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O Capital
Crítica da Economia Política
Karl Marx

Livro Primeiro: O processo de produção do capital

Terceira Secção: A Produção da mais-valia absoluta

Oitavo capítulo: O dia de trabalho


3. Ramos de indústria ingleses sem barreira legal à exploração


capa

Observámos até aqui o impulso para o prolongamento do dia de trabalho, a avidez de lobisomem por sobretrabalho, num domínio em que excessos desmedidos — não ultrapassados, assim o diz um economista burgês inglês, pelas atrocidades dos espanhóis contra os peles-vermelhas da América(1*) — colocaram finalmente o capital nas cadeias da regulamentação legal. Lancemos agora o olhar sobre alguns ramos de produção onde a sucção da força de trabalho ou ainda hoje é desenfreada ou ainda ontem o era.

«O senhor Broughton, um county magistrate(2*), como presidente de uma reunião realizada no salão municipal de Nottingham a 14 de Janeiro de 1860, declarou que na parte da população ligada ao negócio das rendas havia um montante de privação e sofrimento desconhecidos [...] no mundo civilizado... Às duas, três ou quatro horas da manhã, crianças de nove ou dez anos são arrancadas das suas camas esquálidas e compelidas a trabalhar para a mera subsistência até às dez, onze, doze horas da noite, enquanto os seus membros definham, a sua compleição mingua, os seus rostos empalidecem e a sua humanidade mergulha absolutamente num turpor pétreo, inteiramente horrível de contemplar [...] Não nos surpreende que o Sr. Mallett ou qualquer outro manufactureiro avance e proteste contra a discussão... O sistema, tal como o Rev. Montagu Valpy o descreve, é um sistema de escravatura não mitigada, socialmente, fisicamente, moralmente e espiritualmente... O que se há-de pensar de uma cidade que convoca uma reunião pública para peticionar que o período de trabalho para os homens seja diminuído para dezoito horas por dia?... Nós clamamos contra os plantadores de algodão da Virgínia e da Carolina. São o seu mercado de negros, o seu chicote e o seu tráfico de carne humana mais detestáveis do que este lento sacrifício de humanidade que tem lugar para que sejam fabricados véus e golas em benefício de capitalistas?»(3*)

A olaria (pottery) de Staffordshire constituiu durante os últimos 22 anos o objecto de três investigações parlamentares. Os resultados estão assentes no relatório do senhor Scriven aos «Children's Employment Commissioners» de 1841, no relatório do Dr. Greenhow de 1860, publicado por ordem do funcionário médico do Privy Council(4*) (Public Health, 3rd Report, I, 102-113) e por fim no relatório do senhor Longe de 1863, in First Report ofthe Children's Employment Commission de 13 de Junho de 1863. Para o que me ocupa, basta ir buscar aos relatórios de 1860 e 1863 alguns testemunhos das próprias crianças exploradas. A partir das crianças pode-se concluir acerca dos adultos, nomeadamente de raparigas e mulheres, e precisamente num ramo de indústria ao lado do qual fiação de algodão e semelhantes aparecem como uma ocupação muito agradável e saudável(5*).

Guilherme Wood, de nove anos, «tinha 7 anos e 10 meses quando começou a trabalhar». Ele «ran moulds»(6*) (levava a mercadoria já moldada para a sala de secagem, para depois voltar a trazer o molde vazio) desde o início. Chega cada dia da semana às 6 horas da manhã e pára aproximadamente às 9 horas da noite. «Trabalho até às 9 horas da noite seis dias na semana. Eu fiz, assim, sete ou oito semanas.» Portanto, trabalho de quinze horas para uma criança de sete anos! J. Murray, um rapaz de doze anos, afirma:

«I run moulds and turn jigger» (dou à roda). «Chego às 6. As vezes chego às 4. A noite passada trabalhei toda a noite até às 6 horas desta manhã. Não fui à cama desde a noite antes da noite passada. A noite passada havia mais oito ou nove rapazes a trabalhar. Todos, menos um, voltaram esta manhã. Recebo 3 xelins e seis dinheiros.» (1 táler e 5 Groschen.) «Não recebo mais por trabalhar à noite. Na última semana trabalhei duas noites.»

Fernyhough, um rapaz de dez anos:

«Nem sempre tenho uma hora (para o almoço). Por vezes, só tenho meia hora, às quintas, sextas e sábados.»(7*)

O Dr. Greenhow declara extraordinariamente curto o tempo de vida nos distritos de oleiros de Stoke-upon-Trent e Wolstanton. Embora no distrito de Stoke apenas 36,6% e em Wolstanton apenas 30,4% da população masculina acima dos 20 anos esteja ocupada nas olarias, entre homens desta categoria recai sobre os oleiros no primeiro distrito mais de metade, no segundo aproximadamente 2/5 dos casos mortais, em consequência de doenças de peito. O Dr. Boothroyd, médico de clínica geral em Hanley, afirma:

«Cada geração sucessiva de oleiros é mais anã e menos robusta do que a precedente.»

Do mesmo modo, um outro médico, o senhor McBean:

«Desde que há 25 anos começou a sua clínica entre os oleiros, observou uma acentuada degeneração, especialmente manifesta numa diminuição de estatura e envergadura.»

Estas afirmações são tomadas do relatório do Dr. Greenhow de 1860(8*).

