Porque Crê em Deus a Burguesia

Paul Lafargue

A Caridade


I — A caridade dos primeiros cristãos

A caridade, uma das três virtudes teologais que o cristianismo se envaidece de ter feito germinar no coração humano, fechado, até à vinda de Jesus Cristo, a todo o sentimento de comiseração pelos seus semelhantes, é a digna precursora dos três princípios políticos: Liberdade, Igualdade e Fraternidade que a burguesia francesa se lisongeia de ter revelado à humanidade do século XVIII.

A caridade cristã que apenas pede humildemente ao rico uma pequena parcela do supérfluo, é uma virtude que proporciona grandes benefícios, pois sem alterar os seus costumes, sem refrear os seus vícios, sem condenar os seus prazeres, sem exigir o menor esforço físico ou intelectual e sem grandes dispêndios, proporciona a satisfação moral de crêr-se um bemfeitor todo aquele que a pratica e de procurar-lhe o efeito social próprio de todo o acto generoso, garantindo-lhe, a baixo preço, um lugar reservado no paraíso, pois, segundo S. Pedro «a caridade apaga infinidade de pecados».

Além disso, realiza outros serviços, não menos notáveis, que os seus panegiristas não se atrevem a mencionar. A caridade é a cínica expectativa que corrompe o pobre, envilece a sua dignidade e acostuma-o a suportar com paciência a sua iníqua e miserável sorte. A sociedade capitalista, que chega ao seu extremo limite a exploração do pobre, era a única capaz de erigir em virtude teologal e social a colocação do dinheiro a um juro tão fabulosamente agiota. A caridade, digam os teólogos o que quizerem, não alcançou no primeiro momento tão alto grau de perfeição. Os apóstolos e os primeiros cristãos tinham dela uma ideia menos concreta e, sobretudo, menos burguesa; careciam demasiadamente do necessário para poder dispor caritativamente do supérfluo que não tinham. É preciso ter uma ideia errónea da sua vida e, sobretudo, alterar atrozmente o texto dos «Actos» e dos «Capítulos dos Apóstolos», para adorná-los com esta proveitosa virtude capitalista. Nunca texto algum foi tão imprudentemente alterado como o do Novo Testamento(11).

De tal forma desconheciam os apóstolos esta famosa virtude teologal, que a palavra caridade não se vê em nenhum dos seus escritos. A palavra do Novo Testamento «caritas», que se traduziu por caridade, nunca teve êste significado nas línguas grega e latina e nunca S. Paulo, S. Jaime e S. João lhe deram êste sentido, pois a aplicavam como sinónimo de amisade e de amor fraternal — «amor fraternus». «Ágape» quere dizer amisade e isso prova que os primeiros cristãos só lhe davam esta significação servindo-se dela para designar as suas refeições comuns, que não eram simples refeições de caridade, mas «ágapes» de fraternidade e que chamavam «agapetes» às mulheres que cohabitavam com os sacerdotes, como irmãos de eleição, pois o amor fraternal estava em oposição com o amor sexual. «Caritas», traduzido pelos latinos por caridade e num sentido figurado por amor, por conseguinte, foi sempre interpretado nesta acepção, propriamente pelos autores da época da decadência, como Amiano Marcelino, que escrevia no século IV da nossa era. A palavra da língua grega, cujo sentido se aproxima mais da ideia de caridade, é «compartivel», que na língua eclesiástica se transforma em «caritable». Não existindo a palavra na língua latina, Tertuliano, S. Jerónimo e Santo Agostinho tomaram-na do grego e disseram «elemosyna» por esmola, por caridade.

Os teólogos protestantes da Inglaterra, que em 1880 revisaram a tradução inglesa do Novo Testamento traduziram «caritas» por «love» (amizade, amor). A maneira de viver e de pensar dos primeiros cristãos não permite outra interpretação.

***

Os primeiros cristãos de Jerusalém, de Corinto, de Efeso, de Antioquia, etc, agrupavam-se em pequenas comunidades, vivendo numa mesma casa e às vezes numa mesma habitação.

Os «Actos» e os «Capítulos dos apóstolos» conteem preciosos detalhes sôbre o seu recrutamento, sôbre a sua maneira de viver e sôbre as paixões que os agitavam.

«Os que recebiam com tôda a sinceridade a boa palavra, eram batizados e incorporados na comunidade..., se perseveravam na doutrina, eram admitidos na divisão do pão e nas orações... Os que participavam da fé viviam juntos e possuíam todas as coisas em comum: — vendiam os seus bens e os seus haveres e distribuiam-nos a todos segundo as suas necessidades... A multidão de crentes não tinha mais do que um corpo e uma alma, e ninguém dizia que as coisas em seu poder eram suas, mas comuns a todos... Desta forma não existia entre eles pessoas necessitadas, pois os que eram donos de campos e de casas vendiam-nos e depositavam o seu custo junto dos Apóstolos para ser distribuído a cada um segundo as suas necessidades. (Actos II, 41-45 e IV, 32-34).

A admissão nas divisões de pão e outros alimentos era um dos meios mais eficazes de propaganda dos apóstolos. Conforme os «Actos», num só dia inscreveram-se uns três mil pobres diabos na distribuição de víveres e de doutrina. Estes aceitavam a doutrina sem compreendê-la, pois resultava imprecisa e confusa ainda pelos próprios apóstolos, como o confirma a querela surgida entre S. Paulo e S. Pedro sôbre a circuncisão. A ter-se mantido êste costume hebraico, o cristianismo não teria chegado a revestir carácter internacional.

As massas dos convertidos às novas doutrinas só se impuzeram à sua perseverança nelas com a condição de poder encher a barriga: — de contrário tê-las-iam rechassado com a mesma facilidade com que as aceitaram. Os apóstolos tinham necessidade de aguçar o engenho para proporcionar-lhes pão, com ofim de detê-los; e, para conseguir fim tão plausível, todos os meios eram bons, incluso o do assassinato! Os «Actos» referem, com cinismo sem igual, um duplo assassinato cometido por S. Pedro, e a forma como se narra o facto leva-nos a supor que semelhantes crimes eram coisa corrente entre os apóstolos: — a maneira rápida com que o santo varão perpetra o crime e se desembaraça dos cadáveres dá motivo para pensar que não se tratava de um simples ensaio.

Eis o relato evangélico: — Ananias e sua mulher, Safira, dois bons burgueses, tinham tomado tão a sério a doutrina dos Apóstolos, que, querendo adaptar-se às regras da comunidade, venderam os seus bens e depositaram a importância deles aos pés de S. Pedro, embora deixando para si uma parte, não dizem os «Actos» com que intenção. O apóstolo que indubitavelmente se tinha inteirado com interêsse da venda dos bens, compreendeu que não lhe entregavam todo o dinheiro que aquela tinha produzido. Então mandou chamar, separadamente, à sua presença, primeiro o marido e depois a mulher, e tendo mandado dar morte a Ananias, por homens novos que tinha sempre à sua disposição com êste fim, como fazem supor as palavras do santo dirigidas a Safira, disse a esta; — «À porta estão os que enterraram teu marido e que não tardarão a fazer o mesmo contigo». Como é de supor, os «Actos» levam êste duplo assassinato à conta do bom Deus, o qual não está presente para desculpar-se. Os curas e os feiticeiros atribuíram sempre a Deus o papel de executor das suas grandes obras. «Este crime causou grande pânico entre a comunidade e entre todos aqueles que dele tiveram conhecimento». A política dos apóstolos, como a de todos os feiticeiros, consistia em impor-se por meio do terror. Os «Actos», em certas passagens, fazem menção do terror que os apóstolos inspiravam aos fiéis. Os propagadores do cristianismo seguiram sempre, quer no velho quer no novo mundo, esta política. O jesuíta Charlevoi, que era uma pessoa honrada, conta com a maior naturalidade na sua «História do Paraguay», que tendo-se negado um cacique chamado Guarany a aceitar as predicações dos jesuítas, foi queimado vivo pelo fogo do céu, como Ananias e Safira tinham sido mortos por Deus.

Além das Comunidades, que o texto grego dos «Actos» denominam Ekklesía (assembleia e origem do nome de Igreja) havia fiéis que, menos cândidos que Ananías e Safira, conservavam os seus bens, contribuindo, porém, para o sustento dos «santos», assim se designavam entre si os membros das Comunidades, porque tinham talvez sôbre a propriedade ideias distintas das dos indígenas, dos quais se achavam rodeados. Os apóstolos e os santos, disse S. Paulo, «recebiam êstes dons como um sacrifício agradável a Deus».

Os apóstolos andavam constantemente na pesquiza de pessoas ricas e generosas: — quando tinham probabilidade de encontrar uma, prestavam tôda a atenção às suas palavras e ensaiavam quantas farças pudessem inventar com o fim de se apoderarem do seu espírito e da sua bolsa. S. Pedro chegou a ser um mestre consumado nesta arte: — Os «Actos» descreviam coma maior naturalidade duas destas vigarices: a da viuva Tabitha e a do centurião Cornélio. O santo varão convenceu a boa mulher que ela tinha morrido eêle a tinha ressuscitado. Com tal propósito, chegou a sugestioná-la ao ponto de fazê-la acreditar em aparições de anjos, que lhe traziam felicitações de Deus pelas suas dádivas.

Como os santos da Judeia recolhiam pouco dinheiro dos seus compatriotas, pediam dinheiro aos fiéis dos outros países. Foi esta a origem do dinheiro de S. Pedro. Os de Corinto, disse S. Paulo, eram muito generosos e as suas dádivas suficientes para «acudir às necessidades dos santos» e até para proporcionar-lhes o supérfluo (II, IX, 12), Eram, porém, uma exceção; pelo menos a julgar pelas queixas do mesmo santo sôbre as dificuldades com que tropeçavam para reunir os donativos e das declamações de S. Jaime contra os ricos, renitentes em mostrar a bolsa.

