Anti-Dühring

Friederich Engels


Parte I - Filosofia Moral e Direito
Capítulo IX - Verdades Eternas


Abstemo-nos de dar algumas amostras do guizado de tolices e sentenças oraculares, ou seja, do simples charlatanismo que o Sr. Dühring. serve a seus leitores em cinqüenta páginas como sendo a ciência radical dos elementos da consciência. Não citaremos senão esta: "Quem não é capaz de pensar, senão com a ajuda da linguagem, não tem a menor idéia do que significa pensamento original e verdadeiro". Segundo essa afirmativa, os animais são os pensadores mais originais e mais verdadeiros, pois o seu pensamento jamais é perturbado pela intromissão da linguagem. A dizer verdade, vê-se bem nos pensamentos dühringuianos e na linguagem que os exprime, quanto eles se adaptam mal a uma linguagem qualquer, e, por outro lado, como a linguagem, pelo menos a alemã, se ajusta com dificuldade a esses pensamentos.

Enfim, eis-nos chegados ao quarto capítulo que, no meio desse fluxo de frases ambíguas, apresenta, ao menos aqui e ali, alguma coisa de aproveitável sobre a Moral e o Direito. Desde o inicio, somos convidados a fazer uma viagem aos outros mundos: os elementos da moral "devem ser encontrados de igual maneira entre todos os seres não humanos, nos quais uma inteligência ativa se ocupa de pôr em ordem consciente as reações vitais instintivas... Entretanto, o interesse que tomamos por essas idéias será sempre ínfimo... Mas, por outro lado. será sempre uma concepção própria à ampliação benfazeja dos nossos horizontes, o representarmos a vida individual e social, em outros astros, como baseada, necessariamente, na contextura fundamental e geral de um esquema que... não pode ser suprimido nem cancelado por nenhum ser que atue de modo inteligente."
     Por que, excepcionalmente, é no começo e não no fim do capítulo que se afirma o valor das verdades de Dühring para todos os outros mundos possíveis?
     Há, para isso, uma razão suficiente. Uma vez estabelecido que as idéias de Dühring sobre moral e justiça valem para todos os mundos, será mais fácil"estendê-las logo beneficamente, como diria ele, a todos os tempos. Mas, ainda uma vez, não se trata aqui, nem mais nem menos, que de"verdades definitivas e sem apelação". O mundo moral"tanto quanto o da ciência geral, tem seus princípios permanentes e seus elementos simples"; os princípios morais estão colocados"por cima da história e das diferenças que hoje separam a estrutura dos povos... As verdades concretas de que se compõe, no curso da evolução, por síntese, a mais ampla consciência moral, e o que se pode chamar a"consciência do homem", podem, uma vez investigadas até as suas últimas raízes, pretender para si a mesma validez e o mesmo alcance que as concepções e aplicações das matemáticas. As autênticas verdades são sempre imutáveis, de maneira que é tolice representar a exatidão do conhecimento humano algo destrutível pelo tempo e pelas transformações reais.
     A segurança de um saber rigoroso e a validez dos conhecimentos mais comuns não nos permitem pois, duvidar, em momentos de reflexão, do valor absoluto dos princípios da ciência."Já, por si mesma, a dúvida permanente é um estado doentio de fraqueza e não faz senão manifestar um desolado confusionismo que às vezes procura dar-se a aparência de alguma solidez, na consciência sistemática de sua nulidade. Em matéria de moral, a negação dos princípios universais apega-se às diversidades geográficas e históricas dos costumes e dos princípios morais; e, confessando-se a necessidade inevitável do mau e do perverso em moral, acredita-se livre da obrigação de reconhecer a comprovada vigência e a ação eficaz de padrões morais coincidentes. Esse ceticismo dissolvente, que se exerce não contra tal ou qual falso ensinamento objetivo, mas contra a própria capacidade que tem o homem de obedecer a uma moralidade consciente, atinge mesmo alguma coisa pior que o puro niilismo... Ele tem a ilusão de, facilmente, poder governar o seu tumultuoso caos de noções morais desagregadas e de poder abrir as portas ao Capricho destituído de princípios. Mas seu erro é imenso, pois é suficiente que se recordem as aventuras inevitáveis da razão na verdade e no erro. para que se reconheça, revelada por essa analogia, que a falibilidade das leis naturais não exclui necessariamente a possibilidade de saber encontrar o caminho exato."