Do relatório dos comissários de 1863, o seguinte: o Dr. J. T. Arledge, médico chefe no hospital de North Staffordshire, diz:

«Enquanto classe, os oleiros, tanto homens como mulheres, representam uma população degenerada, tanto física como moralmente. Eles são, em regra, atrasados no crescimento, de compleição doentia, e frequentemente malformados no peito; envelhecem permaturamente, e certamente vivem pouco tempo; são fleumáticos e anémicos, e exibem a debilidade da sua constituição através de persistentes ataques de dispepsia, perturbações do fígado e rins, e de reumatismo. Mas de todas as doenças, eles são especialmente dados a doenças de peito, à pneumonia, tísica, bronquite e asma. Uma forma desta é-lhes peculiar e é conhecida sob o nome de asma dos oleiros ou de consunção do oleiro. Escrófulas que atacam as amígdalas, os ossos ou outras partes do corpo, são uma doença de dois terços ou mais dos oleiros [...] Que a degenerescência (degenerescence) da população deste distrito não seja ainda muito maior do que é, deve-se ao recrutamento constante dos distritos rurais adjacentes e aos casamentos mistos com raças mais saudáveis.»

O senhor Charles Parsons, há pouco tempo ainda house surgeon(10*) do mesmo estabelecimento de saúde, escreve numa carta ao comissário Longe, entre outras coisas:

«Só posso falar a partir de observação pessoal e não de dados estatísticos, mas não hesito em asseverar que a minha indignação tem crescido cada vez mais à vista destas pobres crianças, cuja saúde foi sacrificada para satisfazer a avareza tanto de pais como de empregadores.»

Ele enumera as causas das doenças dos oleiros e conclui a culminar: «long hours» («longas horas de trabalho»). O relatório da comissão espera que

«uma manufactura, que assumiu uma posição tão proeminente no mundo inteiro, não venha por mais tempo a estar sujeita à crítica de que o seu grande êxito é acompanhado pela deterioração física, generalizados sofrimentos corporais e morte prematura da gente trabalhadora [...] por cujo trabalho e destreza se alcançaram tão grandes resultados.»(11*)

O que vale para as olarias em Inglaterra vale para as olarias na Escócia(12*).

A manufactura de fósforos data de 1833, da invenção de aplicar o fósforo ao pau. A partir de 1845 desenvolveu-se rapidamente em Inglaterra e espalhou-se das partes densamente povoadas de Londres nomeadamente também para Manchester, Birmingham, Liverpool, Bristol, Norwich, Newcastle e Glasgow, e com ela o trismo, que um médico vienense, já em 1845, descobrira como doença peculiar dos fosforeiros. Metade dos operários são crianças abaixo dos 13 e jovens abaixo dos 18 anos. A manufactura está de tal modo desacreditada, devido à sua insalubridade e repugnância, que apenas a parte mais degradada da classe operária, viúvas semiesfomeadas, etc, enviam crianças para lá, «crianças esfarrapadas, semi-esfomeadas e sem instrução»(13*). Das testemunhas que o comissário White (1863) interrogou, 270 estavam abaixo dos 18 anos, 40 abaixo dos 10 anos, 10 tinham apenas 8 e 5 apenas 6 anos. Mudança do dia de trabalho de 12 para 14 e 15 horas, trabalho nocturno, tempos de refeições irregulares, na maioria dos casos nos próprios espaços de trabalho que estão empestados de fósforo. Dante encontraria ultrapassadas, nesta manufactura, as suas mais atrozes fantasias infernais.

Na fábrica de papel de parede, as qualidades mais grosseiras são estampadas com máquinas, as mais finas à mão (block-printing(14*)). Os meses mais intensos de negócio caem entre o início de Outubro e o fim de Abril. Durante este período, este trabalho dura frequentemente e quase sem interrupção das 6 horas da manhã até às 10 horas da noite e mais pela noite dentro.

J. Leach afirma:

«No Inverno passado» (1862) «seis em dezanove raparigas foram-se embora devido a doenças contraídas por trabalho a mais. Para as manter acordadas tenho de lhes gritar.»

W. Duffy: «Vi quando as crianças, nenhuma delas, podia manter os olhos abertos para o trabalho; de facto nenhum de nós podia.» J. Lightbourne: «Tenho 13 anos... Trabalhámos no Inverno passado até às 9 (da noite), e no Inverno anterior até às 10. No Inverno passado eu costumava chorar quase todas as noites com os pés em chaga.» G. Aspden: «Este meu rapaz [...] quando ele tinha 7 anos, costumava trazê-lo para cá e levá-lo às costas pela neve, e ele costumava trabalhar 16 horas por dia» ! «... Muitas vezes ajoelhei para lhe dar de comer quando ele estava de pé junto da máquina, pois não podia abandoná-la ou parar.» Smith, o sócio-gerente que administrava uma fábrica de Manchester: «Nós trabalhamos» (ele quer dizer os seus «braços» que trabalham para «nós») «sem paragem para as refeições de modo que o trabalho diário de 10 1/2 horas está pronto às 4 e 30 da tarde, e depois disso é tudo tempo a mais.»(15*) (Será que este senhor Smith não toma nenhuma refeição durante 10 1/2 horas?) «Nós» (o mesmo Smith) «raramente paramos de trabalhar antes das 6 da tarde» (quer ele dizer, o consumo «das nossas» máquinas de força de trabalho), «de tal modo que nós» (iterum Crispinus[N81]) «estamos realmente a trabalhar tempo a mais durante todo o ano... Para todos eles, crianças e adultos por igual» (152 crianças e jovens abaixo dos 18 anos e 140 adultos) «o trabalho médio, nos últimos 18 meses, foi no mínimo 7 dias e 5 horas ou 78 1/2 horas por semana. Para as seis semanas que terminaram a 2 de Maio deste ano» (1863) «a média foi superior — 8 dias ou 84 horas por semana»!