«Agora, ricos — disse — chorai e lamentai vos das desgraças que cairão sôbre vós! As vossas riquezas estão apodrecidas; os vossos vestidos estão roídos pelos vermes; o vosso ouro e a vossa prata estão oxidados e êste óxido atingir-vos-á a vós próprios e devorará as vossas carnes tal como o fogo». (S. Jaime, V). Dir-se-ía que se estava lendo uma das diatribes dos anti-semitas contra os banqueiros judeus, ao não se apressarem a satisfazer os seus pedidos de dinheiro. Os fiéis, embora não vivessem em comunhão com os santos, tomavam parte nas suas refeições, que recordavam a ceia onde Jesus tinha dado simbolicamente aos Apóstolos a sua carne a comer e o seu sangue a beber. Mas os ricos, antes de sentar-se à mesa dos santos, deveras grosseira para o seu paladar delicado, tinham a precaução de comer opíparamente (I, Cor. XI, 21) Os santos conduziam-se servilmente com os ricos e davam-lhes os lugares de honra, enquanto os pobres comiam de pé ou sentados em bancos. S. Jaime, que é o tipo dos demagogos que pululavam entre os cristãos dos primeiros séculos, indignava-se de «as tentações de que é objecto todo aquele que leva alamares de ouro e vestidos de alto preço... ¿Não escolheu Deus os pobres deste mundo por serem ricos em fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amavam? E, todavia, ¿não os oprimem os ricos e não os levam aos tribunais?» Os Apóstolos e os santos não tinham inventado a mendicidade, mas estavam de acordo em exercê-la.(12)

Oa ricos e os fieis cançavam-se de sustentar os santos e não tinham o menor escrúpulo em protestar contra os seus pedidos constantes. Embora S. Paulo afirme que «Deus ordenou que os que propagam o Evangelho devem viver dele», tem, não obstante, altivez demasiada, para suportar êstes revezes. «Eu nunca me fiz valer desta lei — exclama arrogantemente— nem escrevo isto para evitar que se empreguem contra mim tais argumentos, pois antes preferiria morrer que permitir que alguém atentasse contra a minha glória», (I, Cor., 1, 14 15). S. Pedro era mendicante por temperamento. Para distinguir-se dele, S. Paulo repete com insistência que êle nada tem custado aos fiéis e que tem trabalhado para ganhar o seu pão. Dirigindo-se aos coríntios acrescenta: «eu não peço os vossos bens».

Assim como os cavalos se mordem quando não teem cevada na manjadoura, assim os santos se querelavam quando não havia dinheiro em caixa. Então desencadeavam se as línguas, voavam os insultos e choviam as pauladas. «A língua, disse S Jaime, é um pequeno órgão; no entanto, pode orgulhar-se de grandes coisas. Quantos bosques pode incendiar um pequeno fôgo!... A língua é um pequeno fogo e um mundo de iniquidades... mancha todo o corpo e queima os indivíduos... » (S. Jaime, III 5-8).

As línguas das mulheres eram as mais acesas e abrazavam todas as comunidades, produzindo nos santos e nas santas queimaduras profundas. S. Paulo impõe-lhes silêncio repetidas vezes, dizendo que «é incorrecto que a mulher fale da comunidade». (I, Cor. XIV, 25). As questões de interêsse davam assunto para que as línguas taramelassem. Os conflitos tinham início nas igrejas, para serem solucionados nos «tribunais dos infiéis», em vez de serem liquidados pelos santos, «que julgarão os mundos e os homens» (Cor. V, 1-6). S. Paulo chega a prognosticar que os conflitos e as querelas, conduzirão as comunidades à ruína: «se vos mordeis e vos devorais uns aos outros, cuidai não sejais consumidos uns pelos outros» (Gal. V, 5). A fraternidade não era, pois, a virtude dos santos e dos fiéis no cristianismo primitivo.

Era difícil manter a ordem e estabelecer o respeito nas igrejas dos santos e nas reuniões dos fiéis. Os primeiros cristãos constituíam uma estranha mescla de pobres diabos enfraquecidos pela miséria e invejosos uns dos outros — um conjunto de vagabundos e de canalhas convertidos à bôa fé mercê das vantagens que esta proporcionava. Naquela pequena sociedade abundavam os artistas e as pessoas de baixa condição, as quais, às vezes, se envergonhavam de estar em contacto com aquela crápula. Havia também pessoas anichadas, orgulhosas das suas riquezas, as quais exigiam homenagem em troca dos seus donativos.(13)

A doutrina que os unia não predicava ainda a humildade, propagando, pelo contrário, o sentimento de igualdade, pois que todos, ricos e pobres, homens ricos e escravos, virtuosos e dissolutos, deviam ressuscitar sem distinção e possuír-se de uma alma imortal e de um «corpo incorruptível» para gozar de uma vida eterna. A esperança de alcançar a igualdade depois da morte não contribuía para extinguir os zelos, os desdéns, os ódios e as questões de que enfermavam as sociededes dos primeiros cristãos.

Tornava-se, pois impossível, como se fês mais tarde, predicar a humildade e inculcar a submissão dos primeiros adeptos do cristianismo, aos quais só podia refrear a autoridade mística dos apóstolos. S. Paulo e S. Pedro, apenas se atrevem a impor silêncio às mulheres, chamando-as à obediência marital cujo jugo aquelas tinham a pretenção de sacudir nas igrejas, onde se introduzia a promiscuidade primitiva. Os apóstolos que não dispunham da força material para poder conter os irrascíveis e fogosos santos e fieis(14), viram-se obrigados a dirigir-se aos seus sentimentos, tratando de discipliná-los e de os fazer viver em paz à força de predicar-lhes a amizade fraternal. «Meus irmãos, exclama S. Jaime, não me digais nada uns dos outros. O que fala de um irmão ou julga um irmão, fala contra a lei e julga a lei. Irmãos, tende paciência até à vinda do Senhor». (S. Jaime, IV e V). «Ajudai-vos uns aos outros — repete S. Paulo. Ama o teu próximo como a ti mesmo e cumprirás tôda a lei». (Gal. V, 13. Rom. XIII, 9)(15). «Está próximo o fim de todas as coisas; sede, pois, castos e sóbrios nos lugares destinados à oração; conservai, sobretudo, verdadeira amizade entre si, pois a amizade apaga muitas faltas» (S. Pedro, IV, 7-8).(16) «Meus amigos, amai-vos uns aos outros, pois que Deus é Amor e quem ama é filho de Deus e conhece Deus. Quem não ama não conhece Deus, pois que Deus é amor. (S. João, IV, 7-8). A necessidade de estabelecer a paz entre os santos e fiéis era tão imperiosa, que S. Paulo, no seu capítulo aos coríntios coloca a amizade acima da fé, de todas as virtudes e de todos os sacrifícios: — o apóstolo dos nativos, que se presava de ser letrado, com o que se envaidece, começa o capítulo treze com um hino à amizade imitado de um canto guerreiro de Tirteo(17) «Se falo a língua dos homens e a dos anjos e não tenho amizade, sou um bronze oco ou um prato sonoro. — Se tiver o dom da profecia, se conhecer todos os mistérios e todas as ciências e se tiver a fé que transporta montanhas, mas se me faltar a amizade, não sei nada. Se distribuir todos os meus bens, se entregar o meu corpo para ser queimado, mas se não tiver amizade, tudo isso não me proporciona a menor vantagem(18).

O apóstolo diz que enaltece a amizade porque contém todas as virtudes. «A amizade é paciente, doce; a amizade não tem inveja; a amizade não é presunçosa, nada faz de mau; não se apodera dos bens dos outros, não se liga com a injustiça: — encontra o seu prazer na verdade; esconde tudo, espera tudo, tolera tudo». Numa palavra, a amizade possui todas as qualidades de que careciam os santos(19).

A nova religião, tal como quando Roma foi fundada, acolhia os fugitivos, os proscritos e criminosos sem inquirir da sua procedência, sem inquietar-se com a sua nacionalidade, posição social e moralidade, dedicando-se a agrupá-los e a organizá-los contra o mundo exterior, que era o inimigo. Mas se o Deus dos cristãos não distinguia judeus, gregos nem romanos, homens livres nem escravos, ricos, pobres, virtuosos e criminosos, classificava, todavia, os homens em duas categorias inimigas: — os fiéis e os infiéis.

Os que aceitavam a fé, recebiam o baptismo e comiam simbolicamente a carne de Cristo, eram «santificados» e convertiam-se em «membros de Cristo», tivessem, embora, todos os vícios, continuassem, embora, a satisfazê-los nas igrejas. Os infiéis, mesmo que fossem modelos de virtude, eram escorraçados. «Jesus, diz S. Paulo, revelar-se-à no céu com os amigos do seu poder, exercendo com chamas de lume a vingança contra aqueles que não reconheçam Deus e não obedeçam ao Evangelho: — êstes serão castigados com a pena eterna ante o Senhor e perante a glória do seu poderio. (II, Thes. 1-6 9).

A amizade e o amor fraternal que predicavam os apóstolos e que nas traduções das línguas modernas se denominam caridade, não deviam praticá-la senão entre os cristãos, entre os fiéis; os infiéis eram o inimigo e era contra eles que se devia praticar o ódio eterno. Os santos divertiam-se com a vingança de além-túmulo que Jesus exercia contra eles, para consolar-se da vingança, que não podiam saciar neste mundo.

