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O Capital
Crítica da Economia Política
Karl Marx

Livro Primeiro: O processo de produção do capital

Primeira Seção: Mercadoria e dinheiro

Primeiro capítulo. A mercadoria


4. O carácter de feitiço da mercadoria e o seu segredo


capa

À primeira vista, uma mercadoria parece uma coisa evidente, trivial. A sua análise mostra que é uma coisa muito retorcida, cheia de subtileza metafísica e de extravagâncias teológicas. Enquanto valor de uso, nada há nela de misterioso, quer eu a considere do ponto de vista de que ela, pelas suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, quer de que só adquira essas propriedades como produto de trabalho humano. É evidente que o homem, pelo seu trabalho, muda as formas das matérias da Natureza de um modo que lhe é útil. A forma da madeira, p. ex., é mudada quando dela se faz uma mesa. Apesar disso, a mesa continua a ser madeira, uma coisa sensível, corrente. Porém, logo que aparece como mercadoria, ela transforma-se numa coisa sensivelmente sobre-sensível. Não só está assente com os pés no chão, mas também, em relação a todas as outras mercadorias, está de cabeça para baixo, e da sua cabeça de madeira saem fantasias muito mais maravilhosas do que se começasse a dançar espontaneamente(1*).

Assim, o carácter místico da mercadoria não brota do seu valor de uso. Ele tão-pouco brota do conteúdo das determinações de valor. Porque, em primeiro lugar, por muito diversos que possam ser os trabalhos úteis ou as actividades produtivas, é uma verdade fisiológica que eles são funções do organismo humano e que cada uma dessas funções, qualquer que seja o seu conteúdo e a sua forma, é essencialmente dispêndio de cérebro, nervos, músculos, órgãos dos sentidos, etc, humanos. Em segundo lugar, quanto ao que está na base da determinação da magnitude de valor, i. é, a duração temporal daquele dispêndio ou a quantidade do trabalho, aí a quantidade é mesmo visivelmente distinguível da qualidade do trabalho. Em todas as situações, o tempo de trabalho que a produção dos meios de vida custa teve de interessar os homens, embora não uniformemente nos diversos estádios de desenvolvimento(3*). Finalmente, logo que os homens, por qualquer modo, trabalham uns para os outros, o seu trabalho adquire também uma forma social.

De onde brota, pois, o carácter enigmático do produto de trabalho logo que ele assume a forma-mercadoria? Manifestamente, dessa própria forma. A igualdade dos trabalhos humanos adquire a forma coisal [sachliche] da igual objectividade de valor dos produtos de trabalho, a medida do dispêndio de força de trabalho humana pela sua duração temporal adquire a forma de magnitude de valor dos produtos de trabalho, e, finalmente, as relações entre os produtores, nas quais são confirmadas aquelas determinações sociais dos seus trabalhos, adquirem a forma de uma relação social entre os produtos de trabalho.

Portanto, o misterioso da forma-mercadoria consiste simplesmente no facto de ela reflectir para os homens os caracteres sociais do seu próprio trabalho como caracteres objectivos dos próprios produtos de trabalho, como qualidades naturais sociais dessas coisas, e por isso também a relação social dos produtores para com o trabalho total como uma relação social entre objectos existentes fora deles. Através deste quiproquó os produtos de trabalho tornam-se mercadorias, coisas sensivelmente sobre-sensíveis ou sociais. Assim, a impressão luminosa de uma coisa sobre o nervo óptico aparece não como um estímulo subjectivo do próprio nervo óptico, mas como forma objectiva de uma coisa fora do olho. Mas, no acto de ver, é realmente lançada luz de uma coisa, o objecto exterior, sobre outra coisa, o olho. E uma relação física entre coisas físicas. Pelo contrário, a forma-mercadoria e a relação de valor dos produtos de trabalho em que ela se expõe não têm absolutamente nada a ver com a sua natureza física e com as ligações próprias de coisas [dingliche] que daí brotam. E apenas a relação social determinada entre os próprios homens que toma aqui para eles a forma fantasmagórica de uma relação de coisas. Assim, para encontrarmos uma analogia temos de nos escapar para a região nevoenta do mundo religioso. Aqui, os produtos da cabeça humana parecem figuras autónomas, dotadas de vida própria e estando em relação entre si próprias e com os homens. O mesmo se passa no mundo das mercadorias com os produtos da mão humana. Chamo a isto feiticismo, que se cola aos produtos de trabalho logo que eles são produzidos como mercadorias e que, por isso, é inseparável da produção de mercadorias.

Este carácter de feitiço do mundo das mercadorias brota, como a análise precedente já mostrou, do carácter social peculiar do trabalho que produz mercadorias.