Contudo, acrescenta sorridentemente o mesmo senhor Smith, que é tão dado ao pluralis majestatis(16*): «O trabalho à máquina não dá muito trabalho.» E assim os utilizadores do block-printing dizem: «O trabalho manual é mais saudável do que o trabalho à máquina.» No conjunto, os senhores fabricantes declaram-se indignados contra a proposta «de parar as máquinas pelo menos durante as horas de refeição».

«Uma cláusula», diz o senhor Ottley, o gerente de uma fábrica de papel de parede no Borough (Londres), «que permitisse trabalhar entre, digamos, as 6 da manhã e as 9 da noite [...] convir-nos(!)-ia muito, mas as horas da factory act das 6 da manhã até às 6 horas da tarde não são convenientes (!). A nossa máquina é sempre parada para almoço» (que generosidade!). «Não há desperdício de papel e tinta digno de menção. Mas», acrescenta ele compreensivamente, «posso entender que não se goste da perda de tempo.»

O relatório da comissão opina ingenuamente que o medo de algumas «grandes firmas» de perder tempo, i. é, tempo de apropriação de trabalho alheio, e por essa via «lucro», não é «razão suficiente» para «fazer perder» a crianças abaixo dos 13 e jovens abaixo dos 18 anos durante 12-16 horas a sua refeição do meio-dia ou para lha darem tal como se acrescenta carvão e água à máquina a vapor, sabão à lã, óleo à roda, etc, durante o próprio processo de produção, como mera matéria auxiliar do meio de trabalho(17*).

Nenhum ramo de indústria em Inglaterra (abstraímos do pão de máquina que só recentemente começou a fazer carreira) como a padaria conservou até hoje um modo de produção tão antigo, mesmo pré-cristão, como se pode ver a partir dos poetas do tempo do império romano. Mas o capital, como foi notado anteriormente, é, primeiro, indiferente ao carácter técnico do processo de trabalho de que se apodera. Primeiro, toma-o tal como o encontra.

A incrível falsificação do pão, especialmente em Londres, foi pela primeira vez revelada pelo comité da Câmara Baixa «acerca da adulteração dos artigos alimentares» (1855-1856) e pelo escrito do Dr. Hassal Adulterations Detected(19*). A consequência destas revelações foi a lei de 6 de Agosto de 1860: «for preventing the adulteration of articles off food and drink»(21*), uma lei ineficaz, dado que naturalmente se observa a maior delicadeza para com cada free-trader(22*) que se proponha «to turn an honest penny»(23*) através de compra e venda de mercadorias falsificadas(24*). O próprio comité formulou mais ou menos ingenuamente a sua convicção de que comércio livre significa essencialmente o comércio com «matérias» falsificadas ou, como lhes chama espirituosamente o inglês, «sofisticadas». De facto, esta espécie de «sofística» sabe, melhor do que Protágoras, fazer preto do branco e branco do preto e, melhor do que os Eleatas[N82], demonstrar ad óculos(26*) a mera ilusão de todo o real(27*).

De qualquer modo, o comité tinha dirigido o olhar do público para o seu «pão de cada dia» e, assim, para a padaria. Simultaneamente soou em reuniões públicas e em petições ao Parlamento o grito dos oficiais de padaria de Londres acerca de fazer trabalhar a mais, etc. O grito tornou-se tão premente que o senhor H. S. Tremenheere, também membro da comissão muitas vezes mencionada de 1863, foi nomeado comissário régio de investigação. O seu relatório(29*), juntamente com testemunhos, excitou o público não no coração, mas no estômago. O inglês, versado na Bíblia, sabia de facto que o homem — quando não capitalista, landlord ou sinecurista pela graça de deus — é chamado a comer o pão com o suor do seu rosto; mas não sabia que, no seu pão, devia comer diariamente um certo quantum de suor humano, impregnado de excreções de úlcera purulenta, teia de aranha, cadáveres de baratas e fermento alemão deteriorado, para além do alúmen, do saibro e outros agradáveis ingredientes minerais. Sem qualquer consideração pela sua santidade, pelo free-trade, a até aqui padaria «livre» foi pois submetida ao controlo de inspectores do Estado (fim da sessão parlamentar de 1863) e pela mesma lei parlamentar foi proibido aos oficiais de padaria abaixo dos 18 anos o tempo de trabalho das 9 horas da noite até às 5 horas da manhã. A última cláusula farta-se de falar do fazer trabalhar a mais neste ramo de negócio que nos lembra tão patriarcalmente o lar.

