Capitalismo e Agricultura nos Estados Unidos

V. I. Lênin


12. Os diferentes tipos de explorações na agricultura


O que acabamos de dizer a respeito de explorações capitalistas importantes e intensivas, desenvolvidas em terrenos de pequena extensão, invoca a seguinte questão: existem fundamentos para se pensar que a intensificação da agricultura deva conduzir a uma redução de superfície da exploração? Em outros termos, existem condições vinculadas à própria técnica da agricultura moderna, que exijam' uma redução da superfície da exploração para que a agricultura se torne mais intensiva?

Nem as considerações teóricas abstratas, nem os exemplos, podem fornecer uma resposta a esta questão. Trata-se do nível concreto da técnica em determinadas condições da agricultura, e do valor concreto do capital necessário a um determinado sistema de exploração. Em teoria, é possível conceber qualquer investimento de capital, de qualquer ordem de grandeza, em qualquer quantidade de terra; mas o certo é que "isto depende" das condições económicas, técnicas, culturais, etc., existentes, e toda a questão consiste precisamente em saber quais são as condições existentes em um determinado momento em um país determinado. Os exemplos não são convenientes, pois, num domínio de tendências tão complexas, diversas, confusas e contraditórias, como o da economia da agricultura moderna, á sempre possível encontrar exemplos que confirmem opiniões opostas. E necessário aqui, antes de tudo e mais que em qualquer outra parte, um panorama do processo no seu conjunto, considerando todas as tendências, e resumi-las na forma de uma resultante, O terceiro sistema de agrupamento utilizado pelos estatísticos americanos, em 1900, permite responder a questão levantada. Trata-se do agrupamento segundo a principal fonte de renda. A partir deste indicador todas as farms são repartidas entre as seguintes categorias: 1 . feno e cereais como principais fontes de renda; 2. mistas; 3. pecuária; 4. algodão; 5. legumes; 6, frutas 7, laticínios; 8. tabaco; 9. arroz; 10. açúcar; 11 . flores 12. produtos de estufa; 13. colocásia(1*); 14. café. Em conjunto as sete últimas categorias (8-14), representam apenas 2,2% do número total das propriedades, ou seja, uma fração da ínfima que não nos deteremos aí mais pormenorizadamente. Por seu caráter e importância económica estas categorias inteiramente semelhantes às três precedentes (5-7), e com alas um único e mesmo tipo. Eis os dedos que caracterizam estas diferentes propriedades:

Grupos de farms
segundo a principal
fonte de
riqueza
Porcentagem
do número
total de
farms
Quantidade
média de
terra
p/ farm
  Média em dólares por acre de superfície total
Superfície
total
cultivada
Gastos
com
mão de obra
assalariada
Despesas
com
adubos
Valor dos
instrumentos
e máquinas
Valor do
conjunto
do gado
Feno e cereais 23,0 159,3 111,1 0,47 0,04 1,04 3,17
Mistas 18,5 106,8 46,5 0,35 0,08 0,94 2,73
Pecuária 27,3 226,9 86,1 0,29 0,02 0,66 4,45
Algodão 18,7 83,6 42,5 0,30 0,14 0,53 2,11
Legumes 2,7 65,1 33,8 1,62 0,59 2,12 3,74
Frutas 1,4 74,8 41,6 2,46 0,30 2,34 3,35
Prod. Leiteiros 6,2 121,9 63,2 0,86 0,09 1,66 5,58
Conjunto das farms 100,0 146,6 72,3 043 0,07 0,90 3,66

Verificamos que as duas primeiras categorias (feno e cereais; mistas), podem ser classificadas como médias, tanto pelo grau de desenvolvimento do caráter capitalista da exploração (os gastos com mão-de-obra assalariada são os mais próximos da média: 0,35-0,45, enquanto a média é de 0,43 para o conjunto dos Estados Unidos), quanto pela intensidade da agricultura. Todos os indicadores da intensidade da exploração (despesas com adubos, valor das máquinas e do gado por acre de terra) são os mais próximos da média geral para o conjunto dos Estados Unidos. Não há dúvida de que estes dois grupos sejam particularmente típicos da maioria das explorações agrícolas em geral. O feno e os cereais, seguidos do conjunto dos diversos produtos agrícolas (as fontes "mistas" de renda), são os principais tipos de explorações agrícolas em todos os países. Seria bastante interessante possuir dados mais detalhados sobre estes grupos para, por exemplo, subdividi-los em grupos mais ou menos mercantis, etc. Contudo, como vimos, as estatísticas americanas, após terem dado um passo nesta direção, não mais avançaram, mas recuaram. As duas categorias seguintes — pecuária e algodão — fornecem o exemplo das farms menos capitalistas (gastos com mão-de-obra assalariada: 0,29-0,30, para urna média de 0,43), e cuja agricultura menos intensiva. O valor global dos instrumentos e máquinas é nitidamente inferior à média (0,66 e 0,53 contra 0,90), E óbvio que a quantidade média de gado por acre nas farms cujo rendimento essencial é fornecido pela pecuária, é maior do que a média para os Estados Unidos (4,43 contra 3,66); mas trata-se, evidentemente, de uma pecuária extensiva: as despesas com adubos reduzem-se à taxa mínima, a dimensão média das farms é a maior (226,9 acres), a proporção de terra cultivada é a menor (86,1 acres sobre 226,9), O consumo de adubos nas explorações algodoeiras é superior à média, mas os outros índices de intensidade da agricultura (valor do gado e das máquinas por acre de terra), são os mais baixos.