     Até aqui, alinhamos tranqüilamente todas essas pomposas declarações do Sr. Dühring sobre as verdades definitivas e sem apelação, a soberania do pensamento, a segurança absoluta do conhecimento, etc... porque, em suma, a questão só podia ser decidida no ponto a que agora chegamos. Até aqui, nos contentávamos em verificar em que medida as proposições concretas da filosofia da realidade tinham"validez soberana", e"títulos incondicionais de verdade". Ao chegarmos aqui, encontramo-nos ante a questão de saber até que ponto os produtos do conhecimento humano podem aspirar a uma validez absoluta e aos títulos incondicionais de verdade. E quando digo conhecimento humano, não é que tenha qualquer intenção de ofender aos habitantes dos outros astros, que não tenho a honra de conhecer; mas é que os animais também têm um conhecimento, embora não seja nunca soberano, o cão, por exemplo, terá o seu dono por um Deus, o que não impede que esse Senhor seja o maior canalha do mundo.
     O pensamento humano é soberano? Antes de responder sim ou não, é preciso primeiramente saber o que é, na realidade, o pensamento humano. É o pensamento de um só homem? Não. Ele não existe senão como pensamento concreto de muitos milhares de milhões de homens passados, presentes e futuros. Assim, pois, quando eu digo que esse pensamento de todos os homens, inclusive os vindouros, sintetizado no meu espírito, é soberano, capaz de conhecer, de modo absoluto, o mundo real, desde que a humanidade subsista o tempo necessário para isso e que não se produza, nem nos órgãos nem nos objetos do conhecimento, modificação capaz de limitar esse conhecimento, estarei dizendo uma coisa banal e, além disso, estéril. Porque o resultado mais precioso dessa idéia seria tornarmo-nos extremamente desconfiados quanto aos nossos conhecimentos atuais, posto que estamos, segundo toda a probabilidade, ainda quase no início da história da humanidade, tendo as gerações que nos corrigirão de ser seguramente muito mais numerosas que aquelas cujos conhecimentos - não poucas vezes um olímpico desprezo - somos capazes de corrigir.
     O próprio Sr. Dühring considera necessário que a consciência e, por conseguinte. o pensamento e o conhecimento, só se manifestam numa série de seres isolados. Só num sentido o pensamento de cada um desses seres isolados não pode ser considerado como soberano no sentido de que não conhecemos um poder capaz de impor-lhes, pela força, quando se acham em estado de saúde e de serenidade, um qualquer pensamento... Mas, no que se refere ao valor soberano dos conhecimentos de cada mente individual isolada, sabemos que não pode haver tal valor soberano e todas as nossas experiências passadas nos demonstram que. nesses conhecimentos, sem exceção, está contida uma Parte maior de dados retificáveis do que de dados não retificáveis.
     Em outros termos: a soberania do pensamento realiza-se através de uma série de seres humanos pensantes muito pouco soberanos; os conhecimentos que podem alegar títulos incondicionais de verdade se impõem depois de uma série de erros relativos; nenhuma soberania pode converter-se em plena realidade a não ser através da duração infinita da própria realidade.
     Encontramos, aqui, a mesma contradição, que já indicamos no trecho acima, entre o caráter, que necessariamente temos que nos apresentar como absoluto do pensamento humano e a realidade desse pensamento numa multidão de seres humanos, isolados, de pensamento limitado. Essa contradição não se pode resolver senão no decorrer de um processo infinito, na sucessão, - para nós, pelo menos, praticamente inacabável - das gerações humanas.
     Nesse sentido, podemos dizer que o pensamento humano é ao mesmo tempo soberano e não soberano e a sua capacidade cognoscitiva é ao mesmo tempo limitada e absoluta. Soberano e absoluto quanto à sua capacidade, sua vocação, suas possibilidades, sua meta histórica final: não soberano e limitado, quanto à sua aplicação concreta e a realidade de cada caso particular.
     O mesmo acontece com as verdades eternas. Se a humanidade chegasse. em algum tempo, a um tal grau de progresso que só atuasse com verdades eternas, com produtos do exercício do pensamento que pudessem reivindicar uma validez soberana e títulos incondicionais de verdade, teria alcançado o ponto em que se teria esgotado a infinidade do mundo intelectual, tanto em relação à realidade como em relação à possibilidade, efetuando-se assim o famoso milagre da contagem do inumerável.