A nova religião ressuscitava a antiga vingança com todo o seu ardor e com todo o seu cerimonial. O. selvagem e o bárbaro só estavam satisfeitos quando se vingavam por suas próprias mãos; quando a autoridade civil negou ao individuo o direito de exercer a vingança, os filhos da victima, e na sua falta o parente mais próximo devia, em caso de morte, assistir à execução do culpado para que a vingança fosse satisfeita. Isto sucedia ainda na Atenas de Péricles. O Jesus de S. Paulo, como o selvagem, vingar-se-à por si próprio dos infiéis; e Deus, seu pai, alegrará a vista com os seus sofrimentos, pois serão castigados durante a eternidade, «diante de Deus e ante a glória do seu poderio».

Porém quando o cristianismo começou a penetrar nas camadas mais civilizadas da sociedade pagã Jesus e Deus civilizaram-se: — perderam o hábito de vingar-se pelas suas próprias mãos e delegaram em agentes subalternos o cuidado de impor os castigos aos infiéis; e só alguns séculos depois se civilizaram suficientemente para não encontrar prazer em ser espectadores das torturas que os diabos hão-de fazer sofrer aos atirados para o fundo do inferno.

Os cristãos dos primeiros séculos estavam muito longe de possuir costumes ao nível da moral pagã e de manter a sua doutrina à altura do espiritualismo da filosofia sofística de Platão.

II — A Caridade dos Pagãos

O Cristianismo não trouxe ao mundo a caridade e não a havia de trazer porque, muitos séculos antes de Jesus Cristo, já ela florescia em todas as cidades da antiguidade, sendo praticada com uma fraternidade e uma generosidade da qual nunca os cristãos fizeram uma ideia.

Foi preciso tôda a má fé dos escritores religiosos e todo o servilismo dos historiadores e dos moralistas laicos para suster que a caridade data da era cristã. Por escassos que sejam os conhecimentos da vida grega e latina que possam atribuir-se-lhes, é impossível admitir que os ditos historiadores tenham igno- rado que os ricos de Atenas, de Roma e das grandes cidades da Grécia e da Itália, distribuiam às suas portas e em dias fixos, e às vezes diariamente, alimentos aos pobres.(20)

A caridade pagã é inegável: — os «Actos dos Apóstolos» frizam-na bem; a viuva de Tabitha e o centurião Cornélio não tinham esperado receber a fé de Cristo para praticar a caridade, e, precisamente, porque eram generosos nas suas esmolas foi por isso que o mestre S. Pedro, para apoderar-se do seu espírito e dispor das suas bolsas, pôs em prática as suas farças de feiticeiro cruel.

O pobre da sociedade pagã, não era socorrido miseravelmente e por compaixão, como o indivíduo da moderna sociedade cristã. Tito Lívio (II) conta que os cidadãos pobres de Roma tinham direito a viver a expensas do tesouro público, sem que fosse possível impedi-los de exercer nenhuma das «artes sórdidas», comochamavam os homens livres aos ofícios materiais na antiguidade, os quais estavam reservados aos escravos e aos estrangeiros.

Fôra necessário que a miséria os tivesse reduzido à pior condição, para se prestarem a ir trabalhar nas oficinas que o Estado se vira obrigado a estabelecer em Atenas para mantê-los; e só se prestaram a sofrer esta degradação, nos últimos séculos antes de Jesus Cristo, quando a produção mercantil tinha destruído a família patriarcal e engendrado uma nova classe — a burguesia.

O sustento dos pobres era uma das constantes e principais preocupações dos chefes das repúblicas gregas: — faziam-lhes frequentes distribuições de viveres e até de dinheiro, e esta solicitude era levada a tal extremo, que Péricles pagava aos cidadãos indigentes para ir ao teatro e para assistir às assembleias públicas onde se defendiam os assuntos privados e se tratavam as questões públicas.

O número de pobres retribuídos para fazer o acto de presença nestas assembleias era, em Atenas, de mais de seis mil, quási metade da população adulta na posse dos direitos políticos. Aristóteles, assegura que êste hábito era geral em todas as cidades democráticas. O demagogo Cleon faz ascender a três óbolos (30 réis antigos) o salário fixado por Péricles. Com esta soma podia fazer-se frente às primeiras necessidades.

No século V antes de Jesus Cristo, o salário de um operário era, na Grécia, de um dracma, (uns 3 escudos); o preço de meio hectolitro de farinha de cevada era de dois dracmas e o de farinha triga era de três dracmas. Aí por meados do século IV, os salários dobravam e até triplicavam e, conforme a inscrição de Elensis, o preço dos viveres tinha subido paralelamente: — o meio hectolitro de farinha triga valia de cinco a seis dracmas. Paul Guiraud: «La main d'oeuvre industrielle dans l’ancienne Grèce». Paris, 1900.

O Estado recorria constantemente às guerras para ocupar os pobres e á conquista de terras que logo distribuia: — os homens políticos e os cortesãos arruinam-se para dar-lhes pão e festas, «panem et circenses», e a carne dos numerosos animais imolado» sôbre os altares dos deuses eram-lhes entregues.

O Estado e os ricos consideravam-se obrigados a manter os cidadãos pobres, porque alguns desta categoria tinham relações de parentesco ou de outras afinidades com as famílias cujos antecessores foram os fundadores da cidade. Tinham sido desapossados de seus bens de origem pela divisão da propriedade patriarcal, que fora imposta por efeito do desenvolvimento comercial e industrial.

O Estado representava, para esses cidadãos pobres, a antiga administração da comunidade familiar, que devia manter todos os seus membros, adultos, jovens ou velhos, válidos ou inválidos. Os ricos tinham aumentado as suas fortunas nas terras de cidadãos pobres; e êstes podiam apontar a dedo aqueles que os tinham desapossado e que se encontravam na posse dos campos que pertenceram a seus antecessores. Por respeito humano, os ricos viam-sé obrigados a sustentar os pobres que tinham feito, da mesma forma que os Dollfus, os Scherer e outros filantropos da Alsàcia se viram induzidos, há três quartos de século, a fundar instituições de caridade para que os velhos operários, que os tinham tornado milionários, não recorressem à mendicidade nas ruas das suas cidades industriais.

Mas, para ter direito à repartição de viveres e de dinheiro distribuídos pelo Estado, era necessário pertencer à classe dos cidadãos e possuir direitos políticos. Péricles, antes de fazer uma importante distribuição de trigo, ordenou um novo censo da cidade de Atenas e fêz vender como escravos os que não tendo direitos políticos se tinham feito inscrever nos registos dos cidadãos.

Durante as guerras civis, muitas pessoas tinham ido estabelecer-se em Roma para participar das numerosas distribuições de viveres, (trigo, vinho, azeite, etc.) «Congiaria». César mandou revisar as listas e excluir todos .os que não demonstrassem ser cidadãos romanos; de 320 000, que era o número dos inscritos, foi reduzido a 150.000.

O sustento dos cidadãos pobres pelo Estado e pelos ricos era, na sua origem, um dever, e não um acto de benevolência. Julgava-se um dever reparar os caprichos da fortuna e atenuar a miséria provocada pela usurpação dos bens que tinham pertencidoa seus antecessores. O seu sustento era uma recompensa e uma espécie de indemnização. Assim, o pobre da sociedade pagã, não era um degradado, como o é o indigente da sociedade cristã, mantido pela caridade; aquele pobre considera-se igual ao rico, por quem não tinha nenhuma espécie de reconhecimento pelas suas liberdades, que, a seus olhos, era apenas uma simples restituição do que lhe haviam arrebatado. S Jaime expõe de uma forma confusa êste pensamento quando se indigna do servilismo dos santos e dos fiéis ante os ricos que ofereciam donativos às suas comunidades.

O nobre sentimento de fraternidade que baseado num princípio impunha ao Estado e aos ricos o dever de ir em auxílio dos cidadãos pobres, não tardou em degenerar rapidamente, convertendo-se, pelo seu número e pelo seu carácter turbulento, em factor de revoltas e de guerras civis; então só foram atendidos pelo temor que inspiravam. E assim, a distribuição de viveres e de dinheiro, anteriormente limitada aos cidadãos que disfrutavam de seus direitos políticos — em Roma, para ter direito era preciso provar a descendência de uma das tribus fundadoras da cidade — acabaram por ser extensivas, indistintamente, a todos os pobres.

O Senado romano tinha estabelecido desde os seus primeiros tempos uma administração — «o annonae» — para vender o trigo a preço mais baixo que no mercado. Tito Lívio (IV, 12) diz que o seu primeiro prefeito — «proefectus annonae» — foi nomeado no ano 439 antes de J. C. Esta função era tão importante, que o partido aristocrático elegeu Pompeu por cinco anos e que Augusto, logo que foi imperador se preocupou com a instituição, do «annonae», que reformou.

Todas as províncias tinham o dever de enviar a Roma uma quantidade determinada de trigo, cujo preço de venda era fixado pelo Senado. Todavia, os tribunos e os demagogos, para obter os aplausos da plebe, reclamavam reduções, de preço. Sempronio Graco fêz adoptar, 123 anos antes de J. C, a «ley frumentaria» para reduzir o preço do trigo, que 20 anos depois Apuleio Saturtino reduziu novamente. Sylla aboliu a lei de Graco; depois da sua morte o Senado teve de restabelecê-la para evitar distúrbios, e 58 anos antes de J. C., a lei Clodra suprimiu o preço do trigo. Esta supressão custou à República a quinta parte dos seus ingressos. ¿Qual é o Estado cristão que tenha dado provas de tal sentimento de caridade?