Os objectos de uso só se tornam mercadorias porque são produtos de trabalhos privados realizados independentemente uns dos outros. O complexo destes trabalhos privados forma o trabalho total social. Como os produtores só entram em contacto social através da troca dos seus produtos de trabalho, os caracteres especificamente sociais dos seus trabalhos privados também só aparecem no interior dessa troca. Ou seja, os trabalhos privados só se afirmam, de facto, como membros do trabalho total social através das ligações nas quais a troca permuta os produtos de trabalho e, por intermédio destes, os produtores. Por isso, as ligações sociais dos seus trabalhos privados surgem aos produtores como o que são, i. é, não como relações imediatamente sociais entre as pessoas nos seus próprios trabalhos, mas antes como relações coisais entre as pessoas e relações sociais entre as coisas.

Só no interior da sua troca é que os produtos de trabalho adquirem uma objectividade de valor socialmente igual, separada da sua objectividade de uso sensivelmente diversa. Esta cisão do produto de trabalho em coisa útil e em coisa-valor só se afirma, praticamente, quando a troca adquiriu já suficiente extensão e importância para que as coisas úteis sejam produzidas para a troca e, portanto, o carácter de valor das coisas seja tido em consideração logo durante a sua própria produção. A partir deste momento, os trabalhos privados dos produtores adquirem efectivamente um duplo carácter social. Por um lado, como trabalhos úteis determinados, têm de satisfazer uma determinada necessidade social e, assim, afirmar-se como membros do trabalho total, do sistema natural da divisão social do trabalho. Por outro lado, eles só satisfazem as múltiplas necessidades dos seus próprios produtores na medida em que cada trabalho privado útil particular seja trocável por qualquer outra espécie de trabalho privado útil, i. é, lhe equivalha. A igualdade de trabalhos toto coelo(4*) diversos só pode consistir numa abstracção da sua real desigualdade, na redução ao carácter comum que eles possuem como dispêndio de força de trabalho humana, de trabalho humano em abstracto. O cérebro dos produtores privados só reflecte este duplo carácter social dos seus trabalhos privados nas formas que aparecem no intercâmbio prático, na troca de produtos: portanto, só reflecte o carácter socialmente útil dos seus trabalhos privados na forma em que o produto de trabalho tem de ser útil, e útil para outros; só reflecte o carácter social da igualdade dos trabalhos de espécies diversas na forma do carácter de valor comum destas coisas materialmente diversas, os produtos de trabalho.

Assim, os homens não relacionam os seus produtos de trabalho entre si como valores porque essas coisas vigorem para eles como meros invólucros coisais de trabalho humano da mesma espécie. Ao invés: na medida em que, na troca, igualam entre si os seus produtos de diversa espécie como valores, eles igualam entre si os seus diversos trabalhos como trabalho humano. Eles não o sabem, mas fazem-no(5*). Por isso, o valor não traz escrito na testa aquilo que é. O valor, isso sim, transforma cada produto de trabalho num hieróglifo social. Mais tarde, os homens procuram decifrar o sentido do hieróglifo, desvendar o segredo do seu próprio produto social, pois a determinação dos objectos de uso como valores é, tal como a linguagem, um seu produto social. A tardia descoberta científica de que os produtos de trabalho, enquanto valores, são meramente expressões coisais do trabalho humano despendido na sua produção faz época na história do desenvolvimento da humanidade, mas de forma nenhuma dissipa a ilusão de objecto [gegenständlich] dos caracteres sociais do trabalho. Aquilo que apenas é válido para esta forma particular de produção, a produção de mercadorias — a saber, que o carácter especificamente social dos trabalhos privados independentes entre si consiste na sua igualdade como trabalho humano e toma a forma do carácter de valor dos produtos de trabalho — aparece, tanto antes como depois daquela descoberta, àqueles que estão enredados nas relações da produção de mercadorias, tão definitivo como o facto de a decomposição científica do ar nos seus elementos deixar subsistir a forma do ar como uma forma corpórea física.

