Manuscritos Econômico-Filosóficos

Karl Marx

Terceiro Manuscrito


Dinheiro

(XLI) Se os sentimentos, paixões, etc. do homem não são meras características antropológicas no sentido mais restrito, mas sim afirmações verdadeiramente ontológicas do ser (natureza), e se só são realmente afirmadas na medida em que seu objetivo existe como um objeto dos sentidos, então é evidente:

(1) que seu modo de afirmação não e um só e imutável, mas, antes, que os diversos modos de afirmação constituem o caráter distintivo de sua existência, de sua vida. A maneira pela qual o objeto existe para eles é a forma distintiva de sua gratificação;

(2) onde a afirmação sensorial é uma anulação direta do objeto em sua forma independente (como ao beber, comer, trabalhar um objeto, etc), esta é a afirmação do objeto;

(3) na medida em que o homem, e daí também seus sentimentos, etc., são humanos, a afirmação do objeto por outra pessoa também é sua gratificação própria;

(4) só por meio da indústria evoluída, i. é, por meio da propriedade privada, concretiza-se a essência ontológica das paixões humanas, em sua totalidade e humanidade; a própria ciência do homem é um produto da autoformação do homem graças à atividade prática;

(5) o significado da propriedade privada - liberta de sua alienação - é a existência de objetos essenciais ao homem, como objetos de divertimento e atividade.

O dinheiro, já que possui a propriedade de comprar tudo, de apropriar objetos para si mesmo, é, por conseguinte o object par excellence . O caráter universal dessa propriedade corresponde à onipotência do dinheiro, que é encarado como um ser onipotente. . . o dinheiro é a proxeneta entre a necessidade e o objeto, entre a vida humana e os meios de subsistência. Mas, o que serve de medianeiro à minha vida também serve à existência de outros homens para mim. Ele é para mim a outra pessoa.

"Com a breca! pernas, braços peito,
Cabeça, sexo, aquilo é teu;
Mas, tudo o que, fresco, aproveito,
Será por isso menos meu?
Se podes pagar seis cavalos,
As suas forças não governas?
Corres por morros, clivos, valos,
Qual possuidor de vinte e quatro pernas."
(GOETHE, Fausto, Mefistófeles)[N10]

Shakespeare em Tímon de Atenas:

"Que é isto? Ouro? Ouro amarelo, brilhante, precioso? Não, deuses: eu não faço protestos vãos. Raízes quero, ó céus azuis! Um pouco disto tornaria o preto branco; o feio, belo; o injusto, justo; o vil, nobre; o velho, novo; o covarde, valente. Mas, oh, ó deuses! por que é isso? isto que é, deuses? Isto fará com que os vossos sacerdotes e os vossos servos se afastem de vós; isto fará arrancar o travesseiro de debaixo das cabeças dos homens fortes. Este escravo amarelo fará e desfará religiões; abençoará os réprobos; fará prestar culto à alvacenta lepra; assentará ladrões, dando-lhes título, genuflexões e aplauso, no mesmo banco em que se assentam os senadores; isto é que faz com que a inconsolável viuva contraia novas núpcias; e com que aquela, que as úlceras purulentas e os hospitais tornavam repugnante, fique outra vez perfumada e apetecível como um dia de abril. Anda cá, terra maldita, meretriz, comum a toda a espécie humana, que semeia a desigualdade na turba-malta das nações, vou devolver-te à tua verdadeira natureza."

E mais adiante:

"Ó tu, amado regicida; caro divorciador da mútua afeição do filho e do pai; brilhante corruptor dos mais puros leitos do Himeneu! valente Marte! tu, sempre novo, viçoso, amado galanteador, cujo brilho faz derreter a virginal neve do colo de Diana! tu, deus visível, que tornas os impossíveis fáceis, e fazes como que se beijem! que em todas as línguas te explicas para todos os fins! Ó tu, pedra de toque dos corações! trata os homens, teus escravos, como rebeldes, e, pela tua virtude, arremessais a todos em discórdias devoradoras, a fim de que as feras possam ter o mundo por império!"[N11]

Shakespeare retrata admiravelmente a natureza do dinheiro. Para entendê-lo, comecemos interpretando o trecho de Goethe.

O que existe para mim por intermédio do dinheiro, aquilo por que eu posso pagar (i. é, que o dinheiro pode comprar), tudo isso sou eu, o possuidor de meu dinheiro. Meu próprio poder é tão grande quanto o dele. As propriedades do dinheiro são as minhas próprias (do possuidor) propriedades e faculdades. O que eu sou e posso fazer, portanto, não depende absolutamente de minha individualidade. Sou feio, mas posso comprar a mais bela mulher para mim. Consequentemente, não sou feio, pois o efeito da feiúra, seu poder de repulsa, é anulado pelo dinheiro. Como indivíduo sou coxo, mas o dinheiro proporciona-me vinte e quatro pernas; logo, não sou coxo. Sou um homem detestável, sem princípios, sem escrúpulos e estúpido, mas o dinheiro é acatado e assim também o seu possuidor. O dinheiro é o bem supremo, e por isso seu possuidor é bom. Além do mais, o dinheiro poupa-me do trabalho de ser desonesto; por conseguinte, sou presumivelmente honesto. Sou estúpido, mas como o dinheiro é o verdadeiro cérebro de tudo, como poderá seu possuidor ser estúpido? Outrossim, ele pode comprar pessoas talentosas para seu serviço e não é mais talentoso que os talentosos aquele que pode mandar neles? Eu, que posso ter, mediante o poder do dinheiro, tudo que o coração humano deseja, não possuo então todas as habilidades humanas? Não transforma meu dinheiro, então, todas as minhas incapacidades em seus contrários?