Enfim, nas três últimas categorias (legumes, frutas e produtos leiteiros), as farms são, em primeiro lugar, as mais reduzidas (33-63 acres de terra cultivada contra 42-8 e 46-111 nas outras categorias); em segundo lugar, as mais capitalistas: os gastos com mão-de-obra assalariada são os mais elevados, de 2 a 6 vezes superiores à média; em terceiro lugar, as mais intensivas. Quase todos os índices de intensidade da agricultura são aqui superiores à média: as despesas com adubos, o valor das máquinas, o valor do gado (unia pequena exceção é constituída pelas farms frutíferas que, neste aspecto, estão abaixo da média, permanecendo superiores às farms que retiram sua renda, sobretudo do feno e dos cereais).

Passemos agora a estudar o lugar exato ocupado por estas farms altamente capitalistas no conjunto da economia do país. Mas antes devemos nos deter um pouco mais em seu caráter intensivo. Consideremos as farms que retiram seu principal rendimento dos legumes. Sabe-se que em todos os países capitalistas o desenvolvimento das cidades, fábricas, cidades industriais, terminais ferroviários, portos, etc., provoca uma demanda crescente de produtos deste gênero, faz subir seus preços, aumenta o número de empresas agrícolas que os produzem para a venda. A exploração "hortigranjeira" média possui uma superfície cultivada três vezes menor que a da farm "comum", que retira sua renda, sobretudo do feno e dos cereais: a primeira é de 33,8 acres, a de 111, 1. O que significa que uma determinada técnica para um determinado tipo de acumulação de capital na agricultura, requer dimensões menores, quando se trata de uma farm hortigranjeira; em outros termos, para investir um agricultura e obter um lucro que não seja inferior à media, é necessário, no atual estágio técnico, uma superfície para urna exploração que produza legumes do que para que produza feno e cereais.

Mais ainda. O desenvolvimento do capitalismo na agricultura consiste, acima de tudo, na passagem da agricultura natural à agricultura mercantil. Isto é sempre esquecido, e é preciso que se insista continuamente neste ponto. Quanto ao desenvolvimento da agricultura mercantil, ele não segue, de forma alguma, a via "simples" imaginada ou suposta pelos economistas burgueses, e que consistiria no crescimento da produção dos mesmos produtos. Não, O desenvolvimento da agricultura mercantil consiste, com maior frequência, na passagem de uma determinada produção à outra, A passagem da produção do feno e dos cereais à dos legumes insere-se precisamente nestas transformações em curso. Mas o que significa uma tal passagem cai relação à questão que nos interessa, a da superfície da exploração e do desenvolvimento do capitalismo na agricultura? Ela significa o desmembramento da "grande" farm de 111,1 acres, em mais de três "pequenas" farms de 33,8 acres, A produção da antiga farm era de 760 dólares (valor médio dos produtos, deduzidos os que servem para alimentar o gado) numa farrn cuja renda principal é obtida do feno e cereais, A produção de cada nova farm é de 665 dólares, O que perfaz um total de 665 x 3 = 1.995 dólares, ou seja, mais do dobro.

A eliminação da pequena produção pela grande faz-se acompanhar de uma redução da superfície da exploração.

A média de gastos com mão-de-obra, que era de 76 dólares na antiga farm, eleva-se a 106 dólares na nova, ou seja, um aumento próximo da metade, enquanto a superfície se reduz em mais de três vezes. As despesas com adubos passam de 0,04 dólares por acre a 0,59 dólares, aumentando de quase 15 vezes; o valor dos instrumentos e máquinas dobrou, passando de 1,04 a 2,12 dólares. Alguém objetará, como se faz habitualmente, que o número destas farms tipicamente capitalistas, que praticam culturas especiais, "mercantis", é insignificante em relação ao número total de explorações. Ma nós responderemos, em primeiro lugar, que o número e o papel de tais jarras, seu papel económico, 6 infinitamente superior ao que geralmente se supõe; em segundo lugar, e aí está o essencial, que são precisamente estas culturas que crescem com maior rapidez nos países capitalistas. Por isto, a redução da superfície da exploração, acompanhada de um processo de intensificação da agricultura significa, com muita frequência, um aumento, e não uma redução do volume económico da produção; um acréscimo, e não uma redução da exploração do trabalho assalariado.