O que antes de mais interessa praticamente aos trocadores de produtos é a questão de quantos produtos alheios eles recebem pelo seu produto próprio, portanto, em que proporções os produtos se trocam. Estas proporções, logo que amadurecem ao ponto de terem uma certa consistência habitual, parecem brotar da natureza dos produtos de trabalho, de modo que, p. ex., uma tonelada de ferro e 2 onças de ouro têm o mesmo valor, tal como uma libra de ouro e uma libra de ferro, apesar de diversas as suas propriedades físicas e químicas, têm o mesmo peso. De facto, o carácter de valor dos produtos de trabalho só se consolida através do seu exercício como magnitudes de valor. Estas últimas mudam constantemente, independentemente da vontade, previsão e acção daqueles que trocam. O seu movimento social próprio possui para eles a forma de um movimento de coisas sob cujo controlo eles se encontram, em vez de as controlarem. É preciso uma produção de mercadorias completamente desenvolvida antes que, da própria experiência, resulte a visão científica de que os trabalhos privados — exercidos independentemente uns dos outros, mas, como membros naturais da divisão social do trabalho, omnilateralmente dependentes uns dos outros — são continuamente reduzidos à sua medida proporcional social, porque, nas relações de troca acidentais e sempre oscilantes dos seus produtos, o tempo de trabalho socialmente necessário para a sua produção se impõe pela força como lei natural reguladora, tal como, p. ex., a lei da gravidade se impõe quando alguém apanha com a casa na cabeça(7*). A determinação da magnitude de valor pelo tempo de trabalho é, por isso, um segredo escondido sob os movimentos aparentes dos valores relativos das mercadorias. A sua descoberta suprime a ilusão da determinação meramente acidental das magnitudes de valor dos produtos de trabalho, mas de modo nenhum a sua forma coisal.

A reflexão sobre as formas da vida humana, e portanto, também a sua análise científica, segue em geral um caminho contraposto ao desenvolvimento real. Começa post festum(8*) e, por isso, com os resultados do processo de desenvolvimento já prontos. As formas que cunham os produtos de trabalho como mercadorias e que, por isso, são pressupostas à circulação de mercadorias possuem já a consistência de formas naturais da vida social antes de os homens procurarem dar-se conta, não do carácter histórico dessas formas, que antes vigoram para eles já como imutáveis, mas do seu conteúdo. Assim, só a análise dos preços das mercadorias é que conduziu à determinação da magnitude de valor, só a expressão comum das mercadorias em dinheiro é que conduziu à fixação do seu carácter de valor. Mas é precisamente esta forma pronta — a forma-dinheiro — do mundo das mercadorias que encobre coisalmente o carácter social dos trabalhos privados e, assim, as relações sociais dos trabalhadores privados, em vez de os revelar. Se eu disser que casaco, botas, etc, se relacionam com o tecido de linho como [sendo] a corporização geral de trabalho humano abstracto, a tolice desta expressão salta à vista. Mas quando os produtores do casaco, botas, etc, relacionam estas mercadorias com o tecido de linho — ou com o ouro e a prata, o que em nada altera a coisa — como equivalente geral, a relação dos seus trabalhos privados com o trabalho social total aparece-lhes precisamente nessa forma tola.

São precisamente formas desta espécie que constituem as categorias da economia burguesa. São formas de pensamento socialmente válidas e, portanto, objectivas, para as relações de produção desse modo de produção social historicamente determinado, a produção de mercadorias. Assim, todo o misticismo do mundo das mercadorias, toda a magia e fantasmagoria que enevoam os produtos de trabalho na base da produção de mercadorias, desaparecem logo assim que passamos para outras formas de produção.

Como a economia política gosta de robinsonadas(9*), apareça primeiro Robinson na sua ilha. Embora modesto de seu natural, ele tem, no entanto, de satisfazer necessidades diversas e precisa, por isso, de executar trabalhos úteis de espécie diversa, fazer ferramentas, fabricar móveis, domesticar lamas, pescar, caçar, etc. Não falamos aqui de rezar e coisas semelhantes, porque o nosso Robinson encontra nelas divertimento e considera tal actividade como espairecimento. Apesar da diversidade das suas funções produtivas, ele sabe que elas são apenas diversas formas de actuação do mesmo Robinson e, portanto, apenas modos diversos de trabalho humano. A própria necessidade obriga-o a repartir o seu tempo com precisão entre as suas diversas funções. Se uma ocupa mais e outra menos espaço na sua actividade total, isso depende da maior ou menor dificuldade que há que vencer para alcançar o efeito útil visado. A experiência ensina-lhe isto, e o nosso Robinson, que salvou do naufrágio o relógio, o livro-razão, a pena e a tinta, em breve começa, como bom inglês, a fazer a contabilidade de si próprio. O seu inventário contém uma lista dos objectos de uso que ele possui, das diversas operações requeridas para a sua produção e, finalmente, do tempo de trabalho que determinados quanta desses diversos produtos em média lhe custam. Todas as relações entre Robinson e as coisas que formam a riqueza por ele próprio criada são aqui tão simples e transparentes que até o senhor M. Wirth as poderia compreender sem particular esforço mental. E, no entanto, estão lá contidas todas as determinações essenciais do valor.