     Mas será possível que existam verdades tão incontestáveis que toda a dúvida a seu respeito nos faça supor, necessariamente, um indício de imbecilidade? Quando dizemos que dois e dois são quatro, que os três ângulos de um triângulo eqüivalem a dois retos, que Paris está em França, que o homem. que não se alimenta, morre de fome, etc... não estamos afirmando verdades incontestáveis? Existem, porventura, verdades eternas, verdades definitivas e inapeláveis?
     É fora de dúvida que não. E, seguindo a conhecida tradição, poderemos dividir todo o campo do conhecimento em três grandes zonas. A primeira compreende todas as ciências que estudam a natureza inanimada e que, em menor ou maior grau, podem ser tratadas pelos métodos matemáticos: as matemáticas, a astronomia, a mecânica, a física, a química. Se há quem prefira aplicar palavras retumbantes a coisas tão simples, pode afirmar que alguns dos resultados destas ciências são verdades eternas, verdades definitivas e inapeláveis e esse é justamente o motivo pelo qual essas ciências são chamadas de exatas. Mas isso não significa que todos os seus resultados sejam exatos. Ao introduzir as grandezas variáveis e ao estender a sua variabilidade até o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, as puritanas matemáticas cometeram o pecado original, morderam a maçã do bem e do mal, que lhes abriu um caminho de grandes triunfos, mas também de grandes erros. A pureza das verdades absolutas, o valor incontestável das matemáticas havia, desse modo, terminado; iniciou-se a era das controvérsias e assim chegamos a uma situação em que a maioria das matemáticos se debate com as suas diferenciais e integrais, não porque saibam o que estão fazendo, mas por puro ato de fé, porque sempre viram fazer assim. Mas é ainda pior o que se dá com a astronomia e a mecânica, sem falarmos da física e da química: nelas, o cientista move-se dentro de um turbilhão de hipóteses que o assaltam, de todos os lados, como um enxame de abelhas. E é natural que assim seja. A física trata dos movimentos das moléculas; a química, da formação das moléculas, partindo de átomos e, se a interferência das ondas luminosas não é uma fábula, não há a menor esperança de que possamos algum dia chegar a ver esses tão interessantes objetos com os nossos próprios olhos. É assombroso verificar como vão desaparecendo com o tempo, nesse assunto, as verdades definitivas e inapeláveis.
     Incomparavelmente mais difícil é o terreno em que pisamos em geologia, ciência que estuda, por sua própria natureza, e em primeiro lugar, fenômenos que não só não assistimos, como também não foram assistidos por nenhum outro homem, em época alguma. Aqui, a procura de verdades definitivas inapeláveis é extraordinariamente penosa, e de rendimento escassíssimo, além do mais.
     A segunda categoria de ciências é a das que têm a seu cargo a investigação dos fenômenos que ocorrem nos organismos vivos. Neste campo de estudos, desenvolve-se uma série tão diversa de ações e de reações, de reciprocas causalidades, que cada problema resolvido coloca um sem-número de problemas novos, além de existirem não poucos problemas que se conseguem resolver apenas pouco a pouco, por meio de investigações que duram às vezes séculos inteiros. Além disso, a necessidade de formar-se uma noção sistemática das concatenações científicas obriga constantemente o cientista a envolver as verdades definitivas e imperecíveis com uma verdadeira floresta de hipóteses. Pense-se na imensa sucessão de fases intermediárias que foi preciso percorrer-se, desde Galeno até Malpighi, para tornar clara uma coisa tão simples como a circulação do sangue nos mamíferos; pense-se no pouco que sabemos do processo de produção dos glóbulos do sangue e na série de elos intermediários que nos faltam, ainda hoje, por exemplo, para poder relacionar racionalmente os sintomas de uma enfermidade com suas causas. De vez em quando, e com muita freqüência, aparece uma descoberta, como esta da célula, que nos obriga a submeter a uma total revisão as noções que considerávamos verdades definitivas e inapeláveis no campo da biologia e a deixar de lado, para sempre, inúmeras delas. Assim, quem se empenha a defender aqui, a todo transe, autênticas verdades imutáveis, está-se restringindo a formular vulgaridades no estilo das que damos a seguir: todos os homens são mortais, as fêmeas dos mamíferos têm, sem exceção, glândulas mamárias, etc. Nem sequer se poderá aventurar a afirmação de que os animais superiores digerem com o estômago e o intestino e não com a cabeça, pela simples razão de que a função nervosa, centralizada na cabeça, é indispensável para a digestão.
