Agitação Cartista

Frederich Engels

30 de Dezembro de 1847


Primeira Edição: Escrito no fim de dezembro de 1847; Publicado pela primeira vez em La Réforme, 30 de dezembro de 1847.
Fonte: Marx-Engels Collected Works, volume 6, p.412.
Tradução: Rafael Duarte Oliveira Venancio, novembro de 2008.
HTML: Fernando A. S. Araújo, novembro 2008.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


Desde a abertura do Parlamento, a agitação cartista desenvolveu-se enormemente. Petições estão sendo preparadas, encontros são organizados e os agentes cartistas estão viajando para todos os lugares. Além da grande Petição Nacional [National Petition] para o People’s Charter que agora, acredita-se, irá coletar quatro milhões de assinaturas, duas outras petições para a Chartist Land Company foram recém submetidas ao povo; a primeira, editada por O'Connor e publicada no The Northern Star dessa semana, pode ser resumida tal como o descrito a seguir:

“Para os Honoráveis, os Comuns da Grã-Bretanha e Irlanda reunidos em Parlamento, Senhores”:

“Nós, abaixo-assinados, membros da Chartist Land Company e todos trabalhadores, considerando a excessiva especulação dos produtos do nosso trabalho, a ilimitada competição e o aumento contínuo da mecanização dos meios de produção temos, em todos os lugares, espaços fechados para o nosso trabalho”;

“que enquanto os meios mecânicos de produção aumentam, o trabalho manual diminui e trabalhadores são demitidos”;

“que sua decisão recente acerca da suspensão temporária do trabalho nas ferrovias irá lançar milhares de trabalhadores ao desemprego, que irão inundar o mercado de trabalho e irá fazer os empregadores, novamente, reduzirem os salários que já foram reduzidos diversas vezes”;

“que, assim, nós pedimos nada mais do que viver dos produtos de nosso trabalho”;

“que nós rejeitamos todas os impostos de pobreza [poor rates] como um insulto, servindo apenas como desculpa para os capitalistas lançarem no mercado de trabalho a fim de reduzir salários através de meios de competição entre os próprios trabalhadores”;

“que enquanto a indústria manufatureira não sabe mais como empregar as massas de proletários que produziu, a indústria agrícola ainda oferece um amplo campo para o nosso trabalho e, com certeza, que através do uso desse trabalho a renda agrícola de nosso país pode ser, no mínimo, quadruplicado”;

“que, assim, nós formamos uma companhia para a compra de terras em todos os lugares que podem ser preparados para o sustento de si e de sua família sem estar submetido às paróquias ou à caridade individual, e sem reduzir os salários de outros trabalhadores através da competição”;

“Dessa forma, nós pedimos, cavalheiros, para passarem a lei que livra a Land Company de pagar os impostos Stamp, assim como os impostos sobre tijolos, madeiras e outros materiais de construção, e passarem a Lei que será colocada a vocês para esse fim”.

A Lei também foi escrita por Feargus O'Connor, que irá apresentá-la ao Parlamento em breve.

A segunda petição demanda o retorno para o povo das terras improdutivas que são de propriedade das paróquias. Essas terras, que por trinta anos foram vendidas em lotes para os latifundiários, devem, tal como a petição requer, serem divididas em pequenos campos para serem alugadas ou vendidas em suaves condições de pagamento para os trabalhadores dessas terras. Essa petição foi adotada em Londres em um grande encontro onde os Srs. Harney e Jones, editores do The Northern Star, a apoiaram na ausência de O'Connor, que ficou no Parlamento. Ela também foi adotada em um grande encontro em Norwich onde o Sr. Jones, que é um dos melhores oradores da Inglaterra, novamente deu seu brilhante e irresistível apoio.

A Petição Nacional foi, finalmente, adotada em uma grande reunião em Londres. Os principais oradores foram os Srs. Keen, Schapper (alemão) e Harney. O discurso do último, mais do que os outros, foi marcado por sua força democrática.

“O que é o nosso inteiro sistema político e social” disse ele, “além de uma fraude gigante, erguida e mantida para o benefício dos ociosos e impostores”.

“Vejam a Igreja! Os bispos e os arcebispos se apropriam de enormes salários enquanto deixam ao clérigo trabalhador poucas libras ao ano. Milhões de libras, na forma de dízimos, são retirados anualmente do povo; esses dízimos são, originalmente, destinados principalmente para manterem as igrejas e a caridade aos pobres; agora há taxas separadas para isso, e a Igreja fica com todo o dízimo. Eu pergunto: a Igreja não é uma fraude organizada? (Ovações.)”;

“Vejam nossa House of Commons, representando não só o povo comum, mas a aristocracia e a classe média, e deixando seis-sétimos dos homens adultos desse país na escravidão política ao negá-los o direito ao voto. Não é essa Casa uma fraude legalizada? (Ovações intensas.)”;

“Vejam esses veneráveis pares que, enquanto o lamento do desespero é ouvido pelo país, podem sentar, noite após noite, esperando pela Coercion Bill que virá dos Commons. Será que algum será bom o bastante para me mostrar a utilidade do Hospital of Incurables — será que algum tentará defender essa fraude hereditária? (Ovações.)”;

“Claro que o respeito que tenho pela sagrada espécie da sabedoria dos nossos ancestrais — a Monarquia — me proíbe de falar em outros termos que não os mais leais sobre um reinado tão interessante quanto o da Rainha Victoria, que regularmente, uma vez ao ano, dá um discurso real e um bebê real. (Risos.) Nós acabamos de escutar o discurso e eu vejo o anúncio de que, em Março próximo, nós teremos o bebê. Sua mais graciosa Majestade expressa grande preocupação pelo sofrimento de seu povo, admira sua paciência e promete a eles — e quando o assunto é sobre bebês, ela nunca deixa essa promessa em vão. (Vários risos.) Assim, há o Príncipe Albert, um célebre chapeleiro, criador de porcos e distinto Marechal-de-campo, que por todos os seus serviços, recebe 30 mil libras ao ano. Não, cidadãos, a Monarquia não é uma fraude. (Risos e aplausos.)”.

O orador, após contrastar o quadro da alta sociedade com aquele do sofrimento do povo, concluiu pela aprovação da adoção da Petição Nacional para o Charter. A petição foi adotada unanimemente. O Sr. Duncombe irá colocá-la na mesa da House of Commons, quando ela terminar seu tour pelo país. Eu devo enviar a tradução dela a vocês assim que eu obtiver uma cópia.(1)

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Notas:

(1) Nota 218 do volume 6 do MECW: A Petição Nacional traduzida não foi publicada no La Réforme. (retornar ao texto)

Inclusão 29/11/2008
Última alteração 16/09/2011