A Rada Ucraniana
(Discurso pronunciado a 14 de dezembro de 1917 na reunião do Comitê Executivo Central de Toda a Rússia)

J. V. Stálin

14 de Dezembro de 1917


Primeira Edição: "Izvéstia" ("As Notícias"), n.° 254, 17 de dezembro de 1917.
Fonte: J.V. Stálin – Obras – 4º vol., Editorial Vitória, 1954 – traduzida da edição italiana da Obras Completas de Stálin publicada pela Edizioni Rinascita, Roma, 1949.
Tradução: Editorial Vitória
Transcrição: Partido Comunista Revolucionário
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Fernando A. S. Araújo, setembro 2006.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

capa

Pode parecer estranho que o Conselho dos Comissários do Povo, que sempre se bateu vigorosamente pelo princípio da autodeterminação, tenha entrado em conflito com a Rada, que se baseia, também, no princípio da autodeterminação. Para compreender a origem desse conflito é necessário colocar a questão: qual é a fisionomia política da Rada?

A Rada se apóia no princípio da divisão do Poder entre a burguesia, de uma parte, e o proletariado e os camponeses, de outra. Os soviets, ao contrário, se opõem a essa divisão e conferem todo o Poder ao povo, excluindo a burguesia. Por isso a Rada, à palavra de ordem "todo o Poder aos soviets" (isto é, ao povo), contrapõe a sua palavra de ordem: "todo o Poder às administrações autônomas da cidade e do campo" (isto é, ao povo e à burguesia).

Diz-se que o conflito se originou na questão da autodeterminação. Isso não corresponde à verdade. A Rada se propõe constituir na Rússia um regime federativo. O Conselho dos Comissários do Povo vai mais além, defendendo o direito de separação. Segue-se daí não ser esta a questão que determinou o dissídio existente entre o Conselho dos Comissários do Povo e a Rada. De todo errônea, ainda, é a asserção da Rada, segundo a qual o ponto de divergência seria constituído pelo centralismo. Os organismos regionais criados conforme o modelo do Conselho dos Comissários do Povo (Sibéria, Bielorrússia, Turquestão), dirigiram-se ao Conselho dos Comissários do Povo pedindo diretivas. O Conselho dos Comissários do Povo respondeu: vós próprios representais o Poder nas localidades, vós próprios deveis elaborar as diretivas. Então, não foi neste ponto que deflagrou o dissídio. Na realidade, a divergência entre o Conselho dos Comissários do Povo e a Rada é devida às três razões seguintes.

Primeira questão: concentração das unidades ucranianas na frente meridional. Indubitavelmente são as tropas nacionais as que podem melhor defender o próprio território. Atualmente, porém, a nossa frente não está constituída com um critério nacional. A reorganização da frente segundo a divisão por nacionalidade, dadas as más condições dos transportes, provocaria o seu completo esfacelamento. A causa da paz seria, portanto, comprometida. Os soldados ucranianos mostraram-se mais prudentes e honestos que a Secretaria Geral, pois que a maior parte das unidades ucranianas se recusou a obedecer às ordens da Rada.

Segunda questão: desarmamento das tropas soviéticas na Ucrânia. A Rada Ucraniana, que defende os interesses dos latifundiários e da burguesia, com o desarmamento das tropas soviéticas vibra um golpe na revolução. A este respeito, o modo de agir da Rada substancialmente em nada difere do de Kornílov e de Kalédin. Não é preciso dizer que o Conselho dos Comissários do Povo lutará com todas as suas forças contra essa política contra-revolucionáría da Rada.

Enfim, terceira questão: recusa a deixar passar as tropas soviéticas enviadas contra Kalédin, em torno do qual se reagruparam todas as forças contra-revolucionárias da Rússia. O motivo alegado pela Rada é que ela mantém a "neutralidade" quanto ao "autodesignado" Kalédin. Mas assim procedendo, a Rada substitui a auto-determinação do povo trabalhador cossaco pela autocracia de Kalédin. Impedindo a passagem das tropas soviéticas, a Rada ajuda Kalédin a avançar para o norte. Ao mesmo tempo, com efeito, a Rada permite às unidades cossacas de Kalédin passarem livremente sobre o Don. No momento em que nossos camaradas são fuzilados em Rostov e na bacia do Donetz, a Rada impede-nos de lhes enviarmos ajuda. Não é necessário dizer que tal conduta de traição da Rada, não deve ser tolerada.

O Conselho dos Comissários do Povo não pode renunciar a combater contra Kalédin. O covil contra-revolucionário de Kalédin deve ser destruído. Isso é inevitável. Se a Rada opuser obstáculo à nossa ofensiva contra Kalédin, servindo-lhe de escudo com o próprio corpo, os golpes dirigidos contra Kalédin cairão sobre ela. O Conselho dos Comissários do Povo não se deterá diante de uma luta a fundo contra a Rada, porquanto não ignora que existe uma aliança secreta entre a Rada e Kalédin. O Conselho dos Comissários do Povo interceptou um telegrama cifrado, pelo qual se verifica que a Rada está em contato direto com a missão francesa, tendo por objetivo concluir a paz na primavera e que, através da missão francesa, mantém relações com Kalédin. Essa aliança é dirigida contra a paz e contra a revolução. Essa aliança deve ser destruída e o será.

Censuram-nos pelo fato de mantermos uma política enérgica contra a Rada. Mas justamente essa política enérgica abriu os olhos dos operários e camponeses ucranianos, pondo a nu o conteúdo burguês da Rada. O telegrama que anuncia a constituição, na Ucrânia, de um novo governo revolucionário[N4], o qual reconhece o Poder Soviético e age em oposição à Rada burguesa, constitui por si só uma prova disso. (Aplausos).

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Notas de fim de tomo:

[N4] No telegrama comunicava-se que o Comitê Executivo Central dos Soviets, eleito a 13 de dezembro pelo Congresso dos Soviets dos Deputados Operários e Soldados e por uma parte dos Soviets dos Deputados Camponeses de Toda a Ucrânia, havia assumido plenos poderes na Ucrânia (vide Izvéstia, n.° 252, 15 de dezembro de 1917). (retornar ao texto)

pcr
Inclusão 27/11/2007