«O trabalho de um oficial de padaria de Londres começa em regra às onze da noite. A essa hora ele "faz a massa" — um processo laborioso, que dura de meia hora a três quartos de hora, consoante a dimensão da fornada ou o trabalho empregue nela. Ele deita-se então sobre a tábua de amassar, que serve simultaneamente de tampa da amassadeira em que a massa é "feita"; e dorme um par de horas com uma saca por baixo e outra enrolada como travesseiro. Então começa um trabalho rápido e contínuo durante cerca de cinco horas — estender a massa, "pesar", moldar, meter no forno [...] tirar a fornada de pão do forno [...], etc. A temperatura de uma padaria varia entre cerca de 75 e mais de 90 graus(30*) e nas padarias mais pequenas aproxima-se usualmente mais do grau de calor superior do que do inferior. Quando esse serviço de fazer pão, pãezinhos, etc, acabou, começa a sua distribuição, e uma parte considerável dos oficiais deste ofício, depois de terem trabalhado duramente, da maneira descrita, durante a noite, andam a pé muitas horas durante o dia carregando cestos ou empurrando carrinhos, e por vezes de novo na padaria, largando o trabalho a horas diversas entre a 1 e as 6 da tarde, consoante a estação do ano ou o montante e natureza do negócio do seu patrão; enquanto outros estão ocupados de novo na padaria a "tirar" mais fornadas até ao fim da tarde.»(31*) «Durante [...] "a estação londrina", os operários pertencentes aos padeiros [que vendem] a "preço inteiro" ["full-priced" bakers] do West End da cidade começam geralmente a trabalhar às 11 da noite e estão ocupados a fazer pão, com um ou dois pequenos (por vezes muito pequenos) intervalos para descanso até às 8 horas da manhã seguinte. Eles são ocupados então durante o dia todo até às 4, 5, 6 e mesmo 7 horas para transportarem o pão ou por vezes à tarde de novo na padaria ajudando a fazer biscoitos. Depois de terem feito o seu trabalho podem ter por vezes cinco ou seis, por vezes apenas quatro ou cinco horas de sono antes de começarem de novo. Às sextas-feiras começam sempre mais cedo. alguns por volta das dez horas, e continuam nalguns casos a trabalhar, tanto a fazer como a distribuir o pão, até às 8 da noite de sábado, mas mais geralmente até às 4 ou 5 horas da manhã de domingo. Aos domingos os homens têm de lá ir duas ou três vezes durante o dia, uma ou duas horas, para fazer os preparativos para o pão do dia seguinte... Os homens empregues pelos "underselling masters"» (que vendem o pão abaixo do preço inteiro) «e estes compreendem, como já foi notado, acima de três quartos dos padeiros de Londres, têm não só de trabalhar em média mais horas, mas o seu trabalho está quase inteiramente confinado à padaria. Os patrões que vendem abaixo do preço vendem geralmente o seu pão [...] na loja [...] Para o fim da semana... os homens pegam à quinta-feira à noite às 10 horas e continuam apenas com ligeiros intervalos até tarde na noite de sábado.»(33*)

Acerca dos «underselling masters» mesmo o ponto de vista burguês compreende que «se fez do trabalho não pago dos homens (the unpaid labour of the men) a fonte a partir da qual a concorrência foi levada a cabo.»(34*) E o «full-priced baker» denuncia os seus concorrentes «underselling» à comissão de investigação como ladrões de trabalho alheio e falsificadores.

«Eles só existem agora porque primeiro defraudam o público e depois porque tiram 18 horas de trabalho dos seus homens contra salários de 12 horas.»(35*)

A falsificação do pão e a formação de uma classe de padeiros que vende o pão abaixo do preço inteiro desenvolveram-se em Inglaterra desde o início do século XVIII, assim que o carácter corporativo do ofício caiu em decadência e o capitalista, na figura de moleiro ou de farinheiro, surgiu por detrás do mestre padeiro nominal(36*). Com isso estava lançada a base para a produção capitalista, para o prolongamento desmedido do dia de trabalho e do trabalho nocturno, embora este último, mesmo em Londres, só em 1824 se tenha firmado seriamente(39*).

Depois do que precede, entender-se-á que o relatório da comissão conta os oficiais de padaria entre os operários de vida curta que — depois de felizmente terem escapado à dizimação infantil normal entre todas as partes da classe operária — raramente atingem o 42.° ano de vida. Não obstante, o ofício de padeiro está sempre repleto de candidatos. As fontes de aprovisionamento destas «forças de trabalho» para Londres são a Escócia, os distritos agrícolas ocidentais da Inglaterra e — a Alemanha.

Nos anos de 1858-1860, os oficiais de padaria organizaram na Irlanda, à sua própria custa, grandes reuniões para agitação contra o trabalho nocturno e dominical. O público — p. ex., na reunião de Maio em Dublin, 1860 — tomou partido por eles com calor irlandês. Através desse movimento, o trabalho exclusivamente diurno impôs-se, de facto, com êxito em Wexford, Kilkenny, Clonmel, Waterford, etc.

«Em Limerick, onde se demonstrou que as queixas dos oficiais eram excessivas, o movimento foi derrotado pela oposição dos mestres padeiros, sendo os moleiros padeiros os maiores opositores. O exemplo de Limerick levou a um retrocesso em Ennis e Tipperary. Em Cork, onde teve lugar a manifestação mais forte possível de fervor, os mestres derrotaram o movimento exercendo o seu poder de pôr os homens na rua. Em Dublin, os mestres padeiros ofereceram a oposição mais determinada ao movimento e, desencorajando o mais possível os oficiais que o promoveram, conseguiram levar os homens a concordar com o trabalho nocturno e dominical [...].»(40*)

A comissão do governo inglês, armado na Irlanda até aos dentes, admoesta funebremente os implacáveis mestres padeiros de Dublin, Limerick, Cork, etc:

«O Comité crê que as horas de trabalho estão limitadas por leis naturais, que não podem ser impunemente violadas. É de prever que o facto dos mestres padeiros induzirem os seus operários, pelo medo de perderem o emprego, a violar as suas convicções religiosas [...], a desobedecer às leis do país e a não respeitar a opinião pública» (tudo isto se refere ao trabalho dominical) «provoque inimizade entre operários e mestres [...] e forneça um exemplo perigoso para a religião, a moralidade e a ordem social... O Comité crê que qualquer trabalho contínuo para além de 12 horas por dia invade a vida doméstica e privada do operário e conduz assim a resultados morais desastrosos que interferem com o lar de cada um, e à negligência dos seus deveres familiares como filho, irmão, esposo e pai. Esse trabalho acima de 12 horas tem tendência para minar a saúde do operário, e assim leva a envelhecimento e morte prematuros, a grandes danos nas famílias dos operários desse modo privadas (are deprived) do cuidado e do apoio do chefe de família quando era mais requerido.»(41*)

Estávamos agora mesmo na Irlanda. Do outro lado do Canal, na Escócia, o operário rural, o homem do arado, denuncia o seu trabalho de 13 a 14 horas, no clima mais rude, com um trabalho suplementar de quatro horas ao domingo (nesta terra dos sabadeadores!)(42*), enquanto três operários dos caminhos-de-ferro — um revisor, um maquinista e um sinaleiro — se apresentam simultaneamente perante um Grand Jury londrino. Um grande desastre ferroviário expediu centenas de passageiros para o outro mundo. A negligência dos operários dos caminhos-de-ferro é a causa do desastre. Eles explicam em uníssono perante os jurados que, há 10 ou 12 anos, o seu trabalho durava apenas 8 horas por dia. Durante os últimos 5-6 anos havia sido fixado em 14, 18 e 20 horas e, em afluência particularmente viva de viajantes, como nos períodos dos comboios de excursão, dura muitas vezes 40-50 horas ininterruptas. Que são pessoas normais, e não ciclopes. A um dado ponto, falha a sua força de trabalho. O torpor atinge-os. O seu cérebro deixa de pensar e os seus olhos de ver. O inteiramente «respectable British Juryman»(44*) responde com um veredicto que os envia ao tribunal criminal [Assisen] sob a acusação de «manslaughter» (homicídio) e num apêndice brando exprime o piedoso desejo de que os senhores magnatas do capital dos caminho-de-ferro queiram, pois, de futuro ser mais pródigos na compra do número necessário de «forças de trabalho» e «mais abstinentes» ou «mais renunciantes» ou «mais poupados» no sugar da força de trabalho paga(45*).

De entre o variegado tropel de operários de todas as profissões, idades e sexos — que com mais fervor nos pressionam do que as almas dos assassinados a Ulisses — e nos quais, sem os livros azuis debaixo do braço, se observa, à primeira vista, o trabalho a mais, escolhemos ainda duas figuras, cujo impressionante contraste comprova que, perante o capital, todas as pessoas são iguais — uma modista e um ferreiro.

Nas últimas semanas de Junho de 1863, todos os jornais londrinos traziam um artigo com o «sensational» título: «Deathfrom simple overwork» (Morte por simples trabalho a mais). Tratava-se da morte da modista Mary Anne Walkley, de vinte anos, empregada numa muito respeitável manufactura de artigos de moda, fornecedora da corte, e explorada por uma senhora com o bonito nome de Elise. A velha história, muitas vezes contada, era agora de novo descoberta(47*): que estas raparigas trabalham ininterruptamente em média 16 1/2 horas, porém durante a estação [Saison] muitas vezes 30 horas, conservando-se a sua fraquejante «força de trabalho» em fluxo graças a um ocasional aprovisionamento de Sherry, vinho do Porto ou café. E era exactamente o auge da estação. Tratava-se de ter pronto como que por encanto os vestidos de gala de ladies(48*) fidalgas para o baile de homenagem em casa da princesa de Gales, recém-importada. Mary Anne Walkley tinha trabalhado 26 1/2 horas sem interrupção, juntamente com outras 60 raparigas, 30 em cada sala, que dificilmente permitia 1/3 das polegadas cúbicas de ar necessárias, enquanto que, de noite, partilhavam, duas a duas, uma cama num dos buracos sufocantes, em que um quarto de dormir estava feito redil por meio de diversos tabiques(49*). E esta era uma das melhores casas de modas de Londres. Mary Anne Walkley adoeceu na sexta-feira e morreu no domingo sem — para espanto da senhora Elise — sequer antes terminar a última peça. O médico chamado demasiado tarde ao leito de morte, o senhor Keys, testemunhou perante o «coroner's jury»(50*) com palavras secas:

«Mary Anne Walkley morreu devido a longas horas de trabalho numa sala de trabalho superlotada e num quarto de dormir demasiado pequeno e mal ventilado.»

Para dar ao médico uma lição de bons modos, explicava pelo contrário o «coroner's jury»:

«A defunta morreu de apoplexia, mas há razão para temer que a sua morte tenha sido acelerada por trabalho a mais numa sala de trabalho superlotada, etc.»

