)

(3) Refere-se, evidentemente, a francos antigos, ou seja, o equivalente a perto de seiscentos escudos. (N. do T.) (retornar ao texto)

(4) Nome pelo qual os muçulmanos designam os cristãos» (N. do T.) (retornar ao texto)

Inclusão 20/04/2014