O número de pessoas inscritas nas listas das distribuições gratuitas de viveres, e às vezes de dinheiro, era considerável: — César reduziu-o a 150.000, mas Augusto, depois, de feita uma revisão, fê-lo, ascender a 200.000. A inscrição nas listas era uma propriedade que se transmitia por herança e que se vendia. A sua compra equivalia à aquisição de uma descendência, numa das tribus fundadoras de Roma.

Só os homens tinham direito à distribuição de viveres; porém, Nervo e Trajano, tornaram-na extensiva aos órfãos e aos meninos. Três séculos depois de J. C., Aureliano fez distribuir pão em vez de trigo, pelo facto dos pobres não terem meio de moer êste ou de cozer aquele. Constantino, como os papas, teve que seguir o exemplo dos imperadores pagãos; quando transferiu a sede do Governo de Roma para Constantinopla, distribuiu pão a todos os habitantes da cidade. Os imperadores e seus governadores de província, atendiam as necessidades do turbulento populacho de Roma, de Constantinopla, de Alexandria e das demais grandes cidades do império, afim de evitar motins. Já não era o amor, mas o medo ao próximo que motivava então a caridade. Os ricos viviam com um terror constante dos pobres, os quais Sócrates compara aos zangãos («Republica», X), quere dizer, aos parasitas perigosos, de quem há a temer as paixões violentas; quando os pobres tomavam conta do poder, após um motim, aboliam as dívidas e dividiam entre si os haveres dos ricos, que desterravam ou condenavam à morte.

O populacho famélico aumentara de tal modo nos primeiros séculos da era cristã em Roma, Bizâncio, na Alexandria, etc, que o governo imperial e os ricos, contra a sua própria vontade, não podendo alimentá-los nem enviá-los para as colónias situadas nas fronteiras do império ou fazê-los ingressar no exército, viram-se obrigados a recorrer à força para contê-lo. A polícia transformou-se em complemento de caridade.

A função de beleguim era tão menospresada, que os cidadãos se negavam a exercê-la; o Estado ateniense viu-se obrigado a empregar escravos para manter a ordem à chicotada; deste modo os cidadãos livres eram rechassados pelos escravos.

Os imperadores recrutaram bandos de bárbaros— «godos, herúlos, escandinavos, etc.,» —os quais perseguiam a plebe tumultuosa com bastões e látegos, desdenhando servir-se, contra ela, das suas armas de combate. O célebre herói escandinavo, Harolt Alfagarr que no século IX reformou a Noruega, tinha montado a guarda do palácio do imperador de Constantinopla.

Os apóstolos e os padres da igreja recrutaram neste populacho, mantido pela caridade pública e privada, a massa dos primeiros cristãos.

III — A Caridade dos Bispos e dos Monges

Os padres da igreja e os bispos dos primeiros séculos recrutaram os prosélitos do cristianismo entre o populacho indigno, vagabundo e gatuno das cidades do Baixo Império. Viu-se que na eleição dos santos e dos fiéis os apóstolos não eram muito exigentes. E os seus sucessores imitaram-nos. Compreenderam que, se chegassem a ganhar, a dominar e a dirigir esta horda de parasitas dissolutos e famintos, que se rebelavam frequentemente, incendiando e saqueando distritos inteiros, forjariam uma arma terrível para resistir e impor a sua vontade aos imperadores e aos governadores das províncias. Esta foi a idade heróica do cristianismo. Os bispos empreenderam a tarefa de dar de comer àqueles desgraçados, a-fim-de trazê-los dominados pela barriga e pela cabeça.

Os monges do alto Egipto não eram fanáticos, bêbados e vagabundos matreiros como os da Idade Média, mas rudes e laboriosos agricultores, consagrados ao amanho de vastos campos cujas colheitas enviavam aos bispos de Alexandria (por meio de barcos que construíam, e eles próprios dirigiam) para ser distribuídas entre a plebe cristã. Os ricos eram forçados a uma pesada contribuição, e quando a não davam voluntariamente, os bispos e o populacho obrigavam-nos a isso pela perseguição e pela ameaça(21).

Contribuíam com donativos para as igrejas e para os demagogos para se garantirem contra os tumultos e contra os saques que os guardas bárbaros reprimiam brutalmente, mas sem que os conseguissem evitar. Quando achavam o momento propício, os bispos organizavam distúrbios e assaltos. S. Cirilo, patriarca da Alexandria, foi o instigador e o organizador do terrível conflito contra a Hipatia, por efeito do qual foi incendiada e saqueada uma parte da cidade.

O medo e causas políticas eram os factores da caridade .dos cristãos ricos e dos bispos do Baixo Império. S. Cirilo, S. João Crisóstomo e os patriarcas da cristandade eram hábeis e violentos demagogos, que entusiasmavam o populacho, que predicavam a guerra dos pobres contra os ricos e que faziam tremer os imperadores rodeados dos seus soldados bárbaros, exaltando a fúria da plebe e dirigindo as suas paixões sublevadas.

Quando os ricos impuzeram a sua vontade aos imperadores e aos governadores, amainaram a sua cólera contra os ricos e poderosos e abandonaram as suas atitudes demagógicas. E os pobres que, como os apóstolos, tinham sido enaltecidos, apresentando-os como eleitos de Deus, perderam desde então a sua graça: — deixaram de ser aqueles que Deus escolhera «para serem ricos em fé e os herdeiros do seu reino» e converteram-se em seres miseráveis a quem era preciso impor o respeito da força e degradar por meio de uma mesquinha e humilhante caridade. Os bispos afastavam-se da autoridade civil quando esta empregava a força brutal para conter a multidão e para castigar ferozmente os seus distúrbios. A idade heróica do Cristianismo terminara.

Todavia, os papas, que temiam as sublevações da populaça — tanto como os imperadores pagãos, aos quais sucederam — continuaram a sua política e ocuparam-se da alimentação popular, não por amor, mas por medo. Com efeito, eles conservaram o «annonae» como um legado precioso do paganismo. Além disso, os candidatos ao papado e ao episcopado viam-se obrigados a arengar à plebe cristã, a qual tomava parte nas eleições(22).

A «Casa Annonaria», que se converteu num instrumento de reino do papado, foi reorganizada pelo papa Paulo VII, nos princípios do século XVII, afim de impedir as alterações de preço das subsistências, particularmente o pão, que durante dois séculos foi vendido em Roma a 10 e a 11 cêntimos da libra, enquanto a penúria e as fomes periódicas desolavam as cidades europeias. O «Annonae» papal foi extinto no ano 1797 pelo governo revolucionário(23).

Os conventos seguiram o exemplo dado pelos bispos e serviram-se de todos os momentos para limitar a sua amisade com os pobres sempre que motivos políticos assim aconselhassem. Deixaram de preocupar-se com o sustento dos cristãos indigentes, aos quais já não distribuíam o pão cotidiano, embora lhes prodigalizassem orações gererosamente.

Os monges já não trabalhavam a terra para enviar provisões e distribui-las entre os fiéis necessitados. Serviam-se de numerosos escravos e servos para se desembaraçarem de tôda a ocupação produtiva, afim de se dedicarem exclusivamente à mendicidade e à caça das heranças. A abadia de S. Germano, perto de Paris, era no século IX, proprietária de enormes domínios, tratados por uma população de cerca de 9.000 servos e vassalos. A citada Abadia não constituia nenhuma excepção, pois, todos os conventos da Europa da Idade Média possuiam terras de extensão enormíssima. Recebiam, tal como os bispos e os curas, dízimos sôbre as colheitas, independentemente dos direitos senhoriais que exploravam como os barões feudais. A hospitalidade que os monges praticavam com certa liberalidade e as distribuições de viveres que autorizavam em determinadas épocas, não lhes eram excessivamente pesadas. Os dízimos e os censos que recebiam eram em espécies, e, como por falta de vias de comunicação e de comércio era impossível desfazerem-se. vantajosamente do trigo, dos legumes, dos toucinhos, dos carneiros, da criação e de outros productos agrícolas de que dispunham, antes de deixa-los perder, entregavam-nos, em forma de socorro, aos hospitais e aos viajantes e em esmolas aos pobres. Se mostravam alguma generosidade na distribuição de legumes, de trigo e ainda das carnes que não podiam consumir — tão grande era a sua abundância — observavam, pelo contrário, uma certa avareza no vinho que podiam conservar e fazer depósito. As caves dos conventos tinham uma reputação tão grande quanto merecida. O vinho e a boa mesa eram artigos de fé para os monges e para os altos dignatários da Igreja, que, com profunda convicção, predicavam aos pobres o jejum e a mortificação da carne.

A caridade dos monges e dos bispos, que consistia em dar o que não podiam consumir, vender ou conservar, tinha por móbil o medo, já não dos senhores feudais, mas dos grupos de militares que percorriam o país.

As igrejas e os conventos, deficientemente protegidos dos anátemas terríveis com que os papas e os bispos fulminavam os incrédulos que atentavam contra os seus bens, eram, não poucas vezes, entregues à pilhagem. Os chefes bárbaros, os reis e os barões, muito católicos e apostólicos, julgavam-se sempre com o direito de lançar mão aos seus tesouros em casos apertados(24).

Tendo os bispos e os monges que recorrer ao valor popular para proteger-se viam-se obrigados a manter ante as massas aldeãs e operárias o respeito e o amor a seus bens, persuadindo-os de que os conservavam apenas para minorar as suas misérias mediante caritativas distribuições.