«Os nossos escravos brancos», proclamou o Morning Star, o órgão dos senhores livre-cambistas Cobden e Bright, «os nossos escravos brancos, a quem sie faz trabalhar até à sepultura, [...] definham e morrem em silêncio.»(51*)

«Trabalhar até à morte é a ordem do dia não apenas nas salas das modistas, mas em mil outros lugares; quase diria, em todo o lugar onde tenha de se fazer um "negócio florescente"... Tomaremos o ferreiro como tipo. Se os poetas têm razão, não há homem tão vigoroso, tão alegre como o ferreiro; levanta-se cedo e faz as suas faíscas antes do sol nascer; come e bebe e dorme como nenhum outro homem. Ao trabalhar com moderação ele está de facto numa das melhores posições humanas, fisicamente falando. Mas seguimo-lo para a cidade ou vila e vemos a pressão do trabalho sobre este homem forte e qual é então a sua posição na taxa de mortalidade do seu país. Em Marylebone» (um dos maiores bairros de Londres) «morrem anualmente ferreiros à razão de 31 por mil, ou 11 acima da mortalidade média dos homens adultos do país na sua globalidade. A ocupação, irrepreensível como ramo da indústria humana, torna-se por mero excesso de trabalho destruidora do homem. Ele pode dar diariamente tantas marteladas, dar tantos passos, fazer tantas respirações, produzir tanto trabalho e viver em média, digamos, cinquenta anos; ele é forçado a dar mais umas tantas marteladas, a dar mais uns tantos passos, a fazer mais umas tantas respirações por dia e a ampliar, ao todo, de um quarto a sua vida. Ele corresponde ao esforço; o resultado é que, produzindo num tempo limitado mais um quarto de trabalho, morre aos 37 em vez de aos 50.»(52*)

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Notas de rodapé:

(1*) «A cupidez dos donos das fábricas, cujas crueldades em busca de ganho dificilmente foram excedidas pelas perpetradas pelos Espanhóis na conquista da América na busca de ouro.» (John Wade, History of the Middle and Working Classes, 3rd ed., Lond., 1835, p. 114.) A parte teórica deste livro, uma espécie de esboço da economia política, contém para o seu tempo algo de original, p. ex., acerca das crises comerciais. A parte histórica sofre de um impudente plagiato de Sir M. Eden, The State of the Poor, London, 1797. (retornar ao texto)

(2*) Em inglês no texto: juiz de condado. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(3*) London, Daily Telegraph de 17 de Janeiro de 1860. (retornar ao texto)

(4*) Conselho Privado. Órgão especial junto do rei de Inglaterra composto por ministros e outros funcionários, bem como por dignitários eclesiásticos. Fundado no século XIII, possuiu durante muito tempo poderes legislativos, sendo responsável apenas perante o rei. Nos séculos XVIII e XIX a sua importância decaiu. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(5*) Cf. Engels, Lage, etc. (retornar ao texto)

(6*) Em inglês no texto: «carrega moldes». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(7*) Children's Employment Commission, First Report, etc., 1863, Appendix, pp. 16, 19, 18. (retornar ao texto)

(8*) Public Health, 3rd Report, etc., pp. 103, 105.(9*) (retornar ao texto)

(9*) Na edição inglesa pp.102, 104, 105. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(10*) Em inglês no texto: cirurgião interno. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(11*) Children's Employm. Commission, 1863, pp. 24, 22 e XI. (retornar ao texto)

(12*) L. c, p. XLVII. (retornar ao texto)

(13*) L. c, p. LIV. (retornar ao texto)

(14*) Em inglês no texto: impressão manual por meio de pranchas. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(15*) Isto não é de tomar no nosso sentido de tempo de sobretrabalho. Estes senhores consideram o trabalho de 10 1/2 horas como dia de trabalho normal, que também inclui portanto o sobretrabalho normal. Depois começa «o tempo a mais» que é pago um pouco melhor. Numa próxima oportunidade ver-se-á que a utilização da força de trabalho durante o chamado dia normal é paga abaixo do valor, de tal modo que o «tempo a mais» é um mero truque dos capitalistas para extorquir mais «sobretrabalho» — coisa que, de resto, continuaria a ser mesmo se a força de trabalho empregue durante o «dia normal» fosse realmente paga por inteiro. (retornar ao texto)

(16*) Em latim no texto: plural majestático. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(17*) L. c, Appendix, pp. 123, 124, 125, 140 e LXIV(18*) (retornar ao texto)

(18*) Nas edições inglesa e francesa: LIV. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(19*) O alúmen, finamente moído ou misturado com sal, é um artigo normal de comércio, que tem o nome característico de «baker's stuff»(20*) (retornar ao texto)

(20*) Em inglês no texto: comerciante livre, livre-cambista. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(21*) Em inglês no texto: «para impedir a adulteração de artigos alimentares e bebidas». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(22*) Em inglês no texto: «material de padeiro». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(23*) Em inglês no texto: «ganhar um penny honesto». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(24*) A fuligem é, como se sabe, uma forma muito energética do carbono e constitui um adubo que os limpa-chaminés capitalistas vendem aos rendeiros ingleses. Ora, em 1862, o «juryman»(25*) britânico teve de decidir num processo se a fuligem, à qual sem o conhecimento do comprador haviam sido misturados 90% de pó e areia, seria fuligem «real» em sentido «comercial» ou fuligem «falsificada» em sentido «legal». Os «amis du commerce» decidiram que era fuligem comercial «real» e indeferiram a queixa do rendeiro que, ainda para mais, teve de pagar as custas do processo. (retornar ao texto)