     Mas as verdades eternas saem perdendo ainda mais no terceiro grupo de ciências, as ciências históricas, aquelas que investigam, na sua sucessão histórica e nos seus resultados atuais, as condições de vida dos homens, as relações sociais, as formas do Direito e do Estado, com as suas superestruturas ideal, filosófica, religiosa, artística, etc. Pelo menos, na natureza biológica, nos aparecem muitos fenômenos que, quando necessitamos observá-los diretamente, podemos fazê-lo, por que eles se repetem, com certa regularidade, dentro de limites de tempo bastante dilatados. As espécies animais e vegetais continuam sendo, de modo geral, as mesmas do tempo de Aristóteles. O mesmo não acontece na história da sociedade, na qual as repetições de situações, desde que ultrapassamos a pré-história da humanidade, a chamada Idade da Pedra, são a exceção e não a regra. Mesmo quando ocorrem, as repetições não se dão nunca exatamente nas mesmas condições. A mesma coisa acontece com o regime primitivo da propriedade coletiva da terra, em todos os povos civilizados, e, do mesmo modo, com a forma de sua dissolução, que não se processa uniformemente em todos os povos. No campo da história da humanidade, a ciência se encontra, pois, muito mais atrasada que no campo da biologia. Ainda mais, quando conseguimos conhecer, uma vez ou outra, a íntima ligação que existe entre as modalidades de vida, sociais e políticas, de uma época, isso acontece, em regra geral, quando essas formas estão já semidecadentes e caminham para a morte. O conhecimento é, pois, essencialmente relativo, porquanto o seu objetivo é sempre o de penetrar no encadeamento e nas conseqüências de determinadas épocas e em determinados povos, além de serem, por sua própria natureza, transitórias e efêmeras. Desse modo, quem sair por esses domínios à caça de verdades definitivas e de última instância, de autênticas verdades verdadeiramente imutáveis, não conseguirá reunir grandes despojos, desde que não se contente com vulgaridades e lugares-comuns da pior espécie, como, por exemplo, o de que os homens não podem viver, em geral, sem trabalhar, o de que os homens, até a nossa época, têm estado divididos, quase sempre, em dominantes e dominados, ou então o fato de ter Napoleão morrido no dia 5 de maio de 1821, e assim por diante.
     Entretanto, é notável que seja este precisamente o campo em que, com maior freqüência, deparamos com pretensas verdades eternas, verdades definitivas e inapeláveis, etc. Considerar verdades eternas que dois e dois são quatro, que os pássaros têm bico, e outras coisas deste gênero, não mais pode ocorrer a quem abrigue a secreta intenção de estabelecer o princípio das verdades eternas de modo geral, para deste princípio extrair deduções sobre a existência, também no campo da história humana, de verdades eternas, como sejam, uma moral eterna, uma justiça eterna, etc.. com os mesmos títulos de legitimidade e o mesmo alcance que as verdades matemáticas e as aplicações dessas verdades. E podemos ter segurança de que, se for assim, esse mesmo filantropo aproveitará a primeira oportunidade para assegurar-nos que os fabricantes de verdades eternas que vieram antes dele não deixaram de ser, alguns mais, outros menos, umas bestas e uns charlatães, que todos andavam equivocados, que eram todos vítimas de erro, mas que os erros, que cometeram, a sua falibilidade é perfeitamente lógica, servindo para demonstrar a verdade e a exatidão que cercam o atual descobridor de verdades eternas, esse profeta recém-saido do forno, que traz, na mochila, pronta para ser posta em circulação, a verdade definitiva e inapelável, a moral eterna, a eterna justiça. Centenas e milhares de vezes tais coisas já se passaram, de tal modo que se tem que ficar assombrado, de que haja ainda homens que sejam bastante ingênuos para acreditar, já não digo nas plataformas dos outros, mas nas suas próprias. E, no entanto, temos que nos render à evidência, pois temos diante de nós um desses profetas que, como é de praxe, se enfurece e tem verdadeiros acessos de ira moral quando alguém se atreve a negar que seja ele capaz de apresentar-nos a verdade definitiva e inapelável. Sabemos já que a negação, ou, mais ainda, a simples dúvida a respeito das verdades eternas é um"estado de debilidade doentia", um "desesperado confusionismo", uma"nulidade", um"nada","ceticismo desagregador","ainda pior que o simples niilismo", um"caos de confusão", e não sei quantas outras delicadezas do mesmo gênero. Já se sabe que os profetas não precisam molestar-se em realizar investigações críticas e científicas, pois lhes basta fulminar-nos com seus raios morais.