Se o dinheiro é o laço que me prende à vida humana, e a sociedade a mim, e me liga à natureza e ao homem, não é ele o laço de todos os laços? Não é ele também, portanto, o agente universal da separação? Ele é o meio real tanto de separação quanto de união, a força galvano-química da sociedade.

Shakespeare ressalta particularmente duas propriedades do dinheiro:

(1) ele é a divindade visível, a transformação de todas as qualidades humanas e naturais em seus antônimos, a confusão e inversão universal das coisas; ele converte a incompatibilidade em fraternidade;

(2) ele é a meretriz universal, o alcoviteiro universal entre homens e nações.

O poder de inverter e confundir todos os atributos humanos e naturais, de levar os incompatíveis a confraternizarem, o poder divino do dinheiro reside em seu caráter como a vida espécie alienada e auto-alienadora do homem. Ele é a força alienada da humanidade.

O que sou incapaz de fazer como homem, e, pois, o que todas as minhas faculdades individuais são incapazes de fazer, me é possibilitado pelo dinheiro. O dinheiro, por conseguinte, transforma cada uma dessas faculdades em algo que ela não é, em seu antônimo.

Se estou com vontade de comer, ou desejo de viajar na diligência da posta por não ser bastante forte para ir a pé, o dinheiro proporciona-me a refeição e a diligência, i. é, ele transforma meus desejos de representações em realidades, de seres imaginários em seres reais. Atuando assim como mediador, o dinheiro é uma força genuinamente criadora.

A procura também existe para o indivíduo sem dinheiro, mas sua procura é mera criatura da imaginação, que não tem efeito nem existência para mim, para um terceiro, para. . . (XLIII) e que, assim, permanece irreal e sem objeto. A diferença entre a procura efetiva, apoiada pelo dinheiro, e a inefetiva, baseada em minhas necessidades, minha paixão, meu desejo, etc., é a diferença entre ser e pensar, entre a representação meramente interior e a representação existente fora de mim mesmo como objeto real.

Se não disponho de dinheiro para viajar, não tenho necessidade - nenhuma necessidade real e auto-realizável - de viajar. Se tenho vocação para estudar, mas não disponho do dinheiro para isso, então não tenho vocação, i. é, não tenho vocação efetiva, legítima. O dinheiro é o meio e poder, externo e universal (não oriundo do homem como homem ou da sociedade humana como sociedade) para mudar a representação em realidade e a realidade em mera representação. Ele transforma faculdades humanas e naturais reais em meras representações abstratas, i. é, imperfeições e torturantes quimeras; e, por outro lado, transforma imperfeições e fantasias reais, faculdades deveras importantes e só existentes na imaginação do indivíduo, em faculdades e poderes reais. A esse respeito, portanto, o dinheiro é a inversão geral das individualidades, convertendo-as em seus opostos e associando qualidades contraditórias às qualidades delas.

O dinheiro, então, aparece como uma força demolidora para o indivíduo e para os laços sociais, que alegam ser entidades auto-subsistentes. Ele converte a fidelidade em infidelidade, amor em ódio, ódio em amor, virtude em vício, vício em virtude, servo em senhor, boçalidade em inteligência e inteligência em boçalidade.

Posto que o dinheiro, como conceito existente e ativo do valor, confunde e troca tudo, ele é a confusão e transposição universais de todas as coisas, o mundo invertido, a confusão e transposição de todos os atributos naturais e humanos.

Aquele que pode comprar a bravura é bravo, malgrado seja covarde. O dinheiro não é trocado por uma qualidade particular, uma coisa particular ou uma faculdade humana especifica, porém por todo o mundo objetivo do homem e da natureza. Assim, sob o ponto de vista de seu possuidor, ele troca toda qualidade e objeto por qualquer outro, ainda que sejam contraditórios. Ele é a confraternização dos incomparáveis; força os contrários a abraçarem-se.

Suponhamos que o homem seja homem e que sua relação com o mundo seja humana. Então, o amor só poderá ser trocado por amor, confiança, por confiança, etc. Se se desejar apreciar a arte, será preciso ser uma pessoa artisticamente educada; se se quiser influenciar outras pessoas, será mister se ser uma pessoa que realmente exerça efeito estimulante e encorajador sobre as outras. Todas as nossas relações com o homem e com a natureza terão de ser uma expressão específica, correspondente ao objeto de nossa escolha, de nossa vida individual real. Se você amar sem atrair amor em troca, i. é, se você não for capaz, pela manifestação de você mesmo como uma pessoa amável, fazer-se amado, então seu amor será impotente e um infortúnio.

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Notas:

[10] Goethe, Fausto, Parte 1, Cena 4. Esta passagem foi tirada da trad. por Bayard Taylor, The Modem Library, Nova York, 1950 - N. do T (N. do T. - Em português, recorremos à trad. de Jenny Klabin Segail, S. Paulo, Instituto Progresso Editorial, 1949, pàg. 106.) (retornar ao texto)

[11] Shakespeare, Timon of Athens, Act Iv, Scene 3. Marx citou a traduçao (alemã) de Schlegel-Tieck. - Nota do T. (N. do T. - Recorremos à tradução portuguesa de Henrique Braga, Pôrto, Livraria Chardron, de Leilo & Irmao, 1913, págs. 119 e 145.) (retornar ao texto)

Inclusão 08/11/2007