Consciência de Classe

György Lukács


Capítulo IV


Nesse combate pela consciência, um papel decisivo cabe ao materialismo histórico. Quer no plano ideológico, quer no plano econômico, proletariado e burguesia são classes necessariamente correlativas. O mesmo processo que, visto do lado da burguesia, aparece como um processo de desagregação, como uma crise permanente, é para o proletariado - e igualmente sob forma de crise - uma acumulação de forças, o trampolim para a vitória. No plano ideológico, isso significa que essa mesma compreensão crescente da essência da sociedade - onde se reflete a lenta agonia da burguesia traz ao proletariado um contínuo crescimento de força. A verdade é, para o proletariado, uma arma condutora da vitória, e a conduz de maneira tanto mais segura se não recua diante de nada. A fúria desesperada com que a ciência burguesa combate o materialismo histórico é compreensível: ela está perdida desde que seja obrigada a colocar-se ideologicamente neste terreno. Isso permite, ao mesmo tempo, compreender por que, para o proletariado e somente para ele, uma justa compreensão da essência da sociedade é um fator de domínio de primeira ordem, porque, sem dúvida, é a arma pura e simplesmente decisiva.

Essa função única que a consciência tem na luta de classes do proletariado escapou sempre aos marxistas vulgares, que puseram em marcha um mesquinho "realismo político", em lugar do grande combate conducente aos princípios e às questões últimas do processo econômico objetivo. Sem dúvida, o proletariado deve partir dos dados da situação do momento. E se distingue das outras classes por não permanecer preso ao detalhe dos acontecimentos históricos, que simplesmente não está amadurecido por eles, mas que ele próprio constitui a essência das forças motrizes e que, agindo de modo central, influi no processo central da evolução social. Desgarrando-se desse ponto de vista central, do que é, metodologicamente, a origem da consciência de classe proletária, os marxistas vulgares se colocam no nível de consciência da burguesia. E só um marxista vulgar pode-se surpreender de que nesse nível, e em seu próprio campo de combate, a burguesia seja por força, tanto ideológica como economicamente, superior ao proletariado. Unicamente um marxista vulgar pode concluir desse fato que sua atitude é exclusivamente responsável pela superioridade em geral da burguesia. Porque ocorre que, aqui, a burguesia tem, ao se fazer agora abstração dos seus meios reais de poder, maiores conhecimentos, uma maior rotina, etc., â sua disposição. E nada há de surpreendente que ela se encontre, sem nenhum mérito próprio, em uma posição de superioridade, se o seu adversário aceita sua concepção fundamental das coisas. A superioridade do proletariado sobre a burguesia - que por outro lado lhe é superior em todos os pontos de vista: intelectual, organizacional, etc. - está exclusivamente no fato de ser capaz de considerar a sociedade, a partir do seu centro, como um todo coerente, e, por conseguinte, de agir de maneira central, modificando a realidade; está em que pode jogar sua própria ação como fator decisivo â balança da evolução social, porque, para a sua consciência de classe, teoria e praxis são coincidentes. Quando os marxistas vulgares desagregam essa unidade, cortam o nervo que liga a teoria proletária â ação proletária e que faz delas uma unidade. Reduzem a teoria ao tratamento "científico" dos sintomas da evolução social e fazem da praxis um procedimento habitual sem objetivo, ao capricho de cada acontecimento de um processo que eles renunciam apreender metodicamente pelo pensamento,

A consciência de classe nascida de tal posição deve manifestar a mesma estrutura interna da consciência de classe da burguesia. Mas quando as mesmas contradições dialéticas são trazidas â superfície da consciência pela força da evolução, a sua conseqüência e ainda mais fatal para o proletariado do que para a burguesia. Porque a "falsa consciência" da burguesia, pela qual se engana a si própria, está, pelo menos, de acordo, apesar de todas as contradições dialéticas e de sua falsidade objetiva, com sua situação de classe. Essa falsa consciência, por certo, não pode salvá-la do declínio e da intensificação contínua dessas contradições, mas lhe pode dar, contudo, possibilidades internas de continuar a luta, as condições internas prévias ao êxito, mesmo passageiro. No proletariado, tal consciência não está somente contaminada dessas contradições internas (burguesas), mas ela contradiz também as necessidades de ação à que a leva sua situação econômica, embora possa nela pensar. O proletariado deve agir de maneira proletária, mas sua própria teoria marxista vulgar lhe oculta o caminho correto. E essa contradição dialética entre a ação proletária objetiva e economicamente necessária do proletariado e a teoria marxista vulgar (burguesa) está chamada a desenvolver-se sem cessar. Por outras palavras: o papel de estimulante ou de freio da teoria justa ou falsa se desenvolve na medida em que se aproxima das lutas decisivas na guerra das classes. O "reino da liberdade", o fim da "pré-história da humanidade", significam exatamente que as relações objetivadas entre os homens, como a reificação, começam a repor sua força nas mãos do homem. Quanto mais este processo se aproxima de seu alvo, quanto mais a consciência que o proletariado tem da sua missão histórica, isto é, a sua consciência de classe - adquire importância, tanto mais essa consciência de classe deve determinar com força cada uma de suas ações. Porque o poder cego das forças motrizes não leva "automaticamente" a seu objetivo, à superação de si, a não ser durante o tempo em que este alvo não esteja ao alcance da mão. Quando está dado objetivamente o momento da passagem ao "reino da liberdade", isso se manifesta exatamente no plano objetivo, no fato de as forças cegas arrastarem ao abismo, de maneira verdadeiramente cega, com uma violência cada vez maior, aparente. mente irresistível, ç que só a vontade consciente do proletariado pode preservar a humanidade de uma catástrofe. Por outras palavras: quando a crise econômica final do capitalismo começou, o destino da revolução (e com ela o da humanidade) passou a depender da maturidade ideológica do proletariado, de sua consciência de classe.

Assim é definida a função única da consciência de classe para o proletariado, em oposição â sua função para outras classes. Eis por que o proletariado não se pode libertar como classe a não ser suprimindo a sociedade de classes em geral, que sua consciência, a última consciência de classe na história da humanidade, deve coincidir de um lado com a revelação da essência da sociedade e, de outro, tornar-se uma unidade sempre mais íntima da teoria e da praxis. Para o proletariado, sua ideologia não é uma 'bandeira" sob a qual ele combate, um pretexto â sombra do qual persegue seus próprios objetivos. Ela é o próprio alvo e a própria arma. Toda tática sem princípios rebaixa o materialismo histórico até fazê-lo uma mera "ideologia", força o proletariado a um método de luta burguesa (ou pequeno-burguesa), priva-o de suas melhores forças, destinando â sua consciência de classe o papel de uma consciência burguesa, mero papel de acompanhamento ou de freio (de freio para o proletariado), em lugar da função motriz destinada à consciência proletária.

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Inclusão 18/07/2003