(25*) Em inglês no texto: «jurado». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(26*) Em latim no texto: à vista. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(27*) O químico francês Chevallier, num tratado sobre as «sophistications»(28*) das mercadorias, enumera para muitos dos 600 e tantos artigos que ele passa em revista 10, 20, 30 métodos diversos de falsificação. Acrescenta que não conhece todos os métodos e não menciona todos os que conhece. Para o açúcar dá 6 espécies de falsificação, 9 para o azeite, 10 para a manteiga, 12 para o sal, 19 para o leite, 20 para o pão, 23 para a aguardente, 24 para a farinha, 28 para o chocolate, 30 para o vinho, 32 para o café, etc. Nem mesmo deus nosso senhor escapa a este destino. Ver Rouard de Card, De la falsification des substances sacramentelles, Paris, 1856. (retornar ao texto)

(28*) Em inglês no texto: «sofisticações», isto é, falsificações. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(29*) Report, etc, Relating to the Grievances Complained of by the Journeymen Bakers, etc, London, 1862, e Second Report, etc, London, 1863. (retornar ao texto)

(30*) Fahrenheit: 24° e 32° C. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(31*) L. c, First Report, etc, p. VI/VII(32*) (retornar ao texto)

(32*) Nas edições inglesa e francesa: p. VI. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(33*) L. c., p. LXXI. (retornar ao texto)

(34*) Geoge Read, The History of Baking, London, 1848, p. 16. (retornar ao texto)

(35*) Report (First), etc. Evidence. Afirmação do «full-priced baker» Cheesman, p. 108. (retornar ao texto)

(36*) George Read, 1. c No fim do século XVII e início do século XVIII, os factors (agentes) que se intrometiam em todos os ofícios possíveis eram ainda oficialmente denunciados como «public nuisances»(37*). Assim, p. ex., o Grand Jury[N83], na sessão trimestral dos juízes de paz no condado de Somerset, enviou um «presentment»(38*) à Câmara Baixa, onde se diz entre outras coisas: «que estes agentes de Blackwell Hall são um Dano Público e um Prejuízo para o Negócio de Roupas, e deveriam ser reprimidos como um Dano». (The Case of our English Wool, etc, London, 1685. pp. 6, 7.)(retornar ao texto)

(37*) Em inglês no texto: «danos públicos» (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(38*) Em inglês no texto: «memória». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(39*) First Report, etc, p. VIII. (retornar ao texto)

(40*) Report of Committee on the Baking Frade in Ireland for 1861. (retornar ao texto)

(41*) L. c. (retornar ao texto)

(42*) Reunião pública dos operários agrícolas em Lasswade, perto de Glasgow(43*), de 5 de Jan. de 1866. (Ver Workman's Advocate de 13 de Jan. de 1866.) A formação de uma trades' union entre os operários agrícolas, desde os finais de 1865, primeiramente na Escócia, é um acontecimento histórico. Num dos distritos agrícolas mais reprimidos de Inglaterra, em Buckinghamshire, os jornaleiros fizeram uma grande greve, em Março de 1867, pelo aumento do salário semanal de 9-10 sh. para 12 sh. — (Por aqui se vê que o movimento do proletariado rural inglês, completamente desfeito desde a repressão das suas violentas manifestações depois de 1830 e nomeadamente desde a introdução da nova lei dos pobres, recomeça nos anos sessenta, até finalmente fazer época em 1872. Voltarei a isto no vol. II, assim como aos livros azuis surgidos a partir de 1867 acerca da situação do operário rural inglês. Suplemento à 3.a ed.) (retornar ao texto)

(43*) Na edição inglesa: Edinburg. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(44*) Em inglês no texto: «respeitável Jurado Britânico». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(45*) Reynolds' [News]paper, [21 de] Jan. de 1866. Semana após semana o mesmo semanário traz, logo em seguida, sob os «sensational headings»: «Fearful and fatal accidents», «Appalling tragedies»(46*), etc, toda uma lista de novas catástrofes ferroviárias. A isso responde um operário da linha de North Stafford: «Todos conhecem as consequências que podem advir se o maquinista e o fogueiro de uma locomotiva não estiverem continuamente atentos. E como pode esperar-se isso de um homem que esteve a trabalhar assim durante 29 ou 30 horas exposto ao tempo e sem descanso? O que se segue é um exemplo que ocorre muito frequentemente: — Na segunda-feira de manhã, um fogueiro começou a trabalhar muito cedo. Quando terminou aquilo a que se chama um dia de trabalho tinha estado de serviço 14 horas e 50 minutos. Ainda antes de ter tido tempo de tomar o seu chá, foi chamado de novo para o serviço [...] Da segunda vez que acabou tinha estado de serviço 14 horas e 25 minutos, fazendo um total de 29 horas e 15 minutos sem intervalo. O resto do seu trabalho semanal desenrolou-se como se segue: — Quarta-feira, 15 horas; quinta-feira, 15 horas e 35 minutos; sexta-feira, 14 1/2 horas; sábado, 14 horas e 10 minutos, o que faz um total semanal de 88 horas e 40 minutos. Agora, senhor, imagine o seu espanto ao lhe pagarem, por tudo isto, 6 dias e 1/4. Pensando que era um engano dirigiu-se à pessoa que registava os tempos de trabalho [...] e perguntou o que é que consideravam um dia de trabalho, e disseram-lhe: 13 horas [...] (i. e, 78 horas). [...] Ele pediu então o que tinha feito a mais e acima das 78 horas por semana, mas foi-lhe recusado. Todavia disseram por fim que lhe dariam mais um quarter, i. e, 10 d.» (nem chega a 10 Groschen de prata). (L. c, n.° 4 de Fevereiro de 1866.) (retornar ao texto)