Esta caridade, porém, inspirada no medo, desvanecia-se com a desaparição da sua causa originária, quando a força real foi suficientemente numerosa para desembaraçar o reino dos barões e da soldadesca saqueadora. Logo que as estradas se. multiplicaram e ofereceram bastante segurança para se poder desenvolver o comércio, as igrejas e os conventos venderam todo o supérfluo dos produtos agrícolas das colheitas com excepção dos dízimos e das rendas.

Então, os monges e os bispos, converteram-se, cinicamente, em ladrões dos pobres. Com efeito, os bens territoriais e os dízimos e rendas das igrejas e dos conventos, procedentes de donativos feitos por almas bôas para socorrer os pobres, ou mendigados sob êste falso pretexto, não pertenciam aos bispos nem aos monges, mas à igreja, «ekklesia», quere dizer, à comunidade dos fiéis. Os burgueses de 1789 invocaram esta razão para apoderar-se deles, pretendendo fazer entender que os restituíam assim à nação. Comerciando com as colheitas dos bens da igreja e dos conventos, e desviando-as do seu destino caritativo, os monges e os bispos perderam o amor popular que, durante séculos, os acompanhara.

Na Inglaterra e na França foram despojados durante o período revolucionário sem que as massas aldeãs ou operárias se movessem para defendê-los.

Tem-se criticado a igreja católica por estar petrificada na sua doutrina, nos seus dogmas e nas suas cerimónias, supondo-se que tenha permanecido imutável atravez dos séculos. Tem-se mau juizo quando se confere a ela esse diploma de imbecilidade, pois, pelo contrário, ela tem sabido acomodar-se com astúcia rara às circunstâncias ambientes; vestiu a caridade de vários disfarces para utilizá-la no seu estabelecimento e em seu desenvolvimento, para a manutenção da sua autoridade e do seu prestígio. O desprezo pelos bens deste mundo, — êste dogma dos apóstolos e dos primeiros cristãos que só aspiravam os bens de além-túmulo porque não podiam apoderar-se dos deste mundo, — foi tão imediatamente posto de parte como o imediato açambarcamento das riquezas da terra e o tráfico das colheitas e dos dízimos que pertenciam aos pobres. Hoje marcha à frente do movimento industrial e da traficancia comercial. Os conventos são empresas industriais, que em França se dedicam, principalmente, à fabricação de licores alcoólicos, sem desdenhar, por isso, das outras industrias lucrativas.

Os trapenses, depois de terem transformado o seu «irmão, morrer devemos», em «irmão, destilar devemos», deram-se. a explorar manufacturas de porcelana(25).

Os conventos de mulheres entraram no movimento do século. As ordens de mendicantes foram substituídas por congregações religiosas que se dedicam à mendicidade mais cínica e mais importuna. Outras santas mulheres praticam com conhecimento de causa a exploração mais desavergonhada sôbre órfãos, que elas recolhem por caridade... A sua caridade, bem-dita pelo bom Deus dos cristãos, fá-las milionárias!

IV — A Caridade dos Burgueses

A burguesia, para aumentar a sua fortuna — que é uma acumulação de espólios cometidos à custa do trabalho salariado — tem necessidade de poder dispor duma numerosa população de operários livres, desorganizados, sem nenhuma proteção e suficientemente pobres para se verem obrigados a vender por vil preço a sua força de trabalho. A burguesia dividiu sistematicamente os trabalhadores da opressão feudal, destruiu as suas organisações cooperativas e desfês algumas vantagens que lhe oferecia a religião: — os dias feriados da igreja católica, que, com os 52 domingos elevavam a 90 as festas do ano, durante as quais, no antigo regime, não era permitido trabalhar, o que constituía um obstáculo para a exploração do operário, e bem assim a distribuição de sopa e viveres que continuavam praticando alguns conventos, e que traziam de certo modo, aos operários necessitados, um complemento dos seus salários.

O protestantismo, para dar satisfação aos burgueses industriais, que eram muito numerosos nas suas filas, condenou a esmola em nome da religião e aboliu os santos do céu para achar motivo na supressão dos dias feriados na terra.

A revolução de 1789 fês mais. A religião reformada tinha conservado o domingo, mas os burgueses revolucionários, achando que um dia de descanço em cada sete dias era demasiado, substituíram a semana pela «década», e, afim de enterrar definitivamente a memória dos dias feriados, substituíram no calendário republicano os santos por nomes de metais, de plantas e de animais. A lei de 24 de Setembro declarou delito a esmola.

A economia política, esta outra expressão intelectual dos interesses materiais da classe burguesa, secundou a religião reformada em seus atentados contra as instituições de previsão da classe operária: — os aprovisionamentos de trigo feitos pelas municipalidades, a regulamentação do preço de viveres e a «Casa Annonaria» êste modelo das instituições de previsão legado pelo paganismo ao papado, foram objecto de críticas acerbas dos Fisiocratas, de Condorcet, do abade Galiani e de outros, que se tinham convertido nos predicadores da liberdade do comércio dos trigos, que Necker comparava à maior mesa de jogo que possa estabelecer-se, pois «com um só milhão — dizia — se poderia fazer um povo faminto».

Sem embargo, a produção moderna, que para desenvolver-se deve achar trabalho em abundância e a preço reduzido — para o qual os revolucionários burgueses transformaram as condições de vida dos operários e aboliram as corporações e as instituições de previsão do antigo regime — tinha criado, desde o seu aparecimento, um excesso de população operária à qual não podia garantir trabalho, seu único modo de vida.

O número de vagabundos e de mendigos, uma das incuráveis chagas da civilização, passara a ser tão considerável, que, a partir do século XVI, a França teve que adoptar penas terríveis contra eles: — eram condenados ao látego, a ser marcados e a ser enforcados. Estas penas foram modificadas durante o período revolucionário do século XVIII. A lei de setembro, do segundo ano, anteriormente citada, obrigava o mendigo a residir na sua terra natal, a qual devia organizar oficinas para ocupá-lo. Se se atrevia a abandonar a sua população, era condenado à prisão e a trabalhos forçados, e, em caso de reincidência, à deportação para a ilha de Madagáscar.

Durante o reinado de Luiz XV, abriram-se depósitos para os mendigos, que eram verdadeiras prisões onde se maltrataya os vagabundos para fazê-los aborrecer a vida errante. O mesmo fenómeno de excesso de população se produzira na Inglaterra, e, comoapesar da bárbara repressão, as hostes dos vagabundos e mendigos — lançados pela transformação das terras aráveis em terras de pastagens aumentavam incessantemente — teve-se, neste país da reforma protestante, de completar os castigos por caridade. Com efeito, durante o reinado de Isabel, decretou-se as «Poor-laws» (leis dos pobres), que impunham a cada paróquia o sustento dos seus. Estas leis estão, todavia, em vigor e contribuem para êste paradoxal resultado de caridade burguesa: — que o sustento dos pobres corre a cargo dos mesmos pobres. Assim, por exemplo, as paróquias ricas de Londres, de onde o elevado custo dos alugueres afugenta os indigentes, não satisfazem o imposto, enquanto que, nos distritos operários, onde se amontoam, se vêem forçados a fazer grandes sacrifícios para atendê-los. A burguesia criava os pobres para dar-lhes trabalho a preço reduzido, mas, quando aqueles recebiam o número que podia ocupar com proveito seu, recambiava-os para as cidades, restituíam-nos às povoações de origem e condenava-os ao cárcere e aos castigos corporais. Fazia crime da miséria que não lhe produzia riquezas.

A questão dos pobres adquiriu um carácter agudo após os primeiros dias da Revolução de 1789. Bailly, que acabava de ser eleito vereador de Paris, para aliviar as misérias dos trabalhadores que a crise política deixava sem ocupação, reuniu-os em número de 18.000, nas alturas de Montmartre. Os vencedores da Bastilha guardavam-nos com canhões, de mechas acesas.

Esta conduta dos burgueses revolucionários, empreendendo a luta pela «emancipação da humanidade», segundo diziam, indicava à classe operária o tratamento que devia esperar da burguesia vitoriosa.

Quando, porém, para resistir às monarquias europeias coligadas, fôra preciso fazer um chamamento ao valor das massas populares, os burgueses revolucionários usavam outra vez da força para impôr-lhes respeito, prometendo, solenemente, distribuir aos soldados da República mil milhões dos bens dos emigrados. Então, acariciaram os pobres com as declarações demagógicas dos padres da igreja e dos bispos de Constantinopla e de Alexandria. Oito meses depois de ser votada a lei de setembro, ano segundo, a qual não se atreveram a aplicar, Barrere, em 22 de maio do mesmo ano, leu em nome do Comité de Saúde Pública — na convenção, — uma memória sôbre a extirpação da mendicidade..., a qual constituo uma acusação e uma denúncia flagrante contra o governo... « O quadro da mendicidade, não tem sido, até agora, sôbre a terra, mais do que a história da conspiração dos proprietários contra os proprietários». Enquanto os membros da Convenção, davam como ração aos pobres a méra fraseologia filantrópica, iam-se apoderando dos bens do clero e dos hospícios que pertenciam aos desherdados e distribuíam aos proprietários os bens comuns, cuja supressão fez aumentar nos campos o número de trabalhadores reduzidos à mendicidade.

Se a guerra não tivesse alistado e lançado nas fronteiras milhares de operários e aldeões sem trabalho e sem meios de vida, teria havido, possivelmente, um levantamento em tôda a França, nas cidades e nos campos.

A guerra era um meio mais eficaz de desembaraçar-se dos pobres que amontoá-los em Montmartre, assestando sôbre eles os canhões dos vencedores da Bastilha, metamorfoseados, convertidos em cães de fila da ordem burguesa que nascia.