     Poderíamos ter mencionado mais acima as ciências que investigam as leis do pensamento humano, ou seja, a lógica e a dialética. Mas também nesse terreno não é tão melhor colocada as verdades eternas. O Sr. Dühring deixa de lado a verdadeira dialética como um puro contra-senso e, como sabemos, todos os livros que se escreveram ou que continuam sendo preparados sobre lógica demonstram completamente que também neste campo não abundam, como muitos acreditam, as verdades eternas e inapeláveis.
     Além de tudo, não nos precisamos assustar pelo fato de que o grau de conhecimento que alcançamos na atualidade tenha tão pouca coisa de definitivo quanto o das épocas que nos precederam. O nosso conhecimento engloba já um material imenso de dados e exige uma grande especialização de estudos por Parte de quem pretende se familiarizar com um ramo ou uma disciplina qualquer de ciência. Mas quem se limita a medir com a estreiteza da verdade definitiva e sem apelação, da autêntica verdade imutável, conhecimentos que, ou estão destinados, como conhecimentos relativos por natureza, a serem estudados por muitas gerações e que, portanto, têm que ser completados pouco a pouco e gradualmente, ou aqueles outros que, como acontece com a cosmogonia, a geologia, ou a história humana, são também, e necessariamente têm que continuar a ser, por natureza, incompletos e parciais, pela insuficiência mesma do material histórico, quem, repetimos, se limita de tal forma, não faz mais que reafirmar com isso a sua própria ignorância e sua desorientação, embora não se proponha ele próprio, como no caso presente, a fazê-las ressaltar, arrogando-se, como defesa, títulos de infalibilidade pessoal. A verdade e o erro, como todos os conceitos que se movem dentro de antíteses polares, só têm aplicação absoluta dentro de uma zona muito limitada, como nós acabamos de ver e como o próprio Sr. Dühring saberia ver se tivesse uma noção dos primeiros rudimentos de dialética, que são justamente os que tratam da limitação de todas as antíteses polares. Tão logo, a antítese de verdade e erro se afasta daquela zona circunscrita em que se deve mover, ela se converte de absoluta em relativa e perde, assim, todo e qualquer valor, como meio estritamente científico de expressão; e se tentamos aplicá-la como valor absoluto, fora daquela órbita circunscrita, fracassamos definitivamente, pois os dois pólos da antítese se tocam no inverso do que são, a verdade em erro e o erro em verdade. Tomemos, como exemplo, a conhecida lei de Boyle, segundo a qual, permanecendo invariável a temperatura, varia o volume dos gases na razão inversa da pressão a que estão submetidos, Regnault descobriu que esta lei não era aplicável a certos casos. Se tivesse sido um"filósofo da realidade", deveria ter dito: a lei de Boyle é mutável; não é, portanto, uma autêntica verdade, ou seja, não é uma verdade, mas sim um erro. Mas com isso teria cometido um erro muito maior que o existente na citada lei; a rocha granítica de sua verdade teria desaparecido como se fosse um torrão de areia na imensidade de seu erro; teria convertido o seu resultado originariamente exato num erro tal que, comparada com ele, a lei de Boyle, apesar da poeira de erros a ela aderida, resplandeceria como uma grande verdade. Mas Regnault, como cientista que de fato era, não se deixou levar por semelhantes puerilidades, tendo continuado a pesquisar, até descobrir que a lei de Boyle era apenas aproximadamente certa e que deixava de sê-lo, sobretudo na presença de gases que, quando submetidos à pressão, se tornavam fluidos, ou, mais concretamente, a lei deixava de ser certa a partir do momento em que a pressão se aproximava do ponto de fluidez. A lei de Boyle só se mantinha exata dentro de certos limites. Mas, dentro destes limites, era absoluta, definitivamente verdadeira? Nenhum físico se atreverá a afirmar semelhante coisa. Responderá unicamente que esta lei é efetiva e exata dentro de certos limites de pressão e temperatura e para determinados gases; e mesmo dentro destes limites admitirá a possibilidade de que o seu campo de aplicação se restrinja mais ainda ou que a sua fórmula se modifique como resultado de posteriores investigações.(4)
     Vemos, pois, aqui, o caráter que assumem, na física, as verdades definitivas e inapeláveis. Por isso, todos os trabalhos realmente científicos se abstêm, cuidadosamente, de empregar termos tão dogmaticamente normativos como os de erro e verdade, que encontramos em grande quantidade em obras como A Filosofia da Realidade na qual pretende o autor nos impor, como sendo o fruto soberano do pensamento soberano, um mero encadeamento de frases sem sentido.