(46*) Em inglês no texto: «títulos sensacionais»: «Acidentes temíveis e fatais», «Tragédias aterradoras». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(47*) Cf. F. Engels, 1. c, pp. 253, 254. (retornar ao texto)

(48*) Em inglês no texto: senhoras. (Nota da edição portuguêsa.) (retornar ao texto)

(49*) O Dr. Letheby, médico funcionando junto do Board of Health, explicou então: «O mínimo de ar para cada adulto deveria ser, num quarto de dormir, 300 pés cúbicos e, numa sala de estar, 500.» O Dr. Richardson, médico chefe de um hospital de Londres: «Para as costureiras de todas as espécies, incluindo modistas de chapéus de senhora, modistas e costureiras normais há três males — trabalho a mais, falta de ar e ou alimentação deficiente ou digestão deficiente. [...] Na generalidade, a costura [...] está infinitamente melhor adaptada às mulheres do que aos homens. Mas o infortúnio do negócio, especialmente na metrópole, reside em que ele é monopolizado por uns vinte e seis capitalistas que, por meio das vantagens que derivam do capital (that springfrom capital), podem trazer capital para extorquir economia do trabalho» (force economy out of labour: ele quer dizer, economizar despesas por esbanjamento de força de trabalho). «Este poder manifesta-se por toda a classe. Se uma modista consegue arranjar um pequeno círculo de clientes a concorrência é tal que em casa ela tem de se matar a trabalhar para os conservar e necessariamente ela tem que infligir esse mesmo trabalho a mais a quem quer que a ajuide. Se fracassa ou não se estabelece por conta própria tem de entrar para um estabelecimento, onde o seu trabalho não é menor, mas onde o seu dinheiro é seguro. Assim colocada, ela torna-se uma mera escrava, arremessada de um lado para o outro segundo as variações da sociedade. Ora em casa num quarto morrendo de fome ou quase, ora empregada 15, 16, até mesmo 18 em 24 horas, num ar dificilmente suportável e com uma alimentação que, mesmo quando boa, devido à ausência de ar puro, não pode ser digerida. A consumpção, que é puramente uma doença de maus ares, alimenta-se destas vítimas.» (Dr. Richardson, «Work and Overwork», in Social Science Review, 18 de Julho de 1863.) (retornar ao texto)

(50*) Em inglês no texto: comissão de inquéritos a casos de morte suspeita. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(51*) Morning Star, 23 de Junho de 1863. O Times usou o caso para a defesa dos detentores americanos de escravos contra Bright, etc. «Muitíssimos de nós», afirma, «pensamos que, enquanto estafarmos as nossas próprias raparigas até à morte empregando o flagelo da fome em vez do estalido do chicote [...], dificilmente teremos o direito de brandir espada e fogo contra famílias que nasceram donas de escravos e que, pelo menos, alimentam bem os seus escravos e fazem-nos trabalhar moderadamente.» (Times, 2 de Julho de 1863.) Da mesma maneira, o Standard, um jornal tory, repreendeu o Rev. Newman Hall: «Ele excomungou os donos de escravos, mas reza com a gente bem que [...] faz trabalhar os condutores de ómnibus e revisores de Londres, etc, 16 horas por dia por salários de cão.» Por fim falou o horáculo, o senhor Thomas Carlyle, acerca do qual já em 1850 deixei que se publicasse[N84]: «O génio foi para o diabo, mas o culto ficou.» Numa curta parábola, ele reduz o único acontecimento grandioso da história daquele tempo, a guerra civil americana, ao facto de o Pedro do Norte querer, com toda a violência, quebrar o crâneo ao Paulo do Sul, porque o Pedro do Norte «aluga» o seu operário «ao dia» e o Paulo do Sul o «aluga por toda a vida». (Macmillan's Magazine. «Ilias Americana in nuce»(53*). Número de Agosto de 1863.) Assim rebentou finalmente a bola de sabão da simpatia tory pelo assalariado da cidade — certamente não pelo do campo! O cerne chama-se: escravatura! (retornar ao texto)

(52*) Dr. Richardson, 1. c. (retornar ao texto)

(53*) Em latim no texto: «A Ilíada Americana em germe». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N81] Ecce iterum Crispinus (Eis Crispim de novo) — assim começa a IV sátira de Juvenal, que (na sua primeira parte) flagela Crispim, um dos cortesãos do imperador romano Domiciano. Em sentido figurado estas palavras significam: «de novo a mesma personagem» ou «de novo a mesma coisa». (retornar ao texto)

[N82] Eleatas — corrente idealista da filosofia grega antiga do final do século VI e século V a. n. e. Os seus mais destacados representantes eram Parménides e Zenão. Os eleatas afirmavam, entre outras coisas, que o movimento e a multiplicidade dos fenómenos não existem na realidade mas apenas na opinião. (retornar ao texto)

[N83] Grand Jury — na Inglaterra, até 1933, colégio de jurados composto por 12 a 23 pessoas, escolhidas pelo xerife de entre os «homens bons e leais» dos condados para examinar previamente os processos e decidir da entrega dos acusados ao tribunal criminal. (retornar ao texto)

[N84] Marx refere-se à recensão do livro de Thomas Carlyle Latter-Day Pamphlets publicada na Neue Rheinische Zeitung, 1850 (ver MEW, Bd. 7, S. 255-265). (retornar ao texto)

Inclusão 10/02/2012