A revolução imprimiu uma marcha acelerada ao movimento industrial. A burguezia, aproveitando-se da liberdade conquistada com a supressão dos jurados, das corporações e dos entraves de todos os géneros que o regime deposto oferecia ao comércio e à indústria, estabelecia fábricas e desenvolvia as já existentes.

Não tardou, por isso, a lutar-se com falta de carne de trabalho, o que se explica por a guerra ter ceifado um número considerável de operários válidos e adultos. Havendo falta de homens, lançou-se mão às crianças, cujo emprego industrial as corporações então extintas tinham proibido. Antes da revolução, os meninos menores de 14 anos não podiam ser explorados nas fábricas, e, acima desta idade, eram poucos em número. O emprego de muitos menores de 14 anos na fábrica de papeis pintados de Réveillon, excitara a cólera dos artistas do arrabalde de Saint Antoine, os quais a incendiaram enquanto se procedia, em Paris, à eleição dos deputados para os estados gerais de 1789.

A questão do trabalho, tal como a da miséria, foi pleiteada desde os começos da revolução. Não bastando os filhos dos operários e dos artistas para as necessidades do consumo industrial, lançou-se mão dos órfãos e das crianças recolhidas pela caridade pública.

«.La Décade»— «o órgão filosófico, literário e político» dos ideólogos e dos economistas, assinala como um triunfo da filantropia o que Boyer-Tondedre, irmão do convencionalista, «proprietário de uma importante fábrica de Toulouse, tenha sido autorizado para escolher 500 meninos dos hospícios e empregá-los nas suas oficinas.... Deste modo, associou à sua fábrica os hospícios de Toulouse, Montpellier, Carcassone e dos povos que a rodeavam». (20 de Março, ano sexto). A exploração industrial da criança e da mulher, que desfez a família operária, é um dos triunfos da filantropia.

Nutrir barato os trabalhadores, para reduzir os salários, era uma das preocupações filantrópicas dos fabricantes e dos economistas do século XVÍII. O trigo era, segundo a sua opiuião, um meio excessivamente caro para nutrir os operários:— acolheram, por isso, com júbilo, a batata, de Parmentier. J. B. Say, fê-la melhor: — encontrou a banana(26).

«La Décade», de 10 de Abril do ano oitavo aconselhava, para nutrir o povo economicamente, substituir «o pão de trigopor um pão que se fabricaria com farinhas de cevada, aveia, milho, favas, batatas e de castanhas».

Quando os franceses estudaram a revolução com sangue-frio e sem prejuízos de classe, aperceberam-se de que as ideias que lhe imprimiram o carácter de grandeza eram provenientes da Suissa, onde a burguesia já se tinha apoderado do poder. Foi de Genebra que Candolle. importou as «cozinhas económicas», que tanto furor fizeram em Paris revolucionário, porque proporcionaram aos pequenos artistas um alimento são e agradável...» «Os directores de fábricas — escreve «La Décade» —deveriam estabelecer em suas oficinas uma caldeira para cozinhar, com evidente vantagem duns e doutros... Não é só o homem sensível que participa das vantagens desta instituição; a política vê que, assegurando ao pobre uma nutrição pouco dispendiosa, tem segura a tranquilidade do Estado».

O conde de Runford, que se apelidou o ministro da humanidade, achava-se à frente dum comité que estabelecia cozinhas económicas nos arredores de Saint Antoine e noutros bairros de Paris. O seco e enrrugado Volney não podia deixar de enternecer-se a contemplar «esta reunião de homens de honrosa posição cuidando duma panela de sopa» («Décade», 10 de nivox (Dezembro) ano décimo).

Eis aqui o que destruía as promessas e a fraseologia demagógica da convenção. A filantropia, cujo nome não apareceu em língua francesa até meados do século XVIII, fazia a sua entrada triunfal na França revolucionária para substituir a caridade -cristã.

***

A revolução preparava o terreno social para o advento da produção mecânica, que encontrava abundantemente e a baixo preço os trabalhadores que necessitava para desenvolver-se e enriquecer a classe capitalista.

O proletariado, a classe produtora, é de criação moderna. Esta classe distingue-se das classes oprimidas e exploradas dos tempos passados. O proletário é um cidadão que disfruta, pelo menos em teoria, de direitos políticos, mas não possui propriedade nem garantia social de espécie alguma: — vive durante o dia do seu salário, que é o preço em troca do seu trabalho. Se o capitalista deixa de ter necessidade desta força de trabalho, deita-a para a rua, sem que se importe com a sorte do operário ou da sua família.

Se, no começo da indústria capitalista, esta carecia de braços, como a agricultura dos nossos, dias, a máquina-ferramenta fez desaparecer êste inconveniente tornando possível o emprego industrial da mulher e da criança e originando um excesso de população que Engels designa com o nome de exército de reserva do trabalho. O capitalista já não receia as exigências operárias; faz a lei para os proletários, fixa despoticamente os salários e as horas de trabalho, afixa os regulamentos da fábrica e impõe as multas e os despedimentos. O pauperismo da sociedade capitalista torna-se igualmente distinto do pauperismo das sociedades anteriores.

As classes desherdadas das cidades antigas dividiam-se em três categorias: — os escravos, os artistas e trabalhadores manuais e os pobres; a maioria destes últimos não conhecia ofício algum, nem queria exercer outro que não fosse o das armas. O Estado e os ricos cuidavam deles. Primeiro, por um sentimento de fraternidade e depois pelo medo dos seus tumultos. Todavia não os exploravam industrialmente.

Depois do século IV, antes de Jesus Cristo, êstes pobres, muito numerosos na Grécia, encontram-se guerreando em todos os exércitos na qualidade de mercenários; vendiam até os seus serviços aos bárbaros (persas, cartagineses, etc), para combater os gregos. Após a conquista da Ásia por Alexandre, e da Grécia pelos romanos, espalharam-se por todo o mundo, exercendo as funções de soldados rheteurs, filósofos, médicos, administradores e parasitas.

Os pobres da sociedade capitalista, fisiologicamente empobrecidos por um trabalho monótono, anti-higiénico e prolongado até ao esgotamento das suas forças, por uma alimentação insuficiente e má e pelo alcoolismo, tuberculose, raquitismo, etc, não possuem o vigor físico, a cultura intelectual e o ardor combativo dos pobres da sociedade antiga; bastam, por isso, as forças da polícia, relativamente fracas, para contê-los. A docilidade e a mansidão que se observam no proletariado, são contemporâneas: — datam apenas de meio século, aproximadamente.

As penúrias frequentes da segunda metade do século XVIII, motivadas pelo rápido crescimento das populações urbanas, pela falta de caminhos e pela imperfeição dos meios de transporte, provocaram tumultos que prepararam o povo dos campos para a revolução. Um deficit sensível na colheita de cereais era, ainda na primeira metade do século XIX, susceptível de produzir agitações populares. A má colheita de 1847 foi uma das causas ocasionais da revolução de 1848. Os pobres inspiravam então terror às classes governantes. A sua nutrição era uma das preocupações dos homens de Estado. Os governos mais reaccionários não vacilavam, quando a colheita fora má, em suspender as tarifas alfandegárias e em estimular as importações estrangeiras para deter a alta do preço do pão. O medo aos pobres está hoje desvanecido, e os ministros e os deputados votam tranquilamente os direitos protectores para fazer o pão caro... Os chefes da indústria, que no segundo império reclamavam, não obstante a entrada franca de cereais e de gado, a-fim-de que os operários pudessem alimentar-se a preços reduzidos, têm tamanha confiança em poder manter os salários na sua expressão mais ínfima — qualquer que seja o preço dos víveres — que já não se interessam pela alimentação operária, fazendo até causa comum com os agrários, interessados em impor direitos elevados à entrada da carne e dos cereais.

As classes ricas, sentem-se de tal forma protegidas contra qualquer revolta dos pobres — pelo costume e pela resignação destes à sua sorte miserável — que nem sequer se preocupam.

Estas classes temem só as reivindicações individuais e anarquistas, ou sejam os roubos e os assassinatos. Todavia, negam-se a investigar acerca das causas dos delitos e dos crimes, cujo número aumenta à medida que a civilização progride, ante o receio de ter que reconhecer que a ordem soeial de que êles beneficiam, é a única responsável da sua origem. Os legisladores que votam as leis e os magistrados que as aplicam, estão muito longe de considerar o livre alvedrio, o espiritualismo e o cristianismo como um dogma intangível da justiça e conceituam que o criminoso é o único responsável das faltas cometidas.

Lombroso e a sua escola de farsantes, pretendendo descobrir na organização física do criminoso a causa dos seus delitos, não fizeram outra coisa senão pôr a descoberto uma aparência de falsa ciência anatómica para os confirmar em sua opinião. Sem embargo, há três quartos de século, Quetelet chamou a atenção sôbre as relações que existem entre o número de delitos e de crimes cometidos e o preço do trigo. Quando Quetelet realizava as suas estatísticas comparadas, o preço do pão estava sujeito a grandes variações, que podiam constituir um principal factor do brusco crescimento da criminalidade. Há meio século, porém, particularmente depois da enorme produção de cereais dos Estados-Unidos, que data de 1880, o preço do pão oscila dèbilmente em volta de um preço médio, o que não impede que a criminalidade aumente sem cessar e que durante determinados anos êste aumento adquira ainda maiores proporções. Admitindo ainda que o preço do pão constitua uma causa constante da criminalidade, precisa, todavia, do aceleramento momentâneo de alguma coisa mais do que o preço do pão.