Transportemo-nos agora da luminosa ilha de Robinson para a escura Idade Média europeia. Em vez do homem independente, encontramos aí toda a gente dependente — servos da gleba e senhores da terra, vassalos e suseranos, leigos e clérigos. A dependência pessoal tanto caracteriza as relações sociais da produção material como as esferas da vida sobre ela edificadas. Mas, precisamente porque as relações de dependência pessoal formam a base social dada, os trabalhos e produtos não precisam de assumir uma figura fantástica diversa da sua realidade. Eles entram no mecanismo social como serviços directos [Naturaldienste] e prestações em géneros. A forma natural [Naturalform] de trabalho, a sua particularidade, e não, como na base de produção de mercadorias, a sua universalidade, é aqui a sua forma imediatamente social. O trabalho servil é medido em tempo, exactamente como o trabalho que produz mercadorias, mas todo o servo sabe que é um determinado quantum da sua força de trabalho pessoal que ele despende ao serviço do seu senhor. O dízimo que há que pagar ao clérigo é mais claro do que a benção do padre. Por isso, como quer que se ajuízem as máscaras com que os homens aqui se confrontam, as relações sociais das personagens nos seus trabalhos aparecem em todo o caso como as suas relações pessoais próprias, e não estão disfarçadas em relações sociais das coisas, dos produtos de trabalho.

Para a consideração de trabalho comum, i. é, imediatamente socializado, não precisamos de recuar até à sua forma natural que encontramos no limiar da história de todos os povos civilizados(10*). Um exemplo mais próximo é dado pela indústria patriarcal rural de uma família de camponeses que produz para satisfazer necessidades próprias cereais, gado, fio, tecido de linho, peças de vestuário, etc. Para a família estas diversas coisas apresentam-se como diversos produtos do seu trabalho familiar, mas para si próprias não se apresentam reciprocamente como mercadorias. Os diversos trabalhos que engendram estes produtos, agricultura, pecuária, fiação, tecelagem, costura, etc, são, na sua forma natural, funções sociais, porque funções da família, a qual, tal como a produção de mercadorias, possui uma divisão natural do trabalho própria. As diferenças de sexo e de idade, tal como as condições naturais de trabalho que mudam com a mudança de estação, regulam a repartição deste entre a família e o tempo de trabalho de cada um dos seus membros. O dispêndio das forças de trabalho individuais medido pela sua duração, no entanto, aparece aqui, pela sua índole, como determinação social dos próprios trabalhos, porque as forças de trabalho individuais, pela sua índole, apenas actuam como órgãos da força de trabalho comum da família.

Imaginemos finalmente, para variar, uma associação de homens livres que trabalham com meios de produção comunitários e que despendem autoconscientemente as suas muitas forças de trabalho individuais como uma força de trabalho social. Todas as determinações do trabalho de Robinson se repetem aqui, só que social em vez de individualmente. Todos os produtos de Robinson eram seu produto exclusivamente pessoal e, por isso, imediatamente objectos de uso para ele. O produto total da associação é um produto social. Uma parte deste produto serve de novo como meio de produção. Continua a ser social. Mas outra parte é consumida como meio de vida pelos membros da associação. Por isso, ela tem de ser repartida entre eles. O tipo desta repartição variará com o tipo particular do próprio organismo social de produção e o correspondente nível de desenvolvimento histórico dos produtores. Suponhamos, apenas para um paralelo com a produção de mercadorias, que a parte de cada produtor nos meios de vida é determinada pelo seu tempo de trabalho.

O tempo de trabalho desempenharia, assim, um duplo papel. A sua repartição socialmente planificada regula a proporção correcta entre as diversas funções de trabalho e as diversas necessidades. Por outro lado, simultaneamente, o tempo de trabalho serve de medida da parte individual do produtor no trabalho comum e, portanto, também na parte individualmente consumível do produto comum. As ligações sociais dos homens aos seus trabalhos e aos seus produtos de trabalho permanecem aqui transparentemente simples, tanto na produção como na distribuição.

Para uma sociedade de produtores de mercadorias — cuja relação de produção universalmente social consiste em comportar-se para com os seus produtos como mercadorias, e, portanto, como valores, e em ligar os seus trabalhos privados entre si, nesta forma coisal, como trabalho humano igual — o cristianismo, com o seu culto do homem abstracto, nomeadamente no seu desenvolvimento burguês, o protestantismo, deísmo, etc, é a forma de religião que melhor lhe corresponde. Nos modos de produção asiático antigo, antigo, etc, a transformação do produto em mercadoria e, por isso, a existência dos homens como produtores de mercadorias, desempenha um papel subordinado, que, no entanto, se torna tanto mais significativo quanto mais as comunidades passam ao seu estádio de declínio. Povos comerciantes propriamente ditos só existem nos intermundos do mundo antigo, como os deuses de Epicuro[N35] ou como os judeus nos poros da sociedade polaca. Aqueles antigos organismos sociais de produção são extraordinariamente muito mais simples e transparentes do que o burguês, mas repousam ou sobre a imaturidade do homem individual, que ainda não se livrou do cordão umbilical da conexão natural genérica com outros, ou sobre relações imediatas de dominação e servidão. Eles estão condicionados por um nível de desenvolvimento baixo das forças produtivas do trabalho e por relações correspondentemente tolhidas dos homens no interior do seu processo de engendramento da vida material e, portanto, das relações entre si e para com a Natureza. Este tolhimento real reflecte-se idealmente [ideell] nas velhas religiões naturais e populares. O reflexo [Widerschein] religioso do mundo real só pode em geral desaparecer quando as relações da vida prática apresentarem diariamente aos homens ligações transparentemente racionais de uns com os outros e com a Natureza. A figura do processo social de vida, i. é, do processo material de produção, só se desfaz do seu místico véu de nevoeiro quando estiver, como produto de homens livremente sócializados, sob o seu controlo consciente e planificado. Para isso, no entanto, é lecessário uma base material da sociedade ou uma série de condiçõts materiais de existência que, por sua vez, são o produto natural te uma longa e tormentosa história de desenvolvimento.