     Mas, perguntará o leitor ingênuo, onde concretamente o Sr. Dühring disse que o conteúdo de sua filosofia da realidade é a verdade definitiva e inapelável? Onde? Ele o disse, por exemplo, no ditirambo que entoa em homenagem ao seu próprio sistema, na página 12 desse livro do qual tomamos algumas frases do capítulo II desta obra; ou quando diz, no parágrafo que acima citamos, que as verdades morais, sempre que possam ser conhecidas até os seus últimos fundamentos, reclamam os mesmos títulos de efetividade que as verdades matemáticas. E acaso não afirma O Sr. Dühring ter chegado até esses fundamentos últimos, até os esquemas fundamentais do ponto de vista de sua "plataforma autenticamente crítica" e por intermédio de sua investigação, que atinge"as raízes das coisas", transmitindo com isso as verdades morais em caráter definitivo e sem apelação? Pois se o Sr. Dühring não pretende esses títulos nem para si nem para a sua época, se apenas quer dizer que um dia haverá, não se sabe quando, lá pelo nebuloso futuro, no qual se poderão descobrir verdades definitivas e inapeláveis, se, portanto, apenas quer dizer o que diz, vaga e confusamente, quando se refere ao"ceticismo desagregador" e "desesperado confusionismo", porque, então, todo esse barulho? Que deseja, afinal, esse Senhor?
     Se nada ganhamos com os conceitos de verdade e erro, menos ainda alcançamos com os do bem e do mal. Esta antítese move-se, pura e exclusivamente, dentro da órbita moral, isto é, num terreno que pertence à história humana, onde já sabemos que pouquíssimas verdades definitivas e inapeláveis podem fecundar. As idéias do bem e do mal variaram tanto de povo para povo, de geração para geração, que, não poucas vezes, chegam a se contradizer abertamente. Mas, - replicará alguém com segurança - o que é bem não é mal, o que é mal não é bem, e se se apaga qualquer distinção entre o bem e o mal, ter-se-á destruído a moral, e cada qual poderá fazer ou deixar de fazer o que bem entender. Com efeito, tal é, livre de todo disfarce oracular, a opinião do Sr. Dühring. Mas o problema não é tão fácil de resolver, pois que, assim sendo, não haveriam disputas sabre o que está bem e o que está mal e todo o mundo saberia se orientar sobre o que é bom e sobre o que é mau. Mas vejamos o que acontece em nossos dias. Que espécie de moral nos pregam hoje? Temos, em primeiro lugar, a moral cristã-feudal, que nos legaram os velhos tempos da fé e que se divide, fundamentalmente, numa moral católica e numa moral protestante, com toda uma série de variações e subdivisões que vão desde a moral católica dos jesuítas e a moral ortodoxa dos protestantes, até uma moral de certo modo liberal e tolerante. E, ao lado dessas, temos a moderna moral burguesa e, ao lado da moral burguesa moderna, a moral proletária do futuro. Portanto, somente nos países mais cultos da Europa, nos defrontamos com três grupos de teorias morais, correspondentes ao passado, ao presente e ao futuro, pretendendo esses três grupos dominar, concorrente e simultaneamente. Qual delas é a verdadeira? Em sentido absoluto e definitivo, nenhuma; mas, evidentemente, a que contém mais garantias de permanência é a moral que, no presente, representa a destruição do presente, o futuro, ou seja, a moral proletária.