Utilizando as estatísticas publicadas de 1826 a 1880 pelo Ministério da Justiça, analisei a acção que podiam ter sôbre a criminalidade os conflitos do comércio e da indústria, que se traduzem por quebras e que precedem e acompanham as reduções de salários e «chômage»; descobri que o número de delitos e de crimes aumentava bruscamente quando o das quebras aumentava, para diminuir quando os negócios se reanimavam. Os assassinatos não pareciam sofrer a influência das quebras; os atentados ao pudor eram, em razão inversa, mais numerosos durante os anos de prosperidade, quando as quebras diminuíam. Durante a época de quebras persistentes e de intensa crise de trabalho, os pobres, privados deste e por conseguinte dos meios de subsistência, não tinham outros meios senão os de procurar recursos no roubo, «êste direito outorgado pela natureza», disse Carlos Fourier.

A classe capitalista, que se desinteressa das causas da criminalidade que a civilização provoca, interessa-se, todavia, na repressão dos delitos e dos crimes, afim de proteger os seus membros contra as reivindicações individuais e anarquistas dos pobres. Os homens políticos, os moralistas e os filantropos têm-se dedicado a aperfeiçoar o regime penitenciáriro, e de tal forma o têm conseguido, que o seu desenvolvimento pode ser tomado como medida de civilização dum povo. Há um século, têm-se multiplicado os cárceres, os presídios e as colónias penitenciárias, importando-se dos Estados Unidos a espantosa prisão celular. A exploração burguesa não perde os seus direitos sôbre os presos, os quais constituem uma fonte de receita para os que fazem trabalhar e um meio de reduzir os salários do trabalho livre.

Não conseguindo a repressão brutal reduzir o número crescente dos criminosos que a sociedade capitalista forja, viu-se obrigada a imitar a Inglaterra de Isabel e estabelecer instituições de caridade, assistência pública, fatia de pão, hospitais que proporcionam aos estudantes e aos doutores meios de prática e de estudo, asilos que durante a noite limparam a rua de vagabundos perigosos para os passeantes, etc.... O medo é a mãe da caridade pública. Os burgueses puzeram em moda a caridade, quer praticando a filantropia a 6% com os alugueres operários, quer abrindo subscrições públicas em que tomam parte ou como méro passatempo. Para as senhoras do capitalismo, a caridade é um pretexto para intrigar em comissões organizadoras de festas deste género, para bailar, flirtear, comer pasteis e beber «champagne» nos bazares de caridade. Os pobres servem para tudo: — os senhores capitalistas tiram deles proveito, e prazeres as senhoras. Os pobres são, para êles, uma bênção do bom Deus. Só por Jesus ter dito: «haverá sempre pobres entre vós», creriam na sua divindade.

A classe capitalista que, sistematicamente, empobrece e desorganiza a classe trabalhadora, julga-se segura contra tôda a reivindicação colectiva, pela sua falta de coesão, pela sua miséria económica e fisiológica e pelos sabres e baionetas dos polícias e dos soldados. Porém, o admirável valor, a inquebrantável resistência e a formosa disciplina, da qual os trabalhadores têm dado prova em algumas grandes greves, que duram semanas e meses, são demonstrações inegáveis da energia indomável que vive latente nas massas do proletariado e que um acontecimento político ou uma crise económica geral pode despertar e desencadear.

A classe capitalista verá então quanto pesam na balança duma revolução social a polícia e o exército que protegem a sua dominação económica e política. O proletariado sublevado varrerá tôda a resistência, nacionalizará os meios de produção e estabelecerá a comunidade de bens. Então, como na época do comunismo primitivo, a humanidade não conhecerá a degradante caridade. Não haverá ricos para distribui-la, nem pobres para recebe-la.

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Notas:

(11) O «Padre Nosso», a oração cristã por excelência «(S. Mateus, V, 9-14)» foi desnaturalizado de um modo extraordinário pelos tradutores. Os primeiros cristãos, para quem foi composto, eram uns pobres diabos, faltos de pão e com mais dívidas que pecados. Por isso, pediam ao Pai celestial que aplacasse a sua fome e que os desembaraçasse de seus credores, alguns dos quais, embora convertidos à nova fé, «levavam-nos ante os tribunais» dos pagãos, (Epístola de S. Jaime, II, 6). Ao rezar o «Padre Nosso», também imploravam a Deus o pão cotidiano – «panem quotidianum» — e a abolição das suas dívidas – «remite nobis debita nostra».
Pedir a abolição das dívidas pode parecer aos capitalistas judeus e cristãos da nossa época uma reclamação abominável; não obstante, a sua abolição era coisa freqüente no mundo antigo, pois na Judeia efectuava-se com toda a regularidade no ano do grande jubileu, e nas cidades gregas, todas as vezes que o partido democrático se apoderava do poder, depois de um tumulto, eram suprimidas também.
Nas excavações praticadas em Éfeso, no ano de 1870, encontraram-se inscrições que consignavam que um século antes de Jesus, os magistrados da cidade, na previsão que rebentasse uma guerra contra Mitridates, tinbam abolido as dívidas, excepto aquelas que estavam garantidas por uma hipoteca.
A promessa de abolir as dívidas era um dos melhores meios de propaganda do cristianismo primitivo. Num diálogo, «Filopatris», atribuído a Luciano, mas cujo autor vivia em Alexandria no tempo de Juliano, o Apóstata, fala-se de predicadores cristãos que anunciavam que «Cristo abolirá as dívidas privadas e públicas e reembolsará os credores». Como se vê, as dívidas eram perdoadas, como se pede no «Padre Nosso», mas os credores serão reembolsados. Por isso, os primeiros cristãos não se inquietavam.
Logo que os ricos começaram a ser numerosos entre os fieis, para não serem maçados nem obrigados a afastar-se perante a ameaça da perda dos seus interesses, começou a ser torturado o texto da oração dominical. Com efeito, Tertuliano escreveu um tratado para demonstrar que «debita» não havia de ser tomado como dívidas, no seu sentido literal, mas no sentido figurado de «pecados», de ofensas, quere dizer, de dívidas para com Deus. Falsificando o texto chamado sagrado, os padres da Igreja e os tradutores adotaram a significação de pecados. Todavia, a tradução espanhola do «Padre Nosso» diz dívidas por «debitas»; a última revisão da tradução inglesa do Novo Testamento de 1880, estabelece a significação primitiva e diz «debts» (dívidas) em vez de pecados. As dívidas passaram a ser tão sagradas que nem o próprio Padre eterno poderia aboli-las. Por isso, os pastores ingleses que revisaram a tradução, não julgaram pertinente alterar o texto grego. A história da interpretação de «debita» põe a descoberto a evolução do cristianismo primitivo. (retornar ao texto)

(12) O cristianismo é a religião dos parasitas e dos mendigos. É, por isso, a religião da classe burguesa, a classe parasitária por excelência. (retornar ao texto)

(13) Entre os santos e os fiéis cujos «corpos santificados, eram os membros de Cristo», navia «fornicadores adúlteros, pederastas, ladrões, bêbados, avaros e difamadores»; numa palavra, havia a gente mais crapulosa. É preciso aceitar está vergonhosa verdade, visto que S. Paulo a expõe no seu primeiro capítulo aos coríntios (VI, 10-11). O procedimento incorrecto daquela gente, convertia as igrejas em lugares de libertinagem. «Diz-se em tôda a parte — escreve aos coríntios o apóstolo dos nativos — que a prostituição reina entre vós, e que é tal, que entre os nativos não se vê coisa semelhante. Um qualquer de vós dorme com a esposa de seu pai». (I, «Cor.» V. I). A predicação evangélica não melhorou os costumes dos fiéis da Judeia, não obstante os quatro séculos de moralização cristã. S, Gregório de Nisa, aconselha «não, ir a Jerusalém», pois, «muito longe de achá-la isenta de coisas más, esta terra que recebera a impressão da verdadeira vida, achou-a infestada de todas as impurezas imagináveis. Reinam nela a avareza, o adultério, o roubo, a idolatria, o envenenamento e, particularmente, o assassinato... O homicídio realiza-se aqui com mais facilidade que em parte alguma do mundo». Que devemos pensar de Renán e das suas fantasias idílicas!
Lendo os «Actos» e os «Capítulos dos Apóstolos», compreende-se o horror e a aversão que os primeiros cristãos inspiravam aos pagãos. Aqueles costumes dissolutos não podiam continuar; os apóstolos fizeram o possível por modificá-los, embora sem obter grandes resultados, pois constituíam uma das maiores atracções do Cristianismo nos seus tempos primitivos. Tais costumes só se foram modificando lentamente, embora persistissem em tôda a sua impureza, em algumas seitas, entre elas a dos Cainitas, no século II da era cristã.
Durante a reforma protestante, floresceram na Inglaterra numerosas seitas — as Familistas da Montanha, os Gríndletonianos, a Quinta Monarquia, etc, as quais professavam como princípio, que sendo os seus membros santos, estavam, por conseqüência, acima de tôda a lei e de tôda a moral humana e divina, e, como se pecava somente pela crença de que se violava uma lei civil ou religiosa, os santos, que não conheciam nenhuma, não pecavam, nem mesmo cometendo as piores acções. (retornar ao texto)