A econimia política analisou, de facto, ainda que incompletamente(11*), o valor e a magnitude de valor e descobriu o conteúdo escondido nestas formas. Mas ela nunca pôs a questão sequer de porque é que esse conteúdo assume essa forma, de porque é que, portanto, o trabalho se manifesta no valor e a medida do trabalho pela sua duração na magnitude de valor do produto de trabalho(13*). Fórmulas que trazem escrito na testa que pertencem a uma formação social em que é o processo de produção que manda nos homens e ainda não o homem no processo de produção aparecem à sua consciência burguesa como uma necessidade natural tão evidente como o próprio trabalho produtivo. Por isso, formas pré-burguesas do organismo social de produção são por ela tratadas algo como as religiões pré-cristãs pelos Padres da Igreja(14*).

Entre outras coisas, a insípida e entediante disputa sobre o papel da Natureza na formação do valor de troca demonstra até que ponto uma parte dos economistas é enganada pelo feiticismo que se cola ao mundo das mercadorias ou pela aparência objectiva das determinações sociais do trabalho. Como o valor de troca é uma determinada maneira social de expressar o trabalho aplicado numa coisa, ele não contém mais matéria natural do que algo como a cotação cambial.

Como a forma-mercadoria é a forma mais geral e menos desenvolvida da produção burguesa — razão pela qual aparece cedo, embora não no mesmo modo dominante e, portanto, característico do que hoje em dia — o seu carácter de feitiço parece ainda relativamente fácil de entrever. Em formas mais concretas, até esta aparência de simplicidade desaparece. De onde vieram as ilusões do sistema monetarista? No ouro e na prata não viu que, como dinheiro, representavam uma relação de produção social, mas viu-os na forma de coisas naturais com estranhas qualidades sociais. E a moderna economia, que superiormente desdenha do sistema monetarista, não se torna o seu feiticismo palpável logo que trata do capital? Há quanto tempo desapareceu a ilusão fisiocrática de que a renda da terra cresce da terra e não da sociedade?

No entanto, para não nos anteciparmos, baste aqui mais um exemplo relativo à própria forma-mercadoria. Se as mercadorias pudessem falar, diriam: o nosso valor de uso talvez interesse aos homens. Não é da nossa conta como coisas. O que, porém, como coisa, nos pertence é o nosso valor. Prova-o o nosso próprio intercâmbio como coisas-mercadorias. Só como valores de troca é que nos relacionamos umas com as outras. Agora ouçamos como fala um economista a partir da alma das mercadorias:

«Valor» (valor de troca) «é uma propriedade de coisas, riquezas» (valor de uso) «do homem. Valor, neste sentido, implica necessariamente trocas; riquezas, não.»(15*) «Riquezas» (valor de uso) «são atributo do homem, valor é o atributo de mercadorias. Um homem ou uma comunidade são ricos, uma pérola ou um diamente são valiosos... Uma pérola ou um diamante são valiosos como uma pérola ou diamante.»(16*)

Até aqui, ainda nenhum químico descobriu valor de troca na pérola ou no diamante. Os descobridores económicos desta substância química, que têm particulares pretensões a profundidade crítica, acham porém que o valor de uso das coisas lhes pertence independentemente das suas propriedades coisais, o seu valor, em contrapartida, pretence-lhes como coisas. Aquilo que os confirma nisso é a circunstância estranha de o valor de uso das coisas se realizar, para o homem, sem troca, ou seja, numa relação imediata entre coisa e homem, e, inversamente, o seu valor só se realizar na troca, i. é, num processo social. Quem é que aqui não recorda o bom Dogberry, que ensina ao guarda-nocturno Seacoal[N36] que:

«Ser um homem bem parecido é um dom da fortuna, mas ler e escrever vem por Natureza.»(18*)