     Assim, verificando que as três classes que constituem a sociedade moderna, que são a aristocracia feudal, a burguesia e o proletariado, possuem cada uma a sua moral particular, teremos, necessariamente, de concluir, que os homens, consciente ou inconscientemente, fazem derivar suas idéias morais, em última análise, das condições práticas em que se baseia a sua situação de classe, ou seja, das condições econômicas em que produzem e trocam os seus produtos.
     Existe, porventura, algum elemento comum às três teorias morais mencionadas, um só elemento que seja que possamos acatar como verdade perene e definitiva? Essas três teorias morais representam outras tantas etapas distintas de um mesmo processo histórico, e por isso têm um fundo histórico comum, o que faz com que forçosamente elas contenham toda uma série de elementos comuns. E não é só. Em fases idênticas ou aproximadamente equivalentes de desenvolvimento econômico, as teorias morais devem necessariamente coincidir, numa extensão maior ou menor. Ao surgir a propriedade privada sobre as coisas móveis, impôs-se, necessariamente, em todas as sociedades nas quais existe essa instituição, um preceito de moral, comum a todas elas:"Não roubarás". Transformou-se este preceito, por esse simples fato, numa norma eterna de moral? Não. Numa sociedade em que tivessem desaparecido os móveis do roubo, na qual, portanto, de um modo geral, somente poderia roubar uma pessoa anormal, o pregador de moral que subisse ao púlpito para proclamar solenemente a verdade eterna do"não roubarás", seria vitima de zombaria generalizada.
     Não estamos dispostos, pois, a deixar que nos imponham como lei eterna, definitiva e imutável, um qualquer dogma de moral, sob o pretexto de que também o mundo moral tem os seus princípios permanentes, que se colocam acima da história e das diferenças existentes entre os povos. Pelo contrário, afirmamos que, até hoje, todas as teorias morais foram, em última instância, produtos da situação econômica das sociedades em que foram formuladas. E, como até o dia de hoje a sociedade se desenvolveu sempre por antagonismos de classe, a moral foi também. sempre e forçosamente, uma moral de classe; nalguns casos, construída para justificar a hegemonia e os interesses da classe dominante, noutros, quando a classe oprimida se torna bastante poderosa para rebelar-se contra a classe opressora, a moral é construída para defender e legitimar a rebelião e os interesses do futuro em geral, e da classe oprimida, em particular. Que esta evolução se processa sempre, em largos traços, da mesma forma no campo da moral como no dos demais ramos do conhecimento humano e sempre num sentido de progresso, é o que nos parece indubitável. Mas, apesar de todos os progressos, não se encontrou ainda nenhum modo de fugir da moral de classe. Para se chegar à conquista de uma moral realmente humana, subtraída a todos os antagonismos de classes ou mesmo à sua recordação, teremos, antes, que alcançar um tipo de sociedade na qual não somente se tenha abolido o antagonismo das classes mas também tenha sido esse antagonismo, além de abolido. esquecido e afastado das práticas da vida. Considere-se, pois, quanto é grande a presunção do Sr. Dühring, que, vivendo no seio da velha sociedade de classes, nas vésperas de uma revolução social, tem a pretensão de impor à sociedade sem classes do futuro, uma moral eterna, subtraída às leis do tempo e às mudanças da realidade. Assim mesmo, supondo que conheça - o que até agora ainda não sabemos - ainda que seja apenas em seus traços fundamentais, a estrutura dessa sociedade do futuro. E, para terminar, lembramos uma sua descoberta"fundamentalmente original", mas nem por isso menos "radical": estudando as origens do mal, deparamos com"o fato de que o tipo de gato, que é encontrado nessa espécie animal com a falsidade que o caracteriza, pode ser comparado com a contextura de certos caracteres humanos, colocados, assim. no mesmo plano que esses bichos... O mal não é, pois, nada misterioso. a menos que se queira farejar alguma coisa de místico na existência do gato ou na dos felinos em geral." Concluímos, portanto, que o mal, segundo o Sr. Dühring, é... um gato. O diabo mudou os chifres e as patas por unhas e olhos verdes. Goethe cometeu um erro imperdoável quando, em seu"Fausto", apresentou Mefistófoles na forma de um cão negro, em vez de dar-lhe a figura de um gato. O gato, personificação do mal! Temos, aqui, uma moral aplicável não só a todos os mundos habitáveis, mas também a todos os gatos.

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Inclusão 30/10/2002