Eis a este respeito dados precisos fornecidos pelos estatísticos americanos, abrangendo o conjunto do país. Consideremos todas as culturas especiais ou "mercantis", enumeradas acima sob as rubricas 5 a 14: legumes, frutas, laticínios, tabaco, arroz, açúcar, flores, produtos de estufa, colocásia e café. Em 1900, nos Estados Unidos, o número de farms nas quais estes produtos constituíam a principal fonte de renda elevava-se a 12,5% do número total. Trata-se, portanto, de uma pequena minoria correspondente à oitava parte. A superfície destas farms representava 8,6% da superfície total, ou seja, apenas 1/12. Mas prossigamos. Consideremos o valor global dos produtos de toda a agricultura americana, com exceção daqueles que servem para alimentar o gado. Sobre este valor, a participação das farms acima já é de 16%, ou seja, uma proporção quase duas vezes superior à da terra.

O que significa dizer que, nestas farms, a produtividade do trabalho e da terra é quase duas vezes superior à média.

Consideremos o montante global dos gastos com mão de obra assalariada na agricultura americana. A parcela das farras mencionadas acima é aqui de 26,6%, ou seja, mais de 1/4 do total; ela supera em mais de três vezes a percentagem de terra e é mais de três vezes superior à média. O que equivale a dizer que o caráter capitalista destas farms é claramente superior à média. Sua participação no valor global dos instrumentos e máquinas é de 20,1%, e de 31,7% no somatório global das despesas com adubos, ou seja, um pouco menos que 1/3 da soma global, cerca de quatro vezes maior que à média.

Consequentemente, chegamos ao fato incontestável, válido para todo o país no seu conjunto, de que as farras particularmente intensivas têm uma superfície particularmente pequena, um emprego particularmente grande de trabalho assalariado, uma produtividade do trabalho particularmente elevada; e que o papel económico destas jarras no conjunto da agricultura do país considerado supera em duas, três ou mais vezes sua participação percentual no número total de jarras, para não falar de sua participação na superfície total.

O papel destas culturas e farms altamente capitalistas e intensivas diminui ou aumenta com o tempo, em relação às outras propriedades e culturas?

A comparação dos dois últimos recenseamentos fornece, seguramente, uma resposta afirmativa no sentido de um crescimento deste papel. Consideremos a superfície ocupada pelas diferentes culturas. De 1900 a 1910 a superfície cultivada com cereais de todas as espécies só aumentou em 3,5% nos Estados Unidos; a ocupada pelas favas, ervilhas, etc., em 26,6%; a ocupada com feno e plantas forrageiras, em 17,2%; pelo algodão, em 32,0%; pelos legumes, em 25,5%; pela beterraba açucareira, a cana-de-açúcar, etc, em 62,6%.

Consideremos os dados sobre a produção agrícola. De 1900 a 1910, a colheita global de cereais aumentou em apenas 1,7%; a de favas, em 122,2%; a de feno e plantas forrageiras, em 23,0%; a de beterraba açucareira, em 395,7%; a de cana-de-açúcar, em 48,5%; a de batatas, em 42,4%; a de uvas, em 97,6%; se em 1910, a colheita de bagas(2*), maçãs, etc., foi ruim, a de laranjas e limões triplicou, etc.

Assim, fica demonstrado para o conjunto da agricultura americana este fato paradoxal e, contudo incontestável de que, de uma maneira geral, não apenas se processa uma eliminação da pequena produção pela grande, mas que esta eliminação reveste-se da seguinte forma: A eliminação da pequena produção pela grande consiste na eliminação das farms "maiores" quanto à superfície, mas menos produtivas, menos intensivas e menos capitalistas, pelas farms "menores" quanto à superfície, mas mais produtivas, mais intensivas e mais capitalistas.

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Notas de rodapé:

(1*) Planta tropical cujas raízes e folhas cozidas se utilizam como alimento; parecida com taioba. (Nota da edição brasileira.) (retornar ao texto)

(2*) Baga, nome genérico dos frutos de polpa mole e sem caroço, mas com mais de uma semente, como a uva, por exemplo. (Nota da edição brasileira.) (retornar ao texto)

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Inclusão 11/03/2012