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Notas de rodapé:

(1*) Recordar-se-ão de que a China e as mesas começaram a dançar quando todo o resto do mundo parecia estar quieto — pour encourager les autres(2*)[N33]. (retornar ao texto)

(2*) Em francês no texto: para encorajar os outros. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(3*) Nota à 2.ª ed. Entre os antigos germanos, o tamanho de uma jeira [Morgen] de terra era calculado pelo trabalho de um dia [Tag] e, por isso, a jeira era chamada Tagwerk [trabalho de um dia] (também Tagwanne [joeiramento diário]) (jurnale ou jurnalis, terra jurnalis, jornalis ou diurnalis), Mannwerk [trabalho de um homem], Mannskraft [força de um homem], Mannsmaad [ceifa de um homem], Mannshauet [surriba de um homem], etc. Ver Georg Ludwig von Maurer, Einleitung zur Geschichte der Mark-, Hof-, usw. Verfassung, Munchen, 1854, pp. 129 sq. (retornar ao texto)

(4*) Em latim no texto: totalmente (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(5*) Nota à 2.a ed. Assim, quando Galiani diz que o valor é uma relação entre pessoas — «La ricchezza è una ragione fra due persone»(6*) —, ele deveria ter acrescentado: relação escondida sob invólucro de coisa. (Galiani, Della Moneta, p. 221, t. III, da colectânea de Custodi Scrittori Classici Italiani di Economia Politica, Parte Moderna, Milano, 1803.) (retornar ao texto)

(6*) Em italiano no texto: «A riqueza é uma razão entre duas pessoas». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(7*) «Que se há-de pensar de uma lei que só se consegue impor através de revoluções periódicas? É precisamente uma lei da Natureza, que repousa na falta de consciência dos interessados.» (Friedrich Engels, «Umrisse zu einei Kritik der Nationalökonomie», in Deutsch-Französische Jahrbücher, edit. por Arnold Ruge e Karl Marx, Paris, 1844.) (retornar ao texto)

(8*) Em latim no texto: posteriormente. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(9*) Nota à 2.a edição. Também Ricardo não passa sem a sua robinsonada. «Faz logo o pescador primitivo e o caçador primitivo trocarem peixe e caça como possuidores de mercadorias, na proporção do tempo de trabalho objectivado nestes valores de troca. Nesta oportunidade cai no anacronismo de pôr o pescador primitivo e o caçador primitivo a utilizarem, para o cálculo dos seus instrumentos de trabalho, as tabelas de anuidades correntes na Bolsa de Londres em 1817. Os 'paralelogramos do senhor Owen'[N34] parecem ser a única forma de sociedade que ele conhecia, para além da burguesa.» (Karl Marx, Zur Kritik, etc, pp. 38, 39.)(retornar ao texto)

(10*) Nota à 2.ª edição. «É um preconceito ridículo, espalhado nos tempos mais recentes, que a forma da propriedade comum natural é especificamente eslava, até mesmo uma forma exclusivamente russa. Ela é a forma originária que podemos verificar entre romanos, germanos, celtas, da qual ainda se encontra todo um mostruário com múltiplos especímes, ainda que em parte em ruínas, entre os indianos. Um estudo mais exacto das formas de propriedade comum asiáticas, especialmente indianas, demonstrava como, das diversas formas da propriedade comum natural, resultam diversas formas da sua dissolução. Assim, p. ex., os diversos tipos originais da propriedade privada romana e germânica são dedutíveis de diversas formas de propriedade comum indiana» (Karl Marx, Zur Kritik, etc., p. 10.) (retornar ao texto)