(14) Logo que o imperador Constantino reconheceu legalmente o Cristianismo, os bispos apenas se dedicaram a armar-se da força repressiva, primeiro arrancando aos imperadores cristãos a jurisdição eclesiasta sôbre o clero e depois sôbre os fiéis laicos. Estilicon aboliu, sob o domínio de Horácio, imperador do Ocidente, êste privilégio; porém, Olímpias, que lhe sucedeu no trono depois de tê-lo feito assassinar, restabeleceu-o no ano 408 e substituiu a acção dos magistrados pela da Igreja. Esta jurisdição inapelável colocava o bispo acima do governador da província. O eunuco Jovios, que o substituiu no favor imperial, restabeleceu-o de novo e impediu que se violentasse os heréticos e os pagãos com o fim de convertê-los ao catolicismo saído do concílio de Nicea. Este facto dará uma ideia do despotismo com que procediam os bispos: — Tendo ido os monges dum convento, com o seu superior à frente, pedir a Nestório, bispo de Constantinopla, explicações a respeito da interpretação da dupla natureza de Cristo, mandou-os açoitar e enviou-os ao magistrado acusando-os de o terem insultado. Não os tendo achado culpados, o magistrado enviou-os de novo ao bispo, o qual os fez novamente açoitar. (retornar ao texto)

(15) Traduz-se próximo por visinho, por se supor que S. Paulo trata de tornar extensivo este amor a todos os homens, embora nesta e noutras passagens, peça aos santos e aos fiéis que apenas tenham amizade aos que participam da sua mesma fé, com o que nada mais faz que interpretar e repetir a antiga lei hebraica que diz: — «não exercerás vingança nem reservarás ódio aos filhos do teu povo: — Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Eterno». (Levitico, XIX —18). É sabido que, para os israelitas, tal como para os povos da antiguidade, o estrangeiro é o inimigo. (retornar ao texto)

(16) Esta citação, cuja tradução foi revisada com o texto grego, dá uma ideia das orgias e dos actos de libertinagem que se realizavam nas igrejas. O Mestre Pedro, que dera a morte a Ananias e a Safira por êstes terem ficado com uma parte do dinheiro procedente da venda de seus bens, com o pretexto de que tinham mentido ao Senhor, contenta-se em recordar aos qne rogavam nas igrejas, ao mesmo tempo que nelas fornicavam e se embriagavam, porque o fim do mundo está próximo. (retornar ao texto)

(17) Os cristãos apoderavam-se da literatura e da filosofia gregas. Para contestar Rufino, que o critica pelas suas cópias dos autores profanos, S. Jerónimo desculpa-se dizendo que S. Paulo, no seu capítulo dedicado a Tito, cita um verso de Epinemida, em sua Primeira Parte aos coríntios uma passagem de Menandro e na disputa de Atenas um verso de Arato. (retornar ao texto)

(18) A tradução latina, ampliando o texto grego, diz: — «Se distribuir todos os meus bens «para alimentar os pobres». Esta adição, fielmente reproduzida pelos tradutores das línguas modernas, autoriza o leitor a supor que os primeiros cristãos tinham o costume de dar indistintamente seus bens a todos os pobres, enquanto S. Paulo apenas fala dos que os distribuem aos santos das comunidades. (retornar ao texto)

(19) Renán disse algures que as discussões dos Congressos e dos diários socialistas sobre pontos de doutrina recordam as questões das seitas cristãs sobre os dogmas da Igreja. Se é possível estabelecer comparações entre os primeiros cristãos e os socialistas pelo ardor e pelo interesse demonstrado na disputa de questões que aos indiferentes parecem de pouca monta, não se pode comparar a sua moralidade. Há mais de trinta anos que milito nas filas do partido socialista internacional e nunca vi, na Europa e na América, que tenha sido preciso predicar aos socialistas a decência e a amizade, como o faziam os apóstolos aos santos e aos fiéis. Pelo contrário, os militantes do socialismo distinguem-se geralmente pelo espírito de fraternidade e pela dignidade da sua vida privada e pública. O Cristianismo primitivo e o Socialismo têm isto de comum: — São movimentos populares; assim, um militante socialista está melhor preparado para as suas lutas diárias, que um letrado com a sua vida de gabinete para compreender as paixões dos primeiros cristãos. (retornar ao texto)

(20) Estrabão, que foi contemporâneo dos apóstolos, diz que «os rodenses mostram-se muito zelosos do bem-estar do povo, embora a sua república não seja uma democracia: esperam, com isso, conter a classe tão numerosa dos pobres; além das distribuições periódicas, de trigo, feitas pelo Estado, osparticulares enchem-nos de liberalidades. Esta liberalidade dos ricos, assume, amiúde, o caracter duma «liturgia» (serviço público). Vem por conta deles um abastecimento completo de viveres, de modo que o pobre tem sempre assegurada a sua subsistência»(XIV). (retornar ao texto)

(21) Augusto Thierry, na sua «Histoire de Saint Jérôme» páginas 480 e seguintes, conta o meio de que usou Santo Agostinho para arrancar o dinheiro a um rico romano de família patrícia, convertido ao cristianismo. Tendo-se dirigido Piniano e sua mulher com o bispo Alipius a Hipona, para falar com Santo Agostinho, — em que era bispo, — os curas da jurisdição episcopal organizaram um «complot» com o fim de se apoderarem dos seus bens. «Estava-se à caça da gente rica — disse A. Thierry — atraíam-na, rodeavam-na de perigos, e até, a míude, a violentavam. A vocação para o sacerdócio, considerada de longe como uma obra de iluminação do Espírito-divino, não era mais, ás vezes, do que um tenebroso cálculo de Satanaz».
Enquanto Santo Agostinho oficiava, rebentou um tumulto dentro da igreja. Ameaçados Piniano e sua mulher pelo populacho, tiveram que jurar não abandonar Hipona. Alipius, que fugira para não ser vítima dos fiéis, escreveu a seu amigo Santo Agostinho para lhe fazer sentir que um juramento arrancado pela força não era válido. O piedoso bispo manteve o contrário; que, «quando se faz uma promessa, é necessário cumpri-la: — que violar o juramento é um crime e que interpretá-lo constitui outro crime ». O desgraçado Piniano só foi perdoado pelo seu juramento depois de estar completamente espoliado dos seus haveres. Esta edificante história só é conhecida pelas cartas de Santo Agostinho. (retornar ao texto)

(22) As eleições papais e episcopais davam sempre lugar a motins e a sangrentas lutas entre as facções rivais. A eleição do papa Damasco, no século IV, foi assinalada numa igreja pela morte de mais de 200 pessoas; a autoridade civil teve que intervir para dominar a populaça e para alcandorar o papa Ursin que aquela elegera e aos numerosos sacerdotes que este consagrara. (retornar ao texto)

(23) A câmara apostólica do «annonae» qualquer que fosse a abundância ou a penúria de trigo, vendia-o aos padeiros à razão de 7 escudos romanos (37,10 francos) cada «rubio», que pesa 640 libras. Os lucros da «casa annonaria» compensaram os prejuízos até 1768; nesta época começou uma alta no preço do trigo, que foi aumentando até ao fim do século. O papado, temendo o descontentamento popular, continuou, a pesar destes prejuizos, vendendo o pão ao mesmo preço. Assim, quando em 1797 foi destituído o governo pontifical, o «annonae» apresentava um «déficit» de cerca de um milhão e meio dè francos. (retornar ao texto)

(24) Carlos Martel, avô de Carlos Magno, que fundou o reinado temporal do papado, roubava os bens da Igreja para distribui-los pelos seus guerreiros. Os reis feudais pensavam que as riquezas eclesiásticas estavam amealhadas para socorrer as suas necessidades urgentes e atentavam contra os mosteiros e igrejas como atentavam contra os judeus. «O clero, porém, recebia tanto—disse Montesquieu a este respeito — que, seguramente, em três gerações reais, deu-se-lhes muitas vezes mais o valor igual a todos os bens do reino». (retornar ao texto)

(25) Os trapenses, que se saúdam com o macabro «irmão, morrer devemos», e que, para distraír-se cavam a-sua própria cova, são trapaceiros tão hábeis como ferventes cristãos. Eis um exemplo do seu procedimento: — O mosteiro da Grande Trapa, de Saligny, comprava, em 1894, a uma viúva chamada Arnoulin, pelo preço de 6.200 francos, uma extensão de terreno de 12 hectares, denominado a Grande Bruyère de Prépotin. Os monges, que por intermédio dum irmão da comunidade, hábil químico e geólogo, sabiam que a propriedade continha ricos jazigos de caolino e de areia para vidro, oonstituiram imediatamente, depois da compra, uma sociedade anónima, com o capital de dois milhões — do qual se destinava para os 12 hectares de terra uma soma de 800.000 francos, representada por 16.000 acções de 500 francos!
A senhora Arnoulin, que ignorava as riquezas contidas na sua antiga propriedade — vendida por baixo preço — pediu aos trapenses uma parte do seu valor maior. Os piedosos velhacos negaram-se a aceder. Então, a referida senhora levou o assunto ao tribunal de Mortagne, o qual lhe deu razão, calculando que o sub-solo da «Grande Bruyère» continha no momento da venda um valor importante, o qual não fora tomado em conta no preço da aquisição. Todavia, aqueles homens de Deus, não se submeteram àquele parecer dos homens e apelaram para a audiência de Caen, que confirmou a decisão do tribunal de Mortagne. Enraivecidos, por não terem podido consumar a extorsão, tiveram que pagar o terreno em conformidade com a avaliação dos peritos. (retornar ao texto)

(26) J. B. Say expõe com, grande satisfação, na sua «Economia Política» (Livro I e XVII) a superioridade da banana. Um mesmo terreno produz 106.000 quilogramas de bananas, 2.400 quilogramas de batatas e 800 de trigo. Uma média de um hectare semeado de bananas, do México, pode nutrir mais de 60 indivíduos, enquanto que o mesmo terreno, semeado de trigo, na Europa, nutre apenas duas pessoas. A batata cultivada na Itália e na Inglaterra, a partir do século XVII, não entrou no consumo popular até à primeira metade do século XIX. (retornar ao texto)

Inclusão 11/02/2010
Última alteração 07/05/2014