(11*) A insficiência da análise de Ricardo da magnitude de valor — e ela é a melhor — depreender-se-á do terceiro e quarto livros desta obra. Porém, no que respeita ao valor em geral, a economia política clássica em lado nenhum distingue expressanente e com clara consciência entre o trabalho tal como se apresenta no valor e o mesmo trabalho mas na medida em que se apresenta no valor de uso do seu produto. Naturalmente que a economia política clássica estabelece a diferença de facto, pois considera o trabalho, por vezes, quantitativamente, de outras vezes, qualitativamente. Mas não lhe ocorre que a diferença meramente quantitativa dos trabalhos pressupõe a sua unidade ou igualdade qualitativa, portanto, a sua redução a trabalho humano em abstracto. Ricardo, p. ex., declara-se de acordo com Destutt de Tracy, quando este diz: «Visto que é certo que as nossas faculdades físicas e morais são a nossa única riqueza originária, que o emprego dessas faculdade, o trabalho seja ele qual for, é o nosso único tesouro primitivo, e que é sempre deste emprego que nascem todas as coisas a que chamamos bens... é igualmente certo que todos estes bens apenas representam o trabalho que lhes deu origem e que se têm um valor, ou mesmo dois distintos, não podem tirar esse valor senão do trabalho de que emanam.» ([Destutt de Tracy, Eléments d'idéologie, IV e V partes, Paris, 1826, pp. 35, 36] Ricardo, The Principies of Pol. Econ., 3.ª ed., Lond, 1821, p. 334.) Apenas assinalamos que Ricardo imputa a Destutt o seu próprio sentido mais profundo. Destutt diz de facto que, por um lado, todas as coisas que formam a riqueza «representam o trabalho que lhes deu origem», mas, por outio lado, diz que elas recebem os seus «dois [valores] distintos» (valor de uso e valor de troca) do «[valor] do trabalho». Desse modo, ele cai na banalidade da economia vulgar, que pressupõe o valor de uma mercadoria (aqui, do trabalho) para por seu intermédio determinar depois o valor das outras mercadorias. Ricardo lê-o de tal maneira que tanto no valor de uso como no valor de troca é trabalho (e não valor do trabalho) o que se manifesta. No entanto, ele próprio distingue tão pouco o carácter biface do trabalho, que é apresentado duplamente, que, em todo o capítulo «Value and Riches, Their Distinctive Properties»(12*), tem penosamente que andar às voltas com as trivialidades de um J.-B. Say. Por isso, no final, ele fica totalmente surpreendido pelo facto de Destutt, por um lado, concordar com ele próprio acerca do trabalho como fonte de valor mas, no entanto, por outro lado, afinar com Say acerca do conceito de valor. (retornar ao texto)

(12*) Em inglês no texto: «Valor e Riquezas, Suas Propriedades Distintivas». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(13*) Um dos defeitos fundamentais da economia política clássica é o facto de nunca ter conseguido, a partir da análise da mercadoria e, mais em especial, do valor das mercadorias, descobrir a forma-valor que o torna precisamente valor de troca. É exactamente nos seus melhores representantes, como A. Smith e Ricardo, que ela trata a forma-valor como algo de totalmente indiferente ou mesmo exterior à natureza da mercadoria. A razão não está apenas em a análise da magnitude de valor absorver totalmente a sua atenção. Ela reside mais profundamente. A forma-valor do produto de trabalho é a forma mais abstracta, mas também mais geral, do modo de produção burguês, que, assim, é caracterizado como uma espécie particular de produção social e, com isto, simultaneamente é caracterizado historicamente. Por isso, se erradamente a tomarmos como uma forma natural eterna da produção social necessariamente que não reparamos também no específico da forma-valor e, portanto, da forma-mercadoria e, mais desenvolvidamente, da forma-dinheiro, da forma-capital, etc. É por isso que, em economistas que estão completamente de acordo quanto à medida da magnitude de valor pelo tempo de trabalho, encontramos as mais variegadas e contraditórias representações acerca do dinheiro, i. é, da figura acabada do equivalente geral. Isto sobressai gritantemente, p. ex., no tratamento do sistema bancário, onde as definições banais do dinheiro já não chegam. Pelo contrário, resultou daí um sistema mercantilista restaurado (Ganilh, etc.) que no valor vê apenas a forma social, ou antes, a sua aparência insubstancial. — Para que se anote de uma vez por todas, entendo por economia política clássica toda a economia desde W. Petty que investiga a conexão interna das relações de produção burguesas, em oposição à economia vulgar, que apenas vagueia no interior da conexão aparente, que, para uma inteligibilização plausível dos, por assim dizer, fenómenos mais grosseiros e para o uso doméstico burguês, rumina de novo sem cessar o material há muito fornecido pela economia científica, mas que, quanto ao resto, se limita a sistematizar, pedantizar e proclamar como verdades eternas as representações banais e autocomplacentes dos agentes de produção burgueses acerca do seu próprio mundo, o melhor em sua opinião. (retornar ao texto)

(14*) «Os economistas têm uma maneira singular de proceder. Para eles há apenas duas espécies de instituições, as da arte e as da Natureza. As instituições da feudalidade são instituições artificiais, as da burguesia são instituições naturais. Eles parecem-se nisso com os teólogos, que, também eles, estabelecem duas espécies de religiões. Toda a religião que não é a deles é uma invenção dos homens, enquanto que a sua própria religião é uma emanação de Deus... Assim houve história, mas não há mais.» (Karl Marx, Misère de la philosophie. Réponse à la Philosophie de la misère de M. Proudhon, 1847, p. 113.) Verdadeiramente cómico é o senhor Bastiat, que imagina que os antigos gregos e romanos só viveram da pilhagem. Porém, se durante muitos séculos se vive da pilhagem, então tem de haver constantemente alguma coisa para pilhar ou o objecto da pilhagem tem de se reproduzir continuamente. Parece, por isso, que também os gregos e os romanos tinham um processo de produção, portanto, uma economia, que formava a base material do seu mundo exactamente como a economia burguesa forma a do mundo hodierno. Ou será que Bastiat quer dizer que um modo de produção que repousa no trabalho escravo repousa num sistema de pilhagem? Nesse caso, ele coloca-se em terreno perigoso. Se um gigante do pensamento como Aristóteles errou na sua apreciação do trabalho escravo, porque é que um economista anão, como Bastiat, havia de acertar na sua apreciação do trabalho assalariado? — Aproveito esta oportunidade para rejeitar, de forma breve, uma objecção que me foi feita por uma folha germano-americana quando da saída da minha obra Zur Kritik der Pol Oekonomie, em 1859. Ela dizia que a minha opinião de que um modo de produção determinado e as relações de produção que em cada caso lhe correspondem, em suma, de que «a estrutura económica da sociedade é a base real sobre a qual se ergue uma superstrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social», de que «o modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral» —, tudo isso estaria sem dúvida certo para o mundo hodierno, onde dominam os interesses materiais, mas não para a Idade Média, onde dominava o catolicismo, nem para Atenas e Roma, onde dominava a política. Antes de mais, é estranho que alguém queira pressupor que estas maneiras de falar mundialmente conhecidas acerca da Idade Média e do mundo antigo teriam permanecido desconhecidas de quem quer que fosse. Será, pelo menos, claro que a Idade Média não podia viver do catolicismo nem o mundo antigo viver da política. Inversamente, é a maneira como uma e outro ganhavam a vida que explica por que razão a política, num caso, e o catolicismo, no outro, desempenhavam o papel principal. De resto, basta um pouco de familiaridade, p. ex., com a história da república romana para saber que é a história da propriedade fundiária que forma a sua história secreta. Por outro lado, já Dom Quixote expiou o erro de imaginar que a cavalaria andante era compatível por igual com todas as formas económicas da sociedade. (retornar ao texto)

(15*) «Value is a property of things, riches of man. Value, in this sense, necessarily implies exchanges, riches do not.» (Observations on Some Verbal Disputes in Pol Econ., Particularly Relating to Value, and to Supply and Demand, Lond., 1821, p. 16.) (retornar ao texto)

(16*) «Riches are the attribute of man, value is the attribute of commodities. A man or a community is rich, a pearl or a diamond is valuable... A pearl or a diamond is valuable as a pearl or diamond.» (S. Bailey, 1. c, pp. 165 sq(17*).) (retornar ao texto)

(17*) Nas edições inglesa e francesa: p. 165. Verificam-se também ligeiras diferenças nesta nota e na anterior entre os textos em inglês dados na edição alemã e na edição inglesa. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(18*) O autor das Observations e S. Bailey culpam Ricardo de ter transformado o valor de troca de algo apenas relativo em algo de absoluto. É o inverso. Ele reduziu a relatividade aparente que essas coisas, diamantes e pérolas, p. ex., possuem como valores de troca à verdadeira relação escondida atrás da aparência, à sua relatividade como meras expressões de trabalho humano. Se os ricardianos respondem a Bailey de maneira rude, embora não convincente, é apenas porque não encontraram no próprio Ricardo qualquer chave para a conexão interna entre valor e forma-valor ou valor de troca. (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N33] Depois da derrota das revoluções de 1848-1849 na Europa iniciou-se um período de sombria reacção política. Por essa altura, nos círculos aristocráticos dos países europeus as pessoas começaram a dedicar-se ao espiritismo, especialmente à mesa de pé-de-galo. E na China, nessa mesma época, desencadeou-se um movimento de libertação antifeudal, que assumiu o carácter de uma poderosa guerra camponesa (a revolução Taiping). (retornar ao texto)

[N34] Ricardo refere-se aos paralelogramos de Robert Owen na sua obra On Protection to Agriculture. Fourth edition. London, 1822, p. 21. Ao desenvolver o seu projecto utópico de transformações sociais, Owen afirmava que economicamente, e também do ponto de vista da organização da vida doméstica, o mais racional era uma disposição das construções sob a forma de um paralelogramo ou de um quadrado. (retornar ao texto)

[N35] Segundo as ideias do filósofo grego antigo, Epicuro, no geral materialista e ateu, existe uma inumerável quantidade de mundos. Esses mundos surgem e existem pelas suas próprias leis naturais. Quanto aos deuses, embora existam, encontram-se fora dos mundos, nos espaços entre estes, e não exercem qualquer influência nem no desenvolvimento do universo nem na vida do homem. (retornar ao texto)

[N36] Shakespeare, Muito Barulho por Nada, acto III, cena 3. (retornar ao texto)

Inclusão